Clickbaits: Você não vai acreditar como Folha e Globo faturam com propaganda enganosa disfarçada de notícia

O modelo de veiculação automática de conteúdo publicitário inunda grandes sites de anúncios picaretas que confundem o leitor.

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Ao final de textos publicados em sites de jornalismo, é comum os leitores se depararem com uma fileira de pequenos anúncios sensacionalistas disfarçados de conteúdo jornalístico. Os títulos são sempre apelativos — conhecidos como clickbaits —, feitos com o único objetivo de fazer o visitante clicar. Esses anúncios geralmente giram em torno de dicas de saúde, novidades sobre celebridades e maneiras fáceis de enriquecer. Quando o leitor clica, é levado para sites desconhecidos de baixíssima qualidade, que oferecem algum produto duvidoso. O problema não são apenas as chamadas sensacionalistas, mas o conteúdo dos textos. Vários deles são falsos. Leitores de sites jornalísticos sérios estão a um clique de distância de fake news.

Esse modelo de veiculação automática de anúncios em grandes sites vem sendo criticado nos Estados Unidos pelo menos desde 2016. Editores de alguns dos principais veículos americanos passaram a questionar os efeitos desse modelo de anúncios sobre a credibilidade das suas marcas. As revistas Slate e a The New Yorker decidiram interromper a exibição desses anúncios em seus sites. Um artigo sobre misoginia de Trump na Slate, por exemplo, era acompanhado de uma chamada para a seguinte notícia “10 celebridades que perderam seus corpos sarados”. Abaixo da manchete, fotos mostrando o antes e depois do corpo de uma mulher famosa completam a baixaria. Na campanha de 2016, esses espaços patrocinados também foram usados para espalhar mentiras sobre a candidata democrata Hillary Clinton.

No Brasil, essas empresas chegaram com força. Um jornalista de dados com quem conversei, que preferiu não se identificar, vem acompanhando os links patrocinados do Taboola e Outbrain no rodapé dos grandes sites há algum tempo. Foi ele quem me passou boa parte das informações que guiaram esse texto. Em um levantamento sobre páginas de fake news, o jornalista identificou que as mentiras relacionadas à saúde eram bem mais volumosas que as relacionadas à política. Percebeu também que os links patrocinados no pé das notícias tinham se transformado em uma espécie de “fakeoduto”.

Boa parte dos veículos de grande imprensa brasileira aderiu a esse modelo de anúncios. Os sites da Folha de S. Paulo e do jornal O Globo, os principais jornais do país, estão associados respectivamente ao Outbrain e ao Taboola. Quando o visitante continua a descer a barra de rolagem após a leitura de uma notícia, se depara com um quadro com esses anúncios sensacionalistas misturados com links para notícias do próprio jornal. Apesar de haver uma tarja minúscula indicando ser conteúdo patrocinado, a diagramação dá a entender que as manchetes sensacionalistas dos anúncios são conteúdos produzidos pelo jornal. Esses anúncios estão presentes em todas as páginas da Folha e do Globo que visitei.

Foto: Reprodução

Perceba nas imagens acima como os anúncios sensacionalistas e as notícias da Folha aparecem misturados no mesmo quadro. Uma notícia do caderno Saúde do jornal figura no mesmo enquadramento de propagandas sensacionalistas para remédios naturais sem eficácia comprovada. Em uma notícia sobre o Brasil ter ultrapassado 4 milhões de infectados pelo coronavírus, o leitor dá de cara com esse tipo de propaganda sensacionalista ao final do texto. Alguns desses clickbaits têm um claro cunho machista, como o “estimulante natural que virou febre no Brasil” ilustrado com uma foto de mulher.

Uma outra “notícia” patrocinada intitulada “Médico Alerta: Pressão alta é um fator de risco. Se você toma Losartana, tente isso” também aparece em meio a outras chamadas do caderno de Saúde da Folha. A losartana é uma droga utilizada no tratamento de hipertensão. Se o leitor clicar nessa notícia, o sistema do Outbrain o levará para o domínio doutornature.com. O texto promete apresentar uma receita natural para a hipertensão, mas começa a enrolar o leitor nos mesmos moldes dos programas de João Kleber. Para acessar a receita milagrosa, é necessário assistir a um vídeo que, entre outras bobagens, afirma que existe uma solução natural para a hipertensão “melhor que dieta e exercícios” e que “já foi citada até na Bíblia”.

