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O mundo sob efeito das mudanças climáticas

Exposição coloca em evidência o mundo sob efeito das mudanças climáticas

Simulação do cenário do módulo [Des]ordem. Foto: Divulgação.

Jornalista experiente na área ambiental, Felipe Lobo cultiva, há pelo menos uma década, o desejo de comunicar melhor os efeitos das mudanças climáticas na vida comum das pessoas. A ideia se concretizou nesta quinta-feira (10), na Cidades das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde ficará até 10 de novembro a exposição O Dia Seguinte, fruto dessa ambição.“Sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas”, explica Lobo, em conversa com ((o))eco por telefone.

A exposição ocupa dois andares na Cidade das Artes e está dividido em seis módulos, com foco em como as mudanças climáticas atinge as cidades. Leia a entrevista com Felipe Lobo.

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Como surgiu a ideia? O que é o Dia Seguinte? 

Dia Seguinte surgiu de uma inquietação minha e a da Tiza Lobo, que é a minha sócia, de como as mudanças climáticas e o tema ambiental e sustentável como um todo é tratado, seja na grande imprensa, seja nas universidades e na comunicação de uma forma geral para as pessoas. Eu pelo menos, que trabalho com isso há doze, treze anos, sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas.

Falar sobre mudanças climáticas, para mim, é muito mais falar sobre modelo de desenvolvimento. Falar sobre saúde, sobre segurança, sobre educação, cidadania, igualdade de gênero. Enfim, tudo o que importa para o nosso dia a dia.

Ao longo desses últimos tempos viemos pensando em como a gente poderia mostrar mais claramente como esse assunto é fundamental, urgente e que pertence a todos nós, independente da nossa classe social, de onde a gente vive, do que a gente faz e com o que a gente trabalha. As mudanças climáticas significam muito para as nossas vidas. Todos nós nos importamos em ter saúde, em ter segurança, paz, em ter tranquilidade, ter inclusão e tudo isso passa pelas mudanças climáticas.

Mas isso não é facilmente entendido pelo público

O jornalista Felipe Lobo. Foto: Arquivo Pessoal.

As pessoas acham que [as mudanças climáticas] vão acontecer daqui a muitos anos ou que são coisas que acontecem com os outros e não acontecem com elas ou que é um assunto que elas não precisam se preocupar agora. A gente quer mostrar que as mudanças climáticas, embora impactem em grande parte dos marginalizados de sempre, que são as mulheres, as pessoas mais pobres, a população negra, elas em algum momento podem atingir a todos. E mesmo que não atinjam, elas precisam ser tratadas com rigor porque elas já estão atingindo muitas pessoas e a gente precisa ter um pouco mais de empatia, um pouco mais de solidariedade com quem sofre com os efeitos. Decidimos que para tentar fazer isso de uma forma menos técnica, valia a pena fazer uma exposição sensorial, uma exposição imersiva, para que as pessoas consigam vivenciar de uma forma diferente o que são mudanças climáticas, o que elas significam para a gente e o que elas significam para as cidades.

E por que focar em cidades?

As cidades, embora ocupem apenas 2% da superfície terrestre, elas são lar de mais de 50% da população mundial — no Brasil, mais de 80%. Então, falar de cidades é muito importante porque elas são causa, consequências e também são a solução. São nas cidades que estão os governos locais, onde estão as academias, os recursos financeiros, as organizações da sociedade civil. São nos grandes centros urbanos que a gente começa a reverter este cenário também.

Me fala por que vocês escolheram inaugurar a exposição na Cidade das Artes e como está funcionando?

Primeiro que a gente queria fazer no Rio de Janeiro. Nós somos daqui e a gente sente que o Rio está muito carente de eventos culturais gratuitos. Decidimos pela Cidade das Artes, primeiro, porque é linda e estamos conseguindo fazer uma cenografia incorporada à arquitetura que está funcionando super bem. Em segundo lugar, porque ela fica na zona oeste da cidade. Quem é da zona sul acaba pensando apenas em Barra da Tijuca e a zona oeste tem Bangu, Santa Cruz, Tanque, Anil, Jacarepaguá etc. que são lugares que carecem muito de eventos culturais gratuitos. Então a gente quis ocupar o espaço da zona oeste com uma exposição como essa, super tecnológica, super imersiva para toda a família, cem por cento gratuito.

