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Educação e leitura; Substituir José de Alencar, por exemplo

Artigo de Paulo Raviere

O assassínio de potenciais leitores
Em tempos de perseguição aos professores é uma afirmação um tanto incômoda, mas se existe uma função que as aulas de literatura vêm cumprindo com eficiência industrial em nosso país é a de assassinar potenciais leitores. Não é preciso uma pesquisa formal para intuir que a maioria dos estudantes que volta e meia escapam ilesos dessa chacina conhecida como Ensino Médio o conseguem exatamente por evitar o conteúdo que lhes foi empurrado goela abaixo. Talvez em algum momento até leiam Gregório de Matos, Graça Aranha ou Euclides da Cunha, mas muito provavelmente não é por conta deles que desenvolvem gosto pela leitura. Para alguns, grande parte dos clássicos permanecem indigestos mesmo após anos devorando livros, por conta do modo como lhes foram apresentados.

Nas escolas, a leitura é desvinculada da vida: martela-se por anos a importância de certos nomes e da leitura como um todo, mas não seu interesse. O foco está em nomes próprios, títulos, sinopses, cronologias, contextos, escolas literárias, gêneros, generalizações e sentenças deslocadas que haverão de substituir obras inteiras. Há pouco conteúdo específico, pouca legibilidade e liberdade, muita homogeneização. O problema não é a leitura programática, estudada, objetiva, mas ensinar esse método como o único possível. Assim, Memórias Póstumas de Brás Cubas pode ser lido porque vai cair numa prova, mas raramente o será por alguém bem deitado, sem prazos ou objetivos bem definidos, que preferiu ignorar o celular por alguns minutos.

O fetiche da leitura
A leitura, no Brasil, é um fetiche. Grande parte dos agentes fomentadores da importância dos livros – pais, educadores, livreiros, celebridades, políticos – não são, eles próprios, leitores. Essas pessoas alardeiam essa importância – pior, a anunciam com certa pompa – mas, por favor, jamais lhes deem livros como presente de Natal, pois elas nunca têm tempo para ler. Seus argumentos em favor da leitura são válidos: o desenvolvimento do pensamento crítico, a empatia, a alteridade, a diversidade e por aí vai, porém sugerem que o hábito em si é uma qualidade moral. E, acima de tudo, a leitura é vendida como a forma definitiva de aquisição de conhecimento.

A experiência também é indispensável: um estudante pode mergulhar em bibliotecas à procura de tratados sobre as propriedades dos sólidos na água e ainda assim afundar como uma bigorna ao saltar numa piscina. Lemos por toda a vida a respeito do amor e acreditamos compreendê-lo, até o inevitável momento em que nos afogamos em seus dissabores pela primeira vez, lição que nenhuma leitura minuciosa de Proust poderá ensinar tão bem. Há outros meios, e nem sequer a fruição é garantida. O que nenhum desses agentes alardeia é que a leitura pode ser um fim em si. E embora realmente gere seres empáticos, críticos e cosmopolitas, às vezes também produz monstros.

Monstros geniais
O pedantismo é um produto do fetiche. Conhecemos alguns leitores, e a despeito do que leem, não são muito diferentes das outras pessoas: almoçam no quilo, assistem futebol, vão ao banheiro, amam, escutam rock, se embriagam, votam, postam vídeos, contam piadas ruins, cometem erros – a única diferença é que geralmente estão lendo enquanto fazem isso. Mas por ser tão propagada a importância da leitura, muitos se acham melhores apenas por gostarem de ler. Nem é preciso chegar a tanto, na verdade – basta possuir uma biblioteca.

Mas a prova escancarada desse risco é que dentre os próprios autores que forram nossas estantes vários foram pessoas detestáveis ou defenderam ideias infames. Borges saudou Pinochet, Pound apoiou os fascistas, Heidegger os nazistas. Monteiro Lobato e Lovecraft escreveram ficção racista, Céline panfletos antissemitas, Knut Hamsun um elogio a Hitler. Villon matou um homem, Norman Mailer esfaqueou a esposa, Burroughs atirou na cabeça da sua. Nabokov, Thomas Bernhard, Patricia Highsmith, Salinger, Naipaul, embora gênios, eram todos intratáveis no convívio. E a monstruosidade é ainda mais mesquinha entre os leitores anônimos – poetas ressentidos, loucos de palestra, acadêmicos vaidosos, eruditos que têm crises de apoplexia devido à ignorância de seus alunos de 18 anos que jamais abriram um exemplar de Paraíso perdido.

Nosso anti-intelectualismo atávico e cada vez mais evidente é uma reação a esse pedantismo. Ninguém é necessariamente melhor, mais inteligente ou mais generoso por ter lido bons livros. No Brasil esses valores parecem ter sido invertidos, e muitos se consideram melhores, mais inteligentes ou mais generosos exatamente por jamais terem aberto um livro na vida. Mas não há receita: se a leitura não é garantia de humanidade, tampouco seria a sua falta. Por via das dúvidas, são mais sólidos aqueles argumentos em sua defesa – melhor ler do que não ler, como dizia Calvino. Dito isso, permanece a pergunta: como propagar a leitura no Brasil?

Abraçando a geleia geral
É bem incômodo idealizar uma educação nestes tempos filisteus, em que o sucateamento das escolas é um projeto político e os professores, uma classe historicamente miserável, são perseguidos de forma abjeta e sistemática. Por outro lado, este problema persistiu em tempos mais estáveis: em vez de tentar formar seres humanos, há décadas a escola é uma fábrica de robôs programados para preencher gabaritos.

Ainda assim, muita gente que sempre detestou ler continua interessada em narrativa, montagem, composição de páginas de histórias em quadrinhos, em fazer pinturas e fotografias, na escrita de diálogos, em performances, no que há de inexplicável na arte. Nossa necessidade de expressão é latente. Uma proposta realizável, embora radical, seria abandonar de vez a pompa e os manuais de literatura, desistir de Antônio Vieira, Odorico Mendes e da Prosopopéia, evitar certos didatismos e, em conjunção com as disciplinas afins, estimular a percepção e a criação.

Quem lê por prazer frequenta ao mesmo tempo obras díspares: o Rubaiyat convive com os ensaios de Lamb, Charlie Chan Hock Chye e a nova temporada do Demolidor na Netflix. Assim seria possível misturar gêneros, mídias, lugares e épocas, conforme a conveniência. Aproximar o estranho do habitual, o erudito do popular – como na “vida real”. Talvez fosse mais interessante analisar, em vez de linhas do tempo, as diferentes representações dos escravos brasileiros nos quadrinhos de Marcelo D’Salete, os romances de João Ubaldo Ribeiro e a música de Rincon Sapiência. No lugar das resenhas, a importância dos cenários urbanos em Bulldogma e Baudelaire. Visões opostas da guerra em Kubrick e Homero. Transições, leituras de imagens, velocidades, ritmos, modos de ler, modos de criar. Não há limites, não há método fechado – leitor algum enfrenta os cânones de cabo a rabo.

Um devaneio, claro, ainda mais em nosso contexto. Mas não devemos jamais ignorar o alerta de Epicuro na Carta sobre a felicidade (em tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore): “quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz”. Leiamos, portanto, por prazer, e deixemos Iracema para os especialistas (e eventuais interessados).

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 03

Ciência ou humanidades?

É um tema recorrente que vem à tona constantemente e sobre o qual ultimamente tenho lido algumas manifestações notáveis: o da necessidade de as chamadas “humanidades” fazerem parte da educação e da cultura de todos.

E que pelo menos alguns não recebem atenção suficiente. Os exemplos são inúmeros, talvez o mais utilizado seja o que se refere às duas grandes línguas “clássicas” – o grego e o latim -, cuja presença nos programas de ensino encontra dificuldades. Argumenta-se que, além de fazer parte do passado da humanidade, eles ainda estão embutidos em muitas das palavras e conceitos que usamos em nossas línguas atuais. Também é comum ouvir que, se não soubermos algo sobre o conteúdo da Bíblia, seremos como náufragos perdidos em uma ilha da qual nada sabemos; em outras palavras, que não entenderemos muito do que nos rodeia, desde ideias a objetos materiais. E eu poderia continuar oferecendo mais exemplos.

Não tenho dúvidas de que tudo isso é verdade, mas infelizmente a questão não pode ser reduzida a tais termos, nem pode ser baseada em alguns dos argumentos que são usados, especialmente os linguistas. Alguém nem um pouco desconfiado de desprezar o mundo clássico, como Mary Beard, professora de clássicos da Universidade de Cambridge, escreveu em um de seus magníficos livros, The Living Heritage of the Classics (Critic, 2013): “Latin, of claro, permite que você aprenda sobre o idioma e como funciona, e o fato de estar “morto” pode ser bastante controverso – sou muito grato por não precisar saber latim para pedir uma pizza ou as direções para a catedral , mas, honestamente, se você quer aprender francês, a verdade é que seria melhor fazê-lo diretamente, e não começar com qualquer outro idioma primeiro. Só existe um bom motivo para aprender latim: que você queira ler o que está escrito nessa língua ”.

“E a ciência? Onde ela aparece nessas reclamações?”