É um vídeo hospedado no YouTube, mas a configuração da página do anunciante não permite que você pule para o final, obrigando o visitante a vê-lo inteiro se quiser conhecer o milagre prometido. Toda a narração leva a acreditar que receberá dicas grátis para a cura da hipertensão. Depois de muita enrolação, o vídeo conta que a folha de oliveira é a substância mágica, chamada pelo narrador de “um plano de Deus”. Além da pressão alta, o narrador afirma de maneira categórica que a folha ajuda a combater o diabetes, a emagrecer, te mantém jovem, energizado e mais um sem número de benefícios para a saúde.

De fato, há pesquisas indicando que a folha de oliveira ajuda no controle da hipertensão, mas está longe de ter o efeito milagroso repetido. Depois de 20 minutos, o narrador sugere que você compre esse milagre em cápsulas: o remédio Nature Olive, que você poderá comprar em uma promoção exclusiva no link a seguir. No Reclame Aqui, há mais de 500 reclamações contra a Doutor Nature. Há relatos de todo tipo: remédios que estão fazendo mal, cobranças indevidas no cartão de crédito e atrasos na entrega.

Nesta semana, no final de uma coluna da Mônica Bergamo, encontrei a chamada “Insônia: novo fitoterápico faz dormir sem causar dependência”. O link aparece como se fosse uma notícia qualquer, exceto pelo fato de haver um aviso com letras miúdas avisando que se trata de uma notícia patrocinada. Você clica nele, e o Outbrain te leva para o site topsaudavel.com.

O nome do domínio já exala a picaretagem que vem a seguir. Trata-se de uma propaganda de um remédio milagroso para a insônia disfarçado de artigo escrito por um médico especialista em distúrbios de sono. Depois de muita enrolação, o nome do remédio aparece no quinto parágrafo, e o tal médico afirma: “funciona melhor que a maioria dos tarjas-pretas que eu conheço”. Sim, o doutor garoto-propaganda diz de forma categórica que o tal fitoterápico é mais eficaz que remédios tarja-preta. “Tenho receitado Relaxxia a todos os pacientes que me procuram com problemas de insônia e ansiedade, e os resultados são surpreendentes: 97% deles tem o problema resolvido com Relaxxia, e praticamente não preciso mais receitar tarjas-pretas para ninguém!”

Ao final do artigo, sem o doutor ter contado qual a composição e o princípio ativo do medicamento, uma mensagem piscando lhe oferece um “DESCONTO EXCLUSIVO” de 40% na compra do medicamento. Só depois descobre-se do que é feito o milagre: a cápsula do Relaxxia é um combinado de extratos de ervas naturais como camomila, maracujá, passiflora e melissa. Ou seja, tudo isso para chegarmos no chazinho da vovó, que realmente ajuda, mas não resolve o problema de quem sofre com insônias crônicas. Apesar da convicção do médico vendedor, ainda faltam estudos científicos de peso atestando a eficácia da maioria desses fitoterápicos. O milagre vendido não existe.

Propaganda de remédio contra a insônia aparece em formato de notícia na capa da Folha de S. Paulo.  Foto: Reprodução

É para esse lugar que um leitor da Folha menos cuidadoso pode ser levado. Essa fake news lucrativa está a um clique de uma notícia do maior jornal do país. É a desinformação sendo vendida em um espaço no qual se espera encontrar informação de qualidade. Os sites de jornalismo estão, na prática, faturando com as propagandas de empresas que vendem seus produtos através de sensacionalismo barato e mentiroso. Entenderam o tamanho do drama?

No site do jornal O Globo, a empresa Taboola é quem indica os sites aos leitores. Dentro do quadro criado pela Taboola, há uma promiscuidade entre os anúncios sensacionalistas disfarçados de conteúdo jornalísticos e os conteúdos do próprio jornal. A confusão é proposital para gerar cliques para os anunciantes. Será que todos os brasileiros conseguem facilmente identificar o que é notícia do O Globo e o que é propaganda nessa imagem abaixo? Eu tenho certeza que não.

O creme para varizes recomendado acima também não funciona. É mentira que a tal fórmula “some com as varizes”. Segundo médicos, todo o creme contra varizes no mercado tem apenas um efeito cosmético tímido, não serve como tratamento. Não há nenhum estudo científico comprovando a sua eficácia. O leitor do O Globo está exposto a esse tipo de armadilha.

