Os algoritmos que tomam decisões importantes em sua vida

Milhares de estudantes na Inglaterra estão irritados com o uso controverso de um algoritmo para determinar o GCSE e os resultados A-level deste ano.

Eles não puderam fazer os exames devido ao bloqueio, então o algoritmo usou dados sobre os resultados das escolas nos anos anteriores para determinar as notas.

Isso significa que cerca de 40% dos resultados do nível A deste ano ficaram abaixo do previsto, o que tem um grande impacto sobre o que os alunos são capazes de fazer a seguir. Os resultados do GCSE serão divulgados na quinta-feira.

Existem muitos exemplos de algoritmos que tomam grandes decisões sobre nossas vidas, sem que necessariamente saibamos como ou quando o fazem.

Aqui está uma olhada em alguns deles.

Mídia social

De muitas maneiras, as plataformas de mídia social são simplesmente algoritmos gigantes.

Copyright da imagem GETTY IMAGES

No fundo, eles descobrem no que você está interessado e, em seguida, fornecem mais informações – usando o máximo de pontos de dados que conseguirem.

Cada “gosto”, relógio, clique é armazenado. A maioria dos aplicativos também coleta mais dados de seus hábitos de navegação na web ou dados geográficos. A ideia é prever o conteúdo que você deseja e mantê-lo rolando – e funciona.

E esses mesmos algoritmos que sabem que você gosta de um vídeo de gato fofo também são implantados para vender coisas a você.

Todos os dados que as empresas de mídia social coletam sobre você também podem personalizar anúncios para você de uma maneira incrivelmente precisa.

Mas esses algoritmos podem dar muito errado. Provou-se que eles levam as pessoas a conteúdos odiosos e extremistas. Conteúdo extremo simplesmente faz melhor do que nuances nas redes sociais. E os algoritmos sabem disso.

A própria auditoria de direitos civis do Facebook pediu que a empresa fizesse tudo ao seu alcance para evitar que seu algoritmo “levasse as pessoas a câmaras de eco do extremismo que se auto-reforçam”.

E no mês passado relatamos como algoritmos em sites de varejo online – projetados para descobrir o que você quer comprar – estavam promovendo produtos racistas e odiosos.

Seguro

Copyright da imagem GETTY IMAGES

Quer se trate de casa, carro, saúde ou qualquer outra forma de seguro, sua seguradora tem que avaliar de alguma forma as chances de algo realmente dar errado.

De muitas maneiras, a indústria de seguros foi pioneira no uso de dados sobre o passado para determinar resultados futuros – essa é a base de todo o setor, de acordo com Timandra Harkness, autora de Big Data: Does Size Matter.

Fazer com que um computador fizesse isso sempre seria o próximo passo lógico.

“Os algoritmos podem afetar muito a sua vida, mas você, como indivíduo, não recebe necessariamente muitas informações”, diz ela.

“Todos nós sabemos que se você muda para um código postal diferente, seu seguro sobe ou desce.

“Não é por sua causa, é porque outras pessoas têm mais ou menos probabilidade de ter sido vítimas de crimes, ou de sofrerem acidentes, ou algo assim.”

Inovações como a “caixa preta”, que pode ser instalada em um carro para monitorar como um indivíduo dirige, ajudaram a reduzir o custo do seguro do carro para motoristas cuidadosos que se encontram em um grupo de alto risco.

Poderíamos ver cotações de seguro mais personalizadas à medida que os algoritmos aprendem mais sobre nossas próprias circunstâncias?

“Em última análise, o objetivo do seguro é dividir o risco – então todos colocam [dinheiro] e as pessoas que precisam o retiram”, diz Timandra.

“Vivemos em um mundo injusto, então qualquer modelo que você fizer será injusto de uma forma ou de outra.”

Cuidados de saúde

A Inteligência Artificial está dando grandes saltos em ser capaz de diagnosticar várias condições e até sugerir caminhos de tratamento.

Copyright da imagem GETTY IMAGES

Um estudo publicado em janeiro de 2020 sugeriu que um algoritmo teve um desempenho melhor do que os médicos humanos quando se tratou de identificar o câncer de mama em mamografias.

Policiamento

Copyright da imagem GETTY IMAGES

Big data e aprendizado de máquina têm o potencial de revolucionar o policiamento.

Em teoria, os algoritmos têm o poder de cumprir a promessa da ficção científica de “policiamento preditivo” – usando dados, como onde ocorreu o crime no passado, quando e por quem, para prever onde alocar recursos policiais.

Mas esse método pode criar preconceito algorítmico – e até racismo algorítmico.

“É a mesma situação que você tem com as notas dos exames”, disse Areeq Chowdhury, do think tank de tecnologia WebRoots Democracy.

“Por que você está julgando um indivíduo com base no que outras pessoas fizeram historicamente? As mesmas comunidades estão sempre sobre-representadas”.

No início deste ano, o think tank de defesa e segurança RUSI publicou um relatório sobre policiamento algorítmico.

Levantou preocupações sobre a falta de diretrizes nacionais ou avaliações de impacto. Também exigiu mais pesquisas sobre como esses algoritmos podem exacerbar o racismo.

O reconhecimento facial também – usado pelas forças policiais no Reino Unido, incluindo o Met – também foi criticado.

Por exemplo, tem havido preocupações sobre se os dados que vão para a tecnologia de reconhecimento facial podem tornar o algoritmo racista.

O problema é que as câmeras de reconhecimento facial são mais precisas na identificação de rostos brancos – porque possuem mais dados sobre os rostos brancos.

“A questão é: você está testando isso em um grupo demográfico suficientemente diversificado de pessoas?” Areeq diz.

“O que você não quer é uma situação em que alguns grupos sejam erroneamente identificados como criminosos por causa do algoritmo.”

Entenda como o Facebook relacionou fake news à família Bolsonaro

O Facebook promoveu a remoção de uma rede de contas, páginas e grupos coordenados por funcionários de gabinetes ligados à família do presidente da república, Jair Bolsonaro.

A investigação, que partiu da Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab), descobriu que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL).

Em uma publicação no Medium, o DRFLab descreveu como seguiu com as investigações para encontrar e dar baixa à rede de fake news que favorece o presidente, seus filhos e parceiros do seu antigo partido, o PSL. O laboratório precisou identificar padrões de comportamento entre essas milhares de contas inautênticas — observando identidades, seguidores e quem seguiam — para rastrear os administradores das redes de falsas informações.

Das acusações e remoções do Facebook foram 14 páginas e 35 contas pessoais; do Instagram, 38 páginas e um grupo que compunha a rede de fake news ligada ao presidente. Essas entidades apresentavam comportamento sistemático e já atuava nessas redes desde as eleições de 2018.

O perfil “Fábio Muniz” (à esquerda) usou a foto de perfil de outro usuário e defendia tanto Alana Passos (PSL-RJ) quanto Jair Bolsonaro em grupos locais.


Fonte: DRFLab/Reprodução

Rede complexa de desinformação

Segundo o DFRLab, nenhuma das páginas ou contas informava ligação com o presidente, gabinete ou outros deputados do PSL. Parte da rede, inclusive, foi gerada antes do período eleitoral de 2018 e atacava constantemente os adversários do presidente. Depois da vitória nas urnas, a rede se voltou contra as instituições — incluindo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — e até atuou contra ex-membros do governo, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta.

O DRFLab descreveu que a rede era centralizada em três diferentes locais: Brasília, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo. Cada uma apresentava um comportamento distinto: a do Rio de Janeiro (a maior entre os centros) e de São Bernardo do Campo concentravam suas atividades na desinformação por meio de contas duplicadas ou fakes; enquanto a de Brasília era voltada à atividade de páginas na rede social e contava com duas contas inautênticas.

A investigação concluiu que dois deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estavam envolvidos na rede de desinformação carioca, Alana Passos e Anderson Moraes — ambos do PSL-RJ. Posteriormente, a análise do laboratório apontou a conexão entre a rede e dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Além deles, o Coronel Nishikawa (PSL-SP), deputado estadual do estado de São Paulo, também foi apontado durante a análise.

Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).
Fonte: DRFLab/Reprodução

Envolvimento direto de funcionário do presidente

Tercio Arnaud Tomaz, funcionário do gabinete de Jair Bolsonaro e conhecido administrador da página do Facebook “Bolsonaro Opressor 2.0”, foi identificado como um dos operadores da rede de fake news. Tercio, por sua vez, estava envolvido na comunicação digital de Jair Bolsonaro durante sua campanha eleitoral.

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Paulo Eduardo Lopes, um de seus funcionários, foi identificado como um dos mais importantes administradores da rede. Paulo Chuchu, como também é conhecido, é líder do partido Aliança pelo Brasil em São Bernardo do Campo. Em sua conta pessoal, Chuchu afirma que trabalha com a família Bolsonaro há 5 anos.

