A luta anônima de três brasileiros contra sites de fake news

Atuando no anonimato desde maio, idealizadores do movimento Sleeping Giants Brasil estimam ter feito com que páginas propagadoras de notícias falsas tenham deixado de embolsar R$ 448 mil por mês.Fake News,Redes Sociais,Internet,Blog do Mesquita

Twitter e fake news

Em pouco menos de dois meses, Sleeping Giants Brasil acumulou 377,4 mil seguidores no Twitter

Principal plataforma de anúncios da internet, o Google Adsense é o que garante a saúde financeira de boa parte dos sites campeões de audiência mundo afora. E é justamente por meio desse sistema que ativistas do movimento Sleeping Giants Brasil pretendem sufocar propagadores de notícias falsas e fomentadores de discurso de ódio.

Inspirados pelo Sleeping Giants original – criado por um publicitário americano e em operação desde 2016 –, três brasileiros decidiram criar uma versão tupiniquim do movimento em 18 de maio deste ano. Passaram, então, a mirar os esforços em conhecidos sites de fake news, expondo publicamente, via redes sociais, empresas que apareciam como anunciantes nessas páginas, via AdSense.

Pelo sistema do Google, as empresas podem criar uma lista com todos os sites nos quais não querem aparecer de forma alguma. Essa é a ideia do Sleeping Giants: pressionar os anunciantes para que incluam sites de notícias falsas em suas listas e, assim, estes sejam desmonetizados.

A ideia parece estar funcionando. De acordo com balanço fornecido por um dos criadores do movimento, no primeiro mês de atividade o Sleeping Giants Brasil conseguiu que páginas propagadoras de fake news deixassem de embolsar 448 mil reais. O grupo contava com 377,4 mil seguidores no Twitter na manhã desta segunda-feira (13/07) e, no Instagram, com 126 mil seguidores, além de estar presente no Facebook e no Linkedin.

Por temerem ameaças como as sofridas pelo criador da versão original e sua família nos Estados Unidos, os idealizadores do projeto brasileiro não dão nenhuma pista de suas identidades. Eles só toparam conversar via mensagens diretas no Twitter, não aceitando passar nenhuma outra forma de contato.

Segundo eles, na maior parte das vezes, depois da exposição pública, as empresas respondem ao perfil e se comprometem a incluir os sites reconhecidos como propagadores de notícias falsas na lista de exclusão da plataforma AdSense.

“Recebemos mais de 400 respostas [de empresas anunciantes] em apenas um mês e meio de atuação”, afirmam. “Muitas empresas estão aderindo ao movimento, se conscientizando e passando a analisar melhor a forma como promovem sua publicidade e cedem espaços a perfis que promovem a desinformação e o ódio.”

Em um conturbado cenário político como o brasileiro atual, marcado por uma acirrada polarização, o grupo tem sido criticado por apoiadores do governo do presidente Jair Bolsonaro. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, classificou o Sleeping Giants como “a nova forma de censurar a direita”.Whatsapp,Facebook,Fakenews,Educação,Analfabetismo,Redes Sociais,Internet

“Somos contra todos os disseminadores de fake news e discursos odiosos, e sabemos que isso independe de espectro político”, defendem-se os idealizadores. “Mas no atual momento, a extrema direita concentra poder se utilizando de conteúdos falsos e odiosos. Além de que, em meio a uma pandemia, propagar desinformação é extremamente perigoso, visto que estamos falando de vidas sendo perdidas.”

Gigantes na mira

Os criadores do Sleeping Giants Brasil afirmam que os alvos são escolhidos com base na “proporção, relevância e alcance” de seus sites.

A partir de uma lista de empresas fornecida pelos criadores, a reportagem da DW Brasil buscou contato com Americanas, Nike, Spotify e MRV, as quatro mencionadas em primeiro lugar e que não responderam ao grupo, mesmo diante de constantes exposições públicas no Twitter. Nenhuma delas retornou o pedido de posicionamento da reportagem.

A DW Brasil apurou, contudo, que algumas das empresas expostas estão bloqueando sites de fake news de sua lista do AdSense, ainda que prefiram não assumir isso publicamente. Mais que isso, há empresas que, cientes da atuação do Sleeping Giants Brasil, estão se antecipando a uma provável exposição pública e adicionando sites propagadores de fake news a sua lista de exclusão da plataforma do Google.

“A liberdade de expressão é um direito de todos, não estamos aqui para contrariar isso”, afirmam os ativistas. “O movimento busca alertar as empresas de que estão contribuindo com o discurso de ódio e a desinformação, mas cabe a elas a escolha de retirar ou não seu anúncio do site. Só queremos seu posicionamento.”

Trabalho de formiguinha

E por que então não mirar os esforços diretamente na Google, em vez de fazer o trabalho de formiguinha? Segundo os idealizadores do Sleeping Giants, cobrar a responsabilidade da empresa de tecnologia não traria resultados.

“As grandes plataformas são, sim, responsáveis pelo espaço dado a disseminadores de conteúdos falsos e odiosos, mas é muito difícil ganharmos a atenção delas”, argumentam. “Em quatro anos de existência do perfil americano, nenhuma das grandes plataformas tomou medidas ou contatou o Sleeping Giants. Mas esperamos que isso mude e que elas entendam a responsabilidade que têm quando não há um selecionamento criterioso do que admitem ou não no ambiente virtual.”

Procurado pela Dw Brasil, o escritório da Google no Brasil se posicionou via assessoria de imprensa. “Temos políticas rígidas que limitam os tipos de conteúdo nos quais exibimos anúncios, como a que não permite que publishers busquem enganar o usuário sobre sua identidade ou produtos. Quando uma página ou site viola nossas políticas, tomamos medidas imediatas e removemos sua capacidade de gerar receita”, disse a empresa, em nota.

“Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas, e nossas plataformas oferecem controles robustos que permitem o bloqueio de categorias de assuntos e sites específicos, além de gerarem relatórios em tempo real sobre onde os anúncios foram exibidos”, acrescentou.

A Google afirmou que, apenas em 2019, encerrou mais de 1,2 milhão de contas e retirou anúncios de mais de 21 milhões de páginas “por violação de políticas”.

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Entenda como o Facebook relacionou fake news à família Bolsonaro

O Facebook anunciou a remoção de uma rede de contas, páginas e grupos coordenados por funcionários de gabinetes ligados à família do presidente da república, Jair Bolsonaro.

A investigação, que partiu da Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab), descobriu que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL).

Em uma publicação no Medium, o DRFLab descreveu como seguiu com as investigações para encontrar e dar baixa à rede de fake news que favorece o presidente, seus filhos e parceiros do seu antigo partido, o PSL. O laboratório precisou identificar padrões de comportamento entre essas milhares de contas inautênticas — observando identidades, seguidores e quem seguiam — para rastrear os administradores das redes de falsas informações.

Das acusações e remoções do Facebook foram 14 páginas e 35 contas pessoais; do Instagram, 38 páginas e um grupo que compunha a rede de fake news ligada ao presidente. Essas entidades apresentavam comportamento sistemático e já atuava nessas redes desde as eleições de 2018.

O perfil

O perfil “Fábio Muniz” (à esquerda) usou a foto de perfil de outro usuário e defendia tanto Alana Passos (PSL-RJ) quanto Jair Bolsonaro em grupos locais.Fonte: DRFLab/Reprodução

Rede complexa de desinformação

Segundo o DFRLab, nenhuma das páginas ou contas informava ligação com o presidente, gabinete ou outros deputados do PSL. Parte da rede, inclusive, foi gerada antes do período eleitoral de 2018 e atacava constantemente os adversários do presidente. Depois da vitória nas urnas, a rede se voltou contra as instituições — incluindo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — e até atuou contra ex-membros do governo, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta.

O DRFLab descreveu que a rede era centralizada em três diferentes locais: Brasília, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo. Cada uma apresentava um comportamento distinto: a do Rio de Janeiro (a maior entre os centros) e de São Bernardo do Campo concentravam suas atividades na desinformação por meio de contas duplicadas ou fakes; enquanto a de Brasília era voltada à atividade de páginas na rede social e contava com duas contas inautênticas.

A investigação concluiu que dois deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estavam envolvidos na rede de desinformação carioca, Alana Passos e Anderson Moraes — ambos do PSL-RJ. Posteriormente, a análise do laboratório apontou a conexão entre a rede e dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Além deles, o Coronel Nishikawa (PSL-SP), deputado estadual do estado de São Paulo, também foi apontado durante a análise.

Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).
Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).Fonte: DRFLab/Reprodução

Envolvimento direto de funcionário do presidente

Tercio Arnaud Tomaz, funcionário do gabinete de Jair Bolsonaro e conhecido administrador da página do Facebook “Bolsonaro Opressor 2.0”, foi identificado como um dos operadores da rede de fake news. Tercio, por sua vez, estava envolvido na comunicação digital de Jair Bolsonaro durante sua campanha eleitoral.

