Correspondente da Guerra da Rússia lança luz sobre a guerra de drones da Turquia em Idlib

A situação na província rebelde de Idlib, na Síria, se transformou em uma guerra de tiros ativa entre tropas sírias e turcas na semana passada, depois que um ataque do exército sírio contra terroristas de Nusra * matou quase três dezenas de militares turcos misturados entre os jihadistas. A greve levou Ancara a iniciar uma grande operação na região.

Os drones turcos no noroeste da Síria estão mirando em tudo o que se move, se houver suspeita de estar relacionada com o exército sírio, informou Evgeny Poddubny, correspondente do Rossiya 1 baseado em Idlib.

“Assim que os zangões de ataque turcos apareceram no céu de Idlib, a natureza dos combates mudou dramaticamente”, disse o correspondente em uma transmissão ao vivo no domingo.
Segundo Poddubny, todas as perdas sofridas pelo exército sírio nos últimos dias estavam nas mãos dos drones turcos.

A agência de notícias turca Anadolu divulgou um vídeo mostrando os ataques de Ancara às posições do governo sírio em Idlib.

A Turquia não poupou despesas com os ataques, que não são baratos, atingindo colunas de suprimentos, atingindo alvos únicos – carros, picapes, veículos blindados e até motociclistas. Foi o que disseram as tropas sírias na linha de frente ”, disse Poddubny. Enquanto isso, as forças sírias estão fazendo o possível para manter-se firmes, apesar da diferença de 30 anos em tecnologia, que derrubou até seis drones turcos no domingo.
O jornalista enfatizou que, se o espaço aéreo sobre Idlib não for liberado dos drones turcos em breve, o Exército Sírio terá dificuldade em manter os recentes ganhos que obteve contra os terroristas que operam na província.

Os drones turcos usados na Síria incluem a família de drones TAI Anka, que tem uma carga útil de armas de até 200 kg, bem como o Bayraktar TB2, um UAV de longa duração armado com mísseis anti-tanque.

Base da Força Aérea da Síria em Homs
Direito de imagek © SPUTNIK / ILYA PITALEV

A Turquia lançou uma ofensiva chamada “Operação Spring Shield” na quinta-feira, logo após a morte de pelo menos 33 tropas turcas em um ataque do Exército Sírio a posições terroristas. Os militares russos indicaram que essas forças estavam operando entre os terroristas de Nusra na região, contra os quais as forças sírias estão fazendo uma ofensiva.

A Síria iniciou uma operação militar em Idlib no final do ano passado, após repetidos ataques de Nusra e outros terroristas a seus militares. No início de fevereiro, um ataque de artilharia síria matou mais de meia dúzia de tropas turcas. A Rússia tentou mediar a crise, com a expectativa de que os presidentes Putin e Erdogan se encontrem em Moscou em 5 de março para discutir a situação na província.

* Um grupo terrorista baniu a Rússia e muitos outros países.

Guerras,Blog do Mesquita 01

EUA X Irã: o que originou a rivalidade de décadas entre os dois países

O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES

Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali Khomeini
O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES
Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali KhomeiniDireito de imagem GETTY IMAGES
O aiatolá Khomeini se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edificio

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosDireito de imagem GETTY IMAGES
Em 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.

 se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edifício

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosEm 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.
ViaBBC

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Tecnologia – As armas cibernéticas do século XXI

Quais são as sofisticadas armas cibernéticas da guerra do século 21?

Ataque cibernéticoSaber que a distância física não é obstáculo para um ataque faz com que as pessoas se sintam mais vulneráveis – Direito de imagem THINKSTOCK

Eles não sabiam o que estava acontecendo. O equipamento quebrava constantemente, mas a causa era um mistério. Peças eram substituídas, mas o problema ocorria novamente.

Passou-se um ano antes que descobrissem que o problema era um vírus chamado Stuxnet, que havia infectado os sistemas eletrônicos da planta de enriquecimento de urânio em Natanz, no Irã.

Esta era a razão por trás dos diversos erros que atrasaram e prejudicaram o programa nuclear do país.

O descobrimento do Stuxnet, em 2010, tornou claro que os crimes cibernéticos podiam ir além da espionagem e do roubo de dados pessoais com fins econômicos: confirmou que era possível causar prejuízos físicos com uma motivação política.

“Foi a exploração bem-sucedida do ciberespaço com o objetivo de controlar uma série de processos industriais para destrui-los remotamente, sem que ocorresse nenhum tipo de confronto militar”, diz Lior Tabansky, especialista em cibersegurança estratégica da Universidade Yuval Ne’eman, em Israel, na publicação Cyber Security Review.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Isso demonstrou quão sofisticadas e precisas podem ser as armas cibernéticas.”

É difícil saber com certeza qual foi a origem desse ataque. Mas, segundo um artigo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, suspeita-se que uma equipe de especialistas israelenses e americanos esteja por trás do incidente.

Essa opinião é compartilhada por diversos especialistas em segurança cibernética.

LaptopArmas cibernéticas já provaram que têm o poder de causar sérios prejuízos físicos e psicológicos com motivação política – Direito de imagem THINKSTOCK

Ciberterrorismo

Esse tipo de incidente, que afeta o funcionamento de equipamentos e infraestruturas, é uma das modalidades de ciberataques mais perigosa. Nos últimos anos, foram registrados vários ataques.

Suas consequências vão além do plano físico.

