“Desastre de Fukushima e pandemia derivam do capitalismo”

Dez anos após acidente nuclear no Japão, analista político e autor japonês Sabu Kohso fala sobre lições que podem ser tiradas da tragédia tripla e o futuro pós-pandemia.

Controle de radioatividade em Fukushima

11 de março de 2011: um terremoto de magnitude de 9,1, um tsunami com ondas de mais de 10 metros de altura e o maior acidente nuclear do século 21. Dez anos atrás, a tragédia tripla assolou a província japonesa de Fukushima.

11 de março de 2020: a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara a pandemia de covid-19, que se tornou o maior desafio global de saúde pública ainda em curso.

Para o analista político e ativista anticapitalismo Sabu Kohso, não estamos vivendo uma mera sucessão de crises, mas uma sinergia de desastres que derivam do modelo de desenvolvimento capitalista, que, a despeito dos impactos ecológicos, segue pautado pela exploração do planeta.

“Tanto a radiação quanto a pandemia nos afetam fatalmente”, diz Kohso, japonês radicado em Nova York e autor do livro Radiation and Revolution, que trata da relação entre energia nuclear, ordem global e resistência da sociedade civil. É, nas suas palavras, “um livro que busca esperança na escuridão”.

Em entrevista à DW Brasil, Kosho fala sobre os impactos internacionais da tragédia tripla de Fukushima e o futuro pós-pandemia.

DW Brasil: Diante da pandemia de covid-19 e dos desafios ambientais atuais, que lições tiramos de Fukushima?

Sabu Kohso: A lição é difícil. Tanto o desastre nuclear quanto a pandemia são derivados da incontrolabilidade do modo de desenvolvimento capitalista. O que realmente estamos enfrentando não é a sucessão de um desastre após o outro, mas uma sinergia de desastres acumulados no horizonte planetário. Radiação e pandemia nos afetam fatalmente, mas de maneiras ontologicamente opostas: enquanto a contaminação por radiação modifica nossos genes aos poucos, a pandemia devora nossas células no tempo mais imediato, a partir de nossos contatos corporais. A radiação perturba nosso relacionamento com o planeta; a pandemia nos força a interromper interações sociais. Isto é, perdemos a confiança nas duas relações fundamentais que constituem nosso ser.

Em resposta a ambas, articularam-se forças para manter os negócios como sempre: no caso da radiação, um neonacionalismo japonês que incitou pessoas a comerem alimentos provavelmente contaminados como gesto heroico de patriotismo; no caso da pandemia, um neofascismo norte-americano que se recusa a usar máscaras como parte do movimento Make America Great Again, liderado pelo próprio ex-presidente [Donald Trump] e ancorado na mais vulgar ideia de “liberdade”.

Em última instância, a lição é que hoje a ideia de mudar o mundo não pode mais pressupor uma revolução dentro de um mundo pautado pela ideia de progresso infinito. O que seria então uma revolução? Uma transformação de todos os territórios existenciais: corpo e mente individuais, relações sociais e meio ambiente, muito além da política tradicional.

O livro Radiation and Revolution destaca respostas de movimentos sociais e da sociedade civil ao desastre de Fukushima em 2011. Uma década depois, quão articuladas estão essas mobilizações?

Nos primeiros anos, tivemos um aumento dramático de movimentos de protesto contra a energia nuclear e movimentos para proteger o trabalho reprodutivo dos impactos da radiação. Os últimos foram especialmente importantes para mostrar à sociedade o papel indispensável de trabalhadores reprodutivos [termo que se refere a todo tipo de trabalho envolvido na reprodução humana, da gravidez a cuidados domésticos, historicamente executados principalmente mulheres], invisibilizados pela sociedade patriarcal. Mas os movimentos não foram capazes de se unir o bastante para resistir frente ao governo.

Analisando agora, o problema estava nas dificuldades de conectar (A) a política de oposição e (B) a prática cotidiana. Pelo que observo de movimentos populares mundo afora, os mais fortes, como Sanrizuka, no Japão, Zapatistas, no México, La Zad, na França, etc. são os que conectam as frentes (A) e (B) junto a outro elemento, (C) a criação de uma zona autônoma. No Japão, houve pequenos enclaves de zonas autônomas nas periferias da sociedade, como universidade ocupada, comunidades de bairro, campos de sem-teto e o movimento contra a base militar dos EUA em Okinawa, mas nenhum deles cresceu forte o suficiente para influenciar toda a sociedade, por exemplo, como o MST no Brasil. A dificuldade para criar territórios autônomos pode ter a ver com a sociedade japonesa altamente consumista e controlada, construída no território insular e fortemente interligada.

Em agosto passado, no 75º aniversário do ataque a Hiroshima, o então primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, não respondeu a questões sobre o tratado de desarmamento nuclear, de 2017, até agora não assinado pelo Japão. Em outubro, após assumir, Yoshihide Suga declarou que o país pretende alcançar neutralidade de carbono até 2050, mas tampouco citou a questão nuclear. Até hoje o Japão não reviu sua matriz energética (pós-Fukushima, a Alemanha, por exemplo, decidiu fechar suas usinas até 2022). Por quê?

Há quem afirme que a questão sobre a Alemanha continua, considerando sua dependência da importação de eletricidade da França, que é fortemente baseada na energia nuclear. No caso do Japão, o país ficou sem energia nuclear por vários anos após o acidente, mas cinco reatores voltaram à ativa em 2018. Isso nos mostra que é possível seguir sem a energia nuclear, mas que há forças que investem pesadamente e insistem no seu uso. Uma é a chamada Nuclear Village, que inclui políticos, fornecedores de tecnologia, empresas de eletricidade, cientistas e jornalistas, que há muito tempo a promovem.

Agora, quando discutimos alternativas “realistas”, estamos nos referindo à posição de quem? Dos formuladores de políticas que insistem no consumo de energia (no nível atual e até mais) para um desenvolvimento nacional “sem fim”? Ou daqueles que estão dispostos a criar novas formas de vida para uma melhor convivência com o meio ambiente, com menor consumo de energia? Há grupos nos EUA, Japão, Coreia e França que estão tentando criar comunidades autônomas que consigam sobreviver fora dessa rede, tanto quanto possível. Essas experiências terão cada vez mais impactos no futuro.

O que é singular sobre Fukushima? E o que é global?

No Japão, as pessoas precisam descobrir diferentes horizontes, fora da hegemonia americana. Não devem esquecer as calamidades nucleares, como bombardeio genocida e explosões de usinas insanamente instaladas no arquipélago sujeito a terremotos. Devem parar o projeto do governo japonês de despejar a água contaminada no Oceano Pacífico, o maior bem comum para a população planetária – desativando reatores existentes e descobrindo uma maneira de lidar com os resíduos radioativos já acumulados em colaboração com o mundo todo.

Globalmente, os movimentos antinucleares, antiguerra e anticapitalistas devem se coordenar para seus objetivos, pois as lutas locais contra diferentes poderes governantes e modelos de desenvolvimentos estão, afinal, lutando contra o mesmo inimigo – o complexo industrial militar ou o regime nuclear global, que é a última fortaleza para o impulso infinito do modo de desenvolvimento do estado capitalista.

O fim do livro traz a mensagem “forget Japan” (“esqueça o Japão”). O que quer dizer?  

No mundo todo, o declínio da civilização capitalista tem se manifestado de inúmeras maneiras: aquecimento global, covid-19, poluição atmosférica e oceânica, desmatamento da Amazônia e outros desastres, além de crises políticas, sociais e econômicas. No Japão, isso foi incorporado no desastre de Fukushima, com esvaziamento populacional, aumento do suicídio e assim por diante. Mas precisamos aprender a viver esse declínio de forma afirmativa.

Mudar o mundo implica deslocar a questão “o que deve ser feito?” para outra pergunta: “como isso deve ser vivido?” Precisamos aprender a viver a Terra, não mais nos limites de territórios nacionalizados. Habitantes do arquipélago deveriam “esquecer o Japão” nesse contexto, deixar para trás ideais do regime pós-guerra e o mito da raça pura. Esquecer é necessário para redescobrir formas de sermos humanos, viver com a Terra, amar as singularidades das culturas e compartilhar bens comuns, positivos e negativos.

Sabu Kohso é um crítico político e social, tradutor e ativista de longa data na luta global e anticapitalista. Nativo de Okayama, Japão, Sabu vive em Nova York desde 1980. Ele publicou uma série de livros em japonês sobre espaço urbano e lutas populares em Nova York, bem como um livro sobre filosofia do anarquismo planetário. Seu primeiro livro em inglês é Radiation and Revolution (Duke University Press, setembro de 2020).

10 anos – “Desastre de Fukushima e pandemia derivam do capitalismo”

Dez anos após acidente nuclear no Japão, analista político e autor japonês Sabu Kohso fala sobre lições que podem ser tiradas da tragédia tripla e o futuro pós-pandemia.

11 de março de 2011: um terremoto de magnitude de 9,1, um tsunami com ondas de mais de 10 metros de altura e o maior acidente nuclear do século 21. Dez anos atrás, a tragédia tripla assolou a província japonesa de Fukushima.

11 de março de 2020: a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara a pandemia de covid-19, que se tornou o maior desafio global de saúde pública ainda em curso.

Para o analista político e ativista anticapitalismo Sabu Kohso, não estamos vivendo uma mera sucessão de crises, mas uma sinergia de desastres que derivam do modelo de desenvolvimento capitalista, que, a despeito dos impactos ecológicos, segue pautado pela exploração do planeta.

“Tanto a radiação quanto a pandemia nos afetam fatalmente”, diz Kohso, japonês radicado em Nova York e autor do livro Radiation and Revolution, que trata da relação entre energia nuclear, ordem global e resistência da sociedade civil. É, nas suas palavras, “um livro que busca esperança na escuridão”.

Em entrevista à DW Brasil, Kosho fala sobre os impactos internacionais da tragédia tripla de Fukushima e o futuro pós-pandemia.

DW Brasil: Diante da pandemia de covid-19 e dos desafios ambientais atuais, que lições tiramos de Fukushima?

Sabu Kohso: A lição é difícil. Tanto o desastre nuclear quanto a pandemia são derivados da incontrolabilidade do modo de desenvolvimento capitalista. O que realmente estamos enfrentando não é a sucessão de um desastre após o outro, mas uma sinergia de desastres acumulados no horizonte planetário. Radiação e pandemia nos afetam fatalmente, mas de maneiras ontologicamente opostas: enquanto a contaminação por radiação modifica nossos genes aos poucos, a pandemia devora nossas células no tempo mais imediato, a partir de nossos contatos corporais. A radiação perturba nosso relacionamento com o planeta; a pandemia nos força a interromper interações sociais. Isto é, perdemos a confiança nas duas relações fundamentais que constituem nosso ser.

Em resposta a ambas, articularam-se forças para manter os negócios como sempre: no caso da radiação, um neonacionalismo japonês que incitou pessoas a comerem alimentos provavelmente contaminados como gesto heroico de patriotismo; no caso da pandemia, um neofascismo norte-americano que se recusa a usar máscaras como parte do movimento Make America Great Again, liderado pelo próprio ex-presidente [Donald Trump] e ancorado na mais vulgar ideia de “liberdade”.

Em última instância, a lição é que hoje a ideia de mudar o mundo não pode mais pressupor uma revolução dentro de um mundo pautado pela ideia de progresso infinito. O que seria então uma revolução? Uma transformação de todos os territórios existenciais: corpo e mente individuais, relações sociais e meio ambiente, muito além da política tradicional.

O livro Radiation and Revolution destaca respostas de movimentos sociais e da sociedade civil ao desastre de Fukushima em 2011. Uma década depois, quão articuladas estão essas mobilizações?

Nos primeiros anos, tivemos um aumento dramático de movimentos de protesto contra a energia nuclear e movimentos para proteger o trabalho reprodutivo dos impactos da radiação. Os últimos foram especialmente importantes para mostrar à sociedade o papel indispensável de trabalhadores reprodutivos [termo que se refere a todo tipo de trabalho envolvido na reprodução humana, da gravidez a cuidados domésticos, historicamente executados principalmente mulheres], invisibilizados pela sociedade patriarcal. Mas os movimentos não foram capazes de se unir o bastante para resistir frente ao governo.

