Bolsonaro e Guedes: a dupla do capitalismo da morte

Parabéns aos envolvidos! Bolsonaro e Guedes articulam congelamento das aposentadorias por dois anos e desvinculação do mínimo.

Sim o tempo reina; ele retomou sua brutal ditadura. E está-me empurrando, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão: “Vai, anda, burrico! Vai, sua, escravo! Vai, vive, maldito!” Charles Baudelaire

Supermercados alemães pedem que Berlim pressione Bolsonaro

Gigantes do varejo expressam preocupação com o desmatamento no Brasil e pedem que governo Merkel cobre uma mudança de rumo na política ambiental de Bolsonaro.

Supermercados afirmam evitar soja brasileira e preferir produtos de produção sustentável

Duas das maiores cadeias de supermercados da Alemanha, Edeka e Lidl, manifestaram preocupação com o desmatamento no Brasil e pediram que o governo alemão pressione o governo do presidente Jair Bolsonaro a conter a devastação ambiental.

“Tendo em vista o aumento da demanda global por soja e os desenvolvimentos na região amazônica, compartilhamos suas preocupações”, diz uma carta da Lidl enviada à eurodeputada alemã Anna Cavazzini, uma crítica ferrenha da política ambiental de Bolsonaro.

“A rede Edeka está observando os acontecimentos no Brasil com grande preocupação”, diz a outra rede, também em carta enviada à eurodeputada.

No documento, a Edeka também afirma que pediu que produtores de soja brasileiros se comprometam a atuar para que áreas do Cerrado não sejam destruídas e convertidas em zonas de cultivo.

A Edeka afirmou ainda que, enquanto membro da Federação Alemã do Comércio de Alimentos (BVLH), pediu que o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, pressionasse o governo Bolsonaro a agir para conter o desmatamento e dar prioridade à proteção florestal.

A rede Lidl também é membro da federação que apresentou o pedido ao governo alemão. “Na nossa visão, o desmatamento não é o único aspecto problemático, mas também o fato de que monoculturas em larga escala e uso intenso de pesticidas empobrece o solo e favorece a erosão”, disse o conglomerado.

Ambas as redes ainda afirmaram que estão comprometidas com a adoção de “cadeias de abastecimento sem desmatamento”. A Lidl, por sua vez, afirmou que o grupo prefere soja da União Europeia (UE) e incentiva a mudança para um cultivo de soja mais sustentável no Brasil.

De acordo com o jornal alemão Taz, que publicou uma reportagem sobre o posicionamento das duas redes, a declaração dos dois conglomerados pode aumentar a pressão para que o governo alemão reavalie seu rumo em relação ao Brasil.

No mês passado, Merkel acenou retirar seu apoio à retificação do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul, referindo-se ao desmatamento da Amazônia. Entretanto, ela ainda não desistiu de modo definitivo do tratado.

Em maio, as principais redes de supermercados do Reino Unido ameaçaram boicotar produtos brasileiros se o Congresso Nacional aprovasse a polêmica lei de regularização fundiária, conhecida a “MP da grilagem”, posteriormente convertida em projeto de lei.

A carta aberta tem cerca de 40 signatários, incluindo algumas das redes de supermercados mais importantes do Reino Unido, como Tesco, Sainsbury’s, Morrisons e Marks & Spencer, além da rede Burger King, do fundo público de pensões sueco AP7 e de outras empresas de gestão de investimentos.

MD/ots

Bancos injetaram R$ 235 bilhões em frigoríficos desmatadores desde o Acordo de Paris

Ao mesmo tempo em que cobram medidas do governo federal contra o desmatamento da Amazônia, instituições financeiras no Brasil e no exterior

Foto: Marcio Isensee e Sá.

Levantamento da Forests and Finance (F&F), uma coalizão de ONGs que investiga financiamentos associados à destruição das principais florestas tropicais do mundo, revela que os frigoríficos recebem mais recursos de bancos do que outras commodities no país.

A F&F rastreou R$ 990 bilhões investidos entre 2016 e 2020 na produção de carne bovina, óleo de palma, papel e celulose, borracha, soja e madeira em três regiões do mundo. O valor é referente a operações de crédito e de compra de ações e títulos de dívida e foi convertido em reais pela cotação do dia 28 de agosto.

Mais da metade do total, R$ 560 bilhões, veio para o Brasil, sendo 42%, ou R$ 235 bilhões destinados à criação e abate de gado em áreas onde o boi suplanta a mata nativa. Na JBS, Marfrig e Minerva, onde dois terços de tudo o que é desmatado anualmente vira pasto, os três frigoríficos com maior capacidade de abate (JBS, Marfrig e Minerva), receberam investimentos de R$ 59,5 bilhões entre 2016 e abril de 2020.

Uma das descobertas mais preocupantes da F&F é que, ao invés de diminuir, o financiamento de commodities associadas ao desmatamento aumentou 40% desde dezembro de 2015, quando foi assinado o Acordo de Paris. Um fluxo financeiro que vai na contramão do pacto assumido por 195 países para conter o aumento da temperatura do planeta em até 2°C acima dos níveis pré-industriais.

“Apesar dos compromissos do setor financeiro com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris, sua busca por lucros está nos levando a um desastre climático e de saúde pública”, afirma Merel van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas e Finanças.

Nos seus cálculos, o grupo de ONGs considera apenas a fatia dos valores que está diretamente relacionada com as atividades associadas ao desmatamento. Se uma empresa de proteína animal industrializa tanto carne de frango como a bovina, como é o caso das gigantes que operam na Amazônia, a coalizão contabiliza apenas a parte diretamente relacionada à compra, abate e processamento de gado.

