Quão sustentável é sua roupa?

A moda é responsável por cerca de 10% das emissões de gases de efeito estufa provenientes da atividade humana, mas existem maneiras de reduzir o impacto do seu guarda-roupa no clima.

“Durante anos fiquei obcecado em comprar roupas”, diz Snezhina Piskova. “Eu comprava 10 pares de jeans muito baratos apenas por ter mais diversidade no meu guarda-roupa por um preço baixo, mesmo que eu acabasse usando apenas dois ou três deles.”

Quando se trata de resistir à atração da moda, Piskova enfrenta um desafio mais difícil do que a maioria. Como redatora de uma empresa da indústria da moda, ela está cercada por fashionistas. E tem sido fácil acompanhar a maré.

Mas as conversas sobre a crise climática levaram Piskova, que mora em Sofia, na Bulgária, a considerar o impacto que a indústria e seus próprios hábitos de compras estavam tendo.

A indústria da moda responde por cerca de 10% das emissões globais de carbono e quase 20% das águas residuais. E embora o impacto ambiental do voo seja agora bem conhecido, a moda consome mais energia do que a aviação e a navegação combinadas.

As roupas em geral têm cadeias de suprimentos complexas que dificultam a contabilização de todas as emissões resultantes da produção de calças ou casaco novo. Depois, há como a roupa é transportada e descartada quando o consumidor não quer mais.A indústria da moda é responsável por mais emissões de carbono do que as provenientes da aviação (Crédito: Getty Images / Alamy / Javier Hirschfeld)

Embora a maioria dos bens de consumo sofra problemas semelhantes, o que torna a indústria da moda particularmente problemática é o ritmo frenético de mudanças pelas quais ela não apenas passa, mas incentiva. A cada temporada que passa (ou microseason), os consumidores são levados a comprar os itens mais recentes para se manterem na moda.

É difícil visualizar todas as entradas que entram na produção de roupas, mas vamos usar o jeans como exemplo. A ONU estima que um único par de jeans requer um quilo de algodão. E como o algodão tende a ser cultivado em ambientes secos, a produção desse quilo requer cerca de 7.500 a 10.000 litros de água. São cerca de 10 anos em água potável para uma pessoa.

Existem maneiras de tornar o jeans menos intensivo em recursos, mas, em geral, jeans compostos de material o mais próximo possível do estado natural do algodão usam menos água e tratamentos perigosos para produzir. Isso significa menos branqueamento, menos jateamento de areia e menos pré-lavagem.

O material elástico elástico em muitos jeans da moda é feito com materiais sintéticos derivados do plástico, o que reduz a reciclagem e aumenta ainda mais o impacto ambiental.

Infelizmente, isso também significa que alguns dos tipos mais populares de jeans são os mais difíceis do planeta. Por exemplo, os corantes de tecido poluem os corpos d’água, com efeitos devastadores na vida aquática e na água potável. E o elástico elástico tecido através de muitos estilos modernos de jeans justos é feito com materiais sintéticos derivados do plástico, o que reduz a reciclagem e aumenta ainda mais o impacto ambiental.

A fabricante de jeans Levi Strauss estima que um par de seus icônicos jeans 501 produzirá o equivalente a 33,4 kg de dióxido de carbono equivalente durante toda a sua vida útil – quase o mesmo que dirigir 69 milhas em um carro médio nos EUA. Pouco mais de um terço dessas emissões são provenientes da produção de fibras e tecidos, enquanto outros 8% são de corte, costura e acabamento do jeans. Embalagens, transporte e varejo respondem por 16% das emissões, enquanto os 40% restantes são do uso do consumidor – principalmente da lavagem do jeans – e do descarte em aterros sanitários.

Outro estudo sobre jeans fabricados na Índia que continha 2% de elastano mostrou que a produção de fibras e tecido de denim liberava 7 kg a mais de carbono do que os da análise de Levi. Isso sugere que a escolha de produtos de brim em bruto terá menos impacto no clima.

Mas também é possível procurar outras maneiras de reduzir o impacto do seu jeans olhando a etiqueta. Programas de certificação como a Better Cotton Initiative e o Global Organic Textile Standard podem ajudar os consumidores a descobrir quão verde é seu jeans (embora esses programas não sejam perfeitos – muitos sofrem com a falta de financiamento e as complexas cadeias de fornecimento de algodão podem dificultar a conta de onde tudo vem).Cultivar o algodão necessário para um único par de jeans requer uma enorme quantidade de água, enquanto os processos de morrer e de fabricação usam ainda mais (Crédito: Getty Images / Javier Hirschfeld)

Alguns fabricantes também estão trabalhando em maneiras de reduzir o impacto ambiental da produção de seus jeans, enquanto outros desenvolvem maneiras de reciclar jeans ou até jeans que se decomporão dentro de alguns meses quando compostados.

Não é algodão, mas o poliéster de polímero sintético que é o tecido mais comum usado em roupas. Globalmente, “65% das roupas que vestimos são à base de polímeros”, diz Lynn Wilson, especialista em economia circular, que, para sua pesquisa de doutorado na Universidade de Glasgow, está focada no comportamento do consumidor relacionado ao descarte de roupas.

Cerca de 70 milhões de barris de petróleo por ano são usados ​​para fabricar fibras de poliéster em nossas roupas. De jaquetas impermeáveis ​​a lenços delicados, é extremamente difícil se livrar das coisas. Parte disso decorre da conveniência – o poliéster é fácil de limpar e durável. Também é leve e barato.

Mas uma camisa feita de poliéster tem o dobro da pegada de carbono em comparação com uma feita de algodão. Uma camisa de poliéster produz o equivalente a 5,5 kg de dióxido de carbono em comparação com 2,1 kg de uma camisa de algodão.

Cerca de 70 milhões de barris de petróleo por ano são usados ​​para fazer fibras de poliéster em nossas roupas
Mudar para tecido de poliéster reciclado pode ajudar a reduzir as emissões de carbono – o poliéster reciclado libera metade a um quarto das emissões de poliéster virgem. Mas não é uma solução a longo prazo, pois o poliéster leva centenas de anos para se decompor e pode levar à fuga de microfibras para o meio ambiente.

Mas os materiais naturais também não são necessariamente sustentáveis, se exigirem grandes quantidades de água, corante e transporte. O algodão orgânico pode ser melhor para os trabalhadores rurais que, de outra forma, seriam expostos a enormes níveis de pesticidas, mas a pressão sobre a água permanece.

No entanto, há muita inovação na criação de tecidos de menor impacto.

Biocouture, ou moda feita com materiais mais ambientalmente sustentáveis, é cada vez mais um grande negócio. Algumas empresas estão procurando usar resíduos de madeira, frutas e outros materiais naturais para criar seus têxteis. Outros estão tentando formas alternativas de tingir seus tecidos ou procurando materiais que se biodegradem mais facilmente quando jogados fora.Trocar roupas com os amigos pode refrescar seu guarda-roupa e trazer uma nova dimensão interessante à sua amizade (Crédito: Getty Images / Javier Hirschfeld)

Mas a pegada de carbono de nossas roupas também pode ser reduzida de outras maneiras. A forma como compramos tem um grande impacto.

Algumas pesquisas sugeriram que as compras on-line podem ter uma pegada de carbono menor do que viajar para lojas tradicionais para comprar produtos, principalmente se os consumidores moram longe. Mas o aumento das compras on-line também levou a mudanças no comportamento do consumidor, contribuindo para uma cultura de moda rápida, na qual os consumidores compram mais do que precisam, entregam à sua porta e depois devolvem uma grande proporção de suas compras depois de experimentá-las.

A devolução de itens pode efetivamente dobrar as emissões do transporte de suas mercadorias e, se você levar em conta coleções e entregas com falha, esse número poderá aumentar ainda mais.

Também pode ser mais barato para os varejistas da Internet e marcas de moda despejar ou queimar mercadorias devolvidas, em vez de tentar encontrar outra casa para elas. Isso não significa apenas que as emissões de gases de efeito estufa produzidas na fabricação de roupas são desperdiçadas, mas outras emissões são liberadas à medida que apodrece ou queima. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA estima que em 2017 10,2 milhões de toneladas de têxteis acabaram em aterros, enquanto outras 2,9 milhões de toneladas foram incineradas. No Reino Unido, cerca de 350.000 toneladas de roupas acabam em aterros sanitários a cada ano.

Piskova periodicamente troca de roupa com as amigas, o que não apenas permite que elas atualizem seus próprios guarda-roupas, mas também as ajuda a se sentirem mais próximas.
Uma maneira simples de reduzir a presença de compras on-line é encomendar apenas o que realmente queremos e pretendemos manter. Segundo o Banco Mundial, 40% das roupas compradas em alguns países nunca são usadas.

Piskova tentou se afastar da cultura da moda rápida aprendendo a apreciar o que ela já tem e não o que ela poderia ter. Mas desapegar-se de uma mentalidade obcecada por moda não tem sido fácil. Para ajudar, Piskova resiste a ir a lugares onde sente pressão para consumir, como shopping centers. Ela também troca roupas periodicamente com as amigas, o que não apenas permite que elas atualizem seus próprios guarda-roupas, mas também as ajuda a se sentirem mais próximas. E ela também aprendeu a abraçar pequenas manchas em suas roupas, em vez de vê-las como uma desculpa para comprar mais.

“As pessoas são muito cuidadosas com suas roupas, gostam de não arranhar ou ter buracos ou o que for”, diz Piskova. “Mas quando você pensa sobre isso, isso faz parte das roupas. Você se lembra daquela vez em que foi a um festival, onde rasgou sua camisa ou algo assim, e é uma boa lembrança. ”

O número de vezes que você veste uma peça de roupa também pode fazer uma grande diferença em sua pegada de carbono geral. Pesquisas feitas por cientistas do Instituto de Tecnologia Chalmers, em Gotemburgo, na Suécia, descobriram que uma camiseta de algodão comum pode liberar pouco mais de 2 kg de equivalente de dióxido de carbono na atmosfera, enquanto um vestido de poliéster liberaria o equivalente a quase 17 kg de dióxido de carbono.Às vezes, a melhor maneira de reduzir o impacto de suas escolhas de moda no meio ambiente é libertar-se do rebanho (Crédito: Getty Images / Javier Hirschfeld)

Eles estimaram, no entanto, que a camiseta média na Suécia é usada cerca de 22 vezes em um ano, enquanto o vestido médio é usado apenas 10 vezes. Isso significaria que a quantidade de carbono liberada por desgaste é muitas vezes maior para o vestido.