Essa ação do Facebook e DRFLab é inédita no Brasil e exigiu a colaboração de pesquisadores associados na América Latina. O relatório completo da investigação é público e pode ser conferido na página da Medium da DRFLab (somente em inglês)

Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

Twitter bane mais de 170 mil perfis ligados ao governo da China

Segundo a rede social, perfis disseminavam informações falsas para difamar movimento pró-democracia em Hong Kong e espalhar críticas aos EUA e Taiwan.

Contas também publicavam notícias falsas sobre pandemia de covid-19.

Twitter cancelou mais de 170 mil perfis associados a campanhas chinesas de desinformação

O Twitter informou nesta sexta-feira (12/06) que cancelou mais de 170 mil perfis ligados ao governo da China que propagavam campanhas de desinformação que tinham como alvo o movimento pró-democracia em Hong Kong, além de disseminar propagandas antiamericanas.

Após uma análise realizada juntamente com grupos de pesquisadores, o Twitter disse que desmantelou redes associadas ao governo chinês administradas por um núcleo bastante ativo de 23.750 contas, além de outros 150 mil perfis que funcionavam como “amplificadores” desse conteúdo.

“Eles tuitavam predominantemente no idioma chinês e disseminavam narrativas geopolíticas favoráveis ao Partido Comunista da China, ao mesmo tempo em que empurravam narrativas sobre a dinâmica política em Hong Kong”, afirmou a rede social em sua análise.

O Twitter foi banido na China, assim como as plataformas Youtube, Google, Instagram e Facebook, com a imposição do chamado “Grande Firewall”, que restringe o acesso a sites de notícias e de informação de fora do país. Mesmo assim, diplomatas chineses e a imprensa estatal do país costumam recorrer a esses meios para difundir a narrativa de Pequim.

Além de disseminar a narrativa chinesa sobre os protestos em Hong Kong, os tuítes chineses também espalhavam informações falsas sobre a pandemia de covid-19 e críticas ao governo de Taiwan. Analistas e alguns governos ocidentais já vinham alertando sobre as suspeitas de que a China manipula perfis e contas controladas pelo Estado, disfarçados de usuários normais, para disseminar os pontos de vista do governo e espalhar desinformação.

Um analista do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas (Aspi), que estudou os dados antes do anúncio feito pelo Twitter, disse que os perfis chineses lançavam críticas à reação do governo americano aos protestos antirracistas no país, no intuito de “criar uma percepção de equivalência moral com a supressão dos protestos em Hong Kong”.

“Nossa análise mostra que, ao mesmo tempo em que não permite que os cidadãos utilizem o Twitter, o Partido Comunista chinês gosta de utilizá-lo para disseminar propaganda e desinformação internacionalmente”, disse Fergus Hanson, diretor do Aspi.

O especialista observou também que as postagens da rede chinesa eram feitas, na maioria das vezes, durante o horário de expediente no país e nos dias úteis. Esse padrão, segundo Hanson, “demonstra claramente a não autenticidade e a coordenação” da divulgação de informações falsas.

O anúncio do Twitter veio no mesmo dia que o aplicativo Zoom, de conversas em grupo, acatou exigências impostas pelo governo chinês e fechou contas de ativistas pró-democracia dos Estados Unidos e de Hong Kong. A plataforma, que ganhou milhões de novos usuários durante a pandemia do novo coronavírus, foi utilizada para relembrar o massacre promovido pelo regime na Praça da Paz Celestial, em Pequim.

Twitter esconde tuíte de Trump por ‘glorificar a violência’

O Twitter ocultou um tweet do presidente Donald Trump de seu perfil, dizendo que ele viola regras sobre a glorificação da violência.

O mesmo aconteceu mais tarde, quando a conta oficial da Casa Branca twittou uma cópia das palavras do presidente.

Ele diz que “o Twitter determinou que pode ser do interesse do público que o Tweet permaneça acessível”.

Esta é a última controvérsia consecutiva entre o Twitter e a Casa Branca.

O presidente dos EUA se encontra em companhia inesperada ao lado de outros líderes mundiais cujos tweets foram censurados. Em fevereiro de 2019, o Twitter removeu um tweet do líder supremo aiatolá Ali Khamenei após parecer ameaçar o autor Salman Rushdie. Também no ano passado, várias contas associadas ao presidente cubano Raul Castro e a membros de seu governo foram suspensas, citando violações de política.

Trump estava twittando sobre a cidade americana de Minneapolis, que passou noites consecutivas de protestos após a morte de um negro sob custódia policial.O presidente disse que “enviaria a Guarda Nacional” e seguiu com um aviso de que “quando a pilhagem começa, o tiroteio começa”.

Esse segundo tweet foi escondido pelo Twitter por “glorificar a violência”.

A política do Twitter de adicionar um aviso a, em vez de excluir, tweets que violam suas regras quando se trata de grandes figuras públicas foi anunciada em meados de 2019. Mas a rede social nunca a usou em Trump – nem apagou nenhum de seus tweets antes.

“Esta é a coisa mais corajosa e arriscada que eu já vi o Twitter – ou qualquer gigante das mídias sociais -“, ​​disse Carl Miller, do Centro de Análise de Mídias Sociais do think tank Demos, sediado no Reino Unido.

“Isso joga combustível de foguete sobre o debate de danos online versus liberdade de expressão. A política de conteúdo online não fica mais incendiária do que isso”.

A mesma publicação permanece inalterada no Facebook, sem nenhum aviso anexado.

Na sexta-feira, o presidente procurou esclarecer os tweets dizendo que era mal interpretado.

“Saques levam a tiros, e é por isso que um homem foi morto a tiros em Minneapolis na noite de quarta-feira – ou veja o que aconteceu em Louisville com 7 pessoas baleadas”, ele twittou.

Sete pessoas foram baleadas em Louisville, Kentucky, em um protesto pela morte de Breonna Taylor, que foi baleada por três policiais brancos em março.

“Não quero que isso aconteça, e é isso que a expressão divulgada na noite passada significa”, escreveu ele.

A medida significa que outros usuários não poderão gostar, responder ou simplesmente retweetar a publicação de Trump, disse o Twitter. No entanto, eles ainda poderão retuí-lo com um comentário anexado.

Em um tópico do Twitter, a rede social afirmou: “Este tweet viola nossas políticas sobre a glorificação da violência com base no contexto histórico da última linha, sua conexão com a violência e o risco de que possa inspirar ações semelhantes hoje”.

O “contexto histórico” é uma referência à frase “quando o saque começa, o tiroteio começa”, cunhado pelo chefe de polícia de Miami, Walter Headley, em 1967, em referência às suas políticas agressivas de policiamento em bairros negros.

Um relatório posterior apresentado à Comissão Nacional de Causas e Prevenção da Violência descobriu que sua política de “endurecer”, envolvendo “a exibição frequente de espingardas e cães pela polícia de Miami em bairros negros”, contribuiu para um estado de agitação na comunidade negra. até a erupção do motim de Miami em 1968, oito meses depois.

O Twitter disse: “Agimos com o intuito de impedir que outros se inspirassem a cometer atos violentos, mas mantivemos o tweet no Twitter porque é importante que o público ainda possa ver o tweet, dada sua relevância para os assuntos em andamento. de importância pública “.

Horas depois que o aviso foi adicionado, o presidente Trump twittou: “O Twitter não está fazendo nada sobre todas as mentiras e propaganda divulgadas pela China ou pelo Partido Democrata da Esquerda Radical” e alegou que a rede social estava mirando republicanos.

Ele se referiu diretamente a ordem executiva que assinou na noite anterior, com o objetivo de remover algumas das proteções legais dadas às plataformas de mídia social.

No início desta semana, o Twitter usou sua função de verificação de fatos para anexar avisos aos tweets do presidente pela primeira vez. Isso levou o presidente a ameaçar “desligar” as redes sociais por supostamente sufocar a liberdade de expressão.

A ordem executiva assinada por Trump não tem efeito imediato nas redes sociais, no entanto – em vez disso, inicia um processo demorado que pode resultar em mudanças na linha.

Filipe Martins e a rede de mentiras agonizam: um tuiteiro nocauteou a grana de sites de fake news

Uma reportagem do El País revelou como um perfil no Twitter virou a grande pedra no sapato da extrema direita americana. Com o nome de Sleeping Giants, o perfil criado em 2016 expôs ao escracho público as marcas que anunciavam em sites de fake news.

Filipi Martins e Steve Bannon – Reprodução: Twitter/Filipe G. Martins

O perfil informava ao público os nomes das empresas e compartilhava as capturas de tela dos anúncios nas suas redes oficiais. A tática foi um sucesso, e as empresas se viram obrigadas a anunciar publicamente o bloqueio dos anúncios.

