Como a taxação de livros pode afetar os mais pobres

Projeto de reforma tributária do governo Bolsonaro prevê o fim da isenção para livros e taxação de 12%. Além de agravar crise do mercado editorial, mudança pode aprofundar desigualdades no país.

Proposta de taxar livros tem gerado forte repercussão no mercado editorial, que encolheu mais de 20% em uma década

Quando recebeu seu primeiro salário, aos 15 anos, Amaury de Sousa se dirigiu a uma loja da livraria Saraiva e comprou O Abusado, obra do jornalista Caco Barcellos. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, lembra. Ele finalmente poderia ler à vontade, sem o prazo que sua mãe estipulava para devolver os livros que tomava emprestado em uma das casas onde trabalhava como cuidadora de idosos. Tão recheadas eram as estantes, que um vão entre os títulos passava despercebido.

“Eu achava interessante aquelas prateleiras gigantescas e sempre gostei de livros, mas naquele tempo a gente não tinha condição de comprar. Ela me dava uma semana para ler, antes de devolver sem que ninguém notasse”, conta o jovem de 24 anos que foi criado e reside até hoje com a mãe na favela Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Cumprir o prazo era difícil, já que a mãe trazia para o menino de 12 anos clássicos como Microfísica do Poder, de Michel Foucault. “Eram livros muito técnicos. Às vezes eu não entendia nada, ficava voltando na mesma página várias vezes. Mas tinha uma curiosidade incontrolável para entender o mundo, os outros e eu mesmo”, recorda. Rapidamente, a leitura tornou-se a janela para o mundo que não existe no quarto onde dorme, sem luz natural.

Os livros representam para Amaury uma plataforma de transformação social. A bagagem cultural o colocou em vantagem no processo seletivo para atendente na Livraria da Travessa, onde trabalhou por dois anos e intensificou o mergulho literário. Hoje, ele cursa Cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha em projetos audiovisuais.

Os saberes absorvidos e interpretados pelas lentes de sua realidade fizeram com que, desde cedo, despertasse a atenção de produtores internacionais. Ele acaba de roteirizar e filmar um documentário sobre a pandemia nas favelas do Rio para a emissora de televisão japonesa NHK.

Hoje, devido à situação financeira mais confortável, falta espaço na casa apertada para empilhar novos títulos. Toda vez que se depara com um curso que gostaria de fazer e não pode pagar, ele busca um livro que integre as referências bibliográficas. É assim que está aprendendo francês sozinho no momento.

“Valor dos livros cria distanciamento entre o jovem periférico e a literatura”, diz Amaury de Sousa, morador de Santa Marta

O fechamento de lojas físicas durante a pandemia, devido às medidas de restrições sanitárias, afetou ainda mais o setor. Em abril, o mercado livreiro registrou uma perda de 47% no faturamento em comparação ao mesmo mês em 2019, segundo o levantamento Painel Varejo de Livros no Brasil, feito pela Nielsen Bookscan.

“É preciso considerar que esse imposto tem um efeito cascata sobre a cadeia econômica do livro. Estimamos que a mudança possa aumentar o preço final em até 20%”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias e proprietário da editora Letraviva.

Gurbanov destaca que o encarecimento dos livros não terá impactos meramente econômicos. “Não é somente o ato de compra, mas o que o livro significa como veículo de transmissão de informações, conhecimento e produção cultural. Não só do Brasil, mas de todos os países. Os efeitos colaterais serão muito graves, e o Brasil vai pagar muito caro se esse projeto for aprovado”, avalia.

O argumento de Guedes

Para defender a mudança, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem defendido a ideia de que livros são consumidos por camadas de maior renda da população. Nesse sentido, a isenção não se justificaria. Para compensar o impacto sobre os mais pobres, Guedes defende a realização de doações pelo governo — sem explicar como isso seria feito — e a ampliação do Bolsa Família para essa finalidade.

“Vamos dar o livro de graça para o mais frágil, para o mais pobre. Eu também, quando compro meu livro, preciso pagar meu imposto. Então, uma coisa é você focalizar a ajuda. A outra coisa é você, a título de ajudar os mais pobres, na verdade, isentar gente que pode pagar”, disse o ministro durante audiência na Comissão Mista da Reforma Tributária.

Ao defender a ampliação dos programas de transferência de renda, Guedes argumentou que as camadas de menor renda estão mais preocupadas em comprar comida do que livros. “Num primeiro momento, quando fizeram o auxílio emergencial, estavam mais preocupados em sobreviver do que em frequentar as livrarias que nós frequentamos”, declarou Guedes.

Em artigo publicado recentemente na Folha de São Paulo, Luiz Schwarz, editor da Companhia das Letras, contestou a tese do ministro. Ele destacou que na última edição da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, realizada no ano passado, parte expressiva dos 600 mil participantes era de jovens da classe C.

“Na Flup [Festa Literária das Periferias], os dados são ainda mais eloquentes: do público total do evento, 97% se declaram leitores frequentes de livros, 51% têm entre 10 e 29 anos, 72% são não brancos, e 68% pertencem às classes C,D e E”, ressaltou.

Visão de curto prazo

A economista Juliana Damasceno, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), afirma que a reforma tributária deve priorizar uma redistribuição de tributos que vise a correção de distorções que penalizam a economia brasileira atualmente.

“A carga é o ponto final da reforma. A justiça social e estratégia econômica do sistema deveria ser o ponto de partida. Dentro dessa questão estratégica, fomentar educação deveria ser prioridade”, avalia.

Damasceno lembra que os retornos da educação para a economia no longo prazo são amplamente documentados. E defende que é preciso reconhecer a importância do setor de livros, ainda que represente uma parcela mais restrita da educação após os avanços da digitalização.

“Incentivar esse setor vai na direção contrária de aumentar sua carga, o que pode resultar em aumento do preço pro consumidor final. Governos tendem a ter visões mais ‘curto-prazistas’ quando a situação fiscal se aperta. Antes de um plano de recuperação desse forte desequilíbrio fiscal, é difícil pensar no longo prazo, e isso acaba penalizando áreas estratégicas como a educação”, analisa a especialista.

Por que empresários como Bill Gates defendem a cobrança de impostos sobre robôs

Robô humanoide Sophia participa de conferências e já ganhou até cidadania saudita.

Direito de imagemGETTY IMAGES

“A automação prejudicou as cidades industriais. Nesses lugares, o número de novos matrimônios está caindo, o crime está aumentando, há um crescimento nas mortes relacionadas a drogas, álcool e nos suicídios”, diz Carl Frey.

O pesquisador da Universidade de Oxford pinta um cenário deprimente do que já foi o coração da indústria dos Estados Unidos, uma região conhecida como “Rust Belt” (“cinturão da ferrugem”), que engloba cidades como Flint, Detroit e Cleveland, consideradas em um passado não tão longínquo as pontas de lança do crescimento da economia americana.

Frey diz que os trabalhadores desses municípios estão perdendo a guerra pelo emprego para os robôs, que se espalharam pelas linhas de montagem e têm, cada vez mais, substituído a mão de obra humana.

O impacto do avanço da tecnologia sobre o mercado de trabalho e a possibilidade de desemprego em massa como consequência da expansão da automação nas fábricas e no setor de serviços tem levado políticos e empresários como o cofundador da Microsoft Bill Gates a defender que o Estado intervenha para evitar o pior.

Duplo impacto sobre as contas públicas

Trabalhadores sem emprego não pagam os impostos que incidem sobre a folha e, em muitos países, também têm direito a receber benefícios como seguro desemprego. Ou seja, têm peso duplo sobre as finanças públicas.

Nos EUA, para se ter ideia, 48% da arrecadação federal vem da cobrança de impostos sobre a renda e 35%, de contribuições sociais. Apenas 9% vêm da tributação de pessoa jurídica.

É por isso que, para compensar a perda de receita decorrente do desemprego estrutural causado pela maior automação da indústria americana, muitos especialistas defendem a criação de um “imposto sobre robôs”.

Os dois lados do avanço tecnológico

Se, historicamente, o avanço da ciência e da tecnologia deu origem a ganhos de produtividade que elevaram os salários e tornou mais fáceis serviços pesados nas fábricas e nas residências, ele também contribuiu para o desaparecimento de funções que passaram a ser desempenhadas pelas máquinas.Caminhões autônomos vêm sendo testados em algumas regiões da China – Direito de imagem GETTY IMAGES

A primeira Revolução Industrial, por exemplo, permitiu que a humanidade dependesse menos da energia da tração animal. Já a segunda consistiu no uso massivo de eletricidade e da produção em larga escala. A era dos computadores, por sua vez, proporcionou a difusão mais rápida da informação e possibilitou a adoção de ferramentas mais eficientes pelas empresas.

A quarta Revolução Industrial – associada à inteligência artificial e a robótica – tem potencial para transformar completamente os sistemas de produção, de gestão e governança das organizações.

O escopo, a velocidade e a intensidade das mudanças não têm precedentes na História.

Efeitos adversos

Segundo os cálculos de Frey, em 2013, quase 50% dos postos de trabalho nos Estados Unidos estariam em risco nos 30 anos seguintes devido ao avanço da robótica e da inteligência artificial.

Essas seriam vagas perdidas não apenas da indústria, mas também no setor de serviços, em posições que vão de escriturários a motoristas de caminhão.

“Nós ainda não sentimos os efeitos adversos da automação, assim como já observamos os impactos negativos da globalização, por exemplo. Motoristas de caminhão não podem ser terceirizados na China, mas podem ser automatizados”, disse o especialista no programa Business Daily, da BBC World Service.

Um imposto “sobre robôs” poderia eventualmente driblar esses efeitos negativos?

Da ideia à prática

Dois anos atrás, o bilionário e cofundador da Microsoft Bill Gates comentou, em entrevista para o site Quartz, sobre a ideia de se tributar a automação.

Os robôs já substituíram mão de obra humana em fábricas em todo o mundo – Direito de imagem GETTY IMAGES

“Certamente haverá algum tipo de imposto relacionado à automação. Hoje, um trabalhador que receba, digamos, US$ 50 mil em uma fábrica, paga impostos sobre a renda, paga contribuição social, essas coisas. Se um robô começa a desempenhar a mesma função, seria natural se pensar que ele seria tributado em um patamar semelhante”, afirmou o empresário.

O bilionário da tecnologia Elon Musk também já se manifestou a favor do imposto, sob o argumento de que os recursos poderiam ser canalizados para a Saúde e Educação ou mesmo garantir uma renda mínima para todos os cidadãos.

Mas como cobrar um imposto como esse?

Os robôs têm ficado mais inteligentes e criativos – como este da imagem, capaz de desenhar – Direito de imagem GETTY IMAGES

“Você não precisa ir até as empresas para atestar a presença física dos robôs. Você pode ter um tributo que incida sobre automação e que seria pago especialmente por aqueles negócios com baixo nível de geração de empregos. Em paralelo, o governo deveria reduzir a tributação sobre o trabalho em si (para fomentar as contratações)”, defende Ryan Abbott, professor de Direito e Serviços de Saúde da universidade britânica de Surrey.

Como outros colegas, ele não advoga apenas pela cobrança de impostos sobre os robôs humanoides – mas pela tributação de forma mais ampla da inteligência artificial.

Os que defendem a criação do imposto afirmam que o incremento na arrecadação poderia financiar, por exemplo, programas de requalificação e, assim, reduzir as probabilidades de que haja uma ruptura mais violenta na sociedade catalisada por uma situação de desemprego em massa, por exemplo.

“A competição é desleal. Os robôs hoje têm uma grande vantagem em termos tributários. Quando as empresas decidem adotar processos automatizados, eles economizam um volume enorme em tributos. Isso por si só é um incentivo para eles substituírem mão de obra humana por máquinas”, acrescenta.

O exemplo da Coreia do Sul

É isso que a Coreia do Sul está fazendo.

Em 2017, tornou-se o primeiro país a colocar um limite para dedução de impostos para empresas automatizadas para tentar diminuir o ritmo do impacto negativo do avanço da tecnologia sobre o mercado de trabalho.

Não é apenas nas fábricas: avanço da tecnologia vem criado robôs que substituem trabalhadores do setor de serviços, como recepcionistas – Direito de imagem GETTY IMAGES

Na União Europeia, uma proposta para instituir um “imposto sobre robôs” foi recentemente derrotada no Parlamento Europeu. Os legisladores preferiram trabalhar em um texto para regulamentar a disseminação da automação no setor produtivo.

O tema também vem ganhando os holofotes nos EUA. O pré-candidato democrata às eleições presidenciais Andrew Yang propõe, por exemplo, a tributação sobre automação para financiar uma renda básica universal.