Segundo a Ellen MacArthur Foundation, o número médio de vezes que uma peça de roupa é usada diminuiu 36% entre 2000 e 2015. No mesmo período, a produção de roupas dobrou. Esses ganhos vieram à custa da qualidade e longevidade das peças de vestuário.

Várias pesquisas públicas também sugerem que muitos de nós têm roupas em nossos guarda-roupas que quase nunca usamos. De acordo com uma pesquisa, quase metade das roupas no guarda-roupa de uma pessoa média do Reino Unido nunca é usada, principalmente porque elas não se encaixam ou saem de moda. Outro descobriu que um quinto dos itens pertencentes a consumidores norte-americanos não foi usado.

É claro que investir em roupas de alta qualidade, vesti-las com mais frequência e segurá-las por mais tempo, é a arma não tão secreta para combater a pegada de carbono de suas roupas. No Reino Unido, continuar usando ativamente uma peça de vestuário por apenas nove meses a mais pode diminuir seus impactos ambientais em 20 a 30%.

Naturalmente, algumas empresas de roupas descobriram uma oportunidade aqui. Os serviços de aluguel de roupas, por exemplo, são especialmente atraentes na era das mídias sociais, onde algumas pessoas relutam em ser vistas online usando a mesma roupa mais de uma vez. Para quem quer ter uma boa aparência em suas fotos on-line, mas tem um impacto ainda menor no meio ambiente, existe a tendência efêmera da moda digital, ou roupas projetadas para aparecer apenas online, sobrepostas às suas imagens.

A camiseta média na Suécia é usada cerca de 22 vezes em um ano, enquanto o vestido médio é usado apenas 10 vezes
Comprar menos também significa cuidar mais da roupa. Sites como o Love Your Clothes, criado pela organização de caridade britânica WRAP, oferecem dicas sobre como reparar e prolongar a vida útil das roupas, o que pode reduzir a pegada de carbono das roupas.

Mas abordar as razões subjacentes pelas quais compramos roupas em excesso, ainda que subutilizadas, também pode ajudar. Em uma sociedade consumista, as pessoas são treinadas para achar a moda rápida agradável e viciante.

“Muitas das coisas que compramos cumprem algum tipo de função em nós mesmos – principalmente itens de moda”, diz Mike Kyrios, psicólogo clínico que pesquisa distúrbios mentais na Universidade Flinders da Austrália. As pessoas que têm baixa auto-estima ou se preocupam com seu status têm maior probabilidade de usar os gastos excessivos como uma rota para sentir que “pertencem”, ele explica. Assim como as pessoas sensíveis às recompensas – os centros de recompensa no cérebro são os mais ativados pelas compras por impulso.

Compras on-line também significam que o impulso de comprar é mais difícil de controlar, já que as lojas na Internet estão abertas 24 horas por dia, 7 dias por semana – incluindo, como diz Kyrios, os momentos em que “seus recursos de tomada de decisão são mínimos”.

Embora as estimativas variem, uma é que cerca de 5% da população exibe comportamento de compra compulsivo. “O problema é que está bem escondido”, diz Kyrios. “As pessoas não comparecem ao tratamento, não reconhecem que é um problema.”

Uma solução pode ser simplesmente racionar o tempo que você gasta olhando roupas on-line, mas talvez uma abordagem melhor seja encontrar maneiras menos dispendiosas de alcançar o senso de recompensa que os gastadores em excesso estão buscando. Os consumidores comuns podem se interessar por roupas novas comprando em lojas de roupas vintage e de segunda mão.Usar nossas roupas por apenas alguns meses a mais pode reduzir o impacto que elas causam no planeta (Crédito: Alamy / Javier Hirschfeld)

“Roupas de segunda mão estão dando uma segunda vida às roupas e estão desacelerando o ciclo da moda rápida”, diz Fee Gilfeather, especialista em moda sustentável da Oxfam. “Então, eu diria que a roupa de segunda mão é realmente uma das soluções para o desafio do consumo excessivo”.

Reduzir a lavagem também pode ajudar a reduzir ainda mais a pegada de carbono do seu guarda-roupa, além de ajudar a diminuir o uso de água e o número de microfibras eliminadas na máquina de lavar.

“Você não precisa lavar as roupas com a frequência que pensa”, diz Gilfeather. Ela pendura alguns de seus vestidos ao ar, por exemplo, em vez de lavá-los após cada uso. “Reduzir a quantidade de lavagem que você precisa fazer é a melhor maneira de garantir que os plásticos não entrem no sistema de água”.

Jogando as roupas fora para que elas acabem em aterros ou sendo incineradas, simplesmente leva a mais emissões
Como você descarta as roupas no final de sua vida útil também é importante. Jogá-los fora para que acabem em aterros sanitários ou sejam incinerados simplesmente leva a mais emissões. Talvez a melhor abordagem seja repassá-los a amigos ou levá-los a lojas de caridade, se ainda forem bons o suficiente para serem usados. No entanto, os indivíduos devem ter cuidado para não usar isso como uma maneira de liberar espaço simplesmente para comprar roupas novas, o que a pesquisa de Wilson sugere que seja comum.

Onde as roupas foram usadas ou danificadas sem reparo, a maneira mais ambientalmente correta de descartá-las é enviá-las para reciclagem. A reciclagem de roupas ainda é relativamente nova para muitos tecidos, mas cada vez mais roupas de algodão e poliéster podem agora ser transformadas em roupas novas ou outros itens. Agora, alguns dos principais fabricantes começaram a usar tecidos reciclados, mas muitas vezes é difícil para os consumidores encontrar lugares para tirar suas roupas velhas.

Muitas das mudanças necessárias para tornar as roupas mais sustentáveis ​​precisam ser implementadas pelos fabricantes e pelas grandes empresas que controlam a indústria da moda. Mas, como consumidores, as mudanças que todos nós fazemos em nosso comportamento não apenas aumentam, mas também podem gerar mudanças no setor.

De acordo com Gilfeather, todos podemos fazer a diferença sendo mais atenciosos como consumidores.

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Meio Ambiente: A poluição microplástica está em toda parte

A poluição por plásticos é uma preocupação global crescente. Grandes pedaços de plástico foram encontrados em quase toda parte da Terra, das praias mais visitadas às ilhas remotas e desabitadas. Como a vida selvagem é regularmente exposta à poluição por plásticos, geralmente perguntamos que efeitos os plásticos têm sobre os animais.

Com o tempo, os macroplásticos (detritos de plástico com mais de cinco milímetros de tamanho) se decompõem em pequenas partículas chamadas microplásticos (menores que cinco milímetros), que podem persistir no ambiente por centenas de anos.Ambiente,MicroPlásticos,Poluição,Oceanos,Alimentos,Blog do Mesquita 01

Sabe-se que os macroplásticos causam efeitos prejudiciais à vida selvagem. Animais individuais podem ingerir pedaços grandes ou enredar-se em itens de plástico, como equipamentos de pesca, e sufocar ou morrer de fome. Embora não haja dúvida de que os macroplásticos são prejudiciais à vida selvagem, os efeitos dos microplásticos não são tão diretos.Meio Ambiente,Plásticos,Oceanos,Poluição,Blog do Mesquita 05

Enquanto muitos estudos descobrem que os microplásticos podem afetar a expressão gênica, o crescimento, a reprodução ou a sobrevivência de um animal, outros concluem que os microplásticos não têm efeitos negativos. A falta de um consenso claro torna mais difícil para os tomadores de decisão adotarem políticas eficazes para mitigar a poluição por plásticos.

Nem todos os plásticos são iguais

Recentemente, aprofundamos a pesquisa que analisou como a poluição por plásticos afeta a vida selvagem aquática e terrestre.

Descobrimos que, embora os macroplásticos continuem causando efeitos prejudiciais a animais individuais, eles também estão causando mudanças em larga escala nas populações de animais, comunidades e ecossistemas. Por exemplo, a poluição plástica pode introduzir espécies invasoras em novos habitats transportando organismos a centenas de quilômetros de sua faixa nativa, alterando a composição das espécies em uma comunidade.Ambiente & Ecologia,Poluição,Vida Selvagem,Oceanos,Plástico

Os efeitos dos microplásticos, no entanto, são muito mais complicados. Dos estudos que incluímos em nossa revisão, quase metade (45%) constatou que os microplásticos causavam um efeito. Alguns estudos observaram que os microplásticos fizeram com que os animais tivessem vidas mais curtas, comessem menos ou nadassem mais devagar, e outros viram mudanças no número de filhotes produzidos e mudanças nos genes sendo expressos. No entanto, 55% dos estudos não detectaram efeitos.

Por que alguns estudos detectam efeitos enquanto outros não? Existem várias possibilidades. Por um lado, os pesquisadores usaram diferentes desenhos experimentais em seus experimentos de laboratório.

Há também a questão do uso do termo microplástico, que se refere a uma mistura complexa de plásticos que variam em material (como polietileno, poliestireno ou cloreto de polivinil), os produtos químicos associados a eles (incluindo aditivos, cargas e corantes), além de seu tamanho e forma. Cada uma dessas características, juntamente com a quantidade de plástico ao qual o animal é exposto no experimento, pode afetar seu potencial de detectar um efeito.

Microfibras e microesferas

Por exemplo, vimos que, quando os estudos expuseram crustáceos ao poliestireno, um tipo de plástico usado para fazer recipientes, tampas e talheres descartáveis, os crustáceos geralmente produziam mais descendentes. Mas quando foram expostos ao polietileno ou ao tereftalato de polietileno, usado para fazer sacolas plásticas e garrafas de bebidas, os crustáceos produziram menos filhos.

As microesferas são encontradas em produtos esfoliantes, como produtos de limpeza de rosto e creme dental. Vários países proibiram sua produção e venda. Crédito: Shutterstock

Vários países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, proibiram recentemente as microesferas de plástico – as esferas e fragmentos esféricos em lavagem de rosto, esfoliação corporal e pasta de dentes – porque estavam contaminando o meio ambiente e poderiam causar efeitos negativos em animais aquáticos. Embora essa legislação reduza um tipo de microplástico no meio ambiente, é irrelevante para muitos outros.

Também descobriu-se que estudos usando partículas menores têm maior probabilidade de detectar um efeito. Isso ocorre porque partículas menores são mais facilmente consumidas por pequenos organismos ou porque podem se mover através da membrana celular e causar efeitos nocivos, como inflamação.

No que diz respeito à forma do plástico, as microfibras (de roupas ou cordas) e os fragmentos tiveram maior probabilidade de afetar negativamente o organismo em comparação com as esferas (dos produtos de limpeza facial). Por exemplo, um estudo descobriu que as microfibras eram mais tóxicas para uma espécie de camarão marinho do que fragmentos ou esferas microplásticos.