Em outra página do jornal, mais um milagre: uma medicação que promete secar a gordura que é chamada de “bariátrica em cápsula”.

Nas diretrizes do site da Outbrain, há uma lista de tipos de anúncios que são proibidos pela empresa:

“Sites que intencionalmente buscam levar o leitor a acreditar em algo que não é verdade”.

“Conteúdo desenvolvido para levar o leitor a acreditar que ele está lendo um conteúdo editorial legítimo ou notícias baseadas em fatos”.

“Conteúdo que possa ser um anúncio habilmente disfarçado (com pouco ou nenhum valor oferecido ao leitor), uma propaganda ou uma farsa”.

Bom, basta você passear por esses sites (desative o bloqueador de anúncios do seu navegador) para verificar que praticamente todos os anúncios exibidos pela plataforma violam essas diretrizes.

Procurada para se explicar, a empresa afirma que há três filtros de checagem: primeiro há um filtro automático que bloqueia palavras e imagens impróprias. Depois, os anúncios aprovados seguem para um time de revisores para garantir o cumprimento das diretrizes. E, por fim, a empresa afirma que as empresas associadas à plataforma, como Globo e Folha, têm total autonomia para criar seus próprios filtros e bloqueios de acordo com as suas diretrizes editoriais e comerciais.

Essa rigorosa filtragem deixou passar os anúncios enganosos que você leu neste texto. Globo e Folha têm total autonomia para criar seus próprios filtros, segundo a Outbrain. Ou seja, todos os envolvidos parecem ter consciência de que estão divulgando conteúdo duvidoso na internet.

A Outbrain ressalta “que todos os produtos anunciados estão regulamentados pelos órgãos competentes, e toda a documentação é exigida do anunciante para que a veiculação seja feita”. Sim, o creme para varizes citado aqui, por exemplo, é aprovado pela Anvisa e vendido legalmente. A enganação está em vendê-lo como remédio milagroso para o tratamento de varizes.

A Folha reconhece que “normalmente os anúncios são chamativos e destacam propriedades milagrosas”, mas completa: “no fim das contas são suplementos e similares que estão à venda nas lojas do ramo”.
O jornal afirma que “os anunciantes da rede sempre têm registro na Anvisa e as regras quanto às páginas de destino obedecem ao manual da empresa”.

A empresa defendeu os anunciantes, dizendo que eles “estão sempre comprometidos a ouvir e trabalham para acatar. Quando temos uma solicitação de remoção e restrição total, também sempre realizam rapidamente”. Ou seja, já que os produtos foram regulamentados pela Anvisa, a Folha não vê problema em faturar com o sensacionalismo desses anúncios. Então ficamos assim: a cápsula feita com um combinado de chazinhos da vovó pode aparecer no site do jornal prometendo ser o remédio definitivo para insônia. Basta que ele tenha sido aprovado pela Anvisa. Então tá.

Taboola e Globo não responderam às perguntas enviadas por e-mail até o fechamento da coluna – o texto será atualizado caso as respostas cheguem após a publicação.

Numa época em que as fake news atrapalham o trabalho dos jornalistas e ameaçam a democracia, empresas de jornalismo oferecem aos seus leitores espaços publicitários repletos de …. fake news. Com que moral essas grandes empresas de jornalismo fazem campanhas para combater as mentiras? Do que adianta lutar contra as fake news se parte da receita dessas empresas de jornalismo é proveniente de anúncios sensacionalistas de produtos que não funcionam?

Praticamente todos os grandes sites de jornalismo no Brasil estão navegando nessas águas turvas. Revista Veja, El País e Estadão também se beneficiam desse modelo de anúncios. Nós sabemos que bom jornalismo requer recursos, mas flertar com a desinformação não me parece um preço justo a se pagar. A grande imprensa brasileira precisa se desvencilhar desses esqueletos no armário se quiser manter o mínimo de credibilidade junto aos leitores.

Entenda como o Facebook relacionou fake news à família Bolsonaro

O Facebook promoveu a remoção de uma rede de contas, páginas e grupos coordenados por funcionários de gabinetes ligados à família do presidente da república, Jair Bolsonaro.

A investigação, que partiu da Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab), descobriu que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL).

Em uma publicação no Medium, o DRFLab descreveu como seguiu com as investigações para encontrar e dar baixa à rede de fake news que favorece o presidente, seus filhos e parceiros do seu antigo partido, o PSL. O laboratório precisou identificar padrões de comportamento entre essas milhares de contas inautênticas — observando identidades, seguidores e quem seguiam — para rastrear os administradores das redes de falsas informações.

