Fome e pandemia nas favelas: ‘Meus netos comem menos para eu almoçar’

Netos de Josinete comeram menos para que sobrasse comida para ela no último domingo

No último domingo, a empregada doméstica Josinete Antônia da Silva, de 64 anos, abriu os armários da casa onde mora na periferia de Recife, em Pernambuco. Destampou os potes de mantimentos e não encontrou nada. Não havia nada nas panelas também. A filha, ao saber que a mãe não tinha o que almoçar, pediu para que os filhos dela comessem menos para que sobrasse para a avó.

“Ela falou: hoje, cada um de vocês come um pouquinho menos hoje para ter comida para a vó também. E me mandou carne moída, feijão e arroz. Se não fosse ela, não sei o que eu teria feito”, contou Josinete em entrevista por telefone à BBC News Brasil.

Novo auxílio não é suficiente para cobrir linha de pobreza em nenhum Estado do país, aponta estudo.

De acordo com ONGs, líderes comunitários e empresas especializadas em doações ouvidas pela reportagem, o número de contribuições caiu drasticamente ao longo da pandemia e hoje, no auge da crise sanitária, muitas famílias que moram em comunidades não têm o que comer.

Nas últimas 24 horas, o Brasil registrou 3.869 mortes por covid-19, superando o recorde registrado na véspera, 3.780 vidas perdidas.

Josinete recebe uma pensão no valor de um salário mínimo (R$ 1.100) e mora com as três filhas, que perderam o emprego na pandemia. Uma delas tem quatro filhos e está grávida. A outra tem dois.

Ela conta que o dinheiro da pensão é insuficiente para comprar comida para o mês. O único que trabalha na família é o filho dela, que mora de aluguel no mesmo bairro e faz trabalhos informais como pedreiro.

“Ele me ajuda como pode. Está tudo muito caro. Vou ao mercado comprar feijão, arroz, uns pedacinhos de galinha, macarrão e salsicha e não gasto menos de R$ 100. O que pesa é a carne, o arroz e o leite, ainda mais morando com uma criança de 3 anos e outra de 9 meses. Tem dia que dá para comprar pão, outros não”, conta Josinete.

Além dela, na mesma casa moram três filhas e cinco netos. Ao todo, Josinete tem nove filhos (sete desempregados), 33 netos e sete bisnetos.

No início da pandemia, em 2020, ela recebeu cestas básicas e dinheiro para fazer a feira, mas no fim do ano essa ajuda diminuiu gradativamente até parar, conta ela.

O Instituto Casa Amarela Social foi um dos que ajudaram a família de Josinete na pandemia. O grupo faz diversas campanhas para arrecadar doações.

“Eu tenho vergonha de pedir para outras pessoas, mas não (quando é) para meus filhos. Eu só peço misericórdia para quem tem um pouco mais (de dinheiro) se unir com os outros e ajudar quem não tem condições de sair dessa sozinho. O governo poderia ter mantido o auxílio emergencial em R$ 600, mas a gente não tem escolha”, afirmou.

O Congresso aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite o financiamento do novo auxílio, que terá valor médio em R$ 250, mas as cotas devem variar entre R$ 150 e R$ 375.

Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro, apontou que, entre os 16 milhões de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. Oito em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

Um presidente por rua

O presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, disse que a escassez de doações ocorre em favelas por todo o Brasil. Em Paraisópolis, a maior de São Paulo, um homem chegou a desmaiar na fila enquanto aguardava um prato de comida na última semana.

“Vejo um agravamento da situação em que o Brasil fala de um novo normal, com fome e desemprego. A fila de moradores por um marmitex começa às 9h, mas a gente só começa a entregar meio-dia. Eles fazem isso porque sentem medo de perder a única refeição do dia”, afirmou.

Foto – DANIEL EDUARDO
Mulheres fazem protesto para denunciar a fome na favela de Paraisópolis em SP

Gilson conta que, no início da pandemia e auge das doações, eles conseguiam entregar 10 mil marmitas por dia. Hoje, são 700.

O G10 Favelas, grupo que reúne as 10 maiores comunidades do país, criou uma central de arrecadação para ajudar famílias de baixa renda de todo o país. Há um endereço específico para colaborar com moradores de Paraisópolis e outras favelas.

O líder comunitário afirmou que, na falta de poder público, a própria favela elegeu presidentes de rua. Cada um cuida de 50 famílias. Isso é importante para descentralizar os pedidos, já que ele conta que chegou a receber 7 mil mensagens de ajuda num único dia.

Ele disse que fazer os vizinhos cuidarem uns dos outros gera resultados mais contundentes que muitas políticas públicas. Gilson explica o valor da proximidade e humanização com que eles enxergam os problemas de quem mora ao lado.

“Na falta de um presidente para o país, temos um a cada 50 casas. Organizamos a sociedade para que ela tenha um papel real de transformação. Cada um desses presidentes acompanha de perto a situação dessas pessoas, as deficiências na saúde, alimentação. Damos protagonismo às pessoas e reaproximamos vizinhos”, afirmou o líder comunitário de Paraisópolis.

Gilson explica que dessa maneira as doações são distribuídas de maneira mais justa e os presidentes de rua fazem o máximo para ver quem mora perto dele numa situação melhor.