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Paulo Eduardo Lopes, um de seus funcionários, foi identificado como um dos mais importantes administradores da rede. Paulo Chuchu, como também é conhecido, é líder do partido Aliança pelo Brasil em São Bernardo do Campo. Em sua conta pessoal, Chuchu afirma que trabalha com a família Bolsonaro há 5 anos.

Essa ação do Facebook e DRFLab é inédita no Brasil e exigiu a colaboração de pesquisadores associados na América Latina. O relatório completo da investigação é público e pode ser conferido na página da Medium da DRFLab  página da Medium da DRFLab (somente em inglês).

O psicólogo de Stanford identifica sete fatores que contribuem para o racismo americano

“O racismo americano está vivo e bem”, começa um novo artigo de jornal liderado por Steven O. Roberts, psicólogo de Stanford, que chega durante um período de maior atenção à injustiça racial nos Estados Unidos.

Por SANDRA FEDER

Steven O. Roberts, Assistant Professor, Psychology

Dos sete fatores identificados pelos pesquisadores, talvez o mais insidioso seja o passivismo ou o racismo passivo, que inclui uma apatia em relação aos sistemas de vantagem ou negação racial de que esses sistemas existem.

No artigo, que está disponível on-line e será publicado na próxima edição da American Psychologist, a revista da American Psychological Association, os estudiosos afirmam que o racismo é um problema profundamente americano e se identificam, com base em uma revisão de pesquisas anteriores publicadas no site. tópico, sete fatores que contribuem para o racismo nos EUA hoje.

“As pessoas geralmente definem o racismo como não gostar ou maltratar os outros com base na raça. Essa definição está errada ”, disse Roberts, que dirige o Social Concepts Lab, parte do departamento de psicologia, da Escola de Ciências Humanas e Ciências. “O racismo é um sistema de vantagens baseado na raça. É uma hierarquia. É uma pandemia. O racismo está tão profundamente enraizado nos EUA mentes e EUA sociedade da qual é praticamente impossível escapar. ”

Roberts, um professor assistente e co-autor, Michael Rizzo, um pós-doutorado na Universidade de Nova York e no Beyond Conflict Innovation Lab, escreve que “assim como os cidadãos das sociedades capitalistas reforçam o capitalismo, se eles se identificam como capitalistas ou não, e se eles querendo ou não, os cidadãos de sociedades racistas reforçam o racismo, se eles se identificam como racistas ou não, e se querem ou não. ”

Após examinar as pesquisas sobre racismo da psicologia, das ciências sociais e das humanidades, os pesquisadores argumentam que o racismo americano sistematicamente beneficia os americanos brancos e prejudica os americanos de cor – mas isso não é necessário. Tudo começa com a consciência, eles afirmam.

“Muitas pessoas, especialmente as brancas, subestimam as profundezas do racismo”, disse Rizzo. “Muita atenção é justamente colocada nos recentes assassinatos de Breonna Taylor, Ahmaud Arbery, George Floyd e muitos outros. Mas as pessoas precisam entender que esses eventos terríveis são uma conseqüência de um sistema maior. Queremos que os leitores saiam com uma melhor compreensão de como esse sistema funciona.”

Sete fatores

Os três primeiros fatores analisados ​​por Roberts e Rizzo são: categorias, que organizam as pessoas em grupos distintos; facções, que desencadeiam lealdade entre grupos e competição entre grupos; e segregação, que endurece percepções, preferências e crenças racistas. Simplificando, os EUA sistematicamente constrói categorias raciais, coloca as pessoas dentro dessas categorias e separa as pessoas com base nessas categorias, argumentam os autores.

Por exemplo, há um corpo considerável de pesquisas mostrando que pessoas, adultos e crianças tendem a se sentir e agir mais positivamente em relação àqueles que consideram como eles e em seu “grupo”. Isso significa que eles provavelmente tratarão pessoas de fora de seus círculos sociais de maneira menos favorável.

Para muitos americanos brancos, seus grupos não incluem americanos negros. Parte da razão disso tem a ver com a história carregada de segregação racial dos Estados Unidos, que manteve as comunidades brancas e negras separadas. Roberts e Rizzo apontam para estudos que demonstram que a quantidade de exposição que uma criança tem a outros grupos raciais no início da vida afeta como eles pensam e agem em relação a esses grupos quando adultos.

A pesquisa também mostra que as crianças estão mais sintonizadas com os rostos do grupo majoritário racial. Ou seja, crianças negras são melhores em reconhecer rostos brancos do que crianças brancas em reconhecer rostos negros. Essa disparidade pode ter consequências trágicas no mundo real. Em uma formação criminosa, por exemplo, não ser capaz de reconhecer rostos negros, combinados com preferências e crenças tendenciosas, aumenta as chances de um suspeito inocente de preto ser identificado erroneamente como o autor de um crime.

Roberts e Rizzo observam que nos casos em que as condenações criminais foram anuladas por causa de evidências de DNA, um número significativo das condenações originais ocorreu devido a identificações incorretas de testemunhas oculares.

Os quatro fatores restantes que os pesquisadores argumentam que contribuem para o racismo americano incluem: hierarquia, que encoraja as pessoas a pensar, sentir e se comportar de maneiras racistas; poder, que legisla o racismo nos níveis micro e macro; mídia, que legitima representações sobre-representadas e idealizadas de brancos americanos, marginalizando e minimizando pessoas de cor; e passivismo, de tal forma que negligenciar ou negar a existência do racismo incentiva outros a fazer o mesmo. Em suma, eles argumentam que os EUA posiciona e capacita alguns sobre outros, reforça essas diferenças através de mídias tendenciosas e, em seguida, deixa essas disparidades e mídias no lugar.

Dos sete fatores que eles identificaram, talvez o mais insidioso seja o passivismo ou o racismo passivo, segundo os estudiosos. Isso inclui uma apatia em relação aos sistemas de vantagem ou negação racial de que esses sistemas existem.

As discussões sobre passivismo são particularmente relevantes agora, disse Roberts, enquanto milhares saem às ruas para protestar contra o racismo. “Se as pessoas beneficiadas pela hierarquia permanecem passivas, não é de surpreender que as pessoas de baixo clamem para serem ouvidas”, acrescentei. “As pessoas choram há séculos.”

A pandemia e a pena de morte nas prisões brasileiras

Com a pandemia, o quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento nas prisões tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

As prisões são o lugar onde as violências e desigualdades sociais revelam sua mais brutal expressão. No Brasil, trata-se de celas lotadas e sem ventilação, instalações elétricas com remendos e potencialmente perigosas, comida racionada e de péssima qualidade, muitas vezes estragada, água escassa para o banho, para a limpeza das celas e mesmo para beber.

Os relatos são assustadores e as doenças são uma presença constante nesse universo insalubre. De acordo com dados do próprio Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do governo federal responsável pela gestão do sistema prisional, em dezembro de 2019 havia no sistema penitenciário 748 mil pessoas privadas de liberdade no país. Nesse universo, verificava-se um quadro de 170% de déficit de vagas, ou seja, uma realidade de absoluta superlotação.1

Os negros são a maioria nesse sistema e estão expostos a uma taxa de encarceramento 1,5 vez maior do que a de um homem branco,2 o que confirma a seletividade da polícia nas abordagens e prisões em flagrante e o viés discriminatório nas decisões dos juízes, que reproduzem tanto estereótipos racializados quanto uma média maior de condenação para mulheres e homens negros.3

Com a pandemia, esse quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

Como forma de propor medidas que contivessem a propagação do vírus nas prisões, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Recomendação n. 62, que exortou os juízes a adotar medidas para a reavaliação das prisões provisórias, a contenção de novas ordens de prisão preventiva, a concessão de saída antecipada dos regimes fechado e semiaberto para presos que não tivessem cometido crimes com violência ou grave ameaça e a transferência de presos do grupo de risco para prisão domiciliar. Entretanto, a despeito dos esforços do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do CNJ e das manifestações de apoio à agenda de desencarceramento para pessoas do grupo de risco da Covid-19, a Recomendação n. 62 continuou sendo duramente criticada pelo Ministério da Justiça e pelo governo federal e foi acolhida apenas parcialmente pelo Ministério Público e pela magistratura no Brasil.

O ex-ministro Sérgio Moro dedicou-se pessoalmente a deslegitimar a orientação do Conselho e a conceder reiteradas entrevistas afirmando que tudo estava sob controle no âmbito do Departamento Penitenciário Nacional e que, portanto, não era necessário que os juízes adotassem medidas que pusessem presos perigosos em liberdade.4

No âmbito do Poder Judiciário, reiteraram-se decisões com indeferimento de pedidos de habeas corpus coletivos e sucessivas diligências que impediam a soltura de presos integrantes do grupo de risco. De modo ilegal, juízes recusaram-se a conceder pedidos de liberdade com o argumento genérico de que se tratava de presos perigosos ou que haveria nas prisões condições para a prevenção e o tratamento adequado ao coronavírus. Os juízes brasileiros optaram por contrariar as evidências médicas, a recomendação do CNJ e os apelos e alertas de organizações de direitos humanos, dos próprios presos e de seus familiares, e não concederam a maioria dos pedidos formulados por integrantes das defensorias públicas e pelos advogados particulares.