Finalmente, pode-se esperar que os animais sejam mais prejudicados quando expostos a concentrações mais altas de microplásticos. Embora seja verdade que os crustáceos tenham mais probabilidade de morrer quando expostos a doses crescentes de microplásticos, o efeito na reprodução foi mais complexo. O número de filhotes aumentou com doses extremamente altas, mas diminuiu com doses mais baixas, semelhante ao observado no ambiente.Ecologia,Plásticos,Microplásticos,Meio Ambiente,Ambiente,Natureza,Poluição,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Blog do Mesquita,Brasil

Muitos tipos, muitos resultados

Com base em nossa análise, acreditamos que pesquisas futuras precisam reconhecer a complexidade dos microplásticos e os cientistas precisam projetar seus testes estrategicamente para que possamos realmente entender como os diferentes tipos, tamanhos, formas, doses e a duração da exposição aos microplásticos afetam a vida selvagem.

Somente se tivermos uma melhor compreensão de como os diferentes tipos, formas e concentrações de microplásticos afetam a vida selvagem podemos tomar melhores decisões políticas. Se, por exemplo, as microfibras são realmente mais nocivas que as esferas, poderíamos concentrar nossa atenção em impedir que essas fibras entrem em nossas vias navegáveis ​​por fontes conhecidas, como máquinas de lavar.

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Comunidade indígena vítima de aplicação de agrotóxico será indenizada

Macaque in the trees
Comunidade Indígena Tey Jusu (Foto: Arquivo)

A Justiça Federal condenou um proprietário rural, um piloto agrícola e uma empresa a pagarem, solidariamente, R$ 150 mil à Comunidade Indígena Tey Jusu, vítima de aplicação irregular de agrotóxico.
Segundo o Ministério Público Federal, a comunidade –localizada em Caarapó (MS), 270km ao sul da capital, Campo Grande— é a primeira do estado a ser indenizada por danos morais coletivos. Eles foram condenados com base no Inquérito Policial nº 0015/2016, instaurado para apuração do delito previsto na Lei nº 7.802/98: ação ilícita de aspersão de agrotóxicos em descumprimento às exigências estabelecidas na legislação. Não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a uma distância mínima de quinhentos metros de povoações.

O fato ocorreu em 2015. A aspersão causou, em crianças e adultos, dores de cabeça e garganta, diarreia e febre.

Os membros da comunidade relataram que o avião sobrevoou os barracos de sete famílias, derramando o agrotóxico diretamente sobre elas. Depois, sobrevoou outros barracos junto a uma plantação de milho.

Os indígenas produziram vídeos que mostram um avião agrícola em operação, utilizado na aplicação de fertilizantes e agrotóxicos, em que era possível ler o prefixo da aeronave. O piloto do avião foi identificado. O MPF constatou que foi aspergido sobre a comunidade o fungicida Nativo, classe III.

A Justiça concordou com o argumento do MPF, de que os barracos de lona dos indígenas estavam localizados a menos de 500 metros de distância do local onde ocorreu a aplicação de produtos agroquímicos.

Muitos estavam a apenas 30 ou 50 metros de distância da lavoura. Segundo o MPF, os responsáveis assumiram o risco ao executar a aplicação de agrotóxicos.

Os réus sustentaram que a culpa pela intoxicação seria das vítimas, ao argumento de que os indígenas teriam se afastado da aldeia localizada a mais de 500 metros da área de aplicação do produto para adentrar a lavoura exatamente no dia e hora da aspersão.

A Justiça considerou que os laudos apresentados pelo MPF comprovam a existência de barracos próximos à plantação e não o mero trânsito.

Por fim, a sentença afirma que a condenação por dano moral coletivo é “resultante de ofensa à coletividade indígena – lesão à honra e à dignidade -, consubstanciada na exposição, de parcela de seu grupo, à substância imprópria à saúde humana. A dignidade humana é por excelência o bem jurídico supremo. E, para sua proteção, impõe-se o dever jurídico de todos e do próprio Estado em respeitar a dignidade do próximo, seja o próximo um negro, um branco, um índio ou pertencente a qualquer outra raça ou etnia”.(Frederico Vasconcelos/FolhaPressSNG)

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Meio Ambiente: Degradação da Amazônia já chegou a ponto irrecuperável

Pesquisa conduzida por cientista brasileiro aponta que desmatamento e mudanças climáticas podem aumentar área atingida por queimadas, transformando floresta de sumidouro em fonte de carbono.    

Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019

Professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o engenheiro florestal brasileiro Paulo Brando costuma usar uma analogia simples do mundo financeiro para explicar a importância da preservação da Amazônia. Ele convida o interlocutor a imaginar uma conta poupança. “Bem grande, cujos juros geram bastante dinheiro. Mas em vez de dinheiro, nela há um estoque de carbono. Ou seja, os juros são a capacidade de absorção de mais carbono.” Quanto mais você tira o dinheiro, menos juros essa conta rende. No caso das queimadas na Amazônia, estamos tirando a capacidade de absorção do carbono. Então basicamente os incêndios florestais somos nós queimando dinheiro”, compara o cientista.

Nesta sexta-feira (10/01), o periódico científico Science Advances traz uma pesquisa conduzida por Brando, na qual ele modelou os cenários da floresta brasileira diante das queimadas e do aquecimento global. E o futuro não é nada animador. A Amazônia caminha para o colapso, diz o pesquisador.

“No pior dos cenários, 16% da floresta serão queimados daqui para a frente até 2050. Junto a outros fatores de degradação, isso vai interagir com o clima”, afirma ele, à DW Brasil. “Estamos jogando uma roleta russa ambiental. Não sabemos qual é o número [a data exata do colapso], mas estamos chegando cada vez mais perto. Se chegarmos, a coisa vai para o buraco. O fogo é catalisador do processo.”

A pesquisa mostra que os níveis de desmatamento e o cenário previsto para o aquecimento global irão contribuir para intensificar ainda mais as queimadas na Amazônia.

Em agosto do ano passado, a floresta brasileira teve uma quantidade de incêndios bem acima da média. No período, foram registrados 30.901 focos de incêndio – a média registrada entre 1998 e 2018 para o mesmo mês era de 25.853. Comparando somente com o mês de agosto do ano anterior (10.421 focos de incêndio), a alta foi de 196%.

“O resultado desse processo é que, com a intensificação do fogo, haverá mais emissão de carbono na atmosfera. O desmatamento interage com mudanças climáticas e pode aumentar ainda mais a área queimada e as emissões pelo fogo”, comenta Brando. Trata-se de um ciclo vicioso, diz.

“Nosso estudo prevê o impacto disso na floresta. A Amazônia se protege do fogo porque tem um sub-bosque úmido, que não deixa as folhas secarem. A proteção da floresta é este sub-bosque. Quando há uma seca, uma temperatura mais alta, as plantas podem ficar estressadas hidricamente e jogar folhas para reduzir esse estresse. Com isso, entra mais luz, seca o sub-bosque e acaba essa proteção.” Então, conforme explica o cientista, o fogo gerado nas zonas desmatadas, por ação humana, “escapam e invadem a área de floresta primária”.

Segundo Brando, o estágio desse processo já é tão grave que, mesmo se todo o processo de desmatamento fosse interrompido hoje, o índice de incêndios prováveis para as próximas décadas seria reduzido em apenas 50%. “Se compararmos a Amazônia que existia na primeira década dos anos 2000 e a que deve existir em 2050, a área queimada quase dobra”, afirma.

De acordo com a pesquisa, a degradação da Amazônia já chegou a um ponto irrecuperável. “Em nossas simulações, a floresta não consegue se recuperar totalmente mais, mesmo em uma condição sem nenhum fogo”, pontua. “Mesmo que haja, na natureza, uma tendência de recuperação, [no atual estágio] isso não é suficiente, porque as mudanças climáticas não permitem. Então tem mais carbono ficando na atmosfera.”

Ciclo vicioso

“Os cenários futuros de clima gerados por modelos climáticos, que têm incertezas, sugerem que, no futuro, devido ao aumento de temperatura de de concentração de dióxido de carbono, a floresta pode entrar em colapso, por não conseguir mais absorver mais carbono – e passar a emitir carbono”, comenta o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Segundo ele, isso significa a transformação de uma floresta sempre verde numa área florestal do tipo secundária ou mesmo na chamada savanização da Amazônia, ou seja, numa “vegetação tipo cerrado”.

“[Esse cenário] pode agravar a situação atual de aquecimento global”, completa o climatologista. “Podemos ter um clima mais seco, quente. E isso pode favorecer mais o risco de fogo e queimadas, que no final liberam ainda mais dióxido de carbono.”

De acordo com o climatologista Carlos Nobre, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), a floresta “não perturbada” tem absorvido nas últimas décadas uma quantidade que varia entre 1 bilhão e 2 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano.

“Globalmente, as atividades humanas emitem cerca de 40 bilhões de toneladas por ano”, afirma ele. “Portanto, a Amazônia retira da atmosfera entre 2,5% e 5% de todo o dióxido de carbono emitido. Se ela se tornar uma fonte de carbono, tanto pelo seu desmatamento, pelo aumento da destruição da floresta pelo fogo, quanto pelo próprio aumento da morte de árvores devido às mudanças climáticas, perde-se este importantíssimo serviço ecossistêmico para o planeta.”

Ação humana

Os incêndios ocorridos em 2019, concordam os especialistas, estiveram diretamente ligados à ação humana. “2019 não foi um ano anormalmente seco, como foi 2016, na Amazônia. Ainda assim, os desmatamentos e as queimadas induzidas diretamente por ações humanas aumentaram muito. O número de queimadas e a área queimada na Amazônia brasileira quase dobraram em 2019 em relação a 2018 e foram até bem maiores do que em 2016, ano de uma seca extrema”, diz Nobre.

“Isto é, o aumento de queimadas não pode ser atribuído somente a fatores de secas extremas. A ação humana em desmatar e colocar fogo para abrir novas áreas para a agropecuária contribuem muito para o aumento das queimadas”, acrescenta.

Segundo o climatologista, também o tradicional uso do fogo na agricultura tropical contribui para uma maior ocorrência de queimadas. “Muitas das áreas de florestas que pegam fogo são contíguas a áreas de agricultura. É o fogo para limpar a pastagem ou resíduos de culturas agrícolas escapam e propagam pelo chão da floresta. Podem propagar por centenas de metros no chão da floresta, queimando a biomassa da serrapilheira, mas também afetando árvores e aumentando a mortalidade de muitas árvores, que vão morrendo em anos subsequentes”, explica.

