“Quartinho de empregada é a senzala moderna”

Filha de empregada, a cineasta Karoline Maia lançará em 2021 “Aqui não entra luz”.

Filme aborda as marcas da escravidão e do racismo estrutural no trabalho das domésticas. “A abolição não foi concluída”, diz.

A cineasta Karoline Maia lembra-se muito bem de quando era criança e, por vezes, ia junto com a mãe, empregada doméstica, ao trabalho dela. Recorda-se não só do trabalho árduo, mas também da maneira como ela era tratada, em um misto de afeto e autoritarismo, por todos os membros da família – inclusive pelas crianças.

Já adulta, Maia percebeu que, no Brasil, a profissão de domésticas está muito ligada à cor da pele – e é uma herança difícil de ser quebrada. Em geral, trata-se de uma vocação que passa de mãe para filha, ou seja, uma função preponderantemente ocupada por mulheres.
Cena do filme “Aqui não entra luz”: “Muitas mulheres negras estiveram ou estão na profissão de doméstica”

Karoline Maia: “Quarto de empregada é resultado da falta de estrutura que vitimou a população negra no pós-abolição”

Assim, a cineasta se considera privilegiada: ao contrário de muitas filhas de domésticas, não precisou trabalhar desde cedo para ajudar em casa. “A gente vivia com pouco, mas vivia”, conta Maia, que atribui aos pais o fato de ela ter podido priorizar os estudos.

Ela graduou-se em rádio e TV e, desde os 19 anos, trabalha com cinema. Atualmente, aos 26 anos, é cofundadora de uma produtora formada por mulheres negras, a Pujança.

Em 2016, quando vivenciou uma situação racista no trabalho, em que a sua então chefe lhe disse que ela iria “dormir no quartinho de empregada, ali na senzala”, teve a ideia de rodar um filme para documentar como o trabalho doméstico no Brasil acabou se tornando, de certa maneira, uma continuidade da escravidão.

O documentário Aqui não entra luz foi gravado em 2019 e agora está em fase de finalização e montagem. Deve ser lançado em 2021. Em entrevista à DW, a cineasta fala sobre o filme e o contexto brasileiro.

DW Brasil: Seu filme aborda a vida nos quartos de empregada. De que modo podemos dizer que eles são a senzala moderna?

Karoline Maia: Aqui não entra luz é uma investigação, uma pesquisa que tem uma tese bastante óbvia mas às vezes pouquíssimo discutida: a relação da senzala com o quarto de empregada. Quando a gente fala que o quarto de empregada é a senzala moderna é justamente pensando nessa sucessão de fatos históricos a que a população negra foi sendo submetida, entendendo que o pós-abolição foi um processo bastante mal-resolvido para a população negra.

A abolição não foi concluída. Essa população teve de continuar em condições de trabalho muito parecidas, a maioria dessas pessoas continuou pobre, em situações análogas à escravidão ou até mesmo na escravidão.

“Quarto de empregada é reflexo da senzala – em termos de estrutura, simbologias de poder, de afeto e de controle”

O quarto de empregada claramente é um resultado concreto dessa falta de estrutura que vitimou a população negra no pós-abolição. Quando a gente diz que o quarto de empregada é o reflexo da senzala, ele é literalmente esse reflexo – pensando em estrutura, em arquitetura, em simbologias de poder, de afeto e de controle.

O filme traz bastante essa visão, de uma forma afetiva e de forma pessoal, a partir das histórias das trabalhadoras. Mas a gente também traz o olhar arquitetônico e histórico para tentar entender o que de fato levou ao quarto de empregada, pensando na urbanização das cidades, do país, e quais foram os movimentos necessários para que a elite construísse esses quartinhos.

Ao comparar esses quartos a senzalas, podemos entender que há uma certa desumanização ou um menosprezo às domésticas?

Acredito que sim. O trabalho doméstico tem uma marca bastante racial e bastante feminina. E é desvalorizado. Porque o trabalho doméstico não pago por si só já é visto de forma menor. Muitas mulheres estão fazendo trabalhos domésticos em suas casas, sendo mães, cozinheiras, faxineiras, e sendo pouquíssimo respeitadas por isso por suas famílias, seus filhos, suas companheiras e companheiros, pais…

Quando o trabalho doméstico vai para o lugar profissional, econômico, ele é desvalorizado porque é feito de graça por algumas pessoas. Então ele acaba misturado com o afeto. Você pode comprar o amor de uma pessoa para dar atenção ao seu filho, porque você não tem tempo para dar ao seu filho. Então você compra o afeto “aqui dessa mulher” para substituir o seu – estou falando de uma forma bem grosseira.

Aí as pessoas veem esse trabalho sendo feito de um jeito natural. Acabam achando que vale pouco financeiramente. Mas dá muito trabalho. Qualquer pessoa que lava a própria privada tem noção de quanto tempo, disposição e força é preciso para realizar um trabalho doméstico. Se as pessoas lavassem mais a própria privada, iriam conseguir ver esse trabalho com outros olhos, iriam valorizar mais, remunerar melhor.