“Cerca de 3% da população trabalha no setor de transportes. O escopo potencial da automação e dos veículos autônomos deve causar uma perturbação social ainda maior. Requalificar e garantir benefícios sociais (àqueles que serão negativamente impactados pelas mudanças) é algo necessário. Se o governo não tiver recursos suficientes para financiar tudo isso, os problemas serão ainda piores”, afirma Ryan.

Incentivo para a ‘terceirização’

Mas nem todo mundo concorda.

Robôs também são empregados em trabalhos que envolve alto risco, como a retirada de minas terrestres – Direito de imagem GETTY IMAGES

“Tributar robôs não é uma solução porque as grandes empresas vão acabar levando suas unidades para outros lugares para evitar pagar mais impostos. Apenas as pequenas e médias vão ser prejudicadas”, argumenta Janet Bastiman, da empresa de tecnologia Story Stream.

“As pessoas estão migrando para outras áreas, não necessariamente no setor industrial. A rentabilidade das empresas está aumentando e isso poderia ser tributado”, acrescenta.

Cobrar impostos sobre robôs e sobre sistemas que funcionam com inteligência artificial, ela diz, “vai impedir que as pessoas continuem fazendo coisas novas”.

Ulrich Spiesshofer, ex-CEO da empresa suíça de engenharia ABB, também não está convencido sobre a necessidade de se tributar a automação.

“Se você olhar para economias com os menores níveis de desemprego no mundo e correlacionar esses indicadores com a robótica verá que Alemanha, Japão, Coreia do Sul têm os maiores níveis de robotização, com mais de 300 robôs para cada 10 mil trabalhadores, e as menores taxas de desemprego”, disse, em resposta à ideia de Bill Gates.

“Robotização e automação, riqueza e prosperidade andam lado a lado”, acrescentou em entrevista ao canal CNBC em 2017.

Críticos afirmam, entretanto, que a tecnologia permitiu que as classes mais privilegiadas acumulassem ainda mais patrimônio, enquanto dividiam uma parcela marginal da riqueza gerada pelos avanços com as massas.

Destruição de empregos

Um processo mais amplo de corte de vagas influenciado pelo avanço da tecnologia ainda está por acontecer, mas nem tudo está perdido.

O motor a vapor substituiu a tração animal na indústria
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Embora Carl Frey mantenha a estimativa feita em 2013, uma projeção divulgada no ano passado pela consultoria PwC apontou que, no Reino Unido, a destruição de postos de trabalho pela automação será compensada pela criação de vagas em outras áreas.

Um exemplo nesse sentido pode ser encontrado no mundo do esporte.

Críquete e futebol têm usando a tecnologia para esclarecer os lances que, até pouco tempo, eram definidos apenas pelo julgamento do árbitro e de outros profissionais em campo.

O emprego da tecnologia contribuiu para melhorar a qualidade das tomadas de decisão e eliminar o erro humano – sem, entretanto, acabar com a função de bandeirinhas, árbitro e juiz.

Pelo contrário, esse movimento criou novas posições, de árbitros que ficam fora do campo e a técnicos que configuram e fazem manutenção nas máquinas.

A eliminação de vagas no chão de fábrica, claro, é outra história.

Não há consenso político a respeito do impostos sobre robôs, mas políticos têm cada vez mais considerado essa modalidade como um caminho para lidar com as mudanças trazidas pelo avanço da tecnologia.

 

Política,Blog do Mesquita

O que os deputados e senadores mais ricos do Brasil pensam sobre a desigualdade tributária

Beneficiados por uma política que deixa de taxar grandes rendas, esses milionários chegam a conseguir restituição de 12.000 reais no IR e se preparam para debater a reforma tributária

Deputado Alexis Fonteyne (NOVO) em audiência pública na câmara em 31 de outubro de 2019.
Deputado Alexis Fonteyne (NOVO) em audiência pública na câmara em 31 de outubro de 2019. VINÍCIUS LOURES (CÂMARA DOS DEPUTADOS)

E Fonteyne não é exceção: os parlamentares formam uma espécie de clube de milionários. Quase a metade dos integrantes da Câmara declarou nas eleições de 2018 ter mais de um milhão de reais, enquanto no Senado esse patamar chega a quase 66%. Cabe a essa elite financeira definir políticas públicas e reformas que impactam diretamente na desigualdade, no desemprego e na concentração de renda no país. O quão distante financeiramente estão esses deputados e senadores de suas bases eleitorais? Um relatório da ONG Oxfam feito com base em dados do banco Credit Suisse dá a dimensão do abismo econômico: o patrimônio do brasileiro médio é de 12.000 reais. Além disso, quase 104 milhões de brasileiros viviam, em 2018, com apenas 413 reais per capita, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua.

Dando vida à máxima de que dinheiro atrai dinheiro, Fonteyne, que é o oitavo parlamentar mais rico do Congresso Nacional, recebeu uma restituição em seu Imposto de Renda de 12.000 reais. Ou seja, o que o brasileiro médio tem de patrimônio o deputado recebeu como depósito em conta corrente direto do Fisco. Não teve que pagar nada em sua declaração anual. Mas ele não se mostra indiferente a essas discrepâncias. “Normalmente tenho restituição no Imposto de Renda por causa da distorção do sistema tributário brasileiro. Como sócio de empresa tenho rendimentos não tributáveis. E como tenho três filhos e esposa, tenho direito a deduções com educação e saúde”, explica.

Esse é um dos problemas identificados do sistema tributário brasileiro. “As deduções de serviços de saúde e educação são uma grande disfuncionalidade, beneficiam muito os mais ricos”, explica Thales Nogueira, economista e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Para o professor, as alíquotas priorizam taxar o consumo em detrimento da renda, prejudicando diretamente a parcela mais pobre da população. “O Brasil hoje tem 22,4% de carga de tributos sobre renda, 40,9% de impostos sobre bens e serviços. A média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico é de 33,6% de impostos sobre a renda, e 32% sobre bens e serviços”.

O deputado Fonteyne coloca uma condição para que concorde, num futuro, em ampliar sua colaboração fiscal. Indagado se deveria ser mais tributado, responde: “Eu acho que eu deveria ter mais lucro na minha empresa, e aí sim ser tributado na distribuição de lucros e dividendos”, afirma. “O sistema tributário que temos hoje é uma máquina de exclusão social”, diz. “Aqui o pequeno investidor não tem chance de empreender. E o grande perde competitividade, quebra empresa ou monta sua companhia em outros países. O sistema tributário não pode atrapalhar.”

Existe uma dificuldade no Congresso para aprovar projetos que tributem renda, tendo em vista que a maioria dos parlamentares é milionária? “Não vejo má vontade para tributar a renda. Falo por mim. Tenho boa rentabilidade e fui para Brasília porque eu quero incluir todo o Brasil [na distribuição de renda]”, diz o parlamentar do Novo, pque surgiu com a bandeira de ser uma sigla essencialmente liberal.

O Congresso conta com ferramentas para enfrentar a desigualdade. Uma delas está na mesa e prestes a se tornar um debates mais importantes do ano: a proposta de reforma tributária. Tramita na Câmara a Proposta de Emenda à Constituição 45, de autoria de Baleia Rossi (MDB-SP), ele próprio um multimilionário que declarou mais de 2 milhões de reais de bens ao Tribunal Superior Eleitoral. O pacote prevê a unificação de tributos, mas não mexe na carga tributária ou nas alíquotas, algo que é considerado fundamental para reduzir a desigualdade.

Congresso “começa a despertar” para a desigualdade

Entre os congressistas milionários há os abertamente favoráveis ao aumento na tributação sobre renda. Dono de uma fortuna de mais de 119 milhões de reais, que o coloca no terceiro lugar do pódio dos parlamentares mais ricos, o deputado federal estreante Luiz Flávio Gomes (PSB-SP) lamenta que só agora “o Congresso começa a despertar para o problema da desigualdade, agora que a água começa a chegar no nosso pescoço”. Para ele, “é preciso crescer combatendo as desigualdades, senão teremos risco de comoção social e violenta, como ocorre no Chile”, diz, em referência aos protestos que tomaram conta do país desde outubro. O parlamentar, fundador de uma rede de ensino telepresencial, endossa o discurso de que os super-ricos são beneficiados na cobrança de impostos: “Eu e todos os milionários do mundo pagamos menos imposto do que os pobres. E nosso sistema é regressivo, o pobre paga muito mais impostos. Então existe uma subtributação da riqueza”. Gomes considera a PEC 45 uma “reforma genérica e burocrática”.

Para Gomes, a demora do Congresso em realizar uma reforma tributária que corrija os privilégios de milionários tem a ver com uma certa “má vontade” dos parlamentares, aliada ao fato de que o poder econômico está entrelaçado com o político no Brasil. “Nós temos uma tradição de domínio das classes ricas [que estão na Câmara e no Senado]. Elas dominam não só a economia e as finanças mas também a política”, diz.

A constatação de Gomes sobre seu privilégio tributário é quase um tabu no Brasil, mas não é novidade no mundo. Nos Estados Unidos um grupo de bilionários do qual fazem parte George Soros, Abigail Disney e Chris Hughes assinaram um documento no qual pedem que haja maior tributação de suas fortunas, e um alívio nos impostos cobrados da classe trabalhadora. “Isso reforçará a liberdade e a democracia”, dizem no texto. Os principais candidatos democratas à Presidência, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, também defendem medidas semelhantes.

Além de maior imposto sobre renda, um tributo sobre a herança poderia ser outro mecanismo utilizado para diminuir as desigualdades no Brasil. Aqui esse tributo tem um teto de 8%, enquanto a média internacional é de no mínimo 20%. Mas congressistas não o veem com bons olhos. O senador Vanderlan Cardoso (PP-GO), mais um parlamentar do clube dos milionários do Congresso, com mais de 26,6 milhões de reais declarados, afirma que o tributo “prejudica quem herda”. Empresário, ele defende uma redução da tributação sobre o lucro real das empresas (“pago 34% de imposto na boca do caixa quando minha companhia dá lucro”), e uma tributação menor na distribuição para os sócios “entre 10% e 15%”. “Sou favorável a tributar lucros e dividendos em alguns casos. Em outros, acho que os empresários já pagam muito”. A tributação sobre lucros e dividendos está isenta desde 1995 e volta e meia volta ao debate.

A expectativa é de que a reforma tributária que tramita no Congresso não mexa nos principais mecanismos fiscais que podem ajudar na distribuição da renda e na ampliação da arrecadação. A maior parte das distorções que beneficiam milionários e empresários (como boa parte dos deputados e senadores) não serão atacadas. Existe um texto substitutivo da oposição com propostas mais ousadas neste sentido, mas que deve esbarrar na bancada governista e nos interesses da maioria. “O quão equivocado está nosso sistema tributário? Deixamos de tributar uma parcela muito grande de renda de quem está no topo”, diz o professor Nogueira. “Veja, por exemplo, o Imposto de Propriedade Territorial Rural, o IPTR. Ele representa 0,04% do total da arrecadação. Isso em um país de latifúndios como o nosso”.

Quem são os dez mais ricos do Congresso

Dos dez parlamentares mais ricos do Congresso, seis são estreantes, eleitos pela primeira vez em 2018. A maioria se declara empresário, e na lista há apenas uma mulher

1º: Tasso Jereissati (PSDB-CE), senador – 389 milhões de reais

2º: Oriovisto Guimarães (Podemos-PR), senador – 239 milhões de reais

3º: Luiz Flávio Gomes (PSB-SP), deputado federal – 119 milhões de reais

4º: Hercílio Araújo Diniz Filho (MDB-MG), deputado federal – 38 milhões de reais

5º: Eduardo Girão (Podemos-CE), senador – 36 milhões de reais

6º: Jayme Campos (DEM-MT), senador – 35 milhões de reais

7º: Eduardo Braga (MDB-AM), senador – 31 milhões de reais

8º: Alexis Fonteyne (Novo-SP), deputado federal – 28 milhões de reais

9ª: Magda Mofatto (PR-GO), deputada federal – 28 milhões de reais

10º: Vanderlan Cardoso (PP-GO), senador – 26 milhões de reais

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral

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Brasil só perde para Cuba na lista de países da América Latina que mais pagam impostos

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A carga tributária brasileira chegou a 32,4% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2017, segundo dados da Receita Federal. Na comparação com 2016, a carga teve uma leve alta de aproximadamente 0,2 ponto percentual, puxada, principalmente, pelo aumento dos impostos sobre combustíveis.