E como acabo de recorrer a Mary Beard, é oportuno continuar a recorrer ao ensaio intitulado “Os clássicos têm um futuro?”, Que abre o livro citado. E é apropriado porque compartilho o valor que você atribui aos estudos clássicos. “Eu acredito”, ele aponta, “que devemos ir além da ideia superficialmente plausível de que os clássicos são, ou lidam com, a literatura, arte, cultura, história, filosofia e linguagem do mundo antigo.” Claro que ele reconhece que “em parte eles são apenas isso”, mas o que mais justifica sua sobrevivência “é o diálogo que estabelecemos com aqueles que antes de nós dialogaram com o mundo clássico (seja Dante, Rafael, William Shakespeare, Edward Gibbon, Pablo Picasso ou Eugene O’Neill) ”. E, claro, nesses diálogos muitos tipos de ideias intervêm. O que é importante é precisamente essa variedade e os estilos argumentativos que neles aparecem, não as simplificações que muitos defensores dos estudos clássicos empregam (temo que seja interessante), simplificações do tipo que “na Atenas antiga eles inventaram a democracia”. “Dito assim”, Beard explica, “simplesmente não é verdade. Até onde sabemos, nenhum grego antigo jamais disse tal coisa; e, em todo caso, a democracia não é algo que se inventou, como um motor a pistão ”. A verdade é que seria impossível compreender Dante sem Virgílio, ou John Stuart Mill e Karl Popper sem Platão.

Repito, compreendo perfeitamente quase todos estes argumentos, mesmo aqueles carregados de interesses profissionais, disciplinares ou religiosos. Mas não devemos limitar a discussão a tais parâmetros. E a ciência? Onde aparece nessas reclamações? É menos necessário do que as humanidades viajar totalmente pelo mundo? Obviamente, é muito necessário. E não só porque está na base das infra-estruturas tecnológicas, sanitárias ou alimentares do mundo actual, mas porque também faz parte desse “diálogo” que devemos manter com o passado, mesmo com o chamado “clássico” . O biólogo, cosmólogo e lógico Aristóteles – entendida como a lógica como um ramo da matemática – não é menos interessante, nem relevante, do que outras disciplinas “humanísticas”.

“Não preciso do valor das humanidades para me defender, nem na escola nem na rua”

Podemos entender o mundo sem ler ou saber algo sobre os “filósofos” da natureza que são cientistas; Ou seja, sem diálogo interno, por exemplo, Hipócrates, Copérnico, Galileu, Newton, Linnaeus, Maxwell, Darwin, Pasteur, Claude Bernard, Ramón y Cajal, Pávlov, Bertrand Russell, Freud, Poincaré, Einstein, Heisenberg, Schrödinger, Mandelbrot, Rachel Carson, Feynman, Hawkins, Stephen Jay Gould, Richard Dawkins, Edward Wilson, Penrose ou James Watson e Francis Crick? E não quero esquecer aqueles que deixaram uma marca profunda na ciência e na filosofia, os casos de Leibniz e Descartes. Conhecer todos eles, ler algumas das suas obras – algumas muito acessíveis – é essencial para construir uma “visão pessoal do mundo”, por mais modesta que seja. Uma visão de mundo que nos permite e nos induz a refletir sobre o sentido da vida, as obrigações que devemos assumir para com os outros e com o nosso planeta, ou os valores que queremos fazer nossos, valores que nos afetam por, precisamente o que a ciência nos ensina. Em última análise, para ter uma ideia do que significa ser humano, biológica e moralmente.

Deixe-me ser honesto. Estou cansado de ouvir tantos defensores das “humanidades” – que muitas vezes são abençoados com o rótulo de “intelectuais”, um termo, aliás, que raramente é aplicado a um cientista – pessoas que em suas vidas abordaram um livro de ciências . Não preciso do valor das humanidades para me defender, nem na escola nem na rua. E não acho que nenhum ou poucos cientistas precisem disso. Ninguém deveria precisar disso, mas temo que, não importa o quanto você pense o contrário, a ciência precisa de mais defesa. Sei muito bem que o tempo é limitado e que é muito difícil conciliar, dar espaço, para que nos ensinem grego ou latim, ou nos ajudem a ler a Bíblia, Homero, Dante, Ortega y Gasset ou Hannah Arendt, com obtendo ao mesmo tempo algum treinamento em matemática, física, biologia ou química, e ser apresentado à leitura de Galileu, Darwin, Russell, Einstein, Heisenberg ou Gould. E não tenho solução para esse dilema, mas sei que não dá para resolver deixando a ciência de lado, por mais que implique o discurso de alguns.

Mourão, queimadas e a preparação de militares

Meu pai, já falecido, foi de aluno do Colégio Militar, aos nove anos, até à reserva, no posto de General de Brigada.

Convivi boa parte da minha infância e adolescência nos quartéis. Creio deter algum conhecimento de quão exigente era a preparação de militares ao longo da carreira. Então, espanta-me o despreparo atual dos militares que emitem opiniões e pareceres sobre as mais diversas questões.

Leiam;

“Reconhecendo desconhecer dados, Mourão pede explicações ao Inpe”. Informado posteriormente sobre a competência do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, aliás com reconhecimento internacional, o vice-presidente reformulou seu discurso, em partes. “O general disse que desconhecia que os dados sobre queimadas e desmatamento são públicos e qualquer pessoa os pode acessar. No dia anterior afirmou que alguém no Inpe faria oposição ao governo de Jair Bolsonaro e só divulgar dados negativos sobre queimadas”. Não explicou em que sentido uma “queimada teria lado positivo”.

É “fogo” engolir tamanho despreparo em um General e Vice-Presidente da República.

A vida paradoxal de Maria Montessori, criadora do método de ensino para crianças pobres que virou modelo para ricos

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Depois de visitar um hospício em Roma, Montessori ficou horrorizada com a forma como as crianças eram tratadas

Maria Montessori, a criadora do famoso método pedagógico que leva seu nome, era uma mulher de caráter enérgico.

Essa brilhante italiana, cujo nascimento completou 150 anos em 31 de agosto, projetou seu revolucionário sistema educacional para ajudar crianças confinadas em hospícios, crianças presas em reformatórios, as crianças mais pobres e desfavorecidas.

Só num segundo momento ela começou a adaptar sua metodologia para crianças em geral.

Hoje, paradoxalmente, as beneficiadas com seu método são principalmente famílias ricas, capazes de arcar com as altas despesas para seus filhos estudarem em uma das 65 mil escolas montessorianas que existem no mundo e que recebem uma educação exclusiva e potencialmente melhor do que a tradicional.

Um fato é que os criadores da Amazon (Jeff Bezos) e Google (Sergey Brin e Larry Page), todos eles hoje multimilionários, estudaram em escolas que seguem o método Montessori.

No entanto, a ideia de Maria Montessori não era essa.

Solução para desfavorecidos

Montessori tinha 28 anos quando, em 1898, começou a visitar um hospício em Roma e contemplou, horrorizada, como os pequenos internados naquela instituição eram tratados de forma absolutamente desumana, praticamente como animais. Alguns romanos iam ao local para atirar comida para as crianças, como faziam com animais do zoológico.

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Maria Montessori tinha 28 anos quando visitou o hospício que a inspirou a criar seu famoso método de ensino

Vestidas com aventais sujos e esfarrapados, deixadas à própria sorte, essas crianças eram chamadas de “retardadas”, “deficientes” ou simplesmente “idiotas”. Entre elas estavam crianças com deficiência mental, epilépticas, cegas, surdas e autistas, que eram vistas como incuráveis.

Portanto, o terrível destino dessas crianças era o confinamento para o resto da vida dentro das paredes do hospício.

Montessori, como os italianos logo começaram a chamá-la, decidiu que isso era intolerável. E começou a trabalhar.

Ela já havia visitado bairros pobres de Roma como médica voluntária (ela foi a terceira mulher em Roma a se formar em Medicina). Também havia ido ao reformatório, e ficou tão escandalizada quanto no hospício quando viu o abandono das crianças confinadas.

Ela chegou à conclusão de que a educação deve ser uma técnica de amor e respeito. “A criança é uma fonte de amor: quando você a toca, você toca o amor”, disse.

Método revolucionário

Com base nisso, ela moldou um método didático revolucionário para a época. Um método baseado em confiar nas crianças.

Os pequenos, disse Maria Montessori, não devem ser perseguidos, forçados ou dirigidos. Nem recompensados, nem punidos, nem mesmo corrigidos. Devem ser respeitados e, sem interferência, liberados em um ambiente em que tudo (espaço, móveis, objetos) esteja sob medida.

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Montessori criou um método segundo o qual a criança deve ser livre e respeitada

“Sigmund Freud descobriu o inconsciente; Albert Einstein, a relatividade; e Maria Montessori, a criança. Seu pensamento inaugurou uma nova era e muitas das coisas que consideramos naturais hoje, como respeito pelas crianças e escola democrática, são fruto das suas ideias”, diz Cristina de Stefano, autora daquela que é possivelmente a mais rigorosa e documentada biografia de Maria Montessori até agora.

“Foi ela quem explicou que a criança é uma criatura com um cérebro muito poderoso, capaz de se concentrar muito e até se autoeducar, desde que seja respeitada desde o início e tenha permissão para trabalhar, tanto na família como na escola, no seu próprio ritmo”, acrescenta De Stefano.

A biografia, intitulada Il bambino è il maestro: Vita di Maria Montessori (A criança é a professora: Vida de Maria Montessori, em tradução livre), levou cinco anos de pesquisa.

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‘Montessori explicou que a criança é uma criatura com um cérebro muito poderoso, capaz de se concentrar muito e até se auto-educar’

Paradoxos

Foi em 1907 que Maria Montessori abriu em San Lorenzo, então um dos bairros mais pobres de Roma, sua primeira escola: a Casa das Crianças. A partir daí, em alguns anos, seu método daria a volta ao mundo e a tornaria uma pessoa famosa.

Hoje, entretanto, muitas escolas Montessori estão em áreas abastadas e custam uma fortuna.