Em geral, no Brasil, a profissão de empregada doméstica passa de mãe para filha. Como você conseguiu quebrar esse ciclo? Acredita que também exista uma questão racial? Quebrar esse ciclo é mais difícil para pessoas negras?

O trabalho doméstico é bastante marcado pelo racismo e pelo machismo estrutural. Muitas mulheres negras de muitas famílias negras estiveram ou estão nessa profissão. Recentemente, a gente vem acompanhando transformações significativas de filhas de trabalhadoras domésticas que conseguiram entrar na universidade, fazer um curso técnico ou simplesmente ir para uma outra profissão porque a elas foram dadas possibilidades de desejar e realizar essa transformação, a quebra desse ciclo.

“Quarto de empregada é reflexo da senzala – em termos de estrutura, simbologias de poder, de afeto e de controle”

O quarto de empregada claramente é um resultado concreto dessa falta de estrutura que vitimou a população negra no pós-abolição. Quando a gente diz que o quarto de empregada é o reflexo da senzala, ele é literalmente esse reflexo – pensando em estrutura, em arquitetura, em simbologias de poder, de afeto e de controle.

O filme traz bastante essa visão, de uma forma afetiva e de forma pessoal, a partir das histórias das trabalhadoras. Mas a gente também traz o olhar arquitetônico e histórico para tentar entender o que de fato levou ao quarto de empregada, pensando na urbanização das cidades, do país, e quais foram os movimentos necessários para que a elite construísse esses quartinhos.

Ao comparar esses quartos a senzalas, podemos entender que há uma certa desumanização ou um menosprezo às domésticas?

Acredito que sim. O trabalho doméstico tem uma marca bastante racial e bastante feminina. E é desvalorizado. Porque o trabalho doméstico não pago por si só já é visto de forma menor. Muitas mulheres estão fazendo trabalhos domésticos em suas casas, sendo mães, cozinheiras, faxineiras, e sendo pouquíssimo respeitadas por isso por suas famílias, seus filhos, suas companheiras e companheiros, pais…

Quando o trabalho doméstico vai para o lugar profissional, econômico, ele é desvalorizado porque é feito de graça por algumas pessoas. Então ele acaba misturado com o afeto. Você pode comprar o amor de uma pessoa para dar atenção ao seu filho, porque você não tem tempo para dar ao seu filho. Então você compra o afeto “aqui dessa mulher” para substituir o seu – estou falando de uma forma bem grosseira.

Aí as pessoas veem esse trabalho sendo feito de um jeito natural. Acabam achando que vale pouco financeiramente. Mas dá muito trabalho. Qualquer pessoa que lava a própria privada tem noção de quanto tempo, disposição e força é preciso para realizar um trabalho doméstico. Se as pessoas lavassem mais a própria privada, iriam conseguir ver esse trabalho com outros olhos, iriam valorizar mais, remunerar melhor.

Em geral, no Brasil, a profissão de empregada doméstica passa de mãe para filha. Como você conseguiu quebrar esse ciclo? Acredita que também exista uma questão racial? Quebrar esse ciclo é mais difícil para pessoas negras?

O trabalho doméstico é bastante marcado pelo racismo e pelo machismo estrutural. Muitas mulheres negras de muitas famílias negras estiveram ou estão nessa profissão. Recentemente, a gente vem acompanhando transformações significativas de filhas de trabalhadoras domésticas que conseguiram entrar na universidade, fazer um curso técnico ou simplesmente ir para uma outra profissão porque a elas foram dadas possibilidades de desejar e realizar essa transformação, a quebra desse ciclo.

Proporção de negros nas prisões cresce 14% em 15 anos, enquanto a de brancos cai 19%, mostra Anuário de Segurança Pública

Dois em cada três presos são negros. Segundo a publicação, existe forte desigualdade racial no sistema prisional, percebida na maior severidade de tratamento e de punições direcionadas aos negros.

Em 15 anos, a proporção de negros no sistema carcerário cresceu 14%, enquanto a de brancos diminuiu 19%. Hoje, de cada três presos, dois são negros. É o que revela o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste domingo (18) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Dos 657,8 mil presos em que há a informação da cor/raça disponível, 438,7 mil são negros (ou 66,7%). Os dados são referentes a 2019.

Percentual de negros tem aumentado ano a ano — Foto: Elcio Horiuchi/G1
Segundo o Anuário, as prisões no país estão se tornando, ano a ano, espaços destinados a um perfil populacional cada vez mais homogêneo. “No Brasil, se prende cada vez mais, mas, sobretudo, cada vez mais pessoas negras.”