Brasil tem carga tributária no patamar de países desenvolvidos, que devolvem os impostos à sociedade na forma de serviços de maior qualidade

Em Cuba, país da América Latina onde os cidadãos mais pagam impostos em comparação ao PIB, esse percentual atingiu 41,7% em 2016, de acordo com o ranking da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em Davos, durante sua primeira viagem internacional como presidente, Jair Bolsonaro repetiu uma promessa de campanha: reduzir e simplificar a carga tributária brasileira. Logo nos primeiros dias do governo Bolsonaro chegou a anunciar aumento da alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) a uma fração mínima – o presidente, contudo, foi desmentido por integrantes de sua equipe, que disseram Bolsonaro se equivocou.

A elevada carga tributária brasileira sempre foi vista como um problema.

Carga tributária na América Latina

(% do PIB)

Lugar País Impostos
1 Cuba 41,7
2 Brasil 32,2
3 Argentina 31,3
4 Uruguai 27,9
5 Bolívia 26
6 Nicarágua 22,6
7 Costa Rica 22,2
8 Honduras 21,4
9 Equador 20,5
10 Chile 20,4
11 Colômbia 19,8
12 El Salvador 17,9
13 Paraguai 17,5
14 México 17,2
15 Panamá 16,6
16 Peru 16,1
17 Venezuela 14,4
18 República Dominicana 13,7
19 Guatemala 12,6
20 Haiti sem info
Fonte: OCDE (2016, últimos dados disponíveis)

A carga média dos países da OCDE, o grupo que reúne os países mas ricos do mundo, foi de 34,3% do PIB em 2016. O valor está acima dos 32,2% contabilizados no Brasil naquele ano. Mas a média dos países latino-americanos e caribenhos é de 23%, o que põe o Brasil no segundo lugar do ranking regional.

Os países onde se pagam menos impostos na América Latina são: Guatemala (12,6% do PIB), República Dominicana (13,7%) e Peru (16,1%), de acordo com os dados de 2016, os últimos disponibilizados pela OCDE.

No outro extremo, estão Cuba (41,7% do PIB), Brasil (32,2%) e Argentina (31,3%)

Especialistas consideram Cuba uma exceção, já que o país vive há décadas sob o embargo comercial imposto pelos Estados Unidos e somente nos últimos dez anos começou intensificar a abertura de sua economia.

Brasil, Argentina e Uruguai, por sua vez, compartilham características comuns em relação à carga tributária.

Mulher caminhandoDireito de imagem GETTY IMAGES
A elevada carga tributária brasileira sempre foi vista como um problema

“Os três têm altas alíquotas de impostos, tanto o imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas quanto os impostos sobre bens e serviços”, diz Santiago Diaz de Sarralde, diretor de Estudos e Pesquisas do Centro Interamericano de Administrações Tributárias (Ciat), com sede no Panamá.

Sarralde diz que a elevada carga tributária permitiu que os três países bancassem mais gastos sociais. “Mas os efeitos de uma alta carga tributária são muito variados de acordo com cada país”, diz ele.

“Há países mais desenvolvidos que funcionam melhor com impostos mais altos, ou com elevada pressão fiscal. Outros funcionam com taxas menores”.

Segundo a OCDE, a Islândia, Dinamarca, França, Bélgica, Suécia e Finlândia estão entre os países onde mais se pagam imposto. São também lugares conhecidos por oferecer a seus cidadãos fortes redes de proteção social e, na avaliação de Santiago Diaz de Sarralde. Ele diz ainda que essas são economias consideradas bastante competitivas.

FinlandesesDireito de imagem GETTY IMAGES
A carga média dos países da OCDE, grupo que reúne os países mais ricos, foi de 34,3% do PIB em 2016

O especialista afirma que é preciso avaliar não apenas a arrecadação, mas o tipo de imposto e como esses países gastam e lidam com o déficit público. “Afinal, são diferentes modelos de sociedade”, observa Sarralde.

As estatísticas de 2016 indicaram uma queda da carga tributária em 0,3 ponto em comparação com o ano anterior na América Latina. Mas a série histórica mostra uma tendência de crescimento.

“Nas últimas três décadas, a carga tributária aumentou na região”, afirma Sarralde.

Se em 2016, a região arrecadou, em média, o equivalente a 23% do PIB em impostos, nos anos 1990 esse montante era 16 pontos percentuais mais baixo.

Mulher caminhando na GuatemalaDireito de imagem GETTY IMAGES
Os cidadãos da Guatemala são os que menos pagam impostos na América Latina

Desafios tributários

Na América Latina há uma grande disparidade da carga tributária. Há países em que se pagam mais de 30% do PIB, e lugares onde o valor total equivale a 12%.

A carga tributária varia de acordo com o nível de renda do país. Alberto Barreix, economista-chefe de gestão fiscal do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) lembra que o outro lado da moeda são os gastos do governo.

cofrinho ao lado de notasDireito de imagem GETTY IMAGES
Especialistas avaliam que há espaço para cobrar mais impostos na América Latina

“As despesas cresceram muito mais e é por isso que temos situações fiscais complexas”, disse Barreix, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. “Há muitos países onde há espaço fiscal para aumentar os impostos. Em alguns, o IVA (imposto sobre valor agregado) e, na maioria dos países, é o imposto de renda.”

Um dos maiores desafios é, segundo Barreix, reduzir a evasão e a sonegação.

E a tendência regional é aumentar, aos poucos, os impostos à medida que a renda dos países aumenta. Barreix, no entanto, adverte: “o problema com o imposto de renda pessoal é que, se eu tiver taxas muito altas, vou contra a poupança”. “É por isso que há espaço para aumentar os impostos, mas você precisa fazer isso com cuidado.”
BBC

Impostos,Presidente francês,Macron,França,Combustíveis Fósseis,Meio Ambiente,Aquecimento Global 1

Presidente francês não cortará imposto sobre combustíveis fósseis

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Em discurso sobre a transição da França para energia renovável, na terça-feira (27), Macron reconheceu não ter ouvido os manifestantes, mas que manterá os impostos sobre combustíveis que passará a ter vigor a partir de 1º de janeiro. Foto: Amaury Laporte/Flickr.

Os protestos, que tomaram conta da França por causa da criação de mais um imposto sobre combustíveis fósseis, lançam luz sobre a dificuldade de governos em promover uma transição da economia tradicional para uma de baixo carbono.

O combate às mudanças climáticas e a necessidade de desenvolver energia limpa se chocam com os interesses mais imediatos da população, que se vê com menos poder de compra. Mas o presidente da França, Emmanuel Macron, se mantém firme na decisão e diz que não cortará o imposto sobre combustíveis fósseis, que entrará em vigor em janeiro, apesar dos protestos que se arrastam há dez dias.

Macron afirma que seguirá em frente no desenvolvimento de energia renovável e reduzirá a energia oriunda da nuclear. Há duas semanas, o presidente francês anunciou um novo imposto sobre os combustíveis fósseis, que entrará em vigor a partir do dia 1º de janeiro. O anúncio desencadeou uma série de protestos por toda a França.

Os “gilets jaunes” ou coletes amarelos (por causa das jaquetas que os motoristas franceses são obrigados a manter em seus carros, em caso de acidentes) começaram a protestar contra o aumento dos impostos sobre combustíveis.

Considerada uma revolta espontânea, sem liderança e interferência partidária, entre as suas fileiras estão aposentados, desempregados, agricultores e donas de casa. No último fim de semana, 80 mil franceses tomaram a avenida Champs-Élysées, que virou um campo de batalha.

Em discurso sobre a transição da França para energia renovável, na terça-feira (27), Macron reconheceu não ter ouvido os manifestantes que bloquearam estradas por toda a França e admite que os trabalhadores que vivem em áreas onde as pessoas são forçadas a usar seus carros estão lutando para sobreviver.

E já fala em concessões: o francês anunciou que o imposto sobre a gasolina e o diesel será adaptado de acordo com a flutuação do preço do barril de petróleo. Se o preço subir, o governo poderá suspender ou reduzir este aumento.

Itaú – A Banca domina o Bananil

Itaú consegue na Justiça deixar de pagar mais de 26 bilhões em impostos, enquanto cortam do pobre, os banqueiros levam a melhor.

Com liminar favorável, Itaú deixa de pagar R$ 26,6 bilhões em impostos.

Em uma ação que se arrasta há anos, o Itaú conseguiu liminar na justiça que impede o Conselho Superior de Recursos Fiscais Administrativos (Carf) de recorrer de uma ação do Tesouro Nacional que envolve a fusão do Itaú e do Unibanco em 2008. Com isto, os cofres públicos deixam de receber com a transação cerca de R$ 26,6 bilhões.

O Itaú originalmente ganhou o processo em abril de 2017. A maioria do conselho entendeu que a estrutura societária utilizada pelos dois bancos no processo de fusão, em 2008, foi legal. Para a maior parte dos conselheiros, não caberia cobrar Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido por ganhos de capital, quando um patrimônio se valoriza ao ser vendido.

O Procurador Geral da Fazenda Nacional (PGFN), no entanto, não concordou e decidiu recorrer da decisão. O banco levou o recurso aos tribunais e o juiz responsável pela supervisão do caso decidiu providenciar liminar favorável ao banco.

Lucro bilionário

Para a Receita Federal, a fusão gerou ganho de capital de R$ 17 bilhões. Isso porque, em 2008, os acionistas do Unibanco receberam ações em duas etapas: primeiramente do Banco Itaú e depois da Itaú Holding (conglomerado que controla o banco). Segundo o Fisco, as ações foram emitidas por R$ 12 bilhões, mas o Itaú recebeu R$ 29 bilhões ao repassar os papéis aos acionistas do Unibanco.

Em julho de 2016, a Operação Zelotes da Polícia Federal (PF) prendeu o ex-relator do processo sob a acusação de que ele tinha cobrado propina do Itaú para votar a favor do banco. Segundo a PF, a própria instituição financeira denunciou o advogado e colaborou com as investigações. O conselheiro foi desligado do Carf.

PGFN recorreu da liminar

A PGFN já recorreu da liminar e aguarda julgamento pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª região. O Itaú afirmou que entendeu que o processo administrativo contra o banco na Carf foi encerrado e considera que o recurso do Tesouro Nacional é incabível. O banco impetrou mandado de segurança para que o Judiciário reconheça que a decisão favorável ao Itaú é definitiva. A recomendação para o papel do Itaú é de compra e o preço alvo para o final de 2018 é de R$ 66.

Com informações do Valor e do InfoMoney

Brasil e impostos – Ricos X Pobres

Brasil cobra mais impostos de pobres do que dos mais ricos, critica centro de estudos da ONU

‘O congelamento da tabela do IR, faz o assalariado pagar bem mais na troca de faixa. Já o banqueiro lucra bem mais e não paga mais imposto’, diz Mônica Bendia

Para ela, as distorções da política fiscal brasileira deveriam colocar o tema entre uma das prioridades dos debates eleitorais, pois o problema fiscal não está apenas “no cobertor curto de impostos e taxas para financiar os gastos previstos, diante do enorme déficit público, sem conta os custos astronômicos da dívida pública”. 

A questão, assinala a consultora, “é que a carga tributária brasileira, além de complexa, é altamente injusta”, acusa. Ao contrário dos países da Europa e dos Estados Unidos, no Brasil “tributa-se muito mais o consumo, via impostos indiretos, do que a renda. O pior é que o Brasil cobra, efetivamente, menos impostos do capital do que do trabalho”, diz.

Ela lembra que os dividendos são isentos de tributação na fonte e que as empresas não pagam tributos quando distribuem dividendos aos controladores sob a forma de Juros sobre o Capital Próprio. 

O resultado é que, na prática, um assalariado que ganha entre R$ 2.826,60 e R$ 3.751,05, sofre desconto de 15% do Imposto de Renda na Fonte termina por pagar uma cesta de impostos e uma carga tributária bem maior do que o dono da grande empresa ou banco em que trabalha, que está isento de tributação sobre JCP.

Mônica Bendia lembra ainda que a tabela do Imposto de Renda na fonte está virtualmente congelada desde 2015. Isso faz com que estava naquele ano na menor das quatro faixas tributadas (R$ 1.903 a R$ 2.826,65), à qual se aplicava IR de 7,5% na fonte, pode ter passo (sem que o aumento natural dos salários fosse acompanhado pela tabela da Receita) para a faixa de 15% de tributação (acima de R$ 2,826,66). A tributação de 22,5% incide de R$ 3.751,06 a R$ 4.664,68). Do mesmo modo, mesmo sem promoção, só com o reajuste do IPCA (da inflação oficial, portanto) alguém que ganhava R$ 4.600 em 2015, pode estar sujeito hoje à tributação de 27,5% na fonte. “Já contra os donos de bancos ou de grandes empresas, nada aumentou em relação à sua carga tributária”, critica Mônica Bendia.