Há um braço do projeto que é educativo, temos ônibus para buscar e levar crianças de escolas municipais e estaduais para visitar a exposição.

Como ficou dividido a exposição?

Cartaz da Exposição.

Ficou dividida em cinco módulos. O primeiro deles se chama Bem-vindos ao dia seguinte e é composto por uma estrutura de andaime muito bonita com uma bola bem grande de materiais reciclados, muito plástico reciclado que ia ser descartado e a gente está usando com arte e depois a gente vai entregar para cooperativas de reciclagem. Embaixo dessa escultura vai ter um piso de LED que mostra uma água super límpida passando e depois começa a ficar super sujo com petróleo, com plástico, para as pessoas terem ideia do que se trata a exposição.

Logo em seguida tem um módulo que se chama [Des]Ordem, que é um módulo de choque. Que é uma estrutura com LEDs nas paredes e no teto e com sensações como vento, fumaça, enfim que a gente vai nesses LEDs a gente vai passar vários eventos climáticos extremos. Furacão, tempestade, inundação, seca, nevasca, para mostrar durante esses quatro minutos o que a gente vai viver no futuro. Hoje esses eventos são considerados extremos, mas no futuro podem ser frequentes se a gente começar a agir desde já. Então ali a gente quer chocar.

Logo depois tem outro módulo que se chama [Des]Humanidades, que é o módulo que a gente quer sensibilizar. Então a gente mostra o que as mudanças climáticas já causam hoje para o planeta e para as pessoas. A gente fala quem são os desabrigados, número de mortes, número de afetados etc. Tem um filme bem bonito que passa numa tela de 12 metros de comprimento e a gente tem do outro lado dessa tela seis depoimentos de brasileiros que sofreram com mudanças climáticas, seja com inundação, com seca, precisar migrar para outras cidades.

Logo depois a gente tem o módulo [Trans]Formação, que é o módulo em que a gente informa. Então, a gente chocou no Desordem, sensibilizou no Desumanidades, e no Transformação, a gente informa. É uma projeção mapeada com paredes bem grandes, globo solar, globo terrestre. Tem o piso também. Mostrando como as cidades foram construídas desde o Big Bang, passando pela Pangeia, época dos dinossauros e tal, até chegar na Revolução Industrial. E aí, a gente mostra como a partir da Revolução Industrial, a gente se transformou nessas mega e complexas metrópoles e como nós, seres humanos, passamos a ser responsáveis pelas mudanças do clima, a partir do momento em que a gente descobriu a queima de combustíveis fósseis etc. E no meio desse caminho, entre a [Trans]Formação e o [Des]Humanidades, tem um espaço com 8 telas touch, duas para cada módulo e uma tela de jogos, chamado espaço [In]Formativo. Nessas telas touch a gente faz várias iconografias, animações para explicar um pouco mais sobre mudanças climáticas: quais foram as reuniões mais importantes do clima? o que é poluição plástica? o que é água? o que é energia? o que saneamento? como o planeta está esquentando? quais são as projeções do clima para o futuro? e assim por diante.

Simulação do cenário do módulo [In]Formativo. Foto: Divulgação.

E por fim, tem um espaço que se chama [R]Evolução, que é o espaço onde a gente traz a esperança. Após tudo, a gente reforça que ainda está em tempo de mudar, embora o tempo seja muito curto, ainda tem tempo de mudar, a gente ainda pode transformar o planeta num lugar melhor, numa cidade inclusivas, mais sustentável. A gente mostra exemplos de cidades pelo mundo que já fazem o esforço de utilizar uma economia de baixo carbono e assim por diante. Então a gente termina a exposição com esse olhar de esperança e conectado à zona oeste. A ONU é um dos parceiros da exposição. A gente tem um painel mostrando como o clima pode ser diferente. Se a gente tiver as políticas públicas de base que consigam oferecer qualidade de vida para as pessoas e um caminho de transição para um mundo melhor.
Daniele Bragança

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Desmatamento cresce em 2019

Ecologia,Meio Ambiente,Ambiente,Desmatamento,Amazônia,Brasil,Crimes Ambientais,Blog do MesquitaToras de madeira provenientes de plano de manejo florestal no pátio de uma unidade de conservação, em 2017, no Pará.

