Autogolpe de Trump fracassou por não ter apoio militar, diz Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem

Um acontecimento que não se via nos Estados Unidos desde o século 19.

Um grupo de apoiadores do presidente americano, Donald Trump, invadiu e depredou a sede do Congresso dos EUA, em Washington, após ultrapassarem as barreiras montadas por agentes de segurança, em meio a confrontos isolados.

O ato violento no Capitólio na quarta-feira (6/1) ocorreu logo depois que Trump discursou para uma multidão em frente à Casa Branca, a quase 3 km dali, repetindo acusações sem prova e rejeitadas por diversos juízes do país de que houve fraude na eleição em que perdeu para Joe Biden.

O que se viu no Capitólio foram cenas de caos, com congressistas deitados no chão, sendo evacuados e colocando máscaras antigás.
Para o professor de governabilidade da Universidade Harvard, Steve Levitsky, a invasão do Congresso foi uma resposta a “quatro anos de descrédito e deslegitimação da democracia” por parte do Partido Republicano e de Trump.

A cidade de Washington impôs um toque de recolher nesta quarta-feira a partir das seis da tarde.

Levitsky é coautor do livro Como as Democracias Morrem, de 2018, no qual expõe “os sinais alarmantes que põem em risco a democracia liberal dos EUA”.

Estudioso também dos processos democráticos e presidenciais da América Latina, Levitsky descreveu a invasão do Capitólio por apoiadores de Trump como uma “tentativa de autogolpe”, em entrevista à BBC News Mundo, serviço da BBC em espanhol.

Para ele, “a grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares” e “um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem poucas chances de sucesso”.

Apoiadores de Trump invadiram o Capitol enquanto as sessões eram realizadas para certificar votos para Joe Biden.

Segundo sua análise, “a democracia sobreviverá a este dia”, mas o que se coloca para o futuro do país é um período de crise bastante incerto.

BBC – Que interpretação o senhor dá para a insurgência de apoiadores de Trump no Capitólio dos Estados Unidos?

Levistky – Pode-se presumir que isso iria acontecer. Donald Trump e muitos, muitos líderes republicanos têm incitado, têm mentido para sua base que os democratas estão arruinando o país e subvertendo a democracia. Eles vêm dizendo isso há cinco anos.

E então, depois de perder a eleição, não só Trump mas também líderes do Partido Republicano estavam lá no Congresso, repetindo a mentira e desacreditando a legitimidade da democracia e das instituições. Depois de anos mobilizando sua base com uma linguagem que incluía termos como socialismo ou traição, pode realmente surpreender que isso esteja acontecendo depois que você perdeu a eleição?

Na história da América Latina, quando os líderes incitam seus seguidores em um ambiente altamente polarizado, as pessoas agem. Palavras têm significado, elas têm poder.

O que me surpreende nisso é como a polícia estava mal preparada.

A Polícia do Capitólio, fortemente armada, deteve alguns manifestantes

BBC – Como o senhor interpreta as reações de alguns membros do Partido Republicano e do próprio presidente Trump, que em um tuíte nesta quarta-feira (6/1) pediu a seus apoiadores que não fossem violentos?

Levistky – O presidente já foi radicalmente violento antes e, se não queria que isso acontecesse, precisava agir mais rápido e se mobilizar para evitar. Ele provavelmente não deveria ter sugerido que marchassem até o Congresso. Trump os enviou para lá, ele os incitou a se mobilizarem para o Congresso. O fato de que os líderes republicanos agora estão rompendo com Trump é hipócrita, depois de o apoiarem por anos, mas é importante e positivo. Parece-me positivo ter visto discursos como o de Mitch McConnell (líder da maioria do Partido Republicano no Senado).

BBC – Estamos diante de uma revolução, de um golpe de Estado, de uma insurreição?

Levitsky – É uma variante do que na América Latina chamaríamos de autogolpe. É um presidente mobilizando seus apoiadores para permanecer no poder ilegalmente. Será um autogolpe fracassado, mas é uma insurreição do poder para tentar subverter os resultados da eleição e permanecer no poder ilegalmente. Eu diria que foi uma tentativa de autogolpe.

BBC – Na América Latina, esse tipo de situações que o senhor descreve são prejudiciais à democracia. O senhor diria que este é um momento perigoso na história americana? Diria que a democracia permanecerá forte, e o presidente eleito Joe Biden será empossado em 20 de janeiro?

Levistky -Tenho esperado com terror por este dia na democracia americana nos últimos quatro anos. Todos os dias durante quatro anos. Nossa democracia está em grave crise e este é o ponto culminante dela. Mas não é que tenha saído do nada. Nossa democracia está em crise há vários anos e acho que vai continuar assim.

Este autogolpe vai fracassar. Aqueles que protestarem em algum momento serão retirados do Capitólio e em algum momento a eleição de Biden também será certificada, e Trump será removido da Presidência. Agora, não está claro como isso vai acontecer. Mas Trump vai fracassar, e a democracia americana sobreviverá aos eventos de hoje.

Mas isso não significa que está tudo bem. São acontecimentos aterrorizantes e prejudiciais como na América Latina. A grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares. Um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem muito poucas chances de sucesso.

BBC – O senhor fala com segurança que a democracia sobreviverá e que esta será uma tentativa fracassada.

Levistky – Hoje. Acredito que, no médio prazo, estamos nos aproximando de um período de crise. Eu digo que esta tentativa de hoje irá falhar, porque a correlação de forças não existe para apoiar Trump. Não tem apoio militar. A democracia sobreviverá quando acordarmos amanhã, mas não posso garantir o que acontecerá daqui a cinco anos. A democracia americana é um desastre.

BBC – O presidente eleito Joe Biden mencionou que a democracia estava “sob um ataque sem precedentes” com os acontecimentos desta quarta-feira. Esta situação é extraordinária no contexto da história americana moderna?

Levistky – É extraordinário e sem precedentes no contexto da história americana moderna. No século 19, o país passou por uma era de violência, especificamente nos anos anteriores à Guerra Civil, e também vivenciou violência, especificamente em nível estadual, durante anos após a Guerra Civil. Portanto, em meados do século 19, os EUA experimentaram crises ainda mais graves do que as que vemos hoje. Mas não sofremos algo assim no século 20.

Isso não tem precedentes na história democrática moderna.

Trump discursou para seus apoiadores em Washington na quarta-feira antes de invadirem o Capitólio

BBC – E quais são os mecanismos dos poderes constituídos para lidar com essa crise? Na Constituição ou nas legislaturas?

Levistky – Formalmente, existem dois mecanismos, mas nenhum deles foi usado até agora. Um é o impeachment ou o impeachment que leva à remoção. Nos EUA, ocorreram julgamentos políticos de presidentes, mas não resultaram em sua destituição do poder. É um processo bastante longo, a menos que o façamos à maneira peruana, de retirar o presidente durante a noite. É improvável que isso aconteça.

E há outro mecanismo, a emenda nº 25 à Constituição, que é mais recente porque foi aprovada em meados do século 20, e também não foi usado até agora.

Nenhum desses mecanismos foi adotado.

A América Latina tem muito mais experiência em provocar a destituição de presidentes que abusam do poder do que os EUA. A grande maioria das democracias presidencialistas está na América, mas nunca usamos o mecanismo americano para remover um presidente nos termos constitucionais.

Acho que a melhor saída seria Trump renunciar, seria que aqueles de seu próprio partido pressionassem Trump a renunciar. Ele não vai, mas deveria.

BBC – Mas ele está dizendo que não vai. Então, se ele nunca o fizer, se ele nunca ceder, o que acontece?

Levitsky – Durante o mês de novembro, esperei que sua filha e seu genro o fizessem entender, e há reportagens que indicam que ele sabe que perdeu e que deve ir embora. Uma característica de Trump é que ele não antecipa as consequências do que diz e faz. Então, eu não acho que ele previu o que acabou acontecendo hoje no Capitólio, embora ele o tenha instigado.

Acho que Trump sabe que tem que sair e acho que o cenário mais provável, apesar deste terrível golpe fracassado, é que os americanos virem a página e deixem Trump passar suas últimas duas semanas no cargo. Tudo é possível neste momento, mas parece improvável que ele tente se recusar a sair em 20 de janeiro.

Não teremos mais uma transição pacífica de poder, mas será, mais ou menos, uma transferência de poder habitual.

BBC – O senhor disse que a invasão do Capitólio é o ponto culminante de cinco anos de um intenso jogo político entre o presidente Trump e o Partido Republicano. O que o senhor acha que acontecerá no contexto de uma nova Presidência democrata de Joe Biden?

