Covid-19: uma breve história das máscaras faciais, da Peste Negra à pandemia

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Ao longo dos séculos, humanos buscaram proteção cobrindo o rosto

Antes limitado a ladrões de banco, estrelas pop excêntricas e turistas japoneses preocupados com a saúde (e conscienciosos), o uso de máscaras em público agora é comum o suficiente para ser apelidado de “o novo normal”.

Pode até ser normal — mas não é novo.

Da Peste Negra ao smog sufocante, da poluição do tráfego à ameaça de ataques de gás, coberturas faciais têm sido usadas nos últimos 500 anos.

Embora as primeiras máscaras fossem usadas como disfarce, vestir uma máscara protetora (em vez de uma usada como traje) remonta pelo menos ao século 6 a.C. Imagens de pessoas usando panos sobre a boca foram encontradas nas portas de tumbas persas.

De acordo com explorador Marco Polo, os servos na China do século 13 cobriam o rosto com lenços de tecido. A ideia era que o imperador não queria que o hálito deles afetasse o cheiro e o sabor de sua comida.Pode parecer um transatlântico afundando no mar, mas são chaminés de fábricas que surgem em meio à poluição no East End de Londres em 1952.
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A praga
Foi a Peste Negra — uma praga que varreu a Europa no século 14, matando pelo menos 25 milhões de pessoas entre 1347 e 1351 — que pressagiou o advento da máscara médica.

Os teóricos acreditavam que a doença se propagava através do ar envenenado ou “miasma”, criando um desequilíbrio nos fluidos corporais de uma pessoa.

Eles tentaram evitar que esse ar asqueroso os afetasse ora cobrindo o rosto ora agarrando-se a buquês de flores.

O garoto-propaganda da peste, aquele cruzamento sinistro de máscara de pássaro entre a Sombra da Morte e um corvo steampunk, não apareceu até os últimos estertores do surto final, em meados do século 17.

Perfumes e especiarias também estavam envolvidos — o “bico” surgiu como um local para encher ervas e aromáticos para neutralizar o chamado miasma.Os médicos da praga antes da introdução da máscara em forma de pássaro
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Anti-poluição
A Revolução Industrial do século 18 ajudou a criar a infame poluição atmosférica de Londres, que aumentou à medida que mais e mais fábricas expeliam fumaça e as famílias mantinham seus fogos de carvão acesos.GETTY IMAGES
A parte semelhante a um bico da máscara da peste era recheada com ervas aromáticas para neutralizar ‘miasmas’ prejudiciais

Muitos invernos viram grossas mantas de fumaça amarelo-acinzentada cobrindo a capital.

O pior episódio foi em 1952, quando entre 5 e 9 de dezembro, pelo menos 4 mil pessoas morreram no período imediatamente posterior, e estima-se que mais 8 mil foram a óbito nas semanas e meses seguintes.

O smog, uma combinação de fumaça e névoa, ocorre quando o tempo frio prende o ar estagnado sob uma camada de ar quente.

Ele pode agravar problemas respiratórios e cardiovasculares e causar irritação nos olhos.

A partir da década de 1930, as máscaras “anti-poluição” tornaram-se tão comuns no rosto quanto o Homburg (chapéu semi-formal de feltro de pele) ou cloche de feltro na cabeça.GETTY IMAGES
Pesadas túnicas de couro, grossas coberturas de vidro para os olhos, luvas e chapéus faziam parte das roupas de proteção usadas pelos médicos que tratavam de pacientes durante a Grande Peste de 1665

Poluição do trânsito
Durante a Londres vitoriana, senhoras bem-educadas — especialistas em cobrir a pele e sempre ansiosas por qualquer coisa que pudesse ser um adorno intrincado que viesse em preto — começaram a prender véus em seus chapéus.

Embora usado durante o luto, o papel do véu não era exclusivamente fúnebre. Também ajudava a proteger o rosto de uma mulher do sol, da chuva e de poluentes, bem como da sujeira e da poeira transportadas pelo ar.

De acordo com pesquisas, a maior causa de poluição do ar nas grandes cidades agora é o tráfego. As emissões dos canos de descarga, incluindo óxidos de nitrogênio e minúsculas partículas de borracha e metal, são lançadas no ar.

Ciclistas usando máscaras antipoluição era uma cena comum em algumas cidades muito antes de o coronavírus obrigar todo mundo a usar cobertura facial. Os véus frágeis, como os usados pelas motoristas britânicas no início do século 20, não estavam mais à altura.HUW EVANS PICTURE AGENCY
Véus de condução – atraentes e práticos

Gripe espanhola
Um surto de gripe no final da 1ª Guerra Mundial tornou-se uma pandemia global devastadora. Apelidada de gripe espanhola porque os primeiros casos foram registrados na Espanha, cerca de 50 milhões de pessoas morreram.

Acredita-se que a disseminação do vírus tenha sido intensificada pelos soldados que retornavam das trincheiras. Espalhou-se das estações ferroviárias ao centro das cidades, depois aos subúrbios e ao campo.

As empresas de transporte tentaram impedir a propagação da infecção fazendo seus funcionários usarem coberturas faciais.

A publicação britânica Nursing Times de 1918 incluiu conselhos para conter a doença, com uma descrição de como as freiras da St Marylebone Infirmary, em Londres, ergueram divisórias desinfetadas entre cada cama e “cada enfermeira, médico, babá ou assistente” que entrasse no local tinha que usar uma máscara para se proteger.

As pessoas comuns também foram instadas a “usar uma máscara e salvar sua vida” — muitas as fizeram com gaze ou adicionaram gotas de desinfetante a engenhocas embaixo do nariz.GETTY IMAGES
Alguns médicos sugeriram gaze pulverizada com desinfetante como proteção contra a mortal gripe espanhola.GETTY IMAGES
Exércitos de todo o mundo, incluindo esses soldados de infantaria indianos, tiveram que realizar treinamento de ataque com gás

Gás
A ameaça de uma 2ª Guerra Mundial, 20 anos após o primeiro conflito global ter presenciado o uso de cloro e gás mostarda, fez com que o governo distribuísse máscaras de gás tanto para as pessoas comuns quanto para os militares.GETTY IMAGES
As dançarinas do cabaré Murray’s em Londres usaram máscaras de gás em suas fantasias. As coberturas faciais se tornaram, assim, predominantes na maioria das áreas da vida em algumas cidades europeias.GETTY IMAGES
Até os animais tinham suas próprias máscaras

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Motorista de 1971 usa máscara de gás

Fama e privacidade

Outro tipo de máscara surgiu nos últimos tempos — uma que atende à necessidade de proteger o rosto do olhar fulgurante de fãs ávidos (e presumivelmente, inimigos).

Sobre agendas e tempo desperdiçado

É muito difícil, eu sei, mas em travessias ruins, como esta, temos que tentar fazer de cada dia uma obra de arte.

Há poucos dias recebi pelo correio uma agenda 2021 editada pela Random House para divulgar o pequeno ensaio Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie. É uma caderneta primorosa, com capa dura de cor laranja vibrante, fita marcadora de leitura e informações sobre mulheres históricas. Perfeito para mim, em suma, porque adoro objetos de papelaria em geral e os cadernos em particular. Mas, vejam só, quando abri a embalagem e a peguei, o primeiro impulso que senti foi o de atirá-la pela janela tal como uma lançadora de disco olímpico. Como? Uma agenda de 2021? Já? O que aconteceu com este 2020 que nos sequestrou e envelheceu como se valesse três anos, mas que por outro lado foi um tempo quieto e vazio, um período inabitado e inóspito?

Que o tempo é uma ilusão é algo que a humanidade já intuía antes que Einstein viesse nos contar. Ao longo dos séculos, os filósofos tentaram compreender essa substância elástica e mutável em que nossas vidas se desenrolam. É sabido por todos que, quando crianças, as horas são longuíssimas e os dias, eternos; mas que à medida que envelhecemos o tempo começa a adquirir um ritmo desoladoramente vertiginoso.
Sempre tive a suspeita de que há algo biológico nessa percepção tão desigual. Nossas células, ao envelhecerem, vão reduzindo a atividade metabólica, encurtam as caudas do DNA (os famosos telômeros), vão ficando lentas e inábeis. O relógio interno temporal pode residir nessas malditas células avelhentadas que tardam quatro vezes mais para fazer as coisas, consumindo assim as horas em grandes mordidas. Isto é: não é que nos pareça que o tempo passa mais depressa quando somos velhos, é que realmente vai mais depressa.

Mas, além desses arranhões mentais, é claro que existe um componente psicológico: a meia hora que você passa na cadeira do dentista não dura o mesmo que a que você vive nos braços do seu amado. Curiosa e paradoxalmente, notei que, quando você faz menos coisas na vida, quando tem menos atividades, quando está impaciente ou insatisfeito, quando está entediado, digamos, o tempo se torna longuíssimo, mas na verdade é quando mais corre. É quando você olha para trás e se pergunta: mas, para onde foram os dias, o que aconteceu? Ontem, minha amiga Ana Arambarri me escreveu: “Fui comprar a agenda para 2021 e na hora de pagar exclamei alto; “E para quê eu a quero, se não tenho nada para anotar?” O vendedor respondeu: “Você não é a única cliente que está deprimida”. Esta é a questão: o furacão da pandemia esvaziou nossas agendas mentais e transformou o tempo em uma argamassa de travessia difícil.

Ana Arambarri, por exemplo, teve a má sorte de publicar seu último livro, Música Contra los Muros, no final de fevereiro, e então o coronavírus chegou e o comeu (uma pena, porque é um texto fascinante sobre a orquestra árabe-judaica fundada por Barenboim). Em maior ou menor grau, e em alguns casos de forma gravíssima, esta pandemia atrapalhou a vida de nós todos.