Das acusações e remoções do Facebook foram 14 páginas e 35 contas pessoais; do Instagram, 38 páginas e um grupo que compunha a rede de fake news ligada ao presidente. Essas entidades apresentavam comportamento sistemático e já atuava nessas redes desde as eleições de 2018.

O perfil “Fábio Muniz” (à esquerda) usou a foto de perfil de outro usuário e defendia tanto Alana Passos (PSL-RJ) quanto Jair Bolsonaro em grupos locais.


Fonte: DRFLab/Reprodução

Rede complexa de desinformação

Segundo o DFRLab, nenhuma das páginas ou contas informava ligação com o presidente, gabinete ou outros deputados do PSL. Parte da rede, inclusive, foi gerada antes do período eleitoral de 2018 e atacava constantemente os adversários do presidente. Depois da vitória nas urnas, a rede se voltou contra as instituições — incluindo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — e até atuou contra ex-membros do governo, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta.

O DRFLab descreveu que a rede era centralizada em três diferentes locais: Brasília, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo. Cada uma apresentava um comportamento distinto: a do Rio de Janeiro (a maior entre os centros) e de São Bernardo do Campo concentravam suas atividades na desinformação por meio de contas duplicadas ou fakes; enquanto a de Brasília era voltada à atividade de páginas na rede social e contava com duas contas inautênticas.

A investigação concluiu que dois deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estavam envolvidos na rede de desinformação carioca, Alana Passos e Anderson Moraes — ambos do PSL-RJ. Posteriormente, a análise do laboratório apontou a conexão entre a rede e dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Além deles, o Coronel Nishikawa (PSL-SP), deputado estadual do estado de São Paulo, também foi apontado durante a análise.

Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).
Fonte: DRFLab/Reprodução

Envolvimento direto de funcionário do presidente

Tercio Arnaud Tomaz, funcionário do gabinete de Jair Bolsonaro e conhecido administrador da página do Facebook “Bolsonaro Opressor 2.0”, foi identificado como um dos operadores da rede de fake news. Tercio, por sua vez, estava envolvido na comunicação digital de Jair Bolsonaro durante sua campanha eleitoral.

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Paulo Eduardo Lopes, um de seus funcionários, foi identificado como um dos mais importantes administradores da rede. Paulo Chuchu, como também é conhecido, é líder do partido Aliança pelo Brasil em São Bernardo do Campo. Em sua conta pessoal, Chuchu afirma que trabalha com a família Bolsonaro há 5 anos.

Essa ação do Facebook e DRFLab é inédita no Brasil e exigiu a colaboração de pesquisadores associados na América Latina. O relatório completo da investigação é público e pode ser conferido na página da Medium da DRFLab (somente em inglês)

A luta anônima de três brasileiros contra sites de fake news

Atuando no anonimato desde maio, idealizadores do movimento Sleeping Giants Brasil estimam ter feito com que páginas propagadoras de notícias falsas tenham deixado de embolsar R$ 448 mil por mês.Fake News,Redes Sociais,Internet,Blog do Mesquita

Twitter e fake news

Em pouco menos de dois meses, Sleeping Giants Brasil acumulou 377,4 mil seguidores no Twitter

Principal plataforma de anúncios da internet, o Google Adsense é o que garante a saúde financeira de boa parte dos sites campeões de audiência mundo afora. E é justamente por meio desse sistema que ativistas do movimento Sleeping Giants Brasil pretendem sufocar propagadores de notícias falsas e fomentadores de discurso de ódio.

Inspirados pelo Sleeping Giants original – criado por um publicitário americano e em operação desde 2016 –, três brasileiros decidiram criar uma versão tupiniquim do movimento em 18 de maio deste ano. Passaram, então, a mirar os esforços em conhecidos sites de fake news, expondo publicamente, via redes sociais, empresas que apareciam como anunciantes nessas páginas, via AdSense.

Pelo sistema do Google, as empresas podem criar uma lista com todos os sites nos quais não querem aparecer de forma alguma. Essa é a ideia do Sleeping Giants: pressionar os anunciantes para que incluam sites de notícias falsas em suas listas e, assim, estes sejam desmonetizados.

