Protestos,Blog do Mesquita 01

O “milagre chileno” se choca com a realidade

Custo de vida, salários, previdência e os sistemas privados de saúde e educação se sobrepõem à melhora da renda no imaginário coletivo do país sul-americano.

Manifestante segura cartaz onde se lê: “Viver no Chile custa o olho da cara”.
Manifestante segura cartaz onde se lê: “Viver no Chile custa o olho da cara”.

Eat the rich, coma os ricos. Poucas pichações são tão eloquentes sobre o momento que atravessa um país como a que apareceu recentemente na fachada de um hotel em Santiago. Uma mensagem direta, em inglês —para que ninguém, nem dentro nem fora, pudesse alegar a barreira idiomática— e com dois claros destinatários: as classes acomodadas de uma nação que arde em protestos há três semanas, e os turistas e homens de negócios que visitam a capital chilena num de seus períodos mais conturbados em muitos anos.

O Chile quer justiça social e a quer já, depois de décadas de promessas descumpridas e de, nas palavras da economista do desenvolvimento Nora Lustig, “um modelo privatizador dos serviços públicos que deixou muita gente de fora”. O ano de 2019, como dizia outra das muitas pichações políticas que se multiplicam nas ruas da cidade, será recordado como o momento em que “o Chile acordou”.

As receitas econômicas aplicadas nas últimas quatro décadas resultaram em uma onda de elogios dos principais organismos internacionais, consagrando o Chile com a bitola do “milagre econômico” da região por antonomásia, por suas saudáveis taxas de crescimento econômico e por ter obtido, em tempo recorde, uma das maiores rendas per capita da América Latina – posição eternamente em disputa com o Panamá. Mas o caso chileno é paradigmático de uma máxima que nunca convém esquecer na economia: que a renda per capita – que levou um bom número de economistas a compará-lo à Coreia do Sul, talvez o grande caso de sucesso contemporâneo em escala global, não é suficiente como termômetro do bem-estar real e da fragmentação socioeconômica de um território.

A era dourada do crescimento chileno descansou sobre dois pilares: o cobre – é o maior produtor global, uma bênção da qual, entretanto, não conseguiu se diversificar com sucesso – e uma fé inabalável no livre mercado: lidera os rankings latino-americanos em facilidade para fazer negócios, e a ideologia do laissez faire –marca da casa da escola de Chicago, que, como constata Lisa North, professora emérita de Ciência Política na Universidade de York (Toronto), encontrou no Chile dAugusto Pinochet um terreno especialmente fértil para sua entrada na região. “Houve, sobretudo no exterior, uma supervalorização do modelo chileno: se o processo liberalizante tivesse sido acompanhado de uma maior concorrência econômica, o bem-estar resultante teria sido muito maior. Aqui, porém, ocorreu uma alta concentração, de modo que a riqueza ficou em poucas mãos”, critica Gonzalo Martner, ex-embaixador e ex-presidente do Partido Socialista.

Longe dos padrões da OCDE – “com os quais deveria se comparar o Chile de hoje”, acrescenta Lustig, professora na Universidade Tulane (Nova Orleans, EUA) –, mas acima de outros grandes países americanos onde a desigualdade campeia, como o México e os EUA – a disparidade de renda tem caído, mas permanece em níveis “inaceitáveis”. A isso se soma uma classe média (ao menos de acordo com os dados) cada vez mais descontente. “Com o modelo liberal e o Estado apenas como subsidiário, que só intervém quando a pessoa não tem praticamente nada, há um grupo que não é nem pobre nem rico, que quase não tem acesso a serviços públicos”, observa o consultor independente de administrações públicas Andras Uthoff. Os cartões-postais do mal-estar surgem assim que se desce à rua:

Emprego, custo da vida e educação

O caso de Raquel Sotomayor, de 30 anos e moradores de Puerto Montt – mais de 1.000 quilômetros ao sul de Santiago –, e seu marido é paradigmático de três facetas do problema social chileno: emprego, custo da vida e educação. Formada há dois anos num curso profissionalizante de assistente social, tem dois filhos pequenos, de um e dois anos, e não encontra trabalho. Seu marido, Jonathan (31 anos), ganha 420.000 pesos chilenos (pouco menos de 2.200 reais, compatível com a média da população, cerca de 2.250 reais, segundo os dados reunidos pela Fundação Sol) como professor de Educação Física. Para poder estudar em uma universidade pública, fez um financiamento bancário com aval do Estado, uma prática comum entre os estudantes chilenos. “Nasceu nossa menina, atrasamos uma mensalidade, aí a mensalidade dobrou. Somando os juros, ficou impossível pagarmos”, conta Sotomayor. Sua dívida hoje ultrapassa os 11 milhões de pesos (57.300 reais) e cresce a cada dia por causa dos juros. Em abril do ano que vem, será ela que terá que começar a pagar o seu financiamento, sem nem sequer ter um trabalho.

O encarecimento generalizado da vida agrava sua precariedade. Na falta de estatísticas detalhadas, vale o método empírico: um passeio por Santiago e outro pela Cidade do México bastam para perceber uma importante disparidade em alguns dos principais produtos básicos, com preços mais semelhantes com os de uma capital europeia que os de uma cidade latino-americana. Santiago é, segundo a consultoria Mercer, a terceira metrópole latino-americana mais cara para viver, depois de Montevidéu e San Juan (Porto Rico).

Três coordenadas temporais sobre a origem dos problemas de emprego e educação: em 1979, a ditadura de Pinochet – sob a batuta de José Piñera, ministro naquela época e irmão do hoje presidente – aprova uma completa reformulação das regras trabalhistas, com forte redução da proteção aos trabalhadores, às organizações sindicais e à negociação coletiva; em 1980, abrem-se as portas à criação de universidades privadas sem fins lucrativos, sem maiores exigências sobre qualidade nem preço. “A liberalização do mercado da educação superior fez aumentar muitíssimo os preços e concentrar a oferta na capital”, observa a pesquisadora Claudia Sanhueza; em 1990, na véspera de entregar o poder, o regime de Pinochet dá prevalência à liberdade de educação escolar sobre o direito dos estudantes a obtê-la, permitindo sem maiores restrições a entrada de entes privados na administração de colégios com recursos públicos, sem garantias de qualidade. A educação vira um bom negócio.

Aposentadorias

Norma Ojeda é professora aposentada, tem 76 anos e vive em San Bernardo, no sul da capital chilena, com seu marido doente. Trabalhou ininterruptamente durante 38 anos na educação municipal, e seu último salário, em 2005, foi de 680.000 pesos (3.450 reais). Quando recebeu sua primeira pensão, lhe saltaram as lágrimas: era menos de um terço da sua remuneração da ativa. “Mas depois não chorei mais: a dignidade acima de tudo”, conclui. Sua realidade não é de forma alguma uma exceção: desde a conversão do sistema de pensões a um de capitalização individual – em 1981, obra também de José Piñera – cada pessoa faz um esforço individual de economia e, ao terminar sua vida profissional, recebe uma pensão em função do dinheiro que conseguiu acumular e da perícia das administradoras privadas. O resultado da reforma foi uma queda sucessiva no valor das pensões, muito longe dos níveis prometidos há 40 anos. Apesar das reformas introduzidas já na democracia, os pensionistas continuam sofrendo os rigores de uma reviravolta radical no sistema que está na origem do descontentamento de amplas camadas da sociedade.

Saúde

Nas concentrações de protesto iniciadas em outubro, tornaram-se habituais os cartazes que aludem à má qualidade da saúde pública. “Por você, mamãe… que foi chamada para a cirurgia quando a velávamos” lia-se na cartolina erguida por uma moça. Um paradoxo para o país que fundou o primeiro sistema nacional de saúde da América Latina, na década de 1950. Entretanto, um quarto de século depois de sua entrada em vigor, o regime militar o desmontou, desconcentrando-o em 27 serviços independentes: foi “um golpe sobre a linha de comando institucional”, nas palavras de Álvaro Erazo, o primeiro ministro da Saúde de Michelle Bachelet. Em 1981 viria a estocada final, e dupla: com a criação das instituições de saúde preventiva, que aliviavam o Estado de certas funções e que funcionam sob preceitos de livre concorrência, e que, na prática, representam a privatização da seguridade social; e com a transferência dos centros de atendimento primário para os municípios, desmembrando toda a malha sanitária nacional. “Foi um golpe duro a uma experiência que tinha tido grandes resultados sanitários e que era admirada por sanitaristas de todo o mundo”, critica Erazo.

A diretora-executiva da Fundação GIST, Piga Fernández, devolve a discussão à atualidade. “A desigualdade [na saúde] é tremenda: se você tiver os recursos, saúde privada e acesso a seguros complementares, não tem problema em conseguir os medicamentos dos quais necessita. Mas o filme é diferente para as pessoas que estamos no sistema público de saúde: se você tiver dinheiro vive; se não, morre.”

Ideologia,Blog do Mesquita

Yuval Noah Harari contra o ultranacionalismo

Leia trecho do livro ’21 lições para o século 21′ em que o historiador israelense reflete sobre os atuais riscos do nacionalismo.

Manifestantes anti e pró saída do Reino Unido da União Europeia discutem fora do parlamento britânico.
Manifestantes anti e pró saída do Reino Unido da União Europeia discutem fora do parlamento britânico. JACK TAYLOR (GETTY IMAGES)

Nacionalismo

Problemas globais exigem respostas globais

Dado que o gênero humano constitui agora uma única civilização, todos os povos compartilhando desafios e oportunidades comuns, por que britânicos, americanos, russos e diversos outros grupos voltam‐se para o isolamento nacionalista? Será que o retorno ao nacionalismo oferece soluções reais para os problemas inéditos de nosso mundo global, ou é uma indulgência escapista que pode condenar o gênero humano e a biosfera à catástrofe?

Para responder a essa pergunta devemos primeiro dissipar um mito muito difundido. Ao contrário do que diz o senso comum, o nacionalismo não é inato à psique humana e não tem raízes biológicas. É verdade que os humanos são animais integralmente sociais, e a lealdade ao grupo está impressa em seus genes. No entanto, por centenas de milhares de anos o Homo sapiens e seus ancestrais hominídeos viveram em comunidades pequenas e íntimas, com não mais que algumas dezenas de pessoas. Humanos desenvolvem facilmente lealdade a grupos pequenos e íntimos como a tribo, um batalhão de infantaria ou um negócio familiar, mas a lealdade a milhões de pessoas totalmente estranhas não é natural para humanos. Essas lealdades em massa só apareceram nos últimos poucos milhares de anos — em termos evolutivos, ontem de manhã — e exigem imensos esforços de construção social.

As pessoas se deram ao trabalho de construir coletividades nacionais porque se confrontavam com desafios que não podiam ser resolvidos por uma única tribo. Tomem‐se, por exemplo, as antigas tribos que viviam ao longo do rio Nilo milhares de anos atrás. O rio era sua força vital. Ele irrigava os campos e transportava o comércio. Mas era um aliado imprevisível. Se havia pouca chuva, as pessoas morriam de fome; se havia chuva demais, o rio transbordava e destruía aldeias inteiras. Nenhuma tribo poderia resolver sozinha seus problemas, porque cada tribo só dominava uma pequena seção do rio e não poderia mobilizar mais do que poucas centenas de trabalhadores. Somente um esforço comum para construir enormes barragens e cavar centenas de quilômetros de canais poderia conter e controlar o poderoso rio. Esse foi um dos motivos pelos quais as tribos aos poucos coalesceram numa única nação que teve o poder de construir barragens e canais, regular o fluxo do rio, construir reservatórios de grãos para os anos magros e estabelecer um sistema de transporte e comunicação abrangendo todo o país.