O Breitbart News é um site de extrema direita famoso por inventar histórias contra adversários de Trump. Durante a eleição presidencial, o site publicou a história de que a então candidata Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia e promovia orgias sexuais com crianças no porão de uma pizzaria. Após a ação do Sleeping Giants, o site viu ir embora mais de 4,5 mil anunciantes — um golpe que significou uma perda de mais de 8 milhões de euros. Steve Bannon, o guru da extrema direita internacional, era o proprietário do site e, à época, chamou o Sleeping Giants de “a pior coisa que há”. Como se sabe, Bannon é o homem por trás da engenharia de desinformação dos extremistas de direita no mundo inteiro. As mentiras que ajudaram a eleger Trump foram uma inspiração para o surgimento das mamadeiras de piroca que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Um estudante que desenvolve pesquisas sobre fake news leu essa reportagem do El País e decidiu criar a versão brasileira do Sleeping Giants. Em apenas quatro dias, o perfil ultrapassou a marca de 200 mil seguidores e virou um movimento coletivo contra a propagação de mentiras. Para se ter uma ideia do sucesso brasileiro, o perfil americano juntou 270 mil seguidores em quatro anos. As marcas passaram a ser cobradas e quase todas empresas anunciaram o fim dos anúncios em sites que disseminam mentiras. O sucesso da tática enfureceu as hostes bolsonaristas, que imediatamente partiram para o contra-ataque.

Um dos que lideraram a manada foi Filipe Martins, esse projeto sorocabano de Steve Bannon. Ele é o bolsonarista mais próximo do americano e foi o responsável por aplicar o seu know-how de mentiras no Brasil. O jovem de 31 anos é, junto de Carlos Bolsonaro, um dos arquitetos por trás do “gabinete do ódio”, conhecido oficialmente como Assessoria Especial da Presidência. Nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, Martins também é o responsável por fazer o meio de campo entre o governo e as milícias virtuais bolsonaristas: youtubers, blogueiros e sites de notícias falsas. É ele quem organiza o ódio bolsonarista e municia a militância com conteúdo.

O assessor especial provocou o criador do Sleeping Giants americano, Matt Rivitz, que causou aquele prejuízo milionário ao seu guru americano. É que no fantástico mundo olavista de Martins parece óbvio que há “forças globalistas” por trás da versão brasileira. O aprendiz de Steve Bannon chamou de “censura” e “prática totalitária” uma ação feita por livre iniciativa das pessoas que protestaram e das empresas privadas que optaram por retirar os anúncios. Onde está a turma do ultraliberalismo sem freio nessas horas? Cadê seu deus livre mercado agora?

O Sleeping Giants brasileiro começou focando nos anunciantes do site Jornal da Cidade Online, que já foi alvo de processos por publicação de mentiras e está sendo investigado pela CPMI das Fake News. O relatório da comissão afirma que há “indícios da prática de condutas ilegais de José Pinheiro Tolentino Filho por meio de seu projeto de comunicação Jornal da Cidade Online”. O site já teve que pagar 150 mil em indenização para o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, pela publicação de uma mentira sobre ele. Não é uma coincidência o fato dessa mentira ter sido publicada justamente na época em que Santa Cruz protagonizou um bate-boca público com Bolsonaro.

Assim como a maioria de sites e blogs ligados ao bolsonarismo, o Jornal da Cidade Online consegue faturar com anúncios através do Adsense, um serviço da Google que os distribui automaticamente para sites assinantes. Nesse formato, as empresas não escolhem para quais sites irão seus anúncios. É o algoritmo do Google que os distribui nos sites. Ao serem expostas como patrocinadoras de sites que publicam mentiras, as grandes marcas imediatamente se posicionaram.

Sleeping Giants Brasil
Oii @DellnoBrasil, tudo bem? Realmente seus notebooks são incríveis, só não acho legal divulga-los em site famoso por espalhar Fake News e atacar constantemente a democracia. Pls considere bloquear✊🏽#SleepingGiantsBrasil@DellnoBrasil
Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.

Oii @ClaroBrasil, tudo bem? Realmente é muito mega hein mas não acho legal encontrar esse anúncio em uma postagem que chama o @felipeneto de “imbecil,lixo, ícone da canalhice e verme”. Por isso pedimos: PLS BLOQUEIE!✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@ClaroBrasil
Olá! Nós não compactuamos com a disseminação de notícias falsas, temos o compromisso ético com a transparência da informação. Por isso, todos os nossos anúncios automáticos estão passando por monitoramento, em conjunto com as plataformas parceiras, que distribuem tais conteúdos.

Oii @iFood, tudo bem? Realmente o app quebra um galho na hora de pedir um @McDonalds_BR quando bate aquela fominha, mas acreditamos que eles não gostariam de saber que seu lanche está ajudando a financiar um site divulgador de Fake News! ✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@McDonalds_BR
Nosso time já retirou do ar nossa mídia vinculada a esse site e a qualquer outro que compactue com notícias falsas. Obrigado!

@fastshop @fastshop_sac vocês também tem anuncio lá, vamos tomar providências?

@fastshop
Informamos que não temos vínculos com nenhum portal jornalístico. Estamos analisando os anúncios com nosso nome e removendo das plataformas que anunciam de forma automática através de sites de busca. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas. Agradecemos por nos avisar.

Philips BrasilSegundo levantamento do UOL, o Jornal da Cidade Online contava com 903 anunciantes. Durante pouco mais de um ano, todas essas empresas fizeram juntas 1.987 anúncios diferentes no site. O maior anunciante foi o Banco do Brasil que, ao ser confrontado no Twitter, também informou que retiraria os anúncios:

Oii @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas não precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear!✊🏽#SleepingGiantsBrasil

@BancodoBrasil
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Foi aí que o gabinete do ódio pegou fogo. Filipe Martins e Carlos Bolsonaro acionaram a rede virtual bolsonarista, que reagiu em peso junto com políticos e outros expoentes da extrema direita. A deputada bolsonarista Carla Zambelli, doPSL paulista, e o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, também foram escalados para repudiar o episódio. Wajngarten, que cuida das verbas publicitárias do governo, disse que o governo irá “contornar a situação”e garantir a “defesa da liberdade de expressão”. Afirmou ainda ter certeza que o Jornal Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”.

Para os padrões de seriedade de Wjangarten, que é investigado pelos crimes de corrupção, peculato e advocacia administrativa, a análise faz sentido. O Jornal da Cidade Online é um veículo tão sério que alguns de seus repórteres e colunistas não existem. O site publicava textos assinados por repórteres com identidades falsas para poder atacar ministros do STF e adversários políticos de Bolsonaro. O site também está sendo processado por atacar desembargadores do Rio de Janeiro e o ministro Gilmar Mendes com ofensas e mentiras usando esses perfis falsos.

Leandro Ruschel
@leandroruschel
Caro @jairbolsonaro e @secomvc , há um banco estatal discriminando site jornalístico, com inclinação conservadora, seguindo mera denúncia sem provas de perfil anônimo, aparentemente ligado à esquerda. É preciso rever essa decisão. https://twitter.com/BancodoBrasil/status/1263126286484082691 … Banco do Brasil
@BancodoBrasil
Respondendo a @slpng_giants_pt
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Logo após o resmungo de Carluxo no Twitter, o Banco do Brasil, cujo gerente executivo de Marketing e Comunicação é filho do vice-presidente da República, voltou atrás da decisão e manteve os anúncios no site de fake news. Ou seja, um vereador carioca, lotado não oficialmente no gabinete do ódio, interferiu na política de anúncios de uma estatal. O filho do presidente da República conseguiu manter as verbas públicas que irrigam um site que defende o bolsonarismo espalhando fake news. É o dinheiro do povo brasileiro sendo usado para financiar a rede de mentiras que sustenta o governo.

Parece que finalmente estamos tomando um bom caminho para combater a máquina de propaganda fascistoide do bolsonarismo. A tática de constranger marcas que apoiam iniciativas se mostrou importante e eficaz, mas o Google, que gerencia a maior partes dos anúncios na internet, também deve ser cobrado. É ela quem controla o algoritmo que ajuda a financiar esses sites. Em novembro do ano passado, o Intercept revelou como o Google ofereceu treinamentos grátis para ensinar blogueiros bolsonaristas e antipetistas a faturarem com Adsense. Muitos desses blogueiros eram notórios criadores de fake news. Não adianta a empresa lavar as mãos.

O criador do Sleeping Giants brasileiro pretende se manter no anonimato porque viu o criador da tática sofrendo sérias ameaças de morte nos EUA. Mexer com a extrema direita é sempre perigoso. E, quando seu núcleo central mantém ligações políticas e financeiras com as milícias, todo cuidado é pouco.

