Manuel Graña Etcheverry – Hoje já passou

Boa noite
Hoje já passou
Manuel Graña Etcheverry

Já o dia passa. Já os livros
não podem. Já a música não alcança.
A evasão é inútil, solitário.
Já tens o espelho a tua frente:
mira-te, sozinho, fumando o cigarro,
mira no quarto tua presença só.
Não estão suas mãos nem seus olhos vêm,
nem sua voz se aproxima, nem seu beijo,
nem chega seu amor para buscar-te.
Consumiste sonhos na espera:
edifícios de tênues quadros
que as horas gastaram pouco a pouco.
E ruínas sonoras de estupendos
colóquios de amor que imaginaste
têm buscado sua tumba nas paredes.
Não te bastou a lembrança: desejava-a
vivendo e perto e em teus braços.
Mas o dia se vai sem que ela venha.
Hoje a paz não veio e tens medo.
Não quer retratar-se em cristais
nem a água do passado te refresca.

Mas o dia se vai… cala-o, esqueça.
Beija no ar seu rosto ausente.
Hoje a paz não veio. Hoje já passou.

Marc Chagall – Les Amants sur le Toit,1935

Virgínia Schall – Secretamente – Poesia

Boa noite.
Secretamente
Virgínia Schall

Seus olhos estão perigosamente dentro
de mim
aqui fizeram morada
e estão como Deus
em toda parte
se interpondo
entre a paisagem mais próxima
entre a fresta de luz e a imagem
tangenciando meu olhar
que não sabe olhar puro
que se trai a cada segundo.

Seus olhos estão perigosamente pousados
sobre mim
como borboleta em flor
cobrindo minha pele em ternura
suaves como seda
a farfalhar sobre os poros
e os pelos.

Luzes que incendeiam
em sublime música
meu corpo aceso em sede
Sombras sobre minha noite
embalam meu sono
devassando meus sonhos
onde secretamente me assombram
estando fora e sendo dentro
espelhos de amor intenso
e imenso.

Nossos olhos estão perigosamente
em comunhão
a despeito da separação
que a vida nos impõe.

E nossas vidas
sob risco
entre sermos felizes
ou tristes
e nossos destinos
por um triz
entre sucessos
e desatinos.

Secretamente
espreitamos-nos
como caminhos
à beira
de atraentes abismos.

Pintura de Paul Klee

Ismar Tirelli Neto – Correlata – Poesia

Boa noite.
Correlata – Ismar Tirelli Neto

que passo a sentir vizinhos sumiços
passos à escada depurados de eco
a palavra “cumeada” atira-se novamente
é possível imergir
a rua, renova, rouqueja
é possível
o céu dizer-se emboço
a morte, cimentícia
a dor, a dor, coisa infinitamente perfectível
o azul da manhã, corrugado
e setembro, cabeceio
ao concluir-se o serviço

Já não falo de mim.
Fundo cidades.

Fabrizio Bajec – Poema

Boa noite
Poema
Fabrizio Bajec

Gianluca dorme nos prédios vazios
com seu diploma em construção civil
depois num vagão pede
um emprego não dinheiro para fumar
ou beber aos vinte anos sua voz
deve recitar toda a dor
do mundo

Mostramos para vocês como lutar
agora não podemos fazer mais nada
exceto enviar um pouco do nosso café
que lhes dará coragem mantendo-os acordados
nos dias das lutas inclusive de noite
vocês são fortes mas o inimigo é o mesmo
matem o lucro golpeiem no coração
o sufrágio esse governo que arranca
obstinado no erro e livre demais
para ignorá-los em total impunidade

Fotografia de Martyn Smith

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Eleonora Rimolo – A terra original – Poesia

Boa noite.
A terra original
Eleonora Rimolo

I
Nos disseram para sair o menos possível,
só se fosse urgente: pó fino,
poluição, muitas sirenes irritantes. Desse modo
defendo-me das bactérias, dos esporos, dos sorrisos
que não teria encontrado. Passo os dias
da doença respirando o mesmo ar
de sempre, observo sua teimosia
comparo-a com a minha penso em quem irá
embora primeiro. Enquanto isso, o plástico derrete
procura asilo nos pulmões dos sobreviventes,
com a chuva não dá para engolir, queima
a hipótese da resistência, áspera caridade.

II
De mãos vazias os estudiosos cavam os alicerces
dobrados sobre o fosso: dizem que há rastros
de uma civilização antiquíssima, acreditam no que há
atrás da superfície, mesmo que a chuva amasse a pedra,
sujando-os de lama, complicando o exercício da reconstrução.
É triste nossa necessidade de ordem,
o rasgar a raiz e não achar a semente:
é um ruir sem poder impedir a descida,
precipitar em pedaços sem o prazo da queda.

III
Com os músculos rompidos pelo passo úmido
arrastamos as semanas, pronunciamos
distintamente três palavras solitárias. Estar
cansado significa sufocar dentro de uma cama,
gastar menos sangue possível para não
replicar a dor: dessa forma
as vontades não voltam a crescer, erradicam-se
todos os contágios e em mim resta apenas
o deserto asséptico onde
nos contaminamos, onde fomos largados.

Adélia Prado – Poesia

Poema Começado no Fim
Adélia Prado

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Pintura de Adelsteen Normann

Roger Robinson – Um Paraíso Portátil – Poesia

Boa noite.
Um Paraíso Portátil
Roger Robinson

E se eu falar do Paraíso,
estou falando da minha avó
que me disse pra sempre carregá-lo
oculto comigo, pra que
ninguém soubesse além de mim.
Aí eles não podem te roubar, ela dizia.
E se a vida te bota na pressão,
traça seus cumes na algibeira,
cheire o pinho do perfume dela em teu lenço,
cantarola este hino no teu sopro.
E se tuas tensões são diárias, constantes,
segue pra um quarto vago – de pensão,
pousada ou casebre – pegue uma lâmpada
e despeje teu paraíso na mesa:
tuas areias claras, costas verdes, peixe fresco.
luze a lâmpada nele como a esperança fresca
da manhã, e olhe vidrado até você dormir.