Em pesquisa realizada entre março e maio de 2020 pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, verificou-se que, desde a edição da Recomendação n. 62, houve um aumento dos habeas corpus concedidos; porém, o estudo apurou também que 67% dos presos soltos estavam detidos em caráter preventivo, ainda sem julgamento, por causa de crimes cometidos sem violência, e que dos 783 soltos apenas 37 se encontravam condenados a regime fechado de prisão.5

No mesmo sentido, um trabalho realizado por pesquisadoras do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito de São Paulo constatou que, das 6.781 decisões de habeas corpus (entre 18 de março e 4 de maio de 2020) que mencionaram a Covid-19, apenas 12% tiveram o pedido concedido,6 o que também corrobora a tendência já apontada no relatório produzido pelo Conselho Nacional de Justiça, que afirma que 26,9% dos Tribunais de Justiça não apresentaram alteração nas concessões de liberdade de réus presos em regime fechado.7

Os argumentos adotados para negar os pedidos de liberdade revelam total desapreço pela obrigação estatal de zelar pela vida e pela integridade daqueles que se encontram sob sua custódia (ou seja, sob total e absoluta responsabilidade do próprio Estado). Algumas sentenças circularam na mídia e nas redes sociais como maus exemplos em termos de fundamentação constitucional e de respeito a valores éticos e a princípios de direitos humanos.

Um dos episódios mais trágicos foi o do juiz Camilo Léllis, da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que decidiu não alterar o regime da pena de um preso para o aberto, afirmando que o risco de contágio pelo coronavírus pode ser maior fora do sistema prisional do que dentro e que não seria razoável a determinação, de forma monocrática, de imediata remoção para o regime domiciliar de todos os presos que eventualmente se encontrem no chamado “grupo de risco”. O preso em questão encontrava-se na Penitenciária Compacta de Pracinha, que custodia 1.605 presos, tendo sido projetada para receber no máximo 844 internos.8

Mas por que os juízes decidem assim? Por que, apesar de todas as evidências, eles continuam mandando pessoas para cadeias superlotadas, com grande risco de contaminação e nas quais provavelmente vão morrer?

As respostas a essas perguntas passam, sem dúvida, pela constatação do peso do racismo em nossas relações sociais e do brutal processo de desumanização a que pessoas negras estão submetidas em nossa sociedade. Na prática, as condutas do governo federal e de parte da magistratura brasileira em relação à questão da Covid-19 nas prisões representam condenações à pena de morte na vigência do estado democrático de direito.

São escolhas políticas que constroem um itinerário de violência cujo desfecho letal é iminente e revela o peso do racismo no Brasil e sua força como esquema de anulação das possibilidades de vida e de acesso a direitos para as pessoas negras nos mais diferentes campos da vida social.


Felipe da Silva Freitas é doutor em Direito pela Universidade de Brasília, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana e integrante do projeto Infovírus (www.instagram.com/infovirusprisoes).

1 Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Relatório Sintético – Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional, Brasília, 2019.

2 Mapa do Encarceramento: Jovens do Brasil, Brasília, SNJ, 2015.

3 Sérgio Adorno, “Discriminação racial e justiça criminal em São Paulo”, Novos Estados, n.43, 1995; e Marcelo Paixão, Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, Rio de Janeiro, Garamond, 2008.

4 Sérgio Moro e Fabiano Bourguion, “Prisões, coronavírus e solturavírus”, Estadão, 30 mar. 2020.

5 Ricardo Balthazar, “Juízes tratam presos com rigor ao analisar pedidos de soltura na pandemia”, Folha de S.Paulo, 7 jun. 2020.

6 A pesquisa foi coordenada por Maíra Machado e Natália Pires e os resultados finais ainda não foram publicados. Essas informações foram obtidas pela apresentação realizada no webinar “Covid-19 nas prisões”, promovido pelo Insper em 11 de junho de 2020. Ver: https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/covid-19-nas-prisoes-decisoes-do-tjsp-em-habeas-corpus/.

7 Monitoramento CNJ, Covid-19 Efeitos da Recomendação n. 62/2020. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/06/Monitoramento-CNJ-Covid-19-Abril.20.pdf.

8 Caio Spechoto, “Juiz diz que risco de pegar Covid-19 pode ser maior fora do que dentro da cadeia”, Poder 360, 13 jun. 2020.

O racismo, essa besta nunca dorme

Para Hans Jonas, o racismo se apresenta como o oposto intocável da racionalidade e, mais ainda, como uma tendência que resistiu até mesmo ao Iluminismo e mesmo às teses mais otimistas ao longo da modernidade. Em outras palavras, o racismo é uma espécie de percalço no caminho da civilização.

Há tanto racismo na filosofia quantos foram os seus autores, quase sempre homens, quase sempre brancos, quase sempre europeus ou norte-americanos. Compreendido como o conjunto de teorias que tentam legitimar a superioridade de uma raça ou de uma etnia sobre a outra, nossa história coleciona horrores como aqueles que aparecem em afirmações de Hegel, para quem o negro era um homem selvagem, indomável e carente de valor e caráter, de Kant, para quem os africanos não teriam nenhum talento ou sentimento que os elevasse acima do ridículo, de Hume, que afirmou sem pestanejar que os negros eram inferiores aos brancos; de Voltaire, Tocqueville e tantos outros. Falou-se o pior contra negros, indígenas e judeus, árabes e asiáticos. Com sua força cultural, a filosofia, assim, não saiu incólume das agruras de seu tempo e, como tal, sujou-se bastante nas suas improbidades. E delas precisa se limpar, vez ou outra.

Por asseio, a filosofia também baniu demônios e foi além do tempo, projetando questões, desafios e provocações, cujo salto cultural e existencial é inestimável, para o bem do reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos. Queria falar hoje de uma dessas tantas ocasiões. A data é 30 de janeiro de 1993. A cidade é Udine, na Itália. Diante de uma plateia que celebrava com ele a entrega do prêmio Nonino, Hans Jonas fez um discurso sobre/contra o racismo. Judeu, ele conheceu o que era ser perseguido simplesmente pelo fato de ser quem se é. Judeu, teve sua mãe vítima do gás letal de Auschwitz, em 1942, uma ferida nunca suturada. Sobre esse drama, ele escrevera nas suas memórias: “esta obscura história é o grande pesar de minha existência. Esta ferida, o destino de minha mãe, jamais se fechou. Nunca pude superar. Meus filhos viveram isso comigo. Era terrível. As tormentas repentinas de soluços, que em determinadas ocasiões me sobrevinham, quando a conversa tratava de algo que me recordava aquilo, ou quando passava algum filme.” Uma mulher judia que arrancara os cabelos nas câmaras de gás porque simplesmente era quem era.

Escrevo isso para lembrar que o racismo, para Jonas, não era uma assunto abstrato, mas tinha rosto, pele, dor, tragédia pessoal. Talvez por isso mesmo, ele comece seu discurso na Itália, cinco dias antes de sua morte, com um exemplo pessoal. Ele lembra que foi precisamente em Udine que ficou sabendo do fim da Segunda Guerra Mundial, na qual ele lutou, ao lado de outros palestinos, em um grupo do exército inglês contra o nazismo. Jonas, além disso, agradece a corajosa piedade e a benevolência dos italianos a quem, diz ele, “devemos a própria vida”. Conhecendo tal solidariedade e ao mesmo tempo recontando a história do judeus, ele se dera conta dos horrores produzidos pelo holocausto.

Jonas conta história de uma manhã na qual conheceu, em Udine, duas senhoras alemãs vindas de Trieste, que deixaram a Alemanha e foram viver na Itália já depois da primeira guerra mundial. Com problemas diante do cancelamento de um trem durante sua fuga, contaram com a ajuda de um funcionário para empreender a viagem e, já na Itália, contaram com inúmeras ações de solidariedade dos habitantes locais, perante as muitas dificuldades que enfrentavam. Para Jonas, essa história manifesta uma espécie de “compromisso sagrado” baseado na solidariedade, reconhecida por Jonas como uma espécie de luz na noite enorme do genocídio que vinha sendo realizado em nome da raça.