Facebook cria órgão independente que decidirá o que seus usuários podem ver

Uma ganhadora do Nobel da Paz, uma ex-primeira-ministra dinamarquesa, um ex-diretor do ‘The Guardian’ e um professor da UERJ estão entre os membros do novo conselho moderadorFacebook,Zuckerberg,Tecnologia,Redes Sociais,Internet,Privacidade

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.

Nick Clegg: “O Facebook não pode ser a polícia da Internet”

Tribunais europeus podem obrigar Facebook a apagar comentários ofensivos em todo o mundo

Facebook amplia restrições de conteúdos políticos no Vietnã e nos EUA

O Facebook anunciou a composição de um novo organismo que moderará conteúdos, uma instância independente à qual os usuários e a própria companhia podem recorrer para tomar decisões sobre publicações que afetam a liberdade de expressão e os direitos humanos.

Mark Zuckerberg, fundador da rede social, anunciou sua intenção de criar uma entidade à margem da estrutura da empresa para moderar os conteúdos mais polêmicos. O resultado é um conselho formado, até o momento, por 20 personalidades de todo o mundo, que selecionará e ponderará sobre os limites globais da liberdade de expressão. Suas decisões serão transparentes e de cumprimento obrigatório para a rede, desde que não entrem em conflito com leis locais. Os conteúdos suscetíveis de serem moderados serão os do Facebook e Instagram. O conselho não terá, ao menos por enquanto, capacidade sobre o WhatsApp, outra plataforma pertencente à companhia.

Esta nova instância depende de uma organização alheia à empresa, embora tenha sido criada pela matriz com uma doação irrevogável de 130 milhões de dólares (800 milhões de reais). Os membros do conselho, composto por 10 mulheres e 10 homens, não são funcionários do Facebook nem podem ser demitidos por Zuckerberg. Nesta quarta-feira, foi anunciada a composição desse órgão, que incluirá personalidades como a ativista iemenita Tawakul Kerman, ganhadora do Nobel da Paz de 2011, a ex-primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt e o jornalista britânico Alan Rusbridger, que dirigiu o jornal The Guardian durante duas décadas.

Ronaldo Lemos, advogado de propriedade tecnológica e intelectual e professor de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), é um dos dois únicos latino-americanos da lista, ao lado da jurista colombiana Catalina Botero-Marino, diretora da Faculdade de Direito da Universidade de Los Andes e, entre 2008 e 2014, relatora para a liberdade de expressão na Organização dos Estados Americanos.

O nome oficial é conselho assessor de conteúdo, ou oversight board, e seus membros têm, sobretudo, perfis vinculados ao mundo do direito, ao ativismo digital e aos meios de comunicação. Ao todo serão 40, o dobro dos atuais, embora o processo de seleção deva se prolongar até 2021. O órgão tem quatro copresidentes, que são os que se encarregaram, junto ao Facebook, de recrutar os outros 16 convidados. Além de Botero-Marino e Thorning-Schmidt, os outros dois copresidentes serão os norte-americanos Jamal Greene, catedrático da Universidade Columbia, e Michael McConnell, ex-juiz federal dos EUA e hoje professor em Stanford.

“Isso representa uma mudança fundamental quanto à forma como as decisões difíceis são tomadas no Facebook”, disse Brent Harris, diretor de Assuntos Globais da empresa, em uma entrevista coletiva para jornalistas de todo o mundo, à qual o EL PAÍS assistiu e que teve a participação dos quatro copresidentes e de Thomas Hughes, diretor-administrativo do conselho. Embora sua fundação já seja oficial, só começará a analisar casos dentro de alguns meses. Nas próximas semanas, e com as dificuldades acrescentadas pela pandemia, a instituição contratará pessoal e decidirá a melhor forma de se coordenar e trabalhar.

Outros encarregados

 

Com esse conselho, a intenção da empresa é terceirizar um dos aspectos que mais lhe causam problemas em seu trabalho: os limites à liberdade de expressão dos usuários, levando em conta seus contextos nacionais. O Facebook já transferiu a verificação rotineira de conteúdos para organizações externas, que são as que assumem a avaliação sobre a veracidade de determinada publicação. O Facebook então só acrescenta esse veredicto ao conteúdo questionado e faz que essas mensagens sejam menos visíveis nas contas dos outros usuários.

Com o novo tribunal supremo ocorrerá algo semelhante. As atribuições difíceis não ficarão nas mãos dos funcionários da companhia, que assim se isolarão de decisões que frequentemente dependem de sensibilidades ideológicas ou regionais. Os veredictos deliberados do tribunal, que inclui gente muito diversificada, evitarão a sensação de que um grupo de executivos em Palo Alto decide o que centenas de milhões de pessoas veem ou deixam de ver. Por outro lado, o Facebook se comprometeu publicamente a cumprir as decisões do conselho. “Se não fizerem isso, o custo para a reputação seria muito alto”, disse Botero-Marino.

“Não seremos a polícia da Internet”, quis esclarecer McConnell. “Não será algo rápido, será mais uma corte de recursos que delibera depois do fato. O objetivo é promover a justiça, a neutralidade”, acrescentou. Serão três os critérios para selecionar os casos entre os milhares que chegarão, segundo McConnell: que afetem muita gente, que tenham muita importância por suas consequências, ou que possam afetar as políticas do Facebook. “Não haverá respostas corretas. Ninguém estará sempre satisfeito com nossas decisões”, acrescentou. Como empresa privada, o Facebook pode decidir sobre seu conteúdo. “O direito público vai por outro caminho”, explicou McConnell.

Inicialmente, o tribunal verá casos denunciados por usuários que tiveram conteúdo apagado pelo Facebook, mas depois permitirá os recursos de usuários que queiram pedir que se apague um conteúdo determinado. O conselho poderá decidir não só sobre publicações, também sobre anúncios ou grupos. Poderá também recomendar políticas ao Facebook baseadas nos veredictos.

“Sempre estive comprometido com a liberdade de expressão e de pensamento, mas o crescimento do Facebook criou novas oportunidades e desafios”, diz o juiz húngaro András Sajo, ex-vice-presidente do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e um dos membros do conselho, numa mensagem de apresentação no site do organismo.

A rede social do mundo

Tecnologia,Internet,Redes,Computadores,Blog do Mesquita,Informática

Este novo tribunal dará mais peso à imagem do Facebook como a grande rede social do mundo. A metáfora que fala do Facebook como um país próprio ganha agora um pouco mais de fundamento: já tem seu poder judiciário independente. É difícil pensar em redes concorrentes que tenham a capacidade de instituir organismos que incluam personalidades de tanto nível e com capacidade de decisão real sobre os limites da liberdade de expressão em lugares com tradições diferentes. O tribunal se centrará no conteúdo do Facebook e Instagram, mas está aberto a assumir outras redes sociais, como o Twitter, conforme disse Thomas Hughes, seu diretor-administrativo.

O conselho permitirá, segundo Botero-Marino, que os Estados pensem duas vezes sobre a conveniência de regular a rede: “A melhor maneira de manter a arquitetura atual da Internet e evitar a regulação de Estados é que as companhias se autorregulem”, disse. “Este é um bom exemplo porque inclui independência, transparência e diversidade.”

“As sociedades não podem funcionar se seus cidadãos não chegarem a um acordo sobre que significa prova, fato e verdade”, diz Rusbridger em uma mensagem na Internet. “Talvez tenhamos demorado demais para percebermos isso. O conselho assessor de conteúdo parece ser o primeiro passo ousado e imaginativo da parte de um dos principais atores para encontrar um modo de conciliar a necessidade de impor algum tipo de padrão ou julgamento do que é publicado, ao mesmo tempo em que mantêm as coisas que são maravilhosas nas redes sociais e necessárias para a liberdade de expressão”, acrescenta.

Faltando ainda a definição de metade de seus membros, o conselho também tem lacunas. O Facebook não está presente na China, então a única integrante de fala chinesa é a taiwanesa Katharine Chen, catedrática de Comunicação na Universidade Nacional Chengchi. E a única pessoa vinculada à Rússia é a camaronesa Julie Owono, diretora-executiva da organização Internet Sem Fronteiras, que cresceu nesse país.

Há também cinco membros norte-americanos contra apenas três europeus (Sajo, Rusbridger e Thorning-Schmidt). Esse número de norte-americanos se deve, segundo Harris, ao fato de que havia muitos candidatos de lá que os impressionaram, e que a maioria dos casos mais polêmicos para a rede começaram nesse país.Internet,Tecnologia,Vírus,Malware,WhatsApp,Blog do Mesquita

Ao menos por enquanto, os membros trabalharão em tempo parcial e receberão uma compensação compatível “com os conselhos do setor tecnológico”, segundo Hughes. O trabalho deste tribunal não tem em princípio por que interferir na atuação dos verificadores de informação, embora seja provável que eventualmente ocorram conflitos. Durante a pandemia do coronavírus, a Espanha viveu uma polêmica substancial sobre a suposta censura nas redes sociais, embora centrada sobretudo no aplicativo de mensagens WhatsApp.