Apesar dessas vantagens, transformar tribos e clãs em uma única nação nunca foi fácil, em tempos passados ou hoje em dia. Para se dar conta de como é difícil identificar‐se com essa nação, você só precisa se perguntar: “Eu conheço essas pessoas?”. Sei o nome de minhas duas irmãs e de meus onze primos, e sou capaz de falar um dia inteiro sobre suas personalidades, seus caprichos e seus relacionamentos. Não sei o nome das 8 milhões de pessoas que compartilham comigo a cidadania israelense, nunca me encontrei com a maioria delas, e é muito pouco provável que as encontre no futuro. Minha capacidade de, apesar disso, sentir que sou leal a essa massa nebulosa não é um legado de meus ancestrais caçadores‐coletores, e sim um milagre da história recente. Um biólogo marciano que conhecesse apenas a anatomia e a evolução do Homo sapiens seria incapaz de adivinhar que esses macacos são capazes de desenvolver laços comunitários com milhões de estranhos. Para convencer‐me a ser leal a “Israel” e seus 8 milhões de habitantes, o movimento sionista e o Estado israelense tiveram de criar um gigantesco aparelho de educação, propaganda e patriotismo, assim como sistemas nacionais de segurança, saúde e bem‐estar social.

Isso não quer dizer que haja algo de errado com vínculos nacionais. Sistemas imensos não são capazes de funcionar sem lealdades de massa, e expandir o círculo de empatia humana tem seus méritos. As formas mais amenas de patriotismo têm estado entre as mais benevolentes criações humanas. Acreditar que minha nação é única, que ela merece minha lealdade e que eu tenho obrigações especiais com seus membros inspira‐me a me importar com os outros e a fazer sacrifícios por eles. É perigoso acreditar que sem nacionalismos estaríamos todos vivendo em paraísos liberais. Mais provavelmente, estaríamos vivendo num caos tribal. Países pacíficos, prósperos e liberais, como a Suécia, a Alemanha e a Suíça, cultivam todos um forte senso de nacionalismo. A lista de países aos quais faltam ligações nacionais robustas inclui o Afeganistão, a Somália, o Congo e muitos outros Estados falidos.

O problema começa quando o patriotismo benigno se transforma em ultranacionalismo chauvinista. Em vez de acreditar que minha nação é única — o que é verdadeiro para todas as nações —, eu poderia começar a sentir que minha nação é suprema, que devo a ela toda a minha lealdade e que não tenho obrigações relevantes com mais ninguém. Esse é um terreno fértil para conflitos violentos. Durante gerações a crítica mais básica ao nacionalismo era que ele levava à guerra. Mas a constatação de que havia relação entre nacionalismo e violência dificilmente era capaz de conter os excessos nacionalistas, particularmente quando toda nação justificava sua própria expansão militar alegando a necessidade de se proteger contra as armações de seus vizinhos. Enquanto a nação provia a maior parte de seus cidadãos com níveis inéditos de segurança e prosperidade, eles estavam dispostos a pagar o preço com sangue. No século XIX e início do século XX esse compromisso nacionalista ainda parecia muito atraente. Embora o nacionalismo estivesse levando a terríveis conflitos numa escala sem precedente, os Estados‐nação modernos também construíam sistemas robustos de saúde, educação e bem‐estar social. Os serviços nacionais de saúde faziam com que as batalhas de Ipres e de Verdun parecessem ter valido a pena.

Tudo mudou em 1945. A invenção de armas nucleares abalou fortemente o equilíbrio do arranjo nacionalista. Depois de Hiroshima, as pessoas não temiam que o nacionalismo pudesse levar meramente à guerra — começaram a temer que levaria a uma guerra nuclear. A aniquilação total serviu para aguçar a mente das pessoas, e graças, não em pequena medida, à bomba atômica, o impossível aconteceu e o gênio do nacionalismo foi espremido, ao menos em parte, de volta para sua garrafa. Assim como os antigos aldeões da bacia do Nilo redirecionaram parte de sua lealdade dos clãs locais para um reino muito maior capaz de conter o perigoso rio, na era nuclear uma comunidade global aos poucos se desenvolveu além e acima das várias nações, porque somente uma comunidade desse tipo seria capaz de conter o demônio nuclear.

Na campanha presidencial de 1964, Lyndon B. Johnson pôs no ar o famoso “anúncio da margarida”, uma das mais bem‐sucedidas peças de propaganda nos anais da televisão. O anúncio começa com uma garotinha colhendo e contando as pétalas de uma margarida, mas quando chega a dez uma voz metálica assume a contagem regressiva, de dez a zero, como num lançamento de míssil. Ao chegar a zero o clarão de uma explosão nuclear enche a tela, e o candidato Johnson dirige‐se ao público americano e diz: “É isto que está em jogo. Criar um mundo no qual todos os filhos de Deus podem viver ou entrar na escuridão. Devemos ou amar uns aos outros ou morrer”. Tendemos a associar o mote “faça amor, não faça guerra” à contracultura do final da década de 1960, mas na verdade já em 1964 era consenso até mesmo entre políticos durões como Johnson.

Consequentemente, durante a Guerra Fria o nacionalismo cedeu lugar a uma abordagem mais global da política internacional, e quando a Guerra Fria acabou a globalização parecia ser a irresistível onda do futuro. Esperava‐se que o gênero humano abandonasse a política nacionalista, como se fosse uma relíquia de tempos mais primitivos que atrairia no máximo os mal informados habitantes de alguns países subdesenvolvidos. Acontecimentos em anos recentes provaram, no entanto, que o nacionalismo ainda é capaz de seduzir até mesmo cidadãos da Europa e dos Estados Unidos, mais ainda da Rússia, da Índia e da China. Alienadas pelas forças impessoais do capitalismo global, e temendo pelo destino de seus sistemas nacionais de saúde, educação e bem‐estar social, pessoas em todo o mundo vão buscar conforto e sentido no seio da nação.

Porém a questão levantada por Johnson no anúncio da margarida é ainda mais pertinente hoje em dia do que em 1964. Vamos criar um mundo no qual todos os humanos possam viver juntos ou vamos entrar na escuridão? Donald Trump, Theresa May, Vladimir Putin, Narendra Modi e seus colegas serão capazes de salvar o mundo apelando para nossos sentimentos nacionais, ou será a atual torrente nacionalista uma forma de evadir o intratável problema global que enfrentamos?

Yuval Noah Harari é historiador e autor, entre outros livros, de Sapiens – Uma breve história da humanidade (L&PM). O trecho acima foi extraído de 21 lições para o século 21 (Companhia das Letras).

Temer,Blog do Mesquita

A Reversal Destra

Brasil,Ideologias,Comunismo,Extrema Direita

Marxismo-Temerismo 

Michel Temer comunista? Bilionários socialistas? Facebook stalinista? A Nova Direita repete diariamente que políticas socialistas não funcionam, que o comunismo não deu certo, mas aparentemente vivemos num mundo alternativo onde a URSS venceu a Guerra Fria: da ONU à Wall Street, todas as instituições do mundo contemporâneo estariam infiltradas por alguma versão da KGB.

Como tentei demonstrar no artigo das “pequenas verdades” a Nova Direita constrói seu pensamento com tomando como base uma série de falácias, de meias verdades.  A mais poderosa e recorrente delas é a de que “todo mal vem da esquerda“. Um dos elementos da filosofia política Nova Direita é o da negação do princípio de igualdade dos seres humanos, por isso o insistente ataque aos Direitos Humanos universais. Uma vez que Declarações de Direitos são construções do liberalismo, das revoluções burguesas que romperam com o absolutismo, faz-se necessário ampliar o conceito de esquerda. Essa “esquerda”, apresentada da forma mais vaga e abrangente possível, passa a incluir liberais progressistas ou qualquer um que não simpatize ou não queira colaborar com a Nova Direita.

Isso permite à Nova Direita produzir conceitos alternativos para certos fenômenos do capitalismo, ou mesmo internos às dinâmicas políticas da própria direita, num processo contínuo de “transformar em esquerda” qualquer coisa que incomode seus interesses, seus fiéis, seu público, seus membros. Esse mecanismo de dissimulação permite afirmar a já clássica falácia de que “o Nazismo é de esquerda“, inventar que a queda do Império Romano teve relação com o socialismo,  transformar a senadora Ana Amélia Lemos (PP) ou o apresentador Datena em cripto-socialistas – ou dizer que José Sarney tentou implantar o comunismo no Brasil.

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E você, pobre mortal, não sabia que Wall Street adora o esquerdismo.

A tendência de muita gente na esquerda é de tentar responder a essas maluquices com fatos, argumentar longos contrapontos, mostrar dados e notícias, chamar a outra pessoa de ignorante, dizer que ela precisa “estudar história”, ou fazer chacota. Isso tudo só faz sentido se assumirmos que a política do absurdo propaga tanta loucura de forma não-intencional.

E não é o caso. A aparente ignorância e desconexão da realidade está contida num método, numa forma de comunicação extremamente eficaz: a repetição. O método consiste em criar a mentira, em sua forma mais absurda ou abjeta, e fazê-la ser igualmente repetida por fiéis e céticos. Depois que a mentira estiver bem estabelecida por meio da repetição qualquer um que desconfie dela será tratado como um inimigo. Entre cínicos, trolls e imbecis uma pequena verdade é fabricada. Ela precisa ser confortável e triunfalista, taxativa, desprovida de nuance e, de preferência, completamente absurda.

Esse é o método que permite que Michel Temer seja chamado de “apenas mais um comunista” pelos grandes intelectuais do Instituto Liberal. Temer se aliou a toda a direita brasileira, seu partido lançou um programa de reformas extremamente liberal chamado Ponte para o Futuro, sua curta presidência foi extremamente impopular, exceto no mercado financeiro. Diante desses fatos, como Temer poderia ser um comunista? Tanto faz. Basta que digam que o mercado financeiro também é comunista, como os gênios do MBL já nos explicaram.

Esse tipo de excrescência, de maneira proposital ou não, é o que abriu caminho para o crescimento de apelos por golpe militar e também explica, em parte, o êxito da candidatura de Jair Messias Bolsonaro. Em ritmo permanente de campanha desde 2015, Bolsonaro conseguiu se firmar como o único candidato que é “direita de verdade” usando de uma lógica simples e eficaz: pega carona na quantidade imensa de material que afirma que a corrupção seria um problema da esquerda, repete incessantemente que não é corrupto (apesar de quaisquer evidências contrárias) e assim torna-se, por extensão, o único candidato de direita. Ele pode dizer que é contra mídia, contra “o sistema” mas é um fruto gerado no âmago do establishment antipetista. 

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Desaprovou o General Mourão? Comunista!

Esse esforço contínuo de transformação e reafirmação não tem qualquer compromisso com nenhum nível de argumentação factual. As reformas de Maurício Macri falharam? Evite discutir a natureza delas, ou fazer uma análise mais demorada sobre os desafios da economia argentina e a relação do panorama atual com aquele do início dos anos 2000. Chamemos outro “intelectual”, o fundador do Instituto Liberdad Querida, que ele define como o “Tea Party argentino” para que ele assegure aos leitores do Antagonista que Macri nunca foi nada mais que um social-democrata…

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Jornalismo de qualidade.

E nada disso é uma questão de ajuste ou coerência. É possível que governos não executem o que prometeram em campanha ou hajam em desacordo com a coalizão ou plataforma que os elegeu. Não é o caso argentino. Mas agora que Macri parece ter falhado, não por suas intenções mas por suas ações, é preciso que ele seja jogado para fora do espectro político dos bons. Agora Macri deve ser “apenas mais um social democrata”.

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Stálin dançou foi pouco.

Para além da política institucional, esse tipo de estratégia é usado para falar sobre qualquer coisa: da crise dos refugiados à indústria cultural. O último sucesso do pop não se deve à combinação de consumo massificado e hiper mídia, trata-se um complô da Escola de Frankfurt – e não, não interessa que você mostre que Adorno criticava JUSTAMENTE a cultura de massas. Nunca ouviu falar que o Esquenta era um programa de extrema-esquerda? Se o público não gosta do Esquenta e não gosta da esquerda logo o Esquenta é de esquerda. Extrema-esquerda. Regina Casé era uma extremista do funk.  É o temido Marxismo cultural!

Há algo terrivelmente eficaz nessa estratégia. Ela permitiu que Donald Trump criticasse Hillary Clinton como a “candidata de Wall Street” na campanha presidencial de 2016, muito embora boa parte de seu staff, incluindo o coordenador Steve Bannon, viessem do mundo das finanças. Desde a Crise de 2008, que aconteceu sob a batuta de um governo Republicano, a relação entre Wall Street e Washington se tornou ainda mais impopular.  Movimentos como o Tea Party, que tentaram “renovar” o partido Republicano com um populismo de direita, diziam odiar Wall Street – embora sua agenda apontasse no sentido contrário. Vencida a eleição nada impediu que Donald Trump, numa ação típica de um membro do partido Republicano, aprovasse cortes em impostos que beneficiaram Wall Street, ou representasse o mercado financeiro como “vítima” de regulações governamentais que mais tarde seriam suavizadas por seu governo.

A fantasia de que o mundo é dominado por uma suposta hegemonia da esquerda também é muito útil para a extrema-direta. É uma maneira mover a Janela de Overton, o conjunto das ideias toleradas no discurso público, para a direita. Se Angela Merkel, líder do partido de direita União Democrata-Cristã, for repetidamente chamada de socialista fica bem mais fácil que para os políticos da AfD, partido de extrema-direita, se passarem por conservadores ou direitistas convencionais – mesmo que desde de sua fundação o partido tenha caminhado rumo a posturas cada vez mais extremas.

Carlos Nadalim,Bolsonaro,Blog do Mesquita,Educação

Governo Bolsonaro: Contra ‘ideologia’ na alfabetização

Carlos Nadalim,Bolsonaro,Blog do Mesquita,Educação

Para Carlos Nadalim, diretrizes do Ministério da Educação têm ‘preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária’ e ‘ignoram evidências científicas sobre como alfabetizar crianças’ Direito de imagem  ARQUIVO PESSOAL

“O trabalho do Carlos Nadalim é a única alternativa aos 80% de analfabetos funcionais das universidades brasileiras”, exalta postagem de 2017 em uma das páginas oficiais de Olavo de Carvalho no Facebook.

Essas elevadas expectativas poderão agora ser testadas na prática. Carlos Nadalim, coordenador pedagógico de uma pequena escola em Londrina (PR) e autor do blog “Como Educar seus Filhos”, estará à frente da nova Secretaria de Alfabetização, criada pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez, outro nome elogiado por Olavo.

Para o novo secretário de alfabetização, uma das causas principais do alto analfabetismo funcional (quando a pessoa reconhece as letras, mas não consegue interpretar textos simples) no Brasil é a prevalência nas diretrizes do Ministério da Educação de métodos de ensino “construtivistas” – abordagem em que a criança é vista como construtora do conhecimento e o aprendizado do alfabeto ocorre de forma integrada com o uso social da leitura e escrita.

Nadalim defende como alternativa o “método fônico”, que apresenta as crianças às letras e aos sons da fala antes de iniciá-las em atividades com textos.

Esse tipo de disputa em torno da melhor forma de ensinar o alfabeto não é exclusiva do Brasil. Em países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, o conflito ficou conhecido como “reading wars” (guerras da alfabetização) e acabou influenciando debates em outros locais.

Mas o que dizem os especialistas sobre o assunto?

“Vilão da alfabetização”

Em um dos seus vídeos no YouTube, onde tem um canal com mais de 5 milhões de visualizações, o novo secretário Carlos Nadalim argumenta que o que chama de método construtivista “demonstra uma preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária, democrática e pluralista, em formar leitores críticos, engajados e conscientes”.

Por outro lado, diz na gravação, as diretrizes do Ministério da Educação (MEC) não trazem “uma orientação clara com base em evidências científicas comprovadas e atualizadas de como alfabetizar as crianças”.

“Há tanta preocupação em fomentar a socialização e em promover uma visão crítica na criança que resta pouco tempo e pouco investimento para ensinar o básico, o fundamental”, conclui Nadalim, após criticar a educadora Magda Soares, professora emérita da UFMG tida como referência nacional em alfabetização.

Crianças em atividade escolarDireito de imagem TÂNIA RÊGO
Novo secretário defende ‘método fônico’ para afalbetização e critica modelo ‘construtivista’ usado em algumas escolas do Brasil

Para o novo secretário, o “letramento”, conceito difundido no país a partir dos anos 1980 pela educadora e usado nos documentos do MEC, é o “vilão da alfabetização” no país.

Como saída, Nadalim e outros adeptos da ênfase na fonética defendem o “método fônico”. Nele, a criança deve primeiro ser exposta a atividades que reforcem a relação entre as letras e os sons da fala (grafemas e fonemas), pois assim aprendem a decodificar e codificar a linguagem escrita, para depois evoluir aos textos. Seus defensores argumentam que estudos internacionais já comprovaram a superioridade dessa abordagem.

Em outro vídeo, Nadalim exemplifica como usar o método usando o livro “O Batalhão das Letras”, de Mario Quintana, que traz grandes desenhos do alfabeto. Ao abrir a página do “F”, ele fala os nomes correspondentes a desenhos enfatizando o início das palavras: “Ffffrades, ffffformigas, ffffiga, fffflor”, recita o secretário.

“Guerrinha de métodos é perda de tempo”

Não se sabe ainda como, mas a expectativa é que Nadalim tentará implementar grandes mudanças nas diretrizes de alfabetização do país. A BBC News Brasil tentou contato com o secretário em seu blog e no MEC, mas a assessoria do ministério disse que a nova equipe ainda não está atendendo pedidos de entrevistas.

Pesquisas deixam claro que há um problema a ser enfrentado. Numa lista de 70 países analisados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o Brasil está na 59ª posição em leitura e na 66ª colocação em matemática.

Já um estudo realizado no ano passado pelo Ibope Inteligência em parceria com a ONG Ação Educativa estima que 29% dos jovens e adultos brasileiros de 15 a 64 anos (cerca de 38 milhões de pessoas) sejam analfabetos funcionais.

Para estudiosos da alfabetização ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, esse quadro não pode ser atribuído a uma questão de método. Parte dos entrevistados considera, inclusive, que Nadalim tem percepções equivocadas sobre o que seja construtivismo, letramento e a abordagem fônica. E ressaltam que, na prática, o que se vê na sala de aula é um mix de ferramentas teóricas e metodológicas.

“Eu acho uma perda de energia, tempo e neurônios estabelecer essa guerrinha, essa oposição entre método fônico e um método mais global ou construtivista. É absolutamente improdutivo”, afirma a professora Izolda Cela, hoje vice-governadora do Ceará.

criança estudandoDireito de imagem GETTY IMAGES
‘Se a escola usa um método ou outro, não é determinante. O importante é se é bem organizado. O fator de fracasso (da alfabetização no Brasil) é o baixíssimo nível de institucionalidade da escola pública’, acredita professora Izolda Cela, que implementou programa de alfabetização bem-sucedido em Sobral (CE)

Cela esteve à frente do processo que, a partir de 1997, implementou um programa de alfabetização extremamente bem-sucedido em Sobral (CE). No ranking de redes de ensino municipais, a cidade tem os maiores nota no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) para o ensino fundamental. No caso dos anos iniciais (1º ao 5º ano), o Ideb de Sobral é de 9,1, contra 5,5 da média de todas as redes municipais de ensino do país.

Para a vice-governadora, que coordenou o programa e depois se tornou secretária de educação de Sobral e do Ceará, o sucesso do programa não decorre do método, mas de um conjunto de fatores como a valorização e qualificação constante dos professores, o planejamento detalhado das atividades em sala de aula com alinhamento ao material didático, as metas claras de alfabetização e as avaliações externas realizadas pelo município semestralmente para medir a aprendizagem dos estudantes.

No caso de Sobral, disse ainda, o programa aplica tanto princípios do letramento, de Magda Soares, como material didático de abordagem fônica do Instituto Alfa e Beto, fundado por João Batista Oliveira. Quando o modelo foi ampliado para outras cidades do estado, conta, o governo pré-selecionou alguns materiais com diferentes ênfases metodológicas e permitiu que as redes municipais escolhessem o que mais se adequasse as suas necessidades.

Ex-secretário-executivo do MEC (1995) e psicólogo com doutorado em educação pela Florida State University (EUA), Batista Oliveira é um dos principais defensores do método fônico no Brasil, ao lado de Fernando Capovilla, professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). Ambos são citados por Carlos Nadalim ao disparar suas críticas contra Magda Soares.

“Se a escola usa um método ou outro, não é determinante. O importante é se é bem organizado. O fator de fracasso (da alfabetização no Brasil) é o baixíssimo nível de institucionalidade da escola pública”, acredita Cela.

“Fico apreensiva quando o novo secretário coloca o método como grande questão da alfabetização”, disse ainda.

Mas, afinal, o que é letramento?

A professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares está indignada com o que chamou de “forma equivocada e pouco respeitosa” como vem sendo criticada por Nadalim. Aos 86 anos, se recuperando de uma cirurgia, ela ainda assim tem atendido jornalistas para responder ao que classifica como “disparates” do novo secretário.

Seu livro “Alfabetização: a questão dos métodos”, em que faz uma ampla revisão dos estudos na área, ganhou o prêmio Jabuti em duas categorias em 2017: melhor obra de não ficção e de Educação e Pedagogia. Desde 2007, a professora coordena de forma voluntária o programa de alfabetização da prefeitura de Lagoa Santa (MG). De lá pra cá, o Ideb para os anos iniciais do ensino fundamental da rede do município passou de 4,5 para 6,4.

Magda SoaresDireito de imagem A FOCA LISBOA/UFMG
Professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares, vencedora de dois prêmios Jabutis por seus livros, virou alvo de ataques do novo secretário de Alfabetização

Soares refuta a discussão em termos de “métodos fônicos” versus “abordagem construtivista”. Ela concorda que a “aprendizagem das relações fonemas-grafemas” é essencial ao processo de alfabetização. Seu entendimento, porém, é que o ensino não deve partir das letras, já que as consoantes são “impronunciáveis isoladamente”, mas primeiro da consciência das palavras e sílabas. Além disso, Soares considera “enfadonhos” exercícios fonéticos dissociados de textos escritos que dialoguem com realidade das crianças.

“As crianças aprendem com mais interesse e entusiasmo quando se alfabetiza com base em palavras e frases de textos reais, lidos pela professora, e em tentativas de escrever, de modo que aprender as relações fonema-grafema ganham sentido”, defende.

À BBC News Brasil Soares ressaltou também que alfabetização e letramento são coisas distintas. O primeiro consiste na “aprendizagem de uma tecnologia”, o sistema alfabético escrito e normas ortográficas, enquanto o segundo é o desenvolvimento de habilidades de interpretação e construção de textos.

“Embora sejam diferentes os processos de aprendizagem e de ensino, a criança se alfabetiza para ler e escrever textos, portanto, é artificial levar a criança a aprender a tecnologia – as relações fonema-grafema – desligada de seu uso. Por isso, a importância de alfabetizar e letrar de forma integrada”, defende.

Disputa global

A disputa em torno da melhor forma de ensinar o alfabeto não é exclusiva do Brasil. Em países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, o conflito ficou conhecido como “reading wars” (guerras da alfabetização).

Em um amplo estudo publicado no ano passado, pesquisadoras de universidades britânicas e australiana tentaram por fim à disputa. Nele, as cientistas Anne Castles (Macquarie University), Kathleen Rastle (Royal Holloway University of London) e Kate Nation (University of Oxford) sustentam que a fonética é base essencial para se tornar um bom leitor, mas não é suficiente por si só.

“Uma criança não é alfabetizada a menos que possa entender o que está lendo, portanto, a alfabetização bem-sucedida também exige a aquisição de habilidades sofisticadas de compreensão de texto”, disse à BBC News Brasil uma das autoras, Kathleen Rastle.

“Isso não significa que as habilidades devam ser ensinadas ao mesmo tempo. Há um forte consenso na pesquisa científica de que a fonética é base necessária para as habilidades de leitura de alto nível e, portanto, que a instrução inicial deve se concentrar em garantir que o conhecimento fonético da criança seja sólido”, acrescentou.

Já a professora de Harvard Catherine Snow, referência no estudo de abordagens de alfabetização nos Estados Unidos, afirma que o ensino do “princípio alfabético”, ou seja, a compreensão de que as letras representam sons previsíveis, não deve ocorrer dissociado de atividades que insiram as palavras em frases e histórias com sentido.

Catherine SnowDireito de imagem DIVULGAÇÃO/HARVARD
Professora de Harvard Catherine Snow afirma que o ensino do ‘princípio alfabético’, ou seja, a compreensão de que as letras representam sons previsíveis, não deve ocorrer dissociado de atividades que insiram as palavras em frases e histórias com sentido

“Esse processo envolve lembrar o aprendiz que as palavras que ele pode decodificar pela relação letra-som são reais e com significado, que a razão de ler é entender a mensagem, não apenas pronunciar corretamente”, argumenta.

Snow ressalta que os diferentes grupos de pesquisadores em geral concordam “em 90%” do que compõem um bom ensino de leitura e escrita, mas exageram a importância dos 10% de discordância.

“Todos admitem que as crianças precisam entender o princípio alfabético, que precisam ter fortes habilidades de linguagem oral, que devem escutar leituras em voz alta antes que possam ler (por conta própria) e que os materiais de leitura devem ser interessantes e motivadores etc.”, ressalta.

“Ignorar esses pontos de concordância por causa de um nível diferente de ênfase na importância de ensinar explicitamente o princípio alfabético teve efeitos muito negativos na instrução de alfabetização nos Estados Unidos. Espera-se que o Brasil não repita essa história”, crítica.

Ditadura,Extrema Direita,Feminismo,Racismo,Xenofobia

A extrema direita venceu

Ditadura,Extrema Direita,Feminismo,Racismo,XenofobiaEM 2016, em uma escola secundarista de uma favela de Porto Alegre, Lucia Scalco e eu nos deparamos com dezenas de meninos fãs do “mito”. Por muito tempo, só conseguíamos enxergar esse fato, que dominava nossa análise.

Isso, em grande medida, prejudicava dar a devida atenção a meninas como Maria Rita, de 17 anos, única filha mulher de um soldado bolsonarista. Ela discutia cotidianamente com seu pai e irmão e, em 2018, já havia conseguido convencer a mãe que “eles não tinham argumentos, apenas raiva de tudo”.

A antropóloga Claudia Fonseca, nos anos 1980, chamava as mulheres de periferia de “mulheres valentes”: líderes comunitárias, mães e trabalhadoras – mas não necessariamente feministas. O que nós encontramos em 2016, quando nos permitimos olhar as coisas sob lentes diferentes, foi que as filhas das valentes agora se denominavam feministas, enfrentavam o poder patriarcal com argumentos sólidos, dados e conhecimento aprofundado de política. E melhor: elas eram em maior número do que os “minions”.

Talvez o que nos esteja faltando para começar 2019 é conseguir deslocar o foco exclusivo no círculo vicioso das manchetes trágicas e no aumento do autoritarismo para valorizar as grandes conquistas que mudaram uma geração inteira, e que produzirá impactos sociais e institucionais profundos daqui a alguns anos.

O reacionarismo é também uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta LGBTs.
A crise de 2007/2008 propiciou a explosão de uma primavera de ocupações e protestos em massa no mundo todo. Muito é dito sobre o quanto essas manifestações causaram a ascensão da extrema direita. Menos atenção tem sido dada, entretanto, ao fato de que existiram outros desdobramentos possíveis dessas manifestações. Tanto o Occupy nos Estados Unidos quanto as Jornadas de Junho de 2013, por exemplo, também foram marcos do fortalecimento de uma nova subjetividade política que busca, na ação microscópica da ação direta, o afeto radical, a imaginação e a horizontalidade.

Quem sabe invertemos as lentes de análise? O reacionarismo emergente também pode ser entendido, entre muitos outros fatores, como uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta dos grupos LGBTs, que sempre se organizaram no Brasil, mas que, nos últimos anos, atingiram uma capilaridade inédita — e perturbadora, para muitos.

Há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.
Impulsionada pelo contágio das novas mídias digitais, emergiu a quarta onda feminista no mundo todo –especialmente no Sul global (veja abaixo alguns exemplos) –, que é orgânica, emergiu de baixo para cima e cada vez mais reinventa localmente os sentidos do movimento global #metoo. A onda internacional perpassa todas as gerações, mas é entre as adolescentes que desponta seu caráter mais profundo no sentido de ruptura da estrutura social: há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.

Diz o cântico das marchas feministas que a “América Latina vai ser toda feminista”. Neste ano, as universidades chilenas, por exemplo, foram ocupadas contra o assédio sexual. Na Argentina, filhas do movimento #niunamenos, as pibas (ativistas jovens) comandaram as vigílias durante a votação do aborto no Senado. Atualmente, meninas de 12, 13 anos já vão para a escola com o lenço verde, que simboliza a luta pelo aborto legal.

A cena feminista asiática está em plena ebulição. Na Coreia do Sul, as “irmãs de Seul” marcharam contra o abuso sexual e a misoginia. Na China, depois da prisão de cinco ativistas, o feminismo tem explodido em todo o país, e as jovens fazem performances criativas, como ocupar os banheiros masculinos, contra o machismo e o autoritarismo.

O mesmo ocorre em diversos países africanos. A juventude secundarista e universitária de Moçambique fundou o Movfemme, o Movimento das Jovens Feministas. Sob forte repressão, elas organizam eventos menores, como rodas de conversa em torno de uma fogueira para falar de sexualidade e direitos das mulheres.

Furando a bolha institucional
Lúcia Scalco e eu percebemos o rastro da primavera feminista de 2015 e das ocupações secundaristas de 2016 na periferia de Porto Alegre. Nós fazemos pesquisa lá há dez anos e percebemos que a intensidade e a capilaridade do feminismo entre as adolescentes era inédita. Existe toda uma nova geração de feministas, e elas foram fundamentais na contenção do crescimento de Bolsonaro no bairro em que moram. Muito antes de existir o movimento #elenão, elas já enfrentavam seus pais, irmãos e companheiros e, assim, mudavam o voto de suas mães e avós, que tradicionalmente seguiam o voto dos maridos.

O grupo Mulheres Unidas contra Bolsonaro reuniu em poucos dias 4 milhões de mulheres no Facebook e o movimento #elenão foi a explosão disso tudo, constituindo-se também um grande momento de politização de mulheres. O backlash (contra-ataque) não veio apenas dos bolsonaristas, mas também de alguns intelectuais de esquerda que, direta ou indiretamente, responsabilizaram as mulheres pelo crescimento de Bolsonaro na última semana no primeiro turno, desprezando as muitas variáveis políticas que levaram àquele cenário – argumento já refutado em artigo acadêmico de Daniela Mussi e Alvaro Bianchi.

Essa onda feminista relativamente espontânea já começa a furar e renovar a bolha institucional, elegendo mulheres no Brasil e nos Estados Unidos.

Enquanto a direita tradicional derreteu nessas eleições, e o PSL cresceu de forma fenomenal na extrema direita, o PSOL também elegeu Aurea Carolina, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, Talíria Petrone como deputadas federais; e a Rede elegeu Joênia Wapichana, a primeira indígena eleita no país. Além, é claro, das vitórias da Bancada Ativista, de Monica Francisco, Erica Malunguinho, Luciana Genro, entre outras, em nível estadual.

Primeiros frutos das sementes de Marielle Franco, essas mulheres jovens possuem com forte vínculo com o ativismo e com a realidade popular. Essa nova bancada feminista não procurou surfar na onda de Junho de 2013 ou da Primavera Feminista de 2015 simplesmente – elas vêm organicamente das ruas e das lutas.

Nos Estados Unidos, as eleições do chamado “midterm” surpreendeu e derrotou Trump no Congresso, tendo significativo número de recorde de mulheres eleitas, como as democratas Rashida Tlaib e Iham Omar (as primeiras islâmicas da eleitas), Deb Haaland e Sharice Davids (as primeiras indígenas eleitas), Ayanna Pressley (a primeira negra eleita por Massachussets) e Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem deputada já eleita.

Não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.
Ocasio-Cortez tem sido um caso exemplar da renovação política. Mulher, mãe e latina do Bronx, ela encarna as lutas das minorias ao mesmo tempo em que resgata uma linguagem dos laços de amor da família e comunidade. Ela também produz um discurso mais universalista que dialoga diretamente com os anseios da classe trabalhadora constantemente usurpada: emprego, segurança, sistema de saúde e educação. Em suma, ao falar do amor e das dificuldades da vida cotidiana, ela atinge temas básicos que tocam no âmago dos anseios populares – temas que, apesar de básicos, têm sido deixados de lado pela grande narrativa da esquerda brasileira.

As diferenças de contexto norte-americano e brasileiro são enormes, evidentemente. Mas, em comum, essas mulheres encarnam um radicalismo necessário, conectado a uma ética e estética do século 21. Fazendo forte uso das redes sociais, por meio de stories do Instagram, essas mulheres transformam a política outrora hostil, inacessível e corrupta em algo atraente, palpável e transparente. São mulheres de carne e osso que fazem política olho no olho não apenas em época de eleição. Afinal, não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.

Podemos, então, dizer que a configuração política de hoje extrapola as análises convencionais da polarização entre esquerda e direita, mas aponta para a existência de dupla divisão de ideologia e posicionalidade, ou seja, de um lado situa-se o tipo ideal do homem branco de direita e, de outro lado, a mulher negra/lésbica/trans/pobre.

Quando o desespero bater sob o governo autoritário e misógino de Jair Bolsonaro, é importante olhar adiante e lembrar que muita energia está vindo de baixo, a qual, aos poucos, vai atingir os andares de cima. É uma questão de tempo: as adolescentes feministas irão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las.

Nossas conquistas em nível global são extraordinárias, mas muitos não irão te contar isso. A onda feminista dará força para resistir. Tenho confiança que muitas e renovadas versões do #elenão serão reeditadas, e miram não apenas derrubar os projetos de Bolsonaro, mas principalmente servir de espaço para a politização de mulheres. Mesmo derrotadas, somos vencedoras.
Rosana Pinheiro-Machado/TheIntercept

O fascismo por ele mesmo: Benito Mussolini

Em entrevista concedida em 1932, questionado sobre se um ditador poderia ser amado, Mussolini disse: ‘Pode. Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.’

Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano, nasceu na província de Romagna. Cedo, tornou-se jornalista e responsável por uma publicação socialista, o Avanti. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, fundou um semanário de direita, o Popolo d’Italia, e passou a dirigir o agrupamento dos Fascisti. Em 1921, foi eleito para o Parlamento e fundou o Partido Nacional Fascista. No ano seguinte, liderou os chamados camisas-negras na grande Marcha sobre Roma, que levou o rei Vittorio Emmanuel III a convidá-lo para formar o governo italiano. Em 1928, “II Duce”, como era conhecido, aboliu o Parlamento e, em 1929, decretou o Vaticano um Estado independente da Itália.

Em 1940, a Itália do Duce alinhou-se à Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Teria início aí sua decadência política. As tropas italianas foram derrotadas na Grécia e no norte da África. Sua popularidade despencava à medida que perdia as batalhas. O rei o depôs e mandou aprisioná-lo. Liberado pelos alemães, Mussolini foi capturado pelos partisans, morto a tiros e exposto em praça pública nas cidades de Como e Milão.

Emil Ludwig (1881-1948), biógrafo e jornalista alemão, era filho de Hermann Cohn, professor de oftalmologia. Formado em direito pela Universidade de Heildelberg, depois da Primeira Guerra tornou-se representante de diversos periódicos dos países aliados à República de Weimar.

A entrevista “teve lugar no Palazzo di Venezia, em Roma, entre 23 de março e 4 de abril de 1932, com encontros diários de quase uma hora”. Os dois homens falaram em italiano. Ludwig traduziu a conversa para o alemão e Mussolini checou os originais nessa língua. “Não havia secretário dele na sala tomando notas, ele não pediu revisão dos originais. Tratava-se apenas de uma questão de confiança mútua”, disse o jornalista.

Alguém havia me presenteado com a édition de luxe de Maquiavel, que a organização editorial do Estado fascista dedicou, com excesso de lisonjas, ao Duce. Mesmo assim, é sem dúvida melhor que um governo ditatorial reconheça as próprias dívidas para com o instrutor dos ditadores do que agir secretamente de acordo com suas teorias, utilizando, entretanto, o termo maquiavélico como abusivo. Quando Frederico, o Grande, ainda era príncipe, escreveu o moralizante O anti-Maquiavel. Mais tarde, ele se tornou mais direto, governando abertamente de acordo com os princípios de Maquiavel.

“O senhor se familiarizou desde cedo com O Príncipe de Maquiavel?”, perguntei a Mussolini. “Meu pai costumava ler o livro em voz alta à noite, enquanto nos aquecíamos perto do fogo da ferraria e bebíamos o vin ordinaire produzido no nosso próprio vinhedo. O livro me impressionou muito. Quando, aos 40 anos, li Maquiavel outra vez, o efeito foi reforçado.”

“É estranho”, eu disse, “como um homem como Maquiavel teve seu trabalho reconhecido em uma certa época, depois foi esquecido e agora é ressuscitado. Parece existir uma variação periódica.”

“O que o senhor disse é, com toda certeza, verdadeiro em se tratando de nações. Elas têm primaveras e invernos. Com o tempo, elas passam.”

“Como as estações na vida nacional se repetem, nunca fiquei muito alarmado com o inverno que domina a Alemanha no momento”, eu disse. “Há mais de cem anos, quando a Alemanha passou por maus momentos, Goethe ridicularizou aqueles que falaram da nossa decadência. O senhor já estudou qualquer um dos personagens importantes da nossa vida política?”

“Bismarck”, respondeu de imediato. “Do ponto de vista dos acontecimentos políticos, ele foi o homem mais importante do seu século. Nunca pensei nele meramente como a figura cômica com três fios de cabelos na cabeça e passos pesados. O livro escrito pelo senhor confirmou a minha impressão do quanto ele era versátil e complexo. Na Alemanha, as pessoas estão bem informadas sobre Cavour?”

“Não muito”, respondi. “Elas sabem muito mais sobre Mazzini. Há pouco tempo, li uma carta de Mazzini para Carlo Alberto, escrita, acho eu, em 1831 ou 1832; a súplica de um poeta a um príncipe. O senhor concorda com o fato de Carlo Alberto ter dado ordens para a prisão de Mazzini caso este cruzasse a fronteira?”

“A carta”, disse Mussolini, “é um dos documentos mais esplêndidos já escritos. A personalidade de Carlo Alberto ainda não se tornou muito clara para nós italianos. Seu diário foi publicado há pouco tempo e é bastante esclarecedor sobre a sua psicologia. É claro que, no início, ele inclinou-se para o lado dos liberais. Quando em 1832 – não, em 1833 –, o governo sardo sentenciou Mazzini à morte in contumaciam, tal fato ocorreu em uma situação política peculiar.”

A resposta pareceu-me tão cautelosa que, na minha determinação persistente, mas inconfessa, de comparar o presente ao passado, achei necessário falar com maior clareza.

“Naqueles dias, A Jovem Itália era publicado ilegalmente. O senhor não acha que esses periódicos surgem sob qualquer censura? O senhor teria prendido Mazzini?”

“Claro que não”, respondeu. “Se um homem tem ideias, que venha a mim e nós vamos discuti-las. Mas, quando Mazzini escreveu aquela carta, ele estava mais tomado pelos sentimentos do que pela razão. Naquela época, o Piemonte tinha apenas quatro milhões de habitantes e era impossível que formasse uma frente contra a poderosa Áustria com seus trinta milhões.”

“Bem, Mazzini foi preso”, recomecei. “Logo depois, Garibaldi foi sentenciado à morte. Duas gerações depois, o senhor foi preso. Não deveríamos concluir que um governante deve pensar duas vezes antes de punir seus adversários políticos?”

“O senhor quer dizer que nós não pensamos duas vezes aqui na Itália?”, perguntou com certa veemência.

“O senhor reintroduziu a pena de morte.”

“Há pena de morte em todos os países civilizados; na Alemanha, assim como na França e na Inglaterra.”

“Ainda assim, foi na Itália”, insisti, “na mente de Beccaria, que a ideia da abolição da pena de morte surgiu. Por que o senhor a reviveu?”

“Porque li Beccaria”, respondeu Mussolini sem ironia. Continuou com a maior seriedade: “O que Beccaria escreveu é o oposto do que a maioria das pessoas acredita. Além disso, depois que a pena de morte foi abolida na Itália, houve um terrível aumento no número de crimes graves. Se comparado à Inglaterra, o total na Itália era de cinco para um. Nesse assunto, leve em consideração apenas a questão social. Não foi Santo Tomás que disse que seria melhor decepar um braço gangrenado para que o resto do corpo pudesse ser salvo?

De qualquer forma, procedo com a maior cautela. Apenas os casos de assassinato excepcionalmente brutal e confesso são punidos com a pena de morte. Há pouco tempo, dois malandros violentaram e assassinaram um jovem. Os dois foram condenados à morte. Acompanhei o julgamento com muita atenção. No último momento, a dúvida tornou-se persistente. Um dos acusados era um criminoso comum que havia confessado seu crime; o outro, um homem bem mais jovem, havia se declarado inocente, e não havia nenhuma acusação anterior contra ele. Seis horas antes da execução, suspendi a sentença do mais novo.”

“O senhor poderia colocar esse fato no capítulo Vantagens de uma ditadura”, disse. A resposta dele foi rápida e feita em tom de zombaria:

“A alternativa é uma máquina estatal que funcione sem que ninguém tenha o poder de pará-la.”

“O senhor gostaria de abandonar esse assunto controvertido e falar sobre Napoleão?”

“Continue.”

“Apesar da nossa conversa anterior, não sei se o senhor o considera um modelo ou um aviso.”

Ele reclinou-se na cadeira sombrio e disse em tom comedido:

“Um aviso. Nunca tive em Napoleão um exemplo, já que não posso ser comparado a ele em nenhum aspecto. As atividades dele diferiam muito das minhas. Ele acabou com uma revolução enquanto eu comecei uma. A história da vida de Napoleão me fez perceber erros que não são fáceis de evitar.” Mussolini enumerou-os com os dedos: “O nepotismo. Uma disputa com o papado. A falta de compreensão da vida financeira e econômica. Ele não via nada além do aumento dos títulos públicos após as suas vitórias.”

“O que determinou o seu fracasso? Os especialistas dizem que ele naufragou ao chocar-se contra os ingleses.”

“Isso é bobagem”, respondeu Mussolini. “Napoleão fracassou, como o senhor mesmo disse, por causa das contradições da sua personalidade. No final, isso é o que leva um homem à ruína. Ele queria usar a coroa imperial! Queria fundar uma dinastia! Como primeiro-cônsul, estava no auge da própria grandeza. O declínio teve início com o estabelecimento do império. Beethoven estava certo quando retirou a dedicatória da Eroica. Foi o uso da coroa que envolveu o corso em contínuas guerras. Compare-o a Cromwell. Este teve uma ideia esplêndida: poder supremo sobre o Estado sem guerra!”

Tinha levado Mussolini a um tema de importância extraordinária. “Pode então haver imperialismo sem império?”

“Há meia dúzia de tipos diferentes de império. Não há necessidade dos brasões do império. Na verdade, eles são perigosos. Quanto mais vasto for o império, mais ele perderá sua energia orgânica. Apesar de tudo, a tendência ao imperialismo é uma das inclinações básicas da natureza humana, uma expressão do desejo de poder. Hoje, vemos o imperialismo do dólar. Há também o imperialismo religioso e o artístico. De qualquer forma, eles são indícios da energia vital humana. Enquanto um homem viver, ele será um imperialista. Quando morrer, o imperialismo estará terminado para ele.”

Nesse momento, Mussolini pareceu extraordinariamente napoleônico, lembrando-me a gravura de Lefèvre de 1815. Então a tensão de seus traços foi relaxada e, em tom mais tranquilo, ele continuou: “É claro que todo império tem seu apogeu. Como ele é sempre a criação de um homem excepcional, carrega dentro de si a semente da própria decadência. Como tudo que é excepcional, ele tem elementos efêmeros. Pode durar um ou dois séculos, ou menos de dez anos. O desejo de poder.”

“Ele só pode ser levado adiante por meio da guerra?”, perguntei.

“Não”, respondeu. “Não há dúvidas sobre isso.” Ele se tornou um tanto didático. “Os tronos precisam de guerras para se manter, mas as ditaduras às vezes podem sobreviver sem elas. O poder sobre uma nação é o resultado de inúmeros elementos, e eles não são apenas militares. Ainda assim, devo admitir que, até agora, na opinião geral, a posição de uma nação dependeu da sua força militar. As pessoas consideram a capacidade para a guerra como a síntese de todas as energias nacionais.”

“Até o momento”, interrompi. “Mas e de agora em diante?”

“De agora em diante?”, reiterou com ceticismo. “É verdade que a capacidade para a guerra não é mais um critério seguro de poder. Em relação ao futuro, portanto, existe a necessidade de algum tipo de autoridade internacional. Pelo menos, da unificação de um continente. Agora que a unidade dos Estados foi atingida, será feita uma tentativa de unificação do continente. Mas no que se refere à Europa, isso será muito difícil, já que cada nação tem suas próprias características, costumes, símbolos e língua. Para cada nação, uma certa porcentagem dessas características (digamos, x por cento) permanece imutável, e isso induz à resistência a qualquer tipo de fusão. Nos Estados Unidos, sem dúvida, as coisas são mais fáceis. Há 48 Estados, de mesma língua e história muito breve, que podem manter a união.”

“Mas, com certeza”, interrompi, “cada nação possui y por cento de características que são puramente europeias.”

“Essas características ficam de fora do poder de cada nação. Napoleão queria estabelecer a unidade na Europa. A unificação da Europa era sua principal ambição. Hoje em dia, essa unificação talvez tenha se tornado possível, mas mesmo naquela época, ela só era possível no plano ideal, como Carlos Magno ou Charles V tentaram fazer do oceano Atlântico aos Urais.”

“Ou, talvez, só até o Vístula?” “É, talvez, só até o Vístula.”

“A sua ideia é que essa Europa poderia ficar sob a liderança fascista?”

“O que é liderança?”, objetou. “Aqui na Itália, o nosso fascismo é o que é. Talvez ele tenha alguns elementos que outros países possam adotar.”

“Sempre acho o senhor mais moderado do que a maioria dos fascistas”, eu disse. “O senhor ficaria surpreso se soubesse o que um estrangeiro é obrigado a ouvir em Roma. Talvez tenha ocorrido a mesma coisa no auge da carreira de Napoleão. A propósito, o senhor poderia me explicar por que o imperador nunca se uniu à sua própria capital, Paris, por que se limitou ao noivado, sem com ela contrair casamento?”

Mussolini sorriu e começou a responder em francês:

“Ses manières n’étaient pas très parisiennes. Talvez houvesse uma violenta tensão sobre ele. Além disso, ele tinha muitos adversários. Os jacobinos se colocaram contra ele porque ele esmagou a revolução, aqueles que eram voltados para a religião, por causa de sua disputa com o papado. Só as pessoas comuns gostavam dele. Eles tinham muita comida durante o governo de Napoleão e se impressionam mais com a fama do que aqueles que pertencem às classes educadas. O senhor não deve esquecer que a fama não é uma questão de lógica, mas de sentimento.”

“O senhor fala de Napoleão com simpatia! Parece que o seu respeito por ele não diminuiu durante o seu próprio controle do poder, o que o tornou capaz de compreender a situação dele a partir da experiência pessoal.”

“Pelo contrário, meu respeito por ele aumentou.”

“Quando ainda era um jovem general, ele disse que sempre se sentia tentado a ocupar um trono vazio. O que o senhor acha disso?”

Mussolini arregalou os olhos, como sempre faz quando se torna irônico, mas, ao mesmo tempo, sorriu.

“Desde o tempo em que Napoleão era imperador”, disse, “os tronos se tornaram bem menos tentadores.”

“É verdade”, respondi. “Ninguém quer ser rei hoje em dia. Quando, há algum tempo, disse ao rei Fuad do Egito: ‘Os reis devem ser amados, mas os ditadores, temidos’, ele exclamou: ‘Como eu queria ser um ditador!’ A história tem registros de algum usurpador que tenha sido amado?”

Mussolini, cujas mudanças de expressão sempre são um prenúncio das respostas (a não ser que ele queira esconder seus pensamentos), ficou sério mais uma vez. A expressão de energia constante foi relaxada, o que fez com que ele parecesse mais jovem do que costuma aparentar. Após uma pausa, e mesmo assim com hesitação, ele continuou:

“Talvez Júlio César. O assassinato de César foi uma desgraça para a humanidade”, e acrescentou em voz baixa: “Adoro César. Ele era único na maneira de combinar a força de vontade de um guerreiro com a genialidade de um filósofo. No fundo, ele era um filósofo que via tudo sub specie eternitatis. É verdade que ele tinha paixão pela fama, mas a ambição não o isolou da humanidade.”

“Então, apesar de tudo, um ditador pode ser amado?”

“Pode”, respondeu Mussolini com determinação renovada. “Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.”

“Nos meus estudos sobre as grandes carreiras”, comecei, “sempre me preocupei em anotar um aspecto em particular do comportamento dos homens que deixaram o círculo em que cresceram: como se comportaram, por um lado, nas relações com os velhos amigos e, por outro, na solidão que a nova posição impôs aos mesmos. É aí que se revela a personalidade, ou parte dela. O que o homem faz em um conflito como esse entre a bondade humana e a autoridade? Não é natural que ele vá de um extremo a outro? Diga o que acontece quando um dos seus camaradas entra nessa sala! Como o senhor muda sem retomar uma das velhas discussões? Uma vez, o senhor escreveu (e essa é uma boa frase): ‘Somos fortes porque não temos amigos’.”

Quando se sentou à minha frente, Mussolini não fez nenhum gesto ou movimento, mas havia algo incomum, quase infantil, na expressão dele que me revelou que o assunto que eu havia abordado causara-lhe profunda agitação. Quando, por fim, ele respondeu, ficou claro que as suas palavras eram mais frias do que os seus sentimentos, e que ele não estava revelando todas as suas emoções e pensamentos.

“Não posso ter amigos. Não tenho amigos. Primeiro, por causa do meu temperamento, segundo, por causa da minha visão dos seres humanos. É por isso que evito tanto a intimidade quanto as discussões. Se um velho amigo me procura, o encontro é constrangedor para ambos e não dura muito. Só à distância acompanho as carreiras dos meus antigos camaradas.”

“O que acontece quando aqueles que foram amigos tornam-se adversários e o caluniam?”, perguntei, relembrando minhas experiências pessoais. “Qual dos seus velhos amigos permaneceu mais fiel ao senhor? Há algum antigo amigo cujo ataque violento ainda constrange o senhor?”

Ele permaneceu imóvel.

“Se aqueles que um dia foram meus amigos tornaram-se inimigos, o que me interessa saber é se são inimigos na vida pública. Se forem, eu os combato. Se não forem, eles não me interessam. Quando alguns antigos colaboradores me atacaram na imprensa, declarando que eu havia me apropriado de dinheiro pertencente a Fiume, isso, é claro, aumentou minha misantropia. Os meus amigos mais fiéis, eu guardo no fundo do coração, mas, em geral, eles mantêm distância. Justamente porque são leais! São pessoas que não buscam lucro ou ascensão e que, apenas em raras ocasiões, me fazem rápidas visitas.”

“O senhor confiaria a sua vida a eles ou a qualquer outro?”, perguntei. “O senhor tornou alguns deles membros do Gran Consiglio?”

“Três, e apenas por três anos”, disse ele secamente.

“Sendo essa a sua posição, sou levado a perguntar quando o senhor sentiu-se mais solitário. Foi na juventude, como no caso de D’Annunzio, quando estava fora em contato direto com os camaradas de partido, ou hoje em dia?”

“Hoje em dia”, respondeu sem um momento de hesitação. “Mas”, continuou após uma pausa, “mesmo no início, ninguém exercia qualquer influência sobre mim. Basicamente, eu sempre fui sozinho. Além disso, agora, embora não esteja preso, sou um prisioneiro de qualquer forma.”

“Como o senhor pode dizer isso?”, perguntei com considerável agitação. “Ninguém no mundo tem menos razões para fazer uma declaração dessas!”

“Por quê?”, perguntou, tendo a atenção concentrada na minha agitação.

“Porque ninguém no mundo pode agir com tanta liberdade quanto o senhor!”, continuei. Ele fez um gesto conciliatório e respondeu:

“Por favor, não pense que eu estou inclinando a lutar contra o meu destino. Ainda assim, até certo ponto, defendo o que acabo de dizer. O contato com assuntos comuns, uma vida espontânea no meio da multidão – para mim, na minha posição, essas coisas são proibidas.”

“O senhor só precisa sair para um passeio!”

“Eu teria que usar uma máscara”, respondeu. “Uma vez, quando, sem máscara seguia pela via Tritone, fui rapidamente cercado por uma multidão de trezentas pessoas, por isso não consegui dar um passo. Mas não acho minha solidão maçante.”

“Se a solidão lhe agrada”, eu disse, “como o senhor pode suportar os vários rostos que tem que ver aqui todo dia?”

“Percebendo apenas o que eles me dizem. Não deixo que entrem em contato com o meu interior. Não me emociono mais com eles do que com esta mesa e os papéis que estão sobre ela. No meio deles, conservo minha solidão intocada.”

“Nesse caso”, eu disse, “o senhor não tem medo de perder o equilíbrio mental? O senhor lembra como César, quando retornava de uma vitória no Fórum, trazia com ele na biga um escravo, cuja função era lembrá-lo continuamente da nulidade de todas as coisas?”

“Claro que lembro. O rapaz tinha de lembrar o imperador do fato de que ele era um homem e não um deus. Mas, hoje em dia, esse tipo de coisa é desnecessário. Da minha parte, de qual- quer maneira, nunca tive nenhuma inclinação para imaginar-me um deus, sempre tive profunda consciência de que sou apenas um mortal, com todas as fraquezas e paixões da mortalidade.”

Ele falou com óbvia emoção e depois continuou em tom mais calmo:

“O senhor está sempre preocupado com o perigo que pode resultar da falta de oposição. Esse perigo seria real se vivêssemos tempos tranquilos. Mas, hoje em dia, a oposição é representada pelos problemas que têm de ser resolvidos, pelos problemas econômicos e morais que sempre pedem uma solução. Isso é o suficiente para não permitir que um governante durma! Além disso, criei uma oposição dentro de mim mesmo!”

“Parece que estou ouvindo Lord Byron”, eu disse.

“Com frequência eu leio tanto Byron quanto Leopardi. E quando me canso dos seres humanos, eu viajo. Se pudesse fazer tudo o que quisesse, eu estaria sempre no mar. Quando isso é impossível, contento-me com os animais. A atividade mental deles se aproxima da humana, e, mesmo assim, eles não querem nada de nós: os cavalos, os cães e o meu favorito, o gato. Ou, então, eu observo os animais selvagens. Eles personificam as forças básicas da natureza!”

Essa confissão me pareceu tão misantrópica que perguntei a Mussolini se ele achava que um governante precisava se inspirar no desprezo pela humanidade e não nos sentimentos generosos.

“Pelo contrário”, disse enfático. “Uma pessoa precisa de 99% de generosidade e apenas 1% de desprezo.”

Partindo dele, a declaração me surpreendeu e, para certificar-me de ter entendido bem, perguntei-lhe mais uma vez: “O senhor realmente acha, então, que os seres humanos merecem mais compreensão do que desprezo?”

Ele olhou-me com sua habitual expressão inescrutável e disse em voz baixa: “Mais compreensão e compaixão, muito mais compaixão.”

Essa declaração lembrou-me que, quando lia os discursos de Mussolini, fui surpreendido várias vezes pelo que parecia ser uma exibição de altruísmo. Por que ele, o condottiere, se referia com tanta insistência aos interesses da comunidade? Fui levado a perguntar-lhe:

“Repetidas vezes, em frases excessivamente graciosas, o senhor declarou que um aperfeiçoamento da sua própria personalidade era a meta da sua vida, dizendo: ‘Quero fazer da minha vida uma obra-prima’, ou ‘Quero tornar minha vida muito eficiente’. Algumas vezes, o senhor citou a máxima de Nietzsche: ‘Viva perigosamente!’ Como pode então um homem de natureza tão orgulhosa escrever: ‘Minha principal meta é a promoção do interesse público’? Não existe, aí, uma contradição?”

Ele ficou impassível.

“Não vejo nenhuma contradição”, respondeu. “É perfeitamente lógico. O interesse da comunidade é um assunto comovente. Estando a serviço dele, enriqueço minha própria vida.”

Fui pego de surpresa e não pude encontrar uma resposta efetiva, mas citei as próprias palavras do ditador: “Sempre tive uma perspectiva altruísta da vida.”

“Sem dúvida”, disse ele. “Ninguém pode isolar-se da humanidade. Aí temos algo de concreto – a humanidade da raça a qual pertenço.”

“A raça latina”, interrompi, “nela incluem-se os franceses.”

“Já declarei, ao longo de uma destas conversas, que não existe uma raça pura! A crença de que ela existe é uma ilusão da mente, um sentimento. Mas essa crença deixa de existir só por ser uma ilusão?”

“Sendo assim”, eu disse, “um homem pode escolher a raça a que deseja pertencer.” “Claro.”

“Bem, escolhi ser mediterrâneo e, nesse ponto, tenho um aliado formidável em Nietzsche.” O nome despertou na mente de Mussolini uma associação e, em alemão ele citou uma das declarações mais orgulhosas de Nietzsche: “Pareço esforçar-me para ser feliz? Eu me esforço no interesse do meu trabalho!”

Chamei a atenção para o fato de que aquela ideia, na verdade, se originara de Goethe e perguntei se ele concordava com a opinião de Goethe de que o caráter é moldado pelos revezes do destino.

Ele concordou com a cabeça: “Devo o que sou às crises que tive que superar e às dificuldades que tive que vencer. Portanto, todos devem correr riscos.”

“Por isso o senhor põe em jogo o seu trabalho e a si, correndo riscos desnecessários.”

“A vida tem seu preço”, respondeu. “Não se pode viver sem correr riscos. Hoje mesmo participei de uma luta mais uma vez.”

“Se a sua visão fosse coerente, o senhor não tentaria se proteger”, eu disse. “Eu não tento”, respondeu.

“O quê!”, exclamei. “O senhor não reconhece que várias vezes algum dos seus inimigos arrisca a própria vida na esperança de privá-lo da sua?”

“Eu entendo aonde o senhor está querendo chegar. Também sei dos rumores que correm. Dizem que sou vigiado por mil policiais e que toda noite durmo em um lugar diferente. Na realidade, durmo toda noite na Villa Torlonia e dirijo ou ando a cavalo quando e para onde quiser. Se tivesse de pensar constantemente na minha própria segurança, me sentiria humilhado.”

“Diga-me”, falei para concluir, “qual a importância da fama na sua vida? Não é essa a motivação mais forte para um governante? A fama não é a única maneira de escapar da morte? Ela não é a sua principal meta desde que o senhor era um menino? Todo o seu trabalho não é movido pelo desejo de se tornar famoso?”

Mussolini permaneceu imperturbável.

“A fama não me atraía quando eu era menino”, disse, “e não concordo que o desejo de se tornar famoso seja a mais forte das motivações. No que se refere à morte, o senhor tem razão; existe um certo consolo em saber que não se está completamente morto quando se é famoso. Mas meu trabalho nunca foi exclusivamente direcionado pelo desejo da fama. A imortalidade é garantida pela fama.” Ele fez um gesto largo em direção a um futuro remoto e incontrolável e acrescentou:

“Mas ela vem – mais tarde.”

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 135 e 143.
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Hitler,Fascismo,Nazismo,Ideologias,Guerra,Blog do Mesquita

Hitler: o fascismo por ele mesmo

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Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: ‘Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo’

Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.

George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.

Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.

“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”

Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.

Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.

O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.

Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.

“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”

“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”

O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.

“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”

Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”

“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”

“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”

“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”

Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.

“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.

“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.

“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”

“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”

Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.

No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.

“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”

“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”

“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.

“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.

“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”

Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.

Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.

Fabrício Queiroz,Bolsonaro,Corrupção

É Froidi – Picles & Drops

O Poderoso Queiroz! Faltou novamente.
Será qual a cortina de fumaça que vão jogar agora?
Quarta foi a soltura de presos da segunda instância
Esse aprendeu direitinho a tática do atestado médico pra sumir de onde devia estar.
Caberia uma coletiva – “periculum mora” – , do segmento do MP diretamente envolvido, sobre o assunto. Ou não vem ao caso?
Queiroz está esperando o padrinho tomar posse e mexer os pauzinhos ou melhor as laranjinhas.Fabrício Queiroz,Bolsonaro,Corrupção

 


Infelizmente o país não mudará nunca. Enquanto as pessoas confundirem caráter com opção política, aqui não vai pra frente. Mau caráter tem em todos os lados e partidos infelizmente
Sabem o PM que deu 6 tiros no rosto de um trabalhador no Rio de Janeiro numa briga de trânsito?
Caso aconteceu na manhã desta quinta-feira na Avenida Brasil, em Bangu. O soldado Cleiton de Oliveira Guimarães foi preso na UPP Nova Brasília, onde foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ele já tinha tentado matar outra pessoa no trânsito.
Na cabeça desse povo matar tá liberado porque nossa justiça mostrou que está morta.
Isso é só o fim.

Design – EscadasArquitetura,Escadas,Design,Blog do Mesquita 3


O brasileiro médio, de todas as classes sociais, emburreceu e alienou-se a tal ponto que boa parte agora defende que a solução contra a corrupção é mais corrupção, contra a violência a solução seria mais violência, contra o desemprego seria também mais desemprego. Haja burrice!


Tostão furado,Blog do MesquitaMajor Vaz? PC Farias? Celso Daniel?

Fabrício Queiroz – ou o que restou dele – faltou mais uma vez à convocação para prestar depoimento no MP-RJ.
Ele e o Adélio devem estar muito preocupados com o futuro.
Quando os “nominhos” sumirem do noticiário, as vidas desses dois não valerão um tostão furado.

Sem humor não dá pra agüentar o tranco nesse hospício.
Campanha #PosteUmFilmeComOQueiroz
Meus títulos. Mandem os seus!:
– Queiroz o oitavo passageiro
– A insustentável leveza do Queiroz
– Corra que o Queiroz vem ai
– Corra Queiroz. Corra
– Apertem o cinto o Queiroz sumiu
– Conduzindo Mrs. Micheque
– O poderoso Queiroz
– O Queiroz do Os
– Queiroz no País da Maravilha
– A Lista do Queiroz
– Queiroz da Arábia
– O labirinto de Queiroz
– Cidadão Queiroz
– Queiroz Gump o contador de estorias
– Queiroz o caçador de androides
– Queiroz Poppins
– Os treze Queiroz
– Fabrício Queiroz e a arca perdida
Blog do Mesquita,Língua


E o Queiroz? Hahaha. Simples, bobinhos.
Vai continuar escondido até que o Bolsonaro tome posse e sua equipe use de todos os meios que estiverem ao alcance deles pra abafar o caso.
Os eleitores que se diziam anticorrupção e se calam nesse episódio assinam seu atestado de cumplicidade, o que não é nenhuma surpresa.

A fábrica de biscoitos da Nabisco foi vendida para a Philippe Morris, por U$ 15 bilhões. Ou seja, a Embraer, maior fabricante de aviões do seu setor, foi vendida com toda a sua tecnologia por pouco mais de 1/3 do valor de uma fábrica de biscoitos. E você aí preocupado com a mamadeira erótica.Brasil,Cabeça pra baixo,Blog do Mesquita


Brasil da série “Só dói quando eu rio”Assessor,Fabrício Queiroz,Bolsonaro,Corrupção,Brasil,Humor,Nani,Blog do MesquitaNetflix – “A Livraria”.
Delicado, terno, amorosamente encantador, e surpreendente.
Põe a nu o secular hábito da burguesia em sufocar qualquer tentativa de liberdade por via da cultura. Ela, a lamacenta burguesia, manipula o poder para se manter no topo da pirâmide.

Brasil,Capitalismo,Blog do Mesquita


Durante a noite até há pouco, pesquisei todas as decisões liminares tomadas pelos Presidentes do STF, durante os períodos de recessos, entre 2006 e 2010. Irei pesquisar, agora no período 2007/2018. Em nenhum caso, um presidente modificou a decisão liminar do relator. Todos aguardaram o referendo do Pleno.


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Não precisou nem um cabo e um soldado. Bastou um “presidente” que desconhece a CF e a jurisprudência do STF.
Uma juíza de primeira instância questionando a decisão de um ministro do Supremo.
O Brasil não é uma República.
É uma piada.


Jackson PollockAtes Plásticas,Pintura,Blog do Mesquita, Jackson Pollock

Sim, eu sou Chato, Comunista, Petralha e mais adjetivos desqualificativos infindos, mas… cadê a “*orra” do Queiroz?
Ex-assessor de Flávio Bolsonaro não comparece à depoimento.
O motorista Fabrício Queiroz está há semanas desaparecido.STF,Blog do Mesquita

Arquitetura – Portas e janelasArquitetura,Design,Portas,Janelas,Blog do Mesquita


Sempre existiram idiotas, a tecnologia apenas está dando palco a eles. Temos de usar a tecnologia para tentar mostrar que há mais coisas entre o céu e a terra que a cabeça desse olavo. Com minúscula mesmo.Tragédia, blog do Mesquita,Olavo de Carvalho


– No meu governo combaterei a corrupção e minha equipe só terá gente honesta.

– E fulano?
– Já se arrependeu
– Mas tem sicrano, que tá sendo investigado
– É só investigado
– Beltrano é réu
– Réu? eu também sou. O que não pode é condenado
– Ei, olhe, tem um condenado
– Mas não tá preso

FIM.


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O que está por trás do discurso de ódio

A xenofobia, a rejeição da pluralidade, a mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior e a construção de bodes expiatórios se transformaram em tendência mundial. É preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos extremistas. Também é necessário fortalecer a coesão coletiva.Trump,Bolsonaro,Violência,Xenofobia,Ideologia,Preconceito,Ódio,Comportamento
Lamentavelmente, no panorama europeu de renascimento do neofascismo, a Espanha já não é uma exceção. Ela acaba de ser tingida, quase de surpresa, com as pinceladas da cor obscurantista e xenófoba que estão avançando por toda parte no Velho Continente, a cor da ultradireita. Demonstra-se, mais uma vez, a sagacidade da afirmação do grande Dom Quixote: “Não há memória que o tempo não apague”.

Embora a Espanha tenha no momento apenas um grupo minúsculo, o Vox, ele é parte de uma onda de nacional-populismo neofascista que se espalha pelo mundo todo de maneira traiçoeira. Está se abrindo, sem dúvida, uma nova era de desafios importantes e sérios que as democracias terão de enfrentar, provavelmente durante umas décadas. É inegável que a globalização liberal posta em marcha no final do século passado entrou em uma fase crítica, devido à sua patente e consciente desregulação caótica, responsável por suas contradições atuais.

A busca de um novo equilíbrio econômico-social planetário é, portanto, imprescindível. Enfrentar o desafio deste novo período exige imperativamente que as democracias encontrem modelos econômicos e sociais que apostem, de forma efetiva, na eliminação da grande brecha atual da desigualdade, na solidariedade, que são expectativas da imensa maioria da população arraigada na civilização do respeito mútuo e da dignidade. Ao mesmo tempo, no entanto, chama a atenção o aparecimento − como consequência dos efeitos desagregadores da globalização − de camadas sociais reacionárias étnica, cultural e politicamente, que se identificam com um discurso de ódio de experiência remota. Trata-se de uma tendência mundial, cujas características comuns são tão importantes quanto suas diferenças.

Nos EUA, a ascensão de Donald Trump veio acompanhada de uma mudança de fundo, ao mesmo tempo demográfica e racial: os trabalhadores brancos de Kansas, Detroit, Texas e outros lugares do país apoiam o magnata imobiliário porque ele promete frear a chegada dos latinos, não pagar serviços sociais aos afro-americanos, acabar com o relativismo dos valores. Eles não temem apenas perder o emprego por competir com outros países, eles também têm medo dos fundamentos da igualdade institucionalizada, assim como da mistura demográfica e étnica que a política de Barack Obama encarnava. Um temor transformado em combustível político por Trump, com uma ideologia ultrapopulista. É, em suma, um nacional-populismo new wave, que retoma muitos dos ingredientes do fascismo clássico: a rejeição da mestiçagem (da qual subjaz, para muitos, a defesa da “raça branca”), a oposição entre quem está nas camadas inferiores e quem está nas superiores, a xenofobia, uma mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior, a política da força como método de “negociação”, a denúncia do outro e da diversidade, a hostilidade contra a igualdade de gênero, entre outros.

Outro grande país, o Brasil, também acaba de entrar neste caminho. Falamos aqui de um movimento evangélico que emergiu das entranhas das camadas médias empobrecidas e com medo, também, da liberalização dos costumes, do desaparecimento de valores morais em um país minado pelo cinismo e pela corrupção, por desigualdades crescentes, pelo fiasco da esquerda brasileira que não pôde promover uma sociedade que se voltasse ativamente para o progresso coletivo. Jair Bolsonaro não é um profeta, ele simplesmente soube inverter as promessas da teologia da libertação em teologia do ódio, com o apoio das elites militares e financeiras e dos grandes meios de comunicação.

Lula e Dilma Rousseff perderam o apoio da classe média e depois foram crucificados, além disso com um golpe de Estado tramado por grupos financeiros, dirigentes políticos e alguns setores do Judiciário. A retórica evangélica arroga agora para si o papel de salvadora de um país à beira do abismo, fazendo da luta contra a corrupção seu cavalo de batalha e propondo o modelo de uma sociedade moralmente autoritária, um modelo indevidamente condenado ao fracasso, dada a excepcional diversidade e vitalidade da sociedade brasileira.

Tanto o Estados Unidos de Trump como o Brasil de Bolsonaro são testemunhas diretas e encorajam os movimentos reacionários dessas camadas sociais ameaçadas pelo rumo da globalização neoliberal. O repertório de mobilização se baseia no ideário das reivindicações nacionalistas e sua metodologia rompe com a representação política clássica: as manifestações em massa envolvem rituais extáticos de fusão com o líder, que denuncia, como uma ladainha de golpes de efeito, a decadência moral dos partidos, conclamando à recuperação urgente da grandeza perdida do país.

O que está por trás do discurso de ódioampliar foto
SR. GARCÍA
Na Europa, o processo de estancamento da economia há quase duas décadas (ausência de crescimento gerador de empregos) também produziu um enorme retrocesso de direitos sociais e liberdades, uma regressão de identidade que explica o surgimento dos movimentos neofascistas. Embora tenham elementos específicos, todos compartilham a mesma metodologia política em sua conquista do poder: criticam duramente a representação política, instrumentalizando a democracia que a sustenta para conseguir a vitória; reivindicam a liberdade de expressão para expandir suas exigências, mas censuram seus adversários; dirigem a energia política das massas contra um objetivo previamente construído como bode expiatório (os imigrantes, a liberdade de imprensa que põe em xeque seus discursos, etc.). Servem-se desse arsenal demagógico para evitar falar de seu programa econômico concreto. Vale tudo na batalha que travam veementemente contra a civilização (sempre “decadente”, segundo eles) e a igualdade, pois o princípio fundamental da retórica neofascista, exposto (aí sim) em todos os seus programas, é a rejeição da igualdade e da diversidade dos cidadãos.

O neofascismo europeu que surge atualmente é, por antonomásia, supremacista, individual e coletivamente. É o projeto de uma sociedade hierárquica de senhores e servos, uma visão de mundo que aceita a necessidade imperiosa de submissão a um líder, sua “servidão voluntária”. Essa submissão fica escondida atrás do sentimento de força e de vingança em relação às “elites”, que a mobilização coletiva confere ao neofascismo militante. E isso funciona porque essa ideologia, sem prejuízo de suas particularidades em cada país, gera, na identidade de seus seguidores, uma poderosa liberação de instintos agressivos e explode os tabus que limitam as expressões primitivas, violentas, nas relações sociais. O grande analista do fascismo George L. Mosse se refere a essa característica como uma liberação da brutalidade em um contexto minado pelo “abrandamento” característico da sociedade democrática.

É uma luta diária a que deve emergir, pois permanente deve ser a defesa dos direitos e liberdades

O discurso da extrema direita propõe, certamente, uma sociedade estritamente homogênea, em pé de guerra contra tudo que possa introduzir diferenças e singularidades dentro do conjunto. A rejeição do pluralismo político – rejeição que ela promove como um projeto de gestão do poder − se baseia também na oposição frontal ao multiculturalismo, e, consequentemente, na rejeição da multietnicidade da sociedade. O modelo é o de um povo em sua essência, um povo etnicamente puro. A cultura obsessiva da pureza está intrinsecamente ligada à desconfiança em relação ao estrangeiro, à atividade crítica do intelectual − e inclusive à arte que não comungue com a estrita linha da moral autoritária vigente −, à liberdade de orientações sexuais e de identidade de gênero, à pluralidade de confissões religiosas. Não é apenas uma coincidência que o islã esteja hoje no olho do furacão neofascista na Europa: a presença de uma população de origem estrangeira que professa a religião muçulmana coloca em questão o conceito essencialista de povo homogêneo tanto no aspecto cultural como no religioso (embora o velho fascismo dos anos trinta não tivesse um apetite particular pela religião).

Uma sociedade democrática pode administrar populações misturadas e destinadas a conviver com suas contribuições mútuas à civilização humana, desde que sejam estabelecidas diretrizes seculares claras para todos. Por outro lado, uma sociedade baseada no conceito substancial de povo, no sentido que o neofascismo lhe dá, tende inevitavelmente à exclusão efetiva da diversidade. Daí que o modelo autoritário procure novamente se legitimar apelando para o perigo de religiões e culturas diferentes, que devem ser vigiadas e perseguidas para que não “contaminem” a identidade do povo.

A Frente Nacional francesa, no início de sua caminhada nos anos oitenta, fez da rejeição ao islã um eixo central de seu programa, escondendo seu tradicional antissemitismo. O partido Alternativa para a Alemanha colocou a islamofobia no centro de sua estratégia de mobilização em 2015, após a crise da chegada em massa de refugiados. Na Áustria, Itália, Bélgica, Holanda e em todos os países do norte da Europa, os refugiados também se transformaram no prato principal das campanhas eleitorais. São, igualmente, alvo da retórica ultracatólica de Viktor Orbán na Hungria e dos programas dos partidos neofascistas do Leste Europeu.

O discurso da extrema direita faz estourar os tabus que limitam as expressões primitivas e violentas

Esses movimentos, que avançam da Espanha até a Suécia, passando pelos países europeus ocidentais e orientais, compartilham, além disso, uma característica de natureza histórica: apelam para o nacional-populismo como uma reação à era da governança supranacional, resultante da ampliação do mercado europeu, dos efeitos da globalização neoliberal e das tentativas de construir instituições representativas europeias pós-nacionais. Daí o consenso em torno do objetivo de pôr em xeque a atual construção europeia, em nomeie da soberania nacional.

O que fazer diante desse desafio? Hoje, os partidos nacional-populistas neofascistas não representam mais do que entre 10% e 20% do eleitorado europeu, mas sua influência ideológica real é mais ampla. Naturalmente, é preciso diferenciar o corpo doutrinário desses partidos das representações mentais, muito menos elaboradas, dos cidadãos que os apoiam. Embora seja verdade que as causas do avanço gradual das correntes ultradireitistas são conhecidas, não existe uma posição comum das forças democráticas na hora de contê-lo.

Há, basicamente, três campos-chave de ação, e o primeiro deles é econômico. Se a democracia não caminhar em prol do progresso social, as vítimas, que são muitas, tenderão sempre a culpá-la por não haver progresso. Portanto, é necessário relançar a máquina econômica de integração profissional, que hoje depende, essencialmente, das capacidades não do mercado, como acredita a Comissão Europeia, mas sim dos Estados para incentivar o emprego. Para isso, eles precisam de uma política orçamentária mais flexível, que gere equilíbrio social. Infelizmente, essa é uma reivindicação que ainda não é levada em conta em Bruxelas.

Em segundo lugar, em face do nacionalismo reacionário e excludente, é preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos nacionalistas xenófobos. É crucial interpretar bem a reivindicação de segurança de identidade das camadas sociais mais vulneráveis e desestabilizadas pela exclusão do emprego ou pela incapacidade de se adaptar às mudanças da sociedade moderna, que acontecem numa velocidade extraordinária. É necessário fortalecer a coesão coletiva, ou seja, a adesão ao bem comum, sem prejuízo do respeito à diversidade, sob diretrizes comuns e com valores essenciais de referência. É preciso administrar racionalmente os fluxos migratórios, não só para evitar as mentiras e a demagogia desconstrutiva sobre a imigração, como também porque a vida cotidiana se tornou muito mais competitiva e as percepções espontâneas favorecem um imaginário ilimitado de fantasias em um contexto de insegurança profissional. A economia, em todos os países desenvolvidos, precisa da imigração, e isso deve ser regulado com base no respeito pelos direitos humanos. Na Europa, um grande acordo político é imprescindível para desativar o papel que a imigração assumiu como bode expiatório.

Finalmente, deve-se assumir com firmeza a luta contra o neofascismo, explicar claramente à população o perigo que ele representa e propor pactos democráticos antifascistas àqueles que defendem a democracia e o respeito à igualdade e dignidade humana, denunciando, do mesmo modo, os que pisoteiam esses valores por razões eleitorais. Deve ser travada uma luta diária contra o nacional-populismo neofascista, pois a defesa da democracia, do bem-estar social, dos direitos e liberdades tem de ser permanente. Tomara que todos entendam isso, pois se trata do futuro da paz social!

Sami Naïr é catedrático de Ciências Políticas na Universidade de Paris e diretor do Instituto de Cooperação Mediterrâneo-América Latina da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha. É autor, entre outros livros, de ‘La Europa Mestiza’.