Levitsky – Eu acho que é muito incerto. Decerto não há tantas pessoas nas ruas; obviamente estão fazendo muito barulho, mas em comparação com a marcha das mulheres depois que Trump foi eleito, esta é uma festa no jardim. Não é que as massas estejam tomando as ruas, isso não é uma revolução. Esta não é a Argentina em outubro de 1945.

Então, o que eu acho, dependendo do que Trump faz, é que em algum momento ele terá que desistir. E se ele desistir e voltar para a Flórida, acho que isso vai ficar mais fraco. Ainda haverá uma direita radicalizada e mobilizada, mas não acho que Biden esteja enfrentando uma crise de governança.

Na verdade, acho que talvez isso o fortaleça. Porque agora os republicanos estão à beira de uma divisão severa. Portanto, acho que há várias coisas que podem acontecer: Uma, que o Partido Republicano finalmente se reunirá e derrubará Trump, de modo que ele acabe isolado, junto com seus aliados como (Rudy) Giuliani e as pessoas a quem perdoou. E que Mitch McConnell, Marco Rubio e até Ted Cruz acabam abandonando Trump.

Ou a outra coisa que pode acontecer é que o Partido Republicano se divida, quebre, como parecia que ia acontecer nesta quarta-feira. Não estou falando de uma divisão formal, mas de uma composição na qual há uma ala do partido que ainda está fortemente alinhada com Trump e outra ala que está tentando ir além de Trump. E se os republicanos estão divididos, isso vai fortalecer Biden.

Sem prova alguma, Bolsonaro volta a dizer que sistema eleitoral é “passível de fraudes”

O presidente Jair Bolsonaro voltou a colocar o sistema eleitoral brasileiro em xeque.

Em evento do governo sobre o setor de turismo, o chefe do Executivo disse que o sistema é “passível de fraudes”. Na semana passada, Bolsonaro defendeu a volta do voto impresso em 2022.

“Não temos sistema sólido de votação no Brasil, que é passível de fraude sim, que tudo pode mudar no futuro com fraude. Eu entendo que só me elegi como presidente porque tive muito voto e não gastei nada não. Foram R$ 2 milhões arrecadados por vaquinha”, disse.

PROVAS – Em março deste ano, Bolsonaro chegou a afirmar que tinha provas de que teria vencido as eleições presidenciais no primeiro turno em 2018. Desde então, contudo, não apresentou evidências disso. Nesta terça, em desabafo e sem entrar em detalhes, Bolsonaro afirmou que, durante a pandemia da covid-19, foi impedido de tomar certas decisões que como chefe de Estado eleito deveria ter feito.

“O que faltou para nós não foi um líder, faltou deixar o líder trabalhar, eu fui eleito para isso. Imagina se tivesse o (Fernando) Haddad no meu lugar. Ou tivesse o governador de São Paulo (João Doria) no meu lugar. Como é que estaria o Brasil? Que desgraça estaria esse País, semelhante aqui ao sul na Argentina onde fecharam tudo”, afirmou.

RIVALIDADE – Em referência à situação econômica da Argentina, o presidente disse que cidadãos do país vizinho têm se refugiado no Uruguai e até no Rio Grande do Sul. “Será que o Rio Grande do Sul vai se transformar em uma Roraima? Da Venezuela para Roraima, da Argentina para o Brasil. Nós não queremos isso. Rivalidade com a Argentina apenas futebol, nada mais além disso”, declarou.

Para uma plateia de empreendedores, Bolsonaro também disse no discurso que é preciso buscar solução e ter “coragem” para a retomada. Neste contexto, afirmou que o “parlamento também tem culpa” e reforçou suas críticas à esquerda. “Eu sei como funciona parlamento, ali tem uma corrente forte de esquerda, corrente do atraso, corrente para dividir o que é dos outros e não o deles.”

Eleições 2020 nos EUA: A mídia, a continuidade do golpe e o enterro da democracia

Foto: OAS (Missão de Observação Eleitoral nas Eleições dos Estados Unidos, Washington DC)

“…a guerra híbrida é o novo horizonte de estratégias dos EUA para a troca de regime. Ela preserva os EUA dos riscos políticos e militares associados à intervenção direta e é muito mais econômica”.
(Andrew Korybko)

A semana dominada pela cobertura das eleições norte-americanas – provocando engajamentos e emoções que, desta vez, ultrapassaram o provincianismo habitual do brasileiro, chegando a manifestações bizarras nas ruas e redes sociais – mostrou como a chamada “guerra híbrida”, não linear, orienta as atenções e as opiniões do público, prolongando a mentalidade conservadora, colonizada e a naturalização do golpe político.

Entre as histórias recentes de nossos vizinhos que passaram por dramas semelhantes a nossa, vimos a Bolívia reagindo a um governo golpista com resistência nas ruas e no voto; e o Chile refundando o país após um ano de greves e mobilizações incessantes, recusando o Estado ausente socialmente e servil ao mercado (que vem sendo implantado no Brasil). Mas esses casos receberam apenas uma fração mínima da atenção da mídia nacional. A justificativa não é dada, é naturalizada: parece claro a todos que a eleição no país dominante é mais importante para o nosso cotidiano do que a dos nossos pares. Mesmo que nossos companheiros de escravidão reajam ao verdugo, mostrando caminhos de fuga.

O marketing governamental atrelou o governo Bolsonaro a Trump, um laço que se aperta na defesa do livre mercado e no campo moral e religioso. Uma proximidade que não traz quaisquer vantagens econômicas para o lado brasileiro, mas que reforça a sensação de uma cruzada cristã, branca e retrógrada, que preserva as diferenças socioeconômicas mas rejeita a diversidade cultural. Dado este nó, a mídia convence quem está (ou sente-se) de fora do pacto, defendendo que toda postura que integre as pautas identitárias (mas preserve a primazia do mercado) é a única oposição possível aos governos conservadores. Assim sendo, duas candidaturas similares em sua essência surgem à plateia como inimigos figadais, em um cenário anunciado como a maior democracia do mundo.

O show

Garantido o ingresso, o brasileiro se portou como se espera em um programa de auditório. Muitos assistiram com constrangimento a cidadãos apoiadores de Trump saírem às ruas em algumas capitais. Por outro lado, poucos tiveram a dignidade de se sentirem embaraçados com o entusiasmo da esquerda em relação à candidatura Biden. E raros notaram os esforços heroicos dos jornalistas para explicar um sistema eleitoral mal ajambrado e obtuso, cuja única intenção é a de mitigar o poder do voto e da representatividade. Eles conseguiram dar um tom racional a um sistema que sequer possui uma Justiça Eleitoral ou um mecanismo oficial para contabilização dos votos.

Salas de conferência inundadas, apuração estancada porque os conferentes tinham sono ou porque faltou tinta na impressora, unidades da Federação com diferentes métodos de apuração e de indicação de delegados… Sem falar nos malabarismos comoventes para explicar que um candidato com milhões de votos a mais não é necessariamente eleito. Também foi difícil descrever manifestações violentas de republicanos que pediam o fim da contagem de votos em um Estado e a não interrupção da contagem em outro.

O que o mundo viu está a anos-luz de distância de nossas urnas eletrônicas, ou do pleito boliviano que garantiu o voto em vilarejos isolados nos Andes, ou das eleições venezuelanas, consideradas pela CEELA (Conselho de Especialistas Eleitorais Latino-Americanos), em 2018, como “um dos melhores processos da América Latina”, pelo “modo como todo o processo eleitoral é verificado – antes, durante e depois das eleições –, a rapidez com que são transmitidos os resultados e a aposta na tecnologia, tanto no processo de votação como no de escrutínio”. O mundo viu, em plena sede do Império, um caos sujeito à judicialização, bravatas, regras estabelecidas por algum critério válido em antiquários e um desprezo monumental pela escolha popular.

O silêncio também imperou sobre fatos que não poderiam ser explicados no roteiro do espetáculo apresentado. Por que, segundo pesquisa da Forbes, bilionários americanos preferem Biden? Por que Trump, embora tenha pedido nestes grupos, dobrou seus votos entre negros e latinos? Por que todas as pesquisas (que mostravam uma onda azul) não chegaram nem perto da realidade?