Mônica lembra que a tributação que recai sobre o consumo no Brasil, só perde para a Argentina. É mais do que o dobro comparada à dos Estados Unidos; quase o dobro de França e Canadá e 50% superior à do Reino Unido. Para ela, se o tema não for debatido a fundo na campanha eleitoral, o brasileiro vai continuar reclamando da má qualidade dos serviços públicos porque faltará receita adequada para cobrir os custos, à parte dos desperdícios na administração dos projetos da área social ou nos investimentos. 

Ela lembra que a cobrança de altos encargos sociais como tentativa de custear – sem sucesso – a Previdência Social, é uma prova da distorção. O Brasil tem 26% de cobranças em encargos sociais (basicamente INSS e FGTS, além de PIS e Pasep), nível que só perde para os 38% da França. Mas perde para os 23% dos EUA, os 21% da Argentina, os 19% do Reino Unido e os 16% do Canadá. Mas não fecha o rombo.

E o diagnóstico da consultora tributária é simples: a carga de tributos (a luz e os combustíveis, por exemplo, têm alta carga, que recai sobre os custos de bens com baixa tributação direta como os alimentos não industrializados) acaba tirando boa parte do poder de compra das camadas de média e baixa renda. Em compensação, a baixa carga tributária dos mais ricos (expressa na menor tributação do grupo sobre a propriedade (6%), 30% menor que a da França e Argentina (9%) e quase 50% menor que as de Estados Unidos e Reino Unido (12%) e Canadá (11%), confirma a injusta distorção da carga fiscal brasileira.

O Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), vinculado à ONU (PNUD), já criticou o Brasil pela regressividade de sua carga tributária (os mais pobres pagam proporcionalmente, mais impostos em relação ao rendimentos). Desde 2016, o projeto sobre tributação de lucros, dividendos e dividendos não anda na Câmara.

É bom que o eleitor tenha isso em conta na hora de escolher o seu presidente, seu governador ou seu representante na Câmara ou no Senado Federal e na Assembleia Legislativa: o dinheiro dos governos vem dos nossos impostos (70% a 80% no caso das bebidas e cigarros). Portanto, temos de cobrar o retorno disso.
JB
GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Fatos & Fotos – 10/11/2017

Ballet – Natalia Osipova

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Arte – Joel Meyerowitz – Chichester CanalJoel Meyerowitz- Chichester Canal

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Como fabricar monstros para garantir o poder em 2018

Protesto contra o MAM
Manifestantes protestam no MAM em repúdio à apresentação do coreógrafo Wagner Schwartz no dia 30 de setembro
TIAGO QUEIROZ ESTADÃO CONTEÚDO

Enquanto o país é tomado por assaltantes do dinheiro público, parte dos brasileiros está ocupada caçando pedófilos em museus. 

Pense. Preste atenção na sua vida. Olhe bem para seus problemas. Observe a situação do país. Você acredita mesmo que a grande ameaça para o Brasil – e para você – são os pedófilos? Ou os museus? Quantos pedófilos você conhece? Quantos museus você visitou nos últimos anos para saber o que há lá dentro? Não reaja por reflexo. Reflexo até uma ameba, um indivíduo unicelular, tem. Exija um pouco mais de você. Pense, nem que seja escondido no banheiro.

Seria fascinante, não fosse trágico. Ou é fascinante. E também é trágico. No Brasil atual, os brasileiros perdem direitos duramente conquistados numa velocidade estonteante. A vida fica pior a cada dia. E na semana em que o presidente mais impopular da história recente se safou pela segunda vez de uma denúncia criminal, desta vez por obstrução da justiça e organização criminosa, e se safou distribuindo dinheiro público para deputados e rifando conquistas civilizatórias como o combate ao trabalho escravo, qual é um dos principais assuntos do país?

A pedofilia.

Desde setembro, quando a mostra QueerMuseu – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira foi fechada, em Porto Alegre, pelo Santander Cultural, após ataques liderados por milícias como o Movimento Brasil Livre (MBL), arte, artistas e instituições culturais têm sido atacados e acusados de estimular a pedofilia e/ou de expor as crianças à sexualidade precoce no Brasil. Resumindo: enquanto os brasileiros têm seus direitos roubados, uma parte significativa da população está olhando para o outro lado. Ou, dito de outro modo: sua casa foi tomada por assaltantes de dinheiro público e ladrões de direitos constitucionais, mas você está ocupado caçando pedófilos em museus.

Conveniente, não é? E para quem? A resposta é tão óbvia que qualquer um pode chegar a ela sem ajuda.

Uma pergunta simples: por que os movimentos que ergueram a bandeira anticorrupção para derrubar Dilma Rousseff (PT), uma presidente ruim, mas que a maioria dos brasileiros elegeu, não estão fazendo nenhum movimento para derrubar Michel Temer (PMDB), um homem que só se tornou presidente por força de um impeachment sem base legal, ligado a uma mala de dinheiro e que tem como um dos principais aliados outro homem, Geddel Vieira Lima (PMDB), ligado a mais de 51 milhões de reais escondidos num apartamento? Ou Aécio Neves (PSDB), que em conversa gravada pediu dois milhões de reais a Joesley Batista, um dos donos da JBS, para pagar os advogados que o defendem das denúncias da Operação Lava Jato?

Isso não é corrupção? Isso não merece movimento? Quem mudou? E por quê?

Responda você.

Outra pergunta simples: por que, em vez disso, parte destes movimentos, que se converteu em milícia, criou um problema que não existe justamente num momento em que o Brasil tem problemas reais por todos os lados?

A não ser que você realmente acredite que o problema da sua vida, o que corrói o seu cotidiano, são pedófilos em museus, sugiro que você mesmo responda a essa pergunta. Eu vou buscar responder a algumas outras.

1) Como criar monstros para manipular uma população com medo?

A criação de monstros para manipular uma população assustada não é nenhuma novidade. Ela se repete ao longo da história, com resultados tenebrosos, seguidamente sangrentos. Como muitos já lembraram, a Alemanha nazistaatacou primeiro exposições de arte. Os nazistas criaram o que se chamou de “arte degenerada” e destruíram uma parte do patrimônio cultural do mundo. E, mais tarde, assassinaram 6 milhões de judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com algum tipo de deficiência.

Dê um monstro a uma população com medo, para que ela o despedace, e você está livre para fazer o que quiser. Mas hoje há uma diferença com relação a outras experiências ocorridas na história: a internet. A disseminação do medo e do ódio é muito mais rápida e eficiente, assim como a fabricação de monstros para serem destroçados.

Mas a internet é uma novidade também em outro sentido, que está sendo esquecido pelos linchadores: as imagens nela disseminadas estarão circulando no mundo para sempre. A história não conheceu a maioria dos rostos dos cidadãos comuns que tornaram o nazismo e o holocausto uma realidade possível, apenas para ficar no mesmo exemplo histórico. Eles se tornaram, para os registros, o “cidadão comum”, o “alemão médio” que compactuou com o inominável. Ou mesmo que aderiu a ele.

Aqueles que hoje chamam artistas de “pedófilos” se esquecem de que sua imagem e suas palavras permanecerão para sempre nos arquivos do mundo

Hoje, no caso do Brasil e de outros países que vivem situação parecida, o “cidadão comum” que aponta monstros com o rosto distorcido e estimula o ódio não é mais anônimo e apagável. Ele está identificado. Seus netos e bisnetos o reconhecerão nas imagens. Seu esgar de ódio permanecerá para a posteridade.

Será interessante acompanhar como isso mudará o processo de um povo lidar com sua memória. E com sua vergonha. Tudo é tão instantâneo e imediato na internet, tão presente contínuo, que muitos parecem estar se esquecendo de que estão construindo memória sobre si mesmos. Memória que ficará para sempre nos arquivos do mundo.

2) Como criar uma base eleitoral para “botar ordem na casa” sem mudar a ordem da casa?

A fabricação de monstros é uma forma de controle de um grupo sobre todos os outros. A escolha do “monstro” da vez é, portanto, uma escolha política. O que se cria hoje no Brasil é uma base eleitoral para 2018. Uma capaz de votar em alguém que controle o descontrole, alguém que “bote ordem na casa”. Mas que bote ordem na casa sem mudar a ordem da casa. Este é o ponto.

A escolha do “monstro” da vez é uma escolha política

Primeiro, derrubou-se a presidente eleita com a bandeira anticorrupção. Mas aqueles com os quais esses movimentos se aliaram eram corruptos que tornaram a mala de dinheiro uma referência ultrapassada, ao lançar o apartamento de dinheiro. Personagens desacreditados, políticos desacreditados, como então manter as oligarquias no poder para que nada mude mas pareça mudar? Capturando o medo e o ódio da população mais influenciável e canalizando-os para outro alvo.

A técnica é antiga e segue muito eficiente. Enquanto a turba grita diante de museus (museus!), às suas costas o butim segue sendo dividido entre poucos. Rastreia-se qualquer exposição cultural com potencial para factoides, o que é bem fácil, já que o nu faz parte da arte desde a pré-história, e alimenta-se o ódio e os odiadores com monstros fictícios semana após semana. Aos poucos, a sensação de que o presente e o futuro estão ameaçados infiltra-se no cérebro de cada um.

E é um fato. O presente e o futuro estão ameaçados no Brasil porque há menos dinheiro para saúde e educação, porque a Amazônia está sendo roubada e porque direitos profundamente ligados à existência de cada um estão sendo exterminados por um Congresso formado em grande parte por corruptos. Mas como isso está deslocado, parece que a ameaça está em outro lugar. Neste caso, na arte, nos artistas, nos museus. Com o ódio deslocado para um monstro que não existe, homens que pregam e praticam monstruosidades aumentam suas chances de serem eleitos e reeleitos e as monstruosidades históricas seguem se perpetuando.

Com o ódio deslocado para um monstro que não existe, oprimidos votam em opressores acreditando que se libertam

É assim que se cria uma base eleitoral que vota para botar ordem na casa, mas não para mudar a ordem da casa. É assim que oprimidos votam em opressores acreditando que se libertam. É assim que se faz uma democracia sem povo – uma impossibilidade lógica que se realizou no Brasil.

3) Por que o “pedófilo” é o “monstro” perfeito para o momento político?

Por que o “pedófilo” e não outro? Esta é uma pergunta que vale a pena ser feita. Há muitas respostas possíveis. Já se tentou – e ainda se tenta – monstrificar muita gente. O aborto foi a moeda eleitoral da eleição de 2010 e os defensores do direito de as mulheres interromperem uma gestação indesejada foram chamados de “assassinos de fetos”. Gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros estão sempre na mira, como os episódios homofóbicos e o assassinato de LGBTs nos últimos anos mostraram. Feminismo e feministas, em algumas páginas do Facebook, viraram palavrões.

A tentativa acaba de ser reeditada com os protestos contra a palestra da filósofa americana Judith Butler no SESC, em São Paulo. Ela participará do ciclo de debates intitulado Os fins da democracia, entre 7 e 9 de novembro. Acusam-na, vejam só, de “inventar a ideologia de gênero”. A vergonha alheia só não é maior porque quem tem um presidente como Donald Trump é capaz de entender em profundidade tanto o oportunismo quanto a burrice.

Mas, se as tentativas de monstrificar pessoas são constantes, há grupos organizados para defender os direitos das mulheres sobre o seu corpo e para denunciar a homofobia e a transfobia. E estes grupos não permitem mais a conversão de seus corpos em monstruosidades e de seus direitos em monstruosidades. Nestes campos, há resistência. E ela é forte.

Qual é, então, o monstro mais monstro deste momento histórico, o monstro indefensável? O pedófilo, claro. Quem vai defender um adulto que abusa de crianças? Ninguém.

Mas há um problema. Os pedófilos não andam por aí nem são uma categoria. A maioria, aliás, como as estatísticas mostram, está dentro de casa ou muito perto dela. Ao contrário de muitos que apontam o dedo diante de museus, eu já escutei vários pedófilos reais como repórter. E posso afirmar que são humanos e que a maioria sofre. E posso afirmar também que uma parte deles foi abusada na infância. Posso afirmar ainda que nem todos sofrem, mas todos precisam de ajuda. Ajuda que, aliás, eles (e elas) não têm.

Como então criar uma epidemia de pedofilia sem pedófilos disponíveis? Fabricando pedófilos. Espelhando-se em Hitler e criando uma “arte degenerada”. Manipulando todos os temores ligados à sexualidade humana. E manipulando especialmente uma ideia de criança pura e de infância ameaçada.

Como criar uma epidemia de pedofilia sem pedófilos disponíveis? Espelhando-se em Hitler e criando uma “arte degenerada”

A infância está, sim, ameaçada. Mas pela falta de investimento em educação e em saúde, pela destruição da floresta amazônica e pela corrosão das fontes de água, pela contaminação dos alimentos, pela destruição dos direitos que não terão mais quando chegarem à vida adulta. São estas as maiores ameaças contra as crianças brasileiras de hoje – e não falsos pedófilos em museus.