Com base nos dados da F&F, ((o))eco apurou que, dos R$ 235 bilhões investidos na indústria da carne, 25% foram investidos nas empresas JBS, Marfrig e Minerva – respectivamente a primeira, quinta e a décima mais expostas ao desmatamento na Amazônia, segundo levantamento do Imazon. A JBS abocanha quase metade desse valor – R$ 25,5 bilhões – dos quais quase R$ 11 bilhões dizem respeito à participação acionária do BNDES. O banco público de desenvolvimento é o segundo maior acionista da companhia, com 21,3% de participação, atrás apenas da família Batista, fundadora da companhia. O dinheiro investido em ações não vai diretamente para o caixa da JBS, mas ajuda a aumentar o valor de mercado da companhia.

Além do investimento direto através da compra de ações, ((o))eco apurou, com base nos dados divulgados nesta terça (1), que o BNDES injeta recursos indiretamente nessas empresas através de empréstimos feitos com dinheiro público mas operados por bancos comerciais. Dos R$ 105,3 milhões destinados à JBS, Marfrig e Minerva nessa modalidade, 12% vieram através de linhas de crédito financiadas pelo banco de desenvolvimento do Brasil, porém executadas por outras duas instituições financeiras, a Volkswagen Financial Services e a Mercedes Finance, que aparecem na lista da F&F, mas na verdade não estão repassando recursos próprios.

Os outros 88%, entretanto, tem origem em um único contrato, um empréstimo de R$ 93,3 milhões do Bank of America para a Marfrig, realizado em 2017.

Operação “apaga” participação nos negócios desmatadores

A partir dos dados da F&F, ((o))eco verificou que a maior parte do dinheiro chega aos frigoríficos por uma operação financeira chamada “subscrição”, que acontece quando a empresa contrata um banco para intermediar uma nova investida sua no mercado de capitais. Ward Warmerdam é pesquisador sênior da Profundo, empresa responsável pela obtenção dos dados na F&F, e explica que a subscrição pode acontecer em duas situações: quando uma empresa quer lançar novas ações na bolsa de valores ou quando quer pedir dinheiro emprestado no mercado financeiro, através da emissão de títulos de dívida.

“A maioria das empresas não pode emitir títulos no mercado de capitais por conta própria. Eles precisam contratar os serviços de bancos como subscritores de emissão. O banco compra todos os títulos emitidos pela empresa, garantindo que a empresa receba o financiamento que precisa. Então o banco vende esses títulos a compradores que previamente assumiram o compromisso de comprá-los, além de outros potenciais compradores”, explica.

Para os bancos, este é um ótimo negócio por vários motivos. Eles são pagos pela empresa por este serviço e possivelmente vão vender as ações ou títulos a um preço mais elevado do que pagaram, obtendo lucro nesta operação. Além disso,  essa operação é temporária e não fica registrada no balanço financeiro dos bancos – ou seja, a partir do momento em que todos os títulos foram vendidos, é como se a operação nunca tivesse acontecido.

“Este último fator é importante porque significa que a subscrição de títulos não deixa o banco exposto a riscos da mesma forma que a concessão de um empréstimo”, resume Warmerdam.

Através desta modalidade de financiamento – temporária, lucrativa e de baixo risco – os bancos injetaram R$ 35,9 bilhões na JBS, Marfrig e Minerva entre 2016 e 2020.

ancos brasileiros precisam fazer o dever de casa

Se quiser mesmo conter o desmatamento, o Brasil vai precisar fazer o dever de casa. Segundo os dados analisados pelo ((o))eco, 55% do dinheiro investido em empresas associadas ao desmatamento no Brasil é ofertado por instituições brasileiras. O campeão é o Banco do Brasil, com R$ 156 bilhões, seguido pelo Bradesco, com R$ 39 bilhões – o mesmo cujo presidente foi ao encontro do vice-presidente Hamilton Mourão para apresentar um plano integrado para contribuir com a conservação da floresta. Octavio de Lazari Júnior estava acompanhada de executivos do Itaú e do Santander, respectivamente o 6° e o 7° maior credores das empresas associadas ao desmatamento no Brasil.

No caso de JBS, Marfrig e Minerva, os R$ 59,5 bilhões vieram de 365 instituições de 27 países. Ainda assim, mais da metade desse valor, R$ 32 bilhões, teve origem no Brasil. Em seguida vem os Estados Unidos (R$ 11,3 bilhões), Reino Unido (R$ 6,3 bilhões) e Espanha (R$ 4,2 bilhões). Juntos, esses quatro países somaram 91% do total investido.

Para Merel van der Mark, da F&F, é impossível dissociar o fogo que se alastra nos biomas brasileiros destes valores vultosos. Apesar de ter registrado uma queda de 6% na Amazônia e 12% no Cerrado, os focos de incêndio aumentaram 220% no Pantanal desde o início do ano, segundo dados do Inpe.

Merel também lembra que a queimada é só a parte final do processo de destruição da floresta. No caso da Amazônia, em dois terços das áreas o fogo serve para queimar as árvores derrubadas e preparar o solo para a criação de gado. Mesmo as queimadas tendo diminuído, talvez em função do decreto do governo federal que proibiu o uso do fogo na região por 120 dias – o desmatamento na Amazônia registrou um leve aumento de janeiro a julho deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado, passando de 4.701 km² para 4.739 km², segundo dados do Inpe.

“Neste momento, incêndios provocados intencionalmente estão queimando as últimas florestas tropicais remanescentes do mundo. Trata-se de uma ação ‘barata’ para limpar territórios já desmatados para a produção de commodities. Bancos globais e investidores estão conscientemente financiando as gigantes do agronegócio, produtoras desses commodities, que estão justamente alimentando os fogos”, acusa van der Mark.