Vale lembrar que a cobertura jornalística é bancada por poucas empresas, aqui e no exterior. Quase todas as agências de notícias internacionais possuem sede nos EUA. E, como lembra Andrew Korybko em “Guerras Híbridas”, nos noticiários de televisão e das agências de notícias há o desprezo ou a criminalização dos movimentos sociais e de resistência política. As conquistas da sociedade civil são negadas, a prevalência do mercado jamais é posta em dúvida. Os conglomerados midiáticos são parceiros da estratégia de despolitização da opinião pública, recortando a realidade, jogando com desinformação, apoiando o lawfare, narrando com normalidade interferências eleitorais externas, criando explicações de governos e selecionando quem serão seus adversários.

Os movimentos populares que garantem o governo venezuelano, que asseguraram a volta do MAS na Bolívia e que estão derrubando o neoliberalismo de guia turístico no Chile permaneceram nas ruas e entenderam o papel das mídias locais. Enquanto isso, boa parte da “resistência” brasileira está comprando fogos para comemorar a vitória de Biden. E acreditando que movimentos como Ele Não ou Black Lives Matter são revolucionários. E erguendo as mãos aos céus pela “salvação da Amazônia”.

Nesta guerra sem conflitos armados, continuaremos sendo derrotados pela mídia.

Problema não é revisionismo, mas terraplanismo histórico

Nicarágua,Terrorismo,Ditadura,Ortega

Ainda que não se possa afirmar, hoje, que o Ocidente esteja vivendo um ciclo de regimes autoritários, há projetos que se apresentam nesse sentido. Essa é análise de José Rodrigo Rodriguez, doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que estuda a temática.

Em entrevista, pesquisador aponta que uma das bases de projetos autoritários é a sabotagem sistemática de qualquer base de informação objetiva. O risco, afirma, é a política virar grande obra de ficção.

Segundo o professor, a estratégia desses grupos atualmente consiste em uma tentativa de desmonte do poder regulatório do Estado e no fortalecimento de estruturas sociais conservadoras.

Em entrevista para a DW Brasil, o pesquisador comenta a utilização errônea do chamado “revisionismo histórico” a fim de descaracterizar a verdade e porque a sociedade ainda se apoia em fake news e endossa movimentos anticientíficos, como o terraplanismo.

“O problema é esse ‘terraplanismo histórico’, em que o sujeito usa argumentos enviesados para defender uma ideologia”, afirma.

DW Brasil: Podemos dizer que, atualmente, vive-se um novo ciclo autoritário no Ocidente?

José Rodrigo Rodriguez: Há projetos autoritários que estão se apresentando no mundo contemporâneo, mas não acho que estejamos vivendo, necessariamente, um ciclo de regimes autoritários. Não é possível dizer, por exemplo, que o Brasil, hoje, é um país autoritário. O que tento captar são projetos autoritários, de grupos autoritários, que sempre existiram. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Ku Klux Klan não desapareceu e outros grupos ligados à ideia de supremacia branca sempre estiveram por aí. O que parece, agora, é que, por uma série de razões, esses projetos estão ganhando força e utilizando estratégias para avançar sobre as esferas de poder.

É claro que cada país, cada história social, vai ter uma série de diferenças, mas algumas estratégias são comuns. Uma delas diz respeito ao fato de que parece que esses grupos que não estão, necessariamente, interessados em estabelecer modelos de dominação totalitários, como foi o caso do nazismo, em que o Estado controlava a educação, controlava a sociedade e a economia diretamente.

Parece que a estratégia hoje é desmontar o poder regulatório do Estado e das instâncias estatais ou desmontar as estruturas administrativas para conseguir mais autonomia para ordens normativas que estão na sociedade, como as Igrejas. Estávamos acompanhando essa discussão sobre perdão das dívidas dos templos religiosos. Esse é um caso em que fica claro o interesse em fortalecer estruturas sociais conservadoras e destruir qualquer tipo de mecanismo que possa estabelecer controle sobre elas, como a imprensa, a ciência e o próprio direito.

Na sua pesquisa, o senhor argumenta que o revisionismo histórico é um dos fenômenos do novo ciclo autoritário. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, já afirmou algumas vezes que o nazismo era de esquerda. Esse pode ser um exemplo?

Sim, ele está claramente se alinhando com esse tipo de pensamento. Qual é o problema desse tipo de estratégia? O problema não é a diversidade de opinião. Aliás, os historiadores profissionais nunca atacaram diretamente os autores revisionistas porque defendem claramente que a história não pode ser só o monopólio da universidade. O problema é que há pessoas que mentem, falseiam os fatos. Não há problema trabalhar com novas interpretações, propor uma outra visão dos fatos.

O problema é esse “terraplanismo histórico”, digamos assim, em que o sujeito usa argumentos enviesados para defender uma ideologia, uma posição extremamente idealizada. Isso rompe com todos os critérios de cientificidade da história, da apresentação de documentos, consulta de arquivos. Ninguém escreve sobre a história do autoritarismo do Leste Europeu sem consultar os arquivos que estão em Moscou, por exemplo. Ninguém escreve sobre escravidão no Brasil sem pesquisar muito antes. Há pessoas que rompem com tudo isso e o revisionismo vira um “terraplanismo histórico” que tenta se apresentar como verdade.

O chamado “gabinete do ódio”, responsável pela disseminação de notícias falsas, seria uma espécie de epítome do absurdo no qual se transformou o país?

Esse grupo parece estar emulando a estratégias de outros projetos autoritários que, justamente, tentam sabotar instituições que procuram produzir informações minimamente objetivas, nas quais nos embasamos para tomar decisões. Um dos papéis da imprensa é apurar os fatos e trazer informações objetivas a respeito de um episódio.

Quando um mecanismo como esse, que confere um mínimo de regulação sobre a política, perde-se, a política pode virar uma grande espécie de obra de ficção. Aí, tem-se um mundo livre de narrativas.

O que me parece sobre esse grupo que atua nas redes sociais para produzir essas histórias “fantásticas” é que se trata de uma atividade de constante sabotagem sistemática de qualquer base de informação objetiva, a fim de permitir que a política seja, digamos, praticada com base na pura palavra do presidente ou de quem quer seja. E, aí, você pode inventar o que quiser.

O presidente é bastante crítico aos projetos de lei que buscam combater as notícias falsas, alegando que uma regulamentação seria atentatória à liberdade de expressão. Defender fake news com base no direito à livre manifestação de pensamento também é uma característica de figuras autoritárias atuais?

Com certeza. A liberdade de expressão não é a liberdade para mentir. Quando você diz, por exemplo, que o céu é cor-de-rosa e alguém responde que é, de fato, azul, sua liberdade de expressão não está sendo limitada, mas uma informação falsa é corrigida. Quando alguém diz que não há evidências científicas de que a cloroquina funcione e outro fala que sim, esse segundo está mentindo. Não existe liberdade de expressão para veicular informações falsas sem ser corrigido. O segundo problema são os mecanismos de massificação dessas mensagens falsas, que parecem ter um objetivo claro de manipular a opinião pública. Não tenho muitas dúvidas quanto a isso. Mexer nesse “vespeiro” atinge uma das bases da estratégia desses grupos [autoritários], por isso a importância de discutir esses temas.

Quando se fala em autoritarismo, hoje, fala-se quase que automaticamente em direita. Mas não é apenas a direita que é autoritária…

O autoritarismo aparece sempre que se procura estabelecer um pensamento único. Temos manifestações de regimes autoritários da esquerda. O que diferencia, no fundo, um pensamento autoritário de um democrático é o pensamento que admite o pluralismo, a diversidade de opiniões, um espaço no qual se convive com quem discorda de você, por mais difícil que seja.

Existe, historicamente, uma dificuldade da esquerda em lidar com a democracia nesses termos, a democracia pluralista, com diversidade. Isso também é fato; não dá para negar. Inclusive, se pegarmos a produção intelectual da esquerda, haverá pouca coisa, menos do que se deveria, sobre democracia. Nós temos, também, uma tradição de esquerda autoritária, não podemos negar isso.

Outro fenômeno apontado pelo senhor como característico desse ciclo autoritário é o criacionismo. No Brasil, hoje, temos uma ministra dos Direitos Humanos [Damares Alves] que já disse que a Igreja Evangélica perdeu espaço na história quando deixou a Teoria da Evolução entrar nas escolas e um presidente da Capes [Benedito Guimarães Aguiar Neto] que defende essa doutrina.

