Caos econômico: indústria enfrenta inflação e falta de matérias-primas

Fracasso da política econômica do ministro Paulo Guedes, associado com o avanço da pandemia, fez com que indústria enfrentasse escassez de matérias-primas em novembro, além de um aumento recorde na inflação de insumos.

A indústria brasileira enfrentou em novembro escassez de matéria-prima, o que, combinado com a depreciação do real, provocou aumento recorde na inflação de insumos, apontou nesta terça-feira a pesquisa Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês).

A IHS Markit, que realiza a sondagem, informou que o aumento dos custos de insumos e preços cobrados em ritmo recorde na pesquisa se deveu a um mix de escassez de matérias-primas, em parte devido às restrições globais por causa da pandemia, depreciação do real e forte demanda por insumos.

Os produtores aumentaram sensivelmente a produção em resposta ao crescimento contínuo nas vendas, mas ainda assim o PMI do setor caiu a 64,0 em novembro, de 66,7 em outubro, menor patamar em quatro meses. Leitura acima de 50 indica expansão da atividade.

Entretanto, a IHS Markit ressalta que o índice “assinalou a mais acentuada melhora na saúde do setor, superior a todas as outras registradas antes do surto da doença do coronavírus de 2019 (Covid-19)”.

“O setor industrial brasileiro continuou se beneficiando de um crescimento robusto em novembro. As taxas de expansão mensais de novos pedidos, produção e compra de insumos se atenuaram, mas permaneceram mais sólidas do que o observado antes do surto de Covid-19”, explicou a diretora econômica da IHS Markit, Pollyanna De Lima.

“Os comentários dos participantes da pesquisa sugerem que a desaceleração foi um reflexo principalmente da escassez de matérias-primas”, completou.

Houve expansão significativa no volume de novas encomendas, em meio a forte demanda, lançamentos, pedidos em larga escala e melhora de participação de mercado, segundo a IHS Markit.

As vendas totais foram impulsionadas por aumento recorde nos novos pedidos do exterior. Se por um lado a depreciação do real em relação ao dólar nos últimos meses pressionou a inflação de insumos, por outro melhorou a competitividade dos preços no mercado externo.

Os dados da pesquisa sugerem que o crescimento da produção foi parcialmente restringido pela falta de materiais disponíveis para a conclusão dos pedidos em atraso. Com isso, os negócios pendentes aumentaram no ritmo mais acentuado já registrado em quase 15 anos de pesquisa.

O emprego no setor industrial brasileiro cresceu pelo quinto mês seguido em novembro. Entre os 21% dos participantes que informaram crescimento, houve citações a esforços de reposição de funcionários dispensados por causa da Covid-19, ao otimismo em relação às perspectivas e à forte demanda.

A indústria prevê crescimento da produção no próximo ano, com mais publicidade, planos de expansão da capacidade, novos investimentos e previsões de aumento nas vendas, reforçando o otimismo.

Quando tudo for privatizado, o povo será privado de tudo e o Amapá é prova disso

Esse título parece apenas um impactante slogan visto em cartazes nas mais diversas manifestações pela América Latina.

Antes fosse! A população do Amapá está vivendo, na prática, as consequências de quando o Estado transforma sua responsabilidade em mercadoria e entrega serviços essenciais à Iniciativa privada.

A prática do empresariado brasileiro é rotineira: ao invés de fazer investimentos em tecnologia/modernização e a partir disso consolidar seus negócios, esperam que o Estado construa empresas do zero, desenvolva as técnicas necessárias para execução daquela atividade, forme profissionais e estabeleça um patrimônio, apenas então, se desperta no empresariado o interesse por aquela atividade que durante décadas foi ignorada. Quando se esforçam muito, seus negócios nascem de grandes empréstimos oriundos de bancos estatais. A janela de oportunidade estava lá, não investiram porque é mais fácil esperar que o Estado faça e depois abocanhar o bem público.

Os exemplos são diversos no tempo e no espaço, certamente, o mais famoso é o caso da Petrobrás, que sempre está na mira dos privatistas. Essa empresa pública nasceu em 1953, precisamente pelo interesse do Estado Brasileiro em garantir autonomia na produção de energia para o país. A primeira concessão a particulares para prospecção de petróleo e folhelhos betuminosos no Brasil aconteceu em 1858, quase um século se passou e nenhum avanço significativo para essa atividade nasceu por ações da iniciativa privada. No entanto, desde a criação da Petrobrás e o profundo investimento na área, a empresa despertou a ganância do empresariado parasita brasileiro.

Muito se fala do grande (porém, questionável) avanço da telefonia e atribuem isso à privatização do setor. O que se esconde nesse exemplo, é que o Estado fez um brutal investimento pouco antes da privatização da telefonia, garantindo um ambiente seguro para que empresários extorquissem o povo com tarifas altíssimas e péssimos serviços. No primeiro mês após a privatização, a tarifa de telefone aumentou 17% e hoje, a ampla maioria dos processos em defesa dos direitos do consumidor são contra empresas do setor. Nossa cobertura de internet e sinal de celular é péssima, cara e restrita. Uma das piores do mundo.

A Vale do Rio Doce, além de ser entregue praticamente de graça (com 700 milhões de reais em caixa, diga-se), ainda se tornou uma empresa assassina. O rompimento de duas barragens matou centenas de pessoas e comprometeu a qualidade de vida de outras milhares. Todos esses eventos, obviamente, após a sua privatização em 1998. Além da irrestrita fuga de capitais, a empresa não tem nenhum compromisso com o meio ambiente, com a qualidade de vida das populações diretamente impactadas por suas atividades e não responde judicialmente à altura pelos crimes que cometeu, crimes causados por manipulações de relatórios de inspeções em barragens.

Por fim, temos o apagão elétrico no estado do Amapá. A empresa Isolux, contratada para executar serviços que garantissem o fornecimento de energia elétrica daquela unidade da federação, simplesmente não tinha conhecimento, preparo, nem vontade de cumprir o compromisso firmado. Para piorar, a empresa sequer possuía transformador reserva! A tese de que um raio foi responsável pelo incêndio que destruiu o transformador foi descartada, a polícia civil do Amapá afirma que o fogo começou em uma bucha do transformador.