A coalizão Forests and Finance surgiu em 2016, quando as organizações RAN, Profundo e TuK Indonesia se uniram para rastrear quem financiava setores de alto risco de desmatamento no Sudeste Asiático. Agora, o grupo somou esforços com o time de jornalistas investigativos da Repórter Brasil e com as ONGs Amazon Watch e BankTrack para expandir seu escopo para todo o Brasil e para a África Central e Ocidental.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Papini, Fernanda Wenzel e Naira Hofmeister

Libertários,Política Internacional,América Latina

Na Ásia Central, a ilusão de um novo mundo

A maioria dos países da Ásia Central conhece apenas um governante há várias décadas.

Após a saída desses autocratas, seus sucessores tentam manter o controle das transições políticas de alto risco. Diante da pressão de sociedades jovens e desiguais, eles temem cenários comparáveis ​​à “Primavera Árabe”. E hesite entre a abertura e a continuidade.

Regimes autoritários geralmente não gostam de transferências de poder. Em particular, quando, à frente deles, está um governante todo-poderoso forçado a ceder por causa de sua idade ou … sua morte. Formados por instituições políticas frágeis ou considerados ilegítimos pela população, a maioria dos regimes da Ásia Central viveu esse tipo de situação delicada nos últimos anos.

Muitas vezes passado de secretário-geral do Partido Comunista local ao primeiro presidente do país após a independência conquistada em 1991, os homens no cargo, após terem ocupado os cargos mais altos por várias décadas, por sua vez, deixaram seus cargos: Saparmourad Niazov no Turcomenistão e no Islã, Karimov no Uzbequistão, respectivamente, morreu em 2006 e 2016; O presidente Nursultan Nazarbayev, do Cazaquistão, deixou a presidência aos 78 anos em março de 2019; até mesmo Emomali Rakhmon, 67, está começando a pensar sobre sua sucessão à chefia do Tajiquistão após 28 anos de governo.

O Quirguistão é uma exceção. A alternância política ocorre ali por meio de uma combinação de eleições democráticas e revoluções populares orquestradas por elites divididas em facções políticas que se opõem por seus interesses econômicos e por sua lealdade de clã (Norte contra Sul).

Dois governos foram derrubados ali, em 2005 e depois em 2010. O atual regime do presidente Sooronbay Jeenbekov, eleito em 2017, está longe de incorporar um modelo de pluralismo, mas, em comparação com seus vizinhos, continua mais democrático, com um oposição menos hostilizada e uma sociedade civil ainda ativa.

Desde meados dos anos 2000, vários modelos de sucessão foram testados. No Turcomenistão e no Uzbequistão, os “pais da nação” se juntaram ao túmulo sem nomear o herdeiro, pelo menos publicamente. Mas seus substitutos, respectivamente o ex-ministro da Saúde Gourbangouly Berdymoukhammedov e o ex-primeiro-ministro Chavkat Mirziyoyev, já membros do serralho, souberam estabelecer seu poder, derrubando

Amazônia e a morte silenciosa do acordo UE-Mercosul

Merkel pôs em xeque o pacto comercial devido às queimadas na Amazônia. Ao ignorarem o alerta, governos sul-americanos deixam claro seu desinteresse na implementação do tratado. Também na Europa o silêncio predominou.

Ato em Amsterdã: críticas de Merkel se juntam aos protestos exigindo medidas do governo brasileiro contra o desmatamento

Faz exatamente um ano desde que o presidente francês, Emmanuel Macron, atacou o Brasil pela primeira vez por causa dos incêndios na Amazônia, durante a cúpula do G7 na França. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, disse agora que tem dúvidas sobre se o acordo comercial da União Europeia (UE) com o Mercosul ainda pode ser implementado. O motivo são as queimadas na região amazônica.

As “sérias dúvidas” de Merkel se encaixam na corrente de muitos outros críticos que há um ano vêm exigindo cada vez mais veementemente que o governo brasileiro tome medidas contra o desmatamento. Primeiro foram as organizações ambientais, depois os embaixadores da Noruega e da Alemanha e, finalmente, agora fundos, bancos e empresas que pediram ao governo de Jair Bolsonaro que tome uma atitude.

Mas as reações do governo até hoje são as mesmas: afirma que faz o suficiente para proteger a Amazônia; responde que a Europa e os Estados Unidos já desmataram tudo o que tinham; quer oferecer parques nacionais a empresas privadas estrangeiras, para que elas possam proteger o meio ambiente. Afinal, o que o mundo estaria disposto a pagar pela proteção da floresta tropical?

Os militares, segundo o governo, protegerão a floresta de maneira mais eficaz do que as autoridades responsáveis. É preciso poder garantir aos pobres, como os indígenas da Amazônia, uma vida digna, algo que só seria possível com empresas e através de atividades econômicas. Assim soam os argumentos dos ministros quando comentam o tema.

Na verdade, nada mudou em um ano: nos últimos 12 meses até agosto deste ano, as queimadas aumentaram em cerca de um terço em relação ao mesmo período do ano passado. Portanto, é perfeitamente compreensível que a chanceler federal alemã se junte aos críticos. Suas advertências têm peso.

Até poucos dias atrás, Merkel era uma das mais importantes defensoras do acordo UE-Mercosul dentro do bloco. Ela havia defendido publicamente no ano passado o pacto contra as críticas do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão: nenhuma árvore a menos seria derrubada na Amazônia se o acordo não se concretizasse – era essa, mais ou menos, sua argumentação. Com a presidência do Conselho da UE exercida pela Alemanha até o final do ano, muitos esperavam que o acordo pudesse ainda dar um passo adiante em direção à ratificação.

Isso agora se tornou mais difícil. Merkel pode não ter batido o martelo ainda, mas deixou claro que o Brasil precisa se mexer. Assim, ela aumenta a pressão para tentar salvar o acordo comercial. Mas até o fim de dezembro não deve acontecer muita coisa.