A racionalidade permite que planejemos nossas vidas e estabeleçamos relações de causalidade. Eu preciso trabalhar, então estabeleço etapas para chegar a esse objetivo e tenho um relativo controle sobre o que acontece. O que ocorre hoje é que o pensamento autoritário se aliou a alguns grupos religiosos mais radicais – e aqui devemos tomar muita cautela porque a religião é absolutamente complexa – e acabou retirando do ser humano sua possibilidade de planejar a vida, pois ela depende da vontade do soberano, do ditador de plantão e do desígnio de Deus.

Nesse sentido, o que o autoritarismo tira das pessoas é a possibilidade de poder pensar sobre si mesmo como autor de sua própria existência, de seu destino. Essa é a luta do pensamento racional, iluminista desde sempre. É aí que reside a ideia de emancipação, de colocar-se como agente do seu próprio destino, de sua própria história. Basicamente, o que o pensamento autoritário retira dos indivíduos é a sua autonomia; procuram tirar isso da gente e colocam na mão dos líderes políticos ou dos líderes religiosos conservadores.

Dois movimentos que vêm crescendo e que, à primeira vista, parecem deslocados um do outro, mas que vão ao encontro dessa ignorância científica são o movimento antivacina e o terraplanismo. Como, em pleno 2020, com um mundo de informações passível de acesso, há pessoas defendendo teorias como essas? Ou seria o próprio excesso de informação um reflexo desses movimentos?

O que está acontecendo no mundo de hoje, e que talvez não tenhamos percebido que aconteceu, é que as pessoas estão cada vez mais – ou sempre estiveram – perdidas em um mar de informação e em um mar interferências que não conseguem controlar. Muito provavelmente, a maior parte das pessoas se sente desorientada em relação ao que acontece no governo. Temos um tipo de exercício no poder político que ainda é muito tecnocrático e não participativo; os cidadãos não sabem como o governo funciona. Nossa política, então, é meio que exercida de cima para baixo e de forma meio que misteriosa, com todos esses escândalos de corrupção.

Além disso, vivemos um cenário de incerteza completa, tanto na política quanto na nossa vida, como no mercado de trabalho. Com a pandemia isso foi acentuado. Creio que isso estimula o “pensamento mágico”, religioso, porque as pessoas querem explicações. E tem pessoas que oferece informações das quais os sujeitos precisam. E não falo aqui só das religiões neopentecostais. Vejo as pessoas conectadas com astrologia, terapias alternativas. Parece-me que são fenômenos interligados nesse sentido de desorientação geral. Além disso, há o fato de vivermos em um país que não tem uma educação científica adequada, com déficits educacionais imensos.

Precisamos criar uma sociedade que faça com que a nossa vida seja mais “previsível”, com mais segurança e capacidade de previsão do futuro profissional e de nosso futuro político. Devemos retomar, em algum limite, o controle sobre a nossa existência, pois assim esse tipo de fenômeno [de ignorância científica] tende a retroceder. No Brasil, vencer nosso déficit educacional também é necessário, mas às vezes penso que essa seja uma dívida da nossa história praticamente impagável; está aí há muito tempo e não sei se conseguiremos equacionar essa questão.

Libertários,Política Internacional,América Latina

Na Ásia Central, a ilusão de um novo mundo

A maioria dos países da Ásia Central conhece apenas um governante há várias décadas.

Após a saída desses autocratas, seus sucessores tentam manter o controle das transições políticas de alto risco. Diante da pressão de sociedades jovens e desiguais, eles temem cenários comparáveis ​​à “Primavera Árabe”. E hesite entre a abertura e a continuidade.

Regimes autoritários geralmente não gostam de transferências de poder. Em particular, quando, à frente deles, está um governante todo-poderoso forçado a ceder por causa de sua idade ou … sua morte. Formados por instituições políticas frágeis ou considerados ilegítimos pela população, a maioria dos regimes da Ásia Central viveu esse tipo de situação delicada nos últimos anos.

Muitas vezes passado de secretário-geral do Partido Comunista local ao primeiro presidente do país após a independência conquistada em 1991, os homens no cargo, após terem ocupado os cargos mais altos por várias décadas, por sua vez, deixaram seus cargos: Saparmourad Niazov no Turcomenistão e no Islã, Karimov no Uzbequistão, respectivamente, morreu em 2006 e 2016; O presidente Nursultan Nazarbayev, do Cazaquistão, deixou a presidência aos 78 anos em março de 2019; até mesmo Emomali Rakhmon, 67, está começando a pensar sobre sua sucessão à chefia do Tajiquistão após 28 anos de governo.

O Quirguistão é uma exceção. A alternância política ocorre ali por meio de uma combinação de eleições democráticas e revoluções populares orquestradas por elites divididas em facções políticas que se opõem por seus interesses econômicos e por sua lealdade de clã (Norte contra Sul).

Dois governos foram derrubados ali, em 2005 e depois em 2010. O atual regime do presidente Sooronbay Jeenbekov, eleito em 2017, está longe de incorporar um modelo de pluralismo, mas, em comparação com seus vizinhos, continua mais democrático, com um oposição menos hostilizada e uma sociedade civil ainda ativa.

Desde meados dos anos 2000, vários modelos de sucessão foram testados. No Turcomenistão e no Uzbequistão, os “pais da nação” se juntaram ao túmulo sem nomear o herdeiro, pelo menos publicamente. Mas seus substitutos, respectivamente o ex-ministro da Saúde Gourbangouly Berdymoukhammedov e o ex-primeiro-ministro Chavkat Mirziyoyev, já membros do serralho, souberam estabelecer seu poder, derrubando

Como a ditadura monitorou ativistas pró-anistia na abertura política

Documentos inéditos revelam monitoramento intenso de opositores durante a “abertura democrática”. Historiadores contestam ideia de repressão mais branda no período e apontam tentativa de garantir impunidade de militares.

Quando chegou ao Teatro da Universidade Católica de São Paulo, o Tuca, onde um show seu estava programado, a cantora Joan Baez descobriu que não poderia cantar. Naquela noite de 23 de maio de 1981, a artista americana descobriu que a apresentação havia sido censurada.

A explicação chegou por meio de um ofício assinado por Dráuzio Selmann Dornellas Coelho, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) da Polícia Federal em São Paulo. “A cantora alienígena Joan Baez”, dizia o texto, havia descumprido a exigência de submeter a programação do espetáculo previamente à apreciação do órgão.

Com a proibição, o Brasil se juntou ao seleto grupo de países que proibiram Baez de se apresentar, composto por Argentina e União Soviética. Sentada na primeira fila da plateia, a cantora entoou, à capela, Blowing in the wind, de Bob Dylan, e Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré.

O fardo de comunicar o cancelamento do show ao público de 1.500 pessoas que lotava o Tuca coube ao então deputado estadual Eduardo Suplicy, hoje vereador de São Paulo pelo PT. Ele havia conhecido Baez nos Estados Unidos, onde cursou mestrado e doutorado em Economia na Universidade de Michigan, e tinha ido a shows da cantora no país.

Em São Paulo, ele fora procurado pela equipe da artista para organizar um encontro com Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. À época, Baez presidia a Sociedade Humanitas Internacional, entidade sindical dos EUA. O grupo almoçou em São Bernardo no dia do show proibido.

Abertura democrática sob vigília

O apoio à cantora é um dos fatos descritos em um relatório de 24 páginas sobre as atividades de Suplicy, produzido pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) em 1983, período de “abertura democrática” do regime militar. No texto, ele é apontado como “militante de esquerda radical”, em trecho que aborda sua participação num congresso de mulheres no mesmo Tuca.

“Que atividade tão perigosa, posicionar-me a favor da liberdade de Joan Baez”, ironiza Suplicy, questionado hoje sobre o teor do documento. Mas não se tratou de um monitoramento exclusivo ao então jovem deputado. Documentos inéditos localizados no Arquivo Nacional ­revelam um monitoramento intenso de ativistas e organizações que defendiam a bandeira da anistia política nos anos 1970 ­– mesmo após a aprovação da Lei da Anistia, em 1979, que completa 41 anos nesta sexta-feira (28/08).

Os arquivos mostram que a ditadura militar acompanhou de perto congressos, reuniões e até cultos ecumênicos com a participação de ativistas do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA) e do Movimento Feminino pela Anistia (MFPA). O monitoramento se estendeu aos exilados políticos que organizavam atos em favor da anistia no Brasil em outros países.

Na segunda metade dos anos 1970, havia um tensionamento entre os projetos de abertura política do regime, no poder desde o golpe de 1964. Enquanto os militares pregavam a abertura “lenta, gradual e segura”, o CBA assumiu o protagonismo da luta nacional pela anistia “ampla, geral e irrestrita”.