Não é exagero dizer que seremos privados de tudo! No Amapá, mais de 700 mil pessoas foram privadas de fornecimento de energia elétrica por quase um mês. As famílias vítimas dos crimes da Vale do Rio Doce foram privadas de suas moradias, atividades laborais, e no caso de 291 delas, foram privadas do direito máximo de qualquer ser humano: o direito à vida! O setor privado não tem outro interesse que não o lucro, e para alcançar seus objetivos sacrifica sonhos, esperanças, economias locais, meio ambiente, culturas, futuros e vidas.

Toda corrupção que existe nas estatais está intimamente ligada às pressões econômicas que a iniciativa privada exerce sobre funcionários públicos, que na maior parte das vezes, não são de carreira, mas sim que foram indicados por políticos que tiveram suas campanhas financiadas por grandes empresas. A resposta para evitar tais práticas não é a entrega do bem público para aqueles que já concentram riqueza e deixam o Brasil com a marca de uma das maiores desigualdades sociais do planeta. Ao contrário, é dando maior transparência e garantindo mais participação da sociedade que as pressões do mercado financeiro não serão capazes de corroer a execução dos serviços pela administração pública.

É bom também lembrar, que não queremos apenas a garantia de que empresas públicas permaneçam públicas, não defendemos o capitalismo de Estado. A nossa luta é para garantir que a classe trabalhadora administre coletivamente as atividades produtivas. O controle social das empresas já existe, e é exercido por uma elite econômica que atende exclusivamente seus próprios interesses, por isso é importante que o controle social das empresas públicas seja exercido pelos trabalhadores e trabalhadoras.

Mesmo com o desastroso histórico da política de privatizações, ou melhor, projeto de entrega das riquezas nacionais para a iniciativa privada, o governo pretende estender as privatizações a empresas essenciais como Correios e Eletrobrás. O resultado será um desastre e a experiência nos permite fazer essa afirmação.

Se a máquina privatista continuar esmagando os direitos do povo brasileiro, o que hoje vive o Amapá será experimentado por todo o Brasil, que na verdade não é bem uma novidade, já que no governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso os apagões elétricos eram constantes por todo o território brasileiro. E quem vai pagar essa conta? O povo brasileiro! Podemos fazer uso das célebres palavras de Celso Furtado para definir o modelo de privatizações no Brasil, é um impiedoso sistema de “Privatização dos lucros e socialização dos prejuízos”.

Os EUA estão falidos – é uma enorme bolha de economia totalmente sustentada por dívidas, diz Peter Schiff

Um dos médicos que aconselhou Joe Biden sobre o coronavírus disse que os EUA precisam impor um bloqueio completo por quatro a seis semanas, já que o governo pode simplesmente pagar a todos. Peter Schiff diz que tal proposta é ridícula.

“Desligar a economia por quatro a seis semanas, de acordo com esse cara, realmente nos permitiria impulsionar a economia porque realmente erradicaríamos a doença – embora não haja realmente nenhuma prova de que um bloqueio realmente vá fazer alguma coisa”, Schiff disse em seu podcast. “Mas o que esse gênio está propondo é que, bem, isso não vai realmente afetar a economia, porque de acordo com esse cara – acho que ele não é apenas um conselheiro da Covid, acho que ele também é um conselheiro econômico – mas o que ele está dizendo é: ‘Teremos apenas um governo federal pagando a todos.’ ”

De acordo com Schiff, “Esse é o tipo de absurdo que realmente é discutido agora. Porque todo mundo pensa, bom, não importa, porque o governo federal vai pagar por isso. Agora, é claro, o governo federal não tem dinheiro. O governo federal está falido. ”

O economista destacou que o governo dos EUA acabou de registrar um déficit de US $ 284 bilhões em outubro, o maior déficit orçamentário de outubro na história americana.

Ao mesmo tempo, mais de 700.000 pessoas entraram com pedido de seguro desemprego, de acordo com o último relatório semanal divulgado em 12 de novembro. “Se a economia está se recuperando, por que tantas pessoas ainda perdem seus empregos?” Schiff perguntou.

Ele explicou que toda a impressão de dinheiro pelo Federal Reserve causaria muito mais danos à economia do que qualquer dano causado pela Covid-19. “Mesmo se o bloqueio acabasse dobrando a curva e salvando algumas vidas, realmente valeria a pena o custo? Na verdade, quem sabe quantas pessoas mais podem morrer como resultado não apenas do bloqueio, mas do dano econômico causado por todo o dinheiro que o Fed precisa imprimir para apoiar o bloqueio. ”

Falando sobre o crescente fardo da dívida dos aposentados americanos, o veterano corretor da bolsa disse que é apenas um sinal de uma enorme bolha econômica totalmente sustentada por dívidas.

“Isso mostra como a economia está fraca. Porque se realmente tivéssemos uma economia forte, você acha que as pessoas de 70 e 80 anos teriam que se endividar? Não! Por que tantos americanos mais velhos estão sendo forçados a assumir dívidas? Porque eles estão falidos. Porque eles não podem sobreviver sem dívidas. “

China e outros 14 países criam maior pacto comercial do mundo

Tratado entre economias da região Ásia-Pacífico deixa EUA de fora, abarca um terço da economia mundial e mais de 2,2 bilhões de pessoas. Com ele, Pequim amplia ainda mais sua influência.

Uma cerimônia on-line, que teve Hanói como “sede”, selou a maior parceria comercial do mundo.

Foi oficializada neste domingo (15/11), em conferência virtual, a criação do maior tratado comercial do mundo, que envolve a China e outros 14 países da região Ásia-Pacífico, deixa de fora os Estados Unidos e abarca uma área onde vivem mais de 2,2 bilhões de pessoas.

O tratado RCEP (Parceria Regional Econômica Abrangente) abrangerá um terço da atividade comercial do planeta, e seus signatários esperam que sua criação ajude os países a sair mais rápido da turbulência imposta pela pandemia de coronavírus.

“Tenho o prazer de dizer que, após oito anos de trabalho duro, a partir de hoje, concluímos oficialmente as negociações da RCEP para a assinatura”, afirmou o primeiro-ministro do Vietnã, Nguyen Xuan Phuc, “país-anfitrião” da cúpula online.

Segundo o premiê, a conclusão das negociações da RCEP envia uma mensagem forte ao mundo, ao “reafirmar o papel de liderança da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) em defesa do multilateralismo.”

“O acordo apoia o sistema comercial multilateral, criando uma nova estrutura comercial na região, permitindo a facilitação do comércio sustentável, revitalizando as cadeias de abastecimento interrompidas pela covid-19 e ajudando na recuperação pós-pandêmica”, completou Phuc.