Boletim do Imazon mostra aumento de 54% do desmatamento da Amazônia Legal, com destaque para a destruição no Pará e Mato Grosso

O Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) acaba de divulgar os primeiros dados de 2019 de seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) e o boletim aponta que o desmatamento na Amazônia Legal aumentou 54% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

O aumento impressionante confirma as piores projeções feitas por ambientalistas, pesquisadores e cientistas políticos sobre os efeitos imediatos das políticas propostas pelo novo governo no campo. Não por coincidência, os Municípios da Amazônia que elegeram Bolsonaro no 1º turno foram os que mais desmataram nos últimos 17 anos.

No total, foram detectados 108 km² de desmatamento na Amazônia Legal. O estado do Pará foi o que mais desmatou, com 37% do total, seguido de Mato Grosso (32%), Roraima (16%), Rondônia (8%), Amazonas (6%) e Acre (1%).

A maior parte deste desmatamento (67%) ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, mas há um dado preocupante, boa parcela desta destruição ocorreu em Unidades de Conservação (5%) e Terras Indígenas (7%), o que pode indicar que a sinalização de que o governo irá afrouxar a fiscalização e paralisar demarcações já promove uma corrida pelo desmatamento.

Flertando com a volta violenta do desmatamento

O crescimento do desmatamento em 2019, apesar de chocante, já era esperado. Desde a campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro já dava sinais claros de que promoveria retrocessos na agenda socioambiental caso fosse eleito. No primeiro dia de mandato, o novo governo transferiu, através da MP 870, a responsabilidade pela identificação, a delimitação, reconhecimento e demarcação de Terras Indígenas (TIs) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), comandado pela ministra Tereza Cristina, líder da bancada ruralista. Já a Funai saiu do Ministério da Justiça e está agora subordinada ao novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

A demarcação de TIs nas mãos do MAPA representa um claro conflito de interesses, já que historicamente o Ministério defende e é largamente influenciado pelos interesses da bancada ruralista, que vem liderando um verdadeiro ataque às áreas protegidas no País.

“Combater o desmatamento é uma responsabilidade do Brasil e deveria ser tratada pelo governo como uma prioridade, já que esta é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa do país”, afirma Carolina Marçal, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Ao protagonizar a imposição de uma agenda que viola os direitos dos povos indígenas e populações tradicionais, o novo governo nos conduz a um cenário ainda mais desolador de avanço da violência no campo e destruição ambiental, confirmados pelos primeiros dados do SAD”.

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Banco Mundial anuncia US$ 200 bilhões para proteção climática

Valor é o dobro do previsto pelo Acordo de Paris e será destinado à promoção de energias renováveis e adaptação de locais ameaçados pelas mudanças climáticas.Poluição,Aquecimento Global,Meio Ambiente,Ecologia,Blog do Mesquita

Usina de carvão em operação nos Estados Unidos

Usina de carvão nos EUA: Banco Mundial alerta que sem redução das emissões e adaptações haverá 100 milhões vivendo na pobreza até 2030

O Banco Mundial anunciou que disponibilizará aos países em desenvolvimento 200 bilhões de dólares para investimentos em ações de proteção ao clima. A cifra representa o dobro do valor previsto para os próximos cinco anos, estabelecido durante as negociações do Acordo de Paris, em 2015.

Segundo a instituição, a medida, anunciada em meio à 24ª Conferência da ONU sobre o clima (COP 24), que ocorre na Polônia, representa uma aumento significativo na ambição de lidar com as mudanças climáticas, além de enviar “um sinal importante para que a comunidade internacional faça o mesmo”.

As nações em desenvolvimento se comprometeram a aumentar os gastos públicos e privados anuais combinados para 100 bilhões de dólares até 2020, para combater o impacto das mudanças climáticas. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os valores gastos por esses países na proteção ao clima foram de 48,5 bilhões de dólares em 2016 e de 57,6 bilhões em 2017.

Em comunicado, o Banco Mundial afirma que a própria instituição financiará aproximadamente 100 bilhões de dólares do total de 200 bilhões anunciado. Em torno de um terço do financiamento virá de duas outras agências do Banco Mundial, com o restante sendo fornecido por capitais privados levantados pelo grupo.