Analisando agora, o problema estava nas dificuldades de conectar (A) a política de oposição e (B) a prática cotidiana. Pelo que observo de movimentos populares mundo afora, os mais fortes, como Sanrizuka, no Japão, Zapatistas, no México, La Zad, na França, etc. são os que conectam as frentes (A) e (B) junto a outro elemento, (C) a criação de uma zona autônoma. No Japão, houve pequenos enclaves de zonas autônomas nas periferias da sociedade, como universidade ocupada, comunidades de bairro, campos de sem-teto e o movimento contra a base militar dos EUA em Okinawa, mas nenhum deles cresceu forte o suficiente para influenciar toda a sociedade, por exemplo, como o MST no Brasil. A dificuldade para criar territórios autônomos pode ter a ver com a sociedade japonesa altamente consumista e controlada, construída no território insular e fortemente interligada.

Em agosto passado, no 75º aniversário do ataque a Hiroshima, o então primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, não respondeu a questões sobre o tratado de desarmamento nuclear, de 2017, até agora não assinado pelo Japão. Em outubro, após assumir, Yoshihide Suga declarou que o país pretende alcançar neutralidade de carbono até 2050, mas tampouco citou a questão nuclear. Até hoje o Japão não reviu sua matriz energética (pós-Fukushima, a Alemanha, por exemplo, decidiu fechar suas usinas até 2022). Por quê?

Há quem afirme que a questão sobre a Alemanha continua, considerando sua dependência da importação de eletricidade da França, que é fortemente baseada na energia nuclear. No caso do Japão, o país ficou sem energia nuclear por vários anos após o acidente, mas cinco reatores voltaram à ativa em 2018. Isso nos mostra que é possível seguir sem a energia nuclear, mas que há forças que investem pesadamente e insistem no seu uso. Uma é a chamada Nuclear Village, que inclui políticos, fornecedores de tecnologia, empresas de eletricidade, cientistas e jornalistas, que há muito tempo a promovem.

Agora, quando discutimos alternativas “realistas”, estamos nos referindo à posição de quem? Dos formuladores de políticas que insistem no consumo de energia (no nível atual e até mais) para um desenvolvimento nacional “sem fim”? Ou daqueles que estão dispostos a criar novas formas de vida para uma melhor convivência com o meio ambiente, com menor consumo de energia? Há grupos nos EUA, Japão, Coreia e França que estão tentando criar comunidades autônomas que consigam sobreviver fora dessa rede, tanto quanto possível. Essas experiências terão cada vez mais impactos no futuro.

O que é singular sobre Fukushima? E o que é global?

No Japão, as pessoas precisam descobrir diferentes horizontes, fora da hegemonia americana. Não devem esquecer as calamidades nucleares, como bombardeio genocida e explosões de usinas insanamente instaladas no arquipélago sujeito a terremotos. Devem parar o projeto do governo japonês de despejar a água contaminada no Oceano Pacífico, o maior bem comum para a população planetária – desativando reatores existentes e descobrindo uma maneira de lidar com os resíduos radioativos já acumulados em colaboração com o mundo todo.

Globalmente, os movimentos antinucleares, antiguerra e anticapitalistas devem se coordenar para seus objetivos, pois as lutas locais contra diferentes poderes governantes e modelos de desenvolvimentos estão, afinal, lutando contra o mesmo inimigo – o complexo industrial militar ou o regime nuclear global, que é a última fortaleza para o impulso infinito do modo de desenvolvimento do estado capitalista.

O fim do livro traz a mensagem “forget Japan” (“esqueça o Japão”). O que quer dizer?

No mundo todo, o declínio da civilização capitalista tem se manifestado de inúmeras maneiras: aquecimento global, covid-19, poluição atmosférica e oceânica, desmatamento da Amazônia e outros desastres, além de crises políticas, sociais e econômicas. No Japão, isso foi incorporado no desastre de Fukushima, com esvaziamento populacional, aumento do suicídio e assim por diante. Mas precisamos aprender a viver esse declínio de forma afirmativa.