“A luta pela anistia rompeu com o medo da ditadura”, afirma o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, fundador e ex-presidente do CBA. “As pessoas começaram a ir para as ruas, enfrentar de fato o regime militar. O movimento reuniu diferentes setores democráticos, da Igreja Católica e da sociedade civil num grito de basta contra a tortura, o desaparecimento e o arbítrio”, avalia.

Impunidade dos militares

Apesar da pressão exercida pelos movimentos sociais, o governo conseguiu aprovar a sua versão da Lei da Anistia no Congresso, por quatro votos de diferença. Alvo de questionamentos até os dias de hoje, inclusive em ações no STF, o texto equiparou os atos cometidos por presos políticos com os crimes de Estado perpretados pelos agentes da ditadura.

Dessa forma, a Lei da Anistia libertou os presos políticos, mas garantiu a impunidade sobre as violações de direitos humanos praticadas no período. Diferentemente da luta armada, a mobilização em torno da anistia era pacífica, e justamente por essa razão conseguiu aglutinar diferentes camadas da sociedade civil organizada.

Mesmo assim, um relatório produzido pelo SNI em 26 de setembro de 1979 – menos de um mês após a aprovação da Lei da Anistia – caracteriza os movimentos como defensores de “terroristas” e “subversivos”.

“As referidas ‘bandeiras’, entretanto, se identificam com a doutrina das organizações de frente do Movimento Comunista Internacional (MCI), respectivamente a ‘Anistia Internacional’ e o ‘Tribunal Bertrand Russell'”, diz o texto, que vincula a ONG e a corte de direitos humanos ao “comunismo”.

A abordagem chamou atenção do historiador Lucas Pedretti, enquanto estudava os documentos em sua pesquisa de doutorado. Ex-assessor da Comissão Estadual da Verdade e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj), Pedretti vê um paralelo claro entre a preocupação da ditadura em deslegitimar os movimentos pela anistia e a posição adotada pelos militares após o fim do regime a respeito das políticas de memória e reparação.

“Todas as vezes em que houve qualquer tipo de avanço nas políticas de memória e reparação no Brasil, havia um conteúdo fundamental do qual os militares não abriam mão de jeito nenhum: a garantia da manutenção da lei da anistia como manto de impunidade para os torturadores”, afirma.

Em dezembro de 2014, a família do general Leo Etchegoyen emitiu uma nota contra a inclusão de seu nome na lista de 377 nomes de militares considerados responsáveis por crimes durante a ditadura no relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

Entre os signatários da nota, estava o general da ativa Sergio Etchegoyen, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Michel Temer. Em junho deste ano, o TRF-4 negou um pedido da família para que o nome do general fosse retirado da lista.

Período brando?

Autora do livro Os vigilantes da ordem, resultado de seu trabalho de mestrado pela Universidade de São Paulo (USP), a historiadora Pâmela de Almeida Resende destaca como a vigilância intensa sobre ativistas e organizações em prol da anistia confronta a visão de que os últimos anos da ditadura teriam sido “brandos” no campo da repressão política.

“Houve uma cristalização na opinião pública de uma imagem dos presidentes da abertura como moderados, responsáveis pela distensão do Brasil para o mundo democrático. Esse tipo de visão cai em uma periodização demarcada da violência, restrita aos ‘anos de chumbo'”, avalia a historiadora.

Almeida Resende recorda que, ao longo dos anos 1970, e sobretudo após a posse do presidente Ernesto Geisel em 1975, os números oficiais de mortos caem progressivamente, enquanto aumentam os de desaparecidos.

“É um jeito sofisticado de abordar a repressão, que causa menos impacto do que falar em mortes. A violência acontece de maneira diferente ao longo dos 21 anos de ditadura, mas não deixa de acontecer. Outro presidente apontado como moderado é o Castelo Branco, responsável por atos institucionais que cassaram mandatos e direitos políticos”, lembra.

Redes Sociais e o fascismo de Trump

Quando o presidente dos Estados Unidos propôs no Twitter a suspensão das eleições de novembro, ele deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de outra forma.

“Com a votação por correspondência universal (não a votação de ausência, o que é bom), 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os EUA. Atrase a eleição até que as pessoas possam votar de forma adequada, segura e segura ??? ” Isso é o que o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu em uma mensagem no Twitter em 30 de julho de 2020.

O que significa para o presidente dos Estados Unidos propor a suspensão das eleições de novembro? O tweet de Trump proclama que a próxima eleição será “imprecisa e fraudulenta“. No entanto, na medida em que os americanos têm problemas para votar, eles são culpa do presidente e de seus aliados. Trump está fabricando uma crise: criando um problema, culpando os outros por ele e usando-o para reivindicar o poder.

Metade dos estados americanos aprovou recentemente leis que parecem ter o objetivo de dificultar a votação dos americanos não brancos. Qualquer pessoa que desejasse que os Estados Unidos fosse uma democracia representativa iria reverter isso. Nos últimos meses, mais americanos do que nunca se conscientizaram do racismo que exclui as vozes negras da política. No entanto, longe de buscar uma solução para esse problema, Trump usou os protestos como desculpa para colocar uma nova polícia secreta americana nas ruas.

Quando em 2019 o Congresso aprovou um projeto de lei que teria acabado com esses abusos e facilitado o voto de todos os americanos, ele foi bloqueado pelo Senado, que é controlado pelo partido de Trump, os republicanos.

A maior fonte de imprecisão e fraude na democracia americana é a privação de direitos dos eleitores negros

Uma segunda ameaça às eleições de novembro é a intervenção estrangeira. Aqui, novamente, Trump é a fonte do problema e o tornou pior. Nas eleições de 2016, Trump conscientemente ganhou vantagens com uma campanha russa na Internet destinada a torná-lo eleito. A Rússia divulgou e-mails de seu oponente, Hillary Clinton, e a Rússia influenciou as conversas políticas nas redes sociais. Uma importante cientista política, Kathryn Hall Jamieson, concluiu que eles provavelmente levaram a eleição para Trump. Como sabemos pelo novo livro do historiador David Shimer, Rigged: America, Russia and 100 Years of Covert Electoral Interference, a administração Obama acreditava que a Rússia em 2016 também tinha a capacidade de intervir diretamente na contagem dos votos.

No cargo, Trump negou que nada disso tenha acontecido e puniu aqueles que chamaram a atenção para o curso real dos negócios. Agora sabemos que Trump no cargo continuou a solicitar ajuda de governos estrangeiros para ser reeleito. Ao perdoar seu aliado Roger Stone, que serviu como intermediário entre a campanha de Trump e a Rússia em 2016, Trump enviou um sinal óbvio de que espera se beneficiar da intervenção russa em 2020. O Congresso aprovou um projeto de lei que foi criado para tornar o sistema eleitoral americano mais defensável da Rússia ou qualquer intervenção estrangeira. Isso também foi bloqueado pelo Senado controlado pelos republicanos.

A questão que Trump menciona no tweet, a alta taxa de votação por correspondência, também é resultado de suas próprias ações. É importante notar, entretanto, que não há nada de errado em votar pelo correio. O próprio Trump vota pelo correio, assim como muitos de seus conselheiros mais próximos. Votar em papel é muito mais seguro do que votar digitalmente.

A razão pela qual os americanos desejam votar pelo correio em 2020 é sua própria segurança. O país está no meio de uma pandemia que já matou 150.000 pessoas. A escala do sofrimento, da morte e do medo é resultado das próprias decisões de Trump: contestar a ciência, enviar o sinal de que as pessoas não devem usar máscaras, se opor ao teste sistemático que é uma condição necessária para o tratamento e para impedir a propagação da doença.

Na medida em que o serviço postal dos EUA não pode lidar com a correspondência extra, isso também é claramente culpa de Trump. Ele vem atacando o serviço postal há anos e recentemente nomeou um doador não qualificado como chefe dos correios. O novo postmaster general tomou decisões que parecem destinadas a fazer o serviço postal funcionar mal. Os americanos já notaram que seu correio está atrasado.

Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja pela eleição.

Dadas essas contradições, que não são segredo para ninguém, como Trump pretendia que sua mensagem fosse entendida? Trump não é tolo. Ele sabe que tem poucas chances de vencer a eleição em novembro por meios normais. Ao enviar esta mensagem, ele está concedendo a eleição a seu rival democrata Joe Biden e iniciou a busca por outra forma de permanecer no cargo. Seu tweet se destina não àqueles que discordam dele, mas àqueles que estão dispostos a segui-lo para a tirania.

