A alternativa para os próximos 20 anos é uma forma sustentável de capitalismo, que não será vista como capitalismo

Paul Mason é autor de “Pós-Capitalismo”: Um Guia para o Nosso Futuro’ – Getty Imeges

Um grande ponto de interrogação se coloca sobre o mundo neste momento: o que vai acontecer depois da pandemia de covid-19?

A pergunta recai sobre as coisas mais mundanas e concretas — como quando voltaremos a dar as mãos ou abraçar nossos amigos — até as mais abstratas e aparentemente mais distantes: nossas liberdades individuais serão afetadas?

Será o fim da globalização? O que acontecerá com o capitalismo?

Esta última parece ir ao cerne do momento que vivemos atualmente. O capitalismo é mais uma vítima da crise ou seu causador? Como o sistema deve mudar para se adaptar a novas realidades? Há apetite para uma mudança desse porte entre as classes dirigentes e os empresários?

O britânico Paul Mason dedicou parte da vida para refletir sobre o capitalismo. Como jornalista, cobriu parte das grandes crises econômicas e dos movimentos sociais das últimas décadas.

Como intelectual, além de um livro de ficção e uma peça de teatro, escreveu sobre os mesmos temas: a classe trabalhadora, a crise financeira de 2008 e os diferentes protestos globais como a Primavera Árabe, Ocuppy Wall Street e os “indignados” da Espanha.

Mas fora suas últimas obras — PostCapitalism: A Guide to Our Future (“Pós-capitalismo: Um guia para o nosso futuro”, editado pela Cia das Letras) e Clear Bright Future: A Radical Defence of the Human Being (ainda sem edição no Brasil) — que o tornaram um nome conhecido internacionalmente, envolvido em vários debates sobre o estado atual do capitalismo e seu futuro.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, conversou com Paul Mason em Londres, onde ele vive.

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A peste negra foi a epidemia que mais matou na História

Em um artigo recente, o senhor traça um interessante paralelo entre o que acontece hoje e o que aconteceu depois da epidemia de peste negra, no século 14, que marcou a transição do feudalismo para o capitalismo.

Paul Mason – Um dos temas do meu trabalho é que, como o feudalismo, o capitalismo tem um começo, um meio e um fim.

Em meu último livro (Clear Bright Future: A Radical Defence of the Human Being), digo que o fim de um modo de produção de um sistema econômico é com frequência uma mistura de suas fraquezas internas com o que chamamos de “choques externos” ou exógenos.

Então, para nós, a mudança climática se manifesta como um choque exógeno, porque o único capitalismo industrial que conhecemos está baseado na extração de carvão e na destruição da biosfera.

É possível que, em um universo paralelo, o capitalismo tivesse se desenvolvido a partir da energia limpa e em harmonia com a natureza, mas não foi assim.

Há ainda a questão do envelhecimento populacional, que possivelmente levaria à falência 60% dos países até meados deste século porque não haverá gente o suficiente para sustentar uma população envelhecida.

O coronavírus é outro fator que parece ser um choque externo.

Mas meu argumento é que, ainda que todos pareçam choques externos, na realidades são produzidos pelo próprio capitalismo.

Esse é o problema: o tipo de capitalismo que temos destrói as florestas tropicais e cria condições para que milhões de pessoas vivam em situação vulnerável.

E no mundo desenvolvido — provavelmente não tão óbvio para alguns leitores na América Latina — ele tem criado “doenças da pobreza”. Há muita gente morrendo de obesidade em Londres, com diabetes tipo B ou enfermidades nos pulmões porque fumou a vida inteira.

O paralelo que faço com a peste negra é limitado, mas vale a pena ser explorado, porque a epidemia foi responsável por duas coisas: primeiro, interrompeu o modelo econômico do feudalismo porque não havia componeses para cultivar a terra.

E nas cidades não havia pessoas o suficiente que soubessem trabalhar com o que era a principal matéria-prima da época, a lã. Nas revoltas que eclodiram depois da peste negra, sempre houve participação dos trabalhadores que manufaturavam a lã.

Protestos em Wall Street em 2008: para Mason, capitalismo financeiro é danoso para o próprio capitalismo
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O outro impacto — e maior — foi a quebra da ideologia. Porque fez com que as pessoas dissessem: “Isso (o modelo) não está funcionando.”

Entre aqueles que estudaram aquele período há um livro brilhante que se chama Lust for Liberty (“Desejo de liberdade”, em tradução livre), de Samuel K. Cohn. O título já diz tudo: ao final da epidemia, as pessoas se deram conta de que o sistema não as estava protegendo.

Se pensa no feudalismo — e acredito que na América Latina a imagem seja desses grandes senhores de terras, pois as revoltas coloniais também foram contra os grandes senhores de terras —, e a cultura entre esses donos de terra era o paternalismo. O proprietário está ali para explorar, mas também para proteger.

E o que aconteceu no século 14 foi que as pessoas disseram: “Espera aí, isso não está nos protegendo”. E a palavra liberdade começou a ser usada e disseminada.

Nós pensamos na palavra “liberdade” no contexto da Revolução Francesa, mas desde 1360 observamos o uso da palavra “libertas”, em latim, pelos revolucionários.

Algo que me chama atenção nesta comparação é que a peste negra marcou a transição do feudalismo para o capitalismo, o que, de alguma maneira, permitiu o Renascimento e o que conhecemos como Idade Moderna. Há mais ou menos 40 anos se fala do fim dessa Idade Moderna e do que, por falta de uma expressão melhor, se chama “pós-modernismo”. Como se novamente uma epidemia estivesse marcando a transição para um período distinto…

Mason – É interessante, mas não vejo as coisas assim. Há muita coisa em jogo. Minha posição é a de que temos em nível global um sistema econômico que não funciona. E é um sistema que depende que um mundo rico bombeie recursos para um mais pobre e, por sua vez, que este mundo pobre bombeie lucro de volta ao rico.