A ideia parece estar funcionando. De acordo com balanço fornecido por um dos criadores do movimento, no primeiro mês de atividade o Sleeping Giants Brasil conseguiu que páginas propagadoras de fake news deixassem de embolsar 448 mil reais. O grupo contava com 377,4 mil seguidores no Twitter na manhã desta segunda-feira (13/07) e, no Instagram, com 126 mil seguidores, além de estar presente no Facebook e no Linkedin.

Por temerem ameaças como as sofridas pelo criador da versão original e sua família nos Estados Unidos, os idealizadores do projeto brasileiro não dão nenhuma pista de suas identidades. Eles só toparam conversar via mensagens diretas no Twitter, não aceitando passar nenhuma outra forma de contato.

Segundo eles, na maior parte das vezes, depois da exposição pública, as empresas respondem ao perfil e se comprometem a incluir os sites reconhecidos como propagadores de notícias falsas na lista de exclusão da plataforma AdSense.

“Recebemos mais de 400 respostas [de empresas anunciantes] em apenas um mês e meio de atuação”, afirmam. “Muitas empresas estão aderindo ao movimento, se conscientizando e passando a analisar melhor a forma como promovem sua publicidade e cedem espaços a perfis que promovem a desinformação e o ódio.”

Em um conturbado cenário político como o brasileiro atual, marcado por uma acirrada polarização, o grupo tem sido criticado por apoiadores do governo do presidente Jair Bolsonaro. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, classificou o Sleeping Giants como “a nova forma de censurar a direita”.Whatsapp,Facebook,Fakenews,Educação,Analfabetismo,Redes Sociais,Internet

“Somos contra todos os disseminadores de fake news e discursos odiosos, e sabemos que isso independe de espectro político”, defendem-se os idealizadores. “Mas no atual momento, a extrema direita concentra poder se utilizando de conteúdos falsos e odiosos. Além de que, em meio a uma pandemia, propagar desinformação é extremamente perigoso, visto que estamos falando de vidas sendo perdidas.”

Gigantes na mira

Os criadores do Sleeping Giants Brasil afirmam que os alvos são escolhidos com base na “proporção, relevância e alcance” de seus sites.

A partir de uma lista de empresas fornecida pelos criadores, a reportagem da DW Brasil buscou contato com Americanas, Nike, Spotify e MRV, as quatro mencionadas em primeiro lugar e que não responderam ao grupo, mesmo diante de constantes exposições públicas no Twitter. Nenhuma delas retornou o pedido de posicionamento da reportagem.

A DW Brasil apurou, contudo, que algumas das empresas expostas estão bloqueando sites de fake news de sua lista do AdSense, ainda que prefiram não assumir isso publicamente. Mais que isso, há empresas que, cientes da atuação do Sleeping Giants Brasil, estão se antecipando a uma provável exposição pública e adicionando sites propagadores de fake news a sua lista de exclusão da plataforma do Google.

“A liberdade de expressão é um direito de todos, não estamos aqui para contrariar isso”, afirmam os ativistas. “O movimento busca alertar as empresas de que estão contribuindo com o discurso de ódio e a desinformação, mas cabe a elas a escolha de retirar ou não seu anúncio do site. Só queremos seu posicionamento.”

Trabalho de formiguinha

E por que então não mirar os esforços diretamente na Google, em vez de fazer o trabalho de formiguinha? Segundo os idealizadores do Sleeping Giants, cobrar a responsabilidade da empresa de tecnologia não traria resultados.

“As grandes plataformas são, sim, responsáveis pelo espaço dado a disseminadores de conteúdos falsos e odiosos, mas é muito difícil ganharmos a atenção delas”, argumentam. “Em quatro anos de existência do perfil americano, nenhuma das grandes plataformas tomou medidas ou contatou o Sleeping Giants. Mas esperamos que isso mude e que elas entendam a responsabilidade que têm quando não há um selecionamento criterioso do que admitem ou não no ambiente virtual.”

Procurado pela Dw Brasil, o escritório da Google no Brasil se posicionou via assessoria de imprensa. “Temos políticas rígidas que limitam os tipos de conteúdo nos quais exibimos anúncios, como a que não permite que publishers busquem enganar o usuário sobre sua identidade ou produtos. Quando uma página ou site viola nossas políticas, tomamos medidas imediatas e removemos sua capacidade de gerar receita”, disse a empresa, em nota.

“Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas, e nossas plataformas oferecem controles robustos que permitem o bloqueio de categorias de assuntos e sites específicos, além de gerarem relatórios em tempo real sobre onde os anúncios foram exibidos”, acrescentou.