Agora olho para a agenda da Random, enfim, ou contemplo as iluminações de Natal, cuja chegada sempre me angustia um pouco, mas que este ano estou tentada a apedrejar, e de repente me ocorre que, se queremos recuperar nossa existência, a primeira coisa que temos que alcançar é nos tornarmos senhores de nosso tempo. No início da minha juventude, sendo tão sentimentalmente apaixonada como era (agora estou me desprendendo), mais de uma vez quis apagar os dias, desejei jogá-los pela janela, e que o tempo passasse quanto antes para poder chegar ao próximo encontro com o amado da vez. Até que um dia compreendi que os amores passavam, mas as horas perdidas pesavam. Que eram vida morta dentro de mim, porque não há maior riqueza neste mundo do que esse brevíssimo tempo que cabe a cada um de nós e, portanto, não há estupidez mais triste e imperdoável do que desperdiçá-lo ou querer gastá-lo. A partir daquela pequena revelação tenho procurado estar consciente do presente e respeitá-lo. É muito difícil, eu sei, mas mesmo mas travessias ruins, como esta (ou melhor, especialmente em travessias ruins como esta), temos que tentar fazer de cada dia uma obra de arte.

Rosa Montero é escritora e jornalista do EL PAÍS. Ela lançou neste ano no Brasil o livro Nós, mulheres (Todavia).

Patti Smith: “É preciso dar muitos passos para conseguir ser livre”

Narradora, poeta e cantora underground, ela se define, aos 73 anos, como uma sobrevivente. A pandemia lhe confirmou que a liberdade é uma conquista mental e, para que a sociedade americana despertasse, ela saiu às ruas para cantar e incentivar as pessoas a votar. Seus livros, assim como sua vida, estão escritos com lembranças de Robert Mapplethorpe e Sam Shepard, seus dois grandes amores. E também de Janis Joplin, Bob Dylan e William Burroughs, que lhe ensinou o segredo da arte: manter o nome limpo e não fingir.

A cantora e poeta Patti Smith, fotografada neste ano por Steven Sebring. STEVEN SEBRING

Escritora, cantora, artista performática e pintora, quando Patti Smith (Chicago, 73 anos) é indagada sobre quantas Pattis coexistem, responde com palavras de Walt Whitman: “Contemos multidões”. Testemunha de uma Nova York de aluguéis baratos e “drogas que acabaram com muita gente”, entrou no mundo beat e no entorno warholiano quando a fábrica de bicicletas de Nova Jersey em que trabalhava fechou e, aos 19 anos, mudou-se para a baixa Manhattan. Corria o ano de 1971 quando o fotógrafo Robert Mapplethorpe a incentivou a cantar seus poemas. Ele —que acabaria se tornando um ícone gay— foi um de seus grandes amores. O dramaturgo Sam Shepard foi outro.

E por seu marido, o guitarrista Fred Sonic Smith, abandonaria esse mundo para se dedicar a criar seus filhos em Detroit. Mas Sonic morreu e, “para alimentá-los”, Smith voltou aos palcos. Tinha 44 anos. Aos 55, começou a publicar suas memórias. Só Garotos (Companhia das Letras) narra com ternura e crueza —conta que Mapplethorpe se prostituía para pagar o aluguel— a história de amor entre os dois, que, em seu leito de morte, o fotógrafo lhe implorou para que escrevesse. Conseguiu fazer isso em 2010, 21 anos depois que ele morreu de AIDS.

Vestida com roupas masculinas, ela representa a independência e a sabedoria de saber viver com pouco. A conversa é por telefone. Ela está em seu apartamento de Nova York. Em uma apuração angustiante, Joe Biden é confirmado como presidente eleito de seu país. Pergunto-lhe se tem um café ao lado —seu “único vício” aparece continuamente em seus livros (o mais recente, O Ano do Macaco, foi lançado em 2019) e a marca Lavazza a nomeou “embaixadora cultural”. Responde que sim: “Preto, sem açúcar e com um pouco de canela”.

P. Você saiu às ruas para cantar e incentivar as pessoas a votar. Em 2016, escreveu que aqueles que se calaram tinham vencido as eleições. Quem ganhou estas?
R. As pessoas falaram. Nunca haviam votado tantas. O fato de as pessoas se mobilizarem é uma vitória. Somos uma sociedade que às vezes precisa despertar.

P. O amor —por seus parceiros, por seu cachorro ou pela memória de seus pais— define sua escrita. Precisou subir em um palco e dar chutes para compensar tanto amor?

R. Você dificilmente pode mostrar seu amor se não mostrar sua raiva. A raiva costuma ser fruto da busca pela verdade, por isso as pessoas protestam nas ruas. A música que fazemos comunica essas emoções.“A arte te aproxima do que as pessoas chamam de Deus. Como artista, busco revelações. Para mim, a arte é uma viagem de descobrimento”. STEVEN SEBRINGP. Entre seus amores, coloca no mesmo nível seu cachorro Bambi e o dramaturgo Sam Shepard.

R. São dois dos meus favoritos. Bambi se deixou atropelar quando íamos entregá-lo para adoção porque minha irmã mais nova era alérgica. Peguei comida e saí com ele. Durante um dia, percorremos todos os lugares onde tínhamos sido felizes. Aí ele se colocou na frente do caminhão de quem ia adotá-lo. Sam e eu fomos um casal selvagem. Sempre pude contar com ele. No final, quando tinha ELA [esclerose lateral amiotrófica], fui ajudá-lo. Estávamos na cozinha. Tomávamos café. Eu lhe fiz um sanduíche e ele disse: “Patti Lee, nós nos transformamos em uma obra de Beckett”. Sempre me chamava pelo meu segundo nome. Só minha mãe, Johnny Depp e ele faziam isso.

P. Você é inclassificável, mas nunca foi questionada como artista.

R. Como me aconselhou William Burroughs, procurei proteger meu nome e não menti.

P. No entanto, foi questionada pessoalmente quando era namorada de Mapplethorpe —certa imprensa publicou que era lésbica.

R. Também fui criticada por algumas feministas quando me mudei para Detroit com meu marido para cuidar dos meus filhos. É preciso dar muitos passos para conseguir ser livre. Se é [livre] porque alguém se questiona em cada decisão. Existem pessoas que buscam uma identidade no pertencimento a um grupo, mas você tem de buscá-la em si mesmo. Ser mãe não me oprimiu. Mas entendo que isso pode acontecer com outras pessoas. Para mim, o sacrifício é parte de nossa evolução como seres humanos. Quando você se sacrifica, cresce.

P. Sacrificou-se por amor a Mapplethorpe?

R. De forma nenhuma. Nós nos conhecemos quando tínhamos 20 anos. Tivemos uma relação de amantes jovens. Jamais pensei que ele estava questionando sua sexualidade. Eu também não tinha muita experiência. Depois ele se atreveu a considerar algumas coisas. Estávamos lidando com questões fundamentais sabendo muito pouco. Ele me pediu que contasse.

P. É chocante que alguém que representava a ruptura sofresse tanta autorrepressão.

R. É chocante hoje. Em 1968, ocultar a homossexualidade era comum. Os jovens eram internados em hospitais psiquiátricos por isso. Era um estigma. E ele queria se tornar um artista e salvar nossa relação. Não sabíamos mais.P. Talvez soubessem pouco, mas tinham certeza de que seu amor estava acima de tudo.

R. Acreditamos em nós mesmos através do outro. Quando alguém tem essa confiança em você, isso o mantém por toda a vida. Ainda hoje, quando tenho um momento de desânimo, busco esses instantes na memória e ganho força. Você pode recorrer à memória para se fortalecer.

P. Vive tanto na sua cabeça quanto na realidade?

R. Vivo no passado e no presente. Na minha cabeça e na rua. Às vezes, olhar para trás é doloroso. Perdi tanta gente: meu marido, Robert, Sam, meus pais, meu cachorro, meu irmão… Mas outras vezes uma fotografia ou um livro te permitem trazê-los até o presente e te devolvem essa pessoa por um momento. A imaginação serve para viajar para o desconhecido ou para o conhecido. Tem essa força. Seria um erro não aproveitar esse potencial.

R. Conheceu Mapplethorpe aos 19 anos, quando se mudou para Nova York.

R. Eu trabalhava em uma fábrica de bicicletas que fechou. Procurava trabalho. Cheguei com a roupa do corpo, mas havia restaurantes, sabia que encontraria alguma coisa. Encontrei trabalho em uma livraria, mas tive que dormir uma semana na rua porque não tinha o depósito para alugar um quarto. A escassez não me assusta. Cresci acostumada a ela.

P. Passou fome quando criança?

R. Aprendi o que era a fome e a não afundar com isso porque algum dia a comida voltava para casa. Lidar com as dificuldades não foi tão difícil para mim quanto pode ser para outra pessoa. Eu sabia resistir. Além disso, era romântica. Associava ser artista ao sacrifício. Pense em Van Gogh. Tinha essa ideia: precisava estar disposta a uma vida de sacrifício se queria ser artista.

P. Sentia que passando fome dava o primeiro passo?

R. Era ingênua, mas aceitar o sacrifício te fortalece. Robert vinha de uma família de classe média e, para ele, passar fome era insuportável.

P. Fala de si mesma como “uma garota má que tentava ser boa”. E de Mapplethorpe como “um garoto bom que tratava parecer mau”.