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A primeira escola Montessori foi inaugurada em Roma, em 1907

“É uma contradição. Um método que nasceu em um bairro pobre de Roma e que foi pensado com base na inclusão, para ajudar as crianças em dificuldade, tornou-se um método para os ricos”, disse Cristina de Stefano.

“Sem dúvida é um paradoxo. Mas também é preciso dizer que nos países em desenvolvimento o método montessori é usado para ajudar, por exemplo, crianças que passaram por guerras. Ainda há pessoas que continuam aplicando seu método para ajudar crianças em dificuldade”, complementa.

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Jeff Bezos, agora o homem mais rico do mundo, frequentou uma escola Montessori.

“Na vida privada, Maria Montessori teve a ousadia de manter uma relação amorosa livre com um colega, Giuseppe Montesano, em seu tempo. Ela engravidou e se recusou a casar para manter as aparências”, diz De Stefano.

Montesano e Montessori concordaram que os dois cuidariam da criança à distância. E também concordaram que nenhum dos dois jamais se casaria. Ela manteve o acordo, mas ele, não.

“Quando Montesano se casou com outra mulher e reconheceu a criança perante a lei como seu filho, Maria perdeu todos os direitos sobre a criança, que tinha 3 anos na época”, afirma De Stefano.

Colaboração fascista

Montessori não viu seu filho até o menino completar 15 anos. Mas a partir daquele momento ela lutou para recuperá-lo, mais uma vez desafiando as regras da época.

E ela conseguiu: nunca mais se separou dele, embora quase até o fim de seus dias, em público, o apresentasse como seu sobrinho.

A emocionante biografia de Montessori tem outro ponto obscuro: sua colaboração, por exemplo, com o regime fascista de Benito Mussolini.

Mussolini ascendeu ao poder em 1922, iniciando um regime que desmantelou instituições democráticas italianas e se converteu em totalitário em 1925. Ele fora professor durante a juventude. E sonhava em fazer das escolas italianas uma fábrica de pequenos fascistas, de jovens disciplinados e obedientes.

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Montessori colaborou com Mussolini porque sonhava em implantar seus métodos em todas as escolas do país.

Montessori, por sua vez, sonhava em ver seu método pedagógico implementado nas escolas do país.

Ela e Mussolini se encontram várias vezes e começaram uma estranha colaboração que durou dez anos. Até que, em 1933, profundamente decepcionada ao ver que Mussolini não cumpriu suas promessas de transformar as escolas italianas de acordo com seu método pedagógico, Montessori decidiu romper qualquer relação com o fascismo.

Mas essa mancha em sua biografia cobrou seu preço: ela foi indicada três vezes ao Prêmio Nobel da Paz, mas nunca ganhou. Muito provavelmente, por causa dessa relação com o fascismo.

Pandemia: 40% dos países pobres não apoiam estudantes vulneráveis

De acordo com relatório da Unesco, 40% dos países mais pobres não apoiam os estudantes de menor renda, negros e com deficiência em meio à pandemia

A pandemia de Covid-19 aumentou a exclusão de estudantes, segundo o Relatório de Monitoramento Global da Educação 2020, realizado pela Unesco.

O estudo busca monitorar os avanços de 209 países no caminho para alcançar as metas de educação da ONU da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O documento indica que 40% dos países mais pobres – de baixa e média-baixa – não apoiam os alunos de menor renda, negros e com deficiência em meio ao isolamento social, não garantindo o básico, como acesso a dispositivos tecnológicos para o estudo remoto ou a adequação das aulas às deficiências.

De acordo com o texto, 258 milhões de crianças e jovens foram excluídos da educação, sendo a pobreza o principal obstáculo no acesso.

Nos países de renda baixa e média, os adolescentes que pertencem aos 20% mais ricos da sociedade têm três vezes mais chances de concluir o primeiro nível da educação secundária, em relação aos mais pobres.

Na América Latina e no Caribe, 9% dos países não têm oferecido suporte aos estudantes mais vulneráveis em meio à crise. A Unesco não indicou em que grupo o Brasil se classifica nem divulgou a lista dos países que não dão suporte aos alunos.

No mundo, um em cada quatro alunos de 15 anos informa que se sente excluído da escola. Além disso, 335 milhões de meninas vão para escolas que não lhes oferece serviços de água, saneamento e higiene dos quais necessitam para ir às aulas no período menstrual.

O relatório aponta que, em 10 países de renda baixa e média, estima-se que crianças com deficiências tenham uma probabilidade 19% menor de obter proficiência mínima em leitura do que aquelas que não têm deficiências.

No total, apenas 41 países reconhecem oficialmente a língua de sinais. No Brasil, por exemplo, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida em lei. Cerca de um quarto dos países possui leis que determinam que crianças com deficiências sejam instruídas em contextos separados.

Ao abordar o Brasil, o relatório destaca a exclusão dos indígenas e alunos com deficiência. Atualmente, apenas 40% das escolas primárias recebem esses estudantes no país.

O relatório também indica outra preocupação no caso brasileiro: a exposição de alunos à violência e ao homicídio na região em que vivem e estudam.

O documento reforça que quase metade dos países de renda baixa e média não reúne dados educacionais suficientes sobre crianças com deficiência.

No entanto, há resultados políticos. O número de países latino-americanos que incluíram pelo menos uma questão sobre etnia em seu censo cresceu de 6, em 1980, para 12, em 2000. Somente a República Dominicana não inclui essa questão na região.

Em relação ao Brasil, o relatório ressalta o aumento de estudantes com deficiência nas escolas regulares de 23%, em 2003, para 81%, em 2015.

“Você queimará no inferno!”: O caso do professor condenado por ensinar a teoria de Darwin

Há 95 anos, o professor de biologia John Thomas Scopes foi preso e acusado de ter ensinado “uma teoria que nega a história da Criação Divina do Homem, conforme explicado na Bíblia”.

O processo foi um escândalo e eles chamaram de “The Monkey Trial“. Foi uma batalha entre fé e ciência, quatro séculos após os incêndios da Inquisição e quase três séculos após a punição de Galileu Galilei.

John Thomas Scopes era um professor de biologia de 24 anos que queria ensinar aos alunos a teoria de Darwin em 1925 (Wikipedia: Smithsonian Institute)

“Quem cria perturbações em sua casa herdará o vento, e o tolo se tornará servo dos sábios de coração” (Livro de Provérbios 11:29, palavras do rei Tiago)

Como todos os dias em junho, Dayton, Tennessee, duas mil almas, acordaram naquela segunda-feira em 1925, envoltas em um vapor de chumbo derretido.

Às dez da manhã, o professor John Thomas Scopes, de 24 anos, professor de biologia, álgebra, química e física, exibiu uma imagem mostrando a evolução no quadro de sua sala de aula na Rhea Country Central High School, do homem de um pequeno macaco que se arrastava em seus quatro membros para um espécime maior, ereto e errante, de semelhança evidente e indiscutível com um ser humano.

Mesmo assim, semelhante a qualquer um dos habitantes de Dayton, embora muitos deles, a partir daquele dia, parecessem duvidosamente homo sapiens. Especialmente para a segunda palavra …

Quase sete décadas antes, em 1859, o cientista e naturalista inglês Charles Robert Darwin (1802–1889) sacudiu a colméia humana com seu livro A Origem das Espécies, que postulava evolução e seleção natural – adaptação ao ambiente, sobrevivência da natureza. mais forte – como uma chave para o quanto o ser vivo nasceu, cresceu, se reproduziu e morreu no planeta Terra.

Inconscientemente, os inocentes escopos naquela manhã violaram a Lei Butler, que considerava “ilegal em qualquer estabelecimento educacional no estado do Tennessee qualquer teoria que negasse a história da Criação Divina do Homem, conforme explicado na Bíblia, e a substituísse pela ensinando que o homem descende de uma ordem inferior de animais “.

Três dias depois, Scopes estava na prisão e o banco do acusado estava esperando por ele. Mas ninguém, no desconhecido Dayton e no mundo, imaginou que essa classe e aquela imagem eram o começo de um furacão.

O julgamento colocou dois advogados importantes: William Jannings Bryan, três vezes candidato à presidência – e um fanático religioso – na acusação, e uma estrela do seu tempo, Clarence Darrow, na defesa, notória por suas vitórias sobre casos perdidos anteriormente. Quase um mito do fórum.

O julgamento começou em 10 de julho de 1925 sem que o verão brutal desse trégua. Já em tribunal, e contra os rígidos costumes da época, os dois advogados obtiveram permissão do juiz do caso, John Raulston, para remover seus casacos e receber, do preguiçoso e antigo ventilador de teto, uma lâmina de ar …

O Juiz que enfrentou outro problema inicial e não um problema menor. Apoiado, como quase todas as pessoas, William Bryan, concedeu a ele o título de coronel honorário da milícia local. O que menos para o cavaleiro cruzado que defenderia a Palavra Sagrada contra o ateísmo diabólico semeado por Scope na sala de aula e nas almas de seus alunos?

É claro que Darrow protestou:

–Por que esse privilégio? Para o júri e o público, o “coronel” Bryan é alguém superior ao seu rival. Aumenta, ao mesmo tempo que diminui minha figura.

O juiz hesitou por alguns minutos antes da discussão irrefutável e retirou da galeria a lenda do rei Salomão e das duas mulheres que alegavam ser criança:

-Bem. Então, à minha direita, também nomeio Coronel Honorário da milícia local … Advogado Darrow!