Em seu tweet, Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja por eleição. Ele sabe que não tem poder para atrasar as eleições. O que ele busca com este tweet são aliados nos Estados Unidos, ou no exterior, que ajudem a criar uma situação em que uma eleição parece impossível.

O tweet de 30 de julho é, portanto, um ponto de viragem. Antes dessa data, os apoiadores de Trump podiam dizer a si mesmos que estavam envolvidos em uma campanha presidencial normal. Após essa data, os apoiadores de Trump devem enfrentar sua alegação aberta de que a eleição de novembro não contará. Isso levanta a questão de o que significa agora estar do lado do presidente dos Estados Unidos. É claro que significa ser contra a democracia e a favor do autoritarismo.

Qualquer pessoa que apoiar Trump depois de 30 de julho fez uma escolha moral: por uma pessoa e contra a constituição americana. Todos que trabalham para a campanha de Trump, doam dinheiro ou planejam votar nele foram avisados: agora são todos atores de uma charada, mantendo as aparências até novembro, fornecendo cobertura para a ação real, que será em algum lugar outro. Esses três pontos de interrogação no final do tweet são um sinal de que alguém deve encontrar uma maneira não democrática de manter Trump no poder. Há um consenso notável entre os pensadores americanos, desde um importante intelectual público de esquerda a um importante professor de direito de direita, que o tweet de Trump foi “fascista”.

Eu mesmo escrevi nessa linha. Mas isso pode ser profundamente verdadeiro em um sentido que até agora foi esquecido. Como mostrou o historiador inglês Ian Kershaw, o estilo nazista era “trabalhar em direção ao Führer”: entender uma mensagem de um líder não como uma série de proposições lógicas ou observações empíricas, mas como um guia de como o mundo deveria ser, como uma dica de para o que os seguidores devem fazer. Nesse caso, a dica é que as eleições devem ser estragadas: uma dica que pode ser aproveitada pelo postmaster geral de Trump, ou por legislaturas estaduais republicanas, ou por americanos armados.

Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá

É improvável que prevaleçam, entretanto. Demorou um pouco, mas agora muitos americanos, mesmo que não entendam bem o significado mais profundo do estilo de Trump, estão cientes de que precisam estar preparados para uma eleição diferente de qualquer outra. Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá. Esse é o outro significado desses três pontos de interrogação: Trump espera que outra pessoa infrinja a lei para que ele possa permanecer no poder, mas não tem intenção de assumir a responsabilidade pelo que acontecerá a seguir. Ele deixará para outros a tarefa de paralisar a democracia americana para que ele possa viver com conforto. Se a Rússia tentar isso, quase certamente enfrentará toda a ira de um governo Biden. Se os americanos tentarem “trabalhar para o Führer”, seu líder os trairá no final.

Essa é a única maneira pela qual Trump é perfeitamente consistente: tudo se refere a ele e todos devem ser sacrificados a ele. Ao contrário dos fascistas tradicionais, ele não sonha com uma causa grande e terrível. Ele simplesmente espera que outros sofram por ele.

Timothy Snyder é o professor Levin de História na Universidade de Yale e membro permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena. Ele é o autor, mais recentemente, de On Tyranny e The Road to Unfreedom. Seu novo livro, Our Malady, será publicado em setembro.

A mulher que desafia o último ditador da Europa

Svetlana Tikhanovskaya reconhece que é muito difícil vencer uma eleição em Belarus, mas, mesmo assim, ela representa o maior desafio que o autoritário presidente Alexander Lukashenko já enfrentou em 26 anos de poder.

Svetlana Tikhanovskaya não tem experiência política e era dona de casa antes de se candidatar.

Uma dona de casa de 37 anos é a principal adversária do presidente Alexander Lukashenko, de 65 anos, na eleição presidencial deste domingo (09/08) em Belarus. “Não sou uma política”, disse a candidata oposicionista Svetlana Tikhanovskaya num comício eleitoral. “Eu gostaria de ter a minha família de volta e voltar a fritar almôndegas”, afirma.

Lukashenko, que busca seu sexto mandato no país, referiu-se à adversária como “pobre menina”. No poder desde 1994, ele é conhecido como “o último ditador da Europa” e enfrenta crescente descontentamento na população por causa da sua displicente gestão da pandemia do coronavírus e das dificuldades econômicas.

Belarus, um país de 9,5 milhões de habitantes, tem oficialmente mais de 68 mil casos de covid-19 e cerca de 580 mortes. Críticos afirmam que os números foram manipulados e que a situação real é bem pior. Lukashenko anunciou no mês passado que foi infectado pelo novo coronavírus, mas não apresentou sintomas. Ele defende sua gestão da pandemia e afirma que um lockdown teria piorado ainda mais a situação econômica.

Lukashenko é criticado por minimizar a pandemia. Ele mesmo acabou infectado pelo coronavírus

Tikhanovskaya virou candidata à presidência por acaso. O marido dela, o popular blogueiro Serguei Tikhanovski, de 41 anos, queria concorrer, mas sua candidatura foi logo barrada. Pouco antes do início da campanha eleitoral, em maio, Tikhanovski foi preso por causa de sua participação em manifestações não autorizadas, no início do ano.

Como o marido não podia concorrer, Tikhanovskaya resolveu entrar na corrida eleitoral no lugar dele. A candidatura dela foi surprendentemente aceita. Depois de deixar a prisão, o marido chegou a comandar a campanha dele, até ser preso de novo. Desde então, ele está em prisão preventiva e é acusado de uso de violência contra policiais. Apoiadores dele falam que a acusação é uma provocação.

Pouco se sabe sobre ela, que nunca teve uma vida pública nem se interessou por política. Tikhanovskaya é oriunda de uma cidade no sudeste de Belarus, uma antiga república soviética. Ela estudou línguas estrangeiras e trabalhou como tradutora em Gomel, a segunda maior cidade do país. Lá conheceu o marido, tornou-se mãe de duas crianças e dona de casa.

Tikhanovskaya diz que conheceu o país acompanhando o marido, que viajava muito por causa do videoblog que ele começara no início de 2019 no YouTube. Nessas viagens, ela aprendeu muito sobre o país e sua gente, afirma a candidata.

Depois de recolher as cem mil assinaturas necessárias para a aprovação da sua candidatura, Tikhanovskaya foi aceita pelas autoridades na corrida eleitoral. Sua equipe foi reforçada por dois pesos-pesados da política local que tiveram as candidaturas rejeitadas: o ex-banqueiro Viktor Babariko e o antigo diplomata Valery Tsepkalo, que está no exílio.

Tikhanovskaya também se aliou a outras duas mulheres: Veronika Tsepkalo, casada com o opositor no exílio, e Maria Kolesnikova, diretora de campanha de Babariko.

Os comícios da candidata chegaram a atrair dezenas de milhares de pessoas, o que é pouco comum em Belarus, onde a população tende a se mostrar apática diante da política. Em 30 de julho, dezenas de milhares de pessoas participaram em Minsk de uma concentração de apoio à principal candidata da oposição, num raro desafio à liderança autocrática de Lukashenko.

O programa eleitoral de Tikhanovskaya foi sendo criado ao longo da campanha. Ele tem apenas alguns pontos centrais: a independência de Belarus, a liberdade para presos políticos (incluindo o marido dela) e eleições livres em seis meses. Depois desse período, Tikhanovskaya quer se afastar da política e voltar a ser dona de casa.

Nos seus primeiros comícios, Tikhanovskaya demonstrava insegurança, mas seus apoiadores veem nela autenticidade. Desde então, ela demonstra ter aprendido a se apresentar diante de um grande público e demonstra mais autoconfiança. Ela se apresenta hoje como “um símbolo de mudança”.

Ela afirma que não é uma especialista em temas complexos, como política externa e reformas econômicas. Ela mostrou que sabe responder à altura as provocações de Lukashenko. O “eterno presidente” sugeriu que só quem já prestou serviço militar poderia ser chefe de Estado, ao que ela retrucou que só quem já foi mãe é que deveria poder se candidatar.

Em apenas dois meses, Tikhanovskaya experimentou uma grande ascensão na corrida presidencial, o que demonstra que muitos bielorussos estão cansados do seu presidente e querem tirá-lo do poder – pouco importando quem entrará no lugar dele.