As crianças e seu futuro, aliás, estão ameaçados porque há menos museus do que deveria, menos centros culturais do que deveria e muito menos acesso aos que ainda existem do que seria necessário. Estas são as ameaças reais à infância deste momento do Brasil.

Nenhum dos artistas acusados de pedofilia ou de estimular a pedofilia é pedófilo. Mas quando provarem isso na justiça, caso dos que estão sendo investigados, sua vida ou uma parte significativa dela já foi destruída. E quem se responsabilizará pela destruição de uma vida humana? Quem se responsabilizará pelo ataque à cultura, já tão maltratada neste país?

Você, que grita e aponta o dedo e o celular, fabricando falsificações, precisa se responsabilizar pelas vidas que destrói

Você, que grita e aponta o dedo e a câmera do celular, destruindo vidas e fabricando falsificações, precisa se responsabilizar pelos seus atos. Porque vidas humanas estão sendo destruídas de fato. E são as daqueles que estão sendo acusados injustamente de serem o que a humanidade definiu como “monstros”. E é a vida de todos nós que teremos ainda menos acesso à cultura num país em que sobram muros e presídios, mas faltam escolas, centros culturais e museus.

4) Por que manipular os tabus relacionados à sexualidade é uma forma eficiente de criar uma base eleitoral?

Como fazer para criar uma base eleitoral que vote naqueles que acabaram de espoliá-la? Apele para a moralidade. Não há maneira mais eficiente de fazer isso que manipular os temores que envolvem a sexualidade. Os exemplos históricos são infinitos. Quem controla a sexualidade controla os corpos. Quem controla os corpos controla as mentes. Quem controla as mentes leva o voto para onde quiser. E também arregimenta apoio para projetos autoritários.

De repente, uma parcela de brasileiros, incitada pelas milícias de ódio, decidiu que a nudez humana é imoral. E fabricaram uma equação esdrúxula: corpo adulto nu + criança = pedofilia. Pela lógica, se esse pessoal fosse a Florença, na Itália, tentariam destruir a machadadas o Davi de Michelangelo, porque ele tem pinto.

Quem controla a sexualidade, controla os corpos. Quem controla os corpo e as mentes, leva o voto para onde quiser

Não há registro de que as milhões de crianças que tiveram o privilégio de ver a estátua ao vivo, levadas por pais ou por professores em visitas escolares, tenham se sentido sexualmente abusadas ou tenham vivido algum trauma. Mas há inúmeros registros de crianças traumatizadas na infância pela repressão à sexualidade inerente aos humanos.

Crianças têm pênis, crianças têm vagina, crianças têm sexualidade. É lidando de modo natural com essa dimensão da existência humana que se forma adultos capazes de respeitar a sexualidade, o desejo e a vida do outro. É conversando sobre isso e não reprimindo que se forma adultos capazes de respeitar os limites impostos pelo outro na experiência sexual compartilhada. É informando e não desinformando sobre essa dimensão da existência humana que se forma adultos que não se tornarão abusadores de crianças.

5) Por que a arte e os artistas são os alvos do momento?

A decisão que o Museu de Arte de São Paulo (MASP) tomou, de proibir a exposição Histórias da Sexualidade, aberta em 20 de outubro, para menores de 18 anos, é uma afronta à arte – e uma afronta à cidadania. É compactuar com o oportunismo das milícias de ódio. É aceitar que nudez e pornografia são o mesmo. É destruir a ideia do que é uma exposição de arte. E é, principalmente, abdicar do dever ético de resistir ao obscurantismo. Do mesmo modo, foi abjeta a decisão do Santander Cultural de encerrar a exposição Queermuseu depois dos ataques.

Os oportunistas e seu projeto de poder vencem e o pior acontece pelas concessões e recuos de instituições que têm a obrigação de resistir

Que uma turba incitada por milícias de ódio ataque exposições de arte é lamentável. Mas que as instituições se dobrem a elas é ainda pior. A resistência é necessária justamente quando é mais difícil resistir. É pelas fissuras que se abrem, pelas concessões que são feitas, pelos recuos estratégicos que os oportunistas e seu projeto de poder vencem e o pior acontece. Também isso a história já mostrou. Não é hora de se dobrar. É hora de riscar o chão e resistir.

Por que a arte e os artistas? Esta é uma pergunta interessante. Mesmo que isso não seja óbvio para todos, é a arte que expande a nossa consciência mais do que qualquer outra experiência, justamente por deslocar o lugar do real. Ao fazer isso, ela amplia a nossa capacidade de enxergar além do óbvio – e além do que nos é dado a ver. Não há nada mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos sobre muitos do que a arte.

A arte é o além do mundo que, depois de nos tirar do lugar, nos devolve ao lugar além de nós mesmos. Somos, a partir de cada experiência, nós e além de nós. Esta é uma vivência transgressora e à prova de manipulações. E esta é uma vivência profundamente humana, como mostram as pinturas encontradas nas cavernas deixadas por nossos ancestrais pré-históricos. Por isso não é por acaso que regimes de opressão começaram com ataques contra a arte e os artistas.

Não há nada mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos sobre muitos do que a arte

Ao literalizar a arte, interpretando o que é representação como realidade factual, assassina-se a arte. Quando Salvador Dalí faz um relógio derretido em uma paisagem de sonho, ele não está afirmando que relógios derretidos existem daquela maneira nem paisagens como aquela podem ser vistas no mundo de fora, mas está invocando outras realidades que nos habitam e que vão provocar reflexões diferentes em cada pessoa. Literalizar a arte é uma monstruosidade que tem sido cometida contra obras e artistas desde que o cotidiano de exceção se instalou no Brasil.

O outro motivo é mais prosaico. Artistas podem ser muito populares e influenciadores do momento político. A admiração pela obra seguidamente é transferida para a pessoa. E por isso essa pessoa, quando fala e opina, é ouvida. É nesta chave que pode ser compreendida a tentativa de destruição de Caetano Veloso, acusando-o de pedofilia por ter tido relações sexuais com sua mulher, Paula Lavigne, quando ela tinha 13 anos.

Essa história é conhecida há décadas, pela voz da própria Paula. Mas só agora despontou colada a uma acusação de pedofilia. Caetano Veloso é um dos artistas que mais se posiciona politicamente no Brasil atual. Recentemente, foi Paula Lavigne que liderou uma reação dos artistas a um dos ataques de Temer e da bancada ruralista contra a floresta amazônica. Minar a influência de ambos, assim como a sua vontade de se posicionar e manifestar-se por medo de mais ataques, é uma estratégia. Afinal, quem ouviria a opinião política ou as denúncias feitas por um “pedófilo”? Por mais que se lute, e poucos têm tantas condições de resistir como Caetano Veloso e Paula Lavigne, uma acusação deste porte costuma deixar marcas internas.

6) Quem são os políticos e as religiões que se aliam aos fabricantes de pedófilos com o olhar fincado em 2018?

Quando o momento mais agudo da disputa passar, se passar, haverá muitos mortos pelo caminho. Em especial os invisíveis, aqueles que terão medo de tocar nos próprios filhos pelo temor de serem acusados de pedofilia, os professores que optarão por livros sem menções à sexualidade para não correrem o risco de serem linchados por pais enlouquecidos e demitidos por diretores pusilânimes, as pessoas que cada vez mais têm medo de se contrapor à turba, os artistas que preferirão não fazer. E os que deixarão o Brasil por não suportar os movimentos brasileiros livres de inteligência ou temerem por sua vida diante dos odiadores. As marcas invisíveis, mas que agem sobre as funduras de cada um, são as piores e as mais difíceis de serem superadas.

Quando a gente via no cinema as turbas enlouquecidas assistindo às execuções medievais como se fossem uma festa, gritando por mais sangue, mais sofrimento, mais mortes, era possível pensar que algo assim já não seria possível depois de tantos séculos. Mas mesmo que as fogueiras (ainda) não tenham sido acesas, o que se vive hoje no Brasil é muito semelhante.

Os pedófilos de hoje são as bruxas de ontem. E são tão pedófilos quanto as bruxas eram bruxas

Os pedófilos de hoje são as bruxas de ontem. E são tão pedófilos quanto as bruxas eram bruxas. E as fogueiras começam na internet, mas se alastram pela vida. Há muitas formas de destruir pessoas. A crueldade é sempre criativa. E as milícias já deixaram um rastro de devastação. Vale tudo para cumprir o propósito de limpar o campo político para 2018.

Para isso, contam menos com a ala conservadora da Igreja Católica e mais com parte das igrejas pentecostais e neopentecostais, com o fenômeno que se pode chamar de “fundamentalismo evangélico à brasileira” e sua crescente influência política e também partidária. Quem acompanha grupos de WhatsApp dos fieis fundamentalistas recebe dia após dia vídeos de pastores falando contra a arte e a pedofilia. A impressão é que o Brasil virou Sodoma e Gomorra e que um pedófilo saltará sobre seu filho, neto ou sobrinho assim que abrir a porta da casa. Grande parte destas pessoas – e isso não é culpa delas – jamais teve acesso a um museu ou a uma exposição de arte.

As articulações que estão sendo feitas para 2018 são cada vez mais fascinantes, não fossem assustadoras. Na apresentação do artista Wagner Schwartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), realizada em 26 de setembro, o coreógrafo fazia uma interpretação de Bicho, uma obra viva de Lygia Clark, constituída por uma série de esculturas com dobradiças que permite que as pessoas saiam do lugar de espectadoras passivas e se tornem parte ativa da obra. Nesta leitura de Bicho, que resultou em ataques de ódio, o coreógrafo, nu e vulnerável, podia ser tocado e colocado em qualquer posição pela plateia. Um vídeo divulgado pela internet mostrando uma criança tocando o performer, devidamente acompanhada por sua mãe, foi o suficiente para protestos de ódio. O artista foi chamado de “pedófilo” – e o museu foi acusado de incentivar a pedofilia.

Observe bem os dois políticos que se alçaram a protetores das crianças brasileiras ameaçadas pela arte: João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro (PSC)

Vale a pena observar quem foram os dois candidatos a presidenciáveis que se manifestaram por meio de vídeos divulgados na internet: João Doria(PSDB) e Jair Bolsonaro (PSC). Doria, que gosta de posar como culto e cidadão do mundo, mostrou mais uma vez até onde pode chegar em sua luta pelo poder. Classificou a coreografia como “cena libidinosa”. Afirmou que a performance “fere o Estatuto da Criança e do Adolescente e, ao ferir, ele está cometendo uma impropriedade, uma ilegalidade, e deve ser imediatamente retirado, além de condenado”. E aplicou o bordão: “Tudo tem limites!”.

Doria, o protetor das crianças brasileiras, dias atrás anunciou (e depois das críticas recuou momentaneamente) que incluiria um “alimento” feito com produtos próximos do vencimento na merenda escolar das crianças de São Paulo.

Jair Bolsonaro, capitão da reserva do Exército e em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para 2018, vociferou: “É a pedofilia!”. E, em seguida: “Canalhas! Mil vez canalhas! A hora de vocês está chegando!”. Justamente ele, que não se cansa de repetir que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos assassinos da ditadura, é o seu herói.

Ustra, apenas para lembrar de um episódio, levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos aplicados em todo o seu corpo e também nos genitais. Este é o farol de Bolsonaro, o protetor das crianças brasileiras.

7) Como parte do empresariado nacional se articula com os ataques à arte enquanto apoia o retrocesso em nome do lucro?

Nenhuma distopia foi capaz de prever o Brasil atual. Parte da explicação pode ser encontrada no artigo de Flávio Rocha, presidente do Riachuelo, um dos principais grupos do setor têxtil do país, e vice-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), publicado na página de Opinião do principal jornal brasileiro, em 22 de outubro. No texto, intitulado “O comunista está nu”, o empresário ressuscita a ameaça do comunismo, discurso tão presente nos dias que antecederam o golpe civil-militar de 1964, que mergulhou o Brasil numa ditadura que durou 21 anos. O empresário escreveu este texto, vale lembrar, num Brasil tão à direita que até a esquerda foi deslocada para o centro. Diz este expoente da indústria nacional:

“O movimento comunista vem construindo um caminho que, embora sinuoso, leva ao mesmo destino: a ditadura do proletariado exaltada pelo marxismo. (…) Nas últimas semanas assistimos a mais um capítulo dessa revolução tão dissimulada e subliminar quanto insidiosa. Duas exposições de arte estiveram no centro das atenções da mídia ao promoverem o contato de crianças com quadros eróticos e a exibição de um corpo nu, tudo inadequado para a faixa etária. (…) São todos tópicos da mesma cartilha, que visa à hegemonia cultural como meio de chegar ao comunismo. Ante tal estratégia, Lênin e companhia parecem um tanto ingênuos. À imensa maioria dos brasileiros que não compactua com ditaduras de qualquer cor, resta zelar pelos valores de nossa sociedade”.