“Além do prejuízo concreto, esse tipo de evento tem um efeito secundário muito importante: o psicológico. A isso se referem os termos ciberterrorismo e ciberguerra”, disse à BBC Graham Fairclough, especialista do Centro de Cibersegurança da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Eles geram medo e ansiedade. Tem-se a sensação de que alguém pode fazer algo com você e que você não tem a possibilidade de se proteger. O alcance também é importante, já que no ciberespaço a distância física não é relevante. Você pode ser uma vítima mesmo que esteja longe do ponto de origem do ataque.”

Neste contexto, o indivíduo perde confiança no sistema e em sua habilidade para protegê-lo.

“Tudo o que funcione com softwares pode ser utilizado para causar prejuízo, seja algo simples, como uma geladeira, ou muito mais complexo. A chave é o código, que pode ser desenvolvido ou comprado de criminosos na internet. E o equipamento físico, ou hardware, também pode ser comprado com facilidade na rede”, afirma Fairclough.

Planta nuclear
O ataque à instalação nuclear iraniana ocorreu sistematicamente durante um ano até ser descoberto – Direito de imagem THINKSTOCK

MÉTODOS MAIS COMUNS DE CIBERATAQUES

Botnets: Redes de sistemas que têm o objetivo de controlar remotamente os aparelhos e distribuir programas maliciosos.

Engenharia social: Técnica que tenta enganar as vítimas para que elas compartilhem informações confidenciais. O phishing – na qual a vítima é levada a entrar em sites que parecem autênticos, mas não o são – é um dos tipos mais usados.

Ataque de negação de serviço (DDoS, na sigla em inglês): Ocorre quando um site é “derrubado”, e os usuários não conseguem acessá-lo.

Ameaça persistente avançada (APT, na sigla em inglês): Ocorre quando o organizador do ataque entra no sistema operacional de uma empresa que tenha informações valiosas e permanece ali, sem ser detectado, por um longo tempo. O objetivo é roubar informação, e não danificar a rede da organização. Muitas vezes, a entrada ocorre através dos computadores de funcionários mais baixos da empresa, mas que estão conectados à rede.

Ataque man-in-the-middle (homem do meio, em tradução livre): Ocorre quando um hacker intercepta a comunicação entre duas partes, sem que elas percebam.

Fonte: Ministério do Interior da Alemanha e GlobalSign


Família em casa sem luz elétrica
O incidente em Ivano-Frankivsk, na Ucrânia, deixou 230 mil pessoas sem eletricidade – Direito de imagem GETTY IMAGES

Ataque impressionante

A sofisticada combinação de efeitos físicos e psicológicos das novas armas cibernéticas fica evidente no ataque que sofreu o sistema elétrico de Ivano-Frankivsk, uma cidade no oeste da Ucrânia, em dezembro de 2015.

Sem nenhum tipo de aviso, os técnicos da estação da região perderam o controle de seus computadores. Cursores moviam-se sozinho na tela e os terminais desativaram os interruptores que controlavam o fluxo de energia.

Os hackers por trás do ataque expulsaram os técnicos do sistema e mudaram suas senhas, impedindo que eles se conectassem novamente.

De acordo com a revista de tecnologia Wired, 230 mil moradores da cidade ficaram sem luz e sem calefação durante horas. Trinta subestações de energia e outros centros de distribuição foram desligados.

Uma ocorrência semelhante foi registrada em dezembro de 2016, desta vez no norte da capital ucraniana, Kiev.

Funcionários do governo ucraniano responsabilizaram a Rússia por ambos os ataques, em meio ao conflito entre os dois países – que ocorre há cerca de três anos, após a anexação russa da Crimeia, uma península ao sul da Ucrânia.

CódigoAs ameaças cibernéticas chegaram para ficar, segundo os especialistas em segurança – Direito de imagem THINKSTOCK

PASSO A PASSO DE UM CIBERATAQUE

1. Pesquisa – Compilar e analisar a informação que existe sobre o alvo, para identificar vulnerabilidades e decidir quem serão as vítimas.

2. Transporte – Chegar ao ponto fraco da rede informática que se quer penetrar. Pode-se usar métodos como:

  • Replicar um site que a vítima usa com frequência;
  • Entrar na rede da organização;
  • Enviar um e-mail com um link para um site malicioso ou com um arquivo anexo infectado com algum vírus;
  • Conectar em um computador da rede um pen drive com códigos maliciosos.

3. Entrada – Explotar essa vulnerabilidade para obter acesso não autorizado. Para conseguir isso, é preciso modificar o funcionamento do sistema, penetrar nas contas dentro da rede e conseguir o controle do computador, o celular ou o tablet do usuário.

4. Ataque – Realizar atividades dentro do sistema para conseguir o que o hacker quer.

Fonte: GCSQ


Cabos de eletricidadeRedes de eletricidade e de distribuição de água são vulneráveis a hackers habilidosos e com recursos – Direito de imagem GETTY IMAGES

Guerra de palavras

Recentemente, foram registradas uma série de denúncias e alertas sobre ciberataques centrados na manipulação de informações com objetivos políticos, incluindo com o propósito de intervir em processos eleitorais de outros países.

Nas últimas semanas, funcionários governamentais americanos, britânicos, alemães e tchecos também acusaram a Rússia de extrair informações de órgãos oficiais com este propósito.

A habilidade de obter informação privada, classificada e comprometedora de quase qualquer instituição governamental, privada, comercial ou de outro tipo, e usá-la com uma finalidade determinada é uma das armas mais poderosas da batalha cibernética no século 21.

Mas o que é possível conseguir, concretamente, com isso?

“Não é possível intervir nos sistemas eletrônicos de uma eleição para mudar seus resultados”, disse à BBC Brian Lord, ex-diretor encarregado de Inteligência e Ciberoperações do Centro de Comunicações do Governo (GCHQ, na sigla em inglês), o órgão de inteligência britânico.

“O que é possível fazer é acessar, filtrar e manipular informação para mudar a narrativa em torno de um processo eleitoral ou qualquer outro evento.”

É isso, justamente, o que se identificou como “notícias falsas”, que foram difundidas com grandes repercussões, principalmente nos Estados Unidos

Foi o caso do suposto apoio que o papa Francisco teria dado à candidatura de Donald Trump e de um suposto “romance” entre Yoko Ono e Hillary Clinton.

Vladimir Putin
Funcionários de diversos países responsabilizaram a Rússia por ciberataques que sofreram nos últimos meses – Direito de imagem GETTY IMAGES

‘Mais alcance’

Se as acusações à Rússia forem confirmadas, não será a primeira vez que um país tenta interferir às escondidas nos assuntos internos de outro, com objetivos específicos.

“Este tipo de ataques não são novidade, os russos estão há décadas tentando obter informações de outros governos. A diferença é que agora usam diferentes plataformas e têm um alcance maior”, disse à BBC Thomas Rid, professor do Departamento de Estudos Bélicos do King’s College em Londres.

Rid publicou um artigo sobre o vazamento de e-mails do Comitê Nacional do Partido Democrata americano (DNC, na sigla em inglês) nos Estados Unidos em julho de 2016. Novamente, a Rússia foi responsabilizada pelo ocorrido.

“Nunca tinhamos visto uma campanha tão direta. Além de vazar documentos e e-mails do DNC, disseminaram informação falsa e propaganda”, declarou, no final de 2016, James Clapper, ex-diretor da CIA, agência de inteligência americana.

Em seu artigo, Rid afirma que, neste caso, o aspecto “novo e assustador” é que a Rússia teria, pela primeira vez, combinado espionagem com a intenção de influenciar os resultados de uma votação.

Ele diz que, no final dos anos 1990, o Departamento de Defesa dos EUA começou a notar interferências em seus sistemas por parte de funcionários russos. Sempre que conseguiam, eles furtavam informações.

“Foi tanto, que a pilha de papeis com dados roubados que eles conseguiram era três vezes mais alta que o Monumento a Washington (o emblemático obelisco da capital americana).”

“Com o passar do tempo, a Rússia ficou mais sofisticada em suas táticas, e até chegou a modificar o funcionamento de satélites para apagar seus rastros. Desde então, os órgãos de inteligência russos se dedicaram a coletar informação política e militar. A NSA (agência de segurança nacional mericana) e a GCHQ (órgão da inteligência britânica) devolveram o favor.”

Homem fotografandoA espionagem feita por agências de inteligência nacionais se mantém, mas utilizando outros meios e com mais alcance – Direito de imagem THINKSTOCK

Como rastrear um ciberataque?

A variedade de recursos que existem para esconder a origem de um ataque ou para replicar os métodos utilizados por outros para realizá-lo pode dificultar a determinação de quem foi o responsável.

No entanto, mesmo sem os recursos técnicos e econômicos de órgãos como a NSA nos EUA, é possível utilizar ferramentas para desvendar quem está por trás do ciberataque.

“A primeira coisa seria saber se o vírus é amplamente utilizado ou costuma ser a opção de um grupo específico. Outra pista é o objetivo dos hackers. Mas não se consegue ter certeza absoluta (de quem são)”, disse à BBC Don Smith, diretor da Unidade Antiameaças da empresa internacional de cibersegurança SecureWorks.

Graham Fairclough, por sua vez, considera que a complexidade de descobrir qual é a fonte de um ataque está diminuindo à medida em que o tempo passa, porque se sabe melhor que tipo de informações é preciso ter para determiná-lo.

A análise do código utilizado, o idioma no qual se escreve e a forma que o ataque é conduzido guardam boas pistas.

“Quanto mais seguro é o sistema que se ataca, maiores são a capacidade e os recursos que os hackers necessitam. Se esse for o caso, indica que algum Estado – ou órgão do mesmo – esteve envolvido”, diz Fairclough.

“Atribuir o ataque a um governo específico é uma ferramenta política que costuma ser usada com um fim específico. O assunto é como responsabilizar um Estado sem revelar os mecanismos empregados para chegar a essa conclusão.”

Soldado com armaConflitos entre países já podem causar danos físicos sem confrontos no campo de batalha – Direito de imagem THINKSTOCK

Suspeitos de sempre

“Qualquer Estado que tenha órgãos de inteligência bem estabelecidos – com conhecimento e com uma missão – tem a possibilidade e a capacidade de realizar ciberataques”, afirma Don Smith.

“Os países que realizavam atividades de inteligência e espionagem nas décadas passadas continuam fazendo-o, mas agora através da internet. É até mais fácil e mais barato.”

No caso da Rússia, é fundamental também considerar a percepção que o resto do mundo tem de suas habilidades cibernéticas é fundamental.

“Um dos objetivos da Rússia é fortalecer a ideia de que o país é importante na geopolítica internacional”, disse à BBC Jenny Mathers, especialista em política e segurança na Rússia e professora da Universidade de Aberystwyth, no Reino Unido

“(A Rússia) Quer passar a mensagem de que é um país poderoso, que está no controle e que o mundo precisa prestar atenção.”

Os especialistas concordam que, seja qual for seu objetivo, estas atividades chegaram para ficar e são uma consequência do mundo digital em que vivemos.

“É preciso assumir que os ciberataques serão a ameaça ‘normal’ do século 21”, diz Brian Lord.

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Pobre trabalhador iludido, você não é o privilegiado, você é o alvo!

Pobre trabalhador iludido, você não é o privilegiado, você é o alvo!
Salário do cidadão comum – R$ 998,00
Valor do fuzil – R$ 30.000
Decreto de armas de Bolsonaro libera cidadão comum para comprar fuzil. Modelo T4, produzido pela Taurus, está liberado para compra de qualquer cidadão

Corvos,Blog do Mesquita

Forjas Taurus em festa: Bolsonaro realizou o maior desmonte já feito no Estatuto do Desarmamento

Com uma canetada o presidente Jair Bolsonaro realizou o maior desmonte já feito no Estatuto do Desarmamento desde sua sanção, em 2003, pelo então presidente  Luiz Inácio Lula da Silva. Com um decreto assinado na tarde de terça-feira e publicado no Diário Oficial nesta quarta, o capitão reformado do Exército ampliou de forma sem precedentes as categorias que têm direito ao porte de armas (direito de andar armado) no país.

Antes restrito a policiais, agentes de segurança e promotores, agora políticos de todas as esferas de poder que tenham mandato eletivo, jornalistas, agentes de trânsito, motoristas de veículos de carga, proprietários rurais e até conselheiros tutelares terão o direito de andar armados. No total, as alterações feitas por Bolsonaro permitem que 19 milhões de brasileiros possam ter porte ou posse de arma em função da categoria profissional, segundo dados do Instituto Sou da Paz.

Em 2014, o então deputado federal Bolsonaro apresentou um projeto de lei com teor semelhante ao do decreto, mas que não prosperou na Câmara. Agora, no Executivo, fez valer sua vontade e dá uma resposta aos seus eleitores mais radicais sem abrir para debate nem fazer tramitar uma proposta no Legislativo.

Especialistas e partidos de oposição afirmaram que a medida é inconstitucional, e que irão ao Supremo Tribunal Federal para revogar o decreto. O PSOL afirmou que o decreto “usurpou as competências do Congresso Nacional, que é o único que pode ampliar as pessoas que podem portar e possuir armas”, e que o texto “vem na contramão do combate à violência e segurança pública”. Parlamentares petistas e da Rede também protocolaram projetos de decreto legislativo para anular o de Bolsonaro. No início do ano o presidente já havia facilitado o acesso à posse de arma em casa para qualquer um que cumpra requisitos mínimos de idade, sem antecedentes criminais e que realize curso de manejo e avaliação psicológica, o que foi considerado temerário por especialistas. À época, grupos pró armas consideraram a medida “tímida”.

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, fez coro ao que Bolsonaro havia dito ao assinar a flexibilização, e afirmou que o decreto “não tem a ver com segurança pública (…) mas foi uma decisão tomada pelo presidente em atendimento ao resultado da eleição”. As últimas pesquisas de opinião do Ibope e Datafolha apontam que a maioria da população é contra a flexibilização do acesso às armas (64%, segundo levantamento feito em abril). Moro não quis se pronunciar quando indagado se concordava ou não com a medida.

Mas os especialistas foram rápidos em condenar o decreto. “É um absoluto desastre. Bolsonaro resumiu bem quando falou que o decreto ‘não é da Segurança Pública’, pelo contrário, é do derramamento de sangue. Todas as evidências científicas de qualidade mostram que menos armas e menos morte”, afirma Melina Risso, diretora de programas do Instituto Igarapé. Ela destaca ainda que o presidente ampliou também a definição de calibres permitidos para englobar armamento de munição 9mm, .40 e .45, até então de uso restrito das polícias. “São calibres extremamente letais. Essas armas e munições potencialmente podem ser desviadas ou roubadas e irem parar nas mãos do crime organizado”, diz. O Instituto Sou da Paz divulgou nota na qual afirma ser inaceitável que “um governo democraticamente eleito viole a separação de poderes, ignore evidências científicas e governe apenas em prol dos desejos individuais de uma pequena minoria da população de mais alto poder aquisitivo”.

Caça e prática de tiro para menores

Com o decreto desta quarta-feira Bolsonaro pode ter ferido de morte o Estatuto do Desarmamento, cujo maior mérito havia sido justamente o de limitar o número de armas em circulação – o que se traduziu em milhares de vidas salvas de acordo com estudos. Além de ampliar o porte para diversas categorias, o presidente flexibilizou as regras de posse, porte e venda de armas e munições para atiradores esportivos, caçadores esportivos e colecionadores (conhecidos como CACs). Na prática estas categorias também ganharam o porte, uma vez que poderão se locomover até seus locais de treino com as armas carregadas (antes era preciso guardar a munição separada da arma). Os CACs poderão adquirir até 5.000 munições para cada arma por ano. Os proprietários rurais, que após o decreto de Bolsonaro do início do ano tinham conseguido o direito à posse (possibilidade de ter arma em casa), poderão andar armados por toda a extensão da propriedade. Especialistas afirmam que essa medida pode acirrar ainda mais os conflitos no campo.

Além disso, o capitão sacramentou o fim do enfraquecido monopólio das Forjas Taurus ao liberar importações de armamentos, algo até então vedado. Apesar do revés potencial a longo prazo, a medida rendeu lucro imediato para a empresa, com alta de mais de 20% nas ações da companhia na Bolsa. Os produtos da empresa já vinham sendo alvo de críticas por parte de policiais de todo o país por apresentarem defeitos que colocam em risco a tropa e a população – algumas, por exemplo, disparam sozinhas, sem acionamento do gatilho. Ao menos três policiais e um número desconhecido de civis morreram nestes acidentes.

Por fim, o decreto faz um aceno aos jovens entusiastas de armas: menores de 18 anos poderão praticar tiro esportivo, desde que com a autorização dos pais.

Faroeste Caboclo, Bolsossauro e o Cavaleiro Negro.

No decreto genocida do Bolsossauro, entre as categorias definidas para ter o direito de portar – atenção!; é porte e não somente posse, certo? – armas de fogo, figura o “Residente em Área Rural”.

Pei! Bufo! Minha nossa! Aqui começa o “enrosco”!

O disposto no Art.20 §3º g) V – recria o Velho Oeste do Dr. Robledo – O Cavaleiro Negro dos quadrinhos. Lembram?

Noves fora à parte, a norma referida não define o que seja “Residente Rural”. Por indefinição, essa interpretação da norma passará a ser subjetiva do “APLICADOR DA NORMA”.

À leitura atenta do artigo acima exposto, não cabe outra interpretação que não seja a “Literal”. Leiam sobre Ontologia.

Sentiram o tamanho do absurdo? Não somente um grande agropecuarista é um Residente em Área Rural Rural, mas qualquer Mané que more em local situado em área rural, terá direito à posse e à portar uma arma de fogo.

O Decreto Presidencial citado é Inconstitucional, e fuzila a hierarquia das Leis.¹

Quando li, “en passant”, o decreto genocida, calculei que seriam “despejadas” no mercado – para gáudio da “Forja Taurus” – mais ou menos umas 250 Mil armas, batendo perna Brasil a fora. Depois, lendo outras opiniões, já imaginei que seria algo em torno de 28 Milhões de Armas! Agora, nem ouso mais calcular o volume estratosférico do número de armas circulando na filial dessa filial da ” ‘Columbine’ Tropical”.

Ps. Outra coisa; como proprietário rural pode “passar fogo”, impunemente, em invasores de suas terras, pergunto aos Rambos; o índios, são proprietários de terras também né?, poderão “passar fogo” nos grileiros que invadam suas (deles) terras? Índio ao invés de apito ira querer um AK-47.

¹ Hierárquica das Leis no Brasil, por ordem de prevalência;

Constituição Federal, Lei complementar, Lei ordinária, Decreto, Portaria, Resolução, Instrução.

Bolsonaro, Moro, Hobbes, Kelsen e Bobbio

Alguém explica ao primário Sérgio Moro que um Decreto Presidencial é norma inferior à uma lei?

Ou eu explico? Ou ele pensa que Kelsen é uma marca de ração pra marrecos? Ou não adianta? Ou ele sabe disso – é, sejamos otimistas quanto aos “conhecimentos” jurídicos de quem foi reprovado três vezes no exame da OAB – mas nunca entendeu a Teoria da Norma Jurídica de Norberto Bobbio (pelo menos a página 23)? Ou seja o que a NSA desejar?

E se o Adélio – é vá lá que exista – tivesse uma arma de fogo em vez de – é vá lá que tenha sido – uma faca? Seja lá qual for a opção será com explicar a Teoria das Cordas ao Cartuxo.

Ps1. Não irei nem perguntar se o paladino sabe averiguar se o decreto é ab-rogado. O se ele sabe ao menos que diabo é isso.
Ps2. A essa altura da indigência mental Hobbes se revira na tumba.

Assange,Blog do Mesquita

Primeiro, Assange. Depois, todos nós

Assange,Blog do MesquitaOs cidadãos e a imprensa têm direito de enfrentar o poder? Ataque ao criador do Wikileaks revela que o Ocidente rendeu-se às corporações e abandonou a bandeira da liberdade. É preciso descobrir como resgatá-la.

As ilegalidades praticadas pelos governos do Equador, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na captura de Assange são sinistras. Elas pressagiam um mundo em que as ações internas, abusos, corrupção, mentiras e crimes – inclusive os de guerra – praticados por Estados corporativos e pela elite governante global serão escondidos do público.

Elas pressagiam um mundo em que aqueles que mantêm coragem e integridade para expor o abuso de poder serão caçados, torturados, submetidos a julgamentos farsescos e condenados a penas perpétuas, em confinamento solitário. Elas pressagiam uma distopia orwelliana em que a informação é substituída por propaganda, banalidades e distração. A prisão de Assange, temo, marca o início oficial do totalitarismo corporativo que ameaça definir nossas vidas.

Sob que lei o presidente equatoriano, Lenin Moreno, liquidou de forma caprichosa os direitos de Julian Assange ao asilo, como refugiado político? Sob que lei Moreno autorizou a polícia britânica a entrar na embaixada equatoriana – que tem status diplomático de território soberano – para prender um cidadão equatoriano naturalizado? Sob que lei a primeira-ministra Theresa May ordenou que a polícia britânica agarrasse Assange, que nunca cometeu um crime? Sob que lei o presidente Donald Trump pediu a extradição de Assange, que não é cidadão norte-americano e cuja organização noticiosa não está situada em território dos Estados Unidos?

Estou certo de que advogados governamentais estão, agora, praticando os contorcionismos que se tornaram regra nos Estados corporativos, servindo-se de argumentos legais para extripar direitos por meio de decisões no Judiciário. É assim que temos o direito à privacidade, mas nenhuma privacidade. É assim que temos eleições “livres” financiadas por dinheiro corporativo, narradas por uma mídia corporativa condescendente, tudo sobre férreo controle corporativo É assim que temos um processo legislativo em que lobistas das corporações escrevem as leis, e políticos contratados pelas empresas as votam. É assim que temos o direito ao devido processo judicial sem nenhum processo devido.

É assim que temos governos – cuja responsabilidade fundamental é proteger os cidadãos – que ordenam e executam o assassinato de seus próprios cidadãos (como o clérigo Anwar al-Awlaki e seu filho de 16 anos, mortos por ordem de Barack Obama). É assim que há uma imprensa legalmente autorizada a publicar informação secreta vazada, e um editor numa cela na Inglaterra, aguardando extradição para os Estados Unidos, e uma autora de denúncias, Chelsea Manning, numa cela norte-americana.

A Grã-Bretanha usará, como cobertura legal para a prisão, o pedido de extradição de Washington, baseado em acusações de conspiração. Este argumento legal, num Judiciário autônomo, seria desprezado pela corte. Infelizmente, não há mais, nos EUA, um Judiciário autônomo. Muito em breve saberemos se ele ainda existe no Reino Unido.

Assange obteve asilo na embaixada equatoriana em 2012, para evitar extradição para a Suécia para responder questões sobre supostas ofensas sexuais, que ao final foram retiradas. Assange e seus advogados sempre argumentaram que, se colocado sob custódia sueca, ele seria extraditado para os Estados Unidos. Assim que ele obteve o asilo, e a cidadania equatoriana, o governo britânico recusou-se a garantir-lhe passagem segura para o aeroporto de Londres, aprisionando-o na embaixada por sete anos, durantes os quais sua saúde deteriorou continuamente.

O governo Trump tentará julgar Assange por acusações de que conspirou com Chelsea Manning em 2010 para roubar os segredos de guerra sobre o Iraque e o Afeganistão obtidos pelo WikiLeaks. Meio milhão de documentos internos vazados por Manning do Pentágono e do Departamento de Estado, junto com o vídeo de 2007, de pilotos de helicóptero dos EUA atirando despreocupadamente em civis iraquianos, inclusive crianças, e em dois jornalistas da Reuters, ofereceram evidência abundante da hipocrisia, violência indiscriminada e uso rotineiro de tortura, mentiras, propinas e táticas cruas de intimidação pelo governo dos EUA em sua diplomacia e guerras no Oriente Médio. Assange e o WikiLeaks permitiram – é o trabalho mais importante da imprensa – que enxergássemos os trabalhos clandestinos do Império, e por isso tornaram-se presas deste Império.

Os advogados do governo norte-americano tentarão separar o WikiLeaks e Assange do New York Times e do The Guardian, que publicaram, ambos, o material vazado por Manning. Para fazê-lo, denunciarão Assange por “roubo” dos documentos. Manning foi pressionada, durante sua detenção e julgamento – repetidamente e muitas vezes com brutalidade – a implicar Assange na obtenção do material. Recusou-se repetidamente a fazê-lo. Está no momento encarcerada por sua recusa a testemunhar, sem a presença de seu advogado, diante do júri reunido para o caso de Assange. Barack Obama ofereceu a Manning, condenada a 35 anos, clemência, depois de ela ter cumprido sete anos numa prisão militar.

Quando os documentos e vídeos que Manning entregou a Assange e ao WikiLeaks foram publicados e disseminados por publicações como o New York Times e o Guardian, a mídia voltou-se contra Assange, de modo insensível e louco. Organizações que haviam publicado o material do WikiLeaks em várias edições, logo aceitaram ser veículos de propaganda obscura para desacreditar Assange e sua publicação. Esta campanha coordenada foi detalhada num documento do Pentágono, também vazado, preparado pelo Setor de Contra-inteligência Digital e datado de 8 de março de 2008. O documento pedia que os EUA destruísse o “sentimento de confiança” que é o “centro de gravidade” do Wikleaks e a reputação de Assange.

Assange, que graças aos vazamentos de Manning havia exposto os crimes de guerra, as mentiras e as manipulações do governo de George W. Bush, atraiu a ira do establishment do Partido Democrata ao publicar 70 mil e-mails hackeados, que pertenciam ao Comitê Nacional e a dirigentes partidários. Os e-mails foram copiados da conta de John Podesta, o chefe de campanha de Hillary Clinton. Eles expuseram a doação de milhões de dólares, à Fundação Clinton, pela Arábia Saudida e o Qatar, dois dos grandes financiadores do Estado Islâmico. Também expuseram os 657 mil dólares que a Goldman Sachs pagou a Hillary Clinton por palestras – uma soma tão alta que só pode ser considerada suborno. Expuseram as incessantes mentiras de Hillary.

Os e-mails mostraram, por exemplo, que ela dizia às elites financeiras desejar “comércio e fronteiras abertas”, além de acreditar que os executivos de Wall Street estavam melhor posicionados para dirigir a economia – uma afirmação que contradizia toda a sua campanha. O material expôs os esforços da campanha de Hillary para influenciar as primárias do Partido Republicano e garantir que Trump fosse o escolhido pelo partido. Revelou que ela foi informada previamente das questões que lhe seriam dirigidas num debate. Demonstrou que a candidata foi a principal arquiteta da intervenção dos EUA na Líbia – um conflito que ela julgava capaz de selar suas credenciais para a disputa presidencial. Alguns jornalistas podem argumentar que tais informações, assim como os arquivos de guerra, deveriam permanecer escondidas – mas não podem, nesse caso, continuar considerando a si próprios como jornalistas.

Os dirigentes do Partido Democrata, interessados em culpar a Rússia pela derrota eleitoral, acusa hackers do governo russo de terem obtido os e-mails de Podesta. Mas James Comey, ex-diretor do FBI, admitiu que eles foram provavelmente entregues ao WikiLeaks por um intermediário. Assange sustenta que os e-mails não foram recebidos de “agentes de Estado”.

O WikiLeaks fez mais para expor os abusos do poder e os crimes do império norte-americano que qualquer outra publicação. Além dos arquivos de guerra, e dos e-mails de Podesta, ele tornou públicas as ferramentas de hackeamento usadas pela CIA e pela Agência Nacional de Segurança (a NSA), e sua interferência conjunta em eleições de outros países – inclusive as francesas. Ele revelou a conspiração interna contra Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, por parlamentares do partido. Quando Edward Snowden apontou a vasta vigilância exercida pelas agências de espionagem norte-americanas sobre seus cidadãos, o Wikileaks interveio para salvá-lo de extradição aos Estados Unidos, ajudando-o a fugir de Hong Kong para Moscou. Os vazamentos de Snowden também revelaram que Assange estava numa “lista de alvos de caçada humana” dos Estados Unidos.

Aparentemente abatido, quando era arrastado para fora da embaixada equatoriana pela polícia britânica, Assange balançou seu dedo e gritou: “O Reino Unido precisa resistir a esta ação do governo Trump… O Reino Unido precisa resistir”!

Todos nós precisamos resistir. Devemos, de todas as maneiras possíveis, pressionar o governo britânico para interromper o linchamento judicial de Assange. Se ele for extraditado aos EUA e julgado, isso criará um precedente legal que liquidará a capacidade da imprensa – a quem Trump repetidas vazes chama de “inimigo do povo” – para fiscalizar o poder. Os crimes financeiros e de guerra, a perseguição de dissidentes, minorias e imigrantes, a pilhagem, pelas corporações, na sociedade e dos ecossistemas e o empobrecimento incessante dos homens e mulheres que trabalham, para engordar as contas bancárias dos ricos e consolidar o controle total do poder pelos oligarcas globais não vão apenas se agigantar. Eles não serão mais parte do debate público. Primeiro Assange; depois, todos nós.
Por Chris Hedges | Tradução: Antonio Martins

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EUA puniu a Taurus por suas armas defeituosas. O Brasil continua refém de tiros acidentais

A TAURUS ASSINOU no fim da semana passada um acordo final com autoridades norte-americanas para encerrar um processo milionário que corre nos EUA desde 2016. Quatro moradores da Flórida acusam a empresa e sua subsidiária no país de venderem – conscientemente – armas com defeito.Armas,Desarmamento,Homicídios,Violência,Bala Perdida,Economia,Taurus

As ações, de autoria dos casais William e Oma Louise Burrow e Suzanne M. e Ernest D. Bedwell, foram unificadas e tem valor estimado entre 7,1 e 7,9 milhões de dólares – o equivalente a cerca de R$ 30 milhões. O acordo ainda precisa ser homologado pela justiça dos EUA.

No Brasil, a empresa, maior fabricante de armas da América Latina, vem sendo acusada há anos – e sem sucesso – de ser responsável por disparos acidentais que já deixaram ao menos 50 mortos. Então, temos a seguinte situação: os defeitos da Taurus já foram reconhecidos nos EUA, mas aqui, onde a empresa goza de um monopólio, a justiça não chegou.

O Brasil é refém de suas armas que disparam sozinhas.
A exclusividade da empresa começou com o decreto R-105, assinado em 1965 por Castello Branco e atualizado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, que estabeleceu a regulamentação para a fiscalização de produtos controlados. O texto determina que “o produto controlado que estiver sendo fabricado no país, por indústria considerada de valor estratégico pelo Exército, terá sua importação negada ou restringida”. Em suma: uma arma só pode ser importada com autorização do Exército, que raramente fornece permissões e estabelece, na prática, o monopólio da Taurus sobre o mercado. O Brasil é refém de suas armas que disparam sozinhas.

Defeitos para – só – gringo ver
Na ação, os Burrow narram que compraram um revólver modelo R-35102 da marca Rossi, também fabricada pela Taurus, em 2012, para se proteger de coiotes que rondavam sua fazenda. Certo dia estavam tirando coisas do carro quando a arma caiu no chão e disparou. A bala ricocheteou e atingiu Oma Louise no joelho. Eles afirmam na ação que “ambas as empresas [Taurus e sua subsidiária nos EUA] sabidamente e negligentemente designaram, manufaturam, distribuíram e venderam um tipo de revólver com mecanismos de seguranças que eram defeituosos”.

No caso Bedwell, ocorreu algo semelhante. Em fevereiro de 2015, Suzanne foi às compras com seu filho em Palmer, no Alaska. Quando foram estacionar o carro, a arma, também da marca Rossi, mas modelo .357 Magnum, caiu do coldre e atingiu a perna esquerda de seu filho. Policiais chamados à cena do disparo testaram a arma e disseram que “o teste alegadamente resultou em um disparo não intencional da arma”.

A Taurus se defendeu tentando provar um conflito entre leis e tribunais internacionais – para evitar o processo nos EUA –, mas a tese não foi aceita pela corte, que citou como jurisprudência o caso de uma queda de avião ocorrida em 1987, nos EUA. O avião era francês, e a justiça americana aceitou o processo em seu território.

Há ainda um outro processo semelhante correndo na justiça norte-americana. O autor principal da ação coletiva, Chris Carter, um vice-xerife em Scott County – também na Flórida –, diz que em 29 de julho de 2013, enquanto perseguia um “suspeito em fuga”, sua pistola PRO PT-140 Millennium caiu do coldre e, ao atingir o chão, disparou e acertou um carro que estava estacionado e que, por sorte, estava vazio.

Isso aqui, ôô, é um pouquinho de Brasil, iaiá
O caso ainda corre na justiça, mas a empresa já suspendeu a produção de nove modelos de armas nos EUA, dentre eles alguns que continuam a ser usadas por policiais brasileiros. Procurada, a Taurus não respondeu quais dos modelos suspensos nos EUA ainda são fabricados no Brasil e em que quantidade. Mas policiais militares do Rio Grande do Norte, Brasília, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais me disseram que tem acesso – institucional ou particularmente – ao menos aos modelos de pistolas PT 24/7 e PT-640.

Em 2015, nos EUA, quase um milhão de clientes fizeram acordo judicial para devolver ou trocar suas armas, dentre elas o modelo PT-24/7, uma das mais utilizadas pelas polícias militares brasileiras. A produção e a comercialização das pistolas deste modelo está proibida pelo exército desde o fim de 2016, mas as armas já no mercado não foram recolhidas.

Tenho um filho de 4 anos e não posso brincar com ele.
O PM goiano Alexandre Fernandes de Castro veio a público em 2016 afirmar que foi ferido na perna quando sua arma caiu no chão e disparou sozinha, em 2013. O acidente deixou sequelas, e Castro usa cadeira de rodas hoje. Mesmo assim, ele percorreu os corredores da Câmara para coletar assinaturas para a abrir a CPI da Taurus. Na época ele me disse que o intuito era apurar os acidentes e também pedir mudanças na legislação. “Luto para que outros não fiquem igual a mim e pelos direitos das que morreram ou ficaram sequelados. Não posso sequer ter uma vida comum. Tenho um filho de 4 anos e não posso brincar com ele porque não posso ficar muito tempo em uma mesma posição. Minha perna dói e fica inchada”, lamentou.

A CPI naufragou. O hoje senador Major Olímpio, do PSL, então relator da proposta na Câmara dos Deputados, disse que um lobby forte da Taurus fez com que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, “entendesse que não havia relevância nacional apurar armas que disparam sozinhas e que mataram e feriram policiais”. “Uma coisa horrorosa”, afirmou à época.

Depois da audiência pública na qual Alexandre e policiais do país inteiro participaram em 2016, a Taurus se mexeu. “O efeito positivo destas movimentações [audiência e pedido da CPI] foi fazer a Taurus começar a procurar as vítimas e tentar fazer uma negociação individual”, explicou Olimpio, se referindo ao extinto grupo chamado “vítimas da Taurus”, que tinha website, perfis no Twitter e Facebook – todos desativados no início de 2017. Apurei que isso foi uma condição expressa, atrelada a uma cláusula de confidencialidade do acordo proposto pela empresa, que não retornou nossos contatos para comentar o assunto.

O mercado de armas está aquecido e a disputa não será pequena.
Olímpio disse ainda que uma nova tentativa de abrir a CPI da Taurus “seria mais difícil ainda porque, depois do recolhimento de lotes que deram problema, diminuiu realmente o número acidentes”. Por isso, ele disse também que não haverá problemas para a população civil beneficiada pela flexibilização da posse de armas, assinada em meados de janeiro, principalmente porque “as armas que deram verdadeiramente problema foram as .40″, – restritas às forças policiais e categorias específicas.

Mas não é bem assim. Segundo a procuradora da república em Sergipe, Lívia Tinoco, responsável por uma ação na justiça que pede a quebra de monopólio da empresa e o recolhimento de 10 modelos de armamento produzidos pela empresa, ainda há “inúmeros lotes com defeito ainda em circulação”. “Nunca houve recall e há novos modelos da Taurus dando problema”, diz. “Considero que junto com a flexibilização, deveria ter havido a quebra de monopólio para proteger a sociedade brasileira.”

Ainda nessa esteira, o senador Flávio Bolsonaro, também do PSL, apresentou projeto que autoriza instalação de fábricas de armas no país e que veda condição que hoje restringe participação de empresas estrangeiras em licitações. O mercado de armas está aquecido e a disputa não será pequena.

Solução pela brecha
As demandas levantadas por Olimpio e pelas vítimas dos disparos acidentais já são de conhecimento do Exército, do Ministério da Justiça, de Ministérios Públicos e de governos estaduais há anos. Em outubro de 2016, quando publiquei uma reportagem contando sobre as mortes causadas pelas armas defeituosas da empresa e o lobby que leva essas situações a serem escondidas, o Exército afirmou, sem entrar em detalhes, que dentre as sanções aplicadas à Taurus estão o impedimento de fabricar e comercializar as armas sob investigação, a ampliação dos recalls e a instauração de um processo administrativo. Na época, a Taurus respondeu que jamais foi comunicada a respeito das sanções. A abertura da CPI da Taurus foi arquivada em janeiro de 2017.

O líder do PSL do senado é ainda testemunha de acusação em uma ação proposta pelo Ministério Público Federal de Sergipe. Segundo investigação, a baixa qualidade das armas tem causado danos físicos e perdas de vidas humanas no Brasil. Pela gravidade da situação, o MP-SE pede indenização por dano moral coletivo em valor igual ou superior a R$ 40 milhões. Os procuradores querem ainda a quebra do monopólio e a retirada de obstáculos à importação de armamento e munições no Brasil, bem como que a justiça obrigue a Taurus a fazer o recall de dez modelos de armas que apresentaram defeitos recorrentes. A Taurus recorreu e a ação está na fase de ouvir testemunhas. Por ser parlamentar, Major Olímpio tem a prerrogativa de marcar seu próprio depoimento, o que ainda não foi feito.
Cecília Olliveira/The Intercept