É uma simplificação extrema, mas é assim que funciona.

Isso gerou grande desenvolvimento no hemisfério sul do planeta — algo bom para a região —, mas, ao mesmo tempo, cria pobreza e desigualdade, inclusive no mundo desenvolvido, tanto ao ponto de mostrar que o sistema não é sustentável.

Em 2008, dissemos: “Há muita dívida”. E a razão foi que os bancos centrais imprimiram muita moeda e as pessoas usaram isso para especular. E a solução foi US$ 75 bilhões extras em dívida e mais dinheiro por parte dos bancos centrais.

Estamos tentando curar a doença… com mais doença. E a doença é o capitalismo financeiro.

E qual a cura que se está oferecendo para a crise de covid-19? Mais dinheiro por parte dos bancos centrais, mais dívida.

Então, antes de falar de Modernidade, devemos falar de algo muito mais recente: o modelo econômico neoliberal, que está baseado em uma profunda desigualdade, especulação financeira extrema e baixos salários. Um modelo que em algum momento funcionou, mas que não funciona mais.

Indústria automotiva destruiu empregos quando surgiu, mas acabou gerando outros – Direito de imagem GETTY IMAGES

Deixemos de lado a questão da dívida. Se você pensa em uma franquia da Starbucks, ela trabalha com uma margem de lucro bem pequena, porque está em constante pressão para reduzir preços.

Se a Starbucks decide aumentar o preço do café, o McDonald’s reduz imediatamente. Então estamos diante de algo que há sido chamado de “capitalismo just in time”, onde praticamente não há estoque.

É o que temos no serviço de saúde britânico: deixamos que ele opere em sua capacidade máxima, assim não há camas ou respiradores sobressalentes. E isso não pode continuar assim. O que se necessita é de capacidade.

No futuro fará sentido que a Starbucks tenha várias lojas com cafés de cada país. Fará sentido que elas tenham empregados adicionais, porque essa situação deve continuar e eles devem em algum momento ter algo como 10% da força de trabalho doente a todo momento.

E, logicamente, o serviço de saúde britânico deveria ter mais camas, mais médicos, mais enfermeiros.

Mas, se tudo isso acontecer, todo o modelo neoliberar vai ruir. Então esse é meu ponto. Estamos diante de um modelo que já se esgotou e acredito que a tarefa para aqueles envolvidos na política é pensar em uma solução.

Porque a resposta não pode ser a mesma que a maioria dos países deu em 2008, certo? Austeridade, cortes em áreas como a saúde… Isso parece estar no centro de tudo o que está errado neste momento.

Mason – Exatamente. Temos que rechaçar a austeridade, não só porque ela afeta mais aqueles que têm menos, mas porque se você a combina com a maior disponibilidade de recursos por parte dos bancos centrais…

Pense em termos da quantidade de dinheiro circulando: se um governo coloca mais dinheiro para circular, mas ao mesmo tempo está cortando gastos, o único lugar para onde esses recursos podem fluir é para os mais ricos.

Então, essa combinação de imprimir mais moeda enquanto se reduz o Estado só vai produzir mais desigualdade.

E digo o seguinte a seus leitores: qualquer governo da América Latina que se proponha a fazer essas duas coisas ao mesmo tempo está conscientemente enchendo o bolso das casses mais altas.

Como jornalista, Paul Mason trabalhou para a BBC e para o Channel 4, na Inglaterra
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O que você acha que vai acontecer? Porque estamos diante de mudanças que nunca se pensou que ocorreriam com tanta rapidez: países aprovando uma renda básica universal ou a nacionalização de alguns setores da economia… Isso deve continuar?

Mason – Não. Veja, é possível pensar na nossa cabeça que o livre mercado funciona perfeitamente bem e que vai corrigir tudo em circunstâncias normais, mas o que precisamos agora é de forte intervenção estatal.

O que estamos vendo com Trump ou com os conservadores no Reino Unido que estão tomando as medidas corretas, ainda que com lentidão: fechar a economia e a reconversão de algumas companhias às mãos do Estado.

Mas o que vai acontecer quando as pessoas se derem conta de que a normalidade não vai retornar? Acredito que precisamos de três coisas.

Primeiro, que o governo tenha uma participação em todos os negócios estratégicos. Isso não é o mesmo que resgatá-los financeiramente. Pode-se dar-lhes algum dinheiro, mas com algumas condições, como que mantenham toda a força de trabalho que possam — no caso das empresas do setor aéreo e as petroleiras, pode-se pedir que comecem a fazer uma transição para a tecnologia verde. E que o Estado seja dono de parte da empresa.

Você mencionou a renda básica. A longo prazo, a melhor maneira para que isto funcione é através de algo chamado de serviços básicos universais.

Quer dizer, usar o dinheiro dos contribuintes para garantir renda para todo mundo, mas também para prover serviços básicos gratuitos: saúde, educação universitária, moradia acessível e transporte barato ou gratuito nas cidades.

O problema nesta crise é que nada disso vai ajudar, porque o que as pessoas precisam neste momento é dinheiro. Assim, no curto prazo precisamos que cada país tenha um esquema de salário básico universal.

Finalmente, a terceira coisa que creio que precisamos é que os bancos centrais comprem a dívida do governo, se necessário, de maneira indireta.

Isso é um anátema para a economia de livre mercado porque basicamente é o governo decretando o fim da independência dos bancos centrais — algo que era uma ficção, de qualquer maneira. É o governo emprestando a si mesmo.

Para muitos isso não faz sentido, mas teríamos que pensar da seguinte maneira: estaríamos concedendo um “empréstimo ponte” (modalidade que algumas instituições financeiras condecedem quando seus clientes necessitam de liquidez imediata) ao futuro.