“Existe, dessa forma, uma forte desigualdade racial no sistema prisional, que pode ser percebida concretamente na maior severidade de tratamento e sanções punitivas direcionadas aos negros”, afirma a publicação.

“Aliado a isso, as chances diferenciais a que negros estão submetidos socialmente e as condições de pobreza que enfrentam no cotidiano fazem com que se tornem os alvos preferenciais das políticas de encarceramento do país.”

Amanda Pimentel, pesquisadora associada do Fórum, lembra que, além das condições que levam os negros a serem mais presos do que não negros, existe também o tratamento desigual dentro do sistema judiciário.

“As prisões dos negros acontecem em razão das condições sociais, não apenas das condições de pobreza, mas das dificuldades de acesso aos direitos e a vivência em territórios de vulnerabilidade, que fazem com que essas pessoas sejam mais cooptadas pelas organizações criminosas e o mundo do crime. Mas essas pessoas também são tratadas diferencialmente dentro do sistema de justiça. Réus negros sempre dependem mais de órgãos como a Defensoria Pública, sempre têm números muito menores de testemunhas. Já os brancos não dependem tanto da Defensoria, conseguem apresentar mais advogados, têm mais testemunhas. É um tratamento diferencial no sistema de justiça. Os réus negros têm muito menos condições que os réus brancos”, diz.

“Para cada não negro preso que adentrou ao sistema prisional, dois negros foram presos. Se você comparar a entrada e a permanência no sistema prisional, você vê que é pouco mais do que o dobro das pessoas não negras”, completa Amanda.

De acordo com a pesquisadora, da maneira como a prisão é organizada, ela fica “extremamente voltada para o encarceramento do negro, que normalmente comete mais crimes patrimoniais”.

É importante ressaltar que, no mesmo período, no Brasil, houve, de fato, um aumento de brasileiros que se autodeclaram negros. Mas esse aumento foi proporcionalmente menor que o verificado nas prisões. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 56% da população é negra – percentual menor que o verificado nas cadeias.

Amanda lembra que a política de encarceramento em massa dificulta ainda mais o combate à violência, em razão do fortalecimento das organizações criminais. “Muitas pessoas que cometem crimes não violentos e adentram ao sistema penal têm contato com diversas organizações e isso acaba fortalecendo as facções, como o PCC e o Comando Vermelho.”

O Anuário mostra que, historicamente, a população prisional do país segue um perfil muito semelhante ao das vítimas de homicídios.

“Em geral, são homens jovens, negros e com baixa escolaridade. Apenas em 2019, os homens representaram 95% do total da população encarcerada. No que se refere ao gênero, portanto, existe uma sobrerrepresentação masculina na população prisional, explicada em grande parte pela intensa associação existente entre ‘mundo do crime’ e valores viris, exercidos primordialmente por homens.”

A tendência de crescimento da população carcerária, porém, também atinge as mulheres. Em 2008, havia 21.604 pessoas do sexo feminino no sistema prisional; 11 anos depois, esse número cresceu, chegando a 36.926, um crescimento de 71% de prisões de mulheres.

Em relação aos jovens, chama a atenção que a principal faixa etária nas prisões seja a de 18 a 24 anos (26% do total). Logo em seguida aparecem os presos de 25 a 29 anos (24%).

Os dados do Anuário mostram ainda que há menos presos em carceragens de polícia, informação revelada em levantamento feito pelo Monitor da Violência no início do ano.

Pandemia nos presídios

O Anuário também fez a coleta de dados referentes a mortes e casos de Covid-19 em 2020 nos presídios do país. Houve 113 óbitos e 27.207 casos entre a população carcerária.

Segundo a publicação, dentro do sistema prisional brasileiro, a pandemia da Covid-19 e as medidas tomadas para contê-la causaram um agravamento das condições de encarceramento da população e aprofundaram as violações de direitos fundamentais.

Enquanto a incidência, fora das prisões, é de 2.245 casos de infecção para cada 100 mil habitantes, dentro do sistema prisional a taxa salta para 3.637 casos a cada 100 mil pessoas presas, afirma o Anuário.

“Os altos índices de incidência da doença no ambiente prisional, infelizmente, contam a história de uma tragédia anunciada. Desde os primeiros casos da doença registrados na China e na Europa, as informações disseminadas pela comunidade científica mundial, por meio da Organização Mundial da Saúde, dão conta de que o distanciamento físico é a medida mais adequada e eficaz para a contenção do vírus e, consequentemente, da doença causada por esse agente biológico. Diante desta evidência, como garantir distanciamento social entre as pessoas presas em um contexto de superlotação como o registrado nos sistemas prisionais de todos os estados brasileiros? Como garantir a distância mínima de um metro entre os quatro detentos que ocupam uma única vaga nas unidades prisionais do estado de Roraima? A impossibilidade desta divisão se expressa na disseminação descontrolada da infecção pelo coronavírus em grande parte dos estados.”