“Fizemos isso em 300 favelas de 14 Estados. Nossa intenção é salvar vidas. Produzimos mais de 1,4 milhão de máscaras, contratamos ambulâncias. Tudo graças ao protagonismo dos próprios moradores. O vizinho dos Jardins (área nobre de SP) também deve fazer isso. Conhecer quem mora na mansão do lado, estender as mãos para um irmão”, afirmou.

Ele explicou que a favela sempre teve a cultura do apoio e que agora o Brasil precisa ativar esse movimento em todos os bairros e instâncias. O G10 Favelas criou um site para explicar como levar o projeto de presidente de rua para a sua região.

Marmitex na cracolândia

Há um mês, a universitária Alessandra Monteiro pensou em como poderia fazer ações sociais maiores e mais organizadas do que as doações que ela já costumava fazer.

Os números chocantes que o desperdício de alimentos deixa no mundo

A maior parte do desperdício de alimentos – equivalente a 61% – vem das famílias.

Qual é a primeira coisa que você faz quando abre a geladeira e vê que há um alimento que já expirou ou que parece ruim? Possivelmente, sua resposta rápida é: jogue fora.

Mas você já parou para analisar quais são as consequências de desperdiçar comida?

Se sua resposta for não, não se preocupe, pois a verdade é que a verdadeira escala de desperdício de alimentos no mundo e seu impacto não foram totalmente medidos até hoje.

Esta é uma das conclusões do mais recente e abrangente relatório sobre o assunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da organização britânica WRAP de resíduos.

12 inovações para acabar com o desperdício de alimentos
O chamado “Índice de Desperdício de Alimentos 2021” expõe um número quase assustador: em 2019, eram 931 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados. Isso sugere que 17% da produção total de alimentos do mundo foi para o lixo.

Para avaliar ainda mais esses números, pode ser útil entender sua equivalência de peso: 23 milhões de caminhões de 40 toneladas totalmente carregados com alimentos, que alinhados dariam a volta na Terra sete vezes.

De onde vem o alimento descartado?
De acordo com os resultados do estudo liderado pela ONU, a maior parte do desperdício de alimentos – o equivalente a 61% – vem das famílias. Ou seja, das casas de cada um de nós. Daquela maçã que talvez você comprou mais e decidiu se desfazer dela. Ou aquela banana que, depois de passar dias na sua cozinha, ficou preta.

Então, 26% pertence ao setor de food service, por exemplo, restaurantes, hotéis ou estabelecimentos de ensino. E, por fim, 13% vem do comércio, como supermercados ou pequenas lojas.

Usando dados sobre desperdício de alimentos de 54 países, os pesquisadores chegaram a uma das conclusões mais impressionantes de seu estudo: os níveis de resíduos no nível familiar são semelhantes em países de alta renda, média alta e média baixa.

Por exemplo, a Nigéria é um dos países do mundo onde mais alimentos são jogados fora, com 189 quilos per capita por ano. Algo semelhante ocorre em Ruanda, onde a cifra chega a 164 quilos per capita.

A Holanda e a Bélgica, por outro lado, perdem 50 quilos per capita por ano, enquanto nos Estados Unidos são 59.

A conclusão, então, é clara: isso não é mais um problema apenas para os países ricos, onde os consumidores simplesmente compram mais do que podem comer. Agora, é também daqueles países que estão em desenvolvimento.

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Estima-se que 17% dos alimentos disponíveis no mundo acabam sendo jogados fora.

“O que sabemos agora é que para os países de renda média o desperdício de alimentos domésticos é substancial. E isso muda completamente o que antes pensávamos ser apenas um problema em países de alta renda”, explica Tom à BBC Mundo Quested, analista da WRAP e outra dos autores do relatório.

O que está acontecendo na América Latina?

A maioria dos países latino-americanos não possui informações robustas sobre o desperdício de alimentos. Isso é um problema porque, sem dados, é impossível dimensionar o assunto.

O que é dieta flexitarista e por que ela é a chave para salvar o planeta
Os pesquisadores conseguiram reunir informações em sete pontos geográficos diferentes, pertencentes a apenas 4 países da América do Sul: Belize, Brasil, México e Colômbia.

De acordo com os resultados, Belize desperdiça 53 quilos por pessoa por ano, enquanto no Brasil eram 60, no México 94 e na Colômbia 70.

“Os resultados na América Latina sugerem que há uma quantidade substancial de desperdício de alimentos, principalmente das famílias. O continente ainda tem um longo caminho a percorrer para enfrentar o problema porque precisa entender o que está acontecendo em suas fronteiras para agir “, explica Tom Quested.

No entanto, relatórios anteriores sobre desperdício de alimentos na América Latina e no Caribe não são muito encorajadores.

De acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicado em outubro de 2019, o continente é responsável por 20% do volume global de alimentos que se perdem desde a colheita até chegar ao varejo.

Isso significaria que a região perderia cerca de 12% de seus alimentos.

Quais são os efeitos do desperdício de alimentos no mundo?
Se 17% dos alimentos disponíveis no mundo forem jogados fora, espera-se que haja um forte impacto econômico, social e ambiental.

Segundo a ONU, estima-se que entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a alimentos que não são consumidos.