A conta seria paga por aqueles que estivesse vivos daqui 50 ou 100 anos. Porque, se pagássemos os custos agora, as pessoas não morreriam apenas pela doença. A própria democracia poderia morrer.

E em um momento em que ela já está frágil — veja Trump e Bolsonaro —, se permitirmos uma depressão na escala de 1929 creio que em muitos países a democracia evaporaria.

Algo que o senhor analisava quase cinco anos atrás em “Postcapitalism”, seu livro anterior, é que o capitalismo havia perdido sua capacidade de se adaptar, em especial o neoliberalismo. O que pensa sobre esse tema hoje?

Mason – O capitalismo pode se adaptar a essa crise, mas assumirá uma forma bem diferente. Ficará tão diferente que muita gente nem o enxergará como capitalismo.

Agora mesmo há muitas oportunidades para o investimento privado. Na área de educação, por exemplo, ou no entretenimento.

O faturamento da Netflix está aumentando, seu problema é não conseguir produzir conteúdo novo neste momento. Mas está lá a oportunidade para que as pessoas criativas o façam. Por exemplo: acho que a animação voltará a ser bastante popular.

Não estou dizendo que essa crise vai significar o fim do capitalismo. O ponto do meu livro era diferente: que o capitalismo havia perdido sua capacidade de se adaptar a mudanças tecnológicas.

Sim, é verdade.

Em essência, em todas as revoluções tecnológicas anteriores, as novas tecnologias eliminavam formas antigas de trabalho.

Por exemplo, as pessoas que usavam cavalos ou carroças ficaram sem trabalho no início do século 20, com a criação do automóvel. Mas novos postos de trabalho foram criados nas fábricas de veículos.

E assim o capitalismo vai se adaptando. O problema é que a tecnologia da informação atualmente destrói formas de trabalho mais rapidamente do que cria — e em particular elimina empregos com alta remuneração.

Claro que ele também cria a função do desenvolvedor de software, que é bem pago, mas agora muito do processo de desenvolvimento de software está automatizado.

O clássico trabalho manual bem remunerado era o de fabricante de ferramentas para maquinário. E então havia um engenheiro talentoso que era capaz de desenhar e fundir em metal algo que era tão precioso que poderia construir aviões com ele. Agora ele faz um computador.

Essa é a ideia que trato de explicar quando falo da capacidade de adaptação do capitalismo, mas a crise causada pela covid-19 é um problema a mais.

O senhor segue acreditando que é possível ver as sementes desse pós-capitalismo no ambiente em que vivemos hoje?

Mason – A tecnologia da informação permite que o lucro venha cada vez mais fácil. Também cria a possibilidade de automatização rápida. Cria um efeito de rede que produz novos materiais.

Por exemplo: quando descobrirmos uma vacina contra o coronavírus, independentemente da decisão dos fabricantes de cobrar ou não por ela, o fato é que ela poderia estar à disposição do mundo inteiro no dia seguinte. E de forma gratuita. Hoje é muito fácil fabricar uma vacina com uso da tecnologia da informação.

Basicamente, a tecnologia da informação está dificultando que o capitalismo seja capitalista. Agora, temos modalidades diferentes de propriedade, como a Wikipedia, o movimento “open source”, plataformas de cooperação.

Em Postcapitalism eu argumento que nos levará tempo para amadurecer um sistema alternativo. E creio que o fato de que agora mesmo estejamos enfrentando uma crise de funcionalidade do modelo existente deveria fazer as pessoas pensarem nas alternativas de que dispomos.

Para mim, a alternativa para os próximos 20 anos é uma forma mais sustentável de capitalismo. Quero dizer mais verde, menos excludente, sem especulação financeira.

Continuará sendo capitalismo, mas muitos não o enxergarão como tal.

Coronavírus: por que a pandemia pode acelerar a desglobalização da economia mundial

O novo coronavírus teve efeitos econômicos imediatos e esmagadores em todo o mundo.

Uma das palavras-chave para entender os últimos 25 anos da história mundial é a globalização.

Embora, como o jornalista Jonty Bloom diga, qualquer historiador econômico possa falar sobre como há séculos – se não milênios – as pessoas negociam a grandes distâncias.

Bloom se lembra de observar o lucrativo comércio de especiarias na Idade Média.

Mas a globalização de hoje é realmente diferente por causa da escala e velocidade das trocas internacionais, que nas últimas décadas explodiram em níveis sem precedentes.
As instalações de viagens, a Internet, o fim da Guerra Fria, os acordos comerciais e as economias em rápido desenvolvimento se combinaram para criar um sistema mais interdependente do que nunca.

É por isso que o surto do novo coronavírus teve efeitos econômicos tão imediatos e esmagadores em todo o mundo.

“Estamos enfrentando uma crise generalizada do capitalismo mundial democrático e do capitalismo não democrático, como o da China”
A professora Beata Javorcik, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, disse a Jonty Bloom que o ritmo das mudanças na economia nos últimos 17 anos foi muito profundo.

“Quando pensamos na epidemia de Sars em 2003, a China representou 4% da produção global”, lembra ele. “A China agora representa 16%, quatro vezes mais. Isso significa que o que quer que aconteça naquele país afeta muito mais o mundo”.

Por sua parte, Ian Goldin, professor de globalização e desenvolvimento da Universidade de Oxford, diz que nos últimos anos os riscos têm se espalhado. “Eles são o lado oculto da globalização”.

Isso, ele acrescenta, pode ser visto não apenas nesta crise, mas na crise econômica de 2008 e na vulnerabilidade da Internet a ataques cibernéticos. “O novo sistema econômico mundial oferece enormes benefícios, mas também implica riscos enormes”.