E reinou (embora por pouco tempo), a paz …

Lá fora, enquanto isso, as ruas e praças se tornaram um circo. Os gritos dos vendedores de sorvete e limonada foram confundidos com as hosannas e aleluias dos místicos, os insultos contra Scopes e Darrow … “enviados do diabo!”, Os cânticos religiosos em coro e a agitação de pôsteres com macacos pintados de forma grosseira. e a lenda “Este não é meu pai”. Alguém até se atreveu a andar enjaulado, um pobre macaco açoitado pelos gritos e pelo calor …

Dadas as notícias incomuns – não havia esse antecedente na história do país -, um jornal de Nova York nomeou um enviado especial para escrever sobre o caso e transmitir por telefone cada instância do processo, que do outro lado do país. e conectada a um alto-falante, alcançou o público – cada vez mais numeroso – reunido na rua.

Até então, o caso Scopes, já batizado e entrando na história como “O Julgamento do Macaco”, era uma guerra sem um possível armistício entre aqueles que acreditavam serem filhos da evolução e os criacionistas, que se recusavam a admitir que haviam partido ” de um lago imundo, um caldo fedorento de insetos e vermes, e não das mãos doces de Deus, nosso senhor ”, como uma das testemunhas se ouviu dizer.

Em 10 de julho de 1925, o julgamento começou com o advogado William Bryan – sentado no centro atrás dos microfones – e com o réu John Thomas Scopes.

Na realidade, o julgamento foi uma farsa, uma armadilha armada para derrotar Darrow, “o maior ateu do país” (um novo título adquirido durante os debates) e demonizar o mestre com faixas furiosas: “Escopos, você queimará no inferno!” .

O juiz foi um cúmplice absoluto dos criacionistas. Proibiu a aparência de cientistas, biólogos, geólogos e todos os especialistas apresentados pela defesa, enquanto a multidão – trezentos por dentro, mais de mil por fora – aplaudia o nome de Deus.

Mas Darrow, também um defensor dos pobres, trabalhadores, homossexuais, vítimas do poder, levou seu último ás na manga:

–”Muito bem, Bryan.” Então vamos jogar em seu campo.

E, para surpresa de todos, ela o chamou para o stand.

–Você é especialista na Bíblia?

–Absolutamente. Eu conheço cada uma de suas palavras.

–Em caso de dúvida, o que você faz?

–Pergunto ao Senhor, e ele me responde.

–Senhores … Deus fala com Bryan! Eu apresento a você o profeta de Nebraska!

Houve algumas risadas …

– Tudo o que diz que a Bíblia deve ser interpretado literalmente?

-Assim é.

–(Mostrando lhe un objeto) Quantos anos tem essa pedra? A ciência diz que alguns milhões de anos …

–Não estou interessado na idade das rochas, mas na Rocha das Eras. Mas é impossível. Tem menos de seis mil anos, porque o bom bispo James Usher marcou a data da criação: 23 de outubro de 4004 aC às nove da manhã.

“Hora leste ou oeste?”

Mais risadas na sala.

– Aquele primeiro dia teve 24 horas?

–A Bíblia diz que foi um dia.

–Mas era impossível medir o tempo. Um dia de vinte e quatro horas, trinta, um mês ou milhões de anos?

-Não sei. Foram períodos.

– Eles poderiam durar muito tempo?

-Talvez…

Darrow viu a luz do triunfo. Ele perguntou a seu rival se era possível, de acordo com a Bíblia, que o sol tivesse parado.

–Se o Senhor queria que ele parasse, Ele parou.

“Mas, se o fizesse, os mares teriam enlouquecido e até as montanhas teriam colidido.” Como essa catástrofe escapou de você? Por que a Bíblia não menciona isso?

O duelo entre os dois advogados – amigos por muitos anos – continuou a favor de Darrow com perguntas sobre a lenda de Jonah e a baleia, o dilúvio universal e outros mistérios de resposta impossível. Em uma sala provisória, Bryan deixou o posto. Ele era diabético, comia com a fome de um náufrago e, já que para os criacionistas ele era o campeão de Deus na Terra, eles o convidavam para festas constantes e festas que agravavam sua condição.

O julgamento foi um escândalo e nas ruas as pessoas gritaram “Você queimará no inferno!”
Na terça-feira, 25 de julho de 1925, Scopes foi considerado culpado por um júri de maioria absoluta criacionista. Mas, na ausência de um registro – foi o primeiro caso desse teor – ele não foi para a prisão. Ele foi punido com uma multa de cem dólares, depois reduzido … para apenas um dólar. Com um final triste. Cinco dias depois, domingo, Bryan foi dormir e dormiu até a morte.

O caso era grande demais e atravessava fronteiras: nos últimos estágios do julgamento havia jornalistas europeus e norte-americanos. Era difícil entender uma luta semelhante entre fé e ciência … 472 anos após as primeiras fogueiras da Inquisição contra “hereges, feiticeiros, feiticeiros”, 292 do julgamento contra Galileu Galilei por apoiar a teoria de Copérnico (“A Terra gira em torno do Sol” ) e 242 dos vinte enforcados em Salem, Massachusetts, por “bruxaria e relações com Lúcifer”.

Scopes continuou a ensinar até sua morte em 1970. Ele foi enterrado na Louisiana com o rito católico à vontade de sua esposa e dois filhos. Porque esse era o paradoxo. Em Dayton, aquela pequena cidade do sul, nunca houve um conflito entre crentes e ateus antes. Todos, quase sem exceção, eram devotos do Senhor, além das nuances entre mórmons, testemunhas de Jeová, episcopalianos, adventistas etc. O próprio Scopes, o pelourinho de bode expiatório por exibir uma imagem da evolução, era cristão, assim como o grupo de estudantes que o defendiam e era marginalizado pelo fanatismo cego dos demais.

O que foi apenas um mal-entendido em uma cidade pequena, terminou em um grande grotesco, mesmo com episódios de violência: paus, pedras e punhos dos inimigos de Darwin – mesmo que oitenta por cento das almas de Dayton desconheciam sua existência – contra os “demônios” evolutivos.

“Falta de investimento na infância é uma tragédia no Brasil”

Após 30 anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente, país falhou em tratar infância como política prioritária e em proteger menores da violência, avalia Mário Volpi, do Unicef e um dos idealizadores do ECA.

“É preciso mais investimento ou corremos o risco de perder tudo o que foi feito nos últimos 30 anos”

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – uma das legislações mais avançadas do mundo para defesa e promoção dos direitos das crianças e adolescentes – completa 30 anos nesta segunda-feira (13/07), num dos países mais perigosos para a infância. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 32 crianças e adolescentes são assassinados todos os dias no Brasil.

A alta exposição de menores à violência é uma das principais falhas de implementação do ECA, segundo um de seus idealizadores.

Falta de investimento no desenvolvimento de crianças e adolescentes brasileiros, sobretudo nas periferias, pode custar todo o trabalho já feito para garantir educação, acesso à saúde e assistência social no âmbito da infância.

“Precisamos de mais investimentos ou corremos o risco de perder todos os investimentos feitos nos últimos 30 anos”, diz Volpi, ressaltando que o ECA confere ao Estado e à sociedade a responsabilidade de garantir a proteção integral de crianças e adolescentes.

Para ele, um dos desafios se refere à normalização da morte de adolescentes e jovens, especialmente negros, nas periferias do país. “Há um discurso de que, se eles morreram, alguma coisa eles devem ter feito. […] Essa ideologia de culpar o excluído pela sua própria exclusão precisa ser superada.”

Em relação à atual crise sanitária do país, Volpi lembra que a epidemia de covid-19 “deixa crianças que vivem em situação de vulnerabilidade ainda mais expostas”. “O grande impacto da pandemia será sobre as crianças. Vemos crianças sem acesso à internet que não estão recebendo os conteúdos escolares, o que é uma situação grave”, observa.

DW Brasil: Em 1990, quando você esteve envolvido na criação do ECA, como imaginava que estaria a implementação do estatuto 30 anos depois?

Mário Volpi: Tínhamos três grandes expectativas: a redução da violência contra a criança, a criação de oportunidades de educação, saúde e proteção social para as crianças se desenvolverem, e o investimento dos governos na infância como uma política prioritária. A ideia era que nenhum país poderia ter um desenvolvimento sustentável se não investisse na infância.

A ampliação do acesso à escola e a redução da mortalidade infantil foram êxitos na implementação. Quando o ECA foi aprovado, mais de 20% das crianças estavam fora da escola; hoje, são 4,3%. A educação era obrigatória dos 7 aos 14 anos e, hoje, é obrigatória dos 4 aos 17 anos. Essa mudança na lei conferiu o direito à educação a muitas crianças.

O segundo sonho que a gente tinha, de ter mais acesso às políticas para a infância, de alguma forma se realizou. Hoje há muito mais crianças na escola, menos mortalidade infantil e muitos programas na área da saúde, como os centros de apoio psicossocial.

Mas o primeiro elemento com o qual a gente sonhava, que era a criança mais protegida contra a violência, ainda é um grande desafio. Ainda temos maus-tratos, abusos, exploração sexual e crimes relacionados ao mundo digital contra as crianças. Além disso, os investimentos na infância não foram como esperávamos. Ainda é preciso muito trabalho para que os governos e a sociedade priorizem os direitos da infância.

Pode-se falar em frustração em relação à implementação do ECA ou ainda é possível ter uma visão otimista?

Não é exatamente uma frustração, mas uma perda de oportunidade. O país deixou passar uma oportunidade grande de ter feito dessa geração que hoje está com 30 anos de idade uma geração plena no seu desenvolvimento. Essa poderia ser a geração dos direitos, que tem a escolaridade completa e condições de enfrentar o mundo do trabalho de igual para igual, mas, infelizmente, nós precisamos recuperar o tempo perdido no que tange a proteção contra a violência.