A Google afirmou que, apenas em 2019, encerrou mais de 1,2 milhão de contas e retirou anúncios de mais de 21 milhões de páginas “por violação de políticas”.

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Entenda como o Facebook relacionou fake news à família Bolsonaro

O Facebook anunciou a remoção de uma rede de contas, páginas e grupos coordenados por funcionários de gabinetes ligados à família do presidente da república, Jair Bolsonaro.

A investigação, que partiu da Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab), descobriu que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL).

Em uma publicação no Medium, o DRFLab descreveu como seguiu com as investigações para encontrar e dar baixa à rede de fake news que favorece o presidente, seus filhos e parceiros do seu antigo partido, o PSL. O laboratório precisou identificar padrões de comportamento entre essas milhares de contas inautênticas — observando identidades, seguidores e quem seguiam — para rastrear os administradores das redes de falsas informações.

Das acusações e remoções do Facebook foram 14 páginas e 35 contas pessoais; do Instagram, 38 páginas e um grupo que compunha a rede de fake news ligada ao presidente. Essas entidades apresentavam comportamento sistemático e já atuava nessas redes desde as eleições de 2018.

O perfil

O perfil “Fábio Muniz” (à esquerda) usou a foto de perfil de outro usuário e defendia tanto Alana Passos (PSL-RJ) quanto Jair Bolsonaro em grupos locais.Fonte: DRFLab/Reprodução

Rede complexa de desinformação

Segundo o DFRLab, nenhuma das páginas ou contas informava ligação com o presidente, gabinete ou outros deputados do PSL. Parte da rede, inclusive, foi gerada antes do período eleitoral de 2018 e atacava constantemente os adversários do presidente. Depois da vitória nas urnas, a rede se voltou contra as instituições — incluindo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — e até atuou contra ex-membros do governo, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta.

O DRFLab descreveu que a rede era centralizada em três diferentes locais: Brasília, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo. Cada uma apresentava um comportamento distinto: a do Rio de Janeiro (a maior entre os centros) e de São Bernardo do Campo concentravam suas atividades na desinformação por meio de contas duplicadas ou fakes; enquanto a de Brasília era voltada à atividade de páginas na rede social e contava com duas contas inautênticas.

A investigação concluiu que dois deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estavam envolvidos na rede de desinformação carioca, Alana Passos e Anderson Moraes — ambos do PSL-RJ. Posteriormente, a análise do laboratório apontou a conexão entre a rede e dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Além deles, o Coronel Nishikawa (PSL-SP), deputado estadual do estado de São Paulo, também foi apontado durante a análise.

Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).
Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).Fonte: DRFLab/Reprodução

Envolvimento direto de funcionário do presidente

Tercio Arnaud Tomaz, funcionário do gabinete de Jair Bolsonaro e conhecido administrador da página do Facebook “Bolsonaro Opressor 2.0”, foi identificado como um dos operadores da rede de fake news. Tercio, por sua vez, estava envolvido na comunicação digital de Jair Bolsonaro durante sua campanha eleitoral.

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Paulo Eduardo Lopes, um de seus funcionários, foi identificado como um dos mais importantes administradores da rede. Paulo Chuchu, como também é conhecido, é líder do partido Aliança pelo Brasil em São Bernardo do Campo. Em sua conta pessoal, Chuchu afirma que trabalha com a família Bolsonaro há 5 anos.

Essa ação do Facebook e DRFLab é inédita no Brasil e exigiu a colaboração de pesquisadores associados na América Latina. O relatório completo da investigação é público e pode ser conferido na página da Medium da DRFLab  página da Medium da DRFLab (somente em inglês).

Filipe Martins e a rede de mentiras agonizam: um tuiteiro nocauteou a grana de sites de fake news

Uma reportagem do El País revelou como um perfil no Twitter virou a grande pedra no sapato da extrema direita americana. Com o nome de Sleeping Giants, o perfil criado em 2016 expôs ao escracho público as marcas que anunciavam em sites de fake news.

Filipi Martins e Steve Bannon – Reprodução: Twitter/Filipe G. Martins

O perfil informava ao público os nomes das empresas e compartilhava as capturas de tela dos anúncios nas suas redes oficiais. A tática foi um sucesso, e as empresas se viram obrigadas a anunciar publicamente o bloqueio dos anúncios.