“Se não reduzirmos as emissões [de gases causadores do efeito estufa] e não nos adaptarmos agora, teremos 100 milhões de pessoas vivendo na pobreza até 2030”, alertou o executivo sênior para mudanças climáticas da instituição, John Roome. “Também sabemos que, se não lidarmos proativamente com esse problema, apenas em três regiões – África, Ásia e América Latina – teremos 133 milhões de migrantes em razão do clima”, afirmou.

Roome acrescentou que, no ano fiscal de 2018, iniciado em junho de 2017, o Banco Mundial destinou 20,5 bilhões de dólares à proteção ao clima, em comparação com a média anual de 13,5 bilhões no período de 2014 a 2018. Segundo o executivo, o novo valor corresponde a cerca de 35% de todos os financiamentos do Banco Mundial.

Parte significativa desse financiamento será dedicada à redução das emissões, principalmente através de estratégias para o desenvolvimento de energias renováveis. Segundo a instituição, outra prioridade é aumentar o apoio à adaptação ao clima, uma vez que milhões de pessoas já lidam com os efeitos das condições climáticas extremas.

Essas medidas incluem a construção de edificações resistentes aos climas extremos e a descoberta de novas fontes de água potável, uma vez que o aumento do nível do mar pode contaminar as reservas existentes.

“Ao incrementar o financiamento à adaptação direta para chegar a 50 bilhões de dólares entre [os anos fiscais de ] 2021-2025, o Banco Mundial vai, pela primeira vez, dar ênfase igual a esse objetivo, ao lado dos investimentos para reduzir as emissões”. Afirma a nota da instituição.

Sobre questões como o aumento do nível do mar e a maior ocorrência de enchentes e secas, a CEO do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, afirma que é necessário “combater as causas, mas também se adaptar às consequências que costumam ser dramáticas para as populações mais pobres do mundo”.

“Mesmo se conseguirmos manter o aquecimento global em 2º C, sabemos que será necessária uma grande quantidade de adaptações em lugares como o Chade, Moçambique ou Bangladesh”, acrescentou Roome.

Representantes de quase 200 países iniciaram neste domingo em Katowice, na Polônia, duas semanas de conversações sobre as mudanças climáticas e como implementar as medidas para manter o aquecimento do planeta abaixo de 2º C, como estabelecido pelo Acordo de Paris. A COP 24 começa oficialmente nesta segunda-feira e prossegue até 14 de dezembro.

RC/afp/ap

Amazônia,Brasil,Desmatamento,Poluição,Mineração,Meio Ambiente

Cinco mapas que mostram como a mineração impacta o meio ambiente

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Mineiro trabalhando na extração de pedras de onde será extraído o ouro. Foto: Bram Ebus

O cenário é de improviso e o processo, rudimentar. Por três meses, o repórter Bram Ebus, do InfoAmazonia, investigou o megaprojeto de mineração do presidente Nicolás Maduro na Venezuela, apresentado como saída para a crise econômica do país, depois da queda do petróleo agravar a inflação e desemprego.

O impacto social e ambiental do Arco Mineiro do Orinoco é imenso e atinge diversos povos indígenas que vivem na região. A explicação está no desmatamento e no uso do mercúrio, usado para separar o ouro de outros minerais da terra. Quanto mais rudimentar o processo de separação do ouro, maior o risco de contaminação do trabalhador e dos rios que abastecem a região.

A mineração artesanal, de pequena escala, virou um enorme problema ambiental e social impulsionada pela migração de milhares de trabalhadores para a área, a procura de um novo modo de vida. A radiografia desse deslocamento pode ser resumida em cinco mapas, que mostram o impacto da mineração no terceiro maior rio da América Latina, o rio Orinoco.

Amazônia,Brasil,Desmatamento,Poluição,Mineração,Meio AmbienteO Arco Mineiro ocupa um território de 110 mil quilômetros quadrados, divididos em quatro áreas ricas em ouro, diamante, bauxita, ferro e coltan.

Desmatamento,Brasil,Mineração,Meio Ambiente,Poluição 3A região já despertava grande interesse pela mineração. Com os poucos dados que o governo venezuelano abre sobre a área, é possível ver as reservas com atividade conhecida ou de exploração potencial. Clique nas áreas em azul para ver os detalhes de cada zona.

Desmatamento,Brasil,Mineração,Meio Ambiente,Poluição 3O impacto é grande para povos indígenas e o Arco Mineiro sobrepõe diversas terras das 198 comunidades existentes. Estes são os territórios de ocupação tradicional na região.