Mais de 10 mil adolescentes, especialmente adolescentes negros, são assassinados todos os anos. Isso ganhou uma característica de extermínio da população negra e jovem e muito pouco foi feito para enfrentar essa tragédia social. O Estado brasileiro precisa garantir o fim da impunidade dos responsáveis pelos assassinatos de adolescentes e jovens. São os casos menos investigados no país e, quando há investigações, elas não são concluídas. Poucos responsáveis por esses crimes foram punidos. Esses homicídios acontecem em territórios muito específicos. São os territórios da periferia, da exclusão social, da falta de políticas públicas. Não se trata de um fenômeno disseminado por todo o país e, portanto, difícil de enfrentar.

Além disso, existe uma incompreensão da sociedade, que não está muito interessada em saber o que acontece com esses adolescentes. Há um discurso de que, se eles morreram, alguma coisa eles devem ter feito. É um discurso muito cínico, porque a maioria desses jovens frequentava a escola, trabalhava e tinha relações familiares. Esse desconhecimento sobre esses jovens assassinados gerou uma certa acomodação da sociedade. Em 1991, quando houve uma CPI sobre extermínio de adolescentes no Brasil, falava-se de uma média de 4,2 assassinatos de jovens por dia no Brasil. Hoje são 32.

Há uma normalização da morte de adolescentes e jovens nas periferias.

Exatamente, como algo que acontece. São esses meninos lá da favela que estão brigando entre si. É um contexto muito grave de eliminação da vida humana. Então, ainda precisamos fazer um amplo trabalho – e o Unicef está engajado nisso – de criar uma empatia da sociedade com esses jovens que vivem nas comunidades. Essa ideologia de culpar o excluído pela sua própria exclusão precisa ser superada, senão o país não fará as mudanças necessárias para se tornar mais justo.

Por isso, vemos um apoio amplo à redução da maioria penal, sempre que o debate vem à tona.

Objetivamente, é uma proposta que tem a adesão da sociedade, porque se propõe a fazer algo que nunca vai fazer, que é reduzir a violência. Essa ideia de que, se você punir os adolescentes, você reduz a violência colou na cabeça das pessoas. Mas é exatamente o contrário. Os jovens, por falta de oportunidades, vão entrar no sistema penitenciário e vão se consolidar no mundo do crime. A perspectiva social de que o aumento da pena reduz o delito é uma tese que temos combatido há muito tempo. Quanto mais oportunidades dermos aos adolescentes, menos eles se envolverão em delitos.

Crianças indígenas em meio a arbustos no Mato Grosso
“Sociedade precisa entender o que é ser uma criança no Cerrado brasileiro, na Amazônia, numa favela”

O ECA veio para garantir que as crianças sejam “sujeitos de direitos”. O que isso significa?

Trata-se de um conceito de infância e adolescência que sai dessa ideia de objeto. Antigamente, as crianças e os adolescentes eram objeto do poder da família. Havia aquele conceito da inviolabilidade do lar, ou seja, o que acontece no âmbito da família não interessa a mais ninguém. Isso foi superado pelo ECA com o conceito de sujeito de direitos, ou seja, alguém com uma história, conhecimento, desejos, interesses e capacidades. Esse sujeito vive uma condição especial de desenvolvimento e de formação de valores, hábitos e atitudes. A mudança de conceito, saindo dessa ideia de incapacidade para a ideia de sujeito, foi muito importante e ajudou a construir todos os programas na área de assistência social, educação e saúde, mas ainda precisa ser consolidado na sociedade.

Quais são os principais direitos associados à infância e adolescência que ainda precisam ser consolidados no Brasil?

A participação na vida social protegida da violência e somada ao direito à saúde, à educação, à profissionalização, ao esporte, à cultura, às artes e ao lazer formam um conjunto indissociável. Então, um grande princípio do ECA, que vem da Convenção sobre os Direitos da Criança, é a ideia da indivisibilidade dos direitos que asseguram o desenvolvimento pleno da criança e precisam ser assegurados conjuntamente.

Um exemplo de como esse conceito mudou algumas práticas sociais: antes do estatuto, se uma criança sofresse violência em casa era muito comum o Estado colocar a criança numa instituição. Hoje, a criança que sofre violência não deve se afastar da família, quem deve se afastar é o agressor. Se uma criança tem dificuldade de se adaptar numa escola ou apresenta problemas disciplinares, a escola não pode expulsá-la simplesmente, porque ela tem o direito à educação.

Quando o estatuto foi aprovado, trouxe essa responsabilidade da família e do Estado. Então, quando alguém denuncia uma situação de maus-tratos na infância, essa pessoa está cumprindo o seu dever social de preservar os direitos da criança. Depois de 30 anos, o grande desafio é consolidar essa visão da infância como o sujeito que deve ser protegido pela família, pela sociedade e pelo Estado.

Como você avalia as políticas para a infância do governo atual?

O Brasil se funda num pacto federativo, então, os estados e municípios têm muitas responsabilidades na implementação de políticas para a infância. O Brasil consolidou um conjunto de políticas municipais e estaduais pelos direitos da infância que garantem uma rede ampla de programas. No âmbito federal, não existem programas correspondentes a essa estrutura, então a gente observa muita tensão entre estados, municípios e a União, com os municípios e os estados reivindicando mais recursos.

Vivemos um momento muito complexo na situação dos direitos da infância. Precisamos de mais investimentos ou corremos o risco de perder todos os investimentos feitos nos últimos 30 anos. É preciso recuperar o pacto federativo para um maior investimento do governo federal no apoio aos estados e municípios para o cumprimento dos seus diferentes papéis.

É claro que esse momento de pandemia é um momento fundamental para retomar esse diálogo muito importante. O grande impacto da pandemia será sobre as crianças, especialmente das famílias mais vulneráveis. Vemos crianças sem acesso à internet que não estão recebendo os conteúdos escolares, o que é uma situação grave. Há crianças em casa sujeitas a uma série de abusos e maus-tratos. Muitos adolescentes e jovens perderam o emprego.

No âmbito do governo federal e dos governos estaduais, é muito urgente se abrir um diálogo para reposicionar as políticas da infância como políticas prioritárias. Trata-se de alocar recursos para investimentos em educação, saúde e assistência social. O melhor critério para avaliarmos se a criança é uma prioridade é o orçamento público. Esse é um grande desafio que o Brasil precisa enfrentar: investir mais nos direitos da infância.

É necessária maior empatia da sociedade com a infância e a adolescência. O que o Unicef tem feito no sentido de ensejar um melhor entendimento?

O Unicef faz, há muitos anos, um trabalho para criar empatia pela infância, na tentativa de provocar os adultos para que se coloquem no lugar da criança. Para que entendam o que é ser uma criança no Cerrado brasileiro, na Amazônia, numa favela, e para entender que, sem um investimento grande do Estado e da sociedade, o desenvolvimento da criança não acontece. A criança tem um potencial enorme que precisa ser apoiado por ações do Estado e da sociedade.

Há dois anos, fizemos um experimento. Instalamos uma sala em um shopping onde os jovens de classe média alta de Brasília tinham 20 minutos para decifrar alguns enigmas. Essa sala, na verdade, era um cenário que representava uma favela. Os jovens tinham que resolver problemas de química e de matemática e encontrar algumas coisas escondidas dentro da sala com uma sirene tocando, com a polícia batendo na porta, com gritos, com tiros. Depois que esses jovens saíam dessa sala, nós fazíamos entrevistas. Todos eles, sem exceção, diziam como era difícil tentar estudar para o Enem numa favela ou falar com um amigo pelo Whatsapp dentro de um barraco. Todos ficaram muito tocados com essa experiência, porque conseguiram, por 20 minutos, se colocar no lugar de um jovem de uma comunidade. Todos reconheceram que tinham preconceito contra esses jovens, achando que eles não querem trabalhar, que estão ligados ao tráfico, que querem as coisas na vida facilmente sem ter que lutar por elas.

O que vai resolver o problema do país é investimento em educação. Temos tentado trabalhar muito essa empatia para que as pessoas entendam que a vida dessas pessoas é marcada por trajetórias pessoais, e quanto mais presentes a sociedade e o Estado se fizerem nessas trajetórias, dando condições para cada um realizar o seu potencial, mais o país vai se desenvolver. A falta de investimento na infância é uma tragédia.

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Educação: Quarentena e apartheid tecnológico: Brasil não fez da Internet objeto de política pública

O isolamento social durante a pandemia da Covid-19 impôs uma dependência da Internet com a aplicação do trabalho em home office. No entanto, problemas sociais crônicos do Brasil têm transformado a tecnologia em um obstáculo em áreas-chave como a Educação.Tecnologia,Computadores,Blog do Mesquita

Educação a distância é uma das principais preocupações da sociedade brasileira neste momento de isolamento social. A Internet tem sido em muitos aspectos o único canal de comunicação entre a casa das pessoas e o resto do mundo. No entanto, apesar de ser cada vez mais essencial para o funcionamento de diversos setores da sociedade, a pandemia da Covid-19 mostra como as condições de acessibilidade no Brasil carregam as marcas da profunda desigualdade social do país.

A especialista na área de Internet e telecomunicações e coordenadora executiva da organização de comunicação social Intervozes, Marina Pita, lembra que a Internet é “um serviço essencial para o exercício da cidadania, nos termos do Marco Civil da Internet, Lei 12.965/2014 e deveria estar acessível a todos”.

De acordo com ela, diferente de alguns países que adotaram medidas para um acesso mais democrático à Internet, o Brasil não traduz a questão da acessibilidade em políticas públicas, o que aprofunda a desigualdade social no país.