Mudar o mundo implica deslocar a questão “o que deve ser feito?” para outra pergunta: “como isso deve ser vivido?” Precisamos aprender a viver a Terra, não mais nos limites de territórios nacionalizados. Habitantes do arquipélago deveriam “esquecer o Japão” nesse contexto, deixar para trás ideais do regime pós-guerra e o mito da raça pura. Esquecer é necessário para redescobrir formas de sermos humanos, viver com a Terra, amar as singularidades das culturas e compartilhar bens comuns, positivos e negativos.

Sabu Kohso é um crítico político e social, tradutor e ativista de longa data na luta global e anticapitalista. Nativo de Okayama, Japão, Sabu vive em Nova York desde 1980. Ele publicou uma série de livros em japonês sobre espaço urbano e lutas populares em Nova York, bem como um livro sobre filosofia do anarquismo planetário. Seu primeiro livro em inglês é Radiation and Revolution (Duke University Press, setembro de 2020).

Chernobil: incêndios próxios aos reatores que explodiram podem atingir depósitos radiotivos

O fogo está principalmente localizado na zona de exclusão do desastre nuclear na atual Ucrania.

Foto: Reuters

Os incidentes que atingem a zona de exclusão da catástrofe nuclear de Chernobbil podem ser encontrados a 2 km dos depósitos de resíduos radioativos, como informou Yaroslav Emeliánenko, o membro do conselho público da Agência Estatal para a Gestão da Zona de Exclusão.

“O fogo permitiu que você seguisse os quilômetros de depósitos Pidlisny, onde guardava os resíduos mais radiativos de toda a zona de Chernobbil”, Emeliánenko afirma em rede no Facebook.

Os incendios florestais na zona de exclusão da usina nuclear de Chernóbil, no norte da Ucrânia, começaram no dia 4 de abril.

A Agência Estatal para a Gestão da Zona de Exclusão, informou no domingo passado, que “é perigoso porque durante a combustão, haverá liberarção na atmosfera de resíduos radioativos que permanecem na vegetação e na cobertura superficial do solo, e são transportados a distancias consideráveis”

Sem embargo, no dia 6 de abril, no epicentro do incidente, é registrado um nível de radioatividade 16 vezes mais alto do que o normal.

As autoridades detectaram na semana passada o lugar em um povoado onde pode ter começado o incendio.

Indústria nuclear é um risco e uma ameaça à meta climática da Inglaterra

Diante das reações o governo da Inglaterra pode abandonar um plano para pagar a construção de novas usinas nucleares através da cobrança de uma taxa sobre as contas de energia.


O governo pode abandonar um plano para pagar por novas estações nucleares através de uma taxa sobre as contas de energia.

O Reino Unido perderá sua meta de carbono zero líquido até 2050, a menos que encontre uma maneira de financiar usinas nucleares, disse a indústria nuclear.

A indústria enviou uma carta confidencial ao chanceler Rishi Sunak, que foi vista pela BBC.

A carta foi motivada por temores de que o governo use o orçamento da próxima semana para abandonar um plano de pagamento de novas usinas através de uma taxa sobre as contas de energia.

O esquema acrescentaria cerca de £ 6 por ano às contas de energia.

Foi apresentada pelo Tesouro no ano passado como forma de pagamento de uma nova usina planejada em Sizewell, em Suffolk.

Todas, exceto uma das usinas nucleares existentes no Reino Unido, que fornecem cerca de 20% da eletricidade do país, serão aposentadas até o final da década.

Críticas severas
Apenas um novo reator, em Hinkley Point, em Somerset, está em construção.

Ele está sendo pago pela empresa francesa de serviços públicos EDF e seu parceiro no projeto, China General Nuclear Power Corp (CGN).

A construção é apoiada pela promessa de que o Reino Unido pagará 92,50 libras por cada megawatt-hora que produz, mais que o dobro do preço atual de mercado.

A nova estação de Hinkley enfrentou críticas – Getty

O alto preço atraiu críticas severas e levou à busca de uma nova maneira de financiar usinas nucleares.
“Existe uma necessidade urgente de um novo mecanismo de financiamento robusto que garanta a confiança do investidor, reduz o custo de capital e ofereça um valor muito significativo ao consumidor”, afirma a carta da Associação da Indústria Nuclear ao chanceler.