A indigência intelectual de uma parcela significativa da elite econômica brasileira só não é maior do que o seu oportunismo

A indigência intelectual de uma parcela significativa da elite econômica brasileira só não é maior do que o seu oportunismo. É também parte da explicação da face mais atrasada do Brasil. É ainda um constrangimento, talvez uma falha cognitiva. Mas certo tipo de empresário está aí, pontificando em arena nobre. Sem esquecer jamais que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) de Paulo Skaf apoiou diretamente os movimentos que lideraram as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff , tornando-se uma das principais responsáveis pela atual configuração do governo corrupto que está no poder.

Há algo interessante sobre Flávio Rocha, esse personagem amigo de João Doria e, como o prefeito de São Paulo, apoiado pelo MBL. Como mostrou reportagem da Repórter Brasil, uma das fontes sobre trabalho escravo mais respeitadas do país, o grupo Riachuelo tem sido acusado nos últimos anos por abusos físicos e psicológicos de trabalhadores. Flávio Rocha, como já demonstrou, é um dos interessados em “flexibilizar” a legislação e a fiscalização. Para isso, conta com o apoio do MBL, que chegou a convocar um protesto contra o Ministério Público do Trabalho em Natal, no Rio Grande do Norte.

Em 16 de outubro, o governo Temer publicou uma portaria, claramente inconstitucional, que reduz os casos que podem ser enquadrados em trabalho escravo. O problema é gravíssimo no Brasil, que ainda convive com situações de escravidão contemporânea. Hoje, a portaria está temporariamente cassada por liminar concedida pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, a pedido do partido Rede Sustentabilidade. Restringir o combate à escravidão foi parte do pagamento de Michel Temer aos deputados que o absolveram na semana passada e às oligarquias que representam. Estes “liberais” querem voltar a escravizar livremente. E estão conseguindo.

Mas, claro, o problema do Brasil são os pedófilos em museus. E, como o presidente do grupo Riachuelo tem a gentileza de nos alertar, a volta dos comunistas que comem criancinhas.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

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Só dói quando eu rioHumor,Políticos,Duke,Blog do Mesquita
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” Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves da alma.”
( Cora Coralina )

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Não sou somente eu quem “pastora”, há anos, as maquinações do tesoureiro da NWO. As ONGs no Brasil e na Amazônia – 125mil somente na Amazônia – cerca de 80% são financiadas por ele através da “Open Society Foundation”. Tanto as de “esquerda” como as de “direita” atuam conforme o decidido lá em 1944 na Conferência de Bretton Woods, USA. Da TFP ao MST. Dos Patos aos Mortadelas. Imaginem o quanto ele atua no bordel do Congresso Nacional.

No total, ele apoia mais de 500 organizações ao redor do mundo e doou nas últimas duas décadas uma estimativa de 11 bilhões de dólares a à diversas organizações. Todas existem para gerar o caos nas nações. “Divide & Conquer”.

Soros é um dos maiores defensores das benesses da imigração para a economia europeia. Aí os tolos acreditam que os “barbudins” se explodem em busca do paraíso com 70 virgens e rios de mel – aliás tal paraíso não existe no Corão.

Soro contola diretamente e financia;
Open Society Fondation;; Univ.Centro Européia;Quantum Group of Founds;Soros Fund Management; MoveON;International Crisis Group;Democracy Alliance;Black Lives Matter;The Center for American Progress;America Coming Together;The Pro-Marijuana Drug Policy Aliance;Zimbabwe`s Movevent for Democratic Change;The Georgian Open Society Foundation.

Acessem o site da arapuca do Soros para terem uma ideia da capilaridade de atuação do Húngaro-Americano, o manipuladorr da Desordem Mundial, a serviço do Globalismo.
https://www.opensocietyfoundations.org/

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Como confiar num judiciário – siiiiiiim. Há quem o faça – que recebe como “punição” aposentadoria com salário integral?
E também há Tapuias que acreditam ainda que justiça é igual para todos.
“CNJ condena juízes que fraudaram precatório bilionário. O Conselho aplicou a pena máxima: aposentadoria compulsória.
CNJ condena juízes que fraudaram precatório bilionário. Conselho aplicou a pena máxima: aposentadoria compulsória”
Só perguntando a visceral opinião de Golfado, meu vomitador oficial.

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Exército Brasileiro em patrulhamento na floresta

Tropas do Brasil, Peru e Colômbia iniciaram uma operação de treinamento conjunto para atuar em emergências humanitárias na cidade brasileira de Tabatinga, no Estado do Amazonas, nesta segunda-feira. A ação conta com o apoio dos Estados Unidos.

Segundo o Ministério da Defesa do Brasil, este é um ótimo exercício logístico “sem precedentes na América do Sul”, que acontecerá até 13 de novembro na fronteira tripla entre o Brasil, a Colômbia e o Peru.

Estes exercícios, denominados AmazonLog17, terão a participação de 1.940 soldados, dos quais 1.550 são brasileiros e “observadores militares de nações amigas”, de acordo com o ministério.

A Colômbia envia 150 militares, o Peru outros 120 e os EUA cerca de trinta soldados, enquanto países como Rússia, Canadá, Venezuela, França, Reino Unido e Japão terão menos de dez representantes cada.

A maioria dos exercícios envolvem transporte, logística, manutenção, evacuação e engenharia em caso de catástrofes. Durante o treinamento serão realizadas simulações relacionadas aos sistemas de ferimento e evacuação da área.

Ministro Raul Jungmann
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
O centro de operações será a Base Integrada de Logística Multinacional, a partir da qual serão coordenados os Problemas Militares Simultâneos e as ações com tropas e meios, que constituem a dinâmica de execução do exercício multinacional.

Além dos exercícios militares, haverá também uma ação cívico-social para beneficiar a população local, além de visitas médicas e dentárias fornecidas pelo Hospital da Campanha.

E não é só: de acordo com o Exército brasileiro, o evento deixará um legado nesta pequena cidade de 20 mil habitantes localizada no meio da Amazônia.

Em face do evento, uma parte da rede elétrica foi melhorada e a área onde os exercícios estão centralizados pode se tornar um parque público no futuro.

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Arquitetura – EscadasArquitetura,Escadas,Blog do Mesquita 1Arquitetura,Escadas,Blog do Mesquita 1 Arquitetura,Escadas,Blog do Mesquita 1

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Dinheiro está sobrando na Prefeitura do Rio de Janeiro.
Os gastos do “santo” Crivella
Apesar das frequentes queixas de problemas financeiros no caixa do município, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (), ganhou o direito de gastar mais em suas viagens ao exterior.

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Blog do Mesquita,Mortadela

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Fotografia de Hanni Juni de Kuching,Malasya,2017
Bagan in the morning,Hanni Juni de Kuching,MalasyaArte,Fotografia,Bagan in the morning,Hanni Juni de Kuching,Malasya,2017

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ResistênciaResistência,Blog do Mesquita

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Criaturas “ariadas” ponham a funcionar o meio neurônio que possuem.
Criatura 1 – Não estou aqui argumentando sobre a competência do jornalista, mas a serviço de quem e do que essa competência está a serviço.
Criatura 2 – “Ah!, mas ele não é racista. Foi só uma maneira jocosa de se expressar”. Foi né? Jocosa né?
Já ouviste falar em um tal de Freud? Em ato falho? Não né? Então tá.

William Waack foi afastado do Jornal da Globo – Fatos & Fotos – 09/11/2017

william William Waack tem histórico de desprezo por pessoas

(Foto: Reprodução/Globo)

O afastamento do apresentador do Jornal da Globo nesta quarta (8) é algo que vem “coroar” uma trajetória bem complicada. O motivo, como você deve ter acompanhado, foi o vazamento de um vídeo do ano passado em que Waack diz uma frase racista. A atitude da Globo é corretíssima e não há o que questionar, ainda mais depois da pressão das pessoas na internet. Mas o jornalista já demonstrou outras vezes o seu desprezo por alguns tipos de pessoas.

Durante as olimpíadas no Rio, também ano passado, William teve de entrevistar Anitta, que havia se apresentado na abertura dos jogos com Gil e Caetano. Dava para notar claramente que o apresentador tinha um certo desprezo pela cantora. Certamente ele a considerava indigna de estar ali naquela festa e ao lado de dois “monstros sagrados” da MPB. O que deu para ver é que deve ter sido um fardo para Waack entrevistar a estrela pop.

Não parou por aí. William também não se deu bem ao dividir a câmera com Cris Dias, nas olimpíadas. Eles tiveram várias rusgas ao vivo, com ele novamente desprezando a moça e gerando alguns momentos constrangedores. Ele não queria em nenhum momento deixar parecer que estava sendo passado para trás pela moça.

Isso tudo sem contar a saída, suspeita até hoje, de Christiane Pelajo, que dividia a bancada com ele no Jornal da Globo. Muita gente credita a Waack o afastamento da jornalista. E, na tela, era possível notar que a relação dele com ela era de superioridade.

E como não se lembrar do vídeo, esse foi ao ar oficialmente, em que William chama a jornalista Zelda Melo de “Zelda Merda”? Este momento já virou até um clássico da delicadeza de Waack.

Enfim, agora é esperar o resultado de tudo isso. A Globo terá de ser dura.

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Arte – Ilustrações de Victor NizovtsevArte,Ilustração,Blog do Mesquita,Victor NizovtsevArte,Ilustração,Blog do Mesquita,Victor Nizovtsev

Confiança na economia do Bananil?Henrique Meirelles,Blog do Mesquita
Ninguém a demonstra mais do que o sinistro da economia, o nefasto Henrique “Bank Boston/JBS” Meirelles.
O parça do Soros tem tanta confiança no que está fazendo na economia do Bananil, que, por garantia, tem uma empresa “off shore” nas Bahamas.
Meirelles é um “Presidenciável do Car…ibe”

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Uma dupla cuja soma é zero é desesperante.
Um messias, que a sociedade pensa que existe para resolver o Brasil – hahahaha – e um “jurista”, que renunciou à corte por esta ser mais ampla que esse nos saberes jurídicos. O ex-togado deixou a magistratura por não conseguir conviver com o Estado Democrático de Direito. Todos os absurdos jurídicos possíveis foram cometidos pelo hoje obscuro paladino de ébano.Desespero
Essa dupla se merece, e nós, os Tapuias, estamos entregues, pois os até aqui postos como “presidenciáveis” são um deserto de ideia. Quando se perde o sentido da história, perde-se tudo.
A caminhar nesse deserto, com vênias Molière haveremos de ter um Árgon, aquele, e um Tartufo, esse no Planalto.
Que Deus se apiede do Bananil.

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Arquitetura – XOSI RAArquitetura,Blog do Mesquita,XOSI RA

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Um passo por vez pelo fim da Federação. “Divide & Conquer”
“UnB cria o primeiro instituto de línguas indígenas do Brasil.”
Em seguida movimento pela autonomia dos tais “povos da floresta”, e em seguida, conforme decidido em Bretton Woods em 1944, luta pela independência dos territórios dos “Povos Indígenas”.

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Enquanto as meretrizes do Palácio do Planalto e do Congresso nacional cortam verbas das FFAA, o Navio de Assistência Hospitalar “Soares de Meirelles” realizou Operação de Assistência Hospitalar no AM. A mídia prostituta e os esquerdinhas “Soro’s boys” nada disso divulgam para não enaltecer as FFAA e rebaixar a autoestima dos Tapuias.

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Abomino aos que transformam políticos em ídolos. Exceto aqueles que já lhes são amigos antes de se enlamearem ao se filiarem a quaisquer partidos políticos. A partir da filiação a um partido político, o mais honesto cidadão se conspurca, seja por conveniência ou omissão. Convivem com notório corruptos porque assim desejam. Portanto, que tais, não me venham posar de vestais.
Traduzindo Nietzsche; Quem com ladrões convive, cuide de não se transformar em um. O abismo é comum.

Políticos.Humor,Blog do Mesquita

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“Les amoureux”, Marc Chagall, 1913Arte,Blog do Mesquita,“Les amoureux'', Marc Chagall, 1913

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Bananil ainda não saiu de 1888.
Afinal, onde estamos? Na África do Sul na época do apartheid? Ou no sul dos Estados Unidos nos tempos da segregação racial? Não. Estamos em Salvador na Bahia, terra de Jorge Amado, Gilberto Gil, do Olodum, da Timbalada. E também da cultura escravagista.