Privacidade na WEB; Como apagar dados pessoais que não deveriam estar na rede

À medida que navega e compartilha informações na web, você deixa uma trilha que qualquer pessoa no mundo pode acessar sem se levantar do sofá.

É provável que se você digitar seu nome no Google encontre registros que nem sabia que existiam. De páginas da web com dados pessoais, como seu endereço ou telefone, a fotografias que na época você não se preocupou em postar na Internet. E até contas que criou em aplicativos que mal chegou a usar.

À medida que navega e compartilha informações na web, você deixa uma trilha que qualquer pessoa no mundo pode acessar sem se levantar do sofá. Apagar por completo a pegada digital é complicado. Mas existem opções para eliminar e controlar as informações pessoais que aparecem sobre você na Internet.

Tudo o que um usuário escreve em redes sociais, blogs, fóruns ou outros serviços pode aparecer na Internet. É possível editar ou excluir grande parte desta pegada de forma manual.

 “Para localizar esse conteúdo, o mais recomendável é ir ao Google e pesquisar por si mesmo, escrevendo seu nome e sobrenome entre aspas, e depois, com muita paciência, eliminar todas essas informações”, explica Fernando Suárez, presidente do Conselho de Faculdades de Engenharia da Computação (CCII, na sigla em espanhol), da Espanha.

Ex-funcionário avisa que Google pode acessar todos os documentos dos usuários de sua nuvem.Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

O usuário pode excluir uma a uma cada conta que criou nas redes sociais e outros serviços. Mas há ferramentas que facilitam o trabalho. Por exemplo, o Deseat.me oferece uma lista de todas as contas que uma pessoa criou com um email específico e permite solicitar a exclusão bastando pressionar um botão.

Já o AccountKiller compila links diretos para facilitar a qualquer usuário excluir sua conta em sites como Gmail, Instagram, Netflix e Microsoft. “Você quer se livrar da sua conta online? Não deveria ser um problema, certo? Infelizmente, em muitos sites, incluindo os populares, como o Facebook, apagar sua conta pode ser uma verdadeira dor de cabeça”, explica ele em seu próprio site.

É provável que se você digitar seu nome no Google encontre registros que nem sabia que existiam.
“Eliminar completamente a pegada digital é praticamente impossível: depois que publicamos informações na Internet, perdemos o controle sobre elas e não sabemos quem pode acessá-las e para qual finalidade”, alerta Suárez. Ele dá o seguinte exemplo: “Se postamos uma foto em uma rede social e posteriormente a excluímos, não podemos ter certeza de que as pessoas que tiveram acesso a essa fotografia não a publicaram em outras páginas e, portanto, sua exclusão seria muito mais complicada. “

Como apagar a informação que aparece na Internet

A lei europeia do direito ao esquecimento permite que você peça diretamente ao Google que desindexe determinadas informações. Ou seja, que quando alguém usar o mecanismo de pesquisa, um site específico não apareça entre os resultados. Existe um formulário para isso. O usuário deve assinalar um por um os links que deseja remover e indicar o motivo.

O Google pode retirar informações pessoais que representem um risco significativo de roubo de identidade, fraude financeira ou outros tipos de danos específicos. Suárez explica: “Por exemplo, números de identificação, como o do documento de identidade ou informações de cartões de saúde, números de contas bancárias ou de cartões de crédito, históricos médicos, imagens de assinaturas ou fotografias de conteúdo sexual explícito postado na Internet sem o nosso consentimento”.

Mas a opção de pedir ao Google que exclua determinadas informações tem limitações. Juana María Perea, reitora da Faculdade Oficial de Engenharia da Computação das Ilhas Baleares, observa que o preenchimento do formulário não garante que os dados sejam desindexados.

A empresa de Mountain View analisa os links um por um e escolhe se os desindexa ou não. “Quando você envia uma solicitação, no Google procuramos o equilíbrio entre os direitos à privacidade dos usuários afetados, o interesse público que essas informações podem ter e o direito de outros usuários de distribuí-las”, afirma a gigante da tecnologia em seu site.

A empresa pode se recusar, por exemplo, a retirar informações sobre fraudes financeiras, negligência profissional, condenações criminais ou conduta de funcionários públicos. Além disso, este formulário apenas garante a remoção de dados na União Europeia. Portanto, os dados continuarão a aparecer nas versões internacionais do mecanismo de busca.

Outros buscadores

O Google é o líder indiscutível dos mecanismos de busca. Em 2018, totalizou 96% das pesquisas de usuários, segundo a Statista. São seguidos pelo Bing, com 3%, e o Yahoo, com 1%. Mesmo assim, os especialistas também recomendam controlar o que aparece nesses alternativos. “O processo mencionado só se aplica ao Google. O Yahoo e o Bing têm seu próprio formulário para que exerçamos nosso direito de desaparecer da rede”, diz Perea. Nos dois mecanismos de busca, se aceitarem a solicitação, o conteúdo será removido apenas na Europa.

Tanto Perea como Suárez concordam com a importância de controlar em quais sites você se registra. O presidente do CCII aconselha, antes de tudo, “a prudência ao usar as ferramentas da Internet”: “Não apenas aquelas em que publicamos informações diretamente, como blogs ou redes sociais, mas também a própria trilha que deixamos, por exemplo, ao pesquisar ou navegar “. Nesse sentido, é recomendável excluir periodicamente os cookies, usar VPNs (rede virtual privada, na sigla em inglês) ou optar por mecanismos de busca alternativos ao Google, projetados para navegar sem deixar vestígios.

Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 07

A mordaça na era ditital; Há governos que querem desconectar seus cidadãos da Internet, e alguns já têm seu botão vermelho

A web está deixando de ser global. China, Rússia e Irã, entre outros, usam sua infraestrutura digital para vigiar e censurar seus cidadãos. Bem-vindo à ‘balcanização’ da Internet

Ilustração de Diego Quijano – Foto: Getty Images

Na Davos de 1996, o visionário John Perry Barlow já dizia aos “Governos do mundo industrial, cansados gigantes ​​de carne e aço”, que deixassem a Internet em paz. Sua famosa Declaração de Independência do Ciberespaço estabelecia: “O espaço social global que estamos construindo é por natureza independente das tiranias que vocês procuram nos impor. (…) Seus conceitos legais sobre propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são baseados na matéria”.

A Rede queria ser livre, e os protocolos TCP/IP, a cola universal que unia todas as suas peças, haviam sido projetados para que as informações encontrassem sempre o caminho mais curto, mais seguro e mais barato para alcançar seu destino, alheios às fronteiras políticas e geográficas do mundo “real”. Desde então, sua ânsia de liberdade se deparou com diferentes graus de resistência dos Governos, que costuma administrar a expressão de dissidência com apagões seletivos, leis da mordaça e campanhas de propaganda ou desinformação. Uma nova estratégia se configura este ano: a independência. No final das contas, a Internet era sim matéria e começa a se desintegrar.

Apenas dois dias depois de a Internet completar 50 anos, em 29 de outubro, a Rússia declarou sua independência com uma lei de soberania digital. A legislação autoriza seu regulador de telecomunicações local a bloquear conteúdos, serviços ou aplicativos que considere uma ameaça à segurança do Estado, sem ordem prévia, processo ou notificação. Os critérios sobre o que constitui uma ameaça são tão opacos quanto seu plano de execução. E o conteúdo parece ser a Internet como um todo. A lei contempla a necessidade de um botão vermelho para bloquear a Web quando incomodar e um sistema próprio de gestão de domínios para “proteger os cidadãos russos de serem contaminados por conteúdos tóxicos” e a sua infraestrutura de ataques cibernéticos no exterior.

A mordaça na era digital

O sistema de gerenciamento de domínio, ou DNS, é o que diz o que cada coisa significa na Internet, o diretório administrativo que conecta o nome de um site (exemplo: brasil.elpais.com) ao endereço IP do servidor em que se hospeda fisicamente o conteúdo ao qual está associado. É um dos pilares fundamentais da rede globalizada e foi criado em 1983 como um sistema hierarquizado, descentralizado e global. Com um sistema próprio administrado por seu Governo, os cidadãos russos não poderão mais usar redes privadas virtuais (VPNs, na sigla em inglês) para acessar conteúdos controlados ou se comunicar com o exterior.

BRICS, o supergrupo

A Rússia não está sozinha no caminho da autodeterminação digital. “Devemos respeitar o direito de cada país de governar seu próprio ciberespaço”, declarou o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, durante a Segunda Conferência Mundial da Internet, em Wuzhen, em 2015: “Nenhum país deveria buscar a ciberhegemonia ou interferir em assuntos internos de outros Estados”.