Ainda mais surpreendente é o completo silêncio na América do Sul. Nenhum dos quatro governos do Mercosul comentou as críticas da chanceler alemã. Também na imprensa suas críticas encontraram pouca ressonância. A conclusão só pode ser uma: na América do Sul, nenhum dos quatro países parceiros está realmente interessado no acordo. Mesmo nas declarações dos quatro presidentes nas últimas semanas e meses, o acordo não aparece mais sequer de forma secundária.

Isso não é diferente na Europa. Na verdade, seria de se esperar que os interessados no acordo se manifestassem depois das críticas de Merkel. Ou seja, as associações industriais, as empresas de médio porte, as montadoras, os grupos de construção civil, a indústria química – todos aqueles que fazem há 20 anos campanha pela abertura do mercado na América do Sul e pela maior associação econômica mundial. Mas também na Europa o silêncio predominou, com exceção de algumas declarações de protocolo.

Portanto, tudo indica que o acordo entre a Europa e o Mercosul terá uma morte silenciosa.

O que não é algo incomum na América Latina. “Já houve muitos funerais para alianças regionais na América Latina”, disse o uruguaio Enrique V. Iglesias, que foi presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por muitos anos. “Mas nenhum enterro.”


Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

Como a taxação de livros pode afetar os mais pobres

Projeto de reforma tributária do governo Bolsonaro prevê o fim da isenção para livros e taxação de 12%. Além de agravar crise do mercado editorial, mudança pode aprofundar desigualdades no país.

Proposta de taxar livros tem gerado forte repercussão no mercado editorial, que encolheu mais de 20% em uma década

Quando recebeu seu primeiro salário, aos 15 anos, Amaury de Sousa se dirigiu a uma loja da livraria Saraiva e comprou O Abusado, obra do jornalista Caco Barcellos. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, lembra. Ele finalmente poderia ler à vontade, sem o prazo que sua mãe estipulava para devolver os livros que tomava emprestado em uma das casas onde trabalhava como cuidadora de idosos. Tão recheadas eram as estantes, que um vão entre os títulos passava despercebido.

“Eu achava interessante aquelas prateleiras gigantescas e sempre gostei de livros, mas naquele tempo a gente não tinha condição de comprar. Ela me dava uma semana para ler, antes de devolver sem que ninguém notasse”, conta o jovem de 24 anos que foi criado e reside até hoje com a mãe na favela Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Cumprir o prazo era difícil, já que a mãe trazia para o menino de 12 anos clássicos como Microfísica do Poder, de Michel Foucault. “Eram livros muito técnicos. Às vezes eu não entendia nada, ficava voltando na mesma página várias vezes. Mas tinha uma curiosidade incontrolável para entender o mundo, os outros e eu mesmo”, recorda. Rapidamente, a leitura tornou-se a janela para o mundo que não existe no quarto onde dorme, sem luz natural.

Os livros representam para Amaury uma plataforma de transformação social. A bagagem cultural o colocou em vantagem no processo seletivo para atendente na Livraria da Travessa, onde trabalhou por dois anos e intensificou o mergulho literário. Hoje, ele cursa Cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha em projetos audiovisuais.

Os saberes absorvidos e interpretados pelas lentes de sua realidade fizeram com que, desde cedo, despertasse a atenção de produtores internacionais. Ele acaba de roteirizar e filmar um documentário sobre a pandemia nas favelas do Rio para a emissora de televisão japonesa NHK.

Hoje, devido à situação financeira mais confortável, falta espaço na casa apertada para empilhar novos títulos. Toda vez que se depara com um curso que gostaria de fazer e não pode pagar, ele busca um livro que integre as referências bibliográficas. É assim que está aprendendo francês sozinho no momento.

“Valor dos livros cria distanciamento entre o jovem periférico e a literatura”, diz Amaury de Sousa, morador de Santa Marta

O fechamento de lojas físicas durante a pandemia, devido às medidas de restrições sanitárias, afetou ainda mais o setor. Em abril, o mercado livreiro registrou uma perda de 47% no faturamento em comparação ao mesmo mês em 2019, segundo o levantamento Painel Varejo de Livros no Brasil, feito pela Nielsen Bookscan.

“É preciso considerar que esse imposto tem um efeito cascata sobre a cadeia econômica do livro. Estimamos que a mudança possa aumentar o preço final em até 20%”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias e proprietário da editora Letraviva.

Gurbanov destaca que o encarecimento dos livros não terá impactos meramente econômicos. “Não é somente o ato de compra, mas o que o livro significa como veículo de transmissão de informações, conhecimento e produção cultural. Não só do Brasil, mas de todos os países. Os efeitos colaterais serão muito graves, e o Brasil vai pagar muito caro se esse projeto for aprovado”, avalia.

O argumento de Guedes

Para defender a mudança, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem defendido a ideia de que livros são consumidos por camadas de maior renda da população. Nesse sentido, a isenção não se justificaria. Para compensar o impacto sobre os mais pobres, Guedes defende a realização de doações pelo governo — sem explicar como isso seria feito — e a ampliação do Bolsa Família para essa finalidade.

“Vamos dar o livro de graça para o mais frágil, para o mais pobre. Eu também, quando compro meu livro, preciso pagar meu imposto. Então, uma coisa é você focalizar a ajuda. A outra coisa é você, a título de ajudar os mais pobres, na verdade, isentar gente que pode pagar”, disse o ministro durante audiência na Comissão Mista da Reforma Tributária.

Ao defender a ampliação dos programas de transferência de renda, Guedes argumentou que as camadas de menor renda estão mais preocupadas em comprar comida do que livros. “Num primeiro momento, quando fizeram o auxílio emergencial, estavam mais preocupados em sobreviver do que em frequentar as livrarias que nós frequentamos”, declarou Guedes.