Para Jonas, a condenação do genocídio não dependeria de uma negação da realidade da raça, já que a humanidade “existe sob a forma de diferentes raças” e ser humano, é precisamente, manter o antagonismo e a tensão, “recíprocos ou unilaterais” entre aqueles que se reconhecem como diferentes. Para o autor, “a diversidade como tal torna-se facilmente um berço de caricaturas ou de estereótipos pouco agradáveis”. Embora seja necessário reconhecer que certo “automatismo racista” estará sempre entre as pessoas, “a energia deste obscuro emaranhado, como seu potencial de ódio homicida, revelou-se curiosamente impenetrável ao progresso da racionalidade ao longo da nossa história”. Em outras palavras, para Jonas, o racismo se apresenta como o oposto intocável da racionalidade e, mais ainda, como uma tendência que resistiu até mesmo ao Iluminismo e mesmo às teses mais otimistas ao longo da modernidade. Em outras palavras, o racismo é uma espécie de percalço no caminho da civilização.

Assim, a diversidade acaba por se confrontar com esta tendência guardada no âmago da própria humanidade, como uma espécie de prova exigida pela nossa civilidade (no senso moral do termo), seja como indivíduos seja como sociedade. Nesse caso, o respeito à diversidade seria para Jonas “uma prova, em realidade, da maturidade do nosso ser humano”. O que o filósofo parece sugerir é que lidar com a tensão das diferenças é tão importante quanto superar o racismo que está impregnado no ser humano e faz parte do corpo social. Lidar com as diferenças e impedir que o racismo apareça é o veículo que nos conduz à maturidade civilizatória.

Diante desse desafio, por suas experiências pessoais, Jonas mostra-se desanimado com o progresso moral humano. Seu “ceticismo anti-utópico”, impede que ele pense na superação da tensão. Antes disso, ele acredita ser necessário manter-se vigilantes e atentos: o melhor a fazer é tentar fazer melhor em relação ao que foi no passado.

A tolerância, “um dos tantos motivos do orgulho do progresso” representa para Jonas “uma fraca proteção do outro indefeso” quando se trata de discutir o conceito de raça. Tendo em vista a história do povo judeu, que era a sua própria história, para Hans Jonas, “depois de um ilusório século de benevolência e tolerância crescente, tivemos a luciferina revelação do inferno sem fundo de uma desumanidade racista solta no coração da nossa celebrada cultura”. Toda a exploração dessa raça e toda a luta contra ela, teria sido amparada numa mitologia, ou melhor ainda, diz Jonas, em uma “demonologia” da raça, que colocou a seu serviço os objetivos perversos e os instrumentos da tecnologia avançada, precisamente os frutos da racionalidade, na forma da bomba atômica e dos experimentos com seres humanos realizados nos campos de concentração. Tudo em nome de um crime que manchou de forma definitiva todo o gênero humano, algo que precisa permanecer como uma espécie de experiência cujas lições não podem ser esquecidas, porque o que se coloca em risco aí, é a questão do homem enquanto tal. Diante desse desafio, devemos usar todas as forças da educação moral e uma vigilante atenção política. Segundo o autor, precisamos mobilizar todas as forças contra esta “besta nunca dormente que se esconde na nossa imperfeita condição humana”.

Para Jonas, o ambiente pós-Segunda guerra mundial, acabou por colocar em segundo plano, como uma questão anacrônica, o problema da raça e do racismo. Isso porque, depois da Segunda guerra, cresceu o desafio de transformar a humanidade em uma só, formada por pessoas que dividem o mesmo destino, que partilham uma nova solidariedade e uma nova responsabilidade. Segundo ele, “na luz desse novo horizonte que se abre, os conflitos raciais tornaram-se pálidos e o seu clamor deverá cair no silêncio”.

Infelizmente o autor estava errado: a permanência do racismo permaneceu como um problema não resolvido e que, mais de setenta anos depois, reacende o debate sobre as formas de convivência entre os seres humanos nos diversos países. Agora que somos confrontados novamente com essa “besta nunca dormente” que continua alojada no coração das sociedades contemporâneas, vemos que ainda não atingidos aquela maturidade desejada por Jonas – ele tinha, afinal, razão quanto ao seu pessimismo. A sua recomendação, contudo, continua também atual: a ética e a política são os principais – senão os únicos – instrumentos para confrontar o monstro que não se deixa subjugar.

Jelson Oliveira é professor do PPGF/PUCPR; membro do GT Hans Jonas da ANPOF; autor de “Negação e poder: do desafio do niilismo ao perigo da tecnologia” (EDUCS, 2018); co-organizador do “Vocabulário Hans Jonas” (EDUCS, 2019) e co-autor de “Terra Nenhuma: ecopornografia e responsabilidade” (EDUCS, 2020).

Filipe Martins e a rede de mentiras agonizam: um tuiteiro nocauteou a grana de sites de fake news

Uma reportagem do El País revelou como um perfil no Twitter virou a grande pedra no sapato da extrema direita americana. Com o nome de Sleeping Giants, o perfil criado em 2016 expôs ao escracho público as marcas que anunciavam em sites de fake news.

Filipi Martins e Steve Bannon – Reprodução: Twitter/Filipe G. Martins

O perfil informava ao público os nomes das empresas e compartilhava as capturas de tela dos anúncios nas suas redes oficiais. A tática foi um sucesso, e as empresas se viram obrigadas a anunciar publicamente o bloqueio dos anúncios.

O Breitbart News é um site de extrema direita famoso por inventar histórias contra adversários de Trump. Durante a eleição presidencial, o site publicou a história de que a então candidata Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia e promovia orgias sexuais com crianças no porão de uma pizzaria. Após a ação do Sleeping Giants, o site viu ir embora mais de 4,5 mil anunciantes — um golpe que significou uma perda de mais de 8 milhões de euros. Steve Bannon, o guru da extrema direita internacional, era o proprietário do site e, à época, chamou o Sleeping Giants de “a pior coisa que há”. Como se sabe, Bannon é o homem por trás da engenharia de desinformação dos extremistas de direita no mundo inteiro. As mentiras que ajudaram a eleger Trump foram uma inspiração para o surgimento das mamadeiras de piroca que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Um estudante que desenvolve pesquisas sobre fake news leu essa reportagem do El País e decidiu criar a versão brasileira do Sleeping Giants. Em apenas quatro dias, o perfil ultrapassou a marca de 200 mil seguidores e virou um movimento coletivo contra a propagação de mentiras. Para se ter uma ideia do sucesso brasileiro, o perfil americano juntou 270 mil seguidores em quatro anos. As marcas passaram a ser cobradas e quase todas empresas anunciaram o fim dos anúncios em sites que disseminam mentiras. O sucesso da tática enfureceu as hostes bolsonaristas, que imediatamente partiram para o contra-ataque.

Um dos que lideraram a manada foi Filipe Martins, esse projeto sorocabano de Steve Bannon. Ele é o bolsonarista mais próximo do americano e foi o responsável por aplicar o seu know-how de mentiras no Brasil. O jovem de 31 anos é, junto de Carlos Bolsonaro, um dos arquitetos por trás do “gabinete do ódio”, conhecido oficialmente como Assessoria Especial da Presidência. Nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, Martins também é o responsável por fazer o meio de campo entre o governo e as milícias virtuais bolsonaristas: youtubers, blogueiros e sites de notícias falsas. É ele quem organiza o ódio bolsonarista e municia a militância com conteúdo.

O assessor especial provocou o criador do Sleeping Giants americano, Matt Rivitz, que causou aquele prejuízo milionário ao seu guru americano. É que no fantástico mundo olavista de Martins parece óbvio que há “forças globalistas” por trás da versão brasileira. O aprendiz de Steve Bannon chamou de “censura” e “prática totalitária” uma ação feita por livre iniciativa das pessoas que protestaram e das empresas privadas que optaram por retirar os anúncios. Onde está a turma do ultraliberalismo sem freio nessas horas? Cadê seu deus livre mercado agora?

O Sleeping Giants brasileiro começou focando nos anunciantes do site Jornal da Cidade Online, que já foi alvo de processos por publicação de mentiras e está sendo investigado pela CPMI das Fake News. O relatório da comissão afirma que há “indícios da prática de condutas ilegais de José Pinheiro Tolentino Filho por meio de seu projeto de comunicação Jornal da Cidade Online”. O site já teve que pagar 150 mil em indenização para o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, pela publicação de uma mentira sobre ele. Não é uma coincidência o fato dessa mentira ter sido publicada justamente na época em que Santa Cruz protagonizou um bate-boca público com Bolsonaro.

Assim como a maioria de sites e blogs ligados ao bolsonarismo, o Jornal da Cidade Online consegue faturar com anúncios através do Adsense, um serviço da Google que os distribui automaticamente para sites assinantes. Nesse formato, as empresas não escolhem para quais sites irão seus anúncios. É o algoritmo do Google que os distribui nos sites. Ao serem expostas como patrocinadoras de sites que publicam mentiras, as grandes marcas imediatamente se posicionaram.

Sleeping Giants Brasil
Oii @DellnoBrasil, tudo bem? Realmente seus notebooks são incríveis, só não acho legal divulga-los em site famoso por espalhar Fake News e atacar constantemente a democracia. Pls considere bloquear✊🏽#SleepingGiantsBrasil@DellnoBrasil
Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.