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A sra. Raquel Dodge – MPF – indicou a “cândida” defensora da moralidade, Depufede Federosa Shéridan,PSDB, por corrupção, crime eleitoral e corrupção. A indignada defensora do ‘Fora Dilma”, ofereceu óculos e pagou multa de trânsito em troca de votos para o marido.Depufeded Sheridan,Blog do Mesquita,PSDB,Corrupção

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Desperdicei cinco anos no Curso de Direito, e insistente, dedico mais dois anos à uma pós em Direito Constitucional. Nada disso será usado.
Grafa o Sr. Moro; {…]”não é absolutamente necessário determinar se Luiz Inácio Lula da Silva era o real proprietário do Sítio em Atibaia, bastando esclarecer se ele era ou não o real beneficiário das reformas”. Minha nossa!
Não entro no mérito da ação contra o lunfa de Garanhuns, mas não posso senão me quedar atônito, ante a extinção do Estado Democrático de Direito. Está implantado o “Direito Penal Subjetivo”.
Que nenhum dos idólatras do senhor dos pinhais tenha o desfortúnio de cair-lhes nas garras justiceiras.

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Às cores. Ao atelier trabalhar. Caso o implicante Pirifome me permita.
Independente da cor que eu queira pintar, ou pinte o meu mundo, ele continuará sendo o mesmo, não há como mudar a não ser a mim mesmo. Fui…
Minha Galeria de Arte Comercial está disponível na Internet.
http://www.josemesquita.art.br/José Mesquita,Pintura, Artes Plástica,Abstrata, Acrílica, Preto ,Marrom ,Branco, Mixed Media, Ref.1710ABS16 090 x 070 cm PLAcrílica e colagem sobre tela, 2017
090 x 070 cm – Ref.1710ABS16 – Disponível

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Heil!, seu misógino de m**da. Aprenda – creio ser impossível por insuficiência neural,mas sou generoso – de uma vez:
Feminicidio não é assassinato de mulheres. É o assassinato de mulheres em circunstâncias em que ser mulher está ligado à sua morte.
Desenhando:
1.A moça foi assassinada durante um assalto: não é feminicidio.
2.Foi assassinada pelo ex-marido inconformado: é feminicidio.
3. Argumenta você: Mas homicídio já está tipificado no CPB!
4. Aprenda: Crimes específicos carecem de tipificações e combate específico.
Por último, mas não por fim;
E isso não quer dizer que mulheres morrem mais que homens. Quer dizer que há um número alarmante de mulheres sendo assassinadas por serem mulheres.
Ps. Agora não me encha mais o s**o e pode voltar a se “roçar nas ostras”.Misógino,Blog do Mesquita

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Senador Tasso,PSDB Ce., cria o “Corruptômetro Partidário”. Na ótica ética do senador, define qual partido político é mais ou menos corrupto que outro. Como se à corrupção coubesse valoração.

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Poema
Myrtes Mathias¹

Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!

¹Myrtes Mathias Antônio
*Valença, Rio de Janeiro –  08 de fevereiro de 1933
+ Valença, Rio de Janeiro –  05 de julho de 1996Arte,Pinturas,Aquarela,Anna Dart,Blog do Mesquita

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E o Obama “Care”?

Vítimas de Las Vegas não conseguem pagar conta da internação. Custo de internação médio para um baleado nos Estados Unidos é de U$ 96 mil e muitos não têm plano de saúde.

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Arte – Xilogravuras
Gilvan Samico

Arte,Xilogravura,Gilvan Samico, A Chave de Ouro do Reino do Vai Não Volta,1969, 55 x 33 cm

Arte,Xilogravura,Movimento Armorial ,Gilvan Samico, 888 ×1600 cm

Mazatl

Arte,Xilografura,Blog do Mesquita,Mazatl,Aurora, the awakening of new day

Dirk Hagner

Arte,Linoleo,Gravura,Dirk Hagner. 2000,Blog do Mesquita

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Sistema previdenciário do Chile foi inovador – mas hoje é alvo de críticas

Idoso chilenoDireito de imagemGETTY IMAGES

Enquanto o Brasil busca mudar a sua Previdência para, segundo o governo Michel Temer, combater um rombo fiscal que está se tornando insustentável para as contas públicas, o Chile, o primeiro país do mundo a privatizar o sistema de previdência, também enfrenta problemas com seu regime.Reformado no início da década de 1980, o sistema o país abandonou o modelo parecido com o que o Brasil tem hoje (e continuará tendo caso a proposta em tramitação no Congresso seja aprovada) – sob o qual os trabalhadores de carteira assinada colaboram com um fundo público que garante a aposentadoria, pensão e auxílio a seus cidadãos.No lugar, o Chile colocou em prática algo que só existia em livros teóricos de economia: cada trabalhador faz a própria poupança, que é depositada em uma conta individual, em vez de ir para um fundo coletivo. Enquanto fica guardado, o dinheiro é administrado por empresas privadas, que podem investir no mercado financeiro.Trinta e cinco anos depois, porém, o país vive uma situação insustentável, segundo sua própria presidente, Michelle Bachelet. O problema: o baixo valor recebido pelos aposentados.A experiência chilena evidencia os desafios previdenciários ao redor do mundo e alimenta um debate de difícil resposta: qual é o modelo mais justo de Previdência?

Impopular

Como as reformas previdenciárias são polêmicas, impopulares e politicamente difíceis de fazer, não surpreende que essa mudança profunda – inédita no mundo – tenha sido feita pelo Chile em 1981, durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).De acordo com o economista Kristian Niemietz, pesquisador do Institute of Economic Affairs ( IEA, Instituto de Assuntos Econômicos, em português), o ministro responsável pela mudança, José Piñera, teve a ideia de privatizar a previdência após ler o economista americano Milton Friedman (1912-2006), um dos maiores defensores do liberalismo econômico no século passado.Hoje, todos os trabalhadores chilenos são obrigados a depositar ao menos 10% do salário por no mínimo 20 anos para se aposentar. A idade mínima para mulheres é 60 e para homens, 65. Não há contribuições dos empregadores ou do Estado.

O general Augusto Pinochet em foto de 1988Direito de imagemMARCO UGARTE/AFP/GETTTY
Chile adotou sistema privado durante ditadura de Augusto Pinochet

Agora, quando o novo modelo começa a produzir os seus primeiros aposentados, o baixo valor das aposentadorias chocou: 90,9% recebem menos de 149.435 pesos (cerca de R$ 694,08). Os dados foram divulgados em 2015 pela Fundação Sol, organização independente chilena que analisa economia e trabalho, e fez os cálculos com base em informações da Superintendência de Pensões do governo.O salário mínimo do Chile é de 264 mil pesos (cerca de R$ 1,226.20).No ano passado, centenas de milhares de manifestantes foram às ruas da capital, Santiago, para protestar contra o sistema de previdência privado.Como resposta, Bachelet, que já tinha alterado o sistema em 2008, propôs mudanças mais radicais, que podem fazer com que a Previdência chilena volte a ser mais parecida com a da era pré-Pinochet.

‘Exemplo de livro’

De acordo com Niemietz, o modelo tradicional, adotado pela maioria dos países, incluindo o Brasil, é chamado por muitos economistas de “Pay as you go” (Pague ao longo da vida).Ele foi criado pelo chanceler alemão Otto von Bismarck nos anos 1880, uma época em que os países tinham altas taxas de natalidade e mortalidade.”Você tinha milhares de pessoas jovens o suficiente para trabalhar e apenas alguns aposentados, então o sistema era fácil de financiar. Mas conforme a expectativa de vida começou a crescer, as pessoas não morriam mais (em média) aos 67 anos, dois anos depois de se aposentar. Chegavam aos 70, 80 ou 90 anos de idade”, disse o economista à BBC Brasil.”Depois, dos anos 1960 em diante, as taxas de natalidade começaram a cair em países ocidentais. Quando isso acontece, você passa a ter uma população com muitos idosos e poucos jovens, e o sistema ‘pay as you go’ se torna insustentável”, acrescentou.Segundo Niemietz, a mudança implementada pelo Chile em 1981 era apenas um exemplo teórico nos livros de introdução à Economia.”Em teoria, você teria um sistema em que cada geração economiza para sua própria aposentadoria, então o tamanho da geração seguinte não importa”, afirmou ele, que é defensor do modelo.Para ele, grande parte dos problemas enfrentados pelo Chile estão relacionados ao fato de que muitas pessoas não podem contribuir o suficiente para recolher o benefício depois – e que essa questão, muito atrelada ao trabalho informal, existiria qualquer que fosse o modelo adotado.No Brasil, a reforma proposta pelo governo Temer mantém o modelo “Pay as you go”, em que, segundo economistas como Niemietz, cada geração passa a conta para a geração seguinte.

Protestos contra AFPs (administradoras de fundos de pensão) no ChileDireito de imagemFRANCISCO OSORIO/FLICKR
Manifestantes chilenos protestaram no ano passado contra as AFPs (administradoras de fundos de pensão)

Para reduzir o rombo fiscal, Temer busca convencer o Congresso a aumentar a idade mínima e o tempo mínimo de contribuição para se aposentar.No parecer do deputado Arthur Maia (PPS-BA), relator da proposta, mulheres precisariam ter ao menos 62 anos e homens, 65 anos. São necessários 25 anos de contribuição para receber aposentadoria. Para pagamento integral, o tempo sobe para 40 anos.

Na prática

De acordo com o especialista Kaizô Beltrão, professor da Escola de Administração Pública e de Empresas da FGV Rio, várias vantagens teóricas do sistema chileno não se concretizaram.Segundo ele, esperava-se que o dinheiro de aposentadorias chilenas poderia ser usado para fazer investimentos produtivos e que a concorrência entre fundos administradores de aposentadoria faria com que cada pessoa procurasse a melhor opção para si.Ele explica que, como as administradoras são obrigadas a cobrir taxas de retornos de investimentos que são muito baixas, há uma uniformização do investimentos. “A maior parte dos investimentos é feita em letras do Tesouro”, diz.

Fila de pessoas de idade no BrasilDireito de imagemARQUIVO/MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
As administradoras de fundos de pensão do Chile abocanham grande parte do valor da aposentadoria

Além disso, segundo Beltrão, “as pessoas não têm educação econômica suficiente” para fiscalizar o que está sendo feito pelas administradoras, chamadas AFPs (administradoras de fundos de pensão).Essas cinco empresas juntas cuidam de um capital acumulado que corresponde a 69,6% do PIB do país, de acordo com dados de 2015 da OCDE (Organização para Desenvolvimento e Cooperação Econômica), grupo de 35 países mais desenvolvidos do qual o Chile faz parte.As maiores críticas contra o sistema chileno se devem às AFPs, que abocanham grande parte do valor das aposentadorias das pessoas. De acordo com Beltrão, o valor pago às administradoras não é muito transparente, pois é cobrado junto ao valor de seguro em caso de acidentes.

Justo ou injusto?

A BBC Brasil perguntou ao especialista em desigualdade Marcelo Medeiros, professor da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e da Universidade Yale, qual modelo de previdência é o mais justo – o brasileiro ou o chileno.”Justo ou injusto é uma questão mais complicada”, disse. “O justo é você receber o que você poupou ou é reduzir a desigualdade? Dependendo da maneira de abordar esse problema, você pode ter respostas distintas.”De acordo com Medeiros, o que existe é uma resposta concreta para qual modelo gera mais desigualdade e qual gera menos desigualdade.”A previdência privada só reproduz a desigualdade ao longo do tempo”, explicou.

Pessoas são atendidas em guichês da Previdência SocialDireito de imagemFÁBIO RODRIGUES POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL
Segundo especialista, a Previdência no Brasil tende a replicar os salários anteriores

O sistema “Pay as you go” brasileiro é comumente chamado de “solidário”, pois todos os contribuintes do país colocam o dinheiro no mesmo fundo – que depois é redistribuído.Mas Medeiros alerta para o fato de que a palavra “solidária” pode ser enganosa, pois um fundo comum não é garantia de que haverá redução da desigualdade.”Esse fundo comum pode ser formado com todo mundo contribuindo a mesma coisa ou ele pode ser formado com os mais ricos contribuindo mais”, explicou. “Além disso, tem a maneira como você usa o fundo. Você pode dar mais dinheiro para os mais ricos, você pode dar mais dinheiro para os mais pobres ou pode dar o mesmo valor para todo mundo”, acrescentou.Atualmente, o Brasil possui um fundo comum, mas tende, segundo o professor, a replicar a distribuição de renda anterior. “Ele dá mais mais dinheiro para quem é mais rico e menos para quem é mais pobre”, disse.”Se é justo ou injusto, isso é outra discussão, mas o sistema brasileiro replica a desigualdade passada no presente”.