“As queimadas na Amazônia são maiormente geradas pelo homem, e com atmosfera e superfície secas o fogo se propaga rapidamente. O ano 2019 é sim uma mostra do que pode acontecer se aquecimento global aumenta e se desmatamento aumenta, mas não podemos dizer que a situação de 2019 vai se repetir em todos os anos seguintes”, acrescenta Marengo.

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Nordeste enfrenta seca intensa e 636 municípios estão em situação de emergência

A seca no Piauí. Foto: Governo do Piauí..

O óleo nas praias não é o único desafio enfrentado pelos estados do Nordeste atualmente. As secas, tão presentes historicamente na região, estão mais intensas, conforme mapeamento do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) publicado no início da semana. De acordo com o professor Humberto Barbosa, coordenador do Lapis, o atual quadro de baixa umidade registrado esse mês é mais grave em relação aos outros meses. “Em novembro, praticamente todo o semiárido está com umidade abaixo de 10%, percentual considerado muito baixo.

É normal para essa época do ano, naturalmente seca. Mas no Nordeste, as chuvas estão abaixo da média. As temperaturas também estão mais altas, 1 a 2 graus acima da média. Não temos nenhum sinal de la Niña ou de el Niño no Pacífico, então o Oceano Atlântico é quem está influenciando o clima. Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) está dominando para as chuvas estarem abaixo da média. O resultado é chuvas abaixo da média e altas temperaturas, em relação à média histórica”, analisa.

O mapeamento é realizado semanalmente pelo Laboratório e, de acordo com Barbosa, “é o melhor indicador agrometeorológico e a ferramenta mais prática é mais rápida para informar ao agricultor sobre a condição da umidade do solo propícia à produção”. A radiografia da seca foi feita com base na análise da umidade dos solos de cada município, obtidas a partir de imagens de satélites. A umidade dos solos é um índice de secas que fornece um panorama atualizado do avanço do fenômeno em cada área da região.

Os mapas, divulgados por estado, mostram que o Nordeste brasileiro enfrenta atualmente uma condição de seca intensa. Na Bahia, por exemplo, 377 municípios estão com percentual de umidade dos solos abaixo de 10%, considerado muito baixo. O número corresponde a 90% dos municípios do estado que enfrentam seca. Já no Piauí, 221 municípios, 98% das localidades do estado, estão com solos abaixo de 10% de umidade. Na Paraíba, 216 municípios (97%) estão nessa situação.

Mapa de seca na Bahia.

De acordo com dados dos municípios com reconhecimento federal de situação de emergência obtidos no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), 636 municípios estão nessa situação no Nordeste. O estado com maior número de municípios nessa situação é a Bahia, com 189. Esse reconhecimento permite que o governo federal transfira recursos para ações de resposta aos impactos da seca nos locais mais afetados. “Ainda há um despreparo dos municípios no monitoramento da seca, da redução da cobertura vegetal, da umidade dos solos e do nível das águas nos reservatórios. Falta planejamento e a grande maioria dos municípios não possuem plano de contingência para enfrentarem a seca. Todos os anos, dependem de medidas emergenciais. Trabalhamos isso no livro ‘Um século de secas”, quando fizemos um levantamento das lições deixadas por mais de 100 anos de políticas públicas na região”, informou o pesquisador.

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O mundo sob efeito das mudanças climáticas

Exposição coloca em evidência o mundo sob efeito das mudanças climáticas

Simulação do cenário do módulo [Des]ordem. Foto: Divulgação.

Jornalista experiente na área ambiental, Felipe Lobo cultiva, há pelo menos uma década, o desejo de comunicar melhor os efeitos das mudanças climáticas na vida comum das pessoas. A ideia se concretizou nesta quinta-feira (10), na Cidades das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde ficará até 10 de novembro a exposição O Dia Seguinte, fruto dessa ambição.“Sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas”, explica Lobo, em conversa com ((o))eco por telefone.

A exposição ocupa dois andares na Cidade das Artes e está dividido em seis módulos, com foco em como as mudanças climáticas atinge as cidades. Leia a entrevista com Felipe Lobo.

*

Como surgiu a ideia? O que é o Dia Seguinte? 

Dia Seguinte surgiu de uma inquietação minha e a da Tiza Lobo, que é a minha sócia, de como as mudanças climáticas e o tema ambiental e sustentável como um todo é tratado, seja na grande imprensa, seja nas universidades e na comunicação de uma forma geral para as pessoas. Eu pelo menos, que trabalho com isso há doze, treze anos, sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas.

Falar sobre mudanças climáticas, para mim, é muito mais falar sobre modelo de desenvolvimento. Falar sobre saúde, sobre segurança, sobre educação, cidadania, igualdade de gênero. Enfim, tudo o que importa para o nosso dia a dia.

Ao longo desses últimos tempos viemos pensando em como a gente poderia mostrar mais claramente como esse assunto é fundamental, urgente e que pertence a todos nós, independente da nossa classe social, de onde a gente vive, do que a gente faz e com o que a gente trabalha. As mudanças climáticas significam muito para as nossas vidas. Todos nós nos importamos em ter saúde, em ter segurança, paz, em ter tranquilidade, ter inclusão e tudo isso passa pelas mudanças climáticas.

Mas isso não é facilmente entendido pelo público

O jornalista Felipe Lobo. Foto: Arquivo Pessoal.

As pessoas acham que [as mudanças climáticas] vão acontecer daqui a muitos anos ou que são coisas que acontecem com os outros e não acontecem com elas ou que é um assunto que elas não precisam se preocupar agora. A gente quer mostrar que as mudanças climáticas, embora impactem em grande parte dos marginalizados de sempre, que são as mulheres, as pessoas mais pobres, a população negra, elas em algum momento podem atingir a todos. E mesmo que não atinjam, elas precisam ser tratadas com rigor porque elas já estão atingindo muitas pessoas e a gente precisa ter um pouco mais de empatia, um pouco mais de solidariedade com quem sofre com os efeitos. Decidimos que para tentar fazer isso de uma forma menos técnica, valia a pena fazer uma exposição sensorial, uma exposição imersiva, para que as pessoas consigam vivenciar de uma forma diferente o que são mudanças climáticas, o que elas significam para a gente e o que elas significam para as cidades.

E por que focar em cidades?

As cidades, embora ocupem apenas 2% da superfície terrestre, elas são lar de mais de 50% da população mundial — no Brasil, mais de 80%. Então, falar de cidades é muito importante porque elas são causa, consequências e também são a solução. São nas cidades que estão os governos locais, onde estão as academias, os recursos financeiros, as organizações da sociedade civil. São nos grandes centros urbanos que a gente começa a reverter este cenário também.

Me fala por que vocês escolheram inaugurar a exposição na Cidade das Artes e como está funcionando?

Primeiro que a gente queria fazer no Rio de Janeiro. Nós somos daqui e a gente sente que o Rio está muito carente de eventos culturais gratuitos. Decidimos pela Cidade das Artes, primeiro, porque é linda e estamos conseguindo fazer uma cenografia incorporada à arquitetura que está funcionando super bem. Em segundo lugar, porque ela fica na zona oeste da cidade. Quem é da zona sul acaba pensando apenas em Barra da Tijuca e a zona oeste tem Bangu, Santa Cruz, Tanque, Anil, Jacarepaguá etc. que são lugares que carecem muito de eventos culturais gratuitos. Então a gente quis ocupar o espaço da zona oeste com uma exposição como essa, super tecnológica, super imersiva para toda a família, cem por cento gratuito.

Há um braço do projeto que é educativo, temos ônibus para buscar e levar crianças de escolas municipais e estaduais para visitar a exposição.

Como ficou dividido a exposição?

Cartaz da Exposição.

Ficou dividida em cinco módulos. O primeiro deles se chama Bem-vindos ao dia seguinte e é composto por uma estrutura de andaime muito bonita com uma bola bem grande de materiais reciclados, muito plástico reciclado que ia ser descartado e a gente está usando com arte e depois a gente vai entregar para cooperativas de reciclagem. Embaixo dessa escultura vai ter um piso de LED que mostra uma água super límpida passando e depois começa a ficar super sujo com petróleo, com plástico, para as pessoas terem ideia do que se trata a exposição.

Logo em seguida tem um módulo que se chama [Des]Ordem, que é um módulo de choque. Que é uma estrutura com LEDs nas paredes e no teto e com sensações como vento, fumaça, enfim que a gente vai nesses LEDs a gente vai passar vários eventos climáticos extremos. Furacão, tempestade, inundação, seca, nevasca, para mostrar durante esses quatro minutos o que a gente vai viver no futuro. Hoje esses eventos são considerados extremos, mas no futuro podem ser frequentes se a gente começar a agir desde já. Então ali a gente quer chocar.

Logo depois tem outro módulo que se chama [Des]Humanidades, que é o módulo que a gente quer sensibilizar. Então a gente mostra o que as mudanças climáticas já causam hoje para o planeta e para as pessoas. A gente fala quem são os desabrigados, número de mortes, número de afetados etc. Tem um filme bem bonito que passa numa tela de 12 metros de comprimento e a gente tem do outro lado dessa tela seis depoimentos de brasileiros que sofreram com mudanças climáticas, seja com inundação, com seca, precisar migrar para outras cidades.

Logo depois a gente tem o módulo [Trans]Formação, que é o módulo em que a gente informa. Então, a gente chocou no Desordem, sensibilizou no Desumanidades, e no Transformação, a gente informa. É uma projeção mapeada com paredes bem grandes, globo solar, globo terrestre. Tem o piso também. Mostrando como as cidades foram construídas desde o Big Bang, passando pela Pangeia, época dos dinossauros e tal, até chegar na Revolução Industrial. E aí, a gente mostra como a partir da Revolução Industrial, a gente se transformou nessas mega e complexas metrópoles e como nós, seres humanos, passamos a ser responsáveis pelas mudanças do clima, a partir do momento em que a gente descobriu a queima de combustíveis fósseis etc. E no meio desse caminho, entre a [Trans]Formação e o [Des]Humanidades, tem um espaço com 8 telas touch, duas para cada módulo e uma tela de jogos, chamado espaço [In]Formativo. Nessas telas touch a gente faz várias iconografias, animações para explicar um pouco mais sobre mudanças climáticas: quais foram as reuniões mais importantes do clima? o que é poluição plástica? o que é água? o que é energia? o que saneamento? como o planeta está esquentando? quais são as projeções do clima para o futuro? e assim por diante.

Simulação do cenário do módulo [In]Formativo. Foto: Divulgação.