Mas a própria candidata reconhece que uma vitória da oposição é muito difícil num país onde o governo controla a sociedade com mão de ferro. “As pessoas acordaram e redescobriram a autoestima'”, declarou à agência de notícias AFP. “Mas é preciso ser realista.” Ela admitiu estar “sem esperanças” para uma eleição presidencial justa e considerou que já ocorrem “fraudes escandalosas”. Depois de sofrer ameaças, ela enviou os filhos ao exterior.

Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), uma organização internacional para a promoção da democracia e dos direitos humanos, não foram convidados para acompanhar a eleição pelas autoridades de Belarus.

Proibições de fala e cultura do cancelamento ameaçam a democracia

Enquanto uns gritam “fake news!”, o outro lado responde “cancelando” o adversário. Em clima de populismo, intolerância e demagogia, as regras do discurso entram em colapso. Mas há uma solução, opina Alexander Görlach.

Sejam liberais versus republicanos nos Estados Unidos, pró-Brexit versus anti-Brexit no Reino Unido: quando, apesar de todos os esforços, não é possível evitar um confronto, a coisa lembra um encontro imediato de terceiro grau. Um lado acusa o outro de disseminar fake news, ao que este responde “cancelando” seus atacantes.

“Fake news!”, bradam os que alegam que uma elite de esquerda, cosmopolitas e a mídia estão reconfigurando a sociedade. Entre os que repetem esse canto de guerra, estão os seguidores do presidente americano, Donald Trump, ao afirmar que a pandemia de covid-19 não passaria de uma fraude dos democratas, não sendo, portanto, genuína, e sim “falsa”.

Os assim difamados, por sua vez, traçam uma nítida linha divisória entre si e os outros. Definem-se com rigor palavras, seu significado e os contextos em que podem ser ditas, de forma que qualquer dissidente é punido com um banimento que lembra as excomunhões proferidas pela Igreja Católica na Idade Média.

Em 2015, o Nobel de Medicina inglês Tim Hunt teve um gostinho disso, depois de meter os pés pelas mãos com um comentário. Numa conferência, ele afirmou que as (mulheres) cientistas “se apaixonam por você, e quando você as critica, elas choram”. Foram inúteis todas as suas desculpas por essa declaração imbecil, ele teve que devolver diversas distinções e perdeu o título de professor honorário. Bastou um lapso para Hunt e o conjunto de sua obra serem “cancelados”.Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 05

Em tal clima de tensão social, não espanta que, mesmo num país como os Estados Unidos, conhecido por sua veneração extrema da livre expressão, não se tenha mais paciência para essa briga.

Um estudo de 2018 mostrou que os membros da ala republicana estavam cansados das proibições de fala que sentiam ser-lhes impostas, as percebiam como ataque à própria identidade e não estavam mais dispostos a aceitá-las. No espectro esquerdista, liberal, os consultados admitiram não dar mais conta de aprender e empregar todos os novos termos politicamente corretos com que seus colegas apareciam a cada dia.

Recentemente, intelectuais de prestígio mundial, como os autores Salman Rushdie, Margaret Atwood e J.K. Rowling, ou o linguista Noam Chomsky, assinaram uma carta aberta criticando duramente a ala liberal e seu gosto de “cancelar”.

O escrito veio em reação à saída da comentarista conservadora Bari Weiss do The New York Times. Ela fora expressamente contratada após a eleição de Trump para assegurar que opiniões consideradas controversas pelo espectro liberal seguissem sendo publicadas no jornal, mas jogou a toalha depois de três anos, por ser impedida de cumprir exatamente essa função.

Uma sociedade em que proibições de fala abrangentes dominam, e o medo governa as línguas, acabará deixando de ser uma democracia. Mas, como reencontrar o caminho do debate construtivo nos EUA, Reino Unido, Alemanha e outros?Blog do Mesquita,Censura,Constituição Federal (3)

Em primeiro lugar, é preciso definir novamente o que são fatos. Desde a Antiguidade Clássica, distinguimos doxa, opinião, de episteme, conhecimento. Fatos, a base do saber, geram opiniões diversas. Uma opinião, contudo, não leva a conhecimento fundamentado.

Por outro lado, fatos empíricos, sozinhos, não resolvem problemas. Toda pesquisa de ciências sociais, por maior que seja a precisão metodológica ao realizá-la, termina com a pergunta: o que significam os dados assim compilados?

Aqui sempre houve diferentes abordagens e pontos de vista – e é preciso que haja. Para reconhecê-los, é preciso a autoavaliação saudável – nossos ancestrais chamavam isso “humildade” – de que nunca se pode saber tudo, e que por isso é também preciso escutar opiniões alheias.

Discurso é a mediação entre as diferentes interpretações possíveis dos fatos. E como fatos não são opinião, essas possibilidades têm limites. Quem se move além desses limites não está mais jogando segundo as regras do discurso. É certo que cada um tem direito à própria opinião, mas isso não implica que toda opinião assim expressa seja automaticamente verdadeira.

Quem valida a verdade de uma opinião não é quem a expressa, mas sim o poder lógico e verbal com que os fatos são apresentados, interpretados e avaliados.

Nos últimos 15 anos, despontaram, por todo o mundo democrático, protagonistas que gradualmente deslocaram os limites entre interpretação legítima e mera sensação visceral. Para que sua vitória parcial não culmine num triunfo, que ao mesmo tempo seria o fim da democracia, é preciso que, num grande esforço conjunto, os indivíduos de boa vontade, no espectro de esquerda, verde, liberal e conservador, reassumam o controle dos fatos. Uma vez que estes sejam arrancados das mãos dos populistas e demagogos, pode recomeçar uma luta justa e construtiva pelo melhor caminho para a sociedade democrática.

Alexander Görlach vive em Nova York e é membro sênior do Carnegie Council para Ética e Assuntos Internacionais e pesquisador sênior associado da Universidade de Cambridge, junto ao Instituto para Religião e Estudos Internacionais. Com doutorado em linguística e teologia, foi também bolsista e acadêmico visitante na Universidade de Harvard de 2014 a 2017 e acadêmico visitante na Universidade Nacional de Taiwan e na Universidade da Cidade de Hong Kong de 2017 a 2018.

Covid-19; apó a pandemia os giganjtes da tecnologia terão ainda mais controle sobre o que você vê e pensa

Os algoritmos do Vale do Silício estão controlando seu mapa cognitivo, e os governos estão deixando isso acontecer. O Covid-19 está fornecendo a cobertura perfeita para reforçar esse controle – bem a tempo das eleições de 2020.

O neoliberalismo foi a cobertura perfeita para os oligarcas desencadearem guerras ideológicas para proteger os bilhões que saquearam dos contribuintes. Trilhões de dólares fluíram para o Vale do Silício, o berço da censura digital – censura que, sob muitos aspectos, é mais perigosa e insidiosa do que o golpe fracassado d’état de um presidente dos EUA apoiado no discurso com a farsa rússia e a farsa do impeachment.

Nas últimas duas décadas, as sociedades democráticas foram manipuladas pelos gigantes não-regulamentados de alta tecnologia do Vale do Silício, que agora controlam o fluxo de notícias e atacam com a Amazon, Facebook, Google, Twitter, YouTube, Instagram, Netflix, PayPal, Reddit, TikTok, Microsoft e Amazon, Apple e a perigosa Internet Of Things (acelerada pela 5G).FOTO DE ARQUIVO: Sheryl Sandberg do Facebook, uma forte defensora dos Clintons © Reuters / Philippe Wojazer
É difícil encontrar provas concretas, pois você nunca pode pegar os gigantes da tecnologia em flagrante. A maneira como eles propositalmente ocultam todos os seus dados e algoritmos de marca registrada serve apenas para reforçar as suspeitas e as evidências dispersas. Mas seus motivos têm sido transparentes em suas próprias declarações e ações públicas.

Covid-19 é a diversão perfeita.

Enquanto o Congresso passa movimentadamente mais resgates de bilhões de dólares para bilionários, a alta tecnologia furtivamente garante que as futuras gerações se tornem viciados em digital que cegamente aceitam e abraçam, como ovelhas, o surgimento da tirania digital. Os estudantes de hoje tropeçam como zumbis em transe, com os olhos fixos nos celulares, com medo de perder as atualizações em tempo real do Instagram ou os memes mais recentes do TikTok. O desenvolvimento do 5G pode resultar em uma Segunda Guerra Mundial silenciosa que garante o rápido desaparecimento de uma sociedade ocidental zumbificada sem que um único tiro seja disparado.