Reformas no Chile e no Brasil

As diferentes maneiras de se formar e gastar um fundo comum deveriam ser, segundo Medeiros, o foco da discussão da reforma no Brasil, cujo projeto de reforma enviado ao Congresso mantém o modelo “solidário”, ou “pay as you go”.O pesquisador aponta que há quase um consenso de que o país precisa reformar sua Previdência. “A discussão é qual reforma deve ser feita.”

Michelle Bachelet em visita ao BrasilDireito de imagemFABIO RODRIGUES POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL
Michelle Bachelet já tinha feito uma alteração da previdência do Chile em 2008

No Chile, Bachelet já tinha em 2008 dado um passo rumo a um modelo que mistura o privado e o público – criou uma categoria de aposentadoria mínima para trabalhadores de baixa renda financiada com dinheiro de impostos.Agora, ela propõe aumentar a contribuição de 10% para 15% do salário. Desse adicional de 5%, 3 pontos percentuais iriam diretamente para as contas individuais e os outros 2 pontos percentuais iriam para um seguro de poupança coletiva. De acordo com o plano divulgado pelo governo, a proposta aumentaria as pensões em 20% em média.Bachelet também propõe maiores regulamentações para as administradoras dos fundos, em sintonia com as demandas dos movimentos que protestaram no ano passado. Um dos grupos, por exemplo, chama-se “No+AFP” (Chega de AFP, em português).

  • Esta reportagem é resultado de uma consulta da BBC Brasil a seus leitores. Questionados sobre quais dúvidas tinham sobre Reforma da Previdência, eles enviaram mais de 80 questões. As melhores dúvidas foram colocadas em votação e a pergunta vencedora – que recebeu 207 de 651 votos – indagava quais as diferenças entre o modelo de Previdência brasileiro e o do Chile e qual dos dois sistemas tinha se mostrado o mais justo. Esta reportagem é o resultado da investigação feita a partir da pergunta enviada pelo leitor.

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Quem é a família de bilionários acusada de se beneficiar da crise de drogas nos EUA

OxycontinDireito de imagemREUTERS
O comércio e marketing do OxyContin gerou um aumento nas prescrições de opióides nos Estados Unidos e pode estar na origem da epidemia de dependência

Eles deram o sobrenome a universidades, salas de museus, centros de pesquisa, galerias e até a um planeta fora do Sistema Solar.

São uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos- mais rica que os Rockefeller- e também das mais discretas e filantrópicas, a ponto de serem chamados de os “Médici do século 20”.

Mas o que poucos sabem é que a enorme fortuna dos Sackler – com a qual compram arte, criam fundações e instituições, patrocinam salas no Louvre e no Museu Britânico, abrem escolas em Israel e fundam dezenas de programas científicos e culturais por todos os lados – tem um passado obscuro.

É uma história e uma fortuna que começam com três irmãos, passam por uma campanha de marketing e chega a uma epidemia sem precedentes de consumo e dependência de drogas opioides.

Uma crise de saúde que levou os Estados Unidos a declarar, na semana passada, uma emergência de saúde pública que tem deixado mais mortos que a guerra do Vietnã e do Afeganistão juntos, sem que um tiro fosse disparado.

O começo da fortuna

Tudo começa no final do século 19, quando Arthur, Mortimer e Raymon Sackler, três irmãos psiquiatras do Brooklyn, fundaram em Greenwich Village, em Nova York, uma pequena empresa de medicamentos.

Viram nela uma possibilidade de um negócio familiar e, em 1950, compraram, com os lucros, a Purdue Pharma, uma farmacêutica que, no início, gerava recursos com a venda de removedores de cera de ouvido, laxantes e o antisséptico de cor laranja iodopovidona, usado em cirurgias.

Mas a entrada de dinheiro da produção de analgésicos na década de 1980 catapultou o negócio dos Sackler. Pouco menos de um século depois de sua fundação, a empresa era um gigante farmacêutico mundial e havia transferido sua sede para Stamford, em Connecticut.

Os Sacklers financiaram un pátio futurista no Museu Britânico, que foi batizado com o nome da família.Direito de imagemGETTY IMAGES
Os Sacklers financiaram um pátio futurista no Museu Britânico, que foi batizado com o nome da família

No entanto, o grande êxito comercial veio em 1995, quando lançaram no mercado o OxyContin, um medicamento para a dor, com base em opioides, que era quase três vezes mais forte que a poderosa morfina.

“O OxyContin é um analgésico que se sintetiza a partir da tebaína, uma substância presente no ópio. Ou seja, é da família da heroína”, explica à BBC Mundo o médico Brandon Marshall, professor de epidemiologia da Universidade de Brown, em Rhode Island.

Além da capacidade de neutralizar a dor, esse remédio tem um potencial perigosamente alto de gerar dependência, ressalta Marshall.

“Antes do surgimento do OxyContin, era muito raro os médicos prescreverem opiodes para combater a dor, mas foi tão grande a campanha de marketing realizada pela Pardue Pharma que o OxyContin se converteu num êxito de venda”, diz Marshall.

As autoridades dos Estados Unidos aprovaram o medicamento naquele mesmo ano, em 1995, e já em 2001 as vendas alcançaram US$ 1,6 bilhão, superior às vendas do Viagra, e representavam cerca de 80% da receita da empresa dos Sackler.

Donald TrumpDireito de imagemGETTY IMAGES
Trump declou na quinta que a crise de dependência em substâncias derivadas do ópio nos Estados Unidos, como a heroína, é uma emergência de saúde pública

Uma investigação realizada por Marshall e publicada no American Journal of Public Healthindica que, desde a aprovação do OxyContin, várias farmacêuticas se engajaram em ações de marketing e “subornos” para convencer os médicos a prescrever opioides.

Vários especialistas consultados pelas publicações New Yorker e Enquire também argumentam que a campanha levada a cabo pela Pardue Pharma contribuiu para que a prescrição desse tipo de medicamento fosse menos rigorosa, aumentando o número de dependentes entre a população.

Só em 2012, médicos prescreveram mais de 282 milhões de receitas de analgésicos opioides, incluindo OxyContin, Vicodin e Percocet, uma quantidade que equivale a quase um frasco para cada habitante dos Estados Unidos.

De acordo com pesquisa de Marshall, entre agosto de 2013 e dezembro de 2015, várias empresas farmacêuticas, entre elas a Pardue Pharma, pagaram mais de US$ 46 milhões a 68 mil médicos em todo o país por meio de refeições, viagens e honorários para os incitar a receitar opioides.

A fortuna dos Sacklers se multiplicou e, em 2016, elas foram classificadas entre as famílias mais ricas dos Estados Unidos, com uma fortuna em ascensão, segundo cálculos da revista Forbes, de US$ 13 bilhões.

Mas à medida que o consumo desses medicamentos aumentava nos EUA – e a fortuna dos Sackers disparava -, o uso de opioides causava uma catastrófica epidemia com uma magnitude de mortes sem precedentes.

Epidemia

Segundo Marshall, a história dos Sakler está atrelada à origem da atual crise de opioides. Uma situação que saiu tanto do controle que o presidente Donald Trump precisou declarar emergência de saúde pública.

Dados fornecidos pela Agência de Investigação e Qualidade de Assistência Médica dos Estados Unidos indicam que, no ano passado, mais de 60 mil pessoas morreram no país por overdose de opiáceos (substâncias derivadas do ópio).

Em 2014, cerca de 1,3 milhão de pessoas foram tratadas por esse motivo em clínicas e emergência de hospitais. Não foi o OxyContin, porém, a droga mais usada naquele ano, mas sim, a heroína e o fentanilo, uma droga de produção caseira 50 vezes mais poderosa quer a primeira.

“Mas o OxyContin está na base de tudo”, assegura Marshall.

Paramédicos atendem homem, após crise causada por uso de derivado de ópio
Mais de 60 mil pessoas morreram por overdose de substâncias derivadas de ópio

“Agora sabemos que as agressivas estratégias de marketing implementadas pela Purdue Pharma (e outras empresas) para promover o tratamento de dores crônicas com opioides receitados e as táticas que minimizaram as informações sobre risco de dependência foram o fator chave da crise atual”, assegura.

De acordo com especialistas, estes medicamentos estão na base do surto de dependência e a epidemia de opiáceos vivida hoje pelos Estados Unidos.

Organizações como a Médicos para a Prescrição Responsável de Opioides e meios de comunicação americanos têm assinalado nos últimos anos o envolvimento da família Sackler na atual emergência de saúde pública dos Estados Unidos.

Todos asseguram que a flexibilização na prescrição de opioides, ocorrida partir das campanhas realizadas pela farmacêutica, aumentou o consumo deste tipo de produto nos Estados Unidos.

A Purdue Pharma se declarou culpada de enganar o público sobre o risco de vício em OxyContin, em 2007, e foi obrigada a pagar uma multa de mais de US$ 600 milhões, um dos maiores acordos farmacêuticos da história dos Estados Unidos.

No entanto, em um comunicado enviado à BBC Mundo, a empresa alegou que as propagandas de seus produtos são feitas em cumprimento com as regras da Administração de Alimentos e Medicamenos (FDA) – agência dos Estados Unidos que controla a venda de medicamentos.

“Compartilhamos a inquietude sobre a crise de opiáceos e temos tomado medidas significativas para ajudar a abordá-la, que incluem a limitação significativa da propaganda de nossos produtos aprovados pela FDA”, diz o texto.

Na página da farmacêutica na internet, não há informações sobre seus fundadores e, entre os membros diretores, não aparecem mencionados integrantes da família que, por mais de 60 anos, gere a empresa.

Os Sackler patrocinam várias galerias de arte e museus.Direito de imagemGETTY IMAGES
Os Sackler patrocinam várias galerias de arte e museus

Os novos herdeiros

Enquanto a empresa farmacêutica está na mira dos meios de comunicação norte-americanos, a família por trás dela vive na discrição de sua fortuna, com aparições esporádicas para um ou outro ato de filantropia.

De acordo com a revista Enquire, diferentemente de outras famílias milionárias, os Sackler souberam separar o sobrenome das razões de sua fortuna. “Os Fords, Hewletts, Packards, Johnsons: todas essas famílias puseram os próprios nomes dos produtos, porque tinham orgulho deles”, comentou ao Enquire Keith Humphreys, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

A família Sackler é atualmente formada por 20 membros descendentes dos três irmãos fundadores da empresa farmacêutica, que já morreram – Arthur, o principal fundador do “império”, morreu em 1987, Mortimer, em 2010, e Raymond, no início deste ano.

Os descendentes mais visíveis nos últimos anos tem sido Elizabeth, filha de Arthur, que integrante da diretoria do Museu do Brooklyn, e os filhos de Raymon, Ricard e Jonathan, que dirigem um corpo de professores no centro de investigações sobre câncer da Universidade de Yale.

Outros oito membros da família formam parte da diretoria da Pardue Pharma, segundo a imprensa norte-americana. Ilene, Kathe, Marissa, Mortimer e Richard Sackler integram vários conselhos da família, a maioria de natureza filantrópica.

De acordo com a publicação Inside Philanthropy, o clã “mantém um discreto perfil público, não mantém sites na internet e não emprega profissionais formalmente”.

O pártio inaugurado pela família em junho, em LondresDireito de imagemGETTY IMAGES
Os membros da família Sackler são discretos e aparecem esporadicamente em eventos de filantropia

Em 2015, a Fundação Arthur M. Sackler transferiu mais de US$ 1,1 milhão a várias instituições, a totalidade em doações para o campo da arte, segundo informam declarações de imposto consultadas pela BBC Mundo.

A fundação ainda banca projetos filantrópicos na Universidade de Tel Aviv, na Universidade de Leiden, na Holanda, no Museu Britânico e na Faculdade de Medicina Clínica da Universidade de Cambridge.

Contudo, apesar das doações a iniciativas médicas, uma investigação do The Daily Caller assegura que a família nunca apoiou nenhum projeto para financiar na cura do vício em opioides, que a empresa farmacêutica dos Sackler ajudou a difundir.

Em um discurso na semana passada, para declarar emergência de saúde pública, Trump também não mencionou a responsabilidade das farmacêuticas na crise atual dos opioides.

“Apesar dos riscos conhecidos associados à prescrição de opioides, algumas empresas farmacêuticas continuam comercializando amplamente estes produtos. Estas práticas de venda são, no mínimo, um lastro importante para abordar o tema da epidemia atual”, afirma Marshall.

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Arte - Escultura - Ucrânia Homenagem a um cômico local

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Berthold Auerbach