E por fim, tem um espaço que se chama [R]Evolução, que é o espaço onde a gente traz a esperança. Após tudo, a gente reforça que ainda está em tempo de mudar, embora o tempo seja muito curto, ainda tem tempo de mudar, a gente ainda pode transformar o planeta num lugar melhor, numa cidade inclusivas, mais sustentável. A gente mostra exemplos de cidades pelo mundo que já fazem o esforço de utilizar uma economia de baixo carbono e assim por diante. Então a gente termina a exposição com esse olhar de esperança e conectado à zona oeste. A ONU é um dos parceiros da exposição. A gente tem um painel mostrando como o clima pode ser diferente. Se a gente tiver as políticas públicas de base que consigam oferecer qualidade de vida para as pessoas e um caminho de transição para um mundo melhor.
Daniele Bragança

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Manchas de óleo atingem todos os estados do Nordeste

Em Sergipe, manchas misteriosas forçam governo a decretar estado de emergência, e ameaçam turismo e área de reprodução de tartarugas. Origem do óleo é desconhecida, mas não faltam teorias e boatos.    

Mancha de óleo numa praia da Orla de Atalaia, em Aracaju, SEMancha de óleo numa praia da Orla de Atalaia, em Aracaju, SE

Apesar do tempo ensolarado, muitos moradores de Aracaju abriram mão de passar o fim de semana na praia, pois nos últimos dias manchas de óleo poluíram as praias da Orla de Atalaia. Antes de chegar à capital sergipana, as manchas misteriosas haviam contaminado praias do Maranhão até Alagoas. E no fim de semana atingiram também praias da Bahia, afetando, assim, todos os nove estados da região Nordeste.

“Mais manchas pretas chegando à areia”, alertava o pescador amador Marcos, no domingo de manhã, os banhistas em Atalaia. Durante o sábado, equipes do Ibama e da cidade de Aracaju haviam limpado a praia dos aglomerados viscosos, mas com a marés vieram novas manchas.

“Tenho 52 anos e moro aqui há décadas, mas nunca vi um histórico desse. A gente já viu algumas bolhas de petróleo que vem das perfurações. Mas desta natureza, nunca tinha visto isso aqui”, explica Marcos, em referência às inúmeras plataformas marítimas de petróleo que marcam o horizonte de Aracaju.

Durante todo o domingo, cerca de 150 funcionários limparam as praias da Orla de Atalaia. “É um evento nacional, e a gente sabia que ia chegar à costa sergipana”, afirmou Paulo Amilcar, superintendente do Ibama em Sergipe e coordenador de operações locais, em entrevista à DW Brasil.

Desde o início de setembro, manchas de óleo apareceram em mais de 100 praias do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. De helicóptero, o Ibama monitorou as manchas e projetou sua trajetória rumo ao sul.

“Desde 24 de setembro, quando as primeiras manchas apareceram em Sergipe, o Ibama estava monitorando a situação no estado”, segundo Amilcar. “Mas na quinta-feira [03/10], o negócio saiu do controle completamente. Praias que estavam limpas ficaram sujas em todo o litoral. Agora, não tem previsibilidade. E se continuar como está, teremos que decretar situação de emergência no estado.”

Apenas poucas horas depois da entrevista de Amilcar à DW, o governo sergipano declarou o estado de emergência. Atualmente, Sergipe é considerado o estado mais afetado pelas misteriosas manchas de petróleo.

O óleo tem causado estragos no litoral sergipano. Na noite de quinta para sexta-feira, a maré poluiu a costa norte do estado, afetando em particular as praias da Reserva Biológica Santa Isabel, no município de Pirambu, cerca de 50 quilômetros ao norte de Aracaju. A região, que vive basicamente do turismo, amanheceu com as praias repletas de manchas de petróleo.

Em 30 anos, nunca houve nada parecido, segundo Adaílton, proprietário de um quiosque na praia de Pirambu, que estava coberta com pequenas manchas de óleo. A poluição misteriosa tem afugentado a clientela, reclama: “Não tem como não afetar. As pessoas pisam na areia, e depois esse negócio não sai do pé.” Nos últimos dias, o volume de negócios de seu quiosque caiu pela metade. “Os clientes me ligam para desfazer a reserva. E vão para outras praias. É prejuízo mesmo.” Ele não conseguirá sobreviver financeiramente muito tempo essa situação, comenta.

Com pás, funcionários trabalham na limpeza de pedaços de óleo na praia de Pirambu, no litoral do SergipeCom pás, funcionários trabalham na limpeza de pedaços de óleo na praia de Pirambu, no litoral norte do Sergipe

O pescador Sivaldo também tem motivos para reclamar: “As pessoas não comem o peixe assim. Se veem que tem óleo, não comem. Tem que soltar o bicho, se ainda estiver vivo”, disse. Normalmente, Sivaldo costuma pescar em mar aberto. Mas desde que o mar está repleto de manchas de óleo, tem puxado a rede de pesca pelas ondas na praia. Mas agora a rede de pesca também está suja de petróleo. “Nunca vi um negócio destes na minha vida.”

Em perigo estão também as tartarugas na Reserva Biológica Santa Isabel, em Pirambu. Com sede no local, o Projeto Tamar monitora mais de 50 quilômetros de litoral até a foz do Rio São Francisco. As manchas chegaram justamente no período reprodutivo das tartarugas-olivas, as menores entre as tartarugas marinhas no Brasil. No domingo, o Projeto Tamar comunicou que suspendeu a soltura dos filhotes em Pirambu.

Com a chegada das manchas mais para o sul do litoral nordestino, outras áreas reprodutivas das tartarugas são afetadas. No sábado, funcionários do Projeto Tamar em Mangue Seco – a primeira praia baiana na divisa com Sergipe – encontraram o primeiro espécime morto devido ao óleo.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a Aracaju nesta segunda-feira para acompanhar de perto a situação. No sábado, o presidente Jair Bolsonaro determinou que o Ministério da Justiça, por meio da Polícia Federal (PF) e o Ministério da Defesa, por meio da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, investiguem as manchas, junto com técnicos do Ministério do Meio Ambiente, ou seja, o Ibama e o ICMBio.

Bolsonaro sinalizou urgência: ele quer ver resultados em 48 horas. A repentina pressa do governo surpreende, pois durante todo um mês ele não fez nada. E, assim, a boataria está a todo vapor. A Petrobras informou ter analisado o óleo e descartado que provenha de suas operações. Mas, devido às inúmeras plataformas da empresa no litoral sergipano, a associação com as perfurações no alto-mar aparentam ser inevitáveis.

Há quem suspeite de uma ligação com o acidente na refinaria Abreu e Lima, localizada no município de Ipujuca, ao sul de Recife. No fim de agosto, um vazamento atingiu uma área de 4,5 hectares e causou a morte de animais e danos ambientais. Segundo a Petrobras, contudo, o óleo vazado não atingiu o mar. Além disso, o óleo que vazou da refinaria seria mais leve que o encontrado nas praias.

Adriano Pires, sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), também descartou uma conexão entre o vazamento em Abreu e Lima e as manchas nas praias. “Isso foi em agosto, há muito tempo”, disse o economista em entrevista à DW.

Segundo Pires, a substância apresenta propriedades típicas do petróleo venezuelano, mas ele diz não acreditar num acidente numa plataforma venezuelana, pois nesse caso as costas mais ao norte da América do Sul teriam sido poluídas.

No entanto o petróleo pode ter vazado de um navio petroleiro de passagem na movimentada rota entre o sul do Caribe e a Ásia, que corre ao longo da costa do Nordeste. “Um navio voltando de uma exportação venezuelana limpou o tanque na área e despejou a carga no oceano antes de carregar a próxima. Sendo assim, o navio estaria voltando para a Venezuela”, é uma das possíveis explicações, de acordo com Pires.

Na praia em Aracaju, o pescador amador Marcos afirmou acreditar numa explicação semelhante. “Não é petróleo novo. Isso provavelmente é de limpeza de navios. Pois o petróleo, quando novo, é oleoso. Ele não é um plástico, como este que está chegando aqui”, analisa, amassando um punhado da substância viscosa.

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Quatro bilhões de anos em sintropia

Transcrição livre por Patrícia Kalil de palestra realizada pelo cientista
Antonio Nobre
A crise que nós estamos vivendo tem raízes muito fortes em uma crise de valores. Nos últimos 35 anos, vi incontáveis seminários com ideias excelentes mas com resultados pífios. Continuou uma sangria desatada, pois as iniciativas não conquistaram o coração da coletividade. Essa falha histórica está destruindo o berço esplêndido do nosso país. Quem sente realmente amor pelo Brasil, quem realmente sabe o que significa a riqueza e o benefício que nós temos por ter nascido nesse pedaço do planeta que é tão extraordinário precisa parar, refletir e falar: “pera aí”. Por um viés positivo, o que está acontecendo agora está trazendo à tona todas as toxinas do nosso modelo de desenvolvimento, que estão se apresentando para que nós resolvamos. Quando você tem a circulação de elementos não muito bons no seu sangue, eventualmente nasce um furúnculo. É feio, cheira mal, dói. Mas é uma depuração. Quem somos nós? Quem somos nós, os cientistas? Quem somos nós, as ONGS? Quem somos nós, os produtores? Essa é a oportunidade que temos agora. 
Antonio Nobre, cientista climatologista e especialista em Amazônia.

Quero falar da casa maior, o que está acontecendo na Terra. Nós vivemos aqui e só aqui e sempre aqui. Não tem outro lugar para viver.  Nem para cima, nem para baixo. Temos essa casquinha que é absolutamente frágil na qual nós surgimos, evoluímos e vivemos.

O planeta Terra é um lugar muito especial. A vida está na superfície do planeta nos últimos 4-3 bilhões de anos, o homo sapiens apareceu aqui 300-200 mil anos atrás. No entanto, ainda hoje nós não temos a consciência do que significa estar no lar cósmico. É importante trazer isso para consciência.

A gente fala que a Terra é o planeta água. Nós temos água líquida na superfície por 4 bilhões de anos, o que é desconhecido em outros planetas.  E nós nem pensamos sobre isso, que temos oceanos, rios… Só que se você for estudar os outros planetas, você vai ver que a presença de água líquida é desconhecida. Por que aqui é possível? Esse equilíbrio instável que permite ter água líquida acontece por causa de um fenômeno que só tem na Terra: vida. O verde atrai a água, o verde controla o carbono, o verde regula o clima. O verde produz o oxigênio. Somos o único planeta que tem oxigênio livre. Nos últimos quatro bilhões de anos quem produz o oxigênio é o verde. Primeiro, as algas nos oceanos e de 500 milhões de anos para cá as plantas também. Se você olhar as folhas das plantas no microscópio, você vai encontrar uma estrutura cloroplastos, que é uma alga, as mesmas algas lá do oceano que se associaram com outras células e formaram as plantas. Então nas folhas temos uma miniatura do oceano suspensa que interage com a atmosfera e produz oxigênio. Esse oxigênio permitiu o surgimento dos continentes, o nosso surgimento e de todos animais que dependem dele para viver.