Quanta comida é desperdiçada na América Latina?
“O impacto ambiental é enorme. Para se ter uma ideia da escala disso, se o desperdício de alimentos fosse um país, seria o terceiro maior emissor do planeta, atrás apenas da China e dos Estados Unidos”, diz Richard Swannell. , diretor da WRAP.

“Portanto, o desperdício de alimentos impulsiona a mudança climática”, acrescenta ele à BBC Mundo.

A responsabilidade pelo desperdício de alimentos nas mudanças climáticas é medida adicionando-se todo o processo a um determinado produto.

Segundo a ONU, estima-se que entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a alimentos que não são consumidos.

Por exemplo, se for um vegetal, devemos pensar na cadeia por trás dele para que chegue a uma casa: da terra onde é cultivada (terras que muitas vezes são fundamentais para o habitat natural de uma determinada região) aos fertilizantes, os processo de embalagem, armazenamento (que geralmente requer baixas temperaturas que dependem do combustível), transporte, etc.

O mesmo é verdade para a carne, para a qual uma enorme cadeia de produção e processamento é necessária antes de chegar à boca do consumidor.

Por outro lado, em termos econômicos, o desperdício de alimentos não afeta apenas o bolso do consumidor (pois ele está pagando por um produto que não está comendo), mas também o mercado em geral.

“O aumento da demanda pelos produtos impulsiona os preços para todos”, explica Tom Quested.

Richard Swannell, entretanto, acrescenta que “uma família média do Reino Unido desperdiça cerca de 700 libras (US $ 970) em comida a cada ano. Isso é cerca de US $ 80 por mês em alimentos que não são consumidos.”

Assim, reduzir as perdas poderia diminuir os custos de produção, pois o sistema de produção se tornaria mais eficiente.

O impacto social também é brutal se considerarmos o grande número de pessoas que não têm acesso a alimentos de qualidade no mundo.

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690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, de acordo com a FAO. Na foto, uma mulher e uma criança procuram comida no meio do lixo.

De acordo com a FAO, 690 milhões de pessoas passaram fome em 2019, um número que deve aumentar drasticamente após a pandemia do coronavírus. Além disso, 3 bilhões de pessoas não podem pagar por uma dieta saudável.

Assim, a contradição entre desperdício de alimentos e falta de alimentos é clara.

“Precisamos encorajar mais doações de alimentos de boa qualidade para aqueles que precisam. E isso é algo muito importante, que deve ser uma prioridade crescente após a pandemia”, disse Swannell.

Em 2019, cerca de 170 mil brasileiros entraram para a linha da pobreza extrema.

O fenômeno já havia se iniciado antes, em 2015, mas tem se acelerado nos últimos anos.

O grupo que vive em pobreza extrema no Brasil é constituído de pessoas que ganham menos de 1,9 dólar por dia.

Mais de 170 mil novos integrantes entraram no grupo, em 2019, totalizando 13,8 milhões de pessoas, o equivalente a 6,7% da população do país, informa o DW.

O primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro foi pior para quem mais precisa de assistência: as pessoas em situação de vulnerabilidade social. Com a chegada da pandemia da Covid-19 no Brasil, as condições de vida desse grupo foram drasticamente afetadas, ainda que muitos estejam recebendo o auxílio emergencial do governo federal no valor de R$ 600.

Desde a chamada crise de 2015, o Brasil veio se recuperando de cima para baixo: os ricos ampliaram a sua renda e diminuíram as suas “perdas”, enquanto os mais pobres se viram mais empobrecidos.

Já a classe média teve, em 2019, uma avanço médio de renda, de acordo com o PNAD, que não avalia os ganhos financeiros e não capta a evolução da renda do 1% mais rico da população – o que, provavelmente, revelaria uma desigualdade ainda mais brutal na sociedade brasileira.

O sociólogo Rogério Barbosa, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP), analisa que estamos passando por um período de “recessão duradoura”: dúvida, entra para a conta do avanço da desigualdade social no Brasil a paralisia no programa Bolsa Família, que retraiu desde o início da gestão Bolsonaro.

O Bolsa Família, no ano passado, chegou a ter uma fila de mais de 1 milhão de famílias aptas a receber o benefício que não foram incluídas como beneficiárias pelo governo. No nordeste, a situação é ainda mais agravante, por concentrar 36,8% das famílias em pobreza ou pobreza extrema na fila de espera, informa o UOL. Para 2020, o quadro tampouco é animador, visto que o novo coronavírus está provocando uma desaceleração econômica no mundo todo.

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Fome, saúde e energia: a tecnologia disruptiva pode ajudar a resolver desafios globais?

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Cecilia Kangami cozinha com a Envirofit Gas, uma fornecedora de pagamento conforme o uso no Quênia. Foto: Natalia Jidovanu

Cumprir as metas de desenvolvimento sustentável (ODSs) – uma chamada global à ação para erradicar a pobreza, proteger a Terra e promover a paz e a prosperidade – não exigirá apenas todas as mãos no convés, mas também toda tecnologia no convés.

A internet das coisas (IoT) e a inteligência artificial (IA) já estão desempenhando um papel fundamental na abordagem dos imensos desafios ambientais e sociais da atualidade, e a adoção dessas tecnologias de forma mais ampla poderia ajudar a escalonar soluções de uma maneira que antes parecia impossível. Entre os potenciais atores-chave estão três empresas sociais disruptivas, que falaram no recente fórum anual do Business Call to Action em Nova York.