Desmatamento,Brasil,Mineração,Meio Ambiente,Poluição 3Locais de maior atividade mineira também sofrem com o desmatamento, que já era grande na região antes de o projeto ser anunciado pelo presidente Nicolás Maduro, em agosto de 2016. Especialistas esperam que o estímulo à mineração nestas zonas deve aumentar a destruição da floresta, o que já causa uma epidemia de malária nos locais devastados.

O impacto deve ser ainda maior porque a área está no Escudo das Guianas, uma região de solo arenoso e lar de 9.411 espécies de flora, das quais 2.136 são endêmicas – ou seja, ocorrem só nesta zona. Veja os limites do Escudo das Guianas.

Amazônia,Brasil,Desmatamento,Poluição,Mineração,Meio AmbienteOs mapas são parte da reportagem Explorando o Arco Mineiro, que foi publicada numa página especial do InfoAmazonia em português, espanhol e inglês. O conteúdo foi feito em parceria com o Correo del Caroní e apoio do Pulitzer Center on Crisis Reporting. Seus seis artigos incluem 50 fotos próprias, dez vídeos e seis mapas interativos. Clique aqui para acessar.
Por Daniele Bragança

Amazônia,Brasil,Floresta,Desmatamento

Desmatamento exige medidas urgentes no Brasil

Relatório alerta para perda da cobertura vegetal na Amazônia e no Cerrado. Organização reforça que proteção ao meio ambiente não é entrave para o desenvolvimento e deve ser prioridade do próximo governo brasileiro.Amazônia,Brasil,Floresta,Desmatamento

Caso mais de 25% da Amazônia sejam destruídos, floresta pode entrar num processo irreversível de degradação

A saúde da natureza e da biodiversidade no planeta estão em estado grave. Nas Américas do Sul e Central, e particularmente no Brasil, a situação é especialmente preocupante. A conclusão é parte do Relatório Planeta Vivo, publicado pelo WWF nesta terça-feira (30/10).

“O relatório reforça a perda que estamos vendo nos biomas brasileiros. A Floresta Amazônica, por exemplo, já perdeu 20% de sua cobertura original”, pontua André Nahur, coordenador de Mudanças Climáticas do WWF Brasil. 

No Cerrado, segunda maior vegetação na América do Sul, o desmatamento chega a 50%. Expansão da agricultura de larga escala, crescimento urbano, expansão da infraestrutura e mineração são apontados no relatório como as principais causas da destruição florestal. 

Dado o diagnóstico, medidas urgentes são recomendadas para reverter a perda da natureza. “A pauta socioambiental deve ser prioridade para qualquer governo. Ela não é um entrave para o desenvolvimento”, diz Nahur sobre os resultados do relatório no atual contexto político brasileiro, depois da eleição de Jair Bolsonaro à presidência.

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro deu declarações contrárias a políticas ambientais, direitos indígenas, áreas protegidas para conservação e o Acordo de Paris sobre o clima. Ele voltou atrás em relação a alguns dos temas depois de ser criticado.

“A nossa biodiversidade e riqueza natural são os principais ativos que temos para que o país continue crescendo economicamente. Precisamos manter as florestas, que garantem água para centros urbanos, para o agronegócio, para o setor de energia”, argumenta Nahur. 

“Efeito Bolsonaro”

Reverter a tendência do aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado é vistopor especialistas como um dos maiores desafios do próximo presidente. Em meados de novembro, dados anuais monitorados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) serão divulgados. 

Um levantamento prévio feito pelo Observatório do Clima com informações do sistema Deter B, do Inpe, indicou um crescimento do desmatamento de 36% de junho a setembro, período eleitoral, o que a organização considerou um “efeito Bolsonaro”.

“Quase certamente, os números anuais do Inpe mostrarão um aumento em relação ao período anterior. A equipe de transição do novo governo irá se preocupar ou comemorar?”, questiona Carlos Nobre, climatologista e atualmente pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Nobre é um dos autores de um estudo que concluiu que, caso mais de 25% da Amazônia sejam destruídos, a floresta entra num processo irreversível de degradação.

“Não estamos muito longe desses limites dos quais não deveríamos chegar nem perto”, afirma o pesquisador, lembrando que 20% da bioma no Brasil já se foram. 

