Trish Keenan – Poesia

Valerie
Trish Keenan

Caio no sono antes de fechar os olhos:
dentro da máscara, outro disfarce.
O cansaço faz desenhos na minha cabeça.
O sol na janela anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

O sol no meu rosto não vai expulsar
o silêncio gelado de quando anoitece.
Me afogo no branco do seu quarto.
O céu atrás da cortina anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.

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Alceu Valença – Solidão – Poesia

Solidão
Alceu Valença

A solidão é fera a solidão devora
É amiga das horas prima irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração
Solidão
A solidão dos astros
A solidão da lua
A solidão da noite
A solidão da rua

Pintura de Obllit

 

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Fernando Pessoa – Raio de sol

Raio de sol
Fernando Pessoa

Ando à busca de outro
Que consiga o ser
Tão variado e neutro
Que sinto ao viver…

A hora nos embala?
Mas viver é só isso…
E tudo se cala
Como por feitiço

E mais inconsciente
Do mistério que arde
No poente cinzento
Com restos de alarde…

Nós não somos nada
Minha dolorida
A alma é uma estrada…
E onde é o fim da vida?

Castelos de areia…
Não chega lá o mar
Mas a alma está cheia
De não descansar.

Que nas tuas preces
Eu seja lembrado,
Cismo… Estremeces…
Sim. Tudo é sonhado…

Fernando Pessoa, In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed.

Pintura de Michael A McCullough

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Andrea de Alberti – Sob o reino da ficção – Poesia

Sob o reino da ficção
Andrea de Alberti

Sob o reino da ficção os sinais
tinham um fluxo ordenado do tálamo até a casca,
auroras celestes, viragens azuis num céu de inverno,
pensamentos, lembranças, o que diferencia uma espécie,
o que nos permitiu que sobrevivêssemos por anos.
Seriam as provas do tempo que avança com nada.
Dentro de cada homem há um futuro reciclável,
paisagens vislumbradas a um passo do nada,
metas pensadas de noite, faíscas do infinito,
o corpo desconectado do animal.
É preciso pensar na evolução da espécie
como numa ramificação cerebral
que luta sob a terra para se defender do tempo.

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Ana Cláudia Romano Ribeiro – Isolamento domiciliar – Poesia

Isolamento domiciliar
Ana Cláudia Romano Ribeiro*


talvez acrílico, talvez óleo, não sei
sobre tela
verdes, rosas, cor da pele
tudo desbotado e escuro
o olhar da moça pintada
delicada, destemida
único corpo humano além do meu
em quarentena
tem mãos, pescoço e flores
numa cesta
talvez o verde no fundo tenha sido pintado por último
folhagens, bosque, capim borrado
o quadro olha para a janela
e para o espelho
ao lado dele uma porta
sair por ela e encontrar no jardim
a companhia das minhocas
ouvir ossadas antigas
a lembrança das árvores abatidas
cacos de pratos
mato, cisco, parafuso, barbante
voltar para dentro
e misturar tudo
perfumes vencidos
flor de cerejeira e alfazema
avó, irmã e mãe
sentir o cheio dos ausentes
e a dor no lóbulo da orelha furada
que fez a moça desmaiar
numa farmácia
em 1987


*Ana Cláudia Romano Ribeiro traduz, escreve, pesquisa outros modos de expressão e é professora na Unifesp. Publicou a tradução com introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (editora da Unicamp, 2011) e coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento. Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR).  Traduziu também os aforismas poéticos Poteaux d’angles (Pilares de canto), de Henri Michaux, e, em projeto coletivo, a peça de teatro Le bleu de l’île (O azul da ilha), de Évelyne Trouillot.

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Robert Frost – Poesia

Nada de ouro pode ficar
Robert Frost

O primeiro verde da natureza é ouro,
Seu tom mais difícil de segurar.
A folha mais cedo é uma flor;
Mas apenas uma hora.
Então a folha desaparece.
Então Eden afundou em tristeza,
Então o amanhecer cai para o dia.
Nada de ouro pode ficar.

Pintura de Jean-Pierre Lafrance

Jorge Luís Borges – Os justos – Poesia

Os justos
Jorge Luís Borges

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in “A Cifra”
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Litogravura de Israel Asaluz

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Trish Keenan – Valerie – Poesia

Valerie
Trish Keenan

Caio no sono antes de fechar os olhos:
dentro da máscara, outro disfarce.
O cansaço faz desenhos na minha cabeça.
O sol na janela anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

O sol no meu rosto não vai expulsar
o silêncio gelado de quando anoitece.
Me afogo no branco do seu quarto.
O céu atrás da cortina anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

Aquarela de Andrew White