Os algoritmos do Vale do Silício determinam o conteúdo que você vê, quando o vê, como o vê ou se o vê. Se os “moderadores” sombrios e sem rosto discordam do seu ponto de vista ou se opõem à narrativa neoliberal oficial, ela desaparece e você é banido das sombras. Por exemplo, acredito firmemente que meu feed do Twitter do @PlanetPonzi é de sombra. O CEO do Twitter, Jack Dorsey, endossou um artigo como uma “ótima leitura”, no qual os autores refletiram como a política dos EUA ficou tão ruim (sob a Casa Branca Trump) que “não havia um caminho bipartidário a seguir … e o país está à beira de uma guerra civil.”

Eles continuaram: “Neste período atual da política americana, neste momento de nossa história, não há como um caminho bipartidário fornecer o caminho a seguir”. O apoio de Dorsey a este artigo estabelece um precedente que permite uma cultura tóxica no Twitter, o que provavelmente se refletiu na seleção de contas dos funcionários para o shadowban. Vice conduziu uma investigação que revelou como as famosas vozes conservadoras que usavam o Twitter eram constantemente suprimidas mais do que as contas liberais.

O Twitter nunca abordou os resultados do Vice e mais tarde negou alegações dizendo que era um erro ou que “sinais baseados em comportamento” aumentam a visibilidade de certas contas, enquanto suprimem a visibilidade de outras pessoas como parte do objetivo do Twitter “de melhorar a saúde das conversas públicas em Twitter.” Então, para reiterar, vozes conservadoras, incluindo membros existentes do Congresso dos EUA, como Matt Gaetz, foram suprimidas no Twitter.

Devido à natureza opaca do Twitter, é impossível afirmar que o Twitter aumenta as contas individuais, garantindo que as postagens com as quais os moderadores do Twitter discordam nunca sejam vistas, mas é altamente provável. As avaliações estratosféricas “baseadas em fraudes por clique” das empresas sem fins lucrativos de zumbis do Vale do Silício continuam extraordinárias. A avaliação de US $ 20 bilhões do Twitter é hilária. A Elliott Management, de Paul Singer, é um investidor corajoso que acredita e confia no modelo de negócios do Twitter.

Outro exemplo pode ser encontrado simplesmente olhando os comentários direcionados a Boris Johnson, enquanto ele está sentado no hospital lutando contra o Covid-19. As pessoas estão pedindo sua morte e afirmando que ele merece estar nessa situação. Esses comentários ainda apareceriam se eles pedissem a morte de um liberal? Tudo bem, simplesmente porque Johnson é um conservador?

E não é apenas o Twitter.

Apesar de seu testemunho juramentado, a Pesquisa do Google foi flagrada manipulando dados de pesquisa, ocultando dados e criando algoritmos que fazem exatamente isso e não deixam evidências. Por exemplo: os artigos que escrevo são ocultados pela Pesquisa do Google (tente pesquisar no Google ‘Feierstein’, ‘Mitchell Feierstein’, ‘Feierstein rt.com’ e ‘Mitchell Feierstein rt.com’ e compare os resultados).

Cientistas de dados e psicólogos têm a mesma opinião. Dê uma olhada nos estudos de Ronald E. Robertson sobre o Efeito de manipulação de mecanismos de pesquisa publicados nos Anais da Academia Nacional de Ciências, que são fascinantes e condenadores.

Esses porteiros digitais têm o poder de controlar e manipular populações por meio da coleta de big data. Seu perfil digital contém um registro de tudo que você faz. Você está sendo rastreado e todos os seus movimentos e ações são gravados. Esses dados valiosos são compilados e armazenados pelas empresas listadas acima. Esses dados são valiosos e baseiam-se em suas preferências e em todos os itens que você pesquisou ou comprou na Internet, nas lojas que você visitou e nos lugares pelos quais viajou, seja de carro, ônibus, trem ou avião. Google, Amazon, Facebook e outros. estão gravando todos os seus movimentos. Todas essas são, pelo menos nominalmente, funções de exclusão – mas as empresas estão contando descaradamente que as pessoas não estão sendo incomodadas o suficiente para vasculhar as configurações e desmarcar todo isenções de responsabilidade de pequenos scripts.Tecnologia,Internet,Redes sociais

Parece assustador? Bem, é sim. O pior é que o controle total dos dados do consumidor – e o poder resultante de influenciá-lo – é combinado com preferências políticas claramente expressas.

Teddy Goff, estrategista de campanha digital de Hillary Clinton em 2016, enviou o seguinte email a Clinton e John Podesta, gerente de campanha de Clinton:

“As relações de trabalho com o Google, Facebook, Apple e outras empresas de tecnologia foram importantes para nós em 2012 e devem ser ainda mais importantes para você em 2016, dadas as posições ainda em ascensão na cultura. Essas parcerias podem trazer uma série de benefícios para a empresa. uma campanha, do acesso a talentos e possíveis doadores ao conhecimento antecipado de produtos beta e convites para participar de programas-piloto. Começamos a ter conversas discretas com algumas dessas empresas para entender suas prioridades para o próximo ciclo, mas encorajamos você, assim que sua liderança em tecnologia estiver no lugar, a iniciar discussões mais formais. ”

Você se lembra do slogan do Google “Não seja mau”? Bem, o Google é mau. É um dos maiores doadores da classe política irresponsável e paga de Washington.

A China contratou Eric Schmidt, do Google, para criar um sistema de crédito social chinês que espionasse e censurasse grande parte da população chinesa. Em resposta, os funcionários do Google publicaram a seguinte declaração: “Nos recusamos a criar tecnologias que ajudem os poderosos a oprimir os vulneráveis, onde quer que estejam.” Enquanto Schmidt representou esse Sistema de Crédito Social como estando apenas no estágio de desenvolvimento e não estaria concluído por anos, relatórios recentes afirmam que isso é uma mentira total e que o sistema está totalmente funcional.

“Nós sabemos onde você está. Nós sabemos onde você esteve. Podemos saber mais ou menos o que você está pensando.”
ex-CEO do Google, Eric Schmidt.

O presidente Obama se reunia com Schmidt com freqüência, e o Google exercia influência sobre a administração e as políticas de Obama. Os registros da Casa Branca mostram que, entre 2009 e 2015, enquanto o presidente Obama estava no cargo, funcionários do Google e suas entidades associadas visitaram a Casa Branca 427 vezes.

Em 2016, os relatórios da mídia sugeriram que os resultados de pesquisa do Google ocultaram más notícias sobre Clinton e retrataram Hillary de uma maneira muito mais favorável que Trump. Schmidt respondeu: “Não tomamos posição na eleição presidencial americana e nem espero que o façamos”.

Além do trabalho de Schmidt nas estratégias de tecnologia da campanha, ele também secretamente financiou um fornecedor da campanha de Hillary Clinton. Em outubro de 2016, Goff transmitiu um e-mail enviado a Clinton: “A palavra de Schmidt eclipsaria facilmente a operação de tecnologia de qualquer oponente de Clinton”.

Primeira quarentena, agora sinos de leprosos digitais: quanta liberdade os britânicos estão dispostos a se render em um ataque de pânico do Covid-19?
O ás de Mark Zuckerberg, COO do Facebook, Sheryl Sandberg, também estava trabalhando ativamente com John Podesta, gerente de campanha de Clinton, na campanha de Clinton. O político informou que Sandberg foi colocado na lista de Clinton para se tornar secretário do Tesouro dos EUA depois que Clinton venceu, embora Sandberg mais tarde tenha negado.

No entanto, as esperanças foram frustradas quando o mundo ficou chocado com a perda inesperada de Clinton. Por que eu trago isso à tona? Bem, Google, Facebook e Vale do Silício tiveram quatro anos para aperfeiçoar um sistema que garante que seu candidato vença e Trump perca. Eric Schmidt aprendeu com seus erros de 2016 e se opôs a tudo o que Trump. Schmidt não é o único que quer Trump fora, o mesmo acontece com 98% do Vale do Silício, o que garantirá que 2020 será diferente.

Conhecimento é poder e quem controla a mídia controla o fluxo de informações e controla o poder. É assim que essas empresas de tecnologia se propõem a atingir um objetivo comum: controlar seu mapa cognitivo. Não é sobre o que foi dito e debatido, é sobre o que está enterrado e deixado de fora.

Por que parece que a censura digital do Vale do Silício é a mesma censura digital da China? Simples, é o mesmo. Enquanto o Covid-19 destrói o mundo, a tirania digital está matando a democracia, enquanto o Congresso dos EUA fica em silêncio e deixa acontecer. Para ser claro, o Vale do Silício precisa de regulamentação e precisa agora. O congresso precisa acordar.