R. Eu era travessa. Tive de me espevitar e aprender a roubar um pouco, nada sério: pegar comida e correr. Para Robert, isso era inconcebível. Ele era inteligente, aplicado, a esperança de sua família. Mas ele queria ser outra coisa. Por isso queria ser mau, para se afastar daquilo que se esperava dele.

P. Por que ser bom tem má reputação na arte?

R. Mitificamos aspectos malditos da criação. Eu tive uma forte educação bíblica. Aprendi que ser boa tinha a ver com sua capacidade de se sacrificar em favor de uma causa maior. Mas também entendi que nunca seria uma santa.

P. Seus pais eram testemunhas de Jeová?

R. Minha mãe. Meu pai não era religioso, mas lia a Bíblia. Acreditava que era grande literatura e me transmitiu isso.

P. Aos 19 anos, teve um filho e o deu para adoção. Voltou a vê-lo?

R. Posso responder em privado?

P. Claro, mas pergunto porque fala desse episódio em suas memórias, assinalando que não passa um dia sem pensar nele.

R. Consegui entrar em contato com ele. Ele disse que queria ser parte de nossa família, mas de maneira privada. Isso responde à sua pergunta?

P. Tenho outra: prefere que não mencionemos esse assunto?

R. Faça com essa informação o que acreditar que possa ser mais útil para todos.

P. Entre seus modelos, sempre cita Jo, a irmã escritora de Mulherzinhas, e Jim Morrison, o cantor do The Doors. Que combinação!

R. Morrison relacionou poesia e rock and roll, mas o que realmente me mostrou um caminho foi Dylan, simplesmente porque experimentou tudo. Para mim, parecia Picasso: nunca parou de mudar. Quando alguém que muda é seu modelo, a mensagem é: você deve buscar seu caminho de diferentes maneiras.

P. Por isso lhe deu um branco ao cantar A Hard Rain’s A-Gonna Fall quando recebeu o Nobel em nome dele?

R. Foi humilhante. A orquestra estava tocando, os reis me olhando, a câmera me enfocando, e senti o horror. Subir em um palco nunca tinha me intimidado. Mas o extraordinário aconteceu depois: recebi uma enxurrada de mensagens. A falha humanizou minha atuação. Os momentos que explicam nossa humanidade são os que nos tocam. Aprendi uma lição: as pessoas perdoam um erro em público se você é honesta e conta o que está lhe acontecendo.

P. Relaciona a arte com o atrevimento.

R. Burroughs dizia: “Um artista vê o que outros não veem”. Robert queria fazer algo que ninguém tivesse feito.

P. E você?

R. Para mim, não se trata de conseguir o que nunca se viu. Acredito que a arte te aproxima do que as pessoas chamam de Deus. Como artista, busco revelações. Para mim, a arte é uma viagem de descobrimento.

P. Prefere os artistas que transformam seu tempo àqueles que o refletem.

R. Quero que a arte me leve além do mundo em que estou. Não leio muita não-ficção, a menos que esteja estudando algo, porque só a ficção tem lugar para a improvisação e o inesperado. O mesmo me ocorre com a música. Prefiro ouvir Coltrane, e que cada vez seja diferente. Gosto mais daquilo que se redefine continuamente do que daquilo que permanece inalterado.

P. O que você transformou como artista?

R. Tenho uma banda e sou mulher. Passei de escrever poesia a cantá-la em um palco, transformando-a em rock. As únicas regras que tenho são as de decoro. Quando escrevi Só Garotos, decidi fazer um livro responsável. Tudo o que aparece nele é verdade. Não só o que Robert [Mapplethorpe] fez ou a natureza da nossa relação. Também qualquer dado sobre as livrarias ou sobre o preço de um cachorro-quente. Não é um trabalho de fantasia: tudo aconteceu. Mas, além desse livro, que Robert me pediu, sou fiel à minha busca, não aos fatos.

P. O Chelsea Hotel foi sua universidade?

R. Não terminei meus estudos, mas ali eu tinha o professor William Burroughs e o professor Allen Ginsberg, as grandes mentes do momento, no quarto ao lado.

P. Quando criança, era uma grande leitora. Por que não estudou na universidade?

R. Comecei em uma, mas tinha de trabalhar na fábrica. Não era suficientemente boa para conseguir uma bolsa de estudos. Não conseguia me esforçar pelo que eu não gostava. Minha mãe trabalhava o dia todo como garçonete e meu pai era operário. Mas não tinham preconceitos. Isso os tornava confiáveis. Cresci em um ambiente de carências materiais, mas não mentais. Discutiam o tempo todo. Muitas vezes por dinheiro. Mas ficaram sempre juntos, não porque tivessem filhos, mas porque riam juntos.

P. Aprende-se algo com a escassez?

R. É um romantismo e uma realidade. Hoje não preciso de muito. Outro dia, estava com minha filha e me pediram que autografasse um livro. Estava com uma camisa listrada, assim como a da foto do livro, que era de 1972. Minha filha disse: “Olha, você é a mesma pessoa”.

P. Você é?

R. Acredito na evolução, mas vejo que minhas excentricidades continuam sendo as mesmas.

P. Ainda se veste em brechós?

R. Compro muito pouco. Camisas que comprei há 30 anos ainda duram, e uma amiga faz minhas jaquetas. Em geral, uso roupa masculina.

P. Quando Mapplethorpe era seu namorado, você usava gravata e ele, calças de lamê.

R. Ele, sim, gostava de se enfeitar. Para mim, a roupa masculina é mais leve. Costuma ser mais confortável e permite que você se mova. O mínimo que peço da roupa é que não me oprima.

P. Mesmo tendo vivido cercada pelas drogas de seus amigos, descreve o café como seu único vício.

R. Nunca tive vícios porque cresci com uma mãe que fumava dois maços por dia e, quando ela não tinha dinheiro para comprar tabaco, eu a via chorar de ansiedade. Decidi que não queria depender de algo que, em sua ausência, me fizesse sentir assim. Além disso, era uma menina doente. Tive tuberculose e minha mãe teve de lutar para me manter com vida. Eu não iria para Nova York para jogar todo aquele esforço no lixo! Depois vi como morriam amigos. Janis Joplin era poucos anos mais velha do que eu e morreu de overdose. Posso ter sido romântica com a questão da fome para me transformar em artista, mas nunca fui com a morte precoce. Sou uma sobrevivente. Tenho 73 anos e espero viver até os 93.

P. Talvez mitifique o café: deu dinheiro a um garçom para que abrisse sua própria cafeteria.

R. E quase abri um. Queria chamá-lo de Café Nerval: um lugar pequeno que só servisse café, pão e azeite de oliva.

P. Um negócio perfeito!

R. Meu amor pelo café vem da infância. Meus pais o tomavam assim que se levantavam, e não nos davam. Isso me fascinava.

P. Nerval escreveu em Aurélia: “Os sonhos são uma segunda vida”. Seus últimos livros são assim?

R. Sou uma sonhadora diurna. Às vezes penso em um estúdio em Nova York que adoro. Não posso pagá-lo, mas imagino que uma idosa o oferece para mim porque já não precisa dele. Eu me entretenho imaginando. Stevenson disse: somos dois —um caminha no mundo, e o outro, em sonhos.

P. Em seus livros, conta todos os tipos de problemas, mas não os de sua família. Não tinham?

R. Claro que sim. Meu marido morreu quando meus filhos tinham 6 e 12 anos. Sabemos muito de perdas, mas nem por um segundo esqueço o que as pessoas estão sofrendo no mundo. Quando eu era jovem, só queria ser artista. Não tinha o desejo de formar uma família e ter filhos. Mas fiz isso e abri um caminho que acabou salvando minha vida. Proteger a infância deles fez com que minha empatia aumentasse.

P. Para falar de racismo, descreveu Billie Holiday com sua gardênia, seu chihuahua e seu vestido enrugado por ter que dormir em um banco quando não foi admitida em um hotel.

R. Não sou uma ativista como Greta Thunberg ou como minha filha, mas procuro utilizar minha voz.

P. Você escreveu que soube quem era Pessoa não pelo que ele escreveu, mas pelo que leu.

R. No final, é o que você guarda. E em sua biblioteca Pessoa tinha Blake, Baudelaire e romances policiais.

P. O que um escritor deve ter para estar em sua biblioteca?

R. Um idioma. Rimbaud está comigo desde que tinha 19 anos. Nerval também. São guias. Não preciso entender tudo que diziam. A chave é que algo toque você. A poesia é escrita em um código secreto que às vezes é difícil de entender.

P. O que pensa da Nobel Louise Glück?

R. Tenho de ser honesta e dizer que não estava em meu radar. Mas vou lê-la.

P. Sempre se sentiu livre?

R. Sim. Na pandemia, pensei: não parei de me sentir livre, apesar de estar encerrada. Acho que é um privilégio, uma conquista mental que alguém alcança quando dedica sua vida a não atrapalhar e a fazer algo que lhe permite crescer como pessoa.

P. Onde deixa sua raiva?

R. No palco, quando dou um chute. Não sou vingativa. Já errei e me perdoaram. Procuro fazer o mesmo. Não peço perdão por ser como sou e quando me irrito com Trump ou com ditadores de outros países, saio às ruas e protesto.

Origem e limites do Capitalismo de Vigilância

Em obra emblemática, Soshana Zuboff recorre a Marx, Harvey e até Skinner para descrever a nova fase do sistema. Mas talvez lhe escape que, muito além de superlucros, trata-se de garantir controle máximo sobre o comportamento humano.