Em artigo publicado recentemente na Folha de São Paulo, Luiz Schwarz, editor da Companhia das Letras, contestou a tese do ministro. Ele destacou que na última edição da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, realizada no ano passado, parte expressiva dos 600 mil participantes era de jovens da classe C.

“Na Flup [Festa Literária das Periferias], os dados são ainda mais eloquentes: do público total do evento, 97% se declaram leitores frequentes de livros, 51% têm entre 10 e 29 anos, 72% são não brancos, e 68% pertencem às classes C,D e E”, ressaltou.

Visão de curto prazo

A economista Juliana Damasceno, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), afirma que a reforma tributária deve priorizar uma redistribuição de tributos que vise a correção de distorções que penalizam a economia brasileira atualmente.

“A carga é o ponto final da reforma. A justiça social e estratégia econômica do sistema deveria ser o ponto de partida. Dentro dessa questão estratégica, fomentar educação deveria ser prioridade”, avalia.

Damasceno lembra que os retornos da educação para a economia no longo prazo são amplamente documentados. E defende que é preciso reconhecer a importância do setor de livros, ainda que represente uma parcela mais restrita da educação após os avanços da digitalização.

“Incentivar esse setor vai na direção contrária de aumentar sua carga, o que pode resultar em aumento do preço pro consumidor final. Governos tendem a ter visões mais ‘curto-prazistas’ quando a situação fiscal se aperta. Antes de um plano de recuperação desse forte desequilíbrio fiscal, é difícil pensar no longo prazo, e isso acaba penalizando áreas estratégicas como a educação”, analisa a especialista.

Dólares em Cuba?

Por quê o governo abriu lojas com produtos na moeda americana.

Benito Morejón chegou ao supermercado antes do amanhecer para poder ocupar um lugar na frente da fila.

O supermercado em questão é um dos autorizados pelo governo cubano a vender alimentos e produtos básicos na moeda do inimigo ideológico da ilha: o dólar americano.

Quando a polícia abriu as portas do estabelecimento, horas depois de Morejón fazer a quarta curva, a fila atrás se estendia por centenas de metros pela Terceira Avenida no município de Playa, em Havana.

O fato de tantos cubanos terem ficado tanto tempo na fila não é surpreendente. Lá dentro, a loja estava bem abastecida com todos os tipos de necessidades básicas, desde leite para bebês até gel de banho.

No entanto, a única maneira de pagar esses bens era em moeda estrangeira.

Crise agravada

Durante anos, o planejamento econômico estatal ineficiente e décadas de embargo econômico dos Estados Unidos tornaram a escassez e as filas uma característica comum da vida diária em Cuba.

As longas filas de supermercados de moeda americana. Mas recentemente, a situação se tornou mais difícil.

Cuba é altamente dependente de importações. Do total de bens consumidos pela nação, 80% vêm do exterior.

Apesar de ter o coronavírus sob controle, as medidas de confinamento têm reduzido o turismo. Como resultado, o influxo de moeda estrangeira foi reduzido e, com isso, a capacidade de pagar pelas importações.

O efeito é perceptível na maioria dos supermercados, onde muitas das prateleiras estão praticamente vazias.

Por outro lado, o governo dos EUA apertou o embargo econômico e colocou mais restrições ao transporte de mercadorias, viagens e remessas.

Cuba é fortemente dependente de importações.
Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Para compensar o impacto, o governo cubano tomou uma medida que poderia ter evitado em outras circunstâncias.

Das quase 5.000 lojas controladas pelo estado em Cuba, 72 foram convertidas em “lojas de dólar”.

Ao sair do estabelecimento, Benito Morejón empurrou com dificuldade o carrinho de compras. Ele carregava carne, queijo e produtos de limpeza e higiene.

“Eu queria encontrar peito de frango e não havia nenhum, mas a oferta era boa”, disse Morejón através da máscara.

Apenas cartões

Dentro das lojas, os compradores não carregam as cédulas com eles. Devem pagar com um cartão vinculado a um banco cubano com depósitos em moeda estrangeira ou com um cartão de débito ou crédito internacional, exceto para os Estados Unidos.

Avestruzes, crocodilos e jutías: a polêmica e a zombaria em Cuba pelos pratos exóticos que o governo propõe devido à falta de comida na ilha
“Posso me dar ao luxo de vir aqui uma vez por mês”, disse Morejón.

“Eu teria comprado mais, mas primeiro preciso colocar mais dólares na conta”, disse Leno Fernández, outro cliente do supermercado, com um sorriso resignado.

Leno Fernández gostaria de poder comprar mais produtos.

Fernández mencionou uma das principais críticas do governo cubano a essa medida.

Vozes críticas argumentam que a sociedade cubana está cada vez mais dividida entre quem recebe seu salário em moeda nacional e quem tem acesso a dólares e euros.

De fato, a maioria dos cubanos não tem uma renda regular em moeda estrangeira, especialmente aqueles que não têm um familiar residente no exterior.

“Nem todo mundo pode acessar o dólar, nem perto dele. O Estado também não pode começar a pagar seus trabalhadores em dólares. Não acho que essa seja a solução”, disse Luis Rodríguez, que estava em um parque perto do supermercado.

O que foi o “Período Especial” e por que Cuba agora teme que sua economia afunde novamente em uma crise profunda.
“Não é lógico que um país que não paga em dólares cobre em dólares de seus cidadãos”, concordou Roberto, amigo de Luis.

Muitos cubanos aceitaram de bom grado a medida do governo.

Alguns dos cubanos, porém, elogiaram a medida do governo. De fato, Morejón está confiante de que o fluxo de dólares ajudará a encher as prateleiras dos supermercados da ilha.

Fabricado em Cuba?