Então, o que essa crise significa para a globalização?

Muitos acreditam que as cadeias produtivas localizadas em diferentes países serão afetadas.

Richard Portes, professor de economia da London Business School, diz que é óbvio que algumas coisas terão que mudar, porque pessoas e empresas perceberam o tamanho dos riscos que correm .

“Olhe para o comércio. Depois que as cadeias de suprimentos foram interrompidas [pelo coronavírus], as pessoas começaram a procurar fontes alternativas em casa, mesmo que fossem mais caras”, diz ele.

“Se as pessoas encontrarem fornecedores domésticos, ficarão com eles, precisamente por causa dos riscos que agora percebem”.

O professor Javorcik concorda e acredita que há uma combinação de fatores que farão com que a indústria de manufatura ocidental comece a trazer para casa alguns de seus empregos (“re-shoring”).

“Eu acho que a guerra comercial (principalmente entre os EUA e a China) combinada com a epidemia de coronavírus fará com que muitas empresas levem muito a sério o reescoramento”, diz ele.

“Muitas dessas atividades podem ser automatizadas, porque a reposição de peças traz certeza. Você não precisa se preocupar com a política comercial nacional. E oferece a oportunidade de diversificar sua base de fornecedores”.

Alguns argumentaram que, no futuro, a fabricação de ventiladores e máscaras faciais deve ser considerada uma questão de segurança nacional.
Em um artigo publicado na revista mexicana Letras Libres, Toni Timoner, especialista em risco macroeconômico, é mais forte:

“A retirada do comércio internacional se acelerará. Os exportadores já estão reconfigurando suas cadeias de suprimentos e aproximando a produção com o custo das eficiências. Os importadores aumentarão as barreiras tarifárias em resposta. Esse processo já havia começado com a guerra comercial e agora entrará em colapso. Ásia e o Ocidente se isolam. Uma cortina econômica de ferro cai sobre o mundo “.

As universidades

Mas. Como o jornalista Jonty Bloom indica, grande parte da globalização não se refere apenas ao movimento de mercadorias ou matérias-primas, mas a pessoas, idéias e informações. Algo que as economias ocidentais fazem muito bem.

David Henig, diretor da Política Comercial do Reino Unido para o Centro Europeu de Política Econômica Internacional, observa que “o setor de serviços deve parecer que caiu de um penhasco. Olhe apenas para o turismo e as universidades”.

“Deve haver uma enorme preocupação com o número de novas inscrições para as universidades ocidentais neste outono. É uma indústria enorme. Muitas universidades, por exemplo, dependem de estudantes chineses”.

O que acontecerá com as universidades? Na foto, uma luva cirúrgica abandonada nas ruas da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

A mesma preocupação foi expressa pelo escritor e pensador canadense Michael Ignatieff, reitor da Universidade da Europa Central, com sede em Budapeste.

“Eu acho que as fronteiras estão sendo levantadas em todos os lugares e que a mobilidade do trabalho será reduzida, mas a mobilidade do capital não.

“Com as fronteiras mais rígidas, será mais difícil para universidades como a minha continuar atraindo estudantes de cem países diferentes. Tenho latino-americanos em Budapeste … Continuarei com os mesmos colombianos, peruanos ou brasileiros extraordinários que tenho agora?

“Não sei, os países apertarão as fronteiras, apertarão as restrições. Portanto, podemos ter uma desglobalização do ensino superior. Essa é uma ameaça real de que todo mundo no mundo universitário está falando. Não quero que a próxima geração seja preso dentro das fronteiras nacionais “. ponderar.

Já estava em declínio

Segundo o jornalista Jonty Bloom, a desaceleração ou a reversão da globalização afetará fortemente todas as indústrias mencionadas, mas acrescenta que o professor Goldin acha que a atual pandemia marca uma mudança oceânica e que 2019 “foi o ano que marcou o pico maior na fragmentação da cadeia de suprimentos “.

Fatores como impressoras 3D, automação, entrega rápida e protecionismo já os faziam sentir. Aparentemente, a covid-19 apenas acelerou o processo.

A preocupação agora, diz Bloom, não é se essas mudanças ocorrerão, mas quão profundas serão e como serão gerenciadas.

Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Eclac), acredita que a gobalização “pelo menos como a conhecíamos antes dessa pandemia, será definitivamente diferente”.

Alicia Bárcena acredita que a globalização definitivamente vai mudar.
Ela indicou que “isso definitivamente não será uma globalização das cadeias de valor. Isso é o que será mais importante: a mudança nos modos de produção e nos modos de consumo”.

“Isso vai parecer muito com uma economia de guerra”: o alerta sobre como a crise do coronavírus aumentará o desemprego e a pobreza na América Latina.
Por sua vez, Terry Breton, comissário do mercado interno da União Européia, disse em uma teleconferência com jornalistas que é muito cedo para tirar conclusões “, mas todos sabemos que haverá um antes e depois dessa crise. Ninguém sabe. como sairemos, mas um novo mundo baseado em outras regras será escrito. Seremos mais autônomos em certas áreas críticas. As relações bilaterais serão revisadas “, segundo o jornal El País da Espanha.

O professor Goldin tem uma maneira simples de abordar as profundas mudanças que a globalização enfrentará, explicou à BBC: será mais parecido com o que aconteceu após a Primeira Guerra Mundial ou com o que aconteceu após a Segunda?

Depois de 1918, tínhamos organizações internacionais fracas, a ascensão do nacionalismo, protecionismo e depressão econômica.

Em vez disso, depois de 1945, tínhamos mais cooperação e internacionalismo, refletidos no acordo de Bretton Woods, no Plano Marshall, nas Nações Unidas e no Acordo Geral de Tarifas e Comércio.