Por Rob Lucas, na Nueva Sociedad | Tradução por Simone Paz

Quase todo ano, desde 2013, um traço crucial vem sendo prognosticado ou evidenciado por pelo menos alguma grande publicação, mesmo que em retrospectiva — pela The Economist, o The Guardian, Oxford English Dictionary, Financial Times. Trata-se do “techlash”, a reação contra o excesso digital. Se procurássemos uma origem para esse discurso, provavelmente ela estaria nas revelações feitas por Edward Snowden em 2013, mas os gigantes da tecnologia só se tornaram um motivo de preocupação real para a classe dominante com as revoltas políticas de 2016. O fato de empresas e Estados terem à disposição uma quantidade impressionante de dados sobre nós, aparentemente, fica menos problemático se esses dados estiverem sob o controle seguro de pessoas com as quais nos identificamos tacitamente.

As campanhas de Barack Obama foram as primeiras a tirar o máximo proveito da microfocalização, que faz uso intensivo de dados; mas foi quando os especialistas em dados — muitas vezes, as mesmas pessoas — emprestaram suas habilidades a Donald Trump e à campanha do Brexit, que o Facebook apareceu como um servo do dinheiro da direita. Leis foram aprovadas, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados de 2016, da União Europeia; e a Lei de Privacidade do Consumidor de 2018, aprovada pelo estado da Califórnia. Organizações no mundo inteiro tiveram que ajustar seus procedimentos de assinatura de boletins informativos, mas os “donos dos dados” seguiram em frente.

Neste contexto de discurso destaca-se uma figura em especial, pela importância de sua contribuição e pelos elogios que tem recebido. Começando em 2013, com vários artigos no Frankfurter Allgemeine Zeitung, e culminando no livro de 2019, A Era do Capitalismo de Vigilância (“The Age of Surveillance Capitalism”), Shoshana Zuboff (na foto abaixo) descreve um novo tipo de capitalismo, inclinado a nos transformar em ratos de laboratório da psicologia comportamental. Incrivelmente, para um livro que parecia um tanto marxiano — por incluir entre seus temas não apenas o capitalismo, mas também a expropriação, o excedente econômico e as enormes assimetrias de poder –, A Era do Capitalismo de Vigilância ganhou a aprovação de Obama, que havia comandado uma grande expansão da vigilância em massa sob o programa Prism, da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Zuboff, sendo a quarta ganhadora do Prêmio Axel Springer, entrou para o mesmo grupo do capitalista-mor da vigilância, Mark Zuckerberg, do inventor das redes, Tim Berners-Lee; e do aspirante a capitalista da vigilância, Jeff Bezos — todos eles ganhadores do mesmo prêmio em as edições anteriores. Como explicar que uma crítica tenha sido canonizada tão imediatamente? A continuidade do trabalho de Zuboff faz com que seja muito didático traçar sua trajetória como um todo.

A história de Zuboff, nascida em 1951, começa na fábrica de seu avô materno, empresário e inventor que pode ter lhe inspirado o gosto pelos negócios e pela tecnologia. Em Harvard, ela estudou com um dos principais behavioristas, B.F. Skinner, e iniciou uma tese em psicologia social intitulada “The Ego at Work” (O Ego no Trabalho). Mas desde seus anos de estudante ela tinha um pé no mundo da gestão empresarial: trabalhou por um tempo na Venezuela como “assessora de mudanças organizacionais” para a empresa estatal de telecomunicações, período no qual estudou os trabalhadores que vinham das regiões de selva. Pouco depois de concluir seu doutorado, passou a examinar as implicações psicológicas e organizacionais do trabalho com computadores, culminando em um livro que hoje é considerado um clássico: In the Age of the Smart Machine: The Future of Work and Powe [“Na era das máquinas inteligentes. O futuro do trabalho e do poder”] (1988)

Com foco em estudos etnográficos sobre algumas poucas empresas norte-americanas que vinham introduzindo novas tecnologias da informática, In the Age of the Smart Machine oferece uma explicação humanística das dificuldades dos trabalhadores e gerentes em se adaptar. Em seu gênero, talvez possa ser interpretado como uma contribuição não-marxista para os debates sobre o processo de trabalho que ocorriam na época — e que começaram com o livro publicado em 1974 por Harry Braverman, Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Mas Zuboff não se limitou a enfatizar as repercussões da automação para os trabalhadores, pois a informatização do processo de trabalho não apenas reproduzia algo feito pelo corpo humano: produzia um novo fluxo de informações que formava um “texto eletrônico” que viria a se tornar fundamental para o novo processo de trabalho.

Para Zuboff, o verbo “automatizar” (automate), portanto, precisava ser complementado pelo de “informar”, para o qual ela cunhou um novo verbo em inglês, informate. A maior parte do livro era dedicada à “informação” nesse sentido, investigando como os trabalhadores lidavam com a textualização do ambiente de trabalho, como a importância dada ao conhecimento tinha levado a uma nova “divisão do aprendizado” e como os gestores tentavam reforçar a sua autoridade. As análises de Zuboff sobre as culturas digitais que se desenvolveram em torno dos quadros de avisos na década de 1980 eram presságios misteriosos do que estava por vir na era das mídias sociais de massa. No último terço do livro, ela estudava as repercussões mais sombrias do texto eletrônico, quando usado para apoiar a vigilância sobre os trabalhadores em uma materialização do “poder panóptico”. Zuboff perguntava-se: se a informação passasse a ser uma ferramenta de “certeza e controle” gerencial, então as pessoas seriam reduzidas a “servir a uma máquina inteligente”? Invocando Hannah Arendt, ela visualizou o ideal comportamental de uma sociedade controlada pela vigilância e pelos empurrões, tornando-se uma realidade na informatização do local de trabalho. Mas a análise de Zuboff apontava uma alternativa, baseada em um uso mais horizontal do texto eletrônico.

In the Age of the Smart Machine serviu para Zuboff obter um cargo permanente em Harvard, mas ela ainda mantinha um pé fora do mundo acadêmico e, em 1987, foi contratada como consultora da empresa Thorn EMI pelo executivo-chefe Jim Maxmin, que se tornaria seu co-autor e marido. Na década de 1990, ele dirigiu uma escola de verão para executivos de meia-idade, incentivando-os a refletir sobre coisas do tipo: qual “patrimônio líquido” é suficiente. De sua casa em um lago na Nova Inglaterra, Zuboff e Maxmin administravam um fundo de investimento em comércio digital enquanto trabalhavam no livro The Support Economy: Why Corporations Are Failing Individual and the Next Episode, of Capitalism [“A economia como rede de apoio. Por que as empresas vêm falhando com os indivíduos e o próximo episódio do capitalismo”], publicado em 2002, que investigou a história corporativa para criar uma periodização da “lógica de negócios”. Mas o fio condutor era uma história sobre o longo processo de surgimento do indivíduo autônomo que teria feito Hegel corar. Os desejos desse indivíduo sempre antecederam o que as empresas estivessem fazendo, à espera de serem libertados por empresários astutos, capazes de se alinharem com o consumidor final e fundar uma nova lógica de negócios.

Josiah Wedgwood foi o primeiro desses grandes homens, Henry Ford o segundo; embora as mulheres fossem as maiores protagonistas não-reconhecidas da história capitalista, em seu papel de principais consumidoras. Baseando-se na noção de capitalismo gerencial de Alfred D. Chandler e no conceito de uma segunda modernidade, proposto por Ulrich Beck, Soshana e Maxmin descreveram como, no mundo iluminado por Ford, a crescente individualidade psicológica acabou colidindo contra as rochas das organizações burocratizadas e das culturas corporativas masculinistas: essa era a contradição central e motivadora de sua teoria. As empresas estavam preocupadas apenas com o “valor da transação” e viam o consumidor final meramente como um meio. Os relacionamentos combativos com os consumidores eram sintomas de uma “crise de transação”. Chegara, portanto, a hora de um novo profeta manifestar esses desejos latentes. Com apenas uma guinada copernicana para o consumidor final, as empresas encontrariam um mundo de “valor de relacionamento” acumulado. Eles precisariam se basear em novas tecnologias e economizar custos através da fusão de infraestruturas digitais, com foco no fornecimento de “suporte” configurado para o indivíduo. A “revolução” econômica projetada parecia envolver a generalização de algo mais próximo de um assistente pessoal de executivos.

Soshana expôs essas ideias em artigos para a imprensa de negócios, mas sua fragilidade conceitual se mostrava muito maior quando o mundo dos sonhos encarava a realidade. Steve Jobs foi apresentado como um “líder histórico” capaz de corrigir os erros do capitalismo americano em nome do “suporte”; Obama também foi recrutado naturalmente. Em 2008, Soshana fez uma peregrinação pelo Vale do Silício “na esperança de encontrar líderes que entendessem a crise”, mas ficou enojada ao ver a obsessão que existe em ganhar dinheiro com publicidade. Decepcionada com os rumos da tecnologia americana, deu início ao projeto que viraria seu próximo livro. Se The Support Economy era uma utopia dos consultores de gestão, A Era do Capitalismo de Vigilância é a distopia que surge quando a profecia falha. Neste mundo, o que está fundamentalmente errado é um modelo de negócios ruim, que vem se descontrolando. É um volume extenso e indisciplinado de quase 700 páginas, cujo enfoque desliza do sistemático ao ensaístico. Estruturado em três partes, vai das “bases” até o “avanço” do capitalismo de vigilância, antes de ampliar o objeto de análise para considerar a tecnologia como base do poder. Vamos examiná-las uma a uma.

