Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita 00 B

Carlos Drummond de Andrade – Poesia

Destruição
Carlos Drummond de Andrade

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

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Julio Cortázar – Literatura

Toco sua boca
Julio Cortázar

Toco sua boca, com um dedo toco a borda da sua boca, estou desenhando-a como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez sua boca estivesse entreaberta, e basta fechar meus olhos para desfazer tudo e reiniciar, faço a boca que desejo, boca que minha mão escolhe e desenha no seu rosto, uma boca escolhida entre todos, com liberdade soberana escolhida por mim para desenhá-la com a mão no seu rosto, e que por acaso que eu não procuro entender, coincide exatamente com sua boca que sorri abaixo da minha mão te desenha.

Você olha para mim, de perto, olha para mim, cada vez mais de perto e então tocamos ciclope, olhamos cada vez mais perto e nossos olhos se arregalam, eles se aproximam, se sobrepõem e o ciclope se olha, respirando confuso, bocas eles se encontram e lutam calorosamente, mordendo os lábios, mal descansando a língua nos dentes, brincando nos recintos onde o ar pesado entra e sai com um perfume antigo e silêncio.

Então minhas mãos procuram afundar em seus cabelos, acariciando lentamente a profundidade de seus cabelos enquanto nos beijamos como se tivéssemos uma boca cheia de flores ou peixes, de movimentos vivos, de fragrâncias escuras. E se mordermos a dor é doce, e se nos afogarmos em um breve e terrível suspiro simultaneamente, essa morte instantânea é linda. E só há uma saliva e apenas um gosto de fruta madura, e sinto que você treme contra mim como uma lua na água.

Fotografia-> feenuts.tumblr.com

Raimundo Sodré – Poesia

Boa noite.
A Massa
Raimundo Sodré

A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado, no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos, igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

Moinho de homens que nem jerimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa, a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

Quando eu lembro da massa da mandioca mãe (da massa)
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe (da massa)
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe (da massa)
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe (da massa)

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Pablo Neruda – Poesia

Boa noite.
Angela Adonica
Pablo Neruda

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo

Florbela Espanca – Não Ser

Não Ser
Florbela Espanca

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar braços para os alcançar?!…

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Nietzsche – Do alto dos montes

Do alto dos montes
Nietzsche

Oh! Meio dia da vida! Época solene!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta da ansiedade na espera:
espero meus amigos, noite e dia,
onde estais, amigos meus?
Vinde! É tempo, é tempo!

Nã0 é por vós que o gelo cinzento
hoje se adorna com rosas?
A vós procura o rio,
Suspensos nos céus ventos e nuvens se alevantam
para observar vossa chegada
competindo com o mais sublime vôo dos pássaros.

No meu santuário coloquei a mesa:
Quem vive mais próximo das estrelas
e das horríveis profundezas do abismo?
Que reino mais extenso que o meu?
E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma?

Aqui estais, finalmente, meus amigos!
Ai! não é a mim que procurais?
Hesitais, mostrais surpresa?
Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu?
Mudei de mão, de rosto, de andar?
O que eu era, amigos, acaso não mais sou?

Tornei-me, talvez, outro?
Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido?
Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo?
Que muitas vezes lutou contra a própria força,
ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo?

Porventura não procurei os mais ásperos ventos
e aprendi a viver onde ninguém habita,
nos desertos onde impera o urso polar?
Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações?
Tornei-me um fantasma das geleiras.

Oh! meus velhos amigos, vossos rostos
empalidecem de imediato,
transtornados de ternura e espanto!
Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui!
Não é para vós este pais de geleiras e rochas!
Aqui é preciso ser caçador e antílope!

Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
a tensão de sua corda!
Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo.
Mas não há nenhuma seta mortal como esta.
Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida!

Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste!
E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme!
Abre tuas portas a novos amigos,
renuncia aos antigos e às lembranças!
Fostes jovem? – Pois agora és mais e com mais brio.

Quem pode decifrar os signos apagados,
do laço que une com ua mesma esperança?
Signos que em outros tempos escreveu o amor,
que luzem como velho pergaminho queimado
que se teme tocar, como ele. Queimado e enegrecido!

Basta de amigos! Como chamá-los?
Fantasmas de amigos! Que de noite,
tentam ainda meu coração e minha janela
e me olham sussurrando:
Somos nós!
Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas!

Sonhos juvenis tão cheios de ilusão,
aos quais buscava no impulso de minhalma,
agora os vejo envelhecidos!
Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem.

Oh! Meio dia da vida! Oh! segunda juventude!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta na ansiedade da espera!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!

O hino antigo cessou de soar,
O doce grito do desejo expira em meus lábios.
Na hora fatídica apareceu um encantador,
o amigo do pleno meio-dia.
Não, não me pergunteis quem é;
ao meio-dia, o que era um,
dividiu-se em dois.

Celebremos, seguros de ua mesma vitória,
a festa das festas!
Zaratustra está alai, o amigo,
o hóspede dos hóspedes!
O mundo ri, o odioso véu cai,
E eis que a luz se casa Com a misteriosa,
subjugadora Noite.

(Tradução de Márcio Pugliesi)

Anna Akhmátova – Poesia

Poema
Anna Akhmátova

Os dedos desse assassino
são grossos como salsichões,
e as palavras caem de seus lábios
pesadas como chumbo.
Seus olhos de rato vibram,
e os caninos em sua boca
são reluzentes.
À sua volta, há um rebanho de líderes
de pescoço fino, homens pela metade que o bajulam
e com quem ele brinca como se fossem animais de estimação.

Tradução e adaptação de José Mesquita

Literatura,Poesia,Blog do Mesquita 01

Nuno Júdice – Poesia

Nunca são as coisas mais simples
Nuno Júdice

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Pintura de Anne Magill – Never Let Me Go

José Mesquita – O ofício da paixão

O Ofício da Paixão
Soneto LXXIV
José Mesquita

Prefiro este dia de gelo,
às manhãs soturnas que não se vão,
às tardes solares que não chegam,
s este tempo de nada.

A paixão é necessária que doa
para que não estejam sós, eu (que
sou feito de sereno e húmus),
e as embarcações sem cais.

Em um tempo denso,
na ossatura das chuvas, esta
substância aliviada da alegria,

atravesso a solidão das palavras
suportando murmúrios e ecos
de paisagens extensas.

Louise Glück – A Íris Selvagem

Boa noite
A Íris Selvagem
Louise Glück

No final do meu sofrimento
tinha uma porta.

Me escuta: aquilo a que você chama morte
eu me lembro.

Acima, barulhos, ramos do pinheiro balançando.
Depois nada. O sol fraco
tremeluzia sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência
enterrada no solo escuro.

Depois acabou: aquilo que você teme, sendo
uma alma ou incapaz
de falar, terminando abruptamente, a terra tesa
se curvando um pouco. E o que imaginei serem
pássaros se lançando nos arbustos.

Você que não se lembra
da passagem do outro mundo
eu te digo que falaria de novo: o que quer que
retorne do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro da minha vida brotou
uma grande fonte, sombras
azul-profundas em água do mar azul-celeste.

Tradução de Thiago Ponce de Moraes

Pintura de Lucien Levy-Dhurme (1865-1953, French)