O economista britânico John Maynar Keynes – centro – foi vital na formulação do acordo de Bretton Woods, o primeiro acordo monetário internacional que estabeleceu as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países industrializados.

Embora otimista, o professor Goldin está preocupado com algo: quem assumirá a liderança. “Podemos estar otimistas, mas não vemos liderança da Casa Branca”. E acrescenta: “A China não pode assumir isso e o Reino Unido não pode liderar na Europa”.

Então a globalização será revertida ?, pergunta o jornalista Jonty Bloom. E ele responde que provavelmente não, porque é um desenvolvimento econômico muito importante, mas certamente pode desacelerar.

A grande questão, acrescenta Bloom, é se vamos aprender as lições desta crise.

E ele conclui: “Vamos aprender a identificar, controlar e regular os riscos que parecem inerentes à globalização? Porque a cooperação e a liderança necessárias para que isso ocorra não parecem abundar no momento”.

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A economia global no pós-pandemia

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A perda de empregos tem efeitos sobre a capacidade de consumo das famílias. Por ora, os efeitos negativos mais intensos do desemprego estão sendo sentidos principalmente por pessoas de baixa renda, que gastam tudo ou quase tudo do que ganham. Os indícios são de que as perdas salariais vão atingir também frações superiores da distribuição de renda. Com a queda da massa salarial, parece inevitável que o consumo das famílias, pelo menos o de natureza mais discricionária, parta de patamares muito inferiores em relação aos níveis pré-crise.

A crise econômica ganhou autonomia em relação ao choque que a gerou. Isto é, apesar de a crise econômica ter origem na pandemia, é improvável que a solução do problema médico-sanitário resolva o problema econômico.

Veja no novo artigo do Observatório da Economia Contemporânea:

Não há quem considere que a crise econômica global atual seja independente da pandemia de Covid-19. Justamente por isso essa crise se distingue das passadas. Não se sabe ainda a extensão dos danos econômicos e sequer se já atingimos o fundo do poço. Apesar disso, tem-se discutido os cenários sobre como será a atividade econômica mundial pós-pandemia. Esse texto argumenta que a crise econômica ganhou autonomia em relação ao choque que a gerou. Isto é, apesar de a crise econômica ter origem na pandemia, é improvável que a solução do problema médico-sanitário resolva o problema econômico.

Acumulam-se evidências de que o choque econômico gerado pelo novo coronavírus é pelo menos de proporção tão grande quanto aqueles vivenciados na Grande Depressão e na Crise Financeira Global de 2007-2009. O choque atual incide sobre uma economia que já vinha em desaceleração. As últimas estimativas do FMI sugerem que a economia global deve encolher cerca de 3% em 2020, muito mais do que a retração de 0,07% observada em 2009.

Ainda segundo o FMI, as economias dos Estados Unidos e da Eurozona devem encolher 5,9% e 7,5%, respectivamente. No caso da Zona do Euro, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, já alertou que espera em 2020 contração ainda maior que a estimada pelo FMI, algo entre 8% e 12%. Projeta-se uma taxa de crescimento da economia chinesa de 1,2% em 2020, que seria a menor desde o final da Revolução Cultural, em meados da década de 1970. Há ainda muitos países que terão a maior recessão desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

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Glass globe with stacks on US paper currency underneath

As informações já disponíveis sobre mercado de trabalho, produção e vendas também expressam um choque de grandes proporções. Nos Estados Unidos, cerca de 43 milhões de pessoas já solicitaram seguro desemprego, perfazendo mais de 27% da força de trabalho do país. A taxa de desemprego de 13,3%, observada em maio último, supera a do pico do desemprego da crise de 2007-2009, que foi de 10%. Matéria da Bloomberg aponta que tem havido cortes de salários daqueles que ainda estão empregados, o que é atípico mesmo em recessões. O grau de utilização da capacidade instalada manufatureira já atingiu, em abril, mínimas históricas, indicando 35% de capacidade ociosa. Na Eurozona, os impactos no mercado de trabalho têm sido mais tênues por enquanto, em função das regulações trabalhistas e das políticas econômicas focadas em evitar demissões em massa. Contudo, as perspectivas são também de forte crescimento do desemprego. O grau de ociosidade na Eurozona já é comparável ao do vale da crise de 2007-2009, atingindo cerca de 30% conforme dados da Eurostat.

Ou seja, os dados já disponíveis e as estimativas de consenso pintam um cenário nefasto e sem precedentes em termos da profundidade e velocidade de deterioração da atividade econômica global.

Suponha-se um cenário otimista: a pandemia acabará logo e uma eventual segunda onda será, de alguma forma, controlada. Evidentemente, parte da deterioração da atividade econômica será dissipada na medida em que o problema médico-sanitário seja superado. Mas poderíamos declarar que a economia estará saudável com a remissão da pandemia?

Olhemos para alguns dos seus efeitos. Eles se manifestaram tanto do lado da oferta quanto do lado da demanda. O necessário isolamento social acarretou algum grau de paralisação da atividade econômica e grande parte dos agentes econômicos perdeu receitas, o que tem consequências dinâmicas diversas, as quais, em geral, desencadeiam cortes de gastos.

O nível de emprego é um dos termômetros mais importantes da atividade econômica. A experiência histórica indica que a perda de empregos ocorre, em geral, mais rápido do que a sua retomada. O gráfico abaixo exemplifica o problema. Ele mostra o percentual de empregos perdidos em relação ao pico em todas as recessões dos Estados Unidos pós-guerra e em quantos meses o nível de emprego pré-crise é recuperado. Uma das coisas que se pode observar é que a retomada do volume de empregos perdidos na recessão de 2007-2009 levou mais de seis anos, no que foi a recuperação mais lenta no pós-guerra. Na recessão atual, iniciada em fevereiro, a perda de empregos tem se mostrado ainda mais rápida e pronunciada que em 2007-2009.