Diante do alerta emitido pelo WWF e de posicionamentos de Bolsonaro contrários ao meio ambiente, o maior desafio será uma mudança de olhar, opina Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

“É preciso passar a enxergar o meio ambiente com olhos de 2019, e não de 50 anos atrás”, diz sobre o futuro presidente. “Derrubar florestas ou direitos de povos indígenas e aumentar emissões de gases de efeito estufa será péssimo para a imagem dele, para a reputação e a competitividade Brasil, de nossas empresas e de nossas commodities”, afirma. 

A perda de florestas e da biodiversidade, poluição, superexploração de recursos naturais e elevação da temperatura média global, provocados pela ação humana, estão levando o planeta ao limite. “Isso tudo prejudica a saúde e o bem-estar das pessoas, espécies, sociedades e economias em todos os lugares”, diz o documento.

Além da perda florestal, nas Américas do Sul e Central, foi registrada uma redução de 89% das populações de vertebrados desde 1970, segundo o relatório do WWF. No mundo, populações de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes caíram 60% nas últimas cinco décadas. Espécies estão se movendo cada vez mais rápido em direção à extinção, alerta o WWF. 

Outro fator de preocupação é o plástico, descartado muitas vezes após ser usado uma única vez e que vai parar nos oceanos, também é encontrado no organismo de cerca de 90% das aves marinhas. Em 1960, apenas 5% delas carregavam algum vestígio.

“Metade dos corais de águas rasas foi perdida globalmente em apenas 30 anos”, fala Nahur sobre o ecossistema, considerado o berçários de peixes. O sumiço dos corais é apontado como um dos impactos da elevação da temperatura média da Terra de 1,1°C em comparação com o nível pré-industrial. 

O Relatório Planeta Vivo observou as tendências em 16.704 populações que representam 4.005 espécies de vertebrados. Na edição passada, em 2016, o documento avaliou 14.152 populações de 3.706 espécies.  

A análise científica é bianual e feita desde 1998. A atual versão contou com mais de 50 cientistas e pesquisadores de diferentes órgãos internacionais. 

E se o agressor de Bolsonaro tivesse uma arma de fogo?

Pesquisadores avaliam riscos de uma ampliação no porte de armas em uma eleição polarizada e violenta

Eleições 2018 Jair Bolsonaro
Bolsonaro faz gesto de uma arma com as mãos em foto publicada pelo filho nas redes sociais. FLÁVIO BOLSONARO (AP)

Há seis meses o Brasil espera respostas sobre o crime que provocou o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). A parlamentar foi atingida com quatro tiros na cabeça no dia 14 de março em uma avenida do Rio de Janeiro, durante a intervenção militar que transferiu o controle da segurança do Estado para um general. Também no último mês de março, dois ônibus da caravana do ex-presidente Lula (PT) foram alvejados no Paraná, mas ninguém foi atingido. Cinco meses depois, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi esfaqueado enquanto cumpria agenda de campanha em Juiz de Fora (Minas Gerais). Os três casos são emblemáticos no atual contexto de grande polarização política no Brasil, que implementou há 15 anos sua política de desarmamento. Em uma sociedade acostumada a resolver seus conflitos mais banais com violência, apontam especialistas em Segurança Pública, os resultados poderiam ser ainda mais graves com a ampliação do porte de armas para a população.

“Esses casos não estão tendo uma punição rápida, então vai criando uma sensação de impunidade. Estamos chegando em um cenário de vale tudo”, analisa o pesquisador Ricardo Moura, do Laboratório de Conflitualidade e Violência da Universidade Estadual do Ceará. Um cenário que, segundo ele, comportaria o ataque protagonizado por Adélio Bispo de Oliveira contra o presidenciável Jair Bolsonaro, o mesmo candidato que defende a liberação do porte de armas como forma de proteção individual e combate à violência. “Pra se manter vivo, Bolsonaro contou, de uma forma muito irônica, com a proibição do porte de armas. Se a gente vivesse em uma situação como a que já ocorreu, de poder comprar arma em loja de departamento, o desfecho desse ataque poderia ser ainda mais brutal”, afirma Moura.

