Elizabeth Barret Browning – Poesia

Boa noite.
Amam-me por amor do amor
Elizabeth Barret Browning

Ama-me, por amor do amor somente,
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua”. Por que pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.

Fernando Pessoa – Poesia

Boa noite.
Só tu
Fernando Pessoa

De todas as que me beijaram,
De todas as que me abraçaram,
já não me lembro, nem sei…
Foram tantas as que me amaram,
Foram tantas as que eu amei.
Mas tu, que rude contraste,
Tu que jamais me abraçaste,
Tu que jamais me beijaste,
Só tu nesta alma ficaste,
De todas as que eu amei…

Tomaz Vieira da Cruz – Poesia

Boa noite.
Selvagem
Tomaz Vieira da Cruz

Ninguém, ninguém, ninguém me queira mais;
podem trazer-me tudo quanto existe:
as pérolas de Ofir e as irreais
ilusões que contentam quem é triste.

Podem trazer-me, em doidos vendavais,
a luz da felicidade que sentiste,
mulher ditosa que em cortejo vais
seguida de quem ama de quem riste.

Podem passar, ó loucas multidões
que eu bem o sinto, em tétrica miragem,
o labirinto em vossos corações…

Podeis passar, ó luz do sol fecundo,
porque eu não troco o amor desta selvagem
por todas as grandezas deste mundo!

Sem saber onde

Arte Digital: José mesquita

Sérgio Jockyman – Poesia

Boa noite.
Desejo
Sérgio Jockyman

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Alice Vieira – Poesia

Boa noite.
São Um Perigo As Palavras
Alice Vieira

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia,
são um perigo
as palavras,
quando as soltamos já não há
regresso possível,
ninguém pode não dizer o que já disse,
apenas esquecer, e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais,
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente, acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos,

um perigo
as palavras,

mesmo agora,
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho,
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero!

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita (7)

Eustáquio Gorgone – Poesia

Boa noite.
Poema
Eustáquio Gorgone

A poesia vai sendo assim
escrita, cardo-santo no
estômago. Aos poucos,
outra luz na noite,
azul que costura o corpo
das crianças. Em glebas
os fonemas se encontram,
os amargos e doces.
A poesia vai sendo assim
escrita. Enquanto
houver tardes, âmbulas,
cada palavra será guardada
em óleos santos.

Gerardo Melo Mourão – Poesia

Boa noite.
Eva
Gerardo Melo Mourão

Adormecera à beira do riacho
e o sonho e a flor dessa maçã
da primeira saudade – do primeiro desejo do mundo
habitavam seu sono.

Despertara – e dela despertaram
um tato uns olhos um perfume – e o véu
dos cabelos cobria ancas
seios nunca vistos:

Eva bailava sobre chão de folhas

Desde então
desde sono e sonho se incorpora sempre
ao homem sonhador o sortilégio
da primeira mulher
coisa e criatura e criadora
de seus tatos seus aromas – aflição e festa
de estrelas na pupila.

Maria do Rosário Pedreira – Poesia

Boa noite.
Dorme meu amor
Maria do Rosário Pedreira

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo.
Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres.
Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo.
Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-lo até adormeceres.

Fernando Pessoa – Poesia

Boa noite.
Poema
Fernando Pessoa

Dói-me quem sou. E em meio da emoção
Ergue a fronte de torre um pensamento.
É como se na imensa solidão
De uma alma a sós consigo, o coração
Tivesse cérebro e conhecimento.-
A um Charco admirador!