Sevamob  

Sevamob é uma empresa social indiana que fornece serviços de cuidados de saúde primários em mais de 100 localizações na Índia, África do Sul e Geórgia, EUA. Com suas clínicas “pop-up”, o Sevamob poderia potencialmente atingir milhões de pessoas pobres em comunidades rurais e outras carentes. Mas o que realmente o diferencia é o uso da IA ​​para detectar várias condições médicas – desde deficiências de vitaminas e pequenas infecções de pele, como aftas, até doenças graves, como glaucoma e malária – no local.

Este é um grande negócio em áreas mal servidas, onde as pessoas muitas vezes não conseguem encontrar, muito menos pagar, médicos especialistas, como oftalmologistas e dermatologistas, e onde o envio de amostras para laboratórios distantes pode aumentar os custos e atrasar o tratamento.

O que o técnico da Sevamob faz é usar aprendizado de máquina – um ramo da inteligência artificial que melhora e “aprende” à medida que os dados são introduzidos – para avaliar a urgência dos sintomas, detectar padrões e contar objetos, desde exames de visão, pele e sangue (e logo urina). Por exemplo, com uma amostra de sangue, uma enfermeira usando um microscópio e um aplicativo de smartphone pode diagnosticar imediatamente anemia e malária. O modelo da empresa tem o potencial de detectar mais de 50 condições médicas diferentes apenas do sangue, diz Shelley Saxena, fundadora e CEO.

“O que desenvolvemos é uma plataforma subjacente, à qual qualquer número de condições médicas pode ser adicionado no futuro”, disse Saxena. “Tudo o que precisamos para expandir a plataforma é obter mais dados do paciente e construir o modelo para esses dados”.

À medida que o clima muda, os padrões climáticos estão se tornando mais difíceis de prever e as temperaturas são cada vez mais variáveis. Aqueles de nós que não dependem da agricultura para a nossa subsistência vêem essas mudanças mais claramente no número crescente de eventos climáticos extremos . Mas um evento extremo para um pequeno produtor pode ser algo pouco perceptível fora da agricultura, como temperaturas noturnas que aumentam o suficiente para permitir que insetos ou doenças prosperem, diz John Corbett, CEO e co-fundador de um lugar. Estas pequenas mudanças atmosféricas podem ser tudo o que é necessário para destruir uma colheita.

Por isso, fornece aos agricultores informações, como previsões meteorológicas ultra precisas, que os ajudam a navegar em um clima imprevisível.

No entanto, ao contrário do Sevamob, o modelo de negócios do TheWhere não se limita a servir aos agricultores na base da pirâmide econômica. Esta empresa global não é uma pequena startup – seus clientes incluem produtores comerciais, traders de commodities e formuladores de políticas. Essa ampla gama de clientes permitiu que a empresa continuasse nos negócios e crescesse, mantendo sua missão.

Envirofit International
Para alcançar os clientes na base da pirâmide, a empresa de energia Envirofit usa a tecnologia IoT, que permite que seus clientes comprem gás de cozinha da maneira como fazem todas as suas compras: em pequenas quantidades.

A Envirofit projeta e desenvolve soluções de energia limpa para as famílias que ainda dependem da queima de madeira ou carvão. A sua mais recente inovação é a SmartGas, uma cozinha pré-paga que permite aos clientes pagar apenas 50 cêntimos de cada vez.

“Se você olhar para a forma como os consumidores nos mercados emergentes compram coisas, é em pequenas quantidades diárias”, diz Jessica Alderman, diretor de comunicações da empresa.

“Ninguém compra a grande banheira de xampu; eles compram os pacotes de serviço único”.

E não é apenas a tecnologia, é o modelo de serviço que vem com ela, diz Alderman. A Envirofit instala um medidor inteligente na casa do cliente e entrega o primeiro cilindro de gás. Durante esse processo, os representantes da empresa ensinam aos clientes como usar o sistema com segurança. O cliente usa um aplicativo em seu telefone para adicionar crédito quando precisar, e o medidor dispensa o gás até que o crédito acabe. O medidor então desliga o sistema até que o pagamento seja feito novamente – mas antes que o tanque acabe, o cliente recebe um aviso, para que possa pedir um novo tanque.

“Para o cliente, [nossa tecnologia inteligente] tem um impacto enorme, porque melhora a segurança, o acesso e a acessibilidade”, disse Alderman. “Mas não é apenas o cliente, é uma tecnologia revolucionária para investidores que querem saber para onde também vão os dólares.”

Como o medidor inteligente e o aplicativo de telefone rastreiam o uso de gás, essa tecnologia torna possível medir facilmente – sem a consulta pró-ativa de casa em casa – a adoção do cozimento a gás, pela primeira vez na indústria, diz Alderman.

A medição do impacto tornou-se cada vez mais importante entre os investidores de impacto – aqueles interessados ​​em benefícios sociais e ambientais, assim como retornos financeiros. Assim, fornecer uma ferramenta para medição e, portanto, incentivar o investimento, é apenas mais uma maneira pela qual as tecnologias avançadas podem acelerar a corrida para atender aos ODS.