Além dos dez membros da Asean, o tratado inclui China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. As autoridades dizem que o acordo deixa a porta aberta para que a Índia, que desistiu devido a uma oposição interna feroz às abertura de mercado, volte a aderir ao bloco.

Menos integração que a UE

O acordo prevê reduzir as já baixas tarifas ao comércio entre os países-membros, mas é menos abrangente do que o Tratado Transpacífico, que envolvia 11 países e do qual o presidente americano, Donald Trump, se retirou logo após tomar posse.

Não se espera que o tratado selado neste domingo vá tão longe quanto a União Europeia na integração das economias nacionais, mas sim que se baseie nos acordos de livre-comércio já existentes para facilitar as trocas entre os países.

O acordo tem fortes ramificações simbólicas, ao mostrar que, quase quatro anos após Trump ter lançado sua política “America First”, de forjar acordos comerciais com países de forma individual, a Ásia continua comprometida com o multilateralismo.

Antes da reunião deste domingo, o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, disse que transmitiria com firmeza o apoio de seu governo “à ampliação de uma zona econômica livre e justa, incluindo a possibilidade de um futuro retorno da Índia ao acordo, e a esperança de ganhar apoio dos outros países”.

“O acordo é também uma vitória para a China, de longe o maior mercado da região com mais de 1,3 bilhão de pessoas. Ele permite que Pequim se lance como líder da globalização e da cooperação multilateral e lhe dá maior influência sobre as regras que regem o comércio regional”, escreveu o economista Gareth Leather, especialista em mercado asiático em relatório do instituto Capital Economics.

China: “Vitória do multilateralismo”

A agência oficial chinesa Xinhua News Agency citou o primeiro-ministro Li Keqiang saudando o acordo como uma vitória contra o protecionismo.

“A assinatura do RCEP não é apenas uma conquista marcante da cooperação regional da Ásia Oriental, mas também uma vitória do multilateralismo e do livre-comércio”, disse Li.

Agora que o oponente do Trump, Joe Biden, foi declarado presidente eleito, a região está atenta para ver como a política americana sobre comércio e outras questões vai evoluir.

Analistas são céticos de que Biden vai se esforçar muito para aderir novamente ao pacto comercial Transpacífico ou para reverter muitas das sanções comerciais impostas à China pelo governo Trump, dada a frustração generalizada com os dados comerciais e de direitos humanos de Pequim e as acusações de espionagem e roubo de tecnologia.

Críticos dizem que acordos de livre-comércio tendem a encorajar as empresas a transferir empregos da indústria local para o exterior. E essa é uma preocupação do eleitorado, por exemplo, das regiões de Michigan e Pensilvânia, que Biden precisou conquistar para vencer as eleições de 3 de novembro.

Mas dada a preocupação com a crescente influência da China, avaliam especialistas, Biden provavelmente buscará muito mais envolvimento com o Sudeste Asiático para proteger os EUA.

O mercado do Sudeste Asiático, em rápido crescimento e cada vez mais influente, tem 650 milhões de pessoas e, duramente atingido pela pandemia, está procurando urgentemente novos motores para o crescimento.

O tratado RCEP originalmente teria incluído cerca de 3,6 bilhões de pessoas e abrangia cerca de um terço do comércio mundial e do PIB global. Sem a Índia, ainda cobre mais de 2 bilhões de pessoas e cerca de um terço de toda a atividade comercial do mundo.

RPR/apafp

O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro

Não é de hoje que a autora de ‘As origens do totalitarismo’ causa desconforto, pois jamais aceitou o argumento de que os crimes dos governantes devem ser avaliados junto dos seus acertos

“O contraponto à santificação de Hitler, uma das atrofias ideológicas da experiência nazista, não está em simplificadamente considerá-lo um vilão, um carniceiro da própria revolução que ajudou a realizar. Seu devido lugar na história somente poderá ser encontrado se investigarmos os fatores objetivos e subjetivos que determinaram sua época, interpretando suas ações, acertos e erros, vitórias e derrotas, façanhas e vilanias como partes integradas do complexo processo de consolidação do primeiro Estado nazista, frente a inimigos poderosos e dispostos a destruir, por quaisquer meios, a nação fundada sob a liderança dos nacional-socialistas.”

A não ser pela elegância da redação, a frase acima poderia ter sido escrita por um neonazista, dos que viemos a conhecer pelas redes sociais depois que Jair Bolsonaro tornou-se presidente do Brasil. Não demorou para descobrirmos que as extremas direitas de ontem e de hoje guardam semelhanças assustadoras. O que não sabíamos é que um exército de fãs se colocaria em marcha para salvar a reputação de Hitler, que, afinal, fez o que foi possível e necessário naquele contexto para levar a cabo um projeto de nação, mesmo que talvez tenha exagerado um pouco e cometido alguns crimes.

A verdade é que a frase acima não foi escrita por ninguém. Trata-se de uma corruptela produzida por mim de um excerto do artigo que Breno Altman e Jones Manoel publicaram no EL PAIS com o título “Caso Stálin: papel da vilania na história”. No lugar de “Hitler” lemos “Stálin”, no lugar de “experiência nazista”, “experiência soviética”.

O trecho original é o seguinte:

“O contraponto à santificação de Stálin, uma das atrofias ideológicas da experiência soviética, não está em simplificadamente considerá-lo um vilão, um carniceiro da própria revolução que ajudou a realizar. Seu devido lugar na história somente poderá ser encontrado se investigarmos os fatores objetivos e subjetivos que determinaram sua época, interpretando suas ações, acertos e erros, vitórias e derrotas, façanhas e vilanias como partes integradas do complexo processo de consolidação do primeiro Estado socialista, frente a inimigos poderosos e dispostos a destruir, por quaisquer meios, a nação fundada sob a liderança dos bolcheviques.”

Para Breno Altman e Jones Manoel, Stálin fez o que podia e o que foi preciso fazer naquele contexto para salvar o projeto socialista, mesmo que talvez tenha exagerado um pouco e cometido alguns crimes. É o mesmo argumento que temos ouvido de bocas neonazistas, como foi um dia o de Adolf Eichmann. Cada qual no seu campo ideológico, o raciocínio é o mesmo: meramente instrumental, como convém a quem não se rende ao “falso moralismo”, para usar uma expressão de Altman e Manoel.