Zuboff começa voltando para uma questão central de seu primeiro livro: se seremos reduzidos a trabalhar para as máquinas ou se ocorrerá o oposto. Só que agora, esse problema envolve a “civilização da informação”. Porém, não são as máquinas em si que estão em jogo, porque o capitalismo de vigilância é uma “forma de mercado” com seus próprios “imperativos econômicos”, e Zuboff vê a tecnologia como fundamentalmente moldada pelos fins econômicos a que serve. A primeira parte também nos leva de volta ao marco da Economia de Apoio (The Support Economy): o capitalismo gerencial, a segunda modernidade, o longo processo de emergência do indivíduo e a primazia das necessidades do consumidor na história econômica. Mas a contradição entre o capitalismo individual e gerencial encontra agora expressão na aceitação massiva da internet e nos distúrbios de 2011 no Reino Unido. A Apple ainda aparece como o messias previsto, o iPod defende as necessidades do consumidor, mas existem duas Apple — a humana e a divina — porque a empresa nunca se entendeu adequadamente como a empresa de “suporte” orientada à assessoria que Zuboff defende. Se era para a Apple ter sido a Ford da terceira modernidade, é o Google que realmente vai inventar um novo tipo de empresa. O mundo, portanto, falhou em efetuar a transição prevista e o capitalismo de vigilância preencheu o vazio, tornando-se a “forma dominante de capitalismo”.

O objetivo de Zuboff é revelar as “leis do movimento” dessa maneira, traçando um paralelo com a explicação de Ellen Wood para as origens do capitalismo propriamente dito. Em seus inícios, o Google experimentou um ciclo virtuoso ou “ciclo de reinvestimento do valor comportamental”: as pessoas precisavam das buscas, e as buscas poderiam ser melhoradas com a coleta de “dados comportamentais” produzidos pelos usuários. Até então, o Google conseguia ser o tipo de empresa de Zuboff, mas, ao contrário da Apple, não tinha um modelo de negócios sustentável. Após a quebra das “pontocom”, os capitalistas de risco estavam famintos e, assim, forçaram uma mudança no aproveitamento do excedente para uso em publicidade direcionada. Nessa mudança, os dados comportamentais tornaram-se um “ativo de vigilância” e matéria-prima para a produção de “derivados comportamentais”, “produtos de previsão” e “futuros comportamentais”, as coisas que o Google realmente vendia aos anunciantes, para obter “receitas derivadas da vigilância”.

Isso, para Zuboff, foi um processo de “acumulação primitiva” ou “expropriação digital”, e para isso ela pede ajuda para Karl Marx, Hannah Arendt, Karl Polanyi e David Harvey. Como outros antes dela, Zuboff acrescenta um item à lista de mercadorias fictícias de Polanyi: terra, trabalho, dinheiro e dados comportamentais. Como o mundo digital era inicialmente uma terra sem lei, o Google foi capaz de se apresentar como um magnata ladrão e pegar para si os abundantes “recursos naturais humanos”. Se os monopólios foram estabelecidos, não foi no sentido tradicional de distorcer os mercados ao eliminar a concorrência, mas como um meio de “encurralar” o fornecimento de dados, direcionando os usuários para os redis da vigilância. Enquanto In the Age of the Smart Machine analisava a “divisão do aprendizado” no local de trabalho, essa divisão agora caracteriza a sociedade em geral, pois os capitalistas de vigilância formam uma nova “casta sacerdotal” com uma surpreendente concentração de poder.

O clima político que instalou-se após o 11 de setembro levou a um “excepcionalismo de vigilância” que facilitou a metamorfose do Google, e foi gradualmente descobrindo suas afinidades eletivas com a CIA; por sua vez, os aparelhos de segurança dos EUA ficaram felizes em contornar os controles constitucionais, entregando a tarefa da coleta de dados a um setor privado pouquíssimo regulamentado.

Uma porta giratória seria estabelecida entre o capital de vigilância e o governo Obama, enquanto o Google canalizaria grandes recursos para atividades de lobby. Em pouco tempo, o Facebook havia aderido ao jogo, usando o botão “Curtir” para seguir os usuários online e vender derivados dos dados resultantes. Aonde quer que fossem, outros começavam a segui-los: sob a liderança de Satya Nadella, a Microsoft passou a extrair os dados dos usuários comprando a rede social LinkedIn, lançando sua assistente pessoal Cortana e introduzindo a vigilância no sistema operacional Windows. Apoiada pelo Congresso, a Verizon também entrou no jogo, dando início à espionagem por meio do provedor de serviços de internet e usando os dados resultantes para direcionar a publicidade.

Se a primeira parte do livro cobre a maior parte da teoria de Zuboff, a segunda foca no avanço do capitalismo de vigilância no “mundo real”, à medida em que seu modelo de negócios focado em previsões deixa de seguir comportamentos para, em vez disso, modelá-los e intervir neles. Os tecnólogos previram há muito tempo que chegaria um tempo em que os computadores saturariam a vida cotidiana a ponto de ela, ao fim, desaparecer. À medida em que os capitalistas de vigilância buscam uma previsão perfeita, eles são forçados a se mover nessa direção, buscando “economias de alcance” — uma maior variedade de fontes de dados — e “economias de ação”: gerando modelos para tornar as variáveis ​​mais previsíveis. Dessa forma, eles desenvolvem um novo “meio de modificação comportamental”. Um de seus arautos foi R. Stuart Mackay, que na década de 1960 desenvolveu a telemetria para rastrear animais selvagens, antes de passar para a ideia de configurar seu comportamento de forma remota.

Agora os indivíduos se tornaram objetos de monitoramento constante e as seguradoras podem adquirir a capacidade de desligar remotamente o motor de um carro quando o pagamento está atrasado. A infraestrutura digital, portanto, muda de “uma coisa que temos para uma coisa que nos possui” (Soshana aprecia um quiasmo). Aplicativos e pulseiras para rastrear sua atividade, Google Home e Alexa, TVs inteligentes, a tecnologia biométrica do Facebook, as “cidades inteligentes”, os sensores portáteis do setor de saúde, “tecidos interativos”, brinquedos infantis ou simplesmente o próprio smartphone: estamos sujeitos à espionagem constante e à “transferência” de nosso comportamento na forma de dados — e há poucas chances de evitá-lo. Com base nisso, análises detalhadas do “padrão de vida” dos indivíduos podem ser realizadas, enquanto o Baidu usa sistemas de rastreamento e localização para prever movimentos na economia chinesa. Os metadados sobre padrões de comportamento tornam-se ferramentas para a realização de perfis psicométricos, enquanto mecanismos capazes de ler estados emocionais são desenvolvidos.

O Facebook cruzou a linha da manipulação social com seus experimentos de “contágio emocional”, enquanto o jogo de “realidade aumentada” Pokémon Go direcionou o “tráfego de pedestres” para as localizações das empresas contribuintes, levantando a questão de saber se os capitalistas de vigilância poderiam estar se aventurando no projeto de “arquiteturas de escolha”. Os experimentos de modificação do comportamento realizados na Guerra Fria, visando presidiários e pacientes, desencadearam uma reação legislativa que impediu um maior desenvolvimento; mas agora as empresas privadas avançam, sem nenhum obstáculo de processo democrático, na busca de “resultados garantidos”. A própria consciência do consumidor torna-se uma ameaça aos ganhos; a liberdade e o “direito ao tempo futuro” estão em perigo. O capitalismo de vigilância incorpora um novo tipo de capitalismo não menos transcendental do que o capitalismo industrial, e “a luta pelo poder e controle na sociedade não está mais associada aos dados ocultos da classe e sua relação com a produção, mas, pelo contrário, [sic] aos dados ocultos da modificação do comportamento projetado e automatizado.

A terceira parte de In the Age of the Smart Machine era dedicada à “técnica” como “dimensão material do poder”. Aqui passamos, de maneira parecida, ao tipo de poder prenunciado pelo capitalismo de vigilância. O termo usado por Zuboff é “instrumentalismo”: “a instrumentação e instrumentalização do comportamento para fins de modificação, previsão, monetização e controle.” Se o totalitarismo mobilizou a violência para se apoderar da alma, o instrumentalismo silenciosamente observa e molda o comportamento. Skinner foi seu profeta e seu livro, Walden II, a utopia. Para os comportamentalistas, a liberdade é uma lacuna na explicação que deve ser superada estendendo a ciência comportamentalista à sociedade, e agora a visão que eles propunham está sendo realizada por capitalistas de vigilância que buscam “substituir a sociedade pela certeza”, enquanto buscam seu próprio “utopismo aplicado”. A “física social” do professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Alex Pentland, incorpora o ataque, numa tentativa de substituir a política por um plano tecnocrático em nome do “bem maior”. “O bem maior pra quem?”, pergunta Soshana Zuboff, com razão.

Atualmente, existem “classificações creditícias” de radicalismo, e “classificações ameaçadoras” derivadas das redes sociais, e a recém-criada Geofeedia rastreia a localização dos manifestantes. O sistema de crédito social chinês — que espia os cidadãos e aplica punições e recompensas de acordo com isso — não pode ser esquecido, embora Zuboff não pareça saber muito bem o que fazer com ele. Em parte, “conclusão lógica” da busca pela “certeza” que percebemos sob um capitalismo de vigilância — muito mais instrumental do que totalitário –, o sistema de crédito social se diferencia na medida em que visa resultados sociais, e não de mercado. Também é, diz Zuboff, de importância duvidosa para sua história, pois é formada por uma cultura não democrática que não está interessada na privacidade; mas ao mesmo tempo “transmite a lógica do capitalismo de vigilância e do poder instrumental que produz”.