A China não possui seu próprio DNS, mas a famosa muralha digital chinesa propiciou um sistema de crédito social baseado na vigilância e punição de seus cidadãos e, também, a expansão de suas três gigantes tecnológicas: Baidu, Alibaba e Tencent. E a do WeChat, um aplicativo que faz tudo (reúne as funções do Facebook, Instagram, Uber, Tinder, YouTube e Skype, entre outros) e serve para pagamentos com o celular e até dar esmolas para os sem-teto. É inegável que o modelo soberanista serve de incentivo para a economia local. A crise do coronavírus, por outro lado, é uma lição sobre suas consequências.

Li Wenliang, o oftalmologista do Hospital Central de Wuhan que primeiro denunciou a irrupção da epidemia, foi silenciado pelas autoridades e detido em 1º de janeiro por “disseminar rumores maliciosos” na Web. Sua morte no mesmo hospital, no dia 6 de fevereiro, mostrou que a densa rede de vigilância chinesa não servia para conter a propagação do vírus, pelo contrário. Naquela manhã, uma hashtag começou a se destacar no Weibo, a versão local do Twitter: “Exigimos liberdade de expressão”. À tarde tinha sido eliminada pelo regime. O coronavírus segue sua expansão letal, mas não haverá outra Tiananmen.

“A China está construindo sua própria Internet focada em seus próprios valores e está exportando essa visão da Internet para outros países”, lamentou Mark Zuckerberg em seu recente discurso de Georgetown. “Há uma década, quase todas as plataformas da Internet eram americanas. Agora, seis das dez primeiras são chinesas”. Em 2018, o cofundador do Google, Eric Schmidt, havia alertado em um evento em San Francisco: “A grande muralha da China nos levará a duas Internets diferentes: uma asiática, dominada pela China, e outra ocidental, dominada pelos EUA”.

Nos últimos meses, o Conselho de Segurança da Federação Russa também anunciou a criação de uma “infraestrutura de rede independente”, junto com a China, o Brasil, a Índia e a África do Sul, o supergrupo de grandes economias emergentes conhecido como BRICS. Se for levada adiante, essa outra Internet ocuparia 25% da superfície planetária e serviria a mais de 40% da população mundial.

“Na verdade, esse espaço utópico e cosmopolita nunca existiu”, explica por email Evgeny Morozov, ensaísta bielorrusso e autor de The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom. “As teorias que formaram nossa percepção da Internet –a aldeia global, o ciberespaço sem lei, o internauta como um cidadão desvinculado do Estado nacional– estão muito longe da realidade”, acrescenta. “Era um pouco como acreditar que o mercado universal, uma vez alcançados todos os cantos do mundo, teria um efeito homogêneo em todos os lugares.”

De fato, vários dos países que abriram a década com a explosão de otimismo da primavera árabe a encerram com apagões, repressão e censura. A Internet não é apenas matéria, mas pode acabar sendo como as reservas de petróleo; em princípio, deveria melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, mas, quando brota nas democracias mais frágeis, transforma-se em maldição.

O bloco halal

“Observando os dados, não vemos uma incidência maior no número de bloqueios, mas em sua magnitude e gravidade”, explica Alp Toker, diretor da Netblocks, uma organização que observa os bloqueios, restrições e ataques cibernéticos em tempo real. A Índia tem o recorde de apagões, com 134 cortes em 2018, e a Caxemira está sem Internet desde agosto de 2019, exceto por uma centena de páginas que o Governo indiano desbloqueou há três semanas. O Paquistão vem logo atrás, seguido pela Síria e a Turquia. Mas a incidência mais notável ocorreu em 15 de novembro, quando o Irã bloqueou o acesso à Internet a 97% de sua população.

O Irã fez isso no momento em que começaram as manifestações em massa por causa do aumento do preço do combustível. Exceto por algumas contas do Governo, foi um blecaute total (Internet, telefone, dados, SMS). Um evento sem precedente. Embora tenham ocorrido milhares de apagões, nunca um país inteiro havia saído da Rede. Enquanto a mídia tenta verificar durante o apagão o número de mortes que ocorreram nos protestos, os engenheiros tentam elucidar como conseguiram retirar da Internet 80 milhões de pessoas de uma vez.

O fato é que o Governo trabalha há anos em uma Internet halal, alinhada ao islã: a National Information Network. “O país não tolera uma rede social que tem sua chave nas mãos dos Estados Unidos”, disse o aiatolá Ahmad Khatami há dois anos.

Obviamente, existe um nicho de mercado para uma Internet muçulmana. Para além dos valores religiosos, segundo Katherine Maher, diretora-executiva da Wikimedia Foundation, há mais de 350 milhões de pessoas que falam árabe no planeta, mas seu idioma ocupa menos de 1% da web. Em 2016, a start-up malasiana Salam Web Technologies lançou um navegador restritivo alinhado aos valores islâmicos, chamado SalamWeb, que atende usuários da Malásia e da Indonésia, mas quer expandir-se por todo o mundo islâmico. Inclui seu próprio agregador de notícias, rede social e sistema de mensagens, o SalamChat.

“Isso não é necessariamente ruim. Ter a própria infraestrutura pode promover um ecossistema econômico próprio e introduzir alternativas locais às plataformas multinacionais”, diz Toker. E acrescenta: “Mas quando isso é feito às custas da conectividade mundial, é um problema de direitos humanos e liberdade de expressão. E não há ninguém vigiando. Estamos tão focados em nossos debates internos que o ecossistema digital está se decompondo e com ele a possibilidade de debate mundial”.

Uma nova guerra fria

Há aspectos do divórcio que transcendem o colonialismo cultural, a perda de diversidade e a polarização do debate. De acordo com o relatório do Oxford Internet Institute sobre propaganda e desinformação, o Irã é um dos sete países que implementam operações de influência estrangeira, junto com China, Rússia, Índia, Paquistão, Arábia Saudita e Venezuela. Sua relação com a guerrilha digital é intensa e pós-traumática: foi o alvo do primeiro ataque cibernético projetado para destruir a infraestrutura industrial.

O Stuxnet foi um vírus insidioso que destruiu mil centrífugas em seu centro de enriquecimento de urânio em 2010 e abriu um mundo de possibilidades aterrorizantes para a guerra cibernética. De acordo com o arquivo de documentos de Snowden, naquele momento o Irã era o país mais vigiado do mundo, tanto pelos EUA quanto por Israel.

O Irã aprendeu a lição: a Rede Global permite causar muitos danos com poucos recursos. Agora, o país “tem a capacidade e a tendência de lançar ataques destrutivos”, declarou recentemente Christopher C. Krebs, diretor de segurança cibernética e infraestrutura do Departamento de Segurança Interna dos EUA. “É preciso ter a consciência de que qualquer ataque poderá ser o definitivo”, acrescentou. Sua divisão lhe atribuiu muitos ataques, incluindo o dos seis principais bancos dos Estados Unidos.

O malware iraniano destruiu 35.000 computadores da companhia estatal de petróleo Saudi Aramco em 2012. Foram necessários dezenas de milhões de dólares para reconstruir o sistema. Desde então, especializou-se em atacar infraestrutura industrial – um terapeuta chamaria isso de compulsão de repetição– entre os vizinhos mais próximos, como sua arqui-inimiga Arábia Saudita.

“A segurança é um espaço multidimensional no qual diferentes objetivos e diferentes atores competem”, explicou David D. Clark, arquiteto-chefe da Internet nos anos 80 e autor do recente e imprescindível Designing an Internet, em uma conferência na sede do Google há pouco mais de um ano. “Para construir uma Internet segura, você deve firmar um compromisso pelo qual todos e cada um dos atores desejem que a sua solução sobreviva”, acrescentou. Mas o que acontece quando esse compromisso desaparece e duas visões antagônicas ocupam o seu lugar?

Proteger-se do outro

“O Irã é um dos atores mais sofisticados”, diz por telefone Bruce Schneier, autor, consultor e um dos maiores especialistas em segurança cibernética. “Ataca empresas, ataca bancos, ataca usinas elétricas, ataca indivíduos. Mas não acho que a balcanização seja principalmente um problema de segurança, acho que o principal problema é de controle e propaganda. A Rede global acabou. Isso já é ruim o bastante.” E complicado. Como se gerencia o divórcio quando a infraestrutura de uma das partes ocupa grande parte da outra? Como nos protegemos de uma China que se torna independente da mesma Rede que depende do 5G da Huawei? “Bem, teremos que ver como isso se desdobra”, ironiza Schneier. “Como não há um ditador da Internet capaz de impedir esse tipo de coisa, tudo pode acontecer.”