Oii @ClaroBrasil, tudo bem? Realmente é muito mega hein mas não acho legal encontrar esse anúncio em uma postagem que chama o @felipeneto de “imbecil,lixo, ícone da canalhice e verme”. Por isso pedimos: PLS BLOQUEIE!✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@ClaroBrasil
Olá! Nós não compactuamos com a disseminação de notícias falsas, temos o compromisso ético com a transparência da informação. Por isso, todos os nossos anúncios automáticos estão passando por monitoramento, em conjunto com as plataformas parceiras, que distribuem tais conteúdos.

Oii @iFood, tudo bem? Realmente o app quebra um galho na hora de pedir um @McDonalds_BR quando bate aquela fominha, mas acreditamos que eles não gostariam de saber que seu lanche está ajudando a financiar um site divulgador de Fake News! ✊🏽 #SleepingGiantsBrasil

@McDonalds_BR
Nosso time já retirou do ar nossa mídia vinculada a esse site e a qualquer outro que compactue com notícias falsas. Obrigado!

@fastshop @fastshop_sac vocês também tem anuncio lá, vamos tomar providências?

@fastshop
Informamos que não temos vínculos com nenhum portal jornalístico. Estamos analisando os anúncios com nosso nome e removendo das plataformas que anunciam de forma automática através de sites de busca. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas. Agradecemos por nos avisar.

Philips BrasilSegundo levantamento do UOL, o Jornal da Cidade Online contava com 903 anunciantes. Durante pouco mais de um ano, todas essas empresas fizeram juntas 1.987 anúncios diferentes no site. O maior anunciante foi o Banco do Brasil que, ao ser confrontado no Twitter, também informou que retiraria os anúncios:

Oii @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas não precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear!✊🏽#SleepingGiantsBrasil

@BancodoBrasil
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Foi aí que o gabinete do ódio pegou fogo. Filipe Martins e Carlos Bolsonaro acionaram a rede virtual bolsonarista, que reagiu em peso junto com políticos e outros expoentes da extrema direita. A deputada bolsonarista Carla Zambelli, doPSL paulista, e o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, também foram escalados para repudiar o episódio. Wajngarten, que cuida das verbas publicitárias do governo, disse que o governo irá “contornar a situação”e garantir a “defesa da liberdade de expressão”. Afirmou ainda ter certeza que o Jornal Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”.

Para os padrões de seriedade de Wjangarten, que é investigado pelos crimes de corrupção, peculato e advocacia administrativa, a análise faz sentido. O Jornal da Cidade Online é um veículo tão sério que alguns de seus repórteres e colunistas não existem. O site publicava textos assinados por repórteres com identidades falsas para poder atacar ministros do STF e adversários políticos de Bolsonaro. O site também está sendo processado por atacar desembargadores do Rio de Janeiro e o ministro Gilmar Mendes com ofensas e mentiras usando esses perfis falsos.

Leandro Ruschel
@leandroruschel
Caro @jairbolsonaro e @secomvc , há um banco estatal discriminando site jornalístico, com inclinação conservadora, seguindo mera denúncia sem provas de perfil anônimo, aparentemente ligado à esquerda. É preciso rever essa decisão. https://twitter.com/BancodoBrasil/status/1263126286484082691 … Banco do Brasil
@BancodoBrasil
Respondendo a @slpng_giants_pt
Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado.
Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

Logo após o resmungo de Carluxo no Twitter, o Banco do Brasil, cujo gerente executivo de Marketing e Comunicação é filho do vice-presidente da República, voltou atrás da decisão e manteve os anúncios no site de fake news. Ou seja, um vereador carioca, lotado não oficialmente no gabinete do ódio, interferiu na política de anúncios de uma estatal. O filho do presidente da República conseguiu manter as verbas públicas que irrigam um site que defende o bolsonarismo espalhando fake news. É o dinheiro do povo brasileiro sendo usado para financiar a rede de mentiras que sustenta o governo.

Parece que finalmente estamos tomando um bom caminho para combater a máquina de propaganda fascistoide do bolsonarismo. A tática de constranger marcas que apoiam iniciativas se mostrou importante e eficaz, mas o Google, que gerencia a maior partes dos anúncios na internet, também deve ser cobrado. É ela quem controla o algoritmo que ajuda a financiar esses sites. Em novembro do ano passado, o Intercept revelou como o Google ofereceu treinamentos grátis para ensinar blogueiros bolsonaristas e antipetistas a faturarem com Adsense. Muitos desses blogueiros eram notórios criadores de fake news. Não adianta a empresa lavar as mãos.

O criador do Sleeping Giants brasileiro pretende se manter no anonimato porque viu o criador da tática sofrendo sérias ameaças de morte nos EUA. Mexer com a extrema direita é sempre perigoso. E, quando seu núcleo central mantém ligações políticas e financeiras com as milícias, todo cuidado é pouco.

Os scammers¹ da Dark Web exploram o medo e a dúvida do Covid-19

Os golpistas e criminosos que habitam a “dark web” que encontraram um novo ângulo – a ansiedade em relação ao Covid-19.

Direitos autorais da imagem – GettyImages

“Eles estão explorando o medo, a incerteza e a dúvida que as pessoas experimentam durante a pandemia, e usando a ansiedade e o desespero para levar as pessoas a comprar coisas ou clicar em coisas que não teriam de outra forma”, diz Morgan Wright, ex-consultor sênior ao programa de assistência antiterrorismo do Departamento de Estado dos EUA.

¹Scammers (ou fraudadores, em tradução livre) são perfis maliciosos usados para realizar golpes na Internet.

Wright, que atualmente é consultor chefe de segurança da empresa SentinelOne, costumava ensinar analistas comportamentais da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) sobre a exploração do comportamento humano.

Ele agora vê algumas dessas técnicas sendo usadas na dark web, uma parte criptografada da internet que pode ser acessada usando redes populares como o Tor.

O navegador Tor é focado na privacidade, o que significa que pode obscurecer quem o está usando e quais dados estão sendo acessados. Ele oferece a maus atores uma maneira de operar com um certo grau de impunidade, já que as forças da lei acham muito mais difícil rastrear criminosos que o usam.Wright costumava ensinar analistas comportamentais na Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA)

Desde o início da pandemia global, os mercados na dark web têm visto um aumento nos produtos e serviços relacionados ao Covid-19. Máscaras N95, vestidos, luvas e a droga cloroquina foram todos listados nesses mercados. No mês passado, a empresa de software de segurança IntSights descobriu que sangue supostamente pertencente a pacientes com coronavírus recuperados estava sendo oferecido para venda.

Os criminosos esperam que um maior sentimento de medo faça as pessoas se apressarem em comprar esses produtos e, como resultado, esses itens não são baratos; um relatório do Instituto Australiano de Criminologia descobriu que a vacina falsa média estava sendo vendida por cerca de US $ 370 (£ 300), enquanto uma supostamente originária da China estava vendendo entre US $ 10-15.000 (£ 8-12.000).

Uma das razões para o aumento dessas vendas pode ser o fato de muitos fraudadores terem que abandonar seus métodos normais de ganhar dinheiro na dark web – como a venda de voos falsos reservados usando aeronaves roubadas – porque essas indústrias estão atualmente inativas.

Muitos criminosos também vêem uma oportunidade – como a maioria das pessoas está trabalhando em casa, há uma chance maior de segurança cibernética negligente.

“De repente, houve uma grande mudança [na dark web] de falar sobre vulnerabilidades em software de colaboração quando eles perceberam que as pessoas estavam trabalhando em casa”, diz Etay Maor, diretor de segurança da IntSights.

Os golpes de phishing também estão aumentando. É aqui que os fraudadores fingem ser uma organização ou pessoa diferente por e-mail, esperando que a pessoa forneça alguns detalhes de login ou dados pessoais, que podem ser usados ​​para roubar dinheiro ou identidade de alguém.

“Os ataques de phishing começaram com aqueles que fingiam ser do NHS e depois se estenderam a organizações secundárias relacionadas ao Covid-19, como bancos ou HMRC, enviando e-mails sobre financiamento, subsídios ou concessão de licenças”, diz Javvad Malik, advogado de segurança da empresa de treinamento KnowBe4.

“Agora, existem modelos de phishing relacionados ao Covid-19 entrando em todos os kits de phishing disponíveis na dark web – o que significa que as pessoas podem imitar a Apple ou o LinkedIn com um conjunto de modelos padrão”, acrescenta ele.

Além disso, muitos serviços e produtos, incluindo kits de phishing, estão sendo oferecidos com desconto nas “vendas de coronavírus”.

“Há pessoas especializadas em páginas de phishing, VPNs obscuras ou serviços de spam por vários anos, que agora oferecem descontos porque acreditam que é a melhor hora para ganhar dinheiro e espalhar esses kits”, diz Liv Rowley, inteligência de ameaças. analista da Blueliv, empresa de segurança de computadores e redes.O analista de inteligência Liv Rowley monitora golpistas da dark web – Direito de imagem BLUELIV

A dark web foi projetada pelo Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA, com a idéia de permitir que ativistas de direitos humanos e pessoas do exército conversem e colaborem de maneira anônima e segura.