O Breitbart News é um site de extrema direita famoso por inventar histórias contra adversários de Trump. Durante a eleição presidencial, o site publicou a história de que a então candidata Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia e promovia orgias sexuais com crianças no porão de uma pizzaria. Após a ação do Sleeping Giants, o site viu ir embora mais de 4,5 mil anunciantes — um golpe que significou uma perda de mais de 8 milhões de euros. Steve Bannon, o guru da extrema direita internacional, era o proprietário do site e, à época, chamou o Sleeping Giants de “a pior coisa que há”. Como se sabe, Bannon é o homem por trás da engenharia de desinformação dos extremistas de direita no mundo inteiro. As mentiras que ajudaram a eleger Trump foram uma inspiração para o surgimento das mamadeiras de piroca que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Um estudante que desenvolve pesquisas sobre fake news leu essa reportagem do El País e decidiu criar a versão brasileira do Sleeping Giants. Em apenas quatro dias, o perfil ultrapassou a marca de 200 mil seguidores e virou um movimento coletivo contra a propagação de mentiras. Para se ter uma ideia do sucesso brasileiro, o perfil americano juntou 270 mil seguidores em quatro anos. As marcas passaram a ser cobradas e quase todas empresas anunciaram o fim dos anúncios em sites que disseminam mentiras. O sucesso da tática enfureceu as hostes bolsonaristas, que imediatamente partiram para o contra-ataque.

Um dos que lideraram a manada foi Filipe Martins, esse projeto sorocabano de Steve Bannon. Ele é o bolsonarista mais próximo do americano e foi o responsável por aplicar o seu know-how de mentiras no Brasil. O jovem de 31 anos é, junto de Carlos Bolsonaro, um dos arquitetos por trás do “gabinete do ódio”, conhecido oficialmente como Assessoria Especial da Presidência. Nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, Martins também é o responsável por fazer o meio de campo entre o governo e as milícias virtuais bolsonaristas: youtubers, blogueiros e sites de notícias falsas. É ele quem organiza o ódio bolsonarista e municia a militância com conteúdo.

O assessor especial provocou o criador do Sleeping Giants americano, Matt Rivitz, que causou aquele prejuízo milionário ao seu guru americano. É que no fantástico mundo olavista de Martins parece óbvio que há “forças globalistas” por trás da versão brasileira. O aprendiz de Steve Bannon chamou de “censura” e “prática totalitária” uma ação feita por livre iniciativa das pessoas que protestaram e das empresas privadas que optaram por retirar os anúncios. Onde está a turma do ultraliberalismo sem freio nessas horas? Cadê seu deus livre mercado agora?

O Sleeping Giants brasileiro começou focando nos anunciantes do site Jornal da Cidade Online, que já foi alvo de processos por publicação de mentiras e está sendo investigado pela CPMI das Fake News. O relatório da comissão afirma que há “indícios da prática de condutas ilegais de José Pinheiro Tolentino Filho por meio de seu projeto de comunicação Jornal da Cidade Online”. O site já teve que pagar 150 mil em indenização para o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, pela publicação de uma mentira sobre ele. Não é uma coincidência o fato dessa mentira ter sido publicada justamente na época em que Santa Cruz protagonizou um bate-boca público com Bolsonaro.

Assim como a maioria de sites e blogs ligados ao bolsonarismo, o Jornal da Cidade Online consegue faturar com anúncios através do Adsense, um serviço da Google que os distribui automaticamente para sites assinantes. Nesse formato, as empresas não escolhem para quais sites irão seus anúncios. É o algoritmo do Google que os distribui nos sites. Ao serem expostas como patrocinadoras de sites que publicam mentiras, as grandes marcas imediatamente se posicionaram.

Sleeping Giants Brasil
Oii @DellnoBrasil, tudo bem? Realmente seus notebooks são incríveis, só não acho legal divulga-los em site famoso por espalhar Fake News e atacar constantemente a democracia. Pls considere bloquear✊🏽#SleepingGiantsBrasil@DellnoBrasil
Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.

Oii @ClaroBrasil, tudo bem? Realmente é muito mega hein mas não acho legal encontrar esse anúncio em uma postagem que chama o @felipeneto de “imbecil,lixo, ícone da canalhice e verme”. Por isso pedimos: PLS BLOQUEIE!✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@ClaroBrasil
Olá! Nós não compactuamos com a disseminação de notícias falsas, temos o compromisso ético com a transparência da informação. Por isso, todos os nossos anúncios automáticos estão passando por monitoramento, em conjunto com as plataformas parceiras, que distribuem tais conteúdos.