Para acabar com a dependência de Cuba das importações, os supermercados precisariam ser abastecidos com produtos cubanos.

Mas tornar a produção agrícola nacional autossuficiente parece uma meta distante.

Iris Fonseca se formou em agronomia em 1989, justamente quando Cuba entrava em um período de grande austeridade e escassez após o colapso do campo socialista soviético, seu principal aliado econômico.

Este estágio é popularmente conhecido como Período Especial.

Segundo Iris Fonseca, Cuba aprendeu com o Período Especial.
Fonseca trabalhou para o estado por 25 anos antes de ingressar na Finca Vista Hermosa, uma fazenda privada localizada nos arredores de Havana.

Vista Hermosa é frequentemente elogiado como um modelo de gestão de sucesso quando comparado à ineficiência de muitas das fazendas do estado. Mas o Vista Hermosa é uma exceção, não a regra.

A fazenda fornece uma cota anual de leite e gado ao Estado cubano. Em seguida, vende queijos, produtos de carne de porco, vegetais orgânicos e frutas para particulares e restaurantes particulares.

Conforme Fonseca me mostrou os campos, ele me disse que eles estão “mais bem preparados” para a atual crise econômica do que durante o Período Especial.

Vista Hermosa é uma exceção, não a regra.
“Naquela época cometíamos erros na pecuária, por exemplo”, explicou.

“Produzíamos vacas Holstein para o leite e, sem a soja, o milho e o trigo que vieram da União Soviética para alimentá-las, muitos animais morreram”, continuou.

Hoje trabalham com uma vaca de raça diferente, chamada Siboney de Cuba, que se adapta melhor ao clima caribenho e se alimenta de capim produzido na mesma fazenda.

“As importações sempre estarão presentes em Cuba, mas podemos reduzi-las se cultivarmos melhor a terra e melhorarmos nossa técnica, ciência e tecnologia”, disse Fonseca.

“As pessoas quase se mataram por comprar uma língua de porco”: as caudas e a escassez que fazem os cubanos temerem um novo “período especial”
De volta ao supermercado, os cubanos esperaram pacientemente pela sua vez enquanto se protegiam com guarda-chuvas do sol e das chuvas tropicais.

O governo cubano nega que essas novas lojas façam parte de um plano maior de “dolarização”. Isso significaria converter o dólar em moeda oficial como já aconteceu no Panamá, Equador ou El Salvador.

Talvez não seja o plano, mas a julgar pelas filas do lado de fora dos bancos e supermercados de dólares, parece que essa moeda está rapidamente se tornando a favorita dos cubanos.

Bilionários se preparam para o fim da civilização

Crise do coronavírus disparou oferta e demanda de ‘bunkers’ projetados para enfrentar o apocalipse, com os endinheirados gurus do Vale do Silício como principais instigadores.

Dezenas de refúgios compõem a sede da Vivos XPoint em Dakota do Sul. Foto:THE VIVOS GROUP

—Alô?

—Até que enfim, senhor DeMarest. Escute-me bem. O senhor precisa estar no aeródromo de Saint-Rémy em 16 minutos.

—Como? O quê? E que horas são?

—8h34. Estamos tentando entrar em contato com o senhor e sua esposa há três horas para evacuá-los.

No terceiro episódio da festejadíssima série francesa L’Effondrement (”O colapso”), um bilionário protagoniza uma corrida contra o relógio para pegar um avião exclusivo para fugir da falência da civilização tal como a conhecemos. O capítulo mostra o instinto de sobrevivência e a falta de escrúpulos desse membro do afortunado 1% da humanidade, uma reflexão que a ficção amplia no sétimo capítulo narrando a angustiante odisseia de uma mulher, ministra neste caso, tentando chegar a uma ilha onde pode encontrar refúgio. Apesar de ser uma série distópica, sua abordagem do comportamento das elites em um potencial colapso da civilização está longe da pura ficção científica. A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo.

“Isto é como um seguro de vida ou um seguro de carro, você espera nunca ter de usá-los, mas se tiver de fazê-lo, são muito valiosos”. Com estas palavras tenta racionalizar sua rede de refúgios subterrâneos Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes do setor e que ele prefere qualificar de “projeto humanitário épico de sobrevivência”.

Vicino confirma o boom por desse tipo de serviço, aumentando as vendas em até 400% ao ano. Veículos de comunicação como o Los Angeles Times confirmam que as pesquisas e as vendas de refúgios nos Estados Unidos dispararam desde o início da crise sanitária: “Desinfetante para as mãos? Certamente. Máscaras? Está bem. Mas, à medida que o coronavírus se propaga, os ricos estão investindo de uma maneira muito mais extrema para evitar a doença: bunkers”.

Chamada de survivalismo, esta corrente deixou para trás os arquétipos de fanáticos religiosos ou eremitas excêntricos para se deslocar para os escritórios mais poderosos de Vale do Silício ou de Wall Street. CEOs de empresas de tecnologia e investidores decidiram se preparar ativamente para uma hecatombe do sistema, talvez alentados pelas recentes imagens de brigas em supermercados por rolos de papel higiênico antes da quarentena. O cofundador do LinkedIn, Reid Hoffman, disse à The New Yorker que estima que 50% dos bilionários de Vale do Silício já tenham um bunker ou esconderijo preparado ao redor do mundo para o caso de o apocalipse acontecer e afirmou que “comprar uma casa na Nova Zelândia é algo como ‘piscar os olhos’, não é preciso dizer mais nada”.