Ao analisar o “Caso Stálin”, os autores sustentam que não devemos transformar os agentes em vilões ou heróis, mas sim avaliar as suas ações à luz do contexto histórico, social e político no qual estavam inseridos. Devemos avaliar as suas ações levando em consideração as classes beneficiadas e as classes prejudicadas por elas; os crimes devem ser “inseridos no processo histórico de suas existências, ao lado dos acertos e dos feitos de suas vidas”.

A estratégia de Altman e Manoel é antiga, adotada desde os tempos de Nero por todos os realistas que conhecemos, e consiste em acusar de “moralista” quem julga levando em conta um metro que não se dobra inteiramente às determinações das circunstâncias. E, claro, os “liberais” são os mais falsos de todos os moralistas da história do ocidente.

Hitler diria o mesmo.

Curioso notar que, para desconstruir a imagem do “vilão Stálin”, os autores optam por deslocar a vilania para O Liberal, que logo ganha corpo, nome e sobrenome: Hannah Arendt. Ao tentar fugir de uma suposta simplificação que operaria no binarismo vilão/herói, eles não tergiversam em produzir outra e criar um espantalho bem esquisito da autora de Sobre a revolução, que vai pelos ares com a menor rajada de vento:

“Para cumprir a tarefa que abraçou, [Losurdo] dedicou-se também a demonstrar como o falso moralismo do pensamento liberal, ungido ao patamar de ciência política pela filósofa alemã Hannah Arendt, ao redor do conceito de totalitarismo, é território pantanoso e irregular, sobre o qual as forças políticas e culturais se movem conforme seus objetivos de época.”

Não tivessem terceirizado a avaliação da filosofia arendtiana, Altman e Manoel teriam a chance de descobrir que, ao contrário do que diz o manual por eles adotado, Arendt foi uma crítica severa da tradição liberal. Assim como foi da tradição marxista. A potência do seu pensamento político repousa justamente na recusa em aderir ao Fla-Flu que, de um modo ou de outro, Altman e Manoel estão querendo recolocar em campo, nessa altura do campeonato (e sob o Governo de Jair Bolsonaro).

Embora orientados por projetos radicalmente diferentes, tanto liberais quanto marxistas sustentam, dizia Arendt, a ficção de uma sociedade sem conflitos, apaziguada, seja pela mão invisível do mercado, seja pela eliminação das opressões sucedânea da revolução comunista. Para circular teoricamente num campo entre esses dois extremos, Arendt dialogou criticamente com ambos, sem deixar de emprestar de cada um os elementos que poderiam servir de esteio para uma vida democrática (ou “republicana”, como ela preferia).

Do marxismo ela recusou o desprezo pelo direito e a expectativa de que a política se tornaria, um dia, prescindível. Do liberalismo ela recusou terminantemente o “homo economicus”, o individualismo, a liberdade negativa e o Estado mínimo, para defender a democracia participativa, a liberdade positiva, a cidadania ativa orientada para o público e não para o indivíduo. Moralista liberal esquisita essa Hannah Arendt, que foi buscar nos conselhos revolucionários —nas comunas e nos soviets— as experiências históricas que lhe serviram para criticar os limites estreitos dos modelos liberais.

Mas Altman e Manoel precisam de um espantalho para poder tirar de Stálin o manto de vilão. Por que Arendt? Porque ela colocou pedra enorme no sapato de uma parcela da esquerda revolucionária —sobretudo dos stalinistas (confessos ou não)— quando disse que o socialismo real soviético tinha assumido a feição de um regime totalitário. Arendt nunca assumiu discurso reacionário contra a Revolução Russa, ao contrário, comemorou o seu caráter popular e espontâneo. Muito diferente de uma liberal moralista, Arendt foi, isso sim, grande admiradora de Rosa Luxemburgo. O problema, para ela, não eram os soviets, mas o rumo que tomou o partido; não era o desejo popular de construir uma sociedade livre e liberta da dominação, mas a violência extrema de Stálin, a repressão, os massacres, os campos.

Não é de hoje que a autora de As origens do totalitarismo causa desconforto à esquerda de baixa densidade democrática, pois jamais aceitou o argumento de que os crimes dos governantes devem ser avaliados junto dos seus acertos, como defendem Manoel e Altman. Governantes governam, não cometem crimes contra o seu próprio povo, não assassinam, não confinam os indesejáveis em campos de concentração ou de trabalho forçado. Arendt gastou muita energia teórica para contestar o determinismo, travestido de contextualismo histórico, que tornaria Stálin (ou Hitler) um produto quase inevitável daquela correlação de forças. Aportada no Brasil, a estratégia de justificação adotada em “Caso Stálin” pode servir para transformar o golpe de 1964 em revolução, inevitável para conter a ameaça comunista.

Arendt começou a escrever Origens do totalitarismo em 1945 e finalizou a obra em 1949, pouco mais de quatro anos depois da derrota de Hitler e menos de quatro anos antes da morte de Stalin. É preciso admitir, como ela mesma fez, as falhas daquele estudo realizado ainda no calor da hora e com poucos arquivos à disposição, problema ainda não resolvido, infelizmente. Mas também é preciso admitir que Origens é um marco do pensamento politico do pós-guerra justamente por se dispor à tarefa dificílima de compreender os elementos históricos que antecederam e se cristalizaram no nazismo, de um lado, e no stalinismo, de outro. Com antecedentes tão diversos —eis o que perturbava Arendt— havia algo em comum entre os dois regimes: o campo e a produção em massa de cadáveres. Nem mesmo todos os problemas que venhamos a detectar em Origens e na própria filosofia política arendtiana— que não está além do bem e do mal —serão capazes de apagar esse fato histórico, a menos que venhamos a aderir ao mesmo tipo de negacionismo bolsonarista, que têm servido para relativizar os crimes cometidos durante a ditadura civil militar.

O argumento central de Breno Altman e Jones Manoel em “Caso Stálin” pode servir em um artigo sobre o “Caso Costa e Silva” ou sobre o “Caso Bolsonaro”. Estamos às vésperas de uma das eleições municipais mais importantes desde a redemocratização, que vai nos dar a dimensão real da atual potência do bolsonarismo. Custo a entender as razões que levam Altman e Manoel a relativizar os crimes de Stálin nesse e em qualquer contexto, mas sobretudo nesse. Somente uma esquerda de baixíssima densidade democrática —e muito pouco estratégica— viria a campo agora para menosprezar como “moralista” quem pensa que os direitos humanos não podem ser rifados, nem mesmo por uma boa causa. Ou estamos dispostos a relativizar que estamos sob o comando de um governo criminoso?