Entre os especialistas, há nuances. “No momento, o que estão criando são Internet separáveis, e não separadas”, explica Ángel Gómez de Ágreda, coronel da Força Aérea espanhola, ex-chefe de cooperação do Comando Conjunto de Defesa Cibernética e autor do recente Mundo Orwell: Manual de Supervivencia para un Mundo Hiperconectado. “Isso nos prejudicará no crescimento porque vai fraturar os mercados e, do ponto de vista da segurança, é o equivalente ao escudo antimísseis: ‘Eu posso atirar em você, mas você não pode atirar em mim.’ Estamos criando um mundo medieval, de castelos, onde as vulnerabilidades de uns e de outros serão diferentes.” Entre os dois modelos antagônicos da Rede –global e soberano–, um espectro de países parece não ter voz nem voto nessa separação. “Nós estaremos com o padrão americano e isso não significa que seja perfeito.” Permaneceremos no bloco de uma Rede dominada por plataformas comerciais, um modelo de negócio baseado na exploração maciça de dados que produziu sua própria família de patologias.

“É fácil atacar a ideia da balcanização da Rede argumentando que os maus querem controlar a Internet. Mas, o que aconteceria se fossem os países democráticos, como aconteceu com o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) ou com o direito de ser esquecido?”, argumenta Morozov. “Não estou preocupado com a balcanização da Rede, pois, de qualquer forma, trata-se da desvinculação da esfera econômica e digital controlada pelos Estados Unidos. Os meios de comunicação, por exemplo, possuem regulações diferentes, mesmo dentro da União Europeia –o que é aceitável na Noruega, pode não ser na Itália, e vice-versa. Por isso não acho que devamos nos preocupar com discordâncias na esfera digital só porque nossa concepção original da Internet é um mito de universalismo impossível.”

“A Espanha sozinha não tem margem de manobra”, diz o coronel Gomez de Ágreda, “o que temos, sim, que fazer na Europa é nos perguntar se queremos pertencer a um dos sistemas que estão sendo montados ou ter o nosso sistema separável”. De certa forma, a Europa já faz isso. O RGPD de 2018 separa legalmente os usuários europeus daqueles do restante do mundo. “Podemos criar uma Internet com nossas próprias regras”, conclui Gómez de Ágreda. “Um núcleo de países com os quais compartilhamos uma série de valores.” E esclarece que não se refere estritamente à União Europeia. Isso também começou a se romper.

O capital não dorme! Coronavírus: os negócios globais que conseguiram crescer durante a pandemia

Muitos estão usando a internet para fazer compras, o que pode ser uma notícia boa para o comércio eletrônico; custos, no entanto, têm crescido para as empresas.

Direito de imagem GETTY IMAGES

A pandemia de coronavírus causou muitos problemas para a economia global, mas as medidas de isolamento social que restringem a circulação de pessoas também ajudaram, por outro lado, algumas empresas a prosperar.

No entanto, mesmo nas histórias de sucesso, é preciso interpretar os dados com cuidado.

Por exemplo, muitos estão usando a internet para fazer compras, o que pode ser uma notícia boa para o comércio eletrônico. Mas os números da gigante americana Amazon, no entanto, contam uma história diferente.

Pertencente ao homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, a empresa ganhou as manchetes em meados de abril como uma das vencedoras claras da crise dos coronavírus, com hordas de clientes entrando em seu site e gastando cerca de US$ 11 mil (R$ 63 mil atualmente) por segundo.

Em resposta, as ações da Amazon registraram um aumento histórico.

Mas duas semanas depois, os contadores do grupo se viram diante de uma situação diferente. Dizem que a empresa poderá sofrer perdas pela primeira vez em cinco anos, quando seus dados financeiros forem divulgados entre abril e junho.

Direito de imagem GETTY IMAGES

A empresa diz que terá que gastar US $ 4 bilhões para lidar com a disseminação da covid-19.

Despesas em tempos de coronavírus

Apesar de ter gerado muito mais dinheiro entre janeiro e março, a Amazon enfrenta custos crescentes para lidar com o aumento de pedidos, forçando-a a contratar 175 mil trabalhadores a mais.

A empresa diz que terá que gastar US$ 4 bilhões para lidar com a disseminação da covid-19, que inclui fornecer a seus trabalhadores equipamento de proteção individual e realizar operações de desinfecção em seus gigantescos armazéns.

Esse valor excede os ganhos da Amazon durante o primeiro trimestre de 2019 (US $ 2,5 bilhões).

A Amazon tem resistido há muito tempo aos sindicatos, argumentando que prefere falar diretamente com seus funcionários sobre quaisquer preocupações que eles tenham.

Antes de seu anúncio sobre o custo dos custos da covid-19, a Amazon havia sido criticada por razões de segurança pela forma como trata sua força de trabalho durante a pandemia.

A Netflix ganhou 16 milhões de novos assinantes nos últimos meses – Direito de imagem GETTY IMAGES

O boom do streaming

O setor de entretenimento doméstico tem sido um vencedor claro na quarentena, mantendo uma tendência crescente que já vinha de antes.

Nos últimos anos, o streaming vem se tornando cada vez mais popular.

Apesar do número de pessoas que foram ao cinema em todo o mundo ter crescido 18% nos últimos dois anos, as assinaturas da Netflix aumentaram 47% no mesmo período.

Não é de surpreender que o setor de entretenimento doméstico prospere quando tantas pessoas não têm escolha a não ser ficar em casa.

“Na Itália e na Espanha, por exemplo, as novas instalações de aplicativos da Netflix aumentaram 57% e 34% durante o confinamento (respectivamente)”, disse à BBC o analista de tendências Blake Morgan.

“As pessoas precisam de entretenimento e escapismo agora mais do que nunca.”

A Netflix anunciou em 22 de abril que ganhou quase 16 milhões de novos clientes entre janeiro e abril.

Produções paralisadas e câmbio desfavorável

Mas, mesmo em um caso tão bem-sucedido, há aspectos negativos. As condições de confinamento paralisaram a produção de novas séries e filmes.

Além disso, muitas moedas nacionais perderam valor devido à pandemia, o que significa que os mais novos clientes internacionais da Netflix não estão trazendo tanto dinheiro para a empresa americana.

Outra grande empresa de entretenimento americana que teve lucro mas também perdas durante a pandemia é a Disney.

A empresa teve que fechar seus parques de diversões quando as medidas de contenção foram implementadas. Isso custou à Disney pelo menos US$ 1,4 bilhão, de acordo com o CEO Bob Chapek.

Mas, ao mesmo tempo, a demanda pelos serviços de streaming da Disney explodiu.

A plataforma Disney+, lançada em novembro, agora tem quase 55 milhões de assinantes, número que a Netflix levou cinco anos para obter.

Duas das maiores empresas de entrega do mundo, Fedex e UPS, com sede nos Estados Unidos, pediram ao governo dos EUA apoio para lidar com problemas logísticos causados ​​por restrições impostas pelo confinamento. Direito de imagem GETTY IMAGES

Problemas de logística durante o confinamento.

Poderíamos esperar que o crescente comércio eletrônico também trouxesse lucros para as empresas de entrega que deixam pacotes à sua porta, mas também nesse caso há problemas.

Duas das maiores empresas de entrega do mundo, Fedex e UPS, com sede nos Estados Unidos, pediram ao governo dos EUA apoio para lidar com problemas logísticos causados ​​por restrições impostas pelo confinamento.

Embora tenha havido um aumento no número de clientes particulares comprando online, as operações mais lucrativas são entre empresas, e a demanda dessas empresas caiu porque muitas tiveram que fechar suas portas ou reduzir suas atividades durante a pandemia.

Até agora, os lucros da UPS caíram mais de 26% neste ano.

Profissionais do sexo estão sofrendo com a pandemia.
Direito de imagem GETTY IMAGES

Sexo vende, mas não traz tanto lucro aos profissionais.

Da Colômbia à Dinamarca, houve um aumento na venda de brinquedos sexuais durante o confinamento.

É um ótimo negócio, com um mercado que movimentou quase US$ 27.000 milhões em 2019.

A covid-19 parece ter dado um impulso à indústria de brinquedos sexuais, com empresas especializadas em dispositivos de alta tecnologia que oferecem “experiências de longa distância” se beneficiando do distanciamento social.

Mas o coronavírus gerou perda de renda – e aumentou os riscos à saúde – para profissionais do sexo.

Em muitos países, as trabalhadoras do sexo não têm direitos trabalhistas e não são elegíveis para programas de ajuda do governo, colocando-as na pobreza e deixando algumas sem moradia durante a pandemia.

O Japão é uma exceção, sendo um país que ofereceu ajuda financeira a profissionais do sexo durante esta crise.