As águas doces de superfície são apenas 0,2% da água do planeta. Tudo que nós fazemos depende desses 0,2%. A gente tem o maior rio da Terra passando aqui na frente, outro ao lado, enorme, que é um tributário, e a gente tem essa sensação que a água doce é infinita na Amazônia, mas não é.

A Amazônia é sim um pulmão porque troca gases. A floresta e as plantas fazem o inverso do nosso pulmão: nós respiramos oxigênio e soltamos gás carbônico, as plantas respiram gás carbônico e soltam oxigênio. Dados da fotossíntese do mundo de 2000 a 2010 mostram que a Amazônia tem uma importância global em relação a todos os outros ecossistemas do planeta. Quando falamos que nossa soberania está ameaçada, ela não está ameaçada porque tem gente querendo vir aqui roubar a Amazônia, ela está ameaçada por causa de uma minoria que decidiu destruir o coração do mundo.

Quando observamos os dados dos últimos 100 mil anos da série climática, percebemos que a Terra teve períodos de glaciações até 11-10 mil anos atrás. Foi ali que começou o Holoceno, quando o homem passou a desenvolver a agricultura com a estabilidade do clima. Antes desse período, éramos basicamente coletores e caçadores. De 10 mil anos para cá, surgiram as grandes civilizações. Nos últimos 200 anos, a ciência está falando de uma nova era geológica chamada Antropoceno (antropo=humano, a era dos humanos). Os humanos se tornaram uma força comparável à geologia e vamos deixar registros. Nesse período de dois séculos, tudo está subindo em escala exponencial. A população explodiu para 7 bilhões e meio de pessoas. O planeta não dá mais conta. Junto, temos uma explosão exponencial na degradação ambiental, climática e de todos os outros indicadores. A gente precisa mudar de atitude radicalmente.  Foram 10 mil anos de estabilidade climática e nós estamos destruindo isso nas últimas décadas, de forma acelerada.  No clímax do nosso desenvolvimento, estamos acabando com a nossa casa. Acho que o Al Gore disse que a nossa geração é a primeira que está sofrendo o aquecimento global e a última que pode fazer alguma coisa sobre isso.

O corpo de cada um de nós está fazendo homeostase nesse momento. Se ficar frio, cada corpo vai disparar reações, começar a tremer para gerar calor e manter a temperatura em 37º graus. Se ficar quente, vai suar para resfriar. Com isso regulamos nossa temperatura. O planeta Terra tem o mesmo mecanismo. Se a gente pegar os dados de clima da temperatura da Terra em milhões de anos, vamos ver que existe esse mesmo controle de temperatura presente nos organismos. Acontece que o planeta está perdendo a capacidade de fazer a regulação climática. Eventos extremos, secas e enchentes são cada vez mais frequentes.

A agricultura depende umbilicalmente de um clima amigável. Vou dar um exemplo da importância da floresta para o agronegócio. Em estudo recém concluído que ainda vai ser divulgado, fizemos a análise de dois municípios produtores de grãos no Mato Grosso, uma  potência do agronegócio. Os municípios em questão foram Querência e Lucas do Rio Verde. Os dois estão quase na mesma latitude, 400 km de distância uma para outra, quase a mesma distância da Amazônia e estão na região de transição do Cerrado. Nos dados de 2011, vimos que Querência tem 7 meses de seca e Lucas do Rio Verde 5 meses de seca, o que possibilita a Lucas duas safras por ano. Por quê? A diferença entre uma localidade e outra é que o vale úmido de Lucas do Rio Verde tem a influência dos 150 km de floresta preservada da Reserva Indígena do Xingu, que umedecem as massas de ar e fazem os rios voadores chegarem em Lucas. A floresta em pé ali perto, em 2011, equivalia a uma diferença de 80 milhões de reais em 2011, ou seja, 400 mil toneladas da segunda safra de Lucas.

O que nós estamos fazendo? Estamos matando a galinha dos ovos de ouro. A destruição da floresta vai secar o Brasil e vai quebrar a agricultura brasileira. Se tiverem dúvida, vai no Google Earth ver o que aconteceu na Arábia Saudita. Lá, 11 mil anos atrás tinha floresta. A pecuária destruiu a floresta lá, assim como no Saara. Estamos fabricando um deserto dentro da América do Sul. Não temos dúvida, as imagens de satélite mundiais mostram isso.

Nos últimos 40 anos, cientistas estão falando sobre as mudanças climáticas e tem sido criminosamente ignorados. Isso por causa de mentiras pagas de trabalhos de mercenários. A mesma coisa está sendo feita em relação à agricultura. É tempo do agronegócio se despertar, porque mercenários vendem conveniências agradáveis de se escutar, mas que são conveniências mentirosas. Agora é momento de pensar também no seu negócio. A destruição de floresta é suicídio.  Nós vamos perder a galinha de ovos de ouro.

Todas as melhores pesquisas da Embrapa, das universidades, até mesmo de instituições privadas mostram que ninguém precisa derrubar mais nenhuma árvore para aumentar a produção agrícola. É possível intensificar, fazer diferente.

Não é a indústria da multa que é inimiga do agronegócio, é o desmatamento. De 1988 (quando tivemos um dos maiores desmatamento da série histórica) até 2004, quando o Código Florestal não era aplicado devidamente, tínhamos o desmatamento acoplado ao PIB, ou seja, aumentava a atividade econômica, aumentava o desmatamento. Em 2004, tivemos um desmatamento recorde e isso motivou a articulação envolvendo diversos Ministérios, INPE (ciência), Ministério Público e a polícia para controlar o desmatamento. Agora preste atenção: de 2004 a 2012 o PIB brasileiro explodiu e o desmatamento despencou.  Aplicaram a lei ambiental e mesmo assim o PIB cresceu, a imagem do Brasil foi lá para cima e isso foi uma grande vitória do setor agrícola porque conseguiu melhorar sua imagem aumentando sua produção.

Em 2012, houve uma pressão de um grupo minoritário que tem desproporcional pressão no congresso para mudar o Código Florestal. Foi uma mudança feita por questões ideológicas muito lamentáveis. Deram anistia para quem sabia que estava cometendo crimes ambientais. O resultado vem nesses anos todos. De lá para cá, o desmatamento vem crescendo e as multas do IBAMA diminuindo. Não é só no governo Bolsonaro, foram em vários outros governos, esquerda ou direita não importa. Existe uma outra agenda. Agora note: de 2012 a 2019, o PIB brasileiro despencou e o desmatamento explodiu, antes essas coisas cresciam ou caíam juntas. Isso mostra que já está desacoplado e que o principal vetor para controlar o desmatamento é a aplicação da lei. De 2012 para cá, paramos de aplicar a lei. Este ano chegamos ao apocalipse. Temos um julgamento que já está em curso e é fora dos tribunais. E qual é esse julgamento? O desmatamento acumulado está encontrando no clima um juiz que sabe contar árvores e não esquece nem perdoa.

Vamos sair desse ciclo vicioso?

Diferente do que escutamos, a natureza funciona em colaboração absoluta.  Começando no nosso próprio corpo, existe uma sistema de segurança que não tolera egoísmo. Quando uma célula do nosso corpo resolve ser egoísta e quer crescer sozinha temos um câncer. O que o sistema imune de uma pessoa saudável faz? Ataca. Os linfócitos vão lá e atacam a célula egoísta, a célula cancerígena que quer se multiplicar de forma doentia e dominar o ambiente. Se não fosse o contra-ataque do nosso sistema imune, todo mundo teria câncer pois nosso corpo está o tempo todo produzindo células cancerígenas.  Isso é verdade também para os ecossistemas. A maior parte do setor agrícola brasileiro percebe a importância de trabalhar no sentido das leis da natureza, da cooperação, da colaboração. Mas tem um pequeno setor que é um tumor, que está contrariando as leis da natureza, mudando as leis que estabelecemos com amplo debate na sociedade, que está impondo uma realidade, que está estimulando o crime e que está destruindo o conjunto todo. Vamos corrigir isso ou morrer de câncer? No contraponto, a colaboração é sinergia e sucesso. A colaboração amplia as capacidades. A cabeça de um grileiro de terra, por exemplo, pensa em pegar a floresta do outro e do outro. Câncer que funciona assim. O equilíbrio e a evolução são complexos. O que é dominante no sistema é a colaboração e a complexidade, a rede de segurança só é acionada em momentos extremos. A seleção natural é uma rede de segurança. Quando não funciona com a colaboração, quando perde o equilíbrio, aí tem uma rede de segurança.

PERTENCER me faz sensível à comunidade onde eu moro, à região toda. Pertencer é a mãe, antes de tudo vem a mãe. Pertencer envolve, hospeda, nutre, concebe e dá a luz. Se eu tenho negócios ou propriedades longe de onde eu moro, eu não desenvolvo uma relação de pertencimento àquela região.  O SER é ligado ao pertencer, o SER pertence, permeia, inventa, colabora, agradece e retribui.  Na cultura de povos tradicionais, de ribeirinhos, quilombolas e indígenas, o PERTENCER e o SER estão, como na natureza, intimamente ligados. Na cultura ocidental, o SER sofreu uma ruptura do PERTENCER e então a pessoa sonha “ser maior que as outras e dane-se o resto”. Pertencer-ser sempre são seguidos de EVOLUIR. É uma lei da natureza. Quando a planta pertence e é,  ela pode crescer. Tudo está em movimento. A natureza evolui em comunidade. Precisamos evoluir como coletividade. Agora é o momento de COMPREENDER, refletir sobre o que é pertencer, o que é ser, o que é evoluir. Podemos dialogar para cuidar melhor daquilo que a gente compreende. A gente só preserva aquilo que a gente compreende.

O povo INCA já tinha princípios muito parecidos com esse. Na floresta Amazônica viviam mais de 10 milhões pessoas antes do homem branco chegar. Mais de 10 milhões e não devastaram a floresta. Faziam agricultura, estradas, barragens. Agora, estamos querendo crescer pelo caminho errado. Se o ovo for quebrado por uma força externa, a vida acaba. Quando o ovo é forçado por uma força interna, é a vida que começa. Por isso é tão importante explicar as coisas. As grandes coisas sempre surgem de dentro, aceitar o próximo e colaborar.