Agora, o indivíduo está cercado, preso a modos patológicos de sociabilidade por meio de técnicas derivadas da indústria do jogo, incapaz de forjar um senso de identidade adequado. Quando as pessoas modelam seu comportamento para apresentá-lo na internet, surgem “efeitos apavorantes” na vida cotidiana. Há pinceladas de Sherry Turkle e Nick Carr nos lamentos de Zuboff pelo lar entendido como um espaço meditativo para o cultivo do eu. São necessárias “propostas sintéticas”, no que parece referir-se a medidas legislativas como o “direito ao esquecimento” e o Regulamento Geral de Proteção de Dados (2016) estabelecido na UE e apoiado por ações coletivas.

Em conclusão, voltamos à relação entre mercados, conhecimento e democracia. No raciocínio de Friedrich Hayek e dos comportmentalistas, a liberdade dos participantes do mercado estava associada à ignorância. Com informações cada vez mais completas, os capitalistas de vigilância ameaçam esse duo. De acordo com a visão otimista de Zuboff, o capitalismo de outrora já foi baseado nas “reciprocidades orgânicas” entre empresas e pessoas. A troca de mercado equitativa formou o ímpeto para a Revolução Americana, e os industriais britânicos foram forçados a fazer concessões democráticas porque dependiam das “massas”. Com a mudança para o modelo de valor máximo para os acionistas, essas reciprocidades diminuíram; agora, os capitalistas de vigilância sobrecarregaram essa dinâmica, produzindo organizações de “hiperescala” com avaliações desproporcionais no mercado de ações, pequenas bases de funcionários e pouca dependência da sociedade. Não houve nenhum “movimento duplo” polanyiano impondo limites sociais à exploração de dados comportamentais, e agora enfrentamos uma “recessão democrática”, enquanto perdemos a associação vital dos mercados com a democracia. Soshana termina com uma série de referências que poderiam agradar qualquer atlantista liberal: Arendt sobre o totalitarismo, o desprezo de George Orwell por James Burnham e a queda do Muro de Berlim.

Embora muitas vezes ornamentado, A Era do Capitalismo de Vigilância apresenta um quadro interessante da paisagem infernal provocada pela tecnologia capitalista atual. Zuboff tem razão ao afirmar a necessidade de novos nomes para lidar com as transformações que os gigantes tecnológicos usam para nos castigar. A expressão “capitalismo de vigilância” identifica algo real e, embora ela não tenha sido a primeira a cunhá-la, agora parece ser provável que ganhará uso generalizado — para seu mérito. Também há algo surpreendente em seu antigo projeto de vincular o poder tecnológico à psicologia comportamental. Zuboff dedicou grande parte de sua vida intelectual para forjar um Anti-Skinner que colocasse o indivíduo psicológico no centro do palco, travando uma guerra contra suas reduções positivistas nas mãos de cientistas, gerentes e capitalistas de vigilância. Provavelmente, aqui fica mais convincente. Mas as reivindicações fundamentais de Na Era do Capitalismo de Vigilância são político-econômicas por natureza e devem ser avaliadas como tal.

O que podemos dizer, então, de seus conceitos de expropriação e desapropriação digital? Como os defensores da propriedade intelectual há muito afirmam, há algo especialmente estranho na noção de que dados são coisas que podem ser roubadas, já que não são bens raros, como Evgeny Morozov apontou em uma revisão publicada no The Baffler. Minha posse de uma determinada construção de dados não impede que todos os outros a tenham. Os dados comportamentais também podem ser vistos como representações, e é preciso recorrer ao pensamento mágico para igualar sua representação à posse. Se alguém me espiar e escrever o que eu faço, meu comportamento ainda é meu. Ele, é claro, deixou sua marca em algo que eu não tenho, mas ele não fez isso desde o início.

A ideia de que certos dados possam ser “gastos” também faz pouco sentido e, como não é o caso, também não há espaço identificável acima deles. Isso torna impossível traçar a linha entre o primeiro “ciclo de reversão inofensivo” de dados comportamentais do Google e o aproveitamento de um “excedente comportamental”. Aqui, os conceitos quantitativos de economia política se tornam enganosos, uma vez que não estamos realmente falando sobre magnitudes contínuas, mas sobre diferentes usos de dados: para melhorar um mecanismo de busca e para melhorar a publicidade direcionada e, assim, ganhar dinheiro.

Podemos ficar tentados a chamar o último de “excedente” em relação ao primeiro, mas e se os mesmos dados forem usados ​​para ambos? E se é o uso comercial que transforma-o em excedente, e não uma quantidade nominal de conduta, o que deveríamos fazer sobre o fato de Soshana Zuboff ver o sistema de crédito social chinês — destinado ao controle social e não ao marketing — como um sanguessuga do comportamento excedente? Novamente, sobra de quê? Será que alguma parte do sistema de crédito social é inofensiva, assim como o Google em seus inícios?

Essa noção substancialista de comportamento lembra a visão de mundo do socialismo ricardiano, em que o trabalho é visto como algo acumulado nos artefatos da economia capitalista. Isso ajudou a sustentar um certo ponto de vista moral: se é nosso trabalho, deve ser nosso. E há uma certa qualidade intuitiva na ideia de que uma determinada coisa incorpore diretamente uma determinada quantidade de trabalho, desde que pensemos em empresas individuais (como o histórico de negócios tende a fazer) ou commodities específicas, e não na economia como um todo. Essas ideias já existem há muito tempo e continuamos a encontrar vestígios delas na noção emaranhada de que: se postarmos algo no Facebook permite que Zuckerberg ganhe dinheiro, esse deve ser um trabalho produtivo — uma consequência semi-humorística disso é a demanda “Salários para Facebook» (Wages for Facebook). Soshana distingue sua posição ao concentrar-se no comportamento e não no trabalho, mas o substantivismo e o ponto de vista moral são praticamente os mesmos, embora façam ainda menos sentido no caso dos dados.

Zuboff afirma que o capitalismo de vigilância é a forma dominante de capitalismo, com o Google e o Facebook se tornando a vanguarda de uma dinâmica que podemos verificar em toda a economia. Essas empresas são, sem dúvida, muito poderosas e têm capitalizações de mercado extraordinárias, mas quase todas as suas receitas provêm da publicidade. Mesmo quando entramos na informatização onipresente, nas cidades inteligentes e em outros processos semelhantes, a receita de publicidade ainda é a principal razão pela qual as empresas privadas acumulam dados sobre os usuários. Quem compra esses anúncios? Em grande parte outras empresas, o que significa que a publicidade em geral é um custo para eles e, portanto, uma dedução de seus lucros totais: em termos de economia política clássica, é um dos faux frais da produção. A lucratividade dos anunciantes é limitada pela de empresas de outros setores, dado que dependem delas para obter receita. Não importa o quão radicalmente os capitalistas de vigilância transformem a propaganda, desde que ela represente seu negócio principal, sua capacidade de guiar o capitalismo como um todo será limitada.

Na visão de Zuboff, os capitalistas de vigilância buscam a “certeza total” e o controle real da totalidade do comportamento do usuário com seus produtos de previsão. Embora uma vantagem na previsão possa traduzir-se numa vantagem ao colocar anúncios em banner e, assim, fornecer mais receita, isso tem limites lógicos. Mesmo se a certeza ou o controle fossem teoricamente possíveis, os anunciantes ainda não seriam capazes de garantir as vendas de outras empresas à vontade, porque se a renda disponível dos consumidores fosse finita, cada transação segura diminuiria o alcance de outras, fazendo com que a “certeza” se auto enfraquecesse. Faz mais sentido rastrear, direcionar e prever o comportamento do usuário com precisão suficiente para que várias empresas paguem para participar da captura dos mesmos consumidores. Fora isso, perseguir uma previsão cada vez mais perfeita seria jogar dinheiro no buraco. Além do mais, o comportamento que faz sentido prever permanece quase inteiramente no reino da atividade de mercado — levantando a questão, independentemente da retórica, de se é realmente possível verificar para qual direção da “totalidade” os capitalistas de vigilância estão nos conduzindo. Talvez a economia da atenção — de acordo com a qual a atenção do usuário é uma mercadoria rara, buscada pelas empresas — seja uma abordagem mais útil aqui.

Embora aconselhável a procura de explicações sociais para os avanços tecnológicos, Zuboff pode ter se perdido em sua inclinação a pensar em termos de “formas de mercado” e a reduzir a tecnologia a fins econômicos. É sintomático que ela hesite em relação ao sistema de crédito social chinês. E embora reconheça a contribuição do Estado para alimentar o capitalismo de vigilância, tem surpreendentemente pouco a dizer sobre certos detalhes de seu papel: Prism, Snooper’s Charter, Five Eyes… Eles aparecem, essencialmente, como um reino neutro e passivo, que às vezes vai para onde a empresa o conduz, que tem algumas leis ruins e precisa de leis melhores. Mas qualquer história da tecnologia americana demonstra que o Estado está longe de ser neutro ou passivo. Geralmente, ele lidera a iniciativa de impulsionar uma grande mudança tecnológica, coordenando empresas ou arrastando-as para perto de si, como vemos na computação, nas redes, armas, máquinas=ferramentas, etc. Se as mudanças fundamentais ocorrem por meio dos atos de grandes empresários, isso é algo que deve permanecer na sombra.