Quanto tempo levará para que o nível de emprego seja retomado na recessão atual? No caso dos Estados Unidos, mesmo considerando que parte importante da perda de empregos refletida no gráfico se deveu a licenças temporárias, seria necessário que a recuperação do emprego repetisse, na subida, a velocidade da queda, e que se revertesse rapidamente a tendência de baixa nos demais países. É possível que isso aconteça, mas para isso seriam necessários novos ineditismos.

Economia global no pós-pandemia

A perda de empregos tem efeitos sobre a capacidade de consumo das famílias. Por ora, os efeitos negativos mais intensos do desemprego estão sendo sentidos principalmente por pessoas de baixa renda, que gastam tudo ou quase tudo do que ganham. Os indícios são de que as perdas salariais vão atingir também frações superiores da distribuição de renda. Com a queda da massa salarial, parece inevitável que o consumo das famílias, pelo menos o de natureza mais discricionária, parta de patamares muito inferiores em relação aos níveis pré-crise.

As empresas do setor de serviços e manufatureiras, por sua vez, estão com muita capacidade ociosa. Mesmo em um cenário em que o restante da atividade econômica retome em “V”, elas poderão atender à demanda sem necessidade de expandir a capacidade, desestimulando novos investimentos privados.

Alternativamente, o investimento privado poderia ser puxado pela reposição ou substituição de máquinas e equipamentos existentes para ganhar eficiência produtiva, mas parece pouco plausível que a maior parte das empresas esteja, em nível global, disposta a lidar com as potenciais baixas contábeis envolvidas e/ou com as subtrações requeridas de caixa, num contexto em que liquidez vale muito. Taxas de juros baixas não farão milagre.

Por fim, mas não menos importante, um grande efeito da pandemia é que muitos agentes econômicos se endividaram ou reduziram reservas previamente acumuladas, não porque se desejava acumular capital não financeiro (investir), mas porque as quedas drásticas de receita não eliminaram, proporcionalmente, as contas a pagar. Isso dá um indício de que a tônica, pelo menos dos agentes privados que não forem à falência, será cortar gastos para saldar dívidas ou reconstituir reservas. Se alguém quer comprar menos, alguém, mesmo que possa e queira vender, não vende mais.

Portanto, há muitos indícios de que a economia global estará emaranhada em uma espiral pouco virtuosa, em que consumo e investimento combalidos geram pouco emprego e receitas anêmicas, retroalimentando a fraqueza da atividade econômica.

Estando o mundo acometido por uma infecção que rompeu os elos tradicionais entre oferta e demanda, as políticas econômicas já adotadas globalmente parecem ter atingido o que poderiam em termos econômicos: estancaram o sangramento. Também está claro que quanto mais tempo a economia estiver exposta aos efeitos da pandemia, pior. Mas, se uma solução qualquer resolvesse o problema sanitário hoje, seus efeitos na economia global se dissipariam completamente, como num passe de mágica? Não parece que esse seja o caso. Diante da magnitude do choque, sequelas foram infligidas no organismo econômico global, o que aumenta substancialmente a probabilidade de uma recuperação lenta da atividade econômica ao longo dos próximos anos, se nada mais for feito.

A política monetária está, mundo afora, perto do seu limite. A nível global, provavelmente serão necessárias novas rodadas de afrouxamento fiscal, como os recentemente anunciados pela Alemanha, cujos desenhos específicos devem ser moldados a partir das escolhas democráticas de cada país e/ou região. Mas há, contudo, o risco de que velhos dogmas prevaleçam e embarguem o tratamento que poderia salvar o doente, ou pelo menos atenuar seu sofrimento.

Ítalo Pedrosa é professor de Economia do Instituto de Economia da UFRJ.

Pode-se confiar na China como poder financeiro responsável?

Ainda existem muitas perguntas que devem ser respondidas.

A China está de volta aos negócios. Enquanto o mundo fecha, o coração do varejo de Hong Kong, que impôs um bloqueio antecipado, está batendo de novo. No entanto, a normalidade não está completa. O ramo local da icbc, um símbolo da influência de Pequim, permanece barricado. Seus gerentes temem que os manifestantes pró-democracia, livres após semanas de quarentena, possam atacar novamente. Isso aponta para uma tensão dentro das ambições globais da China. Seu sistema político pode suprimir os problemas rapidamente, mobilizando tudo na busca de um objetivo. Mas também cria crises – e permite que elas apodreçam.

Confiança é o que une o sistema financeiro. Os agentes econômicos precisam ser convencidos, não coagidos.

Mas, como muitos observadores da China em outras esferas, eles permanecem impressionados com sua ascensão formidável e duvidosos que se preocupem com o bem comum. “As pessoas pensam que é como a Estrela da Morte de Guerra nas Estrelas“. É essa coisa imensa e inescrutável sentada no céu que tem o potencial de destruir a todos nós ”, diz Jan Dehn, do Ashmore Group, gerente de fundos. Eles podem confiar no regime cuja tentativa de encobrimento deixou o vírus escapar em primeiro lugar?

Um cisma parcial no sistema financeiro mundial será difícil de deter. As armas econômicas são baratas e exigem poucas permissões, de modo que os presidentes americanos continuarão gostando delas. Quanto mais duram, mais soluções alternativas ficam entrincheiradas. Até recentemente, isso era muito casual para realmente importar, mas a China, cuja economia em breve poderia superar a dos Estados Unidos, tem o poder de criar mercados e normas que dão vida a mundos alternativos. E está concentrando seus encantos no mundo emergente, cujo menor senso de lealdade às estruturas ocidentais poderia facilitar a retirada.