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Moçambique; Situação ainda é dramática

Moçambique,Catástrofes,Fome,Blog do MesquitaNo mês passado, o ciclone Idai devastou o sudeste da África, causando mais de mil mortes. Milhões de pessoas ainda lutam para sobreviver, relata a ativista humanitária Ninja Taprogge, em entrevista à DW.

Ninja Taprogge trabalha na seção alemã da organização de ajuda humanitária CARE. Atualmente, ela se encontra em Moçambique, em regiões que até agora não haviam recebido apoio.

Em entrevista à DW, ela relatou que apenas 23% dos 250 milhões de euros reivindicados foram garantidos pelas Nações Unidas. “Isso é muito pouco e realmente nos preocupa como organizações de ajuda.”

“É importante fornecer ajuda imediata porque algumas pessoas não comem nada há quatro semanas. Temos que distribuir comida agora mesmo”, apontou a ativista.

Deutsche Welle: Você está atualmente em Moçambique, o país mais afetado pelo furacão Idai. Qual a sua impressão da situação?

Ninja Taprogge: A situação em Moçambique ainda é dramática. Acabei de chegar da região da Beira. Muitos lugares ainda estão afetados por enchentes. Estivemos há poucos dias num pequeno vilarejo chamado Guarda Guarda.

Lá, as pessoas não receberam nenhuma ajuda. Distribuímos comida para 2 mil famílias. Cada uma delas recebeu 30 quilos de arroz, cinco quilos de feijão e dois litros de óleo.

O que as pessoas lhe dizem no local?

Falei com uma mulher que há semanas come apenas o milho que encontrou em seu cultivo. A região ao redor do vilarejo estava completamente inundada. Ela também me mostrou o milho. Ele cheirava mal e estava totalmente sujo.

Ela me disse que um de seus filhos agora está com dor de estômago e sofrendo de diarreia. Nós também visitamos as plantações – elas foram completamente destruídas.

Com são as condições de vida das pessoas?

Muitos moram em abrigos. O governo acabou de divulgar novos números hoje. As pessoas vivem juntas num espaço confinado. Mais de 240 mil casas foram gravemente danificadas ou destruídas.

Levará muito tempo até que possam ser reconstruídas. Nós ajudamos distribuindo lonas e cordas para as famílias, para que elas possam ao menos montar acomodações temporárias.

Toda a infraestrutura também foi severamente afetada pelo ciclone Idai. Muitas escolas foram destruídas. Ajudamos a montar barracas para que aulas possam ser dadas novamente às crianças.

Que outras doenças são também problemáticas?

Especialmente malária. Abrigos temporários ou mesmo famílias que dormem ao ar livre contam com mosquiteiros para se proteger da doença. A propagação da enfermidade é uma grande preocupação para nós e outras organizações de ajuda no momento.

Quanto tempo a CARE pretende atuar no local? A ajuda é suficiente?

O maior problema continua sendo o fato de as plantações estarem completamente destruídas. Segundo estimativas de especialistas, mais de 700 mil hectares de terras agrícolas foram danificadas pelas inundações. É importante fornecer ajuda imediata porque algumas pessoas não comem nada há quatro semanas. Temos que distribuir comida agora mesmo.

Mas também temos que ficar lá por mais tempo. As pessoas precisam de sementes suficientes para trabalhar em seus campos novamente. No momento, esta crise está completamente subfinanciada. Apenas 23% dos 250 milhões de euros reivindicados foram garantidos pelas Nações Unidas. Isso é muito pouco e realmente nos preocupa como organizações de ajuda.

O que precisa acontecer em termos concretos nos próximos meses?

Precisamos de dinheiro para continuar a fornecer apoio imediato, mas também para construir e ajudar as pessoas a reconstruir suas casas. Precisamos dar às pessoas algo para ajudá-las a refazer suas plantações e garantir renda para suas famílias.

Turquia,Comunismo.Pobreza,Desigualdade,Fome,Blog do Mesquita

Redução da desigualdade não conduz ao comunismo

Turquia,Comunismo.Pobreza,Desigualdade,Fome,Blog do MesquitaPessoas fazem fila para comprar legumes e verduras baratos em Istambul, na Turquia

Economista Branko Milanovic diz que desigualdade social se tornou um dos principais fenômenos do mundo ocidental e que ela está na origem da ascensão dos partidos populistas de direita.

A ascensão de partidos e candidatos populistas de direita em vários países ocidentais não se deve à migração ou a um nacionalismo latente, mas à perda de poder econômico pela classe média, afirmou o economista sérvio-americano Branko Milanovic em entrevista à DW.

“A classe média perdeu poder econômico em comparação com o 1% mais rico ou os 5% mais ricos. Isso causou a busca por um bode expiatório. O que se vê no cenário político tem raízes econômicas”, disse Milanovic, um dos mais renomados pesquisadores mundiais da desigualdade social.

Para ele, a luta contra a desigualdade se tornou mais difícil. “A globalização torna quase impossível limitar o fluxo de capital – os ricos simplesmente colocam o dinheiro no exterior. Altas taxas de impostos perderam a popularidade, e o ceticismo em relação ao Estado e à redistribuição está crescendo. A classe média não está mais disposta a pagar mais impostos e tributos.”

Milanovic também criticou a chamada Terceira Via, adotada pela esquerda europeia nos anos 1990, e que muitos analistas políticos consideram o início da atual crise da social-democracia europeia.

Ele foi economista-chefe do Departamento de Pesquisa do Banco Mundial e atualmente leciona na Universidade da Cidade de Nova York, além de ter publicado inúmeros livros e mais de 40 estudos sobre desigualdade e pobreza.

DW: O senhor tem sido muito requisitado ultimamente. O que a elevada procura por um pesquisador da desigualdade social diz sobre o mundo?

Branko Milanović: É uma boa pergunta. Isso mostra que a desigualdade social se tornou um dos principais fenômenos do mundo ocidental, sobretudo por causa das consequências políticas dela: o declínio da classe média, a ascensão da extrema direita e do assim chamado populismo e a perda de importância do Ocidente em relação à China.

O senhor acredita que os partidos de extrema direita estão ganhando espaço em razão da desigualdade social?

Sim. Se observarmos as mudanças no cenário político ocidental, incluindo os Estados Unidos e os antigos países do bloco oriental, como Polônia e Hungria, vemos que o chamado populismo – eu não gosto desse termo – resulta das mudanças econômicas. Pode-se dizer que as pessoas pensam e votam de maneira diferente por causa da migração, ou que o nacionalismo latente sempre esteve presente. Mas essa explicação é insuficiente.

Uma explicação melhor é que a classe média perdeu poder econômico em comparação com o 1% mais rico ou os 5% mais ricos. Isso causou a busca por um bode expiatório. O que se vê no cenário político tem raízes econômicas.

Mas muitos dos “abandonados pelo sistema” repetem os piores elementos do discurso nacionalista dos partidos populistas de direita. O que a esquerda fez de errado para não alcançar essas pessoas?

A esquerda acabou numa situação em que não tem políticas reconhecíveis. Foi um erro acatar a política neoliberal com disposição superior até mesmo à dos conservadores.

O senhor se refere a Tony Blair e Gerhard Schröder?

Exato, e também Bill Clinton. Claro que hoje é fácil perceber que a esquerda cometeu um erro, mas, na época, não era fácil formular uma política contra os princípios já dominantes da globalização. Hoje a social-democracia paga o preço, mas, na época, não havia muitas alternativas.

A igualdade social e os princípios liberais do capitalismo são contraditórios? Pois, quando se fala de igualdade, muitas pessoas temem o que os comunistas soviéticos chamavam de nivelamento [no sentido de tornar todos iguais].

Essa crítica é absolutamente errada. Nem todos que falam em igualdade defendem o nivelamento e o comunismo. Igualdade e desigualdade não são categorias binárias. É como a temperatura: se 40 graus é quente para mim, isso não significa que eu queira morar na Sibéria. Ou seja: eu não estou dizendo que não deveria haver desigualdade, até porque isso seria impossível.

A redução da desigualdade não conduz ao comunismo. Entre 1945 e 1980 nós tivemos no Ocidente períodos com partidos trabalhistas, social-democratas e até conservadores, que diminuíram a desigualdade em seus países sem abandonar o capitalismo. O capitalismo e um nível relativamente aceitável de desigualdade não são contraditórios. A pergunta é se o capitalismo liberal no mundo globalizado é compatível com menos desigualdade.

E é?

É muito mais difícil hoje. Entre 1945 e 1980, um crescimento da desigualdade foi impedido por meio de contrapesos poderosos: sindicatos fortes, mais educação, emergência da classe média. Até mesmo o centro político e a direita aceitaram impostos mais altos e um estado de bem-estar social naquela época. Hoje em dia, a globalização torna quase impossível limitar o fluxo de capital – os ricos simplesmente colocam o dinheiro no exterior. Altas taxas de impostos perderam a popularidade, e o ceticismo em relação ao Estado e à redistribuição está crescendo.

Nos seus livros e textos há algumas receitas contra a desigualdade. O senhor defende a igualdade de oportunidades, especialmente quando se trata de educação, bem como o imposto sobre herança. Por quê?

A classe média não está mais disposta a pagar mais impostos e tributos, que geralmente já representam cerca da metade da renda bruta, e a redistribuição se tornou suspeita. Por isso é necessária uma nova política para equilibrar as oportunidades. Isso inclui uma política fiscal mais favorável à classe média e menos benefícios fiscais para os ricos. Imposto sobre herança reduz a desigualdade de oportunidades para as gerações futuras.

Já a educação deve ser pública, de alta qualidade e disponível para todos. Isso pode não ser um grande problema na Alemanha, mas nos Estados Unidos as escolas particulares são dominantes, melhores e muito caras. A classe média não consegue mais encontrar escolas boas e ao mesmo tempo acessíveis para seus filhos.

Na Alemanha, a educação é financiada com dinheiro público, mas ainda assim é três vezes mais comum as crianças de famílias acadêmicas estudarem do que as outras.

A igualdade completa é impossível, a menos que se faça uma seleção inversa, como a China na Revolução Cultural, quando somente as crianças da classe trabalhadora podiam estudar. Isso é discriminatório. Os filhos de pais com alto nível de educação terão cada vez mais oportunidades de se interessar pela educação. Mas a questão é: a sociedade é capaz de reduzir essas diferenças a ponto de elas não serem mais enormes e decisivas?

O senhor falou em discriminação. Mas, numa entrevista, o senhor sugeriu um tipo diferente de discriminação como um contrapeso à globalização: os migrantes deveriam desfrutar de direitos civis limitados. Essa tese é defensável?

Num mundo ideal seria bom ter mais migração com regras mais simples. Mas nós não vivemos num mundo ideal. Hoje, a chegada de imigrantes na Europa é muito impopular. Pode-se até afirmar que o Brexit é o resultado da imigração da Europa Oriental para o Reino Unido. Com base nessa situação, devemos chegar a um acordo entre a necessidade de migração, que reduz a desigualdade global e permite que as pessoas dos países subdesenvolvidos ganhem mais, e a disposição da população local em receber os imigrantes.

Daí a ideia da chamada migração circular. Na Alemanha, por exemplo, os recém-chegados só poderiam viver por alguns anos e somente se tivessem encontrado um emprego. Depois, eles teriam que ir para casa. Isso não é o ideal, mas meu receio é que, se descartarmos opções como essa, possamos acabar na migração zero.
DW

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As catástrofes humanitárias esquecidas do planeta

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Etiópia, Madagascar, Haiti, Congo e Filipinas: estudo de ONG americana mostra as crises que acontecem longe dos olhos do grande público, praticamente ignoradas pela imprensa.

A Etiópia sofre com uma constante seca: mais de 80% da população etíope vive da agricultura

Inundações, secas, fome, violência, deslocamento: também em 2018, inúmeros países voltaram a ser palco de catástrofes naturais ou crises criadas pelo ser humano. Enquanto, por exemplo, as guerras na Síria e no Iêmen, a crise de abastecimento na Venezuela e os incêndios florestais na Califórnia dominaram as manchetes internacionais reiteradamente, outras catástrofes de dimensão parecida ou maior aconteciam longe dos olhos do grande público.

Entre outros, os motivos foram um acesso mais difícil dos meios de comunicação a certas áreas de crise que representavam um verdadeiro desafio para a cobertura internacional, além de orçamentos definhando nas redações, diz o estudo Sofrendo em Silêncio, em tradução livre, da ONG americana Care International. A análise apresenta as crises humanitárias que “obtiveram a menor cobertura midiática” em 2018.

Para realizar o estudo, a organização trabalhou em conjunto com o serviço de observação de mídias Meltwater, avaliando mais de um milhão de artigos online em inglês, alemão e francês, publicados do início de janeiro ao fim de novembro do ano passado. Concretamente, observou-se com que frequência crises que afetaram pelo menos um milhão de pessoas foram mencionadas na imprensa online.

Não foram consideradas matérias produzidas para a TV ou o rádio, nem para plataformas de redes sociais. Apesar da restrição às línguas mencionadas e aos veículos, os resultados “mostram uma tendência clara”, afirma o texto. O estudo elaborou uma lista com as dez crises sobre as quais menos se escreveu em 2018. Essas são as cinco menos noticiadas.

Haiti

Carros incendiados, ruas interditadas por barricadas, mortes: recentemente, os violentos protestos contra o governo voltaram a trazer o Haiti para os holofotes da opinião pública internacional. Mas, em 2018, uma crise alimentar causada, entre outros, por atrasos na colheita devido a uma seca no início do ano obteve muito menos atenção.

No Índice Global da Fome de 2018, o país caribenho, alvo constante de catástrofes naturais e que depende maciçamente de ajuda financeira internacional, ficou em 113º lugar entre 119 países. O país, politicamente instável, registrou “o maior nível de fome no Hemisfério Ocidental”, diz o relatório publicado pela ONG alemã Welthungerhilfe e pela ONG Concern Worldwide. A situação da segurança alimentar no país é “muito séria”, diz o índice.

Foto aérea mostra pessoas andando em caminho de terra em meio a campos agrícolas na comunidade de Kenscoff, na capital haitiana de Porto PríncipeCampos agrícolas no Haiti: crise alimentar foi ignorada, diz Care International

Segundo a lista IPC da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019, mais de 386 mil haitianos se encaixavam na categoria alimentar “emergência”. Segundo dados da FAO, atualmente, metade da população haitiana é subnutrida.

A Care denuncia que a dramática evolução praticamente não teve espaço na mídia. “Enquanto o grave terremoto no Haiti dominou as manchetes do mundo inteiro em 2010, a crise alimentar de 2018 no país caribenho quase não aconteceu nas notícias internacionais”, diz o estudo. Apenas 503 textos online teriam abordado o assunto.

Etiópia

Também o país no Chifre da África foi afetado por uma crise alimentar em 2018. Apesar do crescimento econômico acelerado, mais de 80% da população etíope vive de trabalhos relacionados à agricultura – uma fonte de renda constantemente ameaçada por secas. No ano passado, após dois consecutivos de estiagem, voltou a chover, mas em muitas regiões não foi suficiente.

Em outras áreas do país, por outro lado, colheitas foram destruídas por enchentes. Segundo dados do governo, como consequência, oito milhões de pessoas passaram a depender urgentemente de auxílio alimentar. Segundo as Nações Unidas, 3,5 milhões de pessoas estavam em situação aguda de “subnutrição moderada”, 350 mil sofriam de subnutrição “grave”.