Desde o seu início, o Estado moderno tem sido um aparelho de coleta de informações. Quando os meios de armazenamento e processamento de dados se tornaram disponíveis para eles — no início, mecânicos, e eletrônicos depois –, eles simplesmente facilitaram o que vinha acontecendo há muito tempo. O cartão perfurado de Hollerith e seus descendentes tornaram possível automatizar o processamento de dados, incluindo, como se sabe, dados sobre campos de concentração nazistas e sobre o internamento de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. A própria vigilância baseada em computador tem suas origens nesta história de longa data, que é importante ter em mente ao tentar periodizar eventos mais próximos do presente. Ao longo da década de 1970, a TRW — uma empresa com interesses nos setores aeroespacial, automotivo, eletrônico, informático e de processamento de dados — coletou grandes quantidades de dados sobre dezenas de milhões de consumidores americanos para vender a credores em potencial. E, sem surpresa, dado o escopo de suas operações, a TRW estava intimamente ligada à CIA. Embora a tentativa de Soshana Zuboff de interpretar politicamente a fundação do capitalismo de vigilância — como o ato de pessoas específicas em uma conjuntura específica — seja admirável, ela esconde essa história mais longa da ciência da computação na vigilância estatal e seus cruzamentos com o setor privado. É aqui que encontramos os motivos mais convincentes de preocupação.

Afinal de contas, por que que eu deveria me importar se o Facebook me mostra horríveis anúncios publicitários e talvez até me convença de comprar alguma coisa, se essa é a única repercussão que o gigantesco acúmulo de dados tem sobre mim? É no momento em que abandonamos o simples intercâmbio do mercado — que formalmente sou livre para abandonar — e, junto com isso, o principal foco do capital de vigilância propriamente dito, que essa assimetria de conhecimento se torna verdadeiramente problemática. Seremos submetidos à manipulação digital, paga pelo licitante com o lance mais alto? Aqueles de nós que se mobilizem para além dos rituais clássicos da participação democrática, seremos rastreados, agrupados e neutralizados antes de que possamos representar uma ameaça real? As desigualdades sociais serão discretamente fortalecidas pelas classificações que nos são impostas por aqueles que estão em posição de supervisionar? Responder a essas questões com seriedade implicará entender o Estado como força ativa no desenvolvimento tecnológico, como um campo diferenciado e longe de ser neutro. A regulação normativa do capital de vigilância por si só não será suficiente — nem mesmo apoiada pelos movimentos sociais — porque qualquer desafio sério, se tornará, também, um desafio para o estado de vigilância.

O Brasil não lhe dará o direito ao esquecimento, Bolsonaro

Por: Mariana Tegon

É curioso nos darmos conta de que antes da internet não pensávamos muito em ter o direito de esquecer algo, pois, no passado, se não queríamos lembrar-nos de algo, bastava restringir o que contávamos aos outros.
Presidente exibe caixa de cloroquina, o ‘tratamento precoce’ para Covid-19, para a ema no Palácio da Alvorada.

Com a internet, perdemos algum tipo de controle de como as pessoas podem influenciar nossas vidas privadas. Qualquer pessoa pode puxar um conteúdo seu, em qualquer época, sem o seu conhecimento, você nem imagina em quantos níveis uma publicação pode afetar outra pessoa e o quão isso já é o bastante para que peguem algo, fora de contexto, e usem em uma situação desfavorável a você.

Desde os primórdios ocorriam fofocas e vazamentos com gente famosa, políticos e celebridades que eram perseguidas (por paparazzi ou imprensa). Porém são pessoas que geralmente estão preparadas para lidar com o julgamento público, são psicologicamente estruturadas e têm uma vida pública por opção. Hoje, com as redes sociais, é quase impossível distinguir o público do privado.

Quando postamos uma foto, texto, vídeo ou frase, estamos, automaticamente, à mercê de julgamentos que com certeza sairão do controle, seja porque o conteúdo bombou negativamente ou porque alguém vazou alguma intimidade do seu perfil privado. Junto a isso vem um reconhecimento às avessas.

Casos vão de B.Os que vazam, antes de mesmo de um profissional qualificado (escrivão ou juiz) ouvir qualquer fato ou versão, até conversas banais de WhatsApp.

Processos por calúnia e difamação são, cada vez mais, abertos por pessoas que sequer conheciam algum advogado até precisar agir para proteger sua integridade física, moral e intelectual. E, quando a história corre e tudo vira uma avalanche, somos obrigados a lidar com tudo — não em silêncio, mas criando mais e mais conteúdos na tentativa de soterrar a bomba que explodiu anteriormente.

Mas os sites de buscas armazenam tudo, os sites arquivam tudo e todos podem ficar voltando anos da sua vida apenas pelo prazer de torturar uma pessoa que só quer encontrar paz, silêncio e amizades sinceras após uma turbulência.

Em casos de fatos históricos e vida política/pública, o direito ao esquecimento ganha outro contexto, pois o que seria de nós, e das futuras gerações, se “o direito ao esquecimento do Holocausto” fosse dado, por exemplo? Sim, um exemplo extremo, mas temos vivido tempos estranhos.

O que acontecerá com Bolsonaro se o direito ao esquecimento for aprovado pelo STF? Quais serão os impactos in memoriam das vítimas, e de seus parentes, do genocida-negacionista, que a pandemia do coronavírus criou?
Que impacto histórico está embutido nesta decisão que poderá mudar o futuro do Brasil? Estamos numa Era onde tudo pode ser editado após a publicação. Fatos são distorcidos, negados ou até mesmo desmentidos.
Para exemplificar basta lembrar de entrevistas onde o ex-presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, falava uma coisa e semanas depois desmentia que havia dito. Mas estava gravado.

Aqui no Brasil, Bolsonaro deu os mesmos passos do ídolo político e, mesmo com material gravado em vídeo e áudio voltava atrás em declarações alegando que “nunca havia dito” algo sobre determinado assunto (geralmente sobre a pandemia), como é o caso do “tratamento precoce com cloroquina”, que agora a esfera federal desmente que tenha ajudado a difundir na área da saúde e para a população.

Esquecer é muito grave.
Fere a história do país.
Fere a história de pessoas que lutam pela vida enquanto estão entubadas em leitos de UTI.
Fere a história de famílias que precisam enterrar seus entes com velório para 10 pessoas e caixão lacrado.
Fere a história de cientistas que estão debruçados dia e noite à procura de uma vacina eficaz que freie, em massa, o pandemônio em que vivemos.
Fere a história dos profissionais da saúde que, exaustos, deixam de cuidar de sua própria vida e família para cuidar dos outros, para exercer um ofício de internar e conseguir providenciar oxigênio para quem está acamado e até mesmo em coma.

Bolsonaro precisa entrar para a história como o pior presidente que o Brasil já teve. Mesmo porque ele costumava dizer, publicamente no parlamento, que “a ditadura no Brasil matou pouco”, para compensar, ele deixou que mais de 260 mil brasileiros tivessem uma morte completamente indigna. Não satisfeito, exigiu sigilo de 100 anos para sua carteira de vacinação. Uma vergonha.
Até onde o “direito ao esquecimento” dará anistia a quem comete crimes, recorre e pede para que a nação esqueça?

Comportamento,Tecologia,Censura,Opressão,Blog do Mesquita

Precisamos falar sobre imagens

Rijksmuseum, Amsterdam, 2014

O título deste texto não é um chamado, um apelo, credo íntimo ou estético, apenas a constatação banal de que imagens, muitas delas, nos impelem a falar. E, como se não bastasse a eloquência visual de que muitas são portadoras, falamos também por elas, em seu lugar, como se compelidos à tradução que transforma o visível em legível. Falamos tanto e talvez, entre outras razões, porque, apesar da enxurrada cotidiana a que somos submetidos e para a qual também contribuímos, a definição de imagem seja ainda escorregadia e sua percepção, problemática. Ora deduzimos das fotografias aquilo que estaria atrás do que mostram, como um subtexto a ser extraído e explicitado, ora as utilizamos para fazer calar os discursos pela força de uma evidência visual que julgamos indiscutível.

A história recente do olhar é também a história do olho ameaçado pelo excesso de visível e pela falta de imagens. A fotografia eloquente, através da qual algo fala, e a fotografia como elemento comprobatório, muda e inibidora do verbo, são apenas dois dos possíveis modos de nos confrontarmos com o visível que nos rodeia. E, ainda assim, talvez não se trate ainda de imagens num sentido mais pleno ou radical, se aceitarmos que a existência de uma imagem depende não tanto de sua capacidade de afirmar o visível, mas de fazer com que o olhar hesite diante daquilo que vê. Daí a situação paradoxal na qual, mesmo em excesso, a imagem, como algo que se destaca do visível, continua a fazer falta.

Tomo como exemplo o Facebook, esse espaço de murmúrios e lamentos, sem entradas ou saídas, jardim de nossos narcisos em flor, pulsões escópicas cotidianas e compulsivos compartilhamentos de links em geral mais eficazes para a sobrevida da informação do que para seu metabolismo. Lugar também do desacordo, do desagravo, da gritaria, da citação e dos gatos. O que poderia ser – e às vezes é – um dispositivo de enlace crítico ou poético entre texto e imagem acaba reduzido ao cacoete da redundância ilustrativa ou da legendagem infinita, preferencialmente sob a forma lapidar do comentário breve. O layout dos murais verticais incentiva, ou pelo menos não impede, o tensionamento de imagens e textos.

Nesse ambiente, porém, toda imagem já funciona de antemão como comentário – e aí não importa muito se o tema é a última novidade futebolística, a catástrofe urbana do dia, o menu do almoço de domingo ou a menina tomando banho de esgoto na sua cidade. As condições de visibilidade de uma imagem na rede são precárias, entre tantos motivos, porque o ambiente midiático de compartilhamento tem como modelo a informação jornalística, a mensagem. Por mais distintas que sejam as fotos disseminadas, tudo fica nivelado pela ilusão de transparência e pelo imediatismo da codificação social. Assim, o mundo das imagens é frequentemente tomado por imagem do mundo, através de fotos que afirmam o que mostram e mostram o que afirmam.