O pesquisador explica que a faca utilizada pelo agressor exige uma aproximação maior e tem um ângulo de ataque restrito ao movimento do próprio braço. Se portasse uma arma de fogo neste momento, acrescenta, a possibilidade de alvejar um órgão letal seria maior. “Se o agressor pudesse andar de forma tranquila com uma arma legalizada, o risco à vida do candidato ficaria sob uma ameaça ainda maior”, declara.

Mas nem Bolsonaro nem seus correligionários concordam com essa premissa. No sábado logo após o atentado, 8 de setembro, o deputado estadual Flávio Bolsonaro publicou no Twitter uma imagem do pai, internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein, fazendo um gesto de arma com as mãos. Em entrevista concedida nas portas do hospital, momentos antes de visitar o pai esfaqueado,  Flávio disse que sua família seguirá defendendo a ampliação do porte de armas para todos os cidadãos. “Quem mata não são as armas, mas as pessoas”, argumentou.

O assunto é polêmico. Uma pesquisa de opinião conduzida diariamente pelo Atlas Político indica que 59,7% dos brasileiros são contra a ampliação da autorização para porte de armas no País enquanto 32,2% são a favor. De um lado, a ampliação do porte de armas tem um certo clamor popular por oferecer uma suposta sensação de segurança ao cidadão. De outro, especialistas analisam que o desarmamento foi uma das políticas de Estado na área de segurança pública mais eficientes para combater os crimes de homicídio no Brasil.

“O porte de armas é um risco alto que não é percebido pela sociedade em geral”, afirma Ignacio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Segundo ele, a proteção individual do cidadão não é uma alternativa, e a única solução para a insegurança é a melhoria do serviço prestado pelo Estado. “Boa parte das mortes dos policiais no Brasil não ocorrem quando estão em serviço, mas por tentar reagir a um assalto. Imagina como seria isso com o cidadão comum armado”, projeta. Para ele, se o porte de armas para o cidadão comum fosse liberado no Brasil, o atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro poderia ter evoluído para um tiroteio grave. “Uma proliferação de armas ali seria perigosa não só para o candidato, mas para todos”, ressalta.

Flexibilização do estatuto do desarmamento

Pelo menos três dos doze candidatos à Presidência nas eleições deste ano já declararam ser favoráveis a algum tipo de flexibilização do Estatuto do Desarmamento. Jair Bolsonaro defende o porte de arma para o cidadão comum com algumas restrições, como por exemplo um exame psicológico. Álvaro Dias(Podemos) quer reduzir as negações das autorizações pela Polícia Federal, que, para ele, são não se restringem apenas aos critérios estabelecidos em lei. Já o tucano Geraldo Alckmin quer a posse de armas para os proprietários rurais. “Com tantos atentados contra os políticos, fica o questionamento para a sociedade se o Brasil tem condições hoje em ter uma política de controle de armas menos rigorosa. Eu acho que não”, afirma o diretor-executivo do instituto Sou da Paz, Ivan Marques. 

Segundo ele, o País precisa seguir com uma legislação rigorosa em relação ao acesso às armas de fogo e com políticas para o desarmamento. Isso porque a sociedade brasileira já tem a característica de resolver conflitos cotidianos — como uma briga num bar ou no trânsito — com violência. Essa característica alcança também a esfera política, evidenciada neste ano pela polarização eleitoral.  “Nós temos atualmente uma mistura nociva entre o mundo político e a violência. Tornar o controle de armas menos restritivo me parece um erro que só vai aumentar a violência brasileira, que já é enorme. Espero que os últimos atentados mostrem que não devemos ampliar, mas restringir o acesso às armas”, defende.

Influência eleitoral das facções

A violência tem sido protagonista neste ano eleitoral. Por meio da força e do crime, se tenta influenciar os resultados das urnas no dia 7 de outubro. Para além dos atentados contra os candidatos, o pesquisador Ricardo Moura cita a influência das facções criminosas em algumas regiões do Brasil. “No Ceará estão ameaçando eleitores e restringido o acesso de determinados candidatos. Nós temos no Brasil a violência da polarização e temos também o crime organizado se posicionando de uma forma política e tentando interferir na escolha do eleitor”, diz. O desafio do país é conseguir chegar ao dia 7 de outubro com o menor índice de violência possível. “Nos aproximamos de um primeiro turno muito acirrado e indefinido. É importante que a gente esteja atento também para reforçar a segurança nos dias de votação”, finaliza.
ElPais