Vicino confirma que o público interessado na Vivos tem cada vez mais capacidade econômica e nos últimos meses avaliou a construção de um resort com apartamentos subterrâneos de luxo em Marbella. Esse complexo será composto por residências de cerca de 200 metros quadrados e terá um sistema de filtragem de ar, piscina, academia e até um cinema para assistir Mad Max ou Filhos da esperança enquanto o mundo cai em pedaços. Atualmente têm centenas de refúgios em lugares como a Alemanha ou Dakota do Sul, Estado em que construíram uma comunidade do tamanho de Manhattan. “Muitos Governos do mundo têm enormes bunkers militarizados para seus oficiais e suas elites, mas não para o resto de nós. Eles não têm nenhum plano para salvá-lo se a extinção começar. A Vivos tem!”, clama. O preço de cada unidade, sem equipar nem mobiliar, ronda os 30.000 euros (cerca de 184.000 reais), mais outros mil por ano a título de aluguel.

Imagem do episódio ‘O aeródromo’ da série ‘O colapso’. FOTO: FILMINTHE VIVOS GROUP

O influente investidor em tecnologia e o cofundador do PayPal, Peter Thiel, é um dos principais instigadores dessa corrente profilática nascida em Vale do Silício. O alemão, que apoiou publicamente Donald Trump e que destruiu um veículo de comunicação (o site Gawker) como vingança por um artigo que afirmava que era homossexual, comprou um terreno de 200 hectares para seu refúgio apocalíptico na Nova Zelândia, país que considera “uma utopia”:”O que que se alinha melhor ou com a minha visão do futuro”, disse. Thiel conseguiu a cidadania neozelandesa em apenas duas semanas e muitos outros tentaram seguir seus passos. Nos dois dias seguintes à eleição presidencial de 2016 que deu a vitória ao imprevisível Donald Trump, as pesquisas dos norte-americanos sobre como conseguir a nacionalidade kiwi aumentaram 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 13.000 solicitações foram registradas.

Embora donos de uma riqueza tão imensa que qualquer investimento —por mais louco que possa parecer— seja insignificante na demonstração de resultados, talvez os motivos por trás dessa crescente paranoia não respondam unicamente a uma questão meramente preventiva ou recreativa. John W. Hoopes, professor de Antropologia da Universidade do Kansas, diz no The New York Times que o sucesso da corrente responde à “fantasia hipermasculina” de que apenas alguns poucos escolhidos e suas famílias se salvarão do perigo iminente. “O medo vende melhor que o sexo. Se você pode fazer com que as pessoas tenham medo, pode vendê-las todo tipo de coisa e isso inclui os bunkers”, conclui. Vicino parece estar inscrito nessa estratégia de marketing. “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.

Foto: VIVOS GROUP

A bíblia do radicalismo libertário, que o próprio Thiel qualificou como o livro que mais o influenciou em sua carreira, chama-se O indivíduo soberano: Como sobreviver e prosperar durante o colapso do Estado de Bem-Estar. Publicada em 1997 e escrito por James Dale Davidson e William Rees-Mogg, a obra já aponta a Nova Zelândia como refúgio perfeito para observar o fim da civilização como a conhecemos. Segundo os autores, a Internet e a consolidação das criptomoedas porão fim neste milênio nos “criminosos Estados-nação” e uma “elite cognitiva” se elevará acima da “fraude democrática”. Sem Governos nem impostos, é claro. Em declarações à Vanity Fair, um amigo próximo do guru reconhece o desejo deste de “comprar seu próprio país” e afirma ter oferecido até cem bilhões de dólares para torná-lo realidade. Sam Altman, outro bilionário de Vale do Silício, confirmou que ele e Thiel “tinham preparado um plano para fugir ao país” em caso de um colapso mundial.
Foto: VIVOS GROUP

E por que criar a nova humanidade na terráquea Nova Zelândia podendo fazê-lo a partir do planeta vermelho? Precisamente, um dos sócios fundadores do PayPal ao lado de Thiel se erigiu como outro dos super-ricos mais obcecados em estar pronto diante do juízo final. Elon Musk, CEO da Tesla, não apenas vaticinou em várias ocasiões o fim do mundo, como pode se vangloriar de ter criado todo um império empresarial para tentar buscar uma saída ao possível apocalipse. “É inegável que desde a mudança climática (com a ênfase de Tesla em reduzir o uso de combustíveis fósseis) até a maligna inteligência artificial (com a Neuralink) e a ameaça de uma guerra global que desencadeie o caos (o plano de fuga para Marte da Space X), Musk está preparando uma parte da humanidade para o cataclismo vindouro e tentando evitá-lo”, disse o jornalista Jonathan Sieber depois de assistir a uma conferência do guru da tecnologia no festival South by Southwest em 2018. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg, tampouco foge desse utópico investimento financeiro e já em 2016 vários meios de comunicação publicaram que tinha construído um bunker perto de sua mansão em Palo Alto, Califórnia.

Piscina comunitária da rede de ‘bunkers’ da Vivos.THE VIVOS GROUP

Segundo o site Finder, até 20% dos norte-americanos fizeram alguma forma de provisão pensando no fim do mundo. Vicino nega que a maioria de seus clientes pertença à elite. “São pessoas bem-educadas e informadas, de classe baixa, média ou alta, que têm a responsabilidade de proteger suas famílias durante estes tempos potencialmente catastróficos”, deixando claro que seu objetivo é oferecer esconderijos acessíveis a todos. O tempo de construção desses majestosos planos B pode variar de três a doze meses, dependendo da localização e do tamanho, e contam com pelo menos um ano de autonomia energética sem precisar sair à superfície. Esperemos que jamais se tornem o plano A.

Covid-19 – Pandemia é resposta biológica do planeta

‘Pandemia é resposta biológica do planeta’, diz físico Fritjof Capra

Autor de “O Tao da Física” relaciona desigualdade social, economia predatória e devastação ambiental ao surgimento do novo coronavírus

Ícone do pensamento sistêmico, o físico e ambientalista austríaco Fritjof Capra, 81, interpreta a pandemia da Covid-19 como uma resposta biológica da Terra diante de emergências sociais e ecológicas amplamenta negligenciadas.

Segundo Capra, as mudanças de paradigma necessárias a essas emergências já são possíveis, tanto do ponto de vista do conhecimento quanto do desenvolvimento tecnológico.

Autor de best-sellers internacionais como “O Tao da Física” e “Ponto de Mutação” (Cultrix), entre outros, o Capra articulou a física moderna a uma visão holística da vida no planeta e dos fenômenos naturais, inserindo a humanidade e suas ações nos ciclos de transformação da vida no planeta.

Capra é uma das estrelas deste ano do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cujo tema — Reinvenção do humano— implica um debate de múltiplas variáveis que, na visão do físico austríco, são sempre indissociáveis e interdependentes.

Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede em Berkeley, na Califórnia (EUA), Capra desenvolveu uma pedagogia da ecologia a ser aplicada no ensino formal, primário e secundário.

Convertido em ambientalista por sua própria pesquisa, o austríaco há décadas denuncia o caráter predatório da economia global capitalista extrativista e a captura corporativa da política, que sucumbe a interesses econômicos em detrimento dos recursos naturais do que chama de Gaia —a Mãe-terra da mitologia grega que batizou uma visão do planeta como um imenso organismo vivo.

Para ele, estão equivocadas as atuais métricas do desenvolvimento baseadas no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a partir de uma cultura de excessos, que implica em perdas sociais e econômicas.

Em quais aspectos o momento presente pode redefinir a condição humana?

Na minha visão, o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas.

Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertado para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis. Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a esses alarmes. Agora eles foram forçados a prestar atenção, já que a Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.

Quais paradigmas a humanidade precisa mudar e por quê?

Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas capazes de salvar vidas. A questão é: teremos a sabedoria e a vontade política necessárias para ouvir essas lições? Mudaremos do modelo de crescimento econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento qualitativo e regenerativo? Vamos substituir combustíveis fósseis por formas renováveis de energia que dêem conta de todas as nossas necessidades? Vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa, familiar e comunitária? Vamos plantar bilhões de árvores capazes de retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do mundo?

Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para embarcar em todas essas iniciativas. Teremos a vontade política que falta?

Num momento em que o valor do conhecimento científico biológico e tecnológico se mostram tão importantes, qual é o papel das humanidades?

Isso está diretamente relacionado a sua pergunta anterior. Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?

Quando refletimos sobre essa questão crucial, rapidamente percebemos que o nível conceitual não conta toda essa história. Nós também precisamos lidar com valores e éticas, e é por isso que as ciências humanas são mais importantes do que nunca. Literatura, filosofia, história, antropologia podem todas nos imbuir do compasso moral que tanto falta à política e à economia atuais.

Índices de desmatamento têm aumentado na Amazônia brasileira. Quais são os incentivos para isso?

Esses crimes são uma consequência direta da obsessão com o crescimento econômico e corporativo. A devastação de grandes áreas de florestas tropicais é impulsionada pela ganância de corporações multinacionais do setor de alimentação, que buscam incansavelmente lucro e crescimento.

Se o que chamamos de progresso foi atingido às custas de danos ao meio ambiente, nossa ideia de progresso está errada?

A crença em um progresso contínuo e, em particular, a obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento ilimitado em um planeta finito constituem o dilema fundamental que permeia nossos problemas globais.

Isso equivale ao choque entre o pensamento linear e os padrões não lineares da nossa biosfera —a interdependência dos sistemas ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida. Essa rede global altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das quais o planeta se regula e se equilibra.

Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não reconhecer a existência de limites. Nele, um crescimento perpétuo é perseguido incessamente através da promoção do consumo excessivo e de uma economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como energia, aumentando a desigualdade econômica.

Esses problemas são exacerbados pela emergência climática global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em combustíveis fósseis.

Com a pandemia, projeções apontam para o aprofundamento das já marcantes desigualdades sociais de nosso tempo. O que as produziu e como reverter esse processo?

O aprofundamento das desigualdades é uma característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje. O chamado “mercado global” é, em verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre direitos humanos, democracia, proteção ambiental.

Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.

Há sinais de mudanças neste sentido na política de hoje?

Uma nova liderança começou a emergir recentemente em uma série de movimentos jovens muito potentes, como Sunrise Movement, Extinction Rebellion, Fridays for Future, entre outros.

Há também a ascensão de uma nova geração de políticos, curiosamente formada por mulheres, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Arden, a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ou a congressista [democrata] norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez.

A crise atual prescreve nossa percepção de soberania e de globalização? Como?

Com certeza absoluta! Para prevenir o alastramento da pandemia, agora e no futuro, teremos de reduzir densidades populacionais excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas pela superlotação. Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.

A justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.

Seu trabalho explorou a interconectividade entre as ciências e os conceitos e filosofias considerados não-científicos. Como esse diálogo complexifica nosso entendimento do planeta e da humanidade?

Eu me formei como físico e fiquei fascinado pelas implicações da física quântica, que nos mostra que o mundo material não é uma máquina gigante mas uma rede inseparável de padrões de relações. Durante os anos 1980, minha pesquisa virou para a área das ciências da vida, da qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais.

Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo, percebemos o quão firme estamos costurados em todo o tecido da vida.

O que você aprendeu com a pandemia?

Tem sido incrível para mim ver como o coronavírus expôs tantas injustiças ecológicas, sociais e raciais omitidas por décadas pelas mídias de massa.

Também fiquei espantado de ver como, em um curto espaço de tempo, a poluição quase desapareceu da baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), onde eu vivo, assim como ocorreu em várias das grandes cidades do mundo. Isso me encheu de esperança quanto à capacidade da Terra de se regenerar.