Na lista das crises mais negligenciadas em 2018, a Etiópia figura duas vezes. Segundo o estudo da Care, apenas 986 textos na internet relatam sobre a fome no país. O deslocamento de centenas de milhares de pessoas também quase não foi tematizado. Segundo dados da ONU, entre abril e julho do ano passado, um milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas por causa de violência étnica nas regiões de Gedeo e de Guji Ocidental. Assim, em 2018, mais pessoas se deslocaram internamente por conflitos do que em qualquer outro país do mundo.

Madagascar

No ano passado, vários incidentes meteorológicos destruidores levaram caos ao país insular no sudeste da África. Madagascar é um dos países do mundo mais afetados pelas mudanças climáticas. Em 2018, o fenômeno climático El Niño fez com que as plantações de arroz, de milho e de mandioca do país secassem.

As tempestades tropicais Ava e Eliakim obrigaram mais de 70 mil pessoas a fugirem. Pelo fato de as más condições de tempo terem impedido a produção de muitos grãos, o número de pessoas ameaçadas de fome no sul do país aumentou para 1,3 milhão, segundo a ONU.

Devido à peste pulmonar, funcionários equipados com mochilas de desinfetante percorrem as ruas de Antananarivo em 2017Peste pulmonar em Madagascar: funcionários desinfetam vias públicas e casas em 2017

Além disso, epidemias de sarampo e peste abalaram o país localizado ao largo da costa de Moçambique. Em 2017, epidemias de pneumonia e peste bubônica já haviam vitimado 200 pessoas. Na capital Antananarivo, a Organização Mundial da Saúde contou 6.500 casos de sarampo até o final de dezembro de 2018.

O motivo para a eclosão da epidemia são especialmente as baixas taxas de vacinação: apenas 58% da população são vacinados contra a doença. Segundo o relato da Care, os relatos sobre as crises em Madagascar foram bastante raros.

República Democrática do Congo

De acordo com o estudo, a situação na República Democrática do Congo também não concentrou muitas atenções da imprensa online em 2018. Apesar disso, segundo a Care, o país é dominado por um “círculo vicioso de violência, doenças e subnutrição”. O balanço do ano passado: 12,8 milhões de pessoas ameaçadas de fome, 4,3 milhões de crianças subnutridas, 500 novos casos de ebola que levaram à morte de 280 pessoas, segundo a OMS, e quase 765 mil pessoas refugiadas em países vizinhos devido à violência causada por conflitos entre milícias, especialmente nas províncias no leste do país.

Um número de menores de idade acima da média é vitima permanente do conflito: segundo uma análise recente da organização de defesa dos direitos das crianças Save The Children e do Instituto de Pesquisas da Paz em Oslo, a RDC pertence aos países do mundo em que as crianças mais sofrem com conflitos armados.

Mulheres congolesas participam de aula de ONG que reabilita, entre outros, vítimas de estupro sistemático. ONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo DemocráticoONU estima em mais de 200 mil número de vítimas de violência sexual no Congo Democrático

A violência sexual sistemática contra mulheres no país também não acaba. No total, as Nações Unidas estimam em mais de 200 mil o número de vítimas de estupros na antiga colônia belga. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) tratou 2.600 vítimas de violência sexual na cidade de Kananga entre maio de 2017 e setembro do ano passado, 80% delas teriam dito que foram violentadas por homens armados.

“Esses números são um indicador para o alto nível de violência também neste ano”, afirmou Karel Janssens, coordenador nacional do MSF para o país. Na esteira da entrega do Prêmio Nobel da Paz ao ginecologista Denis Mukwege, a violência sexual na RDC voltou a ser tematizada mais fortemente nos veículos de comunicação. Mas a Care destaca que os problemas no país integram as crises menos notadas do ano.

Filipinas

No dia 14 de setembro de 2018, o mundo olhava atônito para a costa leste dos Estados Unidos, onde o olho do furacão Florence atingiu o continente no estado da Carolina do Norte. A quase 14 mil quilômetros de distância e quase ao mesmo tempo, uma tempestade bem mais forte atingiu o litoral da ilha de Luzon, a principal das Filipinas.

A uma velocidade de 200 km/h, o tufão Mangkhut, o maior ciclone tropical do ano, tocou o solo na manhã do dia 15 de setembro. Segundo o estudo, apesar de a catástrofe ter afetado mais de 3,8 milhões de pessoas, ter matado 82 pessoas e ferido 130, pouco se ficou sabendo sobre o Mangkhut através da imprensa.

Vendedor de rua treme na chuva enquanto chuvas do tuão Yutu atingem a baía de Manila em outubro de 2018. Pouco depois do tufão Mangkhut, tempestade Yutu devastou Filipinas

Apenas um mês depois, o tufão Yutu  devastou várias comunidades já destruídas pelo Mangkhut e que já haviam iniciado os trabalhos de reconstrução. Globalmente, as Filipinas fazem parte dos países onde há maior risco de catástrofes naturais da Ásia. Vinte tempestades tropicais atingem o país insular no Pacífico ocidental todos os anos.

Segundo o Banco Mundial, os tufões matam, em média, mil pessoas anualmente. Além disso, o país está altamente exposto a riscos geológicos como terremotos e erupções vulcânicas. A Care denuncia que os furacões Mangkhut e Yutu fazem parte das crises invisíveis de 2018.
DW