Os céticos duvidam que um país com superávit em conta corrente e controles rígidos de capital possam fornecer ao mundo uma moeda de reserva. Mas o superávit da China encolheu muito desde seu pico em 2007. É provável que um déficit se torne a norma. Seu envelhecimento da população está economizando menos. Pequim quer mais consumo doméstico, o que impulsionará as importações. E economias ocidentais estagnadas significarão exportações lentas. O Morgan Stanley calcula que a China exigirá US $ 210 bilhões por ano em ingressos estrangeiros líquidos entre agora e 2030 para preencher a lacuna.

Isso, por sua vez, deve pressioná-lo a liberalizar ainda mais seus mercados financeiros. A desregulamentação geral é improvável, mas medidas para aumentar a liquidez, como melhor infraestrutura de mercado e preços mais justos, ajudarão. E os controles de capital da China já estão diminuindo. Os poupadores domésticos ainda estão engaiolados, mas os investidores estrangeiros dizem que não têm problemas para conseguir dinheiro, mesmo durante as atividades do mercado. Os gerentes de reserva veem valor na estabilidade cambial que os controles limitados oferecem. Portanto, a conversão total pode não ser necessária para o yuan ganhar fãs. Com o tempo, os líderes partidários em Pequim podem muito bem decidir, principalmente se tiver atraído dinheiro suficiente para se sentir confortável.

Um sistema financeiro mais diversificado traz benefícios. Contar com uma única moeda dominante ameaça o mundo com flexões de caixa em tempos de crise. Pagamentos internacionais mais eficientes reduzem os custos. A duplicação torna a infraestrutura geral mais resistente.

Desacoplamento ou desglobalização?
Também existem mudanças encorajadoras na forma como a China se conecta ao sistema. Tornou-se o terceiro maior credor do mundo, acima do 16º em 2005. E embora as reservas cambiais tenham sido o maior tipo de investimento no exterior até 2016, seus ativos privados de investimento estrangeiro – no valor de US $ 4,2 trilhões – agora superam o estoque de câmbio de seu banco central . Este é um uso mais produtivo do dinheiro. A abertura de seu setor financeiro permitirá que seus tesouros de economia sejam melhor alocados. O crescimento de seus mercados financeiros oferece mais opções para investidores internacionais. Exceto pela reação exagerada em Washington, uma dissociação das finanças não precisa significar desglobalização total.

No entanto, traz três perigos. A primeira é que ela acelera a balcanização dos mercados financeiros iniciada há uma década. A maioria dos países reagiu à crise financeira adotando novos regulamentos. Muitos tornaram o sistema mais seguro. No entanto, os cães de guarda às vezes pareciam mais motivados pela vontade de restaurar o controle local do que promover a resiliência global. O “cercado” força os bancos globais a estabelecer subsidiárias, que estão sob a vigilância de reguladores locais, em vez de apenas agências. A extraterritorialidade impõe camadas de obrigações aos bancos estrangeiros.

Mercados mais divididos podem ajudar a conter o contágio durante as crises. Mas eles também impedem as instituições financeiras de diversificar carteiras, que podem concentrar riscos. E prendem o excesso de poupança, impedindo que o dinheiro seja investido onde houver escassez, diz Jose Viñals do Standard Chartered, um banco britânico.Jinping,Trump,China,USA,Economia,Política Internacional

As tensões geopolíticas apoiaram essa deriva. O Covid-19, que concentra mentes e dinheiro mais perto de casa, poderia dar outro empurrão. Isso não será barato. Uma pesquisa em 2018 descobriu que a fragmentação já reduz quase 1% do PIB global. Políticas que obrigam as empresas a realocar seus dados dentro das fronteiras de um país, que já existem na China, Índia e outras, podem reduzir os ganhos futuros da digitalização e fragmentar ainda mais os mercados.Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

As regras de “localização” também impedem o compartilhamento de dados para fins de gerenciamento de riscos, apontando para o segundo perigo: que um sistema quebrado seja menos seguro. Vários vínculos entre bancos e empresas de tecnologia financeira oferecem mais pontos de entrada para cibercriminosos. As dependências são construídas com nós que não são regulados e são pouco compreendidos, criando espaço para falhas sistêmicas.

O terceiro e maior risco reside em contar com um aparelho com duas cabeças, mas sem um líder benevolente. Não obstante as crises, o sistema do dólar permitiu décadas de crescimento sustentado. No entanto, os Estados Unidos às vezes parecem menos interessados ​​no bem comum do que no aluguel que podem obter do domínio do sistema. Em agosto passado, vários parlamentares patrocinaram um projeto de lei bipartidário propondo que o Fed tributasse a entrada de capital estrangeiro para ajudar a enfraquecer o dólar. Tais ações sugerem o consenso desgastado em Washington sobre as compensações que surgem como uma hegemonia financeira.

Em contraste, a China diz que está pronta para abraçar a liderança. Responde aos ataques de Washington com ofertas de colaboração. Apesar dos enormes balanços, seus bancos se esquivaram de tentar comprar rivais europeus. No entanto, como nos negócios, na diplomacia e na maioria dos terrenos onde a pegada da China se aproxima, as questões permanecem. Está abrindo seus mercados, mas os novos participantes não têm certeza se regras não escritas podem bloqueá-los. Regimes que permitem aos investidores estrangeiros recuperar garantias se as empresas não forem testadas. A China carece de imprensa livre, lei comum e judiciário que possam proteger o interesse público e restringir a apropriação de terras pelo Estado.

Se não forem atendidas, essas dúvidas poderão limitar a esfera de influência financeira de Pequim a ser um sistema de satélite, já que muitos participantes do mercado optam por permanecer com o diabo que conhecem. Esse mundo seria subótimo de várias maneiras. A porosidade entre essa esfera chinesa e o sistema do dólar seria limitada, obstruindo os fluxos de capital. Sentindo-se mais ansioso com a China, os EUA podem tentar inclinar ainda mais a estrutura atual a seu favor.