Embora a introdução do bitcoin tenha permitido aos criminosos ganhar dinheiro na dark web, ainda existe um grande número de usuários que optam por usá-lo para seu objetivo inicial – falando anonimamente em outros fóruns.

Segundo Malik, esses fóruns costumam ser usados ​​para alimentar teorias da conspiração em torno do vírus.

“Conspirações sobre o 5G ser o veículo desse vírus, ou armamento biológico ou que Bill Gates é o homem por trás dele tendem a surgir na dark web”, diz ele.

À medida que as empresas de mídia social e outros meios de comunicação reprimem as informações erradas, muitas outras podem ser empurradas para a dark web. Esses fóruns costumam atuar como uma porta de entrada para os mercados, para que as pessoas conectem seus produtos ou serviços a um público-alvo. Essa pode ser uma maneira dos fraudadores ganharem mais dinheiro nos próximos meses.Teorias da conspiração florescem na dark web, diz Javvad Malik
Direitos de imagem jAVVAD MALIK

O outro lado disso é que muitos jornalistas, ativistas e cidadãos podem estar usando a dark web para se comunicar em países onde há muita censura. As versões Tor de muitos meios de comunicação, incluindo a BBC e o New York Times, podem ser usadas se os sites originais forem bloqueados por governos ou estados, por exemplo.

O Netblocks, um grupo de defesa dos direitos digitais, diz que muitos países cortaram o acesso à Web de maneiras diferentes, pois procuram controlar o fluxo de informações sobre o surto de coronavírus.

Dois grupos de ransomware disseram que não atacariam nenhum hospital ou organização de saúde durante a pandemia, mas, como destacou o secretário de Relações Exteriores Dominic Raab em uma recente coletiva de imprensa, há evidências de que as quadrilhas criminosas têm como alvo ativo organizações nacionais e internacionais que estão respondendo à pandemia. – incluindo hospitais.

“Essas organizações são direcionadas devido à vulnerabilidade delas no momento e à probabilidade de pagamento de um resgate”, diz Charity Wright, consultora de inteligência contra ameaças cibernéticas da IntSights.

A coordenação e orquestração de muitos desses ataques geralmente começam na dark web.Os golpistas da Dark Web têm como alvo os cuidados com a saúde, diz Etay Maor – Direitos autorais da imagem IntSights

“Estamos vendo mais ofertas na dark web especificamente para informações relacionadas à assistência médica e para direcionar unidades de saúde e médicos. Existe até um banco de dados criado por alguém na dark web com todos os tipos de informações sobre a equipe médica”, diz Etay Maor, da IntSights .

No essencial, a dark web ainda pode estar sendo usada pelos mesmos motivos pelos quais se destinava – sob uma perspectiva de privacidade e segurança. Mas os criminosos estão usando isso para tentar explorar uma crise global para obter ganhos financeiros.

“Essa é a faca de dois gumes que, como sociedade, ainda não elaboramos: como salvaguardamos a liberdade de expressão e garantimos a privacidade, mas ao mesmo tempo rastreamos e impedimos que as pessoas abusem dessas liberdades?” diz Javvad Malik.

O Inferno é aqui! Cadeias de El Salvador: onde o distanciamento social é impossível

Com os prisioneiros amontoados em minúsculas celas às dúzias, o distanciamento social é impossível e as más instalações médicas significam que qualquer surto de coronavírus se espalhe como fogo.

As Nações Unidas instaram os governos a fazer mais para proteger os presos e sugeriram que os mais vulneráveis fossem liberados temporariamente para facilitar a superlotação.

Chile, Colômbia e Nicarágua anunciaram que levará milhares de prisioneiros para prisão domiciliar com prioridade dada a idosos, mulheres grávidas e pessoas com condições subjacentes. O Brasil já começou a transferir presos com mais de 60 anos para prisão domiciliar e o Peru diz que planeja conceder anistia a presos vulneráveis.

Mas o país com a segunda maior população carcerária per capita depois dos EUA ainda não tomou nenhuma dessas medidas. El Salvador enfrenta a violência de gangues há décadas e suas prisões estão explodindo.

O fotógrafo Tariq Zaidi passou dois anos documentando as condições nas prisões de El Salvador antes que o surto de coronavírus se espalhasse para o país da América Central. Ele teve acesso a seis prisões, bem como a duas celas de detenção da polícia, para uma visão rara das instituições penais do país da América Central.

Além de uma das maiores populações carcerárias per capita, El Salvador tem uma das mais altas taxas de homicídios per capita do mundo.

Mas essa taxa caiu de sua altura de 17,6 assassinatos por dia em 2015 para uma média de 3,6 homicídios por dia em outubro de 2019 e novamente para 2,1 em março de 2020.

O presidente Nayib Bukele, que assumiu o cargo em junho de 2019, reivindica grande parte do crédito por essa queda.

Sua política de tolerância zero à violência de gangues também se estende às prisões do país, com membros de gangues encarcerados que não permitem visitas ou telefones e ficam confinados em suas celas 24 horas por dia, 7 dias por semana. Se, por outro lado, a situação dentro e fora da cadeia for calma, o horário normal e os direitos de visita serão restabelecidos.

Antes de Bukele chegar ao poder, um programa chamado “Yo cambio” (eu mudo) oferecia aos presos a oportunidade de aprender habilidades para aumentar sua empregabilidade.

Alguns até criaram seus próprios desenhos e os exibiram em desfiles de moda na prisão.

Dado o grave problema de gangues de El Salvador e o fato de que até 80% dos ataques cometidos no exterior foram ordenados por trás das grades, muitos temem que a libertação de prisioneiros aumente ainda mais a violência das gangues.
Os guardas prisionais costumam usar balaclavas para proteger suas identidades, para que eles e suas famílias não sejam alvejados.

Mas as prisões com superlotação em massa também podem se tornar pontos quentes para infecções por coronavírus.

As doenças respiratórias já têm maior incidência nas prisões do país. A taxa de infecção por tuberculose nas prisões de El Salvador foi mais de 50 vezes maior que a da população em geral, de acordo com o Jornal Pan-Americano de Estudos de Saúde Pública.

Dado que o coronavírus e a tuberculose se espalham de maneira semelhante, as autoridades estão se esforçando para se preparar para o que o infectologista Jorge Panameño chamou de “bomba-relógio” esperando para explodir.

O presidente Bukele vem fazendo algumas mudanças no sistema prisional salvadorenho. Em 26 de dezembro – antes da disseminação do coronavírus para El Salvador – ele anunciou que a prisão de Chalatenango (foto acima) seria transformada em universidade. Seiscentos presos foram transferidos e o presidente disse no Twitter – sem oferecer mais detalhes – que os 730 restantes seriam removidos nos dias seguintes.

Mas enquanto o presidente Bukele foi rápido em ordenar um bloqueio em todo o país e um toque de recolher para conter a propagação do vírus, nenhuma política oficial de libertação de prisioneiros foi anunciada.

As prisões de El Salvador têm capacidade para 18.051, mas o sistema atualmente abriga mais de 38.000 detentos.

Calor extremo, condições insalubres e tuberculose mataram muitas pessoas antes mesmo do coronavírus.

A pandemia de coronavírus, portanto, apresenta um grande problema ao Presidente Bukele.

Para se preparar para um possível coronavírus na prisão, o presidente já teve que suspender algumas das medidas de emergência que impôs para controlar melhor os presos.

Além disso, juízes em El Salvador argumentaram que aqueles com mais de 60 anos e com doenças terminais deveriam ser libertados temporariamente – no entanto, os membros de gangues não seriam incluídos nesse movimento.

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Por que a senadora Selma Arruda, a ‘Moro de Saias’, foi cassada

Selma Arruda aparece com o celular no ouvido durante reunião no Senado

Direito de imagem EDILSON RODRIGUES/AGÊNCIA SENADO
TSE determinou que Selma Arruda está inelegível por um período de oito anos

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu na noite de terça-feira, por seis votos a um, cassar o mandato da senadora Selma Arruda (PODE-MT), conhecida como “Moro de Saias”, e de seus suplentes. A parlamentar é acusada de caixa 2 e abuso de poder econômico na disputa eleitoral de 2018, o que sua defesa nega. O tribunal também declarou que a parlamentar está inelegível por um período de oito anos — e determinou que sejam convocadas novas eleições para senador no Mato Grosso.

Ela pode permanecer no cargo até a publicação do acórdão (a decisão do tribunal), o que não tem data prevista para acontecer. Só após a publicação o Senado poderá notificar a senadora.

Selma Arruda pode recorrer da decisão do TSE, mas isso não impediria a perda do mandato, que é efetivada – sem necessidade de votação – pelo Senado (Mesa Diretora, também liderada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre).