Oii @iFood, tudo bem? Realmente o app quebra um galho na hora de pedir um @McDonalds_BR quando bate aquela fominha, mas acreditamos que eles não gostariam de saber que seu lanche está ajudando a financiar um site divulgador de Fake News! ✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@McDonalds_BR
Nosso time já retirou do ar nossa mídia vinculada a esse site e a qualquer outro que compactue com notícias falsas. Obrigado!

@fastshop @fastshop_sac vocês também tem anuncio lá, vamos tomar providências?

@fastshop
Informamos que não temos vínculos com nenhum portal jornalístico. Estamos analisando os anúncios com nosso nome e removendo das plataformas que anunciam de forma automática através de sites de busca. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas. Agradecemos por nos avisar.

Philips BrasilSegundo levantamento do UOL, o Jornal da Cidade Online contava com 903 anunciantes. Durante pouco mais de um ano, todas essas empresas fizeram juntas 1.987 anúncios diferentes no site. O maior anunciante foi o Banco do Brasil que, ao ser confrontado no Twitter, também informou que retiraria os anúncios:

Oii @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas não precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear!✊🏽#SleepingGiantsBrasil

@BancodoBrasil
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Foi aí que o gabinete do ódio pegou fogo. Filipe Martins e Carlos Bolsonaro acionaram a rede virtual bolsonarista, que reagiu em peso junto com políticos e outros expoentes da extrema direita. A deputada bolsonarista Carla Zambelli, doPSL paulista, e o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, também foram escalados para repudiar o episódio. Wajngarten, que cuida das verbas publicitárias do governo, disse que o governo irá “contornar a situação”e garantir a “defesa da liberdade de expressão”. Afirmou ainda ter certeza que o Jornal Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”.

Para os padrões de seriedade de Wjangarten, que é investigado pelos crimes de corrupção, peculato e advocacia administrativa, a análise faz sentido. O Jornal da Cidade Online é um veículo tão sério que alguns de seus repórteres e colunistas não existem. O site publicava textos assinados por repórteres com identidades falsas para poder atacar ministros do STF e adversários políticos de Bolsonaro. O site também está sendo processado por atacar desembargadores do Rio de Janeiro e o ministro Gilmar Mendes com ofensas e mentiras usando esses perfis falsos.

Leandro Ruschel
@leandroruschel
Caro @jairbolsonaro e @secomvc , há um banco estatal discriminando site jornalístico, com inclinação conservadora, seguindo mera denúncia sem provas de perfil anônimo, aparentemente ligado à esquerda. É preciso rever essa decisão. https://twitter.com/BancodoBrasil/status/1263126286484082691 … Banco do Brasil
@BancodoBrasil
Respondendo a @slpng_giants_pt
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Logo após o resmungo de Carluxo no Twitter, o Banco do Brasil, cujo gerente executivo de Marketing e Comunicação é filho do vice-presidente da República, voltou atrás da decisão e manteve os anúncios no site de fake news. Ou seja, um vereador carioca, lotado não oficialmente no gabinete do ódio, interferiu na política de anúncios de uma estatal. O filho do presidente da República conseguiu manter as verbas públicas que irrigam um site que defende o bolsonarismo espalhando fake news. É o dinheiro do povo brasileiro sendo usado para financiar a rede de mentiras que sustenta o governo.

Parece que finalmente estamos tomando um bom caminho para combater a máquina de propaganda fascistoide do bolsonarismo. A tática de constranger marcas que apoiam iniciativas se mostrou importante e eficaz, mas o Google, que gerencia a maior partes dos anúncios na internet, também deve ser cobrado. É ela quem controla o algoritmo que ajuda a financiar esses sites. Em novembro do ano passado, o Intercept revelou como o Google ofereceu treinamentos grátis para ensinar blogueiros bolsonaristas e antipetistas a faturarem com Adsense. Muitos desses blogueiros eram notórios criadores de fake news. Não adianta a empresa lavar as mãos.

O criador do Sleeping Giants brasileiro pretende se manter no anonimato porque viu o criador da tática sofrendo sérias ameaças de morte nos EUA. Mexer com a extrema direita é sempre perigoso. E, quando seu núcleo central mantém ligações políticas e financeiras com as milícias, todo cuidado é pouco.