“Sem a estrutura política adequada e o modelo de investimento na legislação, é impossível alcançar a substituição dessa capacidade e sustentar nossas necessidades futuras de energia”.

A associação acrescenta que o Reino Unido não pode contar com energia renovável “dependente do clima” – energia eólica e solar – para todas as suas necessidades futuras de energia. Nem poderia esperar o surgimento de tecnologias “inovadoras”.

“O relatório Net Zero do Comitê de Mudanças Climáticas recomendou que um futuro mix de energia fosse constituído por 38% de energia firme, da qual nuclear é a única opção comprovada e comercialmente viável”, diz a carta.

Também encontra falhas nas conclusões da Comissão Nacional de Infraestrutura sobre energia nuclear, dizendo que elas não levam em conta adequadamente os compromissos de mudança climática do governo – o mesmo motivo pelo qual o Tribunal de Apelação bloqueou recentemente a terceira pista planejada em Heathrow.

A comissão disse que o Reino Unido precisará de apenas mais uma nova usina nuclear do tamanho da que está sendo construída em Hinkley Point antes de 2025. “Essa conclusão é fundamentalmente falha – até porque a avaliação não leva em conta o comprometimento líquido agora legislado, “a carta diz.

‘Indústria falida’
No entanto, a organização de campanha nuclear CND disse que seria melhor se a taxa fosse descartada.

Kate Hudson, secretária geral da CND, disse: “Os subsídios do governo para a indústria nuclear – como uma taxa de 6 libras por cabeça para Sizewell – estão de fato sustentando uma indústria falida, motivo pelo qual congratulamo-nos com qualquer plano para descartá-los.

“Não apenas a energia nuclear é mais cara que as renováveis, como todas as usinas nucleares construídas desde 1951 tiveram perdas de £ 4 bilhões em média.

“A nuclear também cria um problema insolúvel em resíduos, e como o drama de TV Chernobyl revelou graficamente, os acidentes nucleares criam miséria humana e destruição ambiental.

“Parece que o governo pode finalmente estar acordando para essas realidades econômicas e ambientais”.

Excesso de custos
Executivos do setor nuclear disseram que o Tesouro estava adotando uma visão sombria do plano de financiar usinas através de uma taxa sobre as contas dos clientes.

Seus especialistas em contabilidade disseram que, como o plano levaria o governo a pagar a conta por grandes excedentes de custos, o custo total poderia contar como parte dos empréstimos do governo.

Na terça-feira, o governo mostrou vontade de abalar a política energética, abrindo as portas para a construção de novos parques eólicos em terra.

Na verdade, eles foram banidos por David Cameron quando primeiro ministro.

Usina Nuclear de Angra dos Reis: Putin quer meter a colher

Mas nem que a vaca voe do lado de abaixo do equador, a turma “arriba” do Rio Grande irá permitir.José Mesquita – Editor


Putin pleiteia aumentar papel russo no complexo nuclear de Angra dos Reis

Em Moscou, Temer promete esforço para acordo do Mercosul com bloco que inclui Rússia

O presidente russo, Vladimir Putin, apoiou nesta quarta-feira os projetos das grandes estatais russas no Brasil, nos setores de transporte, energia e exploração espacial, após se reunir no Kremlin com seu homólogo Michel Temer.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Uma declaração conjunta – em que ambos os líderes manifestaram a intenção de “reforçar o diálogo estratégico” em política internacional – e quatro documentos de colaboração interagências foram o resultado da visita do presidente brasileiro à Rússia no âmbito de uma viagem à Europa cujo próximo destino é a Noruega. Temer foi recebido também pelo chefe de Governo Dmitri Medvedev, ao qual ressaltou a importância de aumentar os investimentos russos no país, que atualmente equivalem a um valor acumulado de 1,5 bilhão de dólares (cerca de cinco bilhões de reais).

Putin e Temer analisaram a colaboração entre os dois países, com especial atenção, segundo o presidente russo, aos “problemas de natureza econômica”. O volume comercial bilateral caiu 11% em 2016, mas aumentou 30% no primeiro trimestre deste ano, segundo Putin (de acordo com Temer, houve um aumento de 40% nos primeiros cinco meses).