Kunsthistorisches Museum, Viena, 1987

As duas fotos acima constituem cenas de leitura de imagens em ambientes museológicos. Uma delas faz parte de meu arquivo pessoal, a outra viralizou recentemente nas redes sociais por apresentar um grupo de jovens de costas para A ronda noturna, de Rembrandt, e não só isso, mas também o magnetismo das pequenas telas de seus celulares, enquanto a grande tela fica evidenciada ali atrás por abandono. Nesse caso, parece que, ao compartilhar a imagem, compartilhava-se também a ideia de que certo mundo perceptivo teria chegado ao fim. Jovens alienados, não se fazem mais espectadores como antigamente etc. O olhar tátil, da concentração imersiva, da capacidade de experimentar uma pintura grandiosa em sua potência plástica e estética se perdeu. É o fim do mundo, ou pelo menos, o fim de certo mundo em que ainda éramos capazes de detectar a verdadeira imagem no brejo da mediocridade circundante.

Essa melancolia não é completamente infundada. Entretanto, se abrirmos mão do seu catastrofismo, recuando um pouco na leitura, talvez a foto nos diga bem menos sobre o fim dos tempos do que sobre a condição perceptiva em tempos de hipermediação do visível. Diante dela, como diante de uma cena flagrada em determinado instante, talvez o que se mostre seja não mais do que um grupo de jovens muito louros, provavelmente estudantes do ensino médio ou secundário, sentados perto uns dos outros e com os olhos voltados para seus celulares. Ao fundo, uma grande tela escura com homens “de antigamente” procurando alguém ou alguma coisa num ambiente de sombras atingido por um feixe de luz.

Não entrarei aqui na história do quadro, cujo título é uma espécie de falsa legenda, já que não se trata ali de uma ronda propriamente dita nem de uma cena noturna. A fotografia me atrai por dois motivos: em primeiro lugar porque a pintura sempre retorna para assombrar a imagem digital, e é exatamente assim, como coisa assombrosa, ao mesmo tempo distante e presente, que o quadro comparece na foto; por outro lado, a cena é emblemática de um problema bastante contemporâneo: como chegar a fazer com que uma imagem seja reconhecida em sua potência, seja realmente vista em meio à algazarra do visível? O desafio da formação de público se encontra aí com o problema ainda mais escorregadio da formação do olhar.

Diante da perda de prestígio cultural do campo artístico, muitos museus redefiniram sua missão cultural tentando e testando o ajuste entre essas duas questões – vale lembrar que o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) criou a sua Escola do Olhar –, aliando a necessidade de formação de público a certa pedagogia do olhar. Sem diminuir a importância desses programas, em alguns dos quais já participei como artista, e reconhecendo o importante desafio que assumem, há também na proliferação veloz dessas iniciativas o risco de transformação dos museus em entidade pedagógica e da arte em aula infinita.

Independentemente da classe social ou do público que se pretende atrair para dentro dos museus, nem sempre os procedimentos propiciam de fato uma experiência do olhar. Ocorre muito quando, desajeitada ou apressadamente, tenta-se facilitar a compreensão das obras lançando mão de recursos lúdicos não tão cuidadosamente formulados como deveriam. Nos piores casos, a arte se transforma em pretexto luxuoso para atividades colaterais que infantilizam o espectador. O espectador emancipado fica aprisionado nos projetos de emancipação do seu próprio olhar.

Voltando aos jovens visitantes do Rijksmuseum, o fato de estarem de costas e desatentos ao quadro não significa que estejam rejeitando a pintura de Rembrandt. Irritados com os comentários agressivos, funcionários do Rijksmuseum esclareceram no Facebook que aquelas pessoas estavam na verdade consultando em seus celulares o novo aplicativo do museu, portanto continuavam interessadas no quadro, provavelmente em sua história, podendo também ampliar partes e detalhes, conforme as possibilidades do aplicativo.

Podemos questionar a pertinência, a necessidade ou a importância desse tipo de aplicativo para a formação do olhar, mas, apesar da indignação generalizada, é bem pouco provável que o novo app do Rijksmuseum seja mais nocivo do que um audioguia mal preparado ou um texto de parede excessivamente pedagógico. Lembro de um professor que acompanhava minha turma do Liceo Gaudenzio Ferrari à Galleria degli Uffizzi, em Florença, e falava tanto que desviava nossos olhos. É claro, a voz de um professor também é capaz de aproximar o olho da potência do que é visto, assim como os novos aplicativos também têm permitido aos pesquisadores e professores de História da Arte uma visualização dos meandros da pintura ampliando detalhes como nunca antes havia sido possível. Oferecem a possibilidade de um contato visual exploratório, quase arqueológico.

Interessa também não descolar totalmente o debate em torno das tecnologias de visão do contexto universitário do ensino de arte, já que no Brasil dependemos fortemente da reprodução de imagens. Assim, o problema se desviaria da recusa enojada ou do deslumbramento fútil com os novos aparatos de visualização, levando em conta que visualizar não é o mesmo que perceber. Tanto o olhar supersônico quanto o excesso de informação biográfica não garantem por si sós uma percepção mais apurada nem um encontro decisivo com um fato ou objeto artístico. Se o problema da formação do olhar dependesse exclusivamente do incremento ótico, não precisaríamos das histórias da arte, da arqueologia, dos antropólogos da imagem ou da própria crítica.

Por outro lado, é ingênuo acreditar que somos capazes de uma experiência puramente visual do visível. Não existe uma tal ilha da pureza sensorial fora da condição mediada da imagem na qual, por bem ou por mal, estamos instalados. Não há como escapar inteiramente dos “aplicativos” que orientam a compreensão de uma imagem, sejam eles os tradicionais guias turísticos, os discursos históricos, as ferramentas conceituais da teoria da arte, a pedagogia museológica ou nossa própria inércia perceptiva.

O acesso à porção invisível do visível não passa necessariamente pelo aumento da capacidade ótica ou pela erudição desenfreada, mas por certa cautela diante da imagem. Como sugere John Berger, talvez seja uma boa hora para perguntas ingênuas cujas respostas podem ser tudo menos simples. O que impele a pintar, desde o Paleolítico até os nossos dias? O que toda pintura têm em comum? Talvez um olhar digressivo, uma aproximação ao mundo imaginal – nas brechas entre o material e o espiritual – dos ícones bizantinos, um olhar demorado sobre o retrato espantosamente próximo de uma jovem do primeiro século em El Fayoum, ou o espanto produzido pelas pinturas pré-históricas cada vez mais recuadas no tempo, ajudem a desarmar algumas armadilhas do visível que nos rodeia.

Lou Andreas-Salomé, a femme fatale que Nietzsche fingia, Rilke amava e Freud admirava

Para o filósofo Frederick Nietzsche, ele foi “a pessoa mais inteligente que já conheci”, o herdeiro perfeito de sua filosofia, “a melhor e mais fértil fazenda” de suas idéias.

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Para o poeta Rainer Maria Rilke, ela foi uma “mulher extraordinária” sem cuja influência “todo o meu desenvolvimento não teria sido capaz de percorrer os caminhos que me levaram a tantas coisas”.

E para o pai da psicanálise Sigmund Freud, ele era “um ser compreensivo por excelência”.

Dado o calibre das personalidades que a admiravam, é quase irresistível apresentar-lhe as descrições que fizeram, embora seja incongruente: poucas mulheres se esforçaram tanto para evitar serem definidas pelos homens da sua vida como Lou Andreas-Salomé.

Lou Andreas-Salomé teve uma vida intelectualmente agitada, cheia de contrastes marcantes.

Ela foi uma famosa femme fatale desde tenra idade, embora tenha sido virgem até depois dos 30 anos.

Ela foi casada por 43 anos, mas nunca fez sexo com o marido.

Ela era uma mulher intensamente independente, cujos escritos desafiavam os leitores a repensar os papéis de gênero, mas foi rejeitada pelas feministas.

Mas, acima de tudo, em uma época em que os filósofos questionavam nosso lugar no cosmos, os escritores questionavam as normas sociais como nunca antes e os cientistas descobriam espaços desconhecidos na mente humana, Lou Andreas-Salomé era uma ponte entre o mundos da filosofia, literatura e psicologia.

Lou

Lou começou a perder a fé quando criança na Rússia, até porque Deus não respondeu a suas perguntas sobre por que um par de bonecos de neve desapareceu repentinamente ao sol, como ela relata em seu “Olhando para Trás”.

Ele também perdeu seu pai amoroso, na adolescência, e sua crise de fé se aprofundou.

Mas ele não perdeu a razão; ele sempre entendeu a importância da religião.

Perguntas deixadas sem resposta quando uma criança corroeu sua fé.

Só outros, em particular o filósofo holandês Baruch Spinoza e o alemão Immanuel Kant, começaram a dar-lhe as respostas que tanto procurava.

Ela nasceu em 1861 em São Petersburgo em uma família de expatriados protestantes alemães e era a mais nova e única mulher de seis filhos.

Decepcionada com os ensinamentos do pastor protestante ortodoxo de sua família, ela preferiu estudar com seu oponente, Hendrik Gillot, também protestante, mas não ortodoxo, liberal e inteligente.

Com ele aprofundou seus conhecimentos de história, religião e filosofia, e encontrou a vida espiritual que almejava, bem como a perspectiva de um mundo livre de correntes e convenções.

Mas, apesar de ser 25 anos mais velho que ela, casado e pai de dois filhos da mesma idade da aluna, foi o primeiro de seus mentores que