“Veja que o Chile fez um investimento importante em redes de fibra óptica. O Uruguai também investiu no acesso nas áreas rurais e conectou todas as escolas. A opção do Brasil de relevar ao mercado a oferta do serviço de acesso à Internet leva ao aprofundamento das desigualdades”, afirmou.

“Para ter garantida uma série de direitos hoje se depende de Internet. Este quadro é exacerbado em uma situação de distanciamento social, em que pessoas que tinham acesso à Internet em cafés, bares, no emprego, na casa onde fazia faxina, já não têm acesso, ou têm um acesso ainda mais limitado”, acrescentou Marina Pita.

De acordo com os dados levantados pelo coletivo de comunicação social Intervozes, o telefone celular é o único meio de acesso à Internet sobretudo nas classes C (61%), e DE (85%). “Ocorre que nessas classes, o uso da Internet se dá basicamente através da contratação de planos de acesso limitados nos quais o provedor disponibiliza uma franquia de dados”, diz a entidade em nota

Tecnologia a serviço da desigualdade

Uma das áreas que concentrou sua funcionalidade na Internet neste período de isolamento foi a Educação. E é a rede pública de ensino que parece demonstrar um dos retratos mais fiéis da desigualdade social diante da necessidade do uso da tecnologia.

Em 30 de março, o governo do estado do Rio de Janeiro, por exemplo, anunciou uma plataforma on-line para dar continuidade às aulas durante o período da pandemia. No entanto, os alunos que não têm acesso à Internet estão até hoje sem aulas.

Educação a distância é uma das principais preocupações da sociedade brasileira neste momento de isolamento social.

O professor de História e Filosofia da Rede Pública Estadual, Luiz Antônio Andrade, disse à Sputnik Brasil que no Brasil “não existe nenhuma legislação que regule o ensino à distância no ensino básico”. De acordo com ele, a dependência da tecnologia revela uma assimetria entre as condições que as redes pública e privada têm para se adaptar ao ensino remoto.

“A gente nunca pode comparar o ensino público com o ensino privado. O ensino privado é mercado e o perfil do alunado do ensino privado é muito regular. São pessoas de classe média, que têm acesso à Internet e que têm o capital cultural de saber lidar com os programas”, destaca.

“Vários alunos estão com dificuldade de acesso, estão perdidos por que não têm nenhum procedimento uniforme por parte da Seduc [Secretaria de Educação], não existe uma comunicação, nem da direção, nem dos professores. Os próprios professores, muitos que não têm muita habilidade com esse mundo da tecnologia estão sentindo dificuldade e se sentindo desamparados”, acrescenta o professor Luiz Antônio.

Em Minas Gerais, 700 mil alunos devem ficar sem acessar aulas remotas.

Deputada Estadual Laura Serrano (NOVO) defende em artigo que Ensino à Distância durante a pandemia seria “igualdade de oportunidades”. NÃO! Teleaulas do Zema vão excluir 700 mil estudantes, 42% do total. Sinal da Rede Minas chega a apenas 22% das cidades

O coletivo de comunicação social Intervozes também destacou os desafios pedagógicos que a dependência tecnológica impõe aos profissionais.

“Educação vai muito além de disponibilização de conteúdo, ela se faz através da interrelação entre educador e educando, em um processo de apropriação de cultura, construído em conjunto entre esses sujeitos. Isso se faz impossível em meio virtual”, afirma a organização.

Ao comentar sobre as medidas do governo brasileiro em relação a um esforço de garantir uma maior acessibilidade e melhoria dos serviços de conexão, a diretora executiva da Intervozes observou que a Justiça havia decidido manter os serviços de acesso à Internet mesmo em situação de inadimplência pelo período da pandemia. No entanto, a Anatel e governo se posicionaram contrários e derrubaram a liminar na Justiça.

“Além de uma carta genérica assinada entre o setor de telecomunicações e o Ministério da Ciência e Tecnologia, desconheço alguma medida para garantir a conexão dos brasileiros neste momento de pandemia”, completou Marina Pita.

Ensino a distância na quarentena esbarra na realidade de alunos e professores da rede pública

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Para os estudantes, dificuldades vão de acesso precário à internet a problemas familiares. Desde que a quarentena teve início no Estado de São Paulo, um cenário de incertezas pairou sobre pais, alunos e professores.

Com as aulas suspensas por tempo indeterminado, afinal, como ficaria o ano letivo? Inicialmente, a saída cogitada foi a antecipação das férias escolares. No entanto, após um mês, uma nova realidade se desenhava: a do ensino à distância. A iniciativa, porém, esbarra em uma dura realidade: dificuldades dos alunos, seja pela falta de internet ou estrutura familiar, e a falta de preparo dos professores para lidar com a plataforma e todas as mudanças na forma de ensinar.

Correndo contra o tempo, a Secretaria de Estado da Educação (SEE) conseguiu colocar no ar uma plataforma gigantesca, que permite conectar alunos e professores.

“Para os professores, que estão na ponta do processo, está claro que esse modelo não funciona. Ele não é inclusivo e aumenta ainda mais as desigualdades”, diz Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores da Educação Oficial do Estado de São Paulo) e deputada estadual pelo PT, partido de oposição ao governador João Doria (PSDB).

Para ela, não se trata apenas de um posicionamento corporativista, que defende o ensino em sala de aula, mas da falta de um melhor planejamento para o uso das ferramentas.

Demanda sufocante
Segundo a professora, todos os dias, quase 24 horas por dia, os professores da rede são bombardeados com mensagens que chegam pelas vias digitais – seja o WhatsApp, seja pelos chats da Central de Mídias.

“Os professores se queixam que não conseguem dar conta da demanda e isso é angustiante para eles”, diz Noronha, compartilhando com a reportagem mensagens da rede WhatsApp recebidas de alunos, pais e professores se queixando de dificuldades para acessar o novo sistema.

“A cada dia, recebemos mais e mais relatos de professores que estão extremamente estressados e exaustos. A principal queixa deles é que não estão conseguindo ministrar o ensino a distância por várias questões: acesso à tecnologia, falhas na programação, falta de recursos, seja internet ou celular para dar conta das atividades”, explica Neuza Ribeiro, coordenadora a Subsede da Apeoesp em Araraquara.

Segundo Neuza, há uma grande pressão por parte da SEE e das diretorias de ensino para que o processo dê certo, sem levar em conta a realidade dos professores e alunos.

“Além da pressão do dia a dia para dar conta do processo, que é novo e trabalhoso, os professores ainda sofrem com ameaças de faltas e até processos administrativos caso não consigam trabalhar o conteúdo programado”, diz. “Toda essa pressão é para tampar o sol com a peneira. Temos visto que isso não funciona nem mesmo na rede particular”, completa.

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Professor Rodrigo Baglini prepara vídeo aula: ‘Essa pandemia nos obrigou a apresentar para o mundo um novo modelo de ensino, que deveria ser implantado num processo progressivo’

‘Construção conjunta’
Para o secretário de Estado da Educação, Rossieli Soares da Silva, mesmo com os relatos sobre problemas de acesso à plataforma, o programa tem tido sucesso entre alunos e professores.

“Temos uma clareza que não será um acesso de 100%. Mas mesmo que o aluno não se conecte no aplicativo, temos dois canais abertos com os conteúdos disponíveis. Isso ajuda resolver bastante a questão da conectividade”, diz. “Estamos adaptando o conteúdo, sabemos que esse processo é novo e é difícil.”

Rossieli diz que há lives quase diárias com professores para dirimir as dúvidas e dificuldades. “Temos tido conversas muito transparentes. E estamos todos tentando correr atrás. É o momento de solidariedade”.

Para o secretário, é normal que alguns professores se sintam desconfortáveis com essa nova modalidade num primeiro momento.

“É lógico que dá medo. Eles têm que sair da zona de conforto”, avalia. Segundo ele, na primeira semana, foram 1,5 milhão de alunos conectados às aulas – um pouco menos da metade dos 3,5 milhões inscritos na rede estadual.

Com relação aos problemas de conectividade, o secretário ressalta que uma parceria com as operadoras de telefonia proporciona aos alunos e professores o uso de dados patrocinados pelo Estado. “Esse patrocínio de dados é feito via aplicativo”, diz.

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Professores na rede estadual se queixam do excesso de cobranças – para eles, burocracia criada para o acompanhamento das aulas faz com que ultrapassem as jornadas diariamente.

Dificuldades na forma e no conteúdo
Além das questões técnicas de acesso ao Centro de Mídia criado pela SEE, muitos professores se queixam da qualidade do conteúdo das aulas apresentadas aos alunos e apontam uma desconexão entre esse conteúdo e o currículo.

“Já vi, por exemplo, que teve a mesma aula para três séries diferentes. Parece até que estão gravando aulas com temas aleatórios, então usam a mesma aula para séries diferentes. Nem a grade curricular do Estado está sendo respeitada”, diz a professora Mariana (nome fictício), 38 anos, de Araraquara.

Docente há 16 anos, ela discorda da forma como o processo vem acontecendo. Quando veio a notícia das aulas online, os professores ficaram preocupados com possibilidade de terem, eles mesmos, que gravar as aulas. Mas esse, no entanto não foi o caminho do projeto. O que trouxe alívio, mas também preocupação.

“Perdemos nossa autonomia em sala de aula. Não é nosso planejamento pedagógico que está sendo passado. E, pior, as aulas, genéricas, não levam em consideração as diferenças entre as cidades, as escolas”, diz Mariana.