Vendas de colchões de ioga cresceram – Direito de imagemGETTY IMAGES

Exercício em confinamento

As restrições de movimento e viagens foram má notícia para as academias, mas a venda de equipamentos de treinamento para quem faz exercício em casa aumentou.

Na Austrália, por exemplo, houve uma corrida por itens de fitness, de pesos a tapetes de ioga.

As vendas do Smartwatch cresceram 22% no início de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, de acordo com um relatório da consultoria Strategy Analytics.

“Muitos clientes usam relógios inteligentes para monitorar sua saúde e exercícios durante o confinamento”, disse à BBC Steven Waltzer, analista da empresa.

Os personal trainers tentam usar a internet para substituir as sessões tradicionais, mas essa situação é difícil para muitos profissionais do setor e várias academias tiveram que fechar suas portas.

Plataforma Zoom permite que músicos no Equador façam transmissões aos fãs – Direito de imagemGETTY IMAGES

Comunicação online e trabalho remoto

Com milhões de pessoas em todo o mundo trabalhando em casa, as ferramentas de comunicação online ganharam popularidade.

A empresa que lidera o negócio de videoconferência é a Zoom; o aplicativo teve mais de 131 milhões de downloads em todo o mundo em abril, segundo a empresa de pesquisa Sensor Tower, 60 vezes mais que o mesmo período do ano anterior.

Mais de 18% desses downloads foram feitos na Índia, e o segundo país da lista são os Estados Unidos, com 14%.

O Zoom tornou-se a escolha preferida de muitas empresas e membros do público.

Embora a maioria das pessoas use a versão gratuita do aplicativo, que possui restrições como limites de tempo em uma chamada, o Zoom ganha dinheiro com usuários que pagam por seus recursos premium. Nos primeiros três meses de 2020, a empresa ganhou US$ 122 milhões, dobrando o que alcançou no mesmo período do ano passado.

Outro vencedor da tendência do “teletrabalho” foi o Slack.

A plataforma de mensagens instantâneas usada pelas empresas para comunicações internas disse que seus assinantes quase dobraram de número entre janeiro e março.

Ações do PayPalbateram recorde no dia 7 de maio
Direito de imagem GETTY IMAGES

Ações do PayPal

Uma das maiores empresas de pagamento digital do mundo, o PayPal, foi severamente afetada pela covid-19. Seu lucro líquido nos primeiros três meses de 2020 caiu para US$ 84 milhões, quase oito vezes menos que no mesmo período do ano passado.

Mas, ao mesmo tempo, as ações do PayPal atingiram seu valor mais alto em 7 de maio.

Como os analistas de mercado explicam isso?

Muitas pessoas enfrentam dificuldades financeiras e podem estar menos dispostas a gastar durante o confinamento, mas a mesma situação também pode incentivá-las a migrar para serviços de pagamento digital, um sinal potencialmente positivo para o futuro do PayPal.

O PayPal registrou 10 milhões de novas contas entre janeiro e março e processou até US$ 199 bilhões, um aumento de US$ 161,5 bilhões em relação ao mesmo período em 2019.

“Acreditamos que estamos alcançando um ponto de inflexão em todo o mundo, onde as pessoas estão vendo como é simples e fácil usar pagamentos digitais para serviços”, disse Dan Schulman, CEO do PayPal, a investidores em uma teleconferência em 6 de maio.

“Pesquisas mostram que agora as pessoas estão mais inclinadas a comprar online do que a voltar à loja”, acrescentou.

Ciências,Educação,Brasil,Matemática,Blog do Mesquita 02 01

Educação: Quarentena e apartheid tecnológico: Brasil não fez da Internet objeto de política pública

O isolamento social durante a pandemia da Covid-19 impôs uma dependência da Internet com a aplicação do trabalho em home office. No entanto, problemas sociais crônicos do Brasil têm transformado a tecnologia em um obstáculo em áreas-chave como a Educação.Tecnologia,Computadores,Blog do Mesquita

Educação a distância é uma das principais preocupações da sociedade brasileira neste momento de isolamento social. A Internet tem sido em muitos aspectos o único canal de comunicação entre a casa das pessoas e o resto do mundo. No entanto, apesar de ser cada vez mais essencial para o funcionamento de diversos setores da sociedade, a pandemia da Covid-19 mostra como as condições de acessibilidade no Brasil carregam as marcas da profunda desigualdade social do país.

A especialista na área de Internet e telecomunicações e coordenadora executiva da organização de comunicação social Intervozes, Marina Pita, lembra que a Internet é “um serviço essencial para o exercício da cidadania, nos termos do Marco Civil da Internet, Lei 12.965/2014 e deveria estar acessível a todos”.

De acordo com ela, diferente de alguns países que adotaram medidas para um acesso mais democrático à Internet, o Brasil não traduz a questão da acessibilidade em políticas públicas, o que aprofunda a desigualdade social no país.

“Veja que o Chile fez um investimento importante em redes de fibra óptica. O Uruguai também investiu no acesso nas áreas rurais e conectou todas as escolas. A opção do Brasil de relevar ao mercado a oferta do serviço de acesso à Internet leva ao aprofundamento das desigualdades”, afirmou.

“Para ter garantida uma série de direitos hoje se depende de Internet. Este quadro é exacerbado em uma situação de distanciamento social, em que pessoas que tinham acesso à Internet em cafés, bares, no emprego, na casa onde fazia faxina, já não têm acesso, ou têm um acesso ainda mais limitado”, acrescentou Marina Pita.

De acordo com os dados levantados pelo coletivo de comunicação social Intervozes, o telefone celular é o único meio de acesso à Internet sobretudo nas classes C (61%), e DE (85%). “Ocorre que nessas classes, o uso da Internet se dá basicamente através da contratação de planos de acesso limitados nos quais o provedor disponibiliza uma franquia de dados”, diz a entidade em nota

Tecnologia a serviço da desigualdade

Uma das áreas que concentrou sua funcionalidade na Internet neste período de isolamento foi a Educação. E é a rede pública de ensino que parece demonstrar um dos retratos mais fiéis da desigualdade social diante da necessidade do uso da tecnologia.

Em 30 de março, o governo do estado do Rio de Janeiro, por exemplo, anunciou uma plataforma on-line para dar continuidade às aulas durante o período da pandemia. No entanto, os alunos que não têm acesso à Internet estão até hoje sem aulas.

Educação a distância é uma das principais preocupações da sociedade brasileira neste momento de isolamento social.

O professor de História e Filosofia da Rede Pública Estadual, Luiz Antônio Andrade, disse à Sputnik Brasil que no Brasil “não existe nenhuma legislação que regule o ensino à distância no ensino básico”. De acordo com ele, a dependência da tecnologia revela uma assimetria entre as condições que as redes pública e privada têm para se adaptar ao ensino remoto.

“A gente nunca pode comparar o ensino público com o ensino privado. O ensino privado é mercado e o perfil do alunado do ensino privado é muito regular. São pessoas de classe média, que têm acesso à Internet e que têm o capital cultural de saber lidar com os programas”, destaca.

“Vários alunos estão com dificuldade de acesso, estão perdidos por que não têm nenhum procedimento uniforme por parte da Seduc [Secretaria de Educação], não existe uma comunicação, nem da direção, nem dos professores. Os próprios professores, muitos que não têm muita habilidade com esse mundo da tecnologia estão sentindo dificuldade e se sentindo desamparados”, acrescenta o professor Luiz Antônio.

Em Minas Gerais, 700 mil alunos devem ficar sem acessar aulas remotas.

Deputada Estadual Laura Serrano (NOVO) defende em artigo que Ensino à Distância durante a pandemia seria “igualdade de oportunidades”. NÃO! Teleaulas do Zema vão excluir 700 mil estudantes, 42% do total. Sinal da Rede Minas chega a apenas 22% das cidades

O coletivo de comunicação social Intervozes também destacou os desafios pedagógicos que a dependência tecnológica impõe aos profissionais.

“Educação vai muito além de disponibilização de conteúdo, ela se faz através da interrelação entre educador e educando, em um processo de apropriação de cultura, construído em conjunto entre esses sujeitos. Isso se faz impossível em meio virtual”, afirma a organização.

Ao comentar sobre as medidas do governo brasileiro em relação a um esforço de garantir uma maior acessibilidade e melhoria dos serviços de conexão, a diretora executiva da Intervozes observou que a Justiça havia decidido manter os serviços de acesso à Internet mesmo em situação de inadimplência pelo período da pandemia. No entanto, a Anatel e governo se posicionaram contrários e derrubaram a liminar na Justiça.

“Além de uma carta genérica assinada entre o setor de telecomunicações e o Ministério da Ciência e Tecnologia, desconheço alguma medida para garantir a conexão dos brasileiros neste momento de pandemia”, completou Marina Pita.