Em 2012, a Rússia e o Brasil haviam concordado em incrementar seu comércio bilateral para 10 bilhões de dólares (33 bilhões de reais), mas a meta não foi alcançada. O intercâmbio não chegou a superar os 6,5 bilhões de dólares e baixou para 4,3 bilhões em 2016, segundo o jornal russo Nezavísimaia Gazeta.

A Rússia e o Brasil colaboram no âmbito do grupo de países Brics, formado também pela Índia, China e África do Sul, mas o tema não foi especialmente exaltado. Putin e Temer “decidiram reforçar o diálogo estratégico entre os dois países em temas de política exterior, no âmbito da ONU, Brics, G20 e outros fóruns internacionais”, diz o comunicado conjunto.

Em matéria energética, o líder do Kremlin declarou que existem “projetos com perspectivas no campo da energia atômica” e lembrou que o Rosatom (consórcio de energia nuclear com autoridade de ministério) venceu, no início deste ano, a concorrência internacional aberta pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para o fornecimento de urânio.

A Rosatom “está disposta e gostaria também de receber a tarefa de construir um depósito do combustível nuclear utilizado na usina nuclear de Angra dos Reis”, disse Putin. Por sua vez, a empresa de construção de máquinas Silovie Mashini instalou cinco novas usinas hidrelétricas e tem a intenção de produzir peças turbinas de gás no Brasil.

O presidente russo também disse que as empresas de transporte russas “estão dispostas a participar da realização do novo programa do Brasil para modernizar a infraestrutura nacional”, lembrando que uma empresa de transporte ferroviário russa já iniciou as conversas para a construção e exploração de um setor da Ferrovia Norte-Sul.

Atualmente, já trabalham no Brasil as petroleiras Gasprom e Rosneft, ambas controladas pelo Estado russo. A primeira tem interesse em fornecer gás liquefeito de petróleo ao Brasil e importar equipamentos para a obtenção de gás na plataforma continental, assim como para a construção de depósitos de armazenamento subterrâneos para esse combustível, segundo a informação difundida pelo Governo russo por ocasião da visita de Temer. A Rosneft realiza explorações na bacia do rio Solimões, na Amazônia.

No campo da exploração do espaço, Putin mencionou o telescópio russo para detecção de lixo espacial inaugurado no Brasil. Recordou que aqui funcionam quatro estações terrestres do Glonass, o sistema russo de navegação global por satélite, e disse que há estudos sobre a possibilidade de realizar lançamentos conjuntos em base brasileira, além da produção de foguetes portadores de classes leve e média. Putin se mostrou otimista quanto à manutenção das alianças tecnológicas existentes e à criação de outras, mencionando a colaboração entre o centro de inovação russo Skólkovo e o brasileiro Tecnopac.

Conselho de Segurança da ONU

Na nota conjunta, os dois presidentes enfatizam sua idêntica posição sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU e sua disposição em reforçar a cooperação técnico-militar. A Rússia ressalta o desejo de desenvolver suas relações multilaterais com os países da América Latina e do Caribe, enquanto o Brasil expressa a disposição de colaborar com esse objetivo russo.

Em suas intervenções no início e no final da reunião do Kremlin, Putin e Temer adotaram posições simétricas – no caso do Brasil, em relação à América Latina e, no caso da Rússia, em relação à União Econômica Euroasiática (UEE, formada por Rússia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão e Armênia).

A Rússia e o Brasil expressaram sua intenção de trabalhar pela rápida assinatura de um memorando de cooperação comercial e econômica entre a UEE e os Governos dos países do Mercosul. No próximo semestre, quando ocupar a presidência do bloco sul-americano, o Brasil fará todo o possível para que a Rússia assine um acordo de colaboração com a UEE, afirmou Temer.

Entre os quatro documentos firmados, há um memorando de colaboração econômica e investimento, um plano de consultas entre os Ministérios das Relações Exteriores e um memorando entre a Receita Federal do Brasil e o Serviço Federal Alfandegário da Rússia (SFA) para a troca de informações sobre o transporte de mercadorias, além de um protocolo para troca de informações e ajuda mútua no âmbito do sistema de tarifas da UEE.
ElPais