Após a divulgação do resultado, a assessoria de Selma emitiu uma nota, conforme reproduzido pela imprensa brasileira, em que diz que prevaleceram “vontades políticas” em seu julgamento, mas que recebeu a notícia com “equilíbrio, respeito e serenidade”.

“Apesar das vontades políticas terem prevalecido no seu julgamento, a parlamentar acredita que o resultado traz uma lição muito importante sobre a necessidade da luta diária para livrar o país de corruptos”, diz trecho do texto.

CCJ

O combate à corrupção foi a principal bandeira de Selma na campanha — e ela continuou trabalhando o tema no Senado.

Também na terça-feira, a Comissão de Constituição e Justiça da Casa aprovou um texto relacionado ao tema, e do qual Selma Arruda é relatora.

O projeto de lei em questão, aprovado por 22 votos a um, prevê a alteração do Código de Processo Penal (CPP) restabelecendo a prisão após a condenação em segunda instância — que era a regra até o dia 7 de novembro, quando o STF decidiu que ninguém pode ser preso antes do fim do processo judicial.

O texto, que ainda precisa ir a plenário, será submetido a uma votação em turno suplementar na manhã desta quarta-feira, uma vez que houve alterações na versão original.

Qual é a acusação contra a senadora?

Selma Arruda é acusada de abuso de poder econômico e de “caixa 2” durante as eleições de 2018 — o que a defesa da parlamentar nega.

Em abril, ela teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Mato Grosso. Mas pode recorrer, junto a seus suplentes, ao TSE, que agora manteve a cassação.

Antes do início da campanha oficial, ela recebeu um empréstimo de seu suplente, o fazendeiro Gilberto Possamai, no valor de R$ 1,5 milhão — a soma não foi informada à Justiça Eleitoral. Com este dinheiro, ela contratou empresas de pesquisas e de marketing antes do início da campanha formal.

Para a acusação, trata-se de “caixa 2” e de abuso de poder econômico, pois ela teria antecipado o início da disputa eleitoral. Já a defesa da senadora alega que não se tratava de atos de campanha, e que os gastos não precisavam ser declarados.

“Ela diz que foram gastos com pré-campanha, mas não dá para dizer isso. É jingle eleitoral, cartaz com número eleitoral. Não tem como dizer que é gasto pré-eleitoral; é óbvio que são gastos de campanha”, diz à BBC News Brasil o advogado e ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. Ele atua no processo como advogado de Carlos Fávaro (PSD), candidato ao Senado derrotado em 2018, e defendeu a cassação de Selma Arruda na última terça (03), quando o assunto começou a ser julgado no TSE.

“Tudo aquilo que ela só poderia fazer durante a campanha, ela contrata antes (…). Ela sai na frente dos outros candidatos, violando a legislação; e portanto abusa do poder econômico. E segundo, é uma forma de ela não contabilizar as despesas. É ‘caixa 2’, porque deste dinheiro não se prestou contas (à Justiça Eleitoral)”, diz Cardozo.

Segundo ele, a lei eleitoral permite que candidatos recorram a empréstimos, desde que estes sejam concedidos por instituições financeiras; de que sejam oferecidas garantias pelo candidato; e que fique provado que este tem condições de pagar. E, de acordo com ele, nenhuma das três condições teria sido cumprida por Selma Arruda.

Já a defesa da ex-juíza ressalta que o empréstimo foi uma mera formalidade – a renda de Possamai o permitiria ter doado até R$ 3 milhões para a candidata. “É um dinheiro privado, uma relação entre particulares. Ele poderia ter doado para ela, inclusive. A acusação tenta criar uma cortina de fumaça questionando a origem do dinheiro. A origem é lícita, o primeiro suplente é um agricultor conhecido no Estado, com patrimônio expressivo”, diz o advogado eleitoral Gustavo Bonini Guedes, que defende a senadora.

Selma Arruda aparece com a mão no peito, enquanto é executado o Hino Nacional, ao lado de outros parlamentares enfileiradosDireito de imagem JEFFERSON RUDY/AGÊNCIA SENADO
Senadora do PSL foi titular da 7ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), quando ganhou apelido de ‘Moro de Saias’

“Isto é irrelevante, é um instrumento particular entre os dois. Não tinha razão alguma para escamotear isso”, diz Guedes, que já defendeu o ex-presidente Michel Temer (MDB) no TSE, no caso da cassação da chapa Dilma-Temer, em 2017.

Guedes diz ainda que Selma Arruda não incorreu em “caixa 2”, pois não há necessidade de prestar contas antes do início oficial da disputa. “Qual outro candidato no país fez prestação de contas na pré-campanha? O TRE de Mato Grosso criou uma forma para cassar a senadora, por conta do histórico dela enquanto juíza. E a gente espera que Brasília possa melhorar essa análise”, diz Guedes.

Ele também questiona as provas usadas pela acusação: segundo ele, a única testemunha do suposto “caixa 2” é o publicitário que prestou serviços à senadora – a quem ela processa por extorsão.

A íntegra da nota de Selma Arruda

Após a decisão, a assessoria da parlamentar divulgou uma nota à imprensa. Leia a íntegra a seguir:

“A senadora Juíza Selma recebeu a notícia sobre sua cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com equilíbrio, respeito e serenidade, mas com a convicção de que, mesmo diante de tudo, ela e todos que defendem o combate à corrupção saíram vitoriosos”.

“Apesar das vontades políticas terem prevalecido no seu julgamento, a parlamentar acredita que o resultado traz uma lição muito importante sobre a necessidade da luta diária para livrar o país de corruptos”.

“A senadora agradece a todos os parlamentares e seguidores das suas redes que prestaram apoio e solidariedade nesse momento, principalmente, àqueles que compreendem que nesse processo ela foi alvo de perseguições políticas, e, por ter sido eleita, sofreu as consequências pelas ações desempenhadas durante sua atuação na magistratura de Mato Grosso”.

Seguidores nas redes e ameaças de morte

Selma Rosane dos Santos Arruda, hoje com 56 anos, se tornou conhecida em 2015, quando mandou para a prisão o ex-governador de Mato Grosso Silval Barbosa (PMDB-MT) — junto com outros políticos e empresários locais. Silval é acusado pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso de comandar uma quadrilha que recebia propina de empresas em troca da concessão de benefícios fiscais.

À época, Selma Arruda era titular da 7ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), um ofício especializado em combate ao crime organizado. O trabalho como juíza rendeu a Selma o apelido de “Moro de Saias” ou “Moro de MT”, e uma legião de seguidores nas redes sociais. Mas também resultou em ameaças à sua vida e de familiares, que a obrigavam a permanecer sob escolta de policiais militares durante as 24h do dia.

Em março passado, ela pediu aposentadoria do cargo de juíza do Estado, depois de 22 anos de magistratura. No mês seguinte, abril, filiou-se ao PSL, partido do então candidato à presidência Jair Bolsonaro. Mais tarde quando o presidente deixou o partido comandado pelo deputado Luciano Bivar (PSL-PE), ela também saiu e se filiou depois ao Podemos.

Em outubro, foi a candidata ao Senado mais votada em Mato Grosso, com 678,5 mil votos. Na época, Sergio Moro ainda continuava na magistratura – ele só deixaria a 13ª Vara de Curitiba em novembro de 2018, quando aceitou o convite de Jair Bolsonaro para aceitar o posto de ministro da Justiça.

Prisão após segunda instância

O projeto de lei aprovado na CCJ do Senado, do qual Selma Arruda é relatora, prevê alterar o Código de Processo Penal (CPP), de forma que o cumprimento da pena comece já depois da condenação em segunda instância.

O objetivo é retomar a regra que existia antes do dia 7 de novembro, quando o STF determinou que o réu só pode começar a cumprir pena depois do chamado trânsito em julgado – quando estão esgotados todos os recursos aos quais o acusado tem direito.

O assunto ganhou força no Congresso depois da decisão do STF. Entre outros motivos, por que a decisão do Supremo resultou na soltura também do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), depois de 580 dias preso em Curitiba.

O projeto é inspirado numa proposta anterior sobre o tema, que fazia parte do chamado Pacote Anticrime. A tramitação do projeto de lei é mais rápida que a de uma proposta de emenda à Constituição (PEC), com rito mais longo e necessidade de mais votos.

O pacote foi entregue por Sergio Moro ao Congresso no começo ano, mas a prisão em segunda instância acabou excluída do texto pelos deputados.

O projeto relatado por Selma não conta com a simpatia dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e nem da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ): os dois preferem que o Congresso vote uma PEC, em tramitação na Câmara.

No Congresso, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre aparecem sentados à mesa - o primeiro batendo palmas e o segundo, assinando papelDireito de imagem PEDRO FRANÇA/AGÊNCIA SENADO
Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, preferem que o Congresso vote uma PEC sobre a prisão em segunda instância

“Eu acredito que o projeto de lei é mais viável que a PEC, não só pela tramitação, que é mais segura, é mais célere (rápida). Mas também porque o teor da PEC da Câmara é muito complexo, e provavelmente vai ter muitos entraves. Atinge interesses grandes, e não será aprovada sem um amplo debate”, disse Selma Arruda à BBC News Brasil.