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Os indígenas brasileiros premiados na ONU

Miniusina dentro de aldeia da Terra Indígena Wawi transforma a polpa do pequi em óleo; 2018 teve produção recorde e exportações para os Estados Unidos

Um dos líderes da Terra Indígena Wawi, em Mato Grosso, Winti Kisêdjê relata à BBC News Brasil uma conversa recente entre um fazendeiro e um cacique de seu povo.

Grande produtor de soja da região de Querência (MT), o fazendeiro ofereceu à comunidade cursos para que indígenas pudessem trabalhar como operadores de máquinas agrícolas em sua propriedade. “O cacique respondeu que o fazendeiro não precisava mais nos procurar, porque a gente já tem o nosso trabalho”, conta o indígena.

Winti se referia à produção de óleo de pequi, fruto típico do Cerrado com múltiplas aplicações culinárias, cosméticas e medicinais. O projeto dos kisêdjê foi agraciado neste ano com o Prêmio Equatorial, com que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) reconheceu 22 soluções de desenvolvimento sustentável promovidas por comunidades locais e indígenas. Membros do grupo viajarão a Nova York neste mês para receber o prêmio, durante a Assembleia Geral da ONU.

A atividade – uma das duas iniciativas brasileiras premiadas entre 847 candidaturas de 127 países – se soma a uma crescente lista de empreendimentos reconhecidos internacionalmente com que indígenas brasileiros têm conciliado geração de renda e preservação ambiental.

No caso do óleo de pequi, a coisa vai além, pois os frutos são colhidos em terras que estavam degradadas após terem sido ocupadas por pecuaristas no passado. Depois de retomarem o território, nos anos 1990, os kisêdjê espalharam pequizeiros pelas pastagens – que, aos poucos, vão recuperando sua feição original de floresta de transição entre o Cerrado e a Amazônia.

Winti KisêdjêDireito de imagem LUCAS LANDAU/REDE XINGU +
Winti Kisêdjê (à dir.) e Tawaiku Yudjá em encontro de povos da floresta xinguanos na Terra Indígena Menkragnoti, no sul do Pará

A lista de casos de sucesso inclui a produção de mel e de óleo de babaçu por indígenas da bacia do Xingu e a instalação de miniusinas para beneficiar produtos de ribeirinhos na região da Terra do Meio, no Pará. Entre os clientes dos grupos estão marcas como Pão de Açúcar, Mercur e Wickbold, além de chefs como Alex Atala e Bela Gil.

As iniciativas se destacam num momento em que o governo Jair Bolsonaro defende abrir terras indígenas para a mineração e a agropecuária, argumentando que as atividades ajudariam melhorar as condições de vida dos grupos. O presidente costuma dizer que o “índio não pode continuar sendo pobre em cima de terra rica” – afirmação duramente criticada por indígenas presentes no 4º encontro da Rede Xingu+, conferência de povos da floresta acompanhada pela BBC entre 21 e 23 de agosto (leia mais abaixo).

14 etnias unidas no Xingu

Grupos indígenas brasileiros mantêm graus variados de trocas econômicas com a sociedade envolvente. Há situações em que as trocas são mínimas – caso de alguns povos isolados na Amazônia – até grupos com relações comerciais antigas e consolidadas. Em vários pontos do Brasil, comunidades indígenas ajudam a abastecer mercados locais com frutas, peixes e legumes. Na região do Alto Rio Negro (AM), por exemplo, boa parte da farinha de mandioca à venda em cidades é fabricada por comunidades indígenas.

A novidade é o surgimento de iniciativas que buscam agregar mais valor aos produtos, focando, em muitos casos, públicos de grandes cidades do Brasil e do exterior – como o óleo de pequi dos kisêdjê.

A experiência do grupo com o item foi apresentada no encontro, ocorrido na Terra Indígena Menkragnoti, no Pará. A reunião agregou líderes de 14 etnias indígenas e de quatro reservas extrativistas da bacia do Xingu para debater o cenário político brasileiro e alternativas econômicas a atividades que destroem a floresta.

Ao anunciar os vencedores do Prêmio Equatorial, o Pnud disse que os kisêdjê transformaram “o status quo, recuperando suas terras tradicionais e desenvolvendo um modelo empresarial inovador que usa árvores de pequi nativo para restaurar paisagens, fomentar a segurança alimentar e desenvolver produtos para mercados locais e nacionais”.

A outra entidade brasileira premiada foi o Conselho Indígena de Roraima (CIR). Segundo o Pnud, o grupo “garantiu os direitos de 55 mil indígenas sobre 1,7 milhão de hectares de terras ao promover a resiliência ecológica e social por meio da conservação de variedades de espécies tradicionais”.

PequiDireito de imagem FÁBIO NASCIMENTO/ISA
Pequizeiros cultivados na Terra Indígena Wawi (MT) em área que havia sido degradada por pecuária no passado

Produção recorde

O pequi dos kisêdjê é colhido e processado em uma miniusina, instalada em 2011 na aldeia Ngôjhwêrê. O projeto foi desenvolvido com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA), do Instituto Bacuri e do Grupo Rezek.

Em 2018, a produção de óleo chegou a 315 litros – um recorde. Parte foi exportada para os EUA, e o resto foi comercializado em supermercados da rede Pão de Açúcar e no Mercado de Pinheiros, em São Paulo.

Ao apresentar o caso no encontro da Rede Xingu +, Winti Kisêdjê comparou a produção de óleo de pequi a práticas do agronegócio.

Em algumas terras indígenas brasileiras, comunidades têm arrendado áreas para o plantio de grãos em troca de um percentual da produção. A atividade é hoje proibida, embora o governo Jair Bolsonaro e congressistas da bancada ruralista tentem mudar a legislação para permiti-la.

Para Winti, porém, o agronegócio é incompatível com os modos de vida das comunidades. “Não podemos pensar só em economia, temos que pensar na sobrevivência de nossa cultura”, ele afirmou.

Winti lembrou que o plantio de grãos no Brasil envolve o uso intensivo de agrotóxicos, que podem contaminar rios e animais. Por isso, diz ele, indígenas que optem por aderir à atividade talvez tenham de abrir mão de práticas milenares como a caça e a pesca para não correr o risco de se contaminar.

encontro Xingu +
Image caption Conferência que reuniu 14 etnias indígenas e quatro comunidades ribeirinhas na Terra Indígena Menkragnoti (PA)

Mel de índios do Xingu

Não foi a primeira vez que indígenas brasileiros receberam reconhecimento internacional por algumas de suas atividades econômicas.

Em 2017, grupos do Território Indígena do Xingu (MT) ganharam o Prêmio Equatorial do Pnud por seu trabalho na autocertificação de mel orgânico. O projeto envolve cem apicultores de 39 aldeias dos povos kawaiwete, yudja, kisêdjê e ikpeng.

Em 2018, a FAO (agência da ONU para agricultura e segurança alimentar) deu uma menção honrosa no prêmio “Saberes e Sabores” às mulheres do povo Xikrin da aldeia Pot-Krô, da Terra Indígena Trincheira Bacajá (PA), pela produção de óleo de babaçu.

O óleo, tradicionalmente usado como cosmético nas aldeias, é hoje processado em uma miniusina e comercializado também fora do território.

Outros itens produzidos por indígenas que têm atraído a atenção de grandes marcas no Brasil e no exterior são a pimenta produzida pelo povo baniwa, no Amazonas, e os cogumelos do povo yanomami da região de Awaris, em Roraima. Os chefs Alex Atala e Bela Gil já usaram os produtos em receitas.

Rede de cantinas

Na Terra do Meio, região formada por reservas extrativistas e terras indígenas no médio Xingu, no Pará, comunidades locais encontraram uma solução para a falta de capital de giro, problema que inviabilizava atividades econômicas mais vultosas.

Os grupos formaram coletivos batizados de cantinas para processar e vender produtos da floresta extraídos sem desmatamento.

Hoje há 27 cantinas na região, que contam com oito miniusinas e produzem itens como farinha de babaçu, óleo de copaíba e castanha-do-pará. A clientela da rede conta com multinacionais como Mercur, Firmenich e Wickbold, além de prefeituras da região.

Entre 2009 e 2018, as cantinas comercializaram produtos no valor de R$ 3,75 milhões, dos quais R$ 2,08 milhões em 2018. O capital de giro dos coletivos é de cerca de R$ 500 mil.

Integrante da rede e moradora da Reserva Extrativista do Rio Iriri, a ribeirinha Liliane Ferreira, de 26 anos, criticou Bolsonaro por ele afirmar que povos amazônicos seriam pobres.

“Ele (Bolsonaro) diz que somos pobres porque não conhece a nossa realidade. A gente luta, temos dificuldades e pedras no caminho que temos de empurrar, mas temos nossos produtos da floresta. Não precisamos derrubar árvores para ter nosso sustento”, afirmou Ferreira.

aldeia
Image caption Casa dos homens da aldeia Kubenkokre, na Terra Indígena Menkragnoti, onde povos indígenas e ribeirinhos se reuniram para discutir política e alternativas a atividades destrutivas

Encurtamento de distâncias

Para Pablo Molloy, engenheiro agrônomo formado pela USP que assessora associações indígenas em seus negócios, os principais desafios enfrentados pelas comunidades para que iniciativas econômicas sustentáveis deslanchem são distâncias de três ordens.

A primeira é a distância geográfica entre vários dos territórios desses grupos e os locais onde os bens são comercializados, o que dificulta sua chegada aos mercados e encarece os produtos.

A segunda é a distância técnica – os cuidados necessários para que os produtos mantenham sua qualidade até os pontos de venda, fatores que exigem capacitação profissional e o uso de boas práticas do mercado.

A terceira é a distância de comunicação – a importância de saber contar a história desses produtos por meio de seus rótulos, tornando-os atraentes para consumidores que podem estar a milhares de quilômetros de seu local de origem.

Ele diz que os produtos premiados conseguiram encurtar essas três distâncias. Nesse processo, segundo ele, foi fundamental o fortalecimento das associações indígenas que encabeçam as iniciativas. “Elas têm CNPJ e são capazes de conversar com compradores nas grandes cidades ou no exterior”, afirma.

XinguDireito de imagem PLANET LABS
Imagem de satélite mostra avanço de fazendas de gado e soja nos limites de áreas protegidas da bacia do Xingu, em Mato Grosso

Soja x produtos da floresta

Molloy afirma que dificilmente uma atividade econômica de baixo impacto ambiental conduzida por indígenas ou ribeirinhos poderá competir, em termos de lucro, com atividades mais destrutivas que têm seduzido várias comunidades, como o garimpo, a extração de madeira ou o cultivo de grãos em larga escala.

“Pode ser que o óleo de pequi saia perdendo em relação a uma mala de dinheiro dada por um garimpeiro ou a um contrato de arrendamento de terras”, afirma Molloy. “Por outro lado, quando se colocam os dois negócios em perspectiva temporal, passamos a conversar sobre autonomia e liberdade.”