“O professor faz um diagnóstico para planejar as suas aulas. Essa forma não respeita o ritmo dos alunos, da turma. Acaba, também, sendo uma aula superficial para o aluno, o que não é suficiente para fazê-lo entender”, avalia.

Para a professora Marisa Borges, coordenadora pedagógica em Sorocaba, o fato de tudo ser um processo novo pesa bastante, mas é preciso ter paciência. “Os professores estão tentando se adaptar a essa realidade. Nós estamos aprendendo a mexer com todas as ferramentas”, explica.

Apesar das dificuldades, alguns professores têm se dado bem com o processo.

É o caso de Rodrigo Ferrari Baglini, 32 anos, docente há 10 anos na capital. Ele concorda com a professora Marisa sobre a necessidade de paciência. “Essa pandemia nos obrigou a apresentar para o mundo um novo modelo de ensino, que deveria ser implantado num processo progressivo. As crianças estão no mundo digital, mas não têm a cultura digital do aprendizado. E isso é um processo que precisa de tempo”, diz.

Cobranças excessivas para que o EaD emplaque

Os professores na rede estadual também vêm se queixando do excesso de cobranças na implantação do EaD. Para eles, a burocracia criada para o acompanhamento das aulas faz com que ultrapassem as jornadas diariamente.

“Temos sido obrigados a fazer um monte de relatórios para provar que o professor está, de fato trabalhando”, diz a professora Mariana. “Eu fiquei sem recursos para fazer as aulas online, porque a fonte do meu computador queimou. Faz duas semanas que estou falando isso e que não tenho como fazer. E a resposta da coordenação é dizer que então vou ficar com falta.”

O professor Samuel Augusto Alves Lima, 39 anos, docente da rede estadual há seis anos, também vem enfrentando problemas parecidos. “Temos dispendido de recursos próprios. De equipamentos, de internet. Mas isso às vezes não é suficiente. A equipe gestora pressiona para que façamos as atividades e há uma série de confusões sobre as orientações do planejamento”, conta.

Segundo Samuel, apesar de a Secretaria anunciar o patrocínio de dados para o acesso ao aplicativo, essa não é a única ferramenta usada pelos professores que acabam, sim, dependendo do uso de dados próprios para acesso à internet.

Para o professor, outro entrave está relacionado a uma grande quantidade de informações desencontradas. “Cada escola tem dado as suas orientações sobre como isso deve acontecer. E há muitas idas e vindas, dificultando ainda mais a vida dos professores”, diz.

Ensino a distância x educação presencial

A realidade da implantação de EaD na rede estadual de ensino levanta a discussão sobre as possibilidades de substituição da educação presencial pelo ensino a distância no ensino fundamental.

Mas mesmo quem defende o processo remoto é taxativo em dizer que o modelo atual não funciona de forma definitiva.

Para o secretário de Educação, durante as conversas com professores da rede, muitos colocaram essa questão. “No início, o maior receio era que o EaD fosse substituir os professores. Mas não é disso que se trata. E não temos como fazer com que a EaD substituía a educação presencial na educação básica. O que estamos fazendo agora é um esforço de tentar conectar as pessoas com a educação”, diz. Segundo ele, ao colocar em prática o EaD, a Secretaria tenta manter o vínculo educacional dos estudantes.

Para Fabio Fonseca, Diretor Acadêmico da Faculdade FAEL, uma das pioneiras no processo de EaD no país, o ensino a distância é uma ferramenta valiosa, mas é preciso tempo e organização para que os professores possam aprender a usar essa ferramenta.

“Viemos de um modelo presencial, numa mudança abrupta. Mas certamente é uma mudança sem volta. O processo online veio para ser uma ferramenta importante” ele conta. Para auxiliar nesse processo, a FAEL disponibilizou para os docentes um curso gratuito sobre ensino a distância.

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Educação à distância; desafio imposto pelo coronavirus

Crianças, adultos e escolas ainda tentam adaptar suas novas rotinas de estudos em casa.

Direito de imagemREUTERS/AMANDA PEROBELLI

“Alunos: ‘Tia, mandei uma mensagem no chat’. ‘Tia, tem gente com áudio e vídeo ligados’. ‘Tia, qual é a página mesmo?’. Um minuto depois. ‘Tia, cheguei agora, qual é a página mesmo?’. ‘Tia, não vou responder não’. ‘Tia, tem de ser o que está escrito aqui embaixo?’. ‘Tia, I´m over’.

Tia: Cheguei, gente. Demorou porque não tava conseguindo entrar.”

Esses foram os dez primeiros minutos da aula remota de inglês de Vicente, 9, aluno de uma escola particular no Espírito Santo, narrados por seu pai Fabio Malini no Facebook. Sobrariam 15 minutos para fazer a atividade de leitura em si, e outros dez minutos para o encerramento da aula:

“Aluno: Ai, tia, às vezes você está ficando verde no vídeo. A imagem fica estranha.’

Tia: ‘Ai, tô virando Hulk. KKKKK Gente, a (aluna). voltou. Você está aí? Vamos corrigir o exercício, então…

Aluno: ‘Posso falar no lugar de A., tia?’

Tia: ‘Espera aí um pouquinho’.

Aluno: ‘Deixa eu, tia.’

Tia: ‘Eu, quem?’

Aluno: ‘Eu. J’.

Tia: ‘Tá bom. Então, o resultado das palavras circuladas é isso. Gente, nossa aula acabou!'”

As circunstâncias um pouco caóticas e improvisadas talvez soem familiares para muitos pais e filhos diante das primeiras tentativas de aulas online de suas escolas. O mesmo vale para professores, muitos dos quais estão pela primeira vez se aventurando no ensino à distância ou online, e conciliando isso com o cuidado de seus próprios filhos em casa.

Não são poucas as famílias do mundo vivendo circunstâncias parecidas em meio à pandemia do novo coronavírus. Segundo a Unesco (braço da ONU para educação), até 25 de março, 165 países haviam fechado suas escolas por causa da pandemia, interrompendo as aulas presenciais de 1,5 bilhão de estudantes e mudando a rotina de 63 milhões de professores de educação básica.

Direito de imagemAFP

Unesco estima que 1,5 bilhão de crianças estejam sem aulas regulares em escolas; acima, menina estudando em casa na Eslováquia
Não há nenhum precedente para isso na história.

No Brasil, as respostas para a situação têm sido diversificadas, a depender de cada rede ou escola. Algumas anteciparam as férias e se preparam para estruturar ensino à distância caso a quarentena se estenda, que é o mais provável; outras já estão, em diferentes graus e com diferentes métodos, produzindo conteúdo e enviando tarefas e aulas para os alunos fazerem de casa.

Na rede pública, Estados e municípios preparam aulas virtuais ou via transmissões de televisão aberta, às vezes complementadas por material enviado às casas dos alunos pelo correio ou transporte escolar. Alguns montam grupos de WhatsApp com alunos e professores, trocando vídeos e áudios com atividades.

Na quinta-feira (16), o governo de São Paulo afirmou que o período letivo para os 3,5 milhões de jovens matriculados na rede estadual paulista recomeça em 27 de abril, com aulas ao vivo e vídeoaulas, mesmo para estudantes que não tenham 4G em casa ou no celular.

Experiência no ensino superior
Até agora o Brasil só tinha a experiência de ensino à distância (ou EaD) na educação superior. E, embora as perspectivas sejam de crescimento nesse setor – no qual predominam as instituições privadas de ensino -, os resultados até agora não são todos satisfatórios.

Segundo o mais recente Censo da Educação Superior, feito pelo Inep (órgão do Ministério da Educação), em 2018, pela primeira vez na história, o número de vagas ofertadas em cursos universitários à distância (7,1 milhões) foi maior do que o número de vagas em cursos presenciais (6,3 milhões).

Mas o que espanta é a ainda baixa quantidade de estudantes que conseguem se formar. Em 2018, o Brasil teve 990 mil formandos universitários no ensino presencial, menos da metade da quantidade (2 milhões) de alunos que se matricularam em universidades presenciais naquele mesmo ano.

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Jovens da Costa do Marfim tendo aulas pela televisão, que está sendo usada por redes estaduais e municipais do Brasil para chegar aos alunos
No ensino à distância, isso cai para um quinto: houve apenas 274 mil alunos formandos, em comparação com os 1,3 milhão que se matricularam no mesmo ano.

“Muita gente se matricula achando que o curso à distância vai ser mais fácil, porque o professor não vai estar lá todos os dias”, diz Fredric Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed) e professor emérito da USP.

“Quando na verdade é mais difícil, porque depende da motivação e da maturidade do aluno” em se dedicar o suficiente aos estudos sem a presença física dos docentes, agrega.

Do lado das instituições de ensino, o avanço da EaD foi uma forma de ganhar escala e baratear os cursos, deixando-os mais acessíveis a alunos distantes ou de baixa renda. O problema, diz Litto, é que “uma boa porcentagem das escolas fez isso para baratear (o ensino) e ganhar mais dinheiro, demitindo, por exemplo, o corpo docente com doutorado, que é mais caro de manter. É bom fugir desse tipo de instituição, porque ela provavelmente não vai investir no enriquecimento de seus cursos e materiais e não vai além (do básico).”

Dito isso, Litto acha que o momento atual, que força alunos e professores a ficarem em casa, pode oferecer boas oportunidades para enriquecer o ensino básico com ferramentas de qualidade da educação à distância.

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Como transpor o universo do ensino à distância para a educação básica, período em que a presença física faz enorme diferença no processo de aprendizagem?

‘Melhor lugar para criança é na escola’

Mas, antes, como transpor o universo do ensino à distância para a educação básica, período em que a presença física, o relacionamento com colegas e a proximidade com os professores fazem enorme diferença no processo de aprendizagem?

“Naturalmente, o melhor lugar para a criança é na escola. Não vamos agora ter soluções (que seriam ideais) para os tempos normais, mas vamos poder aprender para aperfeiçoar a educação quando voltarmos aos tempos normais”, diz à BBC News Brasil Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe-FGV), que está assessorando redes estaduais e municipais a se adaptarem às circunstâncias atuais.

Soma-se a isso o fato de que, no Brasil, a qualidade da escola costuma ter o papel de redução – ou, em situações negativas, de aprofundamento – das desigualdades sociais.

Por isso, especialistas em educação temem que estudantes de redes ou escolas menos estruturadas, particularmente em regiões carentes, acabem ficando para trás ou perdendo motivação em estudar e, futuramente, em retomar as aulas presenciais.

“No pior dos cenários, se a escola não tiver estrutura (de criar uma aula online), precisa pelo menos mandar tarefas para o aluno fazer em casa, para não desaquecer o processo de aprendizagem”, opina Costin.

“Neste momento, a única certeza é de que temos de fazer algo para que não aumentem as desigualdades educacionais. Porque muitas escolas particulares estão mandando suas atividades, e nelas estão as famílias com mais letramento” – e, portanto, em teoria com mais facilidade em manter os filhos estimulados no processo de aprendizagem.

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Família em Santo André fazendo educação à distância com as filhas; Conselho Nacional de Educação prepara diretrizes para escolas.

Incertezas das escolas
Por conta da pandemia, o Ministério da Educação permitiu que as escolas não cumpram os 200 dias letivos previstos em lei, desde que mantenham as 800 horas de aula obrigatórias para a educação básica.

Mas como encaixar as horas em um período letivo menor? Todas as aulas online durante a quarentena contarão como dia letivo? Como exigir o mesmo aprendizado de crianças que tenham diferentes condições (de tablets e acesso à internet a escrivaninhas, por exemplo) dentro de casa? Como avaliar, na volta às aulas, o que foi ensinado virtualmente?

Essas perguntas, por enquanto, permanecem sem uma resposta definitiva. O Conselho Nacional de Educação (CNE, órgão independente ligado ao MEC) está preparando uma resolução com orientações às escolas para lidar com esses desafios.

“A grande dificuldade no Brasil, assim como nos demais países, é a situação imprevisível em uma área que não tem tradicionalmente a cultura do digital, do trabalho remoto ou da educação à distância. Isso é novo e complexo para quem trabalha com educação básica nas escolas públicas e particulares”, afirmou Maria Helena Guimarães de Castro, conselheira do CNE, em um seminário virtual realizado em 8 de abril pelo conselho, pela organização Todos Pela Educação e pelo Banco Mundial, para discutir a nova realidade do ensino.

A Unesco, por sua vez, fez um chamado para que instituições educacionais públicas e privadas de todo o mundo sigam uma lista de recomendações em meio à pandemia:

1) preservem empregos e salários dos funcionários, dizendo que “a crise não pode ser um pretexto para baixar os padrões e desmerecer direitos trabalhistas”;

2) priorizem a saúde e o bem-estar de professores e alunos, em meio ao estresse e à crescente exposição da população global ao coronavírus;

3) deem voz aos professores no processo de planejamento das respostas educacionais, além de oferecer-lhes treinamento adequado para lidar com as circunstâncias;

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“A grande dificuldade no Brasil, assim como nos demais países, é a situação imprevisível em uma área que não tem tradicionalmente a cultura do digital, do trabalho remoto ou da educação à distância”
4) coloquem a igualdade no centro dos debates. “Soluções tecnológicas que assegurem a continuidade do ensino frequentemente exacerbam as desigualdades”, afirma documento da Força-Tarefa Internacional de Professores pela Educação, da Unesco. “Educação à remota e virtual só são eficientes para professores, estudantes e famílias com eletricidade adequada, conexão à internet, computadores e tablets, e espaço físico para trabalhar.”

Para alguns dos especialistas ouvidos, diante das deficiências educacionais acumuladas pelo Brasil até mesmo em condições normais e da possibilidade de que não seja possível transmitir todo o conteúdo esperado no modelo virtual, será preciso fazer preparos extras para que a volta às aulas presenciais compense as defasagens.

Isso não significa, porém, que não dê para fazer muito pelos alunos neste momento. A percepção dos educadores ouvidos pela reportagem é de que não apenas é possível ensinar habilidades e conteúdos, como tirar lições que podem melhorar a educação presencial no futuro.

‘Não é só transformar a aula presencial em online’
Para Fredric Litto, da Abed, um erro comum é achar que basta gravar a aula do professor e transmiti-la online para fazer os alunos aprenderem.

“O aluno provavelmente vai ouvir dez minutos e desligar. Não dá para repetir (virtualmente) o ambiente da sala de aula presencial. Tem que fazer algo diferente, e esse ‘diferente’ pode ser enriquecedor e eficaz se for bem feito. O sucesso da aula presencial depende muito da inspiração do professor naquele dia, e a vantagem da boa aula remota é que isso não acontece, se tiver uma equipe por trás, pensando no conteúdo, no audiovisual, na avaliação a ser feita daquilo depois”, afirma.

O curioso é que Litto tem ouvido da filha, que mora na região altamente informatizada do Vale do Silício, na Califórnia, que seu neto de 14 anos está enfrentando desafios semelhantes aos de alunos brasileiros neste momento.

“Nem lá eles estavam preparados”, relata.

Para as escolas e professores que pela primeira vez estão tendo de trabalhar plenamente em ambientes virtuais, Litto sugere pensar em formas de enriquecer o aprendizado com conteúdos interativos e disponíveis para qualquer um que tenha acesso à internet.

“Um professor pode, por exemplo, propor uma atividade com base em uma visita virtual (dos museus) Louvre e Hermitage. Ou com base em arquivos históricos online, filmes de animação, etc. A vantagem é que um aluno do interior (com conexão à internet) pode ter acesso à equipamentos online da USP, mesmo estando longe.”

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Preparar volta às aulas presenciais preocupa especialistas
“O ideal é não só depositar conteúdo e arquivos PDF para as crianças lerem, mas sim estimular pesquisas e pensar em temáticas criativas” para engajar os alunos, sugere Helena Faro, do Instituto Ayrton Senna.

“Uma ideia é estimular as crianças a transformar as situações vividas em casa em histórias em quadrinhos, a partir dos relatos deles próprios. As escolas estão sendo convidadas a pensar em outros tipos de estratégia e projetos que motivem os estudantes a usar o celular para algo além da diversão e das redes sociais”, diz ela.

E para as crianças pequenas, ainda incapazes de se concentrar por muito tempo em uma atividade virtual – e para quem o ensino presencial faz uma diferença ainda maior?

“Tenho visto algumas redes fazerem trabalhos colaborativos interessantes nessa fase, por exemplo, mandando um vídeo do professor pedindo aos alunos pequenos que contem o que gostam de comer ou de fazer. Depois o professor junta as respostas e todos conversam a respeito em uma live de Facebook”, conta Faro.

Na educação infantil, Claudia Costin diz que alguns professores têm usado grupos de WhatsApp para passar orientações aos pais de como realizar atividades com as crianças e bebês. “Depois, uma vez por semana esse professor manda um vídeo individualizado para cada aluno, para manter o contato afetivo entre eles.”

Ir além de conteúdo – e ensinar habilidades
E, se está difícil transpor o ensino de alguns conteúdos para o modelo virtual, o atual momento desafiador – de pandemia e confinamento – pode ajudar a ensinar habilidades importantes às crianças, desde a concentração nos estudos até a autonomia e o hábito de leitura.

Um bom começo, diz Helena Faro, é o letramento emocional, algo que é difícil até mesmo para adultos: aprender a reconhecer e nomear os próprios sentimentos – que, no momento, podem ser tédio, medo e insegurança.

Além disso, “uma habilidade importante atualmente é a de resolução colaborativa de problemas com criatividade. Então as famílias podem envolver as crianças no processo decisório de seu cotidiano, organizando um quadro de tarefas domésticas e estimulando-as a arrumar sua cama e cozinhar”, sugere Costin.

“É também o momento de fortalecer o vínculo familiar, contando histórias de família e lendo para as crianças. Sugiro reservar 20 minutos para que cada um leia um livro, todos juntos, e saia das telas, para lembrar que a leitura é um hábito de lazer.”

Costin sugere, também, “baixar as expectativas”, porque recriar o ambiente de aprendizado da escola em casa vai ser mesmo muito difícil. “O importante é as crianças lembrarem deste período como um de convivência familiar, mais do que um de estresse.”

‘Não vai ser igual volta das férias’
Isso nos leva aos preparativos para a volta às aulas, período que também desperta preocupação em observadores da educação.

“As crianças não vão voltar às aulas como se tivessem voltado das férias”, afirmou no seminário de 8 de abril Priscila Cruz, presidente do Todos Pela Educação. “Muitas vão voltar com marcas do estresse, porque suas famílias terão perdido renda ou terão perdido pessoas queridas durante a pandemia.”

Outras crianças talvez desistam da escola, desmotivadas dos estudos ou forçadas a trabalhar para contribuir para o orçamento doméstico. Assim, muitas escolas terão de se organizar para buscar novamente esses alunos e encontrar formas de manter as turmas engajadas nesse intervalo. Até quando, ninguém sabe por enquanto.

Nesse cenário complexo, opinou Cruz, é primordial que “não deixemos que este seja um ano letivo de faz de conta. Porque o prejuízo disso ao país será gigantesco”.