A “boa causa” é relativa às distintas utopias e visões de mundo e é bom lembrar que os bolsonaristas também têm as deles. O que não é relativo, de um ponto de vista normativo e democrático, é que o limite das ações dos governantes, em qualquer circunstância histórica, é dado pelos direitos humanos, uma invenção dos próprios seres humanos para se protegerem das arbitrariedades do poder instituído. Arendt traduzia essa exigência normativa na ideia de que todos devemos ter direito a ter direitos, da qual nos distanciamos cada vez mais desde a eleição de 2018. Se esse ideal é próprio de “liberais moralistas”, que se reorganizem as fileiras pois é nessa que eu quero entrar.

Yara Frateschi é professora livre docente do Departamento de Filosofia da Unicamp.

Paulo Guedes; o auxiliar de Ricardo Salles na destruição do meio ambiente no Brasil

Os Sinistros da Economia e do Meio Ambiente são parceiro na tarefa de transformar o Brasil em um saara tropical.

Enquanto Salles domina as manchetes, política econômica de Guedes se centra no agronegócio e retira incentivos à inovação, impedindo um crescimento verde.

Embora Ricardo Salles seja visto (corretamente) como o maior responsável pela grave situação ambiental que o Brasil atravessa, tem passado despercebido o fato que a política econômica de Paulo Guedes é amplamente desfavorável ao crescimento verde.

A equipe econômica do governo aposta numa estratégia de crescimento pautada na redução do estado e na produção de produtos primários, nos quais o país é mais produtivo, desprivilegiando políticas que incentivam a inovação e a produção industrial de alta tecnologia. Essa aposta, porém, corre sério risco de não só elevar o impacto ambiental da nossa economia como também de desacelerar nosso crescimento.

Enquanto vário países elaboram estratégias de recuperação e crescimento verdes, associando crescimento econômico à redução das emissões de gases de efeito estufa, Bolsonaro decidiu seguir em direção oposta no Brasil.

A política econômica do governo Bolsonaro vai contra cinco importantes pilares da proposta de crescimento verde. São eles:

Indústria high-tech

A política econômica de Paulo Guedes é inteiramente voltada para o aumento da produção primária, mais poluidora, em detrimento de atividades industriais mais limpas e de alta tecnologia. Para entender o tamanho do impacto ambiental das atividades primárias, basta observar que, em 2018, a produção agropecuária brasileira foi responsável por 70% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil (incluídas as emissões por desmatamento), embora com participação direta no PIB de apenas 5%.

Investimentos em P&D

Inovações tecnológicas são cruciais para reduzir as emissões de gases. Para incentivar inovações verdes, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE ressalta, entre outras medidas, o papel central dos incentivos à pesquisa. No Brasil, contudo, em função da política de contenção de gastos, para 2021, está previsto um corte de 32% nos já reduzidos recursos da área de ciência e tecnologia.

Infraestrutura

O aumento da eficiência do uso de recursos depende em grande medida de investimentos em infraestrutura, voltados para a melhoria do uso e tratamento da água, para mudanças no sistema de transporte e para a geração de energia limpa. Nesse aspecto, destaca-se a aprovação do novo marco do saneamento, que promete elevar os investimentos nessa área. Contudo, os cortes sucessivos de investimentos públicos têm prejudicado a melhoria da infraestrutura brasileira, ameaçando até mesmo a reposição da depreciação. O investimento público federal e das estatais federais, que foi de 2,4% do PIB entre 2009 e 2014, caiu para 1,3% em 2019, e deve continuar caindo em 2020 e 2021.

Energias renováveis

A geração de crescimento verde passa também pela constante melhoria da matriz energética rumo a energias limpas. Mas Petrobras, sob o governo Bolsonaro adotou a estratégia de focar esforços na extração, no pré-sal, reduzindo suas atividades em energias renováveis. Essa opção significa caminhar em direção contrária às estratégias das grandes petrolíferas europeias, como BP (Reino Unido), Total (França) e Equinor (Noruega), que estão investindo pesado em energias renováveis. O Brasil seguiu a linha de focar na exploração de combustíveis fósseis em detrimento de energias limpas e da mitigação da mudança climática.

Fiscalização ambiental

A comunidade internacional tem assistido atônita ao aumento das queimadas na Amazônia e no Pantanal, sem que quase nada seja feito para conter esses crimes ambientais. O governo abriu mão do Fundo Amazônia, que colaborava para manter o combate ao desmatamento e, agora, alega falta de recursos para as atividades de controle. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem sido acusado de atuar para dificultar a fiscalização ambiental e, assim como o presidente, tem sido mais aberto às demandas dos mineradores ilegais – atividade altamente poluidora, diga-se de passagem – do que às de ambientalistas e dos indígenas. A proposta de reforma administrativa de Guedes, se aprovada, deverá dificultar ainda mais a atuação independente dos fiscais do Ibama, uma vez que abrirá espaço para maior interferência política nos serviços públicos.

Na contramão do mundo

Estratégias de crescimento verde já vêm sendo adotadas há mais de uma década em diversos países. Alguns exemplos são o plano quinquenal sul-coreano de 2009-2013, o chinês de 2011-2015 e as diretrizes de desenvolvimento verde da Irlanda de 2007-2013. Em particular, destaca-se o programa para crescimento verde da OCDE, iniciado em 2011.

Essas estratégias buscam combinar aumento da produção com redução de emissões de gases por meio de inovações tecnológicas verdes, mudança da estrutura produtiva e da matriz energética e aumento da eficiência no uso de recursos. Essas mudanças levam a ganhos de produtividade, de renda e à geração de empregos de qualidade. A reversão da mudança climática colabora ainda para elevar a produção agropecuária, pois reduz a ocorrência de eventos climáticos que a prejudicam, como enchentes, secas etc.

Diversos estudos têm apontado para a importância de elevar a complexidade da economia, isto é, diversificar a economia e adensar a produção industrial de alta tecnologia como forma de gerar crescimento e ao mesmo tempo mitigar impactos ambientais. Os influentes trabalhos dos professores César Hidalgo, da Universidade de Toulouse, e Ricardo Hausmann, de Harvard, indicam que o aumento da complexidade econômica está ligado ao aumento do crescimento do PIB per capita.

O índice de complexidade econômica capta o conhecimento produtivo presente em cada economia. Nesse sentido, trabalhos recentes têm mostrado que maior diversificação em setores de alta complexidade está também associada a um maior nível de conhecimento relacionado à aplicação de tecnologias mais limpas. Em artigo publicado este ano na revista Research Policy, a pesquisadora Penny Mealy e seu colega Alexander Teytelboym, ambos da Universidade de Oxford, apresentaram evidências que a produção de bens de maior complexidade está associada a mais inovações verdes e a menos impacto ambiental.

Em outra pesquisa semelhante, publicada como texto de discussão do Centro para Economia e Políticas Públicas de Cambridge, eu e Camila Gramkow, pesquisadora da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Cepal, apresentamos evidências que o aumento da complexidade econômica conduz à redução da intensidade de emissões de gases de efeito estufa.

Estagnação cinza

A produção industrial de alta tecnologia, as inovações e os investimentos em infraestrutura são cruciais não só para a redução dos impactos ambientais da produção como também para o aumento da competitividade e do crescimento. Ao incentivar a reprimarização predatória e poluidora da economia brasileira, as políticas econômicas do governo Bolsonaro têm prejudicado também nossa produtividade, que apresentou queda de 1% em 2019. Essa queda foi puxada pela redução da produtividade da indústria e dos serviços, enquanto só a agropecuária apresentou ganho.

Somando todos esses fatores às turbulências da política brasileira e do cenário internacional, não surpreende que esteja ocorrendo fuga de capitais do Brasil, e que o investimento externo direto tenha sofrido forte retração em 2020.

Não é possível fomentar inovações verdes, elevar a produção industrial limpa, melhorar a infraestrutura, a matriz energética e a fiscalização ambiental sem políticas ativas do estado. O Green New Deal da União Europeia, por exemplo, irá destinar quase 2 trilhões de euros para fomentar a redução das emissões do bloco.

No Brasil, o estrangulamento dos gastos públicos pelo teto de gastos inviabiliza a adoção de políticas públicas que permitam combinar crescimento acelerado com mitigação da mudança climática. A adoção de uma estratégia de crescimento verde no país passa pela modernização do teto de gastos para permitir algum crescimento real do gasto e para liberar o investimento público.

Na contramão do mundo, o governo Bolsonaro vem mantendo baixos os investimentos públicos, reduziu os recursos para a inovação, relaxou o combate ao desmatamento, incentivou a produção primária e abdicou de elaborar políticas que incentivem produção industrial limpa e de alta tecnologia. Tudo isso colabora, simultaneamente, para a redução do crescimento e para a elevação das emissões de gases de efeito estufa.

Não é exagero afirmar que a política econômica de Paulo Guedes representa hoje a perfeita antítese da proposta de crescimento verde.
João P. Romero

Biden promete restaurar a cooperação e liderança global dos EUA – mas será que ele conseguirá?

O presidente eleito tem jurado consistentemente se afastar do unilateralismo. Mas para restaurar de fato a liderança dos EUA, ele terá de reconquistar a confiança de aliados alienados e cobrar contas dos adversários.

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, prometeu restaurar o papel de liderança da América no mundo, revertendo o unilateralismo da administração Trump e reorientando-se em alianças internacionais de longa data. Ele diz que seu governo vai elevar a diplomacia e liderar pelo “poder do exemplo”, em vez do “exemplo de poder”.

Biden herdou uma situação em que os aliados questionam a credibilidade dos EUA, com as relações entre Washington e capitais ao redor do mundo tensas.

O presidente eleito prometeu reparar o máximo de danos possível em seus primeiros 100 dias no cargo, revertendo uma série de ordens executivas assinadas pelo presidente Donald Trump. As ordens derrubaram acordos e alianças internacionais que o presidente alegou serem injustos para os Estados Unidos por várias razões. Os críticos dizem que as medidas foram contraproducentes e que o isolacionismo dos EUA simplesmente permitiu que a China expandisse sua influência na ausência dos Estados Unidos.

Aqui estão algumas das maiores reversões da política externa que o presidente eleito prometeu fazer imediatamente:

Plano de ação abrangente conjunto (JCPOA)

Trump criticou regularmente o JCPOA, mais conhecido como Acordo Nuclear do Irã, como “um dos piores negócios da história” e retirou os EUA do acordo em 8 de maio de 2018. Ele também restabeleceu as sanções contra o Irã e qualquer pessoa que fizesse negócios com isso.

Assinado com China, França, Rússia, Reino Unido, Alemanha e Irã pelo governo Obama em 2015, os signatários concordaram em estabelecer diálogo e monitoramento do programa nuclear do Irã em troca de alívio econômico. O governo Trump chamou o acordo de fraco e, em vez disso, buscou o que chama de “campanha de pressão máxima”.

Biden diz que a política de Trump foi ineficaz e serviu apenas para aumentar as tensões. Ele prometeu voltar a aderir ao JCPOA, mas diz que só suspenderá as sanções após a confirmação da estrita adesão do Irã às regras do JCPOA.

De forma mais geral, Biden também poderia buscar distanciar os EUA do adversário regional do Irã e maior aliado árabe de Washington no Oriente Médio, a Arábia Saudita. Trump cortejou de perto a monarquia autoritária durante seu mandato, com o reino desempenhando um papel fundamental na aliança anti-iraniana do presidente.

Biden poderia iniciar esse distanciamento encerrando o apoio dos EUA à guerra impopular da Arábia Saudita no Iêmen.

Acordo Climático de Paris

Biden, eleito em parte com o compromisso de lutar contra a mudança climática, tem afirmado consistentemente que retornará imediatamente ao Acordo Climático de Paris. Trump, um negador da mudança climática, retirou os EUA do acordo em 1 de junho de 2017, alegando que favorecia injustamente a China.

Os EUA são o segundo maior poluidor do mundo atrás da China e enquanto Trump enquadrou a questão em termos econômicos de soma zero, escolhendo lucros de combustíveis fósseis em vez de proteção ambiental, Biden prometeu construir uma economia de energia limpa para financiar ambiciosos programas de redução de emissões.

Organização Mundial da Saúde (OMS)

O governo Biden se comprometeu a retornar imediatamente à OMS e procurar liderar os esforços do corpo para o coronavírus. Os EUA têm grande influência nesta importante autoridade de saúde pública, contribuindo com 15% de seu orçamento (a Alemanha contribui com 5,6%). Em 7 de julho de 2020, o presidente Trump anunciou que os EUA se retirariam da organização – que, entre outras coisas, coordena os testes de vacinas globais – a partir de 6 de julho de 2021.

Em 8 de novembro, os Estados Unidos registraram o maior número de infecções por coronavírus em um único país (9.957,50), bem como mortes (237.567), com infecções globais em 49.948.324 e mortes globais em 1.252.189.

Nações Unidas (ONU)

Trump ameaçou deixar as Nações Unidas, embora até agora os EUA tenham deixado apenas duas organizações dentro do corpo: o Conselho de Direitos Humanos (UNHRC) e a Organização Educacional, Científica e Cultural (UNESCO). Os EUA citaram o tratamento injusto do aliado Israel em ambos os casos.

Em 19 de junho de 2018, a então embaixadora dos EUA na ONU Nikki Haley chamou o UNHRC de “uma organização hipócrita e egoísta que zomba dos direitos humanos”, apontando para o que ela chamou de “preconceito crônico contra Israel” e objetando a membro do conselho para violadores dos direitos humanos China, Cuba e Venezuela. Os EUA pediram reformas ao órgão e freqüentemente entraram em confronto com os membros sobre sua defesa de Israel, que os críticos dizem que faz vista grossa aos abusos dos direitos humanos israelenses.

A administração Trump citou ostensivamente os conflitos na nomeação de locais do Patrimônio Cultural Mundial, que os EUA e Israel disseram ignorar ligações históricas judaicas, como motivo para a retirada da UNESCO. A nomeação dos locais também tocou em questões mais profundas de soberania internacional ao declarar a velha cidade de Hebron e a Tumba dos Patriarcas como locais palestinos.

Os EUA deixaram a UNESCO em 1984 no governo de Ronald Reagan e retornaram em 2002 no governo de George W. Bush. Os pagamentos foram congelados por nove anos sob o governo Obama-Biden, mas os EUA mantiveram sua adesão.

Biden é um forte apoiador de Israel e recebeu bem os acordos recentes entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, mas seu governo provavelmente pressionará para impedir a construção de assentamentos israelenses e anexações, além de ser um defensor mais vocal das necessidades dos palestinos na ONU.

A OMC, OTAN e o Senado

Outras questões que Biden abordará incluem a situação das relações comerciais, bem como dentro de órgãos como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) está em algum lugar onde Biden buscará consertar barreiras e expandir a cooperação, mas os objetivos de política externa permanecerão em vigor.

A questão é se Biden pode reconquistar a confiança e alcançar com sucesso os seus objetivos declarados: “Promover a segurança, a prosperidade e os valores dos Estados Unidos tomando medidas imediatas para renovar nossa própria democracia e alianças, proteger nosso futuro econômico e, mais uma vez, coloque os Estados Unidos na cabeceira da mesa, levando o mundo a enfrentar os desafios globais mais urgentes “- ou se o mundo evoluiu nos últimos quatro anos.

Biden apresentou planos amplos e ambiciosos em muitas frentes, mas embora os decretos do executivo possam ser revogados, sem uma maioria no Senado, qualquer coisa que requeira a aprovação do Congresso pode ser quase impossível de ser aprovada.

Mas, primeiro, ele precisa enfrentar o coronavírus e as consequências econômicas que ele está causando.

 

Fatos & Fotos do dia 05/11/2020


Você sabe que a democracia americana – sim!, há quem acredite que existe essa ficção – afunda, quando até o Aiatolá, ditador do Irã, “tira sarro” das eleições na bananeira “Stars and Stripes”.


Aldravas e Puxadores


Caso Dona Bolsonaro houvesse sido alfabetizada pelo método Paulo Freire, saberia que assim como a crase, a vírgula não foi feita para humilhar ninguém


Forest Glade, 1889


Designer Patricia McCleery



Foto do dia – Tumblr


Ludovico Tommasi


Cores da Índia

 

Agenda comercial de Trump e Bolsonaro não é boa para os negócios e nem para o Brasil

Aposta do líder da extrema-direita brasileira na adesão a qualquer custo aos interesses dos EUA expõe o agronegócio. O risco é que a compra de produtos como a soja seja vetada no futuro pelo gigante asiático. Enquanto isso, Pequim fecha acordos comerciais com a Argentina e Tanzânia para ter alternativas, ao mesmo tempo que reforça aliança com a Rússia para adquirir o “feijão chinês” plantado na Sibéria. China responde por 68% do superávit da balança comercial brasileira. Salto positivo ultrapassa US$ 28,8 bilhões, e déficit com os EUA chega a US$ 3,1 bilhões
Jair Bolsonaro e Donald Trump: Obediência cega do brasileiro está ampliando os riscos para acordos comerciais entre Brasil e outros parceiros, como a China, o maior comprador de soja do mundo

Bolsonaro transforma país em joguete dos EUA na guerra contra China
Com acordos bilaterais, Trump manipula Bolsonaro para atacar China
Bolsonarismo mantém ataque à China e ameaça exportações
Agressões do bolsonarismo à China são ofensivas e irresponsáveis
Efeitos do governo Bolsonaro: Rússia ameaça sanção à soja brasileira

Enquanto os Estados Unidos mantêm o Brasil no cabresto, com o presidente Jair Bolsonaro submisso à Casa Branca e fazendo todas as vontades de Donald Trump, sem se importar se essas atendem aos interesses nacionais, o maior parceiro comercial do país está buscando oportunidades de negócios em novas frentes. Os sinais emitidos pela China nas últimas semanas são desastrosos para o agronegócio brasileiro.

Pequim anunciou na semana passada que passará a comprar soja da Tanzânia, além de elevar a importação do mesmo produto da Argentina, enquanto lançou desconfiança sobre a carne suína brasileira – contaminada por Covid-19. Ao mesmo tempo, o Partido Comunista Chinês estabeleceu uma parceria cada vez mais sólida com a Rússia, o que pareceria improvável há pouco mais de 10 anos. Os chineses fazem de tudo para depender cada vez menos de um único país fornecedor de matéria-prima.

Maior parceiro comercial brasileiro, a China é também o país que mais importa a soja nacional

Curioso que o Planalto faça o movimento de aderir a qualquer agenda de Washington para agradar Trump – inclusive banir a empresa chinesa Huawei da concorrência pelo 5G em 2021 –, mesmo que tais esforços não tenham resultado em nenhum dividendos para o Brasil. Entre janeiro e setembro de 2020, por exemplo, as exportações brasileiras para a China somaram nada menos que 68% de todo o superávit comercial do país.