“Nós temos 43 assinaturas (de senadores) pela tramitação do PL (que altera o CPP). Nós temos então a maioria do Senado querendo a tramitação e aprovação desse projeto. Então é hora dos senadores que não concordam aprenderem a respeitar quem pensa diferente”, disse ela.

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‘Operação Maleta Verde’, o escândalo que atinge governo e oposição na Venezuela

Guaidó e MaduroDireito de imagem GETTY IMAGES

Aliados de Guaidó e de Maduro estão envolvidos no escândalo.

Com semblante mais sério que de costume, Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino da Venezuela pelos Estados Unidos, pelo parlamento da União Europeia e por vários países da América Latina, dirigiu-se a jornalistas reunidos em uma inesperada entrevista coletiva no domingo.

Ele sabia que uma bomba política havia acabado de explodir.

O portal investigativo Armando.info havia publicado naquele dia que deputados de vários partidos da oposição teriam sido comprados.

Os acusados teriam concordado em fazer manobras a favor de vários empresários da órbita do chavismo investigados em diferentes instâncias internacionais por sua participação em um esquema de corrupção ligado aos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap), que é o sistema de distribuição de alimentos a preços subsidiados realizado pelo governo de Nicolás Maduro.

Guaidó, atual presidente da Assembleia Nacional, disse que é “inaceitável usar uma instituição do Estado para tentar beneficiar corruptos e ladrões que saquearam a Venezuela o tempo todo” e prometeu uma investigação.

Mas a já conhecida “Operação Maleta Verde”, como foi batizada pelo deputado José Guerra, que foi quem primeiro se referiu publicamente a ela, já estava em andamento e os danos políticos ao governo e à oposição ainda serão quantificados.

No Twitter, Guerra escreveu que “operadores financeiros do regime com maletas cheias de dólares” tentaram comprar deputados.

Segundo as informações publicadas em Armando.info, deputados de diferentes partidos da oposição, incluindo Vontade Popular (ao qual Guaidó pertence), agiram em instâncias como o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e o Ministério Público da Colômbia para que eles parassem de investigar os empresários envolvidos na suposta rede de corrupção em torno do sistema Clap.

Os envolvidos chegaram a enviar cartas endereçadas a autoridades estrangeiras atestando que não havia investigações em andamento na Venezuela contra esses empresários.

Militares com caixas de papelão ClapDireito de imagem GETTY IMAGES
Saab e outros empresários foram acusados ​​de se beneficiarem irregularmente do programa de caixas Clap.

O deputado Luis Eduardo Parra Rivero, do partido Primero Justicia, é acusado de ter negociado com o empresário colombiano Carlos Lizcano para que o grupo de parlamentares trabalhasse em defesa dos envolvidos.

Como o governo de Nicolás Maduro está envolvido

A oposição, com Juan Guaidó à frente, denunciou insistentemente que a corrupção generalizada nos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro arruinou a Venezuela.

As implicações desse escândalo afetam tanto o governo quanto a oposição.

O escândalo em torno das caixas Clap estourou em maio de 2018, quando investigações jornalísticas revelaram que os empresários colombianos Alex Nain Saab Morán e Álvaro Enrique Pulido Vargas haviam se beneficiado de contratos milionários com o governo de Maduro para a distribuição dos produtos das caixas Clap.

A Clap é uma das grandes apostas de Maduro, que a descreveu como “a comida que chega às famílias” diante do “bloqueio do império”, em referência às sanções dos Estados Unidos.

Segundo as informações publicadas, empresas ligadas à rede de negócios de Saab e Pulido obtiveram ganhos milionários por sua participação neste programa, que também estaria fornecendo alimentos de baixa qualidade à população.

Em julho, Saab foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA por “participar com infiltrados de Maduro na condução de uma rede de corrupção em larga escala que eles usaram cruelmente para explorar a faminta população venezuelana”.

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Perde a política, Maduro vence

Por Guillermo D. Olmo, correspondente da BBC News Mundo na Venezuela

Nada poderia causar mais danos a Guaidó e à oposição venezuelana do que aparecerem como cúmplices do mesmo chavismo que eles acusam de ter saqueado a Venezuela e que dizem combater.

E a rápida reação de Guaidó, distanciando os parlamentares envolvidos e ordenando uma investigação na qual ele convidou a mídia a participar, está longe do que é habitual quando o governo é envolvido em um escândalo. Maduro geralmente responde às acusações que pesam sobre autoridades e até membros de sua família alegando que é vítima de uma “guerra midiática”.

O que provavelmente permanecerá, no fim das contas, será um sentimento de descrédito geral da política que poderia levar muitos venezuelanos a pensar que ambos os líderes são igualmente corruptos. De fato, muitos já pensam assim.

Essa espécie de “tudo vale, nada importa” alimenta o desinteresse da castigada população venezuelana pela política, uma dificuldade adicional para as tentativas de Guaidó de tirar Maduro do poder por meio da mobilização popular.

Enquanto isso, Maduro observa do palácio de Miraflores como as facadas voam novamente em público entre seus rivais e, nos Estados Unidos, Donald Trump permanece muito mais ocupado com sua reeleição e em se defender contra o “impeachment” do que com a Venezuela.

Quais foram as reações

Mesmo antes da divulgação das informações jornalísticas que envolvem os membros do Comitê de Controladoria, seu presidente, Freddy Superlano, enviou uma carta a Guaidó anunciando sua decisão de se “separar” temporariamente do cargo “em nome da facilitar as investigações necessárias sobre as recentes acusações públicas” e instou os outros integrantes da comissão a seguirem o mesmo caminho.

Superlano disse que essa etapa não implica “reconhecimento ou responsabilidade” em irregularidades.

Juan Guaidó.Direito de imagem GETTY IMAGES
A liderança de Guaidó foi afetada pelas informações do portal investigativo Armando.info.

Já no domingo, Guaidó anunciou a “intervenção e reestruturação imediata” da Controladoria e uma investigação aberta e pública na qual organizações não-governamentais e a mídia independente seriam convidadas a participar.

Ele também disse que todas as cartas ou documentos emitidos por membros da Assembleia que exoneram empresas ou cidadãos “ligados à corrupção” seriam anulados.

A alta cúpula do governo ainda não falou sobre o assunto, embora as acusações de corrupção contra membros da oposição ocupem amplo espaço há dias na mídia estatal.

Como o escândalo afeta Guaidó e Maduro

Nos últimos dias, as supostas irregularidades se tornaram um problema que cresceu como uma bola de neve para Guaidó.

Apenas 48 horas antes da informação sobre a compra de deputados da oposição, o recém-destituído “embaixador” na Colômbia, Humberto Calderón Berti, deu uma entrevista coletiva em Bogotá. Ele acusou o entorno de Guaidó de manuseio inadequado dos fundos destinados à operação que em 23 de fevereiro tentou levar “ajuda humanitária” para a Venezuela e falou de pagamentos indevidos em “prostitutas e bebidas alcoólicas” que seriam investigados pelo Ministério Público da Colômbia.

A polêmica ocorre logo depois que as últimas mobilizações de protesto convocadas pelo líder da oposição tiveram participação bem mais baixa do que era habitual nos primeiros meses do ano e no momento em que as rachaduras que tradicionalmente existiam no bloco da oposição venezuelana surgem novamente.

ManifestantesDireito de imagem GETTY IMAGES
Os últimos protestos convocados por Guaidó tiveram participação menor que no início do ano.

Se na semana passada a líder da Vente Venezuela, María Corina Machado, descreveu a demissão de Calderón Berti como “um grande erro”, nesta segunda-feira, o deputado José Brito, da Primero Justicia, foi além.

Brito, um dos deputados envolvidos na suposta conspiração de corrupção, chamou Guaidó de “vigarista”. Ele também o acusou de ter iniciado uma “guerra suja” para matar a “rebelião” existente contra ele dentro da Assembleia Nacional.

“Juan Guaidó e Nicolás Maduro são companheiros”, disse Brito, a quem seu partido decidiu expulsar depois que seu nome apareceu envolvido no escândalo.

Militares carregam caixas de papelão.Direito de imagem GETTY IMAGES
A operação de entrada de “ajuda humanitária” também foi cercada de acusações de irregularidades.

Segundo o analista Luis Vicente León, da consultoria Datanálisis, “se a oposição entendesse o risco que corre, sua resposta seria unificada, deixando de lado por enquanto divisões internas e interesses individuais”.

Para León, embora também esteja envolvido, tudo o que está acontecendo beneficia o governo. “Qualquer que seja a estratégia de controle de danos usada pela oposição, o vencedor desta rodada é Maduro”, diz.