Segundo Molloy, uma comunidade indígena que passe a produzir soja “será um elo frágil em uma cadeia muito maior, onde sua palavra, sua autonomia e sua liberdade estão encurtadas”.

Já iniciativas sustentáveis que valorizem produtos locais permitiriam ao grupo “ser ator da construção daquele produto, definir seu preços, associar-se a ele para transformá-lo em dinheiro”.

Além disso, ele diz que atividades destrutivas podem se mostrar menos vantajosas ainda que resultem em lucros maiores, caso se considerem todos os seus impactos para a comunidade. Por exemplo, um grupo indígena que deixe de pescar e se banhar num rio contaminado por garimpo terá de gastar mais com comida adquirida na cidade e com outras formas de lazer. “Eles terão de gastar muito mais dinheiro do que gastariam caso suas tradições tivessem sido levadas em consideração”, afirma.

Mercados locais

Apesar dos avanços de várias comunidades em seus empreendimentos sustentáveis, Molloy diz que ainda há espaço para melhorias nesses casos – especialmente na comunicação com moradores de regiões vizinhas.

Um relato presenciado pela BBC no encontro da Rede Xingu+ ilustra esse ponto. Representantes do Território Indígena do Xingu disseram ter dificuldade para vender seu mel em mercados de municípios vizinhos, onde moradores teriam receio quanto à qualidade de produtos fabricados por indígenas – embora o item esteja nas prateleiras de uma das principais redes de supermercados do país, o Pão de Açúcar.

“Seria interessante que os mercados locais também pudessem ter contato com os produtos da floresta, o que passa pela desconstrução de preconceitos”, afirma.
BBC

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Agrotóxicos sem orientação põe agricultores brasileiros em risco

Como uso de agrotóxicos sem orientação e proteção põe agricultores brasileiros em risco.

Plantação de café em São João da Boa Vista

Direito de imagem REUTERS
Pesquisa revela risco de problemas respiratórios, hormonais e até câncer para agricultores familiares brasileiros

Pesquisas recentes sobre a saúde dos agricultores familiares brasileiros têm chamado a atenção para a prevalência de problemas respiratórios, hormonais, reprodutivos e de alguns tipos de câncer possivelmente associados à exposição aos agrotóxicos.
Apesar de o Brasil ser um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, os esforços para medir o impacto desses produtos na saúde dos trabalhadores rurais ainda são incipientes. Em comum, esses novos estudos evidenciam que a falta de orientação e assistência técnica a pequenos agricultores resulta na falta de cuidados adequados para evitar intoxicações.

A discussão sobre a segurança dos agrotóxicos está em alta desde que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou, no final de julho, a aprovação de um novo marco regulatório para agrotóxicos.

Para o pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP Rafael Junqueira Buralli, autor de um estudo sobre a condição respiratória de agricultores familiares expostos a agrotóxicos em uma pequena cidade do Rio de Janeiro, o despreparo é evidente: apenas 22,9% dos trabalhadores rurais avaliados no estudo afirmaram ter recebido treinamento ou apoio técnico para o manejo desses produtos.

Entre os parentes dos trabalhadores, que com frequência auxiliam nas atividades de cultivo e também se expõem aos agrotóxicos, nenhum passou por treinamento.

Impacto na saúde respiratória

A pesquisa de Buralli, publicada em 2018 pelo International Journal of Environmental Research and Public Health, avaliou 82 indivíduos da zona rural de São José de Ubá-RJ por meio de questionários, análise de amostras de sangue e espirometria, um exame que mede a capacidade pulmonar.

Os exames revelaram diminuições dos padrões respiratórios nos trabalhadores rurais em comparação a indivíduos não expostos a agrotóxicos. E quanto maior a exposição, medida pela presença de biomarcadores no sangue, pior foi a condição respiratória observada no participante.

Sintomas como tosse, alergia nasal e dificuldade para respirar foram mais prevalentes durante o período da safra do que na entressafra, o que sugere um efeito agudo durante o período de maior exposição, diz o pesquisador.

Segundo Buralli, 90% dos participantes também afirmaram sentir com frequência ao menos um sintoma agudo de exposição aos pesticidas, entre os quais os mais comuns foram irritações nas mucosas, dor de cabeça, taquicardia e palpitação, tontura, dor de estômago e câimbras. Além disso, 70% dos entrevistados relataram apresentar ao menos um sintoma crônico, como alterações no sono, irritabilidade e dificuldade de concentração e raciocínio.

Em busca de alterações genéticas

Para ilustrar o grau de desconhecimento da população rural de Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, o enfermeiro Gilberto Santos de Aguiar, do Programa do Saúde do Trabalhador da Coordenação de Vigilância em Saúde da cidade, conta que ele já viu moradores armazenando água para beber em frascos de agrotóxico.

Plantação de café em Minas GeraisDireito de imagem REUTERS
Enfermeiro diz que maior parte dos agricultores que entrevistou usam agrotóxicos sem prescrição agronômica

Aguiar faz parte de um projeto que busca investigar a associação dos agrotóxicos com doenças comuns entre os agricultores. A iniciativa surgiu a partir de um caso de câncer de pulmão em um trabalhador rural da cidade em que o médico identificou a exposição aos agrotóxicos como causa do tumor. “Evidenciamos que muitas vezes o adoecimento de um trabalhador rural não é um adoecimento natural, mas por exposição ao agrotóxico”, diz.

O grupo aplicou um questionário sobre uso de agrotóxicos e presença de sintomas em 41 propriedades rurais da região. O resultado foi encaminhado ao serviço de câncer ocupacional do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que se interessou pelo projeto e hoje conduz um projeto de investigação de alterações genéticas por exposição a agrotóxicos na região.

Para Aguiar, a desinformação é o principal fator de risco para os pequenos agricultores da região. “A maioria dos agricultores utiliza agrotóxicos sem prescrição agronômica. A compra é orientada pelo funcionário do balcão da loja que vende agrotóxico, ou às vezes é feita na porta da propriedade por um carro que leva o kit de veneno”, afirma. Ele diz que não há nenhuma assistência técnica para orientar sobre o modo de uso e nenhuma fiscalização.

Um levantamento do perfil epidemiológico dos trabalhadores rurais de Casimiro de Abreu, publicado pela Revista Brasileira de Enfermagem no início do ano, constatou que 51,8% da população entrevistada afirma nunca usar equipamentos de proteção individual recomendados durante o manejo de agrotóxicos, como botas, luvas e máscaras respiratórias.

Problemas endócrinos e reprodutivos

Em sua pesquisa, que avaliou o impacto dos agrotóxicos na função da tireoide em trabalhadores rurais da soja da cidade de Sertão, no Rio Grande do Sul, a farmacêutica Tanandra Bernieri também constatou esse tipo de descuido: nenhum dos 46 agricultores entrevistados afirmou utilizar equipamentos de proteção individual corretamente. Do total, 34,8% afirmou usar luvas apenas na hora de fazer a mistura dos agrotóxicos.

“Muitos não sabiam que o agrotóxico pode ser absorvido pela boca quando comem algo com as mãos sujas do produto”, conta Bernieri. “A fonte de informação deles são os vendedores ou pessoas da família e amigos.”

A biomédica Camila Piccoli, mestre pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, também pesquisou os efeitos dos agrotóxicos na tireoide de agricultores do Rio Grande do Sul, da cidade de Farroupilha. Ela e sua equipe constataram que a exposição aos agrotóxicos pode estar relacionada a um quadro de aumento do hormônio TSH e diminuição do hormônio T4, principalmente nos homens avaliados, resultando em sintomas análogos ao hipotireoidismo.

Ela também participou de um estudo, coordenado por seu colega Cleber Cremonese, que selecionou jovens de 18 a 23 anos da mesma região e, por meio do exame de espermograma, constatou a diminuição da mobilidade e morfologia do esperma dos jovens rurais em comparação aos jovens urbanos, além de alterações nos hormônios reprodutivos.

“Não se pode afirmar que as alterações estejam relacionadas somente ao uso de agrotóxicos”, afirma Piccoli. Mas os dados sugerem que os agrotóxicos podem estar relacionados ao fenômeno, principalmente por se tratar de uma população jovem, sem outros fatores de risco.

Novo marco regulatório

O novo marco regulatório anunciado pela Anvisa traz mudanças na classificação toxicológica dos agrotóxicos e inclui mudanças na rotulagem dos produtos. Segundo a agência, as alterações podem facilitar a identificação de perigos à vida e à saúde humana.

Ao mesmo tempo, alguns produtos podem ser reclassificados para um grau de toxicidade menor, já que o novo critério leva em conta apenas estudos de mortalidade, desconsiderando outros sintomas comuns que não levam à morte. Para alguns dos pesquisadores que atuam na área, ainda não está claro se a nova classificação impactará a segurança dos agricultores.

Homens lavando bananas após colheitaDireito de imagem DAVID BEBBER
Levantamento feito por professora da UFBA constatou que houve 1.309 mortes por intoxicação ocupacional provocada por agrotóxicos em trabalhadores rurais entre 2000 e 2009

Buralli observa que, como o nível de escolaridade dos agricultores é baixo, com muitos casos de analfabetismo, eles dificilmente leem o rótulo e as instruções da embalagem dos agrotóxicos. “Hoje a instrução parte mais dos técnicos nas lojas agropecuárias. Por isso, o ensino continuado providenciado pelas agências é muito mais importante do que o que está na bula”, afirma.

Para Vilma Santana, professora titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a mudança é preocupante, já que usa como critério somente a morte por intoxicação aguda, quando os casos mais comuns são os de intoxicação crônica.

“Se já temos uma situação de desproteção por conta do baixo nível de importância que se dá ao comportamento preventivo, do baixo nível de escolaridade do agricultor, e do uso indiscriminado de agrotóxico, se o nível de controle é reduzido, eu acredito que as consequências podem ser desastrosas.”

Santana é autora de um levantamento que constatou que houve 1.309 mortes por intoxicação ocupacional provocada por agrotóxicos em trabalhadores rurais entre 2000 e 2009, levando a uma mortalidade de 0,39 por 100 mil no ano de 2009.

“A mortalidade é pequena, mas no mundo desenvolvido, como na Inglaterra, um país que tem agricultura forte, nem se estima a mortalidade porque o número de casos de intoxicação aguda por agrotóxico é praticamente nulo”, afirma.

Para ela, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer quanto ao estímulo a práticas preventivas, medidas educativas da população rural e fiscalização para chegar ao nível de segurança de países mais desenvolvidos.