Este ano, o superávit do Brasil com a China chegou até setembro a US$ 28,8 bilhões. Enquanto isso, o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos no mesmo período registrou a pior queda dos últimos 11 anos. A tendência é que o Brasil registre em 2020 o maior déficit comercial com os EUA dos últimos seis anos. Até agora, o prejuízo acumulado pela balança comercial brasileira é de US$ 3,1 bilhões. Estamos comprando mais e vendendo menos.

Ou seja, Brasília faz de tudo para agradar Washington, que vem definindo sua política internacional sempre com Bolsonaro colocando o Brasil de joelhos, mas não deu até agora ao líder da extrema-direita nacional nenhum motivo para comemorar. “É uma vergonha”, critica a presidenta nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR). “Deixamos de ter uma atuação estratégica com parceiros tradicionais do BRICS – além do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – para nos tornarmos um vira-latas que sofre na ponta a política de porrete dos Estados Unidos”.

Gleisi Hoffmann: “Deixamos de ter uma atuação estratégica com parceiros tradicionais do BRICS para nos tornarmos um vira-latas que sofre na ponta a política de porrete dos Estados Unidos”

A líder petista tem razão. A submissão do Brasil a Washington nãp tem sido benéfica ao país. Tanto que, no acumulado de 2020, as exportações brasileiras para os EUA caíram 31,5% em comparação com o mesmo período de 2019, chegando ao total de US$ 15,2 bilhões. É o menor valor desde 2010. Em termos relativos, os EUA foram os mais afetados entre os 10 principais destinos de exportação do Brasil em 2020. Por isso, é curioso que o agronegócio brasileiro aceite a condução dada pelo Palácio do Planalto à política comercial brasileira.

A expectativa é que Bolsonaro vai fechar as portas para os produtos verde-amarelos no mercado estrangeiro – isso para não falar nos problemas que o país enfrenta na Europa, arredia à política ambiental suicida conduzida por Ricardo Salles e Bolsonaro. Diversas marcas e produtos nacionais estão sendo alvo de campanhas e boicotes na União Europeia por conta da relação direta do desmatamento e queimadas na Amazônia.

China: Novas parcerias, novos negócios

Enquanto isso, a boiada e os negócios vão passando longe das porteiras de empresários brasileiros. A começar pelo namoro de Pequim com outros mercados. Uma opção desenhada para a compra de soja foi definida ainda em 2014, quando a beligerante política de Trump passou a abrir a possibilidade de negócios do gigante asiático com a Rússia.

O estreitamento da relação comercial entre Pequim e Moscou começou há alguns anos, mas tornou-se mais efetiva agora. Em agosto, a China propôs à Rússia a criação de uma “aliança da indústria da soja”, conforme aponta o jornal South China Morning Post. O ministro do Comércio chinês, Zhong Shan, pediu uma cooperação próxima com Moscou em todas as áreas da cadeia de abastecimento da soja em videoconferência com o Ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maksim Reshetnikov.

A China é o maior consumidor de soja do mundo e depende de importações de países individuais. Por ano, a demanda é de 103 milhões de toneladas por ano – e apenas 15 milhões são produzidas no próprio país. O resto é importado. Pequim importou do Brasil 54,4 milhões de toneladas de soja do Brasil entre janeiro e agosto deste ano. É quase a metade da demanda chinesa.

Daí porque Pequim passou a apostar na diversificação de fornecedores para evitar um risco para a segurança alimentar do país. A China anunciou ainda que pretende aumentar a produção doméstica de soja. É essa estratégia que pode resultar em perda de mercado para o Brasil, atualmente o principal fornecedor de soja para aquele país.

Daí que a Rússia pretende aumentar o volume de suprimentos de soja para a China para 3,7 milhões de toneladas até 2024. Atualmente, os russos respondem por apenas 1% das importações chinesas. Parece pouco, mas as exportações agrícolas russas cresceram, especialmente de soja. A venda do ‘feijão chinês’ produzido na Rússia aumentou mais de 10 vezes em quatro anos, chegando a quase 1 milhão de toneladas.

Xi Jinping e Vladimir Putin: Aliança entre os dois países pode representar uma nova fronteira agrícola na Sibéria.

Com a Rússia, um acordo sólido e promissor

No caso da Rússia, a aposta comercial da China interessa aos governos dos dois países. O crescimento do comércio entre as duas nações é sustentado pelos esforços pessoais do presidente chinês Xi Jinping e do seu colega russo Vladimir Putin, que cultivaram uma parceria com o objetivo de desafiar Washington de forma diplomática com efeitos econômicos.

Pior para o Brasil, que segue Trump a qualquer custo sem perceber que a cegueira ideológica de Bolsonaro está atrapalhando a agricultura brasileira. Enquanto isso, China continua à procura de parceiros, ampliando sua lista de fornecedores. Em setembro, o país abriu o mercado de farelo de soja para a Argentina em acordo considerado “histórico”. Ponto para o governo de Alberto Fernández. Um golpe no agronegócio brasileiro e na bancada rural, que apoia Bolsonaro de maneira cega, sem perceber que o mundo dos negócios não tem tempo a perder com fanfarrões.

O tabuleiro geopolítico internacional não é para amadores como Bolsonaro ou o chanceler Ernesto Araújo. O pragmatismo no comércio internacional é uma lição que os americanos adoram exercitar há mais de um século. Pergunte a Trump por que não deixa de comprar petróleo da Venezuela. Ou por que continua a vender carne de frango para Cuba. Ele responderá que não pode deixar a política atrapalhar os negócios.

Fatos & Fotos do dia 04/11/2020


Em Istambul penduraram 440 pares de sapatos numa parede. É o número de mulheres assassinadas pelos maridos este ano na Turquia.


Owen Wooden Flyer Gets Wings
Designer Ken Stolpmann


Brasil(?) de volta – redundância, eu sei – ao padrão Ângela Diniz – o mais celébre feminicídio nesse país(?) – , criminalizando a vítima. Que horror!



China e Rússia são Trump
desde criancinha. Desenho?


Foto do dia – Jason M. Peterson


Embalando esta manhã de quarta-feira com Del McCoury & Friends – Going Up The Country

Flávio Bolsonaro é denunciado por lavagem dinheiro e organização criminosa no caso da ‘rachadinha’

Flávio Bolsonaro é denunciado por lavagem dinheiro e organização criminosa no caso da ‘rachadinha’

Fabrício Queiroz e outros 15 ex-assessores também foram acusados formalmente pelo Ministério Público do Rio. Senador é acusado de desviar parte do salário de assessores fantasmas.