Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 004

Vergílio Ferreira – Reflexões

O Ser
entre o Interior e o Exterior

Era um tipo estranho. Digo bem «um tipo». Olho um homem, uma mulher, e nem sempre me é possível tentar sequer abordar-lhe a pessoa por dentro. Porque há indivíduos que irresistivelmente reduzimos a «objetos». São os indivíduos «característicos» com tiques, com uma aparência de traços nítidos. Compreendo a tentação da caricatura: a um olhar sem mistério, os homens são a caricatura do homem. Por isso o romance tem ignorado a outra zona. Ah, escrever um romance que se gerasse nesse ar rarefeito de nós próprios, no alarme da nossa própria pessoa, na zona incrível do sobressalto! Atingir não bem o que se é «por dentro», a «psicologia», o modo íntimo de se ser, mas a outra parte, a que está antes dessa, a pessoa viva, a pessoa absoluta. Um romance que ainda não há… Porque há só ainda romances de coisas – coisas vistas por fora ou coisas vistas por dentro. Um romance que se fixasse nessa iluminação viva de nós, nessa dimensão ofuscante do halo de nós…

Pitura de Bruno Varatojo “Forms of being”

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Lendo uma carta de Em Busca do Tempo Perdido de Albert Camus

Alguns escritores nos falam
pela janela de seu tempo

Precisamos voltar para onde eles pertenciam para realmente focar na forma de suas idéias – e alguns nos falam permanentemente, pulando, com fluidez de buraco de minhoca, de seus tempo para o nosso.

Os últimos são um grupo imprevisível, e sua presença não parece depender de uma certa qualidade de pensamento tanto quanto de uma espécie de lucidez de espírito. Temos que trabalhar duro, por exemplo, para entender os escritos filosóficos de Jean-Paul Sartre, com sua mistura estranha da teoria alemã e da política francesa contemporânea. Lê-los é um trabalho (gratificante).

Mas Albert Camus, o grande colega e rival de Sartre, ainda nos fala diretamente, embora seu tempo seja tão distante do nosso quanto o de Sartre. Camus não era um pensador amplo – ou mesmo, em certo sentido, um original -, mas ganhou a qualidade que as crianças costumavam descrever, admiradamente, como “profunda”. (Como em “Leonard Cohen é profundo.”) O que ele dizia sobre todo assunto era sempre simples e profundo, e geralmente correto. Nós o lemos como nosso contemporâneo, e ele raramente nos decepciona. Ele ainda é imensamente popular, como disse sua filha Catherine há pouco tempo, porque escreve não na tentativa de encontrar o enredo na história e entrar no lado direito, mas em nome das vítimas da história.

Esse pensamento é desencadeado pela descoberta, no ano passado, na França, de uma carta anteriormente desconhecida de Camus, encontrada nos arquivos de Charles de Gaulle pelo biógrafo e estudioso Vincent Duclert, que Camus havia enviado de Paris a Londres em algum momento em 1943. Não assinado, mas instantaneamente identificável pelo tom e pelo contexto, é intitulado “De um intelectual resistente” e foi extraído pelo jornal Le Figaro no mês passado; com o acordo de Catherine Camus, também aparece em um novo livro, de Duclert, sobre seu pai.

É uma carta estranha e muito francesa: um relato filosófico sonoro da crise da resistência francesa e seu futuro, percorrendo delicadamente vários campos minados de solidariedade entre resistências, e ainda uma carta que, embora intensamente enraizada em seu próprio tempo, ainda assim administra , com estranha presciência, para falar sobre algumas das nossas disputas.

Camus, um franco-argelino de nascimento, passou a guerra primeiro em Lyon, onde escreveu rascunhos de seu romance “The Stranger“, e depois em Paris, onde escreveu editoriais para o jornal de resistência underground Combat. (De fato, o tom e o estilo da carta são tão próximos dos editoriais que instantaneamente se destacam como os dele.) A forma da circunstância é bem conhecida.

A Resistência, num padrão complicado, foi ostensivamente liderada em Londres por um líder militar de direita, De Gaulle, mas lutou na França por uma coalizão de forças conservadoras, católicas, patrióticas e ferozmente anti-nazistas – junto com forças inquietas e hostis. assembléia suspeita de forças “liberais” republicanas, incluindo socialistas dos velhos tempos, apoiada por um forte componente de comunistas que, tendo ficado de fora do início da guerra, na época do pacto de Stalin-Hitler, entraram feroz e bravamente em resistência armada uma vez que a União Soviética foi invadida.

Na carta, Camus escreve primeiro a fundação da “elite” – a classe intelectual e administrativa e até militar que eram o orgulho da meritocracia francesa. Ele começa com uma nota de visão equilibrada que, difícil de manter na melhor das hipóteses, era heroicamente difícil de manter em um momento de estresse tão existencial. “Aqui, muito brevemente, resumi os sentimentos de um intelectual francês”, escreve ele, “diante da situação atual, como pode ser observado de dentro para fora. Em outras palavras, os primeiros sentimentos seriam de angústia. Minha profunda convicção é que a forma de guerra adotada pela região metropolitana da França e na qual estamos todos envolvidos pode levar ao renascimento desse povo ou à sua queda definitiva.”

As falhas dessa elite foram, ao que parecia, responsáveis pela “estranha derrota” da França, como colocou o historiador Marc Bloch. (Como Picasso comentou com Matisse, os generais franceses eram “os professores de Belas-Artes” – ou seja, parte do mesmo quadro administrativo cego.)

Como alguém pode pensar nessa elite agora, a carta pergunta, e como ela deve reconstituir depois que a guerra foi vencida – se foi vencida? Camus escreve que uma nação morre, porque sua elite derrete literalmente. Mas essa elite pode ser refeita não da classe tradicional de examinadores administrativos, mas de uma nova elite dos resistentes, cuja experiência está enraizada na “experiência real” e que mantêm sua realidade sobre eles.

Ele reclama que a resistência direta e armada dentro da França ainda não recebeu ação militar externa – superestimando, talvez, os recursos do Exército francês no exílio, mas impaciente pela “segunda frente” que há muito foi prometida, mas que foi entregue apenas em junho de 1944.

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 05

Karl Jaspers – Orientar filosoficamente a vida

O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica.

Rodney Smith,Arte,Fotografia,Blog do Mesquita
A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?

Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.

Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.

Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.

Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão.

Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.

São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.

Karl Jaspers, in ‘Iniciação Filosófica’
Fotografia de Fotografia de Rodney Smith

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Immanuel Kant – Reflexões

A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se.

A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame.