Guerras,Blog do Mesquita 01

EUA X Irã: o que originou a rivalidade de décadas entre os dois países

O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES

Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali Khomeini
O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES
Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali KhomeiniDireito de imagem GETTY IMAGES
O aiatolá Khomeini se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edificio

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosDireito de imagem GETTY IMAGES
Em 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.

 se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edifício

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosEm 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.
ViaBBC

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Tecnologia – As armas cibernéticas do século XXI

Quais são as sofisticadas armas cibernéticas da guerra do século 21?

Ataque cibernéticoSaber que a distância física não é obstáculo para um ataque faz com que as pessoas se sintam mais vulneráveis – Direito de imagem THINKSTOCK

Eles não sabiam o que estava acontecendo. O equipamento quebrava constantemente, mas a causa era um mistério. Peças eram substituídas, mas o problema ocorria novamente.

Passou-se um ano antes que descobrissem que o problema era um vírus chamado Stuxnet, que havia infectado os sistemas eletrônicos da planta de enriquecimento de urânio em Natanz, no Irã.

Esta era a razão por trás dos diversos erros que atrasaram e prejudicaram o programa nuclear do país.

O descobrimento do Stuxnet, em 2010, tornou claro que os crimes cibernéticos podiam ir além da espionagem e do roubo de dados pessoais com fins econômicos: confirmou que era possível causar prejuízos físicos com uma motivação política.

“Foi a exploração bem-sucedida do ciberespaço com o objetivo de controlar uma série de processos industriais para destrui-los remotamente, sem que ocorresse nenhum tipo de confronto militar”, diz Lior Tabansky, especialista em cibersegurança estratégica da Universidade Yuval Ne’eman, em Israel, na publicação Cyber Security Review.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Isso demonstrou quão sofisticadas e precisas podem ser as armas cibernéticas.”

É difícil saber com certeza qual foi a origem desse ataque. Mas, segundo um artigo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, suspeita-se que uma equipe de especialistas israelenses e americanos esteja por trás do incidente.

Essa opinião é compartilhada por diversos especialistas em segurança cibernética.

LaptopArmas cibernéticas já provaram que têm o poder de causar sérios prejuízos físicos e psicológicos com motivação política – Direito de imagem THINKSTOCK

Ciberterrorismo

Esse tipo de incidente, que afeta o funcionamento de equipamentos e infraestruturas, é uma das modalidades de ciberataques mais perigosa. Nos últimos anos, foram registrados vários ataques.

Suas consequências vão além do plano físico.

“Além do prejuízo concreto, esse tipo de evento tem um efeito secundário muito importante: o psicológico. A isso se referem os termos ciberterrorismo e ciberguerra”, disse à BBC Graham Fairclough, especialista do Centro de Cibersegurança da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Eles geram medo e ansiedade. Tem-se a sensação de que alguém pode fazer algo com você e que você não tem a possibilidade de se proteger. O alcance também é importante, já que no ciberespaço a distância física não é relevante. Você pode ser uma vítima mesmo que esteja longe do ponto de origem do ataque.”

Neste contexto, o indivíduo perde confiança no sistema e em sua habilidade para protegê-lo.

“Tudo o que funcione com softwares pode ser utilizado para causar prejuízo, seja algo simples, como uma geladeira, ou muito mais complexo. A chave é o código, que pode ser desenvolvido ou comprado de criminosos na internet. E o equipamento físico, ou hardware, também pode ser comprado com facilidade na rede”, afirma Fairclough.

Planta nuclear
O ataque à instalação nuclear iraniana ocorreu sistematicamente durante um ano até ser descoberto – Direito de imagem THINKSTOCK

MÉTODOS MAIS COMUNS DE CIBERATAQUES

Botnets: Redes de sistemas que têm o objetivo de controlar remotamente os aparelhos e distribuir programas maliciosos.

Engenharia social: Técnica que tenta enganar as vítimas para que elas compartilhem informações confidenciais. O phishing – na qual a vítima é levada a entrar em sites que parecem autênticos, mas não o são – é um dos tipos mais usados.

Ataque de negação de serviço (DDoS, na sigla em inglês): Ocorre quando um site é “derrubado”, e os usuários não conseguem acessá-lo.

Ameaça persistente avançada (APT, na sigla em inglês): Ocorre quando o organizador do ataque entra no sistema operacional de uma empresa que tenha informações valiosas e permanece ali, sem ser detectado, por um longo tempo. O objetivo é roubar informação, e não danificar a rede da organização. Muitas vezes, a entrada ocorre através dos computadores de funcionários mais baixos da empresa, mas que estão conectados à rede.

Ataque man-in-the-middle (homem do meio, em tradução livre): Ocorre quando um hacker intercepta a comunicação entre duas partes, sem que elas percebam.

Fonte: Ministério do Interior da Alemanha e GlobalSign


Família em casa sem luz elétrica
O incidente em Ivano-Frankivsk, na Ucrânia, deixou 230 mil pessoas sem eletricidade – Direito de imagem GETTY IMAGES

Ataque impressionante

A sofisticada combinação de efeitos físicos e psicológicos das novas armas cibernéticas fica evidente no ataque que sofreu o sistema elétrico de Ivano-Frankivsk, uma cidade no oeste da Ucrânia, em dezembro de 2015.

Sem nenhum tipo de aviso, os técnicos da estação da região perderam o controle de seus computadores. Cursores moviam-se sozinho na tela e os terminais desativaram os interruptores que controlavam o fluxo de energia.

Os hackers por trás do ataque expulsaram os técnicos do sistema e mudaram suas senhas, impedindo que eles se conectassem novamente.

De acordo com a revista de tecnologia Wired, 230 mil moradores da cidade ficaram sem luz e sem calefação durante horas. Trinta subestações de energia e outros centros de distribuição foram desligados.

Uma ocorrência semelhante foi registrada em dezembro de 2016, desta vez no norte da capital ucraniana, Kiev.

Funcionários do governo ucraniano responsabilizaram a Rússia por ambos os ataques, em meio ao conflito entre os dois países – que ocorre há cerca de três anos, após a anexação russa da Crimeia, uma península ao sul da Ucrânia.

CódigoAs ameaças cibernéticas chegaram para ficar, segundo os especialistas em segurança – Direito de imagem THINKSTOCK

PASSO A PASSO DE UM CIBERATAQUE

1. Pesquisa – Compilar e analisar a informação que existe sobre o alvo, para identificar vulnerabilidades e decidir quem serão as vítimas.

2. Transporte – Chegar ao ponto fraco da rede informática que se quer penetrar. Pode-se usar métodos como:

  • Replicar um site que a vítima usa com frequência;
  • Entrar na rede da organização;
  • Enviar um e-mail com um link para um site malicioso ou com um arquivo anexo infectado com algum vírus;
  • Conectar em um computador da rede um pen drive com códigos maliciosos.

3. Entrada – Explotar essa vulnerabilidade para obter acesso não autorizado. Para conseguir isso, é preciso modificar o funcionamento do sistema, penetrar nas contas dentro da rede e conseguir o controle do computador, o celular ou o tablet do usuário.

4. Ataque – Realizar atividades dentro do sistema para conseguir o que o hacker quer.

Fonte: GCSQ


Cabos de eletricidadeRedes de eletricidade e de distribuição de água são vulneráveis a hackers habilidosos e com recursos – Direito de imagem GETTY IMAGES

Guerra de palavras

Recentemente, foram registradas uma série de denúncias e alertas sobre ciberataques centrados na manipulação de informações com objetivos políticos, incluindo com o propósito de intervir em processos eleitorais de outros países.

Nas últimas semanas, funcionários governamentais americanos, britânicos, alemães e tchecos também acusaram a Rússia de extrair informações de órgãos oficiais com este propósito.

A habilidade de obter informação privada, classificada e comprometedora de quase qualquer instituição governamental, privada, comercial ou de outro tipo, e usá-la com uma finalidade determinada é uma das armas mais poderosas da batalha cibernética no século 21.

Mas o que é possível conseguir, concretamente, com isso?

“Não é possível intervir nos sistemas eletrônicos de uma eleição para mudar seus resultados”, disse à BBC Brian Lord, ex-diretor encarregado de Inteligência e Ciberoperações do Centro de Comunicações do Governo (GCHQ, na sigla em inglês), o órgão de inteligência britânico.

“O que é possível fazer é acessar, filtrar e manipular informação para mudar a narrativa em torno de um processo eleitoral ou qualquer outro evento.”

É isso, justamente, o que se identificou como “notícias falsas”, que foram difundidas com grandes repercussões, principalmente nos Estados Unidos

Foi o caso do suposto apoio que o papa Francisco teria dado à candidatura de Donald Trump e de um suposto “romance” entre Yoko Ono e Hillary Clinton.

Vladimir Putin
Funcionários de diversos países responsabilizaram a Rússia por ciberataques que sofreram nos últimos meses – Direito de imagem GETTY IMAGES

‘Mais alcance’

Se as acusações à Rússia forem confirmadas, não será a primeira vez que um país tenta interferir às escondidas nos assuntos internos de outro, com objetivos específicos.

“Este tipo de ataques não são novidade, os russos estão há décadas tentando obter informações de outros governos. A diferença é que agora usam diferentes plataformas e têm um alcance maior”, disse à BBC Thomas Rid, professor do Departamento de Estudos Bélicos do King’s College em Londres.

Rid publicou um artigo sobre o vazamento de e-mails do Comitê Nacional do Partido Democrata americano (DNC, na sigla em inglês) nos Estados Unidos em julho de 2016. Novamente, a Rússia foi responsabilizada pelo ocorrido.

“Nunca tinhamos visto uma campanha tão direta. Além de vazar documentos e e-mails do DNC, disseminaram informação falsa e propaganda”, declarou, no final de 2016, James Clapper, ex-diretor da CIA, agência de inteligência americana.

Em seu artigo, Rid afirma que, neste caso, o aspecto “novo e assustador” é que a Rússia teria, pela primeira vez, combinado espionagem com a intenção de influenciar os resultados de uma votação.

Ele diz que, no final dos anos 1990, o Departamento de Defesa dos EUA começou a notar interferências em seus sistemas por parte de funcionários russos. Sempre que conseguiam, eles furtavam informações.

“Foi tanto, que a pilha de papeis com dados roubados que eles conseguiram era três vezes mais alta que o Monumento a Washington (o emblemático obelisco da capital americana).”

“Com o passar do tempo, a Rússia ficou mais sofisticada em suas táticas, e até chegou a modificar o funcionamento de satélites para apagar seus rastros. Desde então, os órgãos de inteligência russos se dedicaram a coletar informação política e militar. A NSA (agência de segurança nacional mericana) e a GCHQ (órgão da inteligência britânica) devolveram o favor.”

Homem fotografandoA espionagem feita por agências de inteligência nacionais se mantém, mas utilizando outros meios e com mais alcance – Direito de imagem THINKSTOCK

Como rastrear um ciberataque?

A variedade de recursos que existem para esconder a origem de um ataque ou para replicar os métodos utilizados por outros para realizá-lo pode dificultar a determinação de quem foi o responsável.

No entanto, mesmo sem os recursos técnicos e econômicos de órgãos como a NSA nos EUA, é possível utilizar ferramentas para desvendar quem está por trás do ciberataque.

“A primeira coisa seria saber se o vírus é amplamente utilizado ou costuma ser a opção de um grupo específico. Outra pista é o objetivo dos hackers. Mas não se consegue ter certeza absoluta (de quem são)”, disse à BBC Don Smith, diretor da Unidade Antiameaças da empresa internacional de cibersegurança SecureWorks.

Graham Fairclough, por sua vez, considera que a complexidade de descobrir qual é a fonte de um ataque está diminuindo à medida em que o tempo passa, porque se sabe melhor que tipo de informações é preciso ter para determiná-lo.

A análise do código utilizado, o idioma no qual se escreve e a forma que o ataque é conduzido guardam boas pistas.

“Quanto mais seguro é o sistema que se ataca, maiores são a capacidade e os recursos que os hackers necessitam. Se esse for o caso, indica que algum Estado – ou órgão do mesmo – esteve envolvido”, diz Fairclough.

“Atribuir o ataque a um governo específico é uma ferramenta política que costuma ser usada com um fim específico. O assunto é como responsabilizar um Estado sem revelar os mecanismos empregados para chegar a essa conclusão.”

Soldado com armaConflitos entre países já podem causar danos físicos sem confrontos no campo de batalha – Direito de imagem THINKSTOCK

Suspeitos de sempre

“Qualquer Estado que tenha órgãos de inteligência bem estabelecidos – com conhecimento e com uma missão – tem a possibilidade e a capacidade de realizar ciberataques”, afirma Don Smith.

“Os países que realizavam atividades de inteligência e espionagem nas décadas passadas continuam fazendo-o, mas agora através da internet. É até mais fácil e mais barato.”

No caso da Rússia, é fundamental também considerar a percepção que o resto do mundo tem de suas habilidades cibernéticas é fundamental.

“Um dos objetivos da Rússia é fortalecer a ideia de que o país é importante na geopolítica internacional”, disse à BBC Jenny Mathers, especialista em política e segurança na Rússia e professora da Universidade de Aberystwyth, no Reino Unido

“(A Rússia) Quer passar a mensagem de que é um país poderoso, que está no controle e que o mundo precisa prestar atenção.”

Os especialistas concordam que, seja qual for seu objetivo, estas atividades chegaram para ficar e são uma consequência do mundo digital em que vivemos.

“É preciso assumir que os ciberataques serão a ameaça ‘normal’ do século 21”, diz Brian Lord.

Assange,Blog do Mesquita

Primeiro, Assange. Depois, todos nós

Assange,Blog do MesquitaOs cidadãos e a imprensa têm direito de enfrentar o poder? Ataque ao criador do Wikileaks revela que o Ocidente rendeu-se às corporações e abandonou a bandeira da liberdade. É preciso descobrir como resgatá-la.

As ilegalidades praticadas pelos governos do Equador, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na captura de Assange são sinistras. Elas pressagiam um mundo em que as ações internas, abusos, corrupção, mentiras e crimes – inclusive os de guerra – praticados por Estados corporativos e pela elite governante global serão escondidos do público.

Elas pressagiam um mundo em que aqueles que mantêm coragem e integridade para expor o abuso de poder serão caçados, torturados, submetidos a julgamentos farsescos e condenados a penas perpétuas, em confinamento solitário. Elas pressagiam uma distopia orwelliana em que a informação é substituída por propaganda, banalidades e distração. A prisão de Assange, temo, marca o início oficial do totalitarismo corporativo que ameaça definir nossas vidas.

Sob que lei o presidente equatoriano, Lenin Moreno, liquidou de forma caprichosa os direitos de Julian Assange ao asilo, como refugiado político? Sob que lei Moreno autorizou a polícia britânica a entrar na embaixada equatoriana – que tem status diplomático de território soberano – para prender um cidadão equatoriano naturalizado? Sob que lei a primeira-ministra Theresa May ordenou que a polícia britânica agarrasse Assange, que nunca cometeu um crime? Sob que lei o presidente Donald Trump pediu a extradição de Assange, que não é cidadão norte-americano e cuja organização noticiosa não está situada em território dos Estados Unidos?

Estou certo de que advogados governamentais estão, agora, praticando os contorcionismos que se tornaram regra nos Estados corporativos, servindo-se de argumentos legais para extripar direitos por meio de decisões no Judiciário. É assim que temos o direito à privacidade, mas nenhuma privacidade. É assim que temos eleições “livres” financiadas por dinheiro corporativo, narradas por uma mídia corporativa condescendente, tudo sobre férreo controle corporativo É assim que temos um processo legislativo em que lobistas das corporações escrevem as leis, e políticos contratados pelas empresas as votam. É assim que temos o direito ao devido processo judicial sem nenhum processo devido.

É assim que temos governos – cuja responsabilidade fundamental é proteger os cidadãos – que ordenam e executam o assassinato de seus próprios cidadãos (como o clérigo Anwar al-Awlaki e seu filho de 16 anos, mortos por ordem de Barack Obama). É assim que há uma imprensa legalmente autorizada a publicar informação secreta vazada, e um editor numa cela na Inglaterra, aguardando extradição para os Estados Unidos, e uma autora de denúncias, Chelsea Manning, numa cela norte-americana.

A Grã-Bretanha usará, como cobertura legal para a prisão, o pedido de extradição de Washington, baseado em acusações de conspiração. Este argumento legal, num Judiciário autônomo, seria desprezado pela corte. Infelizmente, não há mais, nos EUA, um Judiciário autônomo. Muito em breve saberemos se ele ainda existe no Reino Unido.

Assange obteve asilo na embaixada equatoriana em 2012, para evitar extradição para a Suécia para responder questões sobre supostas ofensas sexuais, que ao final foram retiradas. Assange e seus advogados sempre argumentaram que, se colocado sob custódia sueca, ele seria extraditado para os Estados Unidos. Assim que ele obteve o asilo, e a cidadania equatoriana, o governo britânico recusou-se a garantir-lhe passagem segura para o aeroporto de Londres, aprisionando-o na embaixada por sete anos, durantes os quais sua saúde deteriorou continuamente.

O governo Trump tentará julgar Assange por acusações de que conspirou com Chelsea Manning em 2010 para roubar os segredos de guerra sobre o Iraque e o Afeganistão obtidos pelo WikiLeaks. Meio milhão de documentos internos vazados por Manning do Pentágono e do Departamento de Estado, junto com o vídeo de 2007, de pilotos de helicóptero dos EUA atirando despreocupadamente em civis iraquianos, inclusive crianças, e em dois jornalistas da Reuters, ofereceram evidência abundante da hipocrisia, violência indiscriminada e uso rotineiro de tortura, mentiras, propinas e táticas cruas de intimidação pelo governo dos EUA em sua diplomacia e guerras no Oriente Médio. Assange e o WikiLeaks permitiram – é o trabalho mais importante da imprensa – que enxergássemos os trabalhos clandestinos do Império, e por isso tornaram-se presas deste Império.

Os advogados do governo norte-americano tentarão separar o WikiLeaks e Assange do New York Times e do The Guardian, que publicaram, ambos, o material vazado por Manning. Para fazê-lo, denunciarão Assange por “roubo” dos documentos. Manning foi pressionada, durante sua detenção e julgamento – repetidamente e muitas vezes com brutalidade – a implicar Assange na obtenção do material. Recusou-se repetidamente a fazê-lo. Está no momento encarcerada por sua recusa a testemunhar, sem a presença de seu advogado, diante do júri reunido para o caso de Assange. Barack Obama ofereceu a Manning, condenada a 35 anos, clemência, depois de ela ter cumprido sete anos numa prisão militar.

Quando os documentos e vídeos que Manning entregou a Assange e ao WikiLeaks foram publicados e disseminados por publicações como o New York Times e o Guardian, a mídia voltou-se contra Assange, de modo insensível e louco. Organizações que haviam publicado o material do WikiLeaks em várias edições, logo aceitaram ser veículos de propaganda obscura para desacreditar Assange e sua publicação. Esta campanha coordenada foi detalhada num documento do Pentágono, também vazado, preparado pelo Setor de Contra-inteligência Digital e datado de 8 de março de 2008. O documento pedia que os EUA destruísse o “sentimento de confiança” que é o “centro de gravidade” do Wikleaks e a reputação de Assange.

Assange, que graças aos vazamentos de Manning havia exposto os crimes de guerra, as mentiras e as manipulações do governo de George W. Bush, atraiu a ira do establishment do Partido Democrata ao publicar 70 mil e-mails hackeados, que pertenciam ao Comitê Nacional e a dirigentes partidários. Os e-mails foram copiados da conta de John Podesta, o chefe de campanha de Hillary Clinton. Eles expuseram a doação de milhões de dólares, à Fundação Clinton, pela Arábia Saudida e o Qatar, dois dos grandes financiadores do Estado Islâmico. Também expuseram os 657 mil dólares que a Goldman Sachs pagou a Hillary Clinton por palestras – uma soma tão alta que só pode ser considerada suborno. Expuseram as incessantes mentiras de Hillary.

Os e-mails mostraram, por exemplo, que ela dizia às elites financeiras desejar “comércio e fronteiras abertas”, além de acreditar que os executivos de Wall Street estavam melhor posicionados para dirigir a economia – uma afirmação que contradizia toda a sua campanha. O material expôs os esforços da campanha de Hillary para influenciar as primárias do Partido Republicano e garantir que Trump fosse o escolhido pelo partido. Revelou que ela foi informada previamente das questões que lhe seriam dirigidas num debate. Demonstrou que a candidata foi a principal arquiteta da intervenção dos EUA na Líbia – um conflito que ela julgava capaz de selar suas credenciais para a disputa presidencial. Alguns jornalistas podem argumentar que tais informações, assim como os arquivos de guerra, deveriam permanecer escondidas – mas não podem, nesse caso, continuar considerando a si próprios como jornalistas.

Os dirigentes do Partido Democrata, interessados em culpar a Rússia pela derrota eleitoral, acusa hackers do governo russo de terem obtido os e-mails de Podesta. Mas James Comey, ex-diretor do FBI, admitiu que eles foram provavelmente entregues ao WikiLeaks por um intermediário. Assange sustenta que os e-mails não foram recebidos de “agentes de Estado”.

O WikiLeaks fez mais para expor os abusos do poder e os crimes do império norte-americano que qualquer outra publicação. Além dos arquivos de guerra, e dos e-mails de Podesta, ele tornou públicas as ferramentas de hackeamento usadas pela CIA e pela Agência Nacional de Segurança (a NSA), e sua interferência conjunta em eleições de outros países – inclusive as francesas. Ele revelou a conspiração interna contra Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, por parlamentares do partido. Quando Edward Snowden apontou a vasta vigilância exercida pelas agências de espionagem norte-americanas sobre seus cidadãos, o Wikileaks interveio para salvá-lo de extradição aos Estados Unidos, ajudando-o a fugir de Hong Kong para Moscou. Os vazamentos de Snowden também revelaram que Assange estava numa “lista de alvos de caçada humana” dos Estados Unidos.

Aparentemente abatido, quando era arrastado para fora da embaixada equatoriana pela polícia britânica, Assange balançou seu dedo e gritou: “O Reino Unido precisa resistir a esta ação do governo Trump… O Reino Unido precisa resistir”!

Todos nós precisamos resistir. Devemos, de todas as maneiras possíveis, pressionar o governo britânico para interromper o linchamento judicial de Assange. Se ele for extraditado aos EUA e julgado, isso criará um precedente legal que liquidará a capacidade da imprensa – a quem Trump repetidas vazes chama de “inimigo do povo” – para fiscalizar o poder. Os crimes financeiros e de guerra, a perseguição de dissidentes, minorias e imigrantes, a pilhagem, pelas corporações, na sociedade e dos ecossistemas e o empobrecimento incessante dos homens e mulheres que trabalham, para engordar as contas bancárias dos ricos e consolidar o controle total do poder pelos oligarcas globais não vão apenas se agigantar. Eles não serão mais parte do debate público. Primeiro Assange; depois, todos nós.
Por Chris Hedges | Tradução: Antonio Martins

Venezuela,Madura,Petróleo,Trump

Confirmado: Estados Unidos cercam militarmente Venezuela

Venezuela,Madura,Petróleo,TrumpSob o pretexto de ajuda humanitária, EUA se preparam para intervenção militar na Venezuela

Os recentes movimentos de tropas dos EUA, relatados por fontes públicas e pela mídia, confirmam que Washington está se preparando para se aproximar militarmente da República Bolivariana da Venezuela sob o pretexto de uma suposta “intervenção humanitária”.

Cuba assegurou em 13 de fevereiro, por meio de uma declaração do governo revolucionário, que os Estados Unidos pretendem fabricar “um pretexto humanitário para iniciar uma agressão militar contra a Venezuela” e denunciaram voos militares na região do Caribe como parte dos preparativos.

Embora fontes em Washington e alguns dos países envolvidos tenham sido rápidos em negar denúncias cubanas, as últimas informações disponíveis ratificam e ampliam a evidência de um cerco militar premeditado contra Caracas.

Segundo Rogan, em menos de uma semana o Pentágono é capaz de mobilizar 2.200 fuzileiros navais, jatos de combate, tanques e colocar dois porta-aviões na Venezuela.

Os três pontos do tridente norte-americano são: Caribe, Colômbia e Brasil. Não é coincidência que o almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul, tenha visitado Bogotá, Brasília e Curaçao durante as últimas semanas, sob a cobertura da suposta organização da entrega de “ajuda humanitária” à Venezuela.

O Caribe: Do porta-aviões Abraham Lincoln para Curaçao

Com a autorização da Holanda, os Estados Unidos organizam um centro de distribuição para a suposta ajuda na ilha de Curaçao, a poucos quilômetros das fronteiras com a Venezuela.

Mas a mobilização militar é muito mais ampla na região do Caribe. Na denúncia cubana, explica-se como, entre 6 e 10 de fevereiro de 2019, foram feitos vôos de aeronaves de transporte militar para o Aeroporto Rafael Miranda de Porto Rico, a Base Aérea de San Isidro, na República Dominicana e para outras ilhas do Caribe estrategicamente localizadas.

Agora, há o anúncio de que a Marinha dos Estados Unidos implantou um Grupo de Ataque de Porta-Aviões (CSG) no Oceano Atlântico e na costa da Flórida.

A frota é composta pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln (CVN-72), um cruzador de mísseis e quatro destróieres, além de uma fragata da marinha espanhola convidada a participar.

“Os GSGs têm recursos de plataforma cruzada para operar onde e quando necessário. Além de ter flexibilidade e sustentabilidade para combater guerras em grande escala e garantir a liberdade dos mares, os CSGs são símbolos visíveis e poderosos do compromisso dos Estados Unidos com seus aliados, parceiros e amigos ”, disse um comunicado de imprensa oficial do Marinha americana.

A bordo do USS Abraham Lincoln, o porta-aviões nuclear da classe Nimitz, opera o Embarked Air Squadron (CVW) 7, equipado com o Lockheed F-35C Lightning II, o mais avançado caça-bombardeiro do arsenal americano.

O grupo iniciou no dia 25 de janeiro os exercícios COMPTUEX, supostamente destinados a preparar a formação antes de um destacamento militar.

Embora sua localização atual e o destino de sua implantação sejam desconhecidos, os consultores militares Stratfor e Southfront localizaram o GSG em algum ponto do Atlântico, na costa do estado da Flórida.

Nos últimos dias, foi relatado que o grupo havia tentado um cruzamento de estreitos, uma manobra necessária para entrar no Mar do Caribe, que é separado por alguns dias de navegação.

Ragan aponta outra informação interessante em seu artigo. Os Estados Unidos poderiam não ter um, mas dois porta-aviões na faixa operacional da Venezuela em uma semana.

O porta-aviões USS Theodore Roosevelt e o navio de desembarque anfíbio USS Boxer estão “casualmente” agora, no porto de San Diego, Califórnia, a menos de uma semana de navegação da costa do Pacífico da Colômbia.

“O USS Boxer tem a bordo a décima primeira Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais (MEU), uma das 7 MEUs do Exército dos EUA. Esta unidade de fuzileiros navais tem aproximadamente 2.000 homens. O propósito expresso de uma MEU é oferecer uma capacidade de rápida implementação militar “, diz Ragan.

Colômbia, onde Bolton quer enviar 5.000 soldados

Aeronave de transporte militar pesado de longo alcance C-17 Globemaster III terras em Cúcuta, Colômbia. Foto: Telemundo

Desde a época do Plano Colômbia, inaugurada em 1999, a Colômbia é um dos principais aliados militares dos Estados Unidos na região. Washington estava prestes a instalar formalmente sete bases militares em território colombiano durante o mandato de Álvaro Uribe, mas uma decisão do Tribunal Constitucional bloqueou o plano.

No entanto, Bogotá encontrou uma maneira de contornar os controles e, finalmente, autorizou a presença americana e a implantação de logística nas principais instalações militares do país andino.

Essa aliança próxima chegou às manchetes no final de janeiro, quando o assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, “acidentalmente” mostrou uma anotação em seu caderno com o plano de enviar 5.000 soldados dos EUA para a Colômbia, como parte da operação contra a Venezuela.

O próprio presidente Donald Trump não descartou a idéia e, quando perguntado sobre isso durante uma reunião com seu colega colombiano, Ivan Duque, ele simplesmente disse: “Vamos ver”.

O presidente colombiano, por sua vez, preferiu não responder com um “sim” ou um “não” à possibilidade de a Colômbia permitir a entrada de tropas americanas, apesar do jornalista Bricio Segovia, da Voz da América, ter perguntado a ele. o mesmo em várias ocasiões:

Durante a entrevista, Segovia pergunta a Iván Duque:

– A Colômbia estaria disposta a receber 5.000 soldados em seu território?

Ao que o presidente colombiano respondeu: – Não sou bom em ler cadernos de outras pessoas.

Segovia insiste: – Você esteve com ele (John Bolton) recentemente.

– O que eu posso dizer é que estamos trabalhando duro para a libertação do povo venezuelano e estamos fazendo isso com um cerco diplomático bem-sucedido. Esse cerco diplomático é sem precedentes. Esse cerco diplomático isolou o ditador. Esse cerco diplomático é irreversível e a continuidade disto virá do efeito dominó que deve ser ativado pelas Forças Militares da Venezuela – responde Duque.

– Mas a Colômbia está disposta a receber tropas militares em seu território? – Segovia responde.

– Eu tenho sido claro, a solução em que acredito está no cerco diplomático. A continuidade do cerco diplomático deve ser o efeito dominó que será gerado na Venezuela quando mais membros das Forças Armadas depositarem sua lealdade a Juan Guaidó – ressalta Iván Duque.

– Então, a Colômbia não está disposta a receber tropas americanas em seu território … – esclarece Segovia.

– Nós fomos claros. O mais importante para a Venezuela alcançar a liberdade é o cerco diplomático, diz Duque.

– Então, é um não? – insiste Segovia

– O cerco diplomático é a ferramenta mais importante que tem sido visto na história da América Latina. Então, acho que é um grande triunfo para comemorar. A continuidade disto é representada pelo fato de que há mais soldados, assim como aqueles que já o fizeram nos últimos dias, entregando sua lealdade e juramento a Juan Guaidó.

– Com licença, senhor presidente, mas você não está respondendo a pergunta. A Colômbia está disposta a receber tropas dos EUA em seu território? – Segovia insiste novamente.

– Eu responderei de novo … – Duque diz.

mas Segovia o interrompe – sim ou não? Não tem nuances esta questão.

– É que, como não tem nuances, reitero que acredito convincentemente na importância do cerco diplomático, conclui Duque.

Segovia pediu a seus seguidores em sua conta no Twitter que tirassem suas próprias conclusões após a evasão do presidente.

Embora a chegada dos 5.000 militares ainda não tenha sido confirmada, os Estados Unidos já têm um transporte aéreo da base militar de Homestead, na Flórida, para a cidade colombiana de Cúcuta, a 2.600 quilômetros de distância.

Para as operações, são utilizados pelo menos três aviões de transporte militar pesado C-17 Globemaster III de longo alcance, fabricados pela Boeing e capazes de transportar 180 toneladas e entre 80 e 100 tripulantes.

Homestead é também a sede do controverso Comando Sul dos EUA.

Comando Sul

É o Comando Unificado das Forças Armadas dos Estados Unidos que operam na América Latina e no Caribe e um dos nove comandos diretamente ligados à mais alta liderança do Departamento de Defesa dos EUA.

Opera em um raio de ação de 32 países, 19 deles na América Central e do Sul e o restante no Caribe. Desde 1997, sua sede é no estado da Flórida.

Antes, desde 1947, baseava-se no Panamá. Sua própria história reconhece que, como antecedente “glorioso”, o desembarque de fuzileiros navais ianques naquele país no início do século XX. Comando Sul, também conhecida pela sua nomeação Inglês USSOUTHCOM se tornou um símbolo do intervencionismo americano na região e tem sido um aliado das forças militares e paramilitares tão pobre registro de mortes, torturas e desaparecimentos não deixaram nas nações latino-americanas e Caribe há mais de um século.

Nos últimos anos, o USSOUTHCOM vem armando, treinando e doutrinando exércitos nacionais para servir os interesses dos EUA sob sua liderança. O objetivo é evitar o uso de tropas americanas e, assim, reduzir a oposição política nos Estados Unidos.

O modelo é que Washington dirige e treina exércitos latino-americanos através de “programas conjuntos” extensivas e intensivas e subcontrata empresas mercenárias privadas que prestam militar especializado, todos os oficiais “aposentado” do exército norte-americano. (Extraído da Encyclopedia against Terrorism)

O Brasil de Bolsonaro, um novo aliado do Pentágono

Fronteira entre Brasil e Venezuela no Estado de Roraima. Foto: Arquivo Cubadebate

O Brasil, o maior país da América do Sul e com as maiores forças militares, tornou-se nos últimos anos um aliado inesperado da implantação do Pentágono na região.

Os governos de Michel Temer (interino após um golpe parlamentar) e Jair Bolsonaro, pretendem mudar a matriz do nacionalismo forte que se consolidou durante os governos do Partido dos Trabalhadores.

Em uma das primeiras entrevistas depois de assumir o cargo de presidente, a ultra-direita de Bolsonaro garantiu ao canal do SBT a possibilidade de instalar uma base militar norte-americana no país.

Mas Bolsonaro, um ex-capitão de um posto menor, parcialmente retratou sua ideia ao receber fortes críticas de seus próprios generais.

No entanto, ninguém duvida da proximidade do novo presidente brasileiro com seu colega americano, nem da admiração de dois de seus filhos pelo Mossad (serviço secreto dos hebreus) e pelo exército israelense.

O chefe do Comando Sul dos Estados Unidos esteve na semana passada no Brasil e foi recebido pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, com quem discutiu o “caso da Venezuela”.

Bolsonaro comprometeu-se a usar o estado de Roraima como um centro de coleta para a suposta ajuda humanitária contra a Venezuela e, portanto, para o desdobramento logístico dos EUA.

Seja qual for o objetivo da mobilização militar ordenada pela Casa Branca – dos preparativos para uma agressão direta a outra medida de pressão psicológica contra suas autoridades legítimas -, o que é inegável neste momento é que os Estados Unidos movem suas cartas no região para cercar a Venezuela por todas as estradas ao seu alcance.

Diante desse cenário, Cuba convocou todos os povos e governos do mundo para defender a paz e se opor, juntos, a diferenças políticas ou ideológicas, para impedir uma nova intervenção militar imperialista na América Latina e no Caribe que prejudicaria a independência, a soberania e os interesses dos povos do Rio Grande à Patagônia.

Hitler,Fascismo,Nazismo,Ideologias,Guerra,Blog do Mesquita

Hitler: o fascismo por ele mesmo

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Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: ‘Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo’

Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.

George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.

Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.

“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”

Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.

Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.

O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.

Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.

“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”

“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”

O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.

“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”

Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”

“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”

“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”

“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”

Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.

“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.

“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.

“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”

“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”

Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.

No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.

“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”

“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”

“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.

“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.

“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”

Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.

Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.

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O legado sinistro de George H. W. Bush: crimes de guerra, racismo e obstrução da Justiça

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O presidente George H.W. Bush discursa em rede nacional no Salão Oval, no dia 16 de janeiro de 1991, depois da deflagração da Operação Tempestade no Deserto contra o Iraque.
Foto: Charles Tasnadi/AP

AS HOMENAGENS AO ex-presidente americano George H. W. Bush, que faleceu na última sexta-feira aos 94 anos, têm vindo de todos os lados do espectro político. Ele era um homem “de elevadíssimo caráter”, disse seu filho mais velho e também ex-presidente, George W. Bush. “Ele amava a sua pátria, tendo servido com caráter, elegância e integridade”, tuitou Preet Bharara, ex-promotor público e símbolo do #Resistance, um movimento de oposição a Donald Trump. Segundo outro ex-presidente, Barack Obama, a vida de Bush foi “uma prova de que o serviço público é uma vocação nobre e gratificante. E ele fez um bem tremendo ao longo do caminho”. Tim Cook, presidente-executivo da Apple, sentenciou: “Perdemos um grande americano.”

Em plena era Trump, não é difícil para seus biógrafos pintar Bush pai como um grande patriota e pragmático – um presidente que teria governado com “elegância” e “integridade”. É verdade que o ex-presidente se recusou a votar em Trump em 2016, chamando-o de “fanfarrão”, e manteve distância da chamada alt-right (nova direita branca e nacionalista dos EUA) e da política de complôs que se tornou a marca do Partido Republicano atual. Bush ajudou a pôr fim à Guerra Fria “sem disparar um tiro”, nas palavras de Obama. Ele passou a vida servindo seu país – no exército, no Congresso, na ONU, na CIA e na Casa Branca – e, segundo consta, também foi um avô e bisavô amado por 17 netos e 8 bisnetos.

Entretanto, Bush era uma figura pública – um entre apenas 44 homens que já foram presidentes dos Estados Unidos. Não podemos, portanto, aceitar o embelezamento descarado de sua passagem pela Casa Branca. “Quando um líder político morre, permitir que ele seja apenas elogiado, e nunca criticado, é uma grande irresponsabilidade”, argumenta meu colega Glenn Greenwald, porque isso leva à construção de “uma história falsa” e ao “acobertamento propagandista dos erros cometidos”. A verdade inconveniente é que a presidência de George Herbert Walker Bush tinha muito mais em comum com a direita republicana belicosa e corrupta que o sucedeu – seu filho George W. Bush e o atual mandatário de cara laranja – do que uma parte das classes política e jornalística faz parecer.

Vejamos:

Ele fez uma campanha racista para a presidência. O nome “Willie Horton” deveria estar indelevelmente associado à eleição de Bush para a Casa Branca em 1988. Horton, que cumpria uma pena de prisão perpétua por assassinato em Massachusetts – estado governado pelo adversário democrata de Bush, Michael Dukakis –, aproveitara-se de um indulto de fim de semana para fugir e estuprar uma mulher em Maryland. O famoso anúncio de TV intitulado Weekend Passes (“Indultos de Fim de Semana”, em tradução livre), produzido por um comitê de ação política ligado à campanha de Bush, deixava claro ao telespectador que Horton era negro, e sua vítima, branca.

Lee Atwater, o diretor de campanha de Bush na época, gabou-se: “Quando terminarmos, vai ter gente achando até que Willie Horton é da chapa de Dukakis.” O próprio Bush logo classificou as acusações de racismo de “absolutamente ridículas”, mas era óbvio na época – mesmo para republicanos de direita, como Roger Stone, atual aliado de Trump – que o anúncio havia passado dos limites. “Esse caso vai seguir você e George Bush até a cova”, reclamou Stone com Atwater. “É um anúncio racista. (…) Vocês vão se arrepender”, avisou.

Stone tinha razão quanto a Atwater, que, em seu leito de morte, pediu perdão por ter usado Horton contra Dukakis. Mas Bush nunca se desculpou.

Ele usou argumentos desonestos para ir à guerra. Treze anos antes de que George W. Bush mentisse sobre as armas de destruição em massa iraquianas para justificar a invasão e ocupação do país, seu pai já havia dado declarações falsas para poder bombardear o Iraque. A primeira Guerra do Golfo, como concluiu uma investigação do jornalista Joshua Holland, “foi baseada em uma montanha de propaganda”.

Para começar, Bush disse aos americanos que o Iraque havia invadido o Kuwait “sem provocação ou aviso”. Mas ele esqueceu de mencionar que a embaixadora americana no Iraque, havia praticamente dado sinal verde a Saddam Hussein, dizendo a ele, em julho de 1990, uma semana antes da invasão do Kuwait: “Não temos opinião sobre conflitos entre árabes, como a sua disputa de fronteiras com o Kuwait.”

Depois veio a falsificação de informações de inteligência. Bush enviou tropas americanas para o Golfo em agosto de 1990 sob o pretexto de “prestar assistência ao governo da Arábia Saudita na defesa de seu território”. Mas, como escreveu Scott Peterson no Christian Science Monitor, em 2002: “Com base em supostas imagens de satélite confidenciais, funcionários do Pentágono estimaram (…) em 250 mil o número de soldados e em 1.500 o número de tanques na fronteira, ameaçando o maior fornecedor de petróleo dos EUA.”

Porém, a repórter do St. Petersburg Times Jean Heller obteve acesso a imagens de satélite da fronteira saudita disponibilizadas comercialmente, e elas mostraram apenas o deserto vazio, sem nenhum sinal das tropas iraquianas. “Era uma mentira gravíssima”, disse Heller a Peterson. “Aquilo [a mobilização iraquiana] era a justificativa de Bush para o envio de tropas à região, mas simplesmente não era verdade”, acrescentou.

USA,BushO presidente George H. W. Bush conversa com o secretário de Estado, James Baker III, e o secretário de Defesa, Dick Cheney, durante uma reunião de gabinete na Casa Branca sobre a Guerra do Golfo, no dia 17 de janeiro de 1991. O presidente George H. W. Bush conversa com o secretário de Estado, James Baker III, e o secretário de Defesa, Dick Cheney, durante uma reunião de gabinete na Casa Branca sobre a Guerra do Golfo, no dia 17 de janeiro de 1991. Foto: Ron Edmonds/AP

Ele cometeu crimes de guerra. No governo de Bush pai, os EUA jogaram nada menos do que 88.500 toneladas de bombas no Iraque e nos territórios ocupados do Kuwait, muitas das quais causaram terríveis perdas civis. Em fevereiro de 1991, por exemplo, um bombardeio americano contra um abrigo antiaéreo no bairro de Amiriyah, em Bagdá, matou pelo menos 408 civis iraquianos. Segundo um relatório da Human Rights Watch, o Pentágono sabia que o alvo havia sido usado como abrigo para civis durante a guerra Irã-Iraque, mas, mesmo assim, atacou sem avisar. “Uma grave violação das leis da guerra”, conclui o documento.

As bombas americanas também destruíram infraestruturas civis essenciais para o Iraque, de usinas elétricas e estações de tratamento de água a fábricas de alimentos e moinhos. Isso não foi acidental. Barton Gellman, em artigo publicado no Washington Post em junho de 1991, escreveu: “Alguns alvos, principalmente na reta final da guerra, foram bombardeados para aumentar o poder de barganha contra o Iraque depois da guerra, e não para influenciar o conflito em si. Estrategistas agora dizem que o objetivo era destruir ou danificar instalações importantes que só poderiam ser reparadas com ajuda internacional. (…) Por causa disso, muitos dos danos causados a estruturas e interesses civis, invariavelmente classificados como ‘colaterais’ e ‘involuntários’ nos relatórios, não eram nem uma coisa, nem outra.”

Entenderam? O governo Bush atacou alvos civis para poder “barganhar” com Saddam Hussein. Como não chamar isso de terrorismo? Uma equipe de especialistas em saúde pública de Harvard concluiu, em junho de 1991, menos de quatro meses depois do fim da guerra, que a destruição da infraestrutura iraquiana havia causado desnutrição e níveis “epidêmicos” de cólera e febre tifoide na população do país.

Em janeiro de 1992, Beth Osborne Daponte, demógrafa do Departamento do Censo dos Estados Unidos, estimava em 158 mil o número de baixas iraquianas na Guerra do Golfo, incluindo 13 mil civis mortos imediatamente e 70 mil devido aos estragos sofridos pelas usinas de energia e estações de tratamento de água. Os números de Daponte contradiziam as estimativas oficiais do governo, e ela foi ameaçada de demissão por difundir “informações falsas”. (Soa familiar?)

Ele se recusou a colaborar com a Justiça. O caso Irã-Contras, no qual os EUA venderam mísseis em troca da libertação de reféns americanos no Irã e, com o dinheiro da venda, financiaram rebeldes na Nicarágua, foi uma grande mancha no mandato de Ronald Reagan. Apesar disso, pouco se falou do envolvimento do então vice-presidente no escândalo. “Infelizmente, o inquérito criminal contra Bush foi incompleto”, escreveu no relatório final do caso Irã-Contras, em agosto de 1993, o promotor independente Lawrence Walsh, que havia sido vice-procurador-geral do governo Eisenhower.

Por quê? Porque Bush – que “tinha total conhecimento da venda de armas ao Irã”, segundo o promotor independente – não entregou à Justiça um diário “contendo anotações contemporâneas relevantes para o caso” e se recusou a depor nas últimas fases da investigação. Em seus últimos dias como presidente, Bush concedeu o perdão presidencial a seis condenados no caso Irã-Contras. Um deles era o ex-secretário de Defesa Caspar Weinberger, que foi perdoado na véspera de seu julgamento por falso testemunho e obstrução da Justiça. “Foi a primeira vez em que um réu obteve um perdão presidencial em um julgamento no qual o próprio presidente poderia ser chamado para depor, pois Bush tinha conhecimento de fatos inerentes ao caso”, enfatizou Walsh. Irritado, o promotor acusou Bush de “desvio de conduta” e de ter ajudado a “acobertar o caso Irã-Contras”.

Parece um caso trumpiano de obstrução da Justiça, não parece?

Um oficial de justiça, à esquerda, mostra uma foto de um suspeito a um homem que, segundo a polícia, fora encontrado usando drogas em um ponto de venda de entorpecentes em Washington, D.C., no dia 18 de julho de 1989. A operação fazia parte da “guerra às drogas” do então presidente dos EUA, George H. W. Bush. Um oficial de justiça, à esquerda, mostra uma foto de um suspeito a um homem que, segundo a polícia, fora encontrado usando drogas em um ponto de venda de entorpecentes em Washington, D.C., no dia 18 de julho de 1989. A operação fazia parte da “guerra às drogas” do então presidente dos EUA, George H. W. Bush. Foto: J. Scott Applewhite/AP
Ele intensificou a guerra racista contra as drogas. Em setembro de 1989, no Salão Oval, em um discurso televisionado para toda a nação, Bush segurava um pacote de crack, que, segundo ele, havia sido “apreendido dias antes em um parque em frente à Casa Branca. (…) Poderia muito bem ter sido um pacote de heroína ou PCP”.

Naquele mesmo mês, contudo, uma investigação do Washington Post revelou que policiais federais haviam “atraído” um traficante para Parque Lafayette para “uma falsa compra de crack em um parque mais conhecido por estar situado em frente à Casa Branca do que pelo tráfico de drogas”. O traficante não sabia onde ficava a Casa Branca e chegou a perguntar o caminho aos policiais. Ardilosamente, Bush usou o pacote de crack como um acessório de cena para pedir um aumento de 1,5 bilhões de dólares no orçamento da guerra às drogas, proclamando: “Precisamos de mais presídios, mais cadeias, mais tribunais, mais promotores.”

O resultado? “Milhões de americanos foram encarcerados, centenas de bilhões de dólares foram desperdiçados e permitiu-se que centenas de milhares de seres humanos morressem de aids – tudo em nome de uma ‘guerra às drogas’ que não fez nada para reduzir o uso de entorpecentes”, afirmou Ethan Nadelmann, fundador da Drug Policy Alliance, em 2014. Para ele, Bush “colocou a ideologia e a política acima da ciência e da saúde”. Hoje em dia, até mesmo líderes republicanos como Chris Christie e Rand Paul reconhecem que a guerra às drogas, intensificada por Bush pai durante seus quatro anos na Casa Branca, foi um fracasso deplorável e racista.

Ele assediava mulheres. Desde o início do movimento #MeToo, no fim de 2017, pelo menos oito mulheres afirmaram ter sido bolinadas pelo ex-presidente – enquanto posavam para fotos com ele, na maioria dos casos. Uma delas, Roslyn Corrigan, disse à revista Time que Bush a havia apalpado em 2003, quando ela tinha apenas 16 anos. “Eu era uma criança”, contou. O ex-presidente tinha 79. O porta-voz de Bush defendeu seu chefe em outubro de 2017 da seguinte forma: “O presidente Bush está com 93 anos, cinco deles em uma cadeira de rodas, então o braço dele fica abaixo da cintura das pessoas com quem tira fotos.” Mas, como observou a reportagem da Time, “Bush estava em pé quando conheceu Corrigan em 2003”.

Os fatos são importantes. O 41º presidente dos EUA não foi o último republicano moderado nem o representante de uma era imaginária de decência e urbanidade conservadoras. Ele usou o racismo para se promover, obstruiu a Justiça e cometeu crimes de guerra. Ele tinha muito mais em comum com os dois presidentes republicanos que o sucederam do que seus fãs de última hora querem nos fazer crer.

Tradução: Bernardo Tonasse

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É Froidi – Drops & Picles

Frase do dia
“Assim que a expressão de entrega se choca com bloqueios que impedem a sua livre expansão, transforma-se em raiva destruidora.”
Wilhelm ReichWilhelm Reich,Filosofia,Literatura


Mais estranho que o desaparecimento do motorista, é o desaparecimento da Polícia Federal, do Ministério Público e de todo Judiciário Brasileiro.
Logo aqui, no país da Lava Jato?


“Justiça acata pedido e agricultor deve ser solto após três meses preso por furtar biscoito”

Mas também quem mandou roubar um pacote de biscoito, cuja valor não era irrisório, né?Geddel,Corrupção,Brasil,Malas de Dinheiro,Blog do Mesquita,Justiça Geddel,Corrupção,Brasil,Malas de Dinheiro,Blog do Mesquita,Justiça

Da série de terror “Não irá sobrar nada”

Baleia encontrada morta com 40Kg de sacos plásticos no estômago.Meio Ambiente,Vida Selvagem,Baleia,Poluição,Oceanos,Plásticos,Blog do Mesquita

COAF…COAF…COAF
Cabaré em chamas.
Até a JanaLoka denunciou o esquema do Bozo Filho.
Flávio Bolsonaro contrata assessores e fica com parte dos salários deles.
Parece o governo cubano que ficava com parte do salário dos médicos.


Brasil da série “Sem humor não dá pra agüentar o tranco nesse hospício.”Bolsonaro,Motorista,Blog do Mesquita


Design – Portas e Janelas
Mosteiro de Batalha,Portugal
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Sinto dizer que goiabeira e a bolsa estupro, todos vinculados à ministra Damares, são cortina de fumaça para a corrupção dos Bolsonaros. E nós caímos mais uma vez. Robôs dos goiabas seguem pautando as redes.Bolsonaro,Brasil,COAF,Corrupção


Onde está o motorista Fabrício Bolsonaro Queiroz?Blog do Mesquita,Fabricio Queiroz,Motorista,Bolsonaro,Brasil,Corrupção


Cerimônia de Lançamento ao mar do Submarino Riachuelo, o primeiro de alta tecnologia fabricado no Brasil, nos estaleiros da Marinha Brasileira.

O nuclear, se “as forças ocultas não “atrapalharem”, em breve.Submarino Riachuelo,Marinha do Brasil,Blog do Mesquita
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Bombardeiros estratégicos russos Tu-160 pousam na Venezuela

O Ministério da Defesa da Rússia informou que o voo das aeronaves ocorreu em estrita conformidade com o Regulamento do Uso do Espaço Aéreo InternacionalO Ministério da Defesa da Rússia informou que o voo das aeronaves ocorreu em estrita conformidade com o Regulamento do Uso do Espaço Aéreo Internacional Dois bombardeiros de mísseis estratégicos Tu-160 Blackjack, um avião de transporte militar pesado An-124 e um avião da Força Aeroespacial Il-62 de longo alcance pousaram hoje no Aeroporto Internacional de Maiquetía da República Bolivariana da Venezuela, informou o ministério. O informe acrescentou que o voo das aeronaves ocorreu sobre as águas do Mar de Barents, Mar da Noruega, Oceano Atlântico e Mar do Caribe em estrita conformidade com as Regras Internacionais para o Uso do Espaço Aéreo. “Durante o vôo, os pilotos da VKS viajaram mais de 10.000 quilômetros”, completou. Este não é o primeiro deslocamento dos Tu-160 para a Venezuela. Anteriormente, esses bombardeiros de mísseis estratégicos visitaram a Venezuela em setembro de 2008 e em outubro-novembro de 2013. A Rússia está enviando bombardeiros Tu-160 blackjack com capacidade nuclear para a Venezuela nesta semana como parte de um padrão cada vez mais provocativo de voos de treinamento de bombardeiros, de acordo com autoridades de defesa americanas. A investida de bombardeiros na América do Sul é o sétimo vôo de treinamento da Rússia para os bombardeiros do Blackjack nos últimos três meses. Espera-se que o Pentágono monitore de perto os Blackjacks por causa de seu potencial de disparar mísseis de cruzeiro nucleares em alvos dos EUA. O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou em janeiro de 2018 que os militares estão investindo US$ 2,8 bilhões para modernizar a frota Tu-160 com novos motores e aviônicos avançados. Putin recentemente intensificou a retórica ameaçadora contra os Estados Unidos após o anúncio do governo Trump de que se retirará do Tratado de Forças Nucleares de Intermediário de 1987 sobre as violações do acordo por Moscou. A Rússia usou o Tu-160 na Síria para disparar mísseis de cruzeiro de longo alcance. Em março, o vice-ministro da Defesa russo, Yury Borisov, anunciou que o Tu-160 está passando por uma grande atualização e carrega mísseis nucleares Kh-55 assim comomísseis de cruzeiro convencionais Kh-555 e Kh-101.

Dois bombardeiros de mísseis estratégicos Tu-160 Blackjack, um avião de transporte militar pesado An-124 e um avião da Força Aeroespacial Il-62 de longo alcance pousaram hoje no Aeroporto Internacional de Maiquetía da República Bolivariana da Venezuela, informou o ministério.

O informe acrescentou que o voo das aeronaves ocorreu sobre as águas do Mar de Barents, Mar da Noruega, Oceano Atlântico e Mar do Caribe em estrita conformidade com as Regras Internacionais para o Uso do Espaço Aéreo. “Durante o vôo, os pilotos da VKS viajaram mais de 10.000 quilômetros”, completou.

Este não é o primeiro deslocamento dos Tu-160 para a Venezuela. Anteriormente, esses bombardeiros de mísseis estratégicos visitaram a Venezuela em setembro de 2008 e em outubro-novembro de 2013.Aeronáutica & Espaço,Russia,Venezuela,Aviões,Bombardeiros,Guerra,América Latina 0

A Rússia está enviando bombardeiros Tu-160 blackjack com capacidade nuclear para a Venezuela nesta semana como parte de um padrão cada vez mais provocativo de voos de treinamento de bombardeiros, de acordo com autoridades de defesa americanas.

A investida de bombardeiros na América do Sul é o sétimo vôo de treinamento da Rússia para os bombardeiros do Blackjack nos últimos três meses.

Espera-se que o Pentágono monitore de perto os Blackjacks por causa de seu potencial de disparar mísseis de cruzeiro nucleares em alvos dos EUA.

O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou em janeiro de 2018 que os militares estão investindo US$ 2,8 bilhões para modernizar a frota Tu-160 com novos motores e aviônicos avançados.

Putin recentemente intensificou a retórica ameaçadora contra os Estados Unidos após o anúncio do governo Trump de que se retirará do Tratado de Forças Nucleares de Intermediário de 1987 sobre as violações do acordo por Moscou.

A Rússia usou o Tu-160 na Síria para disparar mísseis de cruzeiro de longo alcance.

Em março, o vice-ministro da Defesa russo, Yury Borisov, anunciou que o Tu-160 está passando por uma grande atualização e carrega mísseis nucleares Kh-55 assim comomísseis de cruzeiro convencionais Kh-555 e Kh-101.Aeronáutica & Espaço,Russia,Venezuela,Aviões,Bombardeiros,Guerra,América LatinaAeronáutica & Espaço,Russia,Venezuela,Aviões,Bombardeiros,Guerra,América LatinaAeronáutica & Espaço,Russia,Venezuela,Aviões,Bombardeiros,Guerra,América LatinaAeronáutica & Espaço,Russia,Venezuela,Aviões,Bombardeiros,Guerra,América LatinaAeronáutica & Espaço,Russia,Venezuela,Aviões,Bombardeiros,Guerra,América Latina

Bebê espantado,Blog do Mesquita

É Froidi – Drops & Picles

Da série “Meu ofício é incomodar”
Cadê o Queiroz?
Quem matou Mariele?
Cadê o esfaqueador?
Só chamando o Herculano QuintanilhaBola de Cristal,Blog do Mesquita,O Astro

Imagina você entrando nessa Catedral em Campinas e o padre com uma 12 do lado da Bíblia?
Uma mistura de Gunslinger com Priest!

Armas,Igreja,Blog do Mesquita

Fotografias,Animais,Cavalos,Blog do Mesquita 3


Vamos fazer as contas?
Fernanda Montenegro é atriz desde antes de 1951, e a Lei Rouanet foi criada em 1991.
Em 1991, ela já era um ícone da dramaturgia no país e conhecida mundialmente.
Como ela só ficou famosa por quê “mama” na Lei Rouanet?
A NASA precisa estudar os devotos da “famiglia”.


Chega!
Ela tem um livro: Jesus no pé de goiaba! Dá pra acreditar?
“Eu vi Jesus no pé de goiaba”, diz Damares Alves, futura ministra de Bolsonaro.


Ministra-pastora propõe relativizar o estupro, humanizar o estuprador e punir a mulher tonando o aborto crime hediondo. Uma inacreditável peça de violência contra a mulher em três atosFreira,Terror,Blog do Mesquita


Ontem foi o Dia Mundial do Palhaço, mas aqui no Bananil, o dia durará, no mínimo quatro anos.

Se abrir a porta para maluco, ninguém a fechará mais.
Reunião dessa turma dos parafuso solto. Olhem só o futuro ministro da Ciência e Tecnologia participando das reuniões do Gabinete de Transição do novo(?) governo, vestido de astronauta.Bolsonaro, Astronauta

O mais triste, desesperador, é que ainda tem muito espaço para piorar.
“Vamos tratar meninas como princesas e meninos como príncipes”, diz futura ministra –
A pastora Damares Alves defendeu o que chamou de uma contrarrevolução cultural. Cuma? Hahahaha.


Inacreditável: Alberto Fraga – bancada da bala, não se reelegeu e é “cliente” da Lava Jato – acaba de culpar a Rede Globo pelo atentado ocorrido em Campinas, em que um homem abriu fogo na catedral, matou quatro e cometeu suicídio. “Esse tipo de atitude deve-se à repercussão da Rede Globo de casos isolados dos EUA sendo repercutidos aqui”. “Quiuspa”!Brasil,Política,Humor


A xenofobia, a rejeição da pluralidade, a mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior e a construção de bodes expiatórios se transformaram em tendência mundial. É preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos extremistas. Também é necessário fortalecer a coesão coletiva


Fabrício Queiroz,Motorista,Bolsonaro


O Junior, “parça” do motorista desaparecido, Filhinho disse que ia invadir a Venezuela. Será que ele mantém a promessa? Se só com a Venezuela sozinha já não iria conseguir, imagine agora com a Rússia. Vai que é sua, Bozinho!Aviões,Bombardeiros,Rússia,Venezuela,Bolsonaro


Mais um.
Ricardo Salles gastou R$ 260 mil para propaganda eleitoral antecipada, diz MP
Procuradoria acusa novo ministro do Ambiente de abuso de poder econômico na eleição
Ricardo Salles gastou R$ 260 mil para propaganda eleitoral antecipada, diz MPBolsonaro,Brasil,COAF,Corrupção


Mudança no mundo das histórias infantis: sai “João e o Pé de Feijão”, entra “Jesus e o Pé de Goiaba”.
Mas é bom tomar cuidado. Depois de ouvir a versão contada pela tia Damares, a criança fica uma semana sem dormir.



Não escapa ninguém. Só tem ladrão. Tudo com rabo preso apontando o rabo preso dos outros.
PSC, PT e PSOL aparecem em relatório do Coaf.


Tem que ser interditada. Na frente da tia da goiabeira, Paschoal é um modelo de sanidade e equilíbrio emocional.

O garotinho do filme “Sexto Sentido”
– Eu acho que vejo gente morta!
Ministra do Bozó:
– Fica quieto moleque, eu vejo Jesus na goiabeira o tempo e, nem por isso fico dando bandeira, fica quieto senão internam a gente!

Meu pé de Laranja, Laranja.

Alguma notícia de como funciona o Programa Minha Laranja Minha Vida?
PF fazendo buscas nas casas dos envolvidos? Um Plantão da Globo mostrando PowerPoint? Algo?Laranjas,Corrupção,Lavagem de dinheiro,Blog do Mesquita