Existe um caminho diferente. A China pode optar por garantir à comunidade financeira que não procurará ocultar a verdade quando houver problemas no sistema e que agirá prontamente – mas dentro das regras geralmente aceitas – para resolvê-los. Deve mostrar que está pronto para respeitar os direitos daqueles que decidem confiar nele, mesmo quando são contrários aos seus interesses. Instituições lideradas pelo Ocidente podem ajudar, reconhecendo o status que é devido. O mesmo acontecerá com o tempo, à medida que o pessoal de finanças exposto aos ativos e sistemas chineses descobrir não apenas que os lucros são bons, mas também que as promessas são cumpridas.

Por muitas medidas, a América está se tornando uma parte cada vez menor da economia global. As leis da gravidade determinam que sua capacidade de ser o único banqueiro central do mundo, mais cedo ou mais tarde, diminuirá e que a China preencherá parte do vácuo. Muito melhor para ambos os poderes coexistirem e colaborarem pacificamente do que se barricarem em seus próprios universos incompletos.

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Viva a globalização! Viva?

Como diz Yuval Noah Harari, o melhor antídoto numa epidemia não é o isolamento, mas a cooperação. Ao mesmo tempo que permite que vírus se alastrem rapidamente, globalização promove intercâmbio de informações científicas.

Parece que a época da globalização acabou. Fronteiras fechadas, aviões e navios parados e muitas cadeias de produção interrompidas. Não faltam pessoas pregando que o mundo pós-coronavírus não será mais o mesmo, que o Estado nacional ganhará mais importância enquanto a cooperação internacional diminuirá.

Acredito que não vai ser bem assim e, por isso, quero compartilhar com vocês alguns pensamentos do grande historiador e autor israelense Yuval Noah Harari. Num artigo para a revista Time que foi reproduzido pela edição brasileira do El País, ele defendeu a tese, de que “o antídoto contra a epidemia não é a segregação, e sim a cooperação”.

Não é mera coincidência que essa tese seja debatida justamente no momento em que o presidente americano, Donald Trump, acusa a Organização Mundial de Saúde (OMS) de ter agido em função dos interesses do regime chinês e de ter respondido tarde demais e mal à ameaça representada pelo novo coronavírus.

Trump anunciou o congelamento dos recursos dos EUA para a OMS. Segundo dados reunidos pela agência de notícias AP, a contribuição americana de 900 milhões de dólares representa um quinto do orçamento da agência da ONU de 2018-2019, que gira em torno de 4,4 bilhões de dólares.

Yuval Noah Harari : “A história indica que a autêntica proteção se obtém com o intercâmbio de informações científicas confiáveis e a solidariedade mundial.”

Pois é. Foi justamente a Organização Mundial de Saúde que conseguiu derrotar o vírus da varíola com uma campanha mundial de vacinação na década de 1970. Enquanto em 1967, 15 milhões de pessoas foram contagiadas pela doença, das quais 2 milhões morreram, em 1979, a OMS declarou que a humanidade tinha erradicado a doença.

Italien Nachweis Coronavirus im Labor Symbolbild (picture-alliance/NurPhoto/M. Ujetto)

Dessa vitória pode-se tirar várias lições. Uma conclusão fundamental para Harari é que é impossível vencer uma pandemia sem cooperação internacional. Pois a erradicação da varíola foi possível porque todos países participaram da campanha de vacinação.

“Se um só país não tivesse vacinado a sua população, poderia ter posto em perigo a toda a humanidade”, diz Harari. “Porque, enquanto o vírus da varíola existisse e evoluísse em algum lugar, sempre poderia se propagar por todo lado.”

Outra lição é que a velocidade das descobertas científicas vem crescendo junto com a cooperação internacional. Enquanto na Idade Média nunca se descobriu o que causava a peste negra, os cientistas atuais não levaram mais de duas semanas para identificar o coronavírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um exame confiável para identificar pessoas infectadas.

Em terceiro lugar, a globalização não serve como bode expiratório. Pois epidemias já matavam milhões de pessoas bem antes da integração econômica global. A peste negra se propagou do leste da Ásia até a Europa Ocidental no século 14. Naquele tempo, não havia aviões nem grandes navios.

Até na época da colonização havia pragas fora de controle. No México, em março de 1520, bastou um único portador da varíola, Francisco de Eguía, para infectar um continente inteiro. Apesar da ausência de meios de transporte, como trem o ônibus, a epidemia assolou toda a região e matou, segundo algumas estimativas, um terço de sua população.

Concordo com Harari: a globalização, o crescimento da população mundial e a facilidade de viajar, tudo isso cria condições favoráveis para pandemias. No mundo atual, um vírus pode viajar de Paris a Tóquio e ao México em menos de 24 horas. Sendo assim, existe o perigo de enfrentar uma praga mortal depois da outra.

Mesmo que o coronavírus sugira o contrário, isso não acontece. Harari chama atenção para o fato de que “tanto a incidência como as repercussões das epidemias diminuíram de forma espetacular”. “Apesar de surtos horríveis, como o de aids e o de ebola, as epidemias matam muito menos gente que em qualquer outra etapa da história”, observou.

A conclusão do historiador é: “A melhor defesa dos seres humanos frente a epidemias não é o isolamento, e sim a informação. A história indica que a autêntica proteção se obtém com o intercâmbio de informações científicas confiáveis e a solidariedade mundial.”

É o sonho da globalização da solidariedade. O sonho que faz a humanidade andar. O sonho que, infelizmente, alguns governos atuais abandonaram, pois resolveram colocar os interesses do próprio país “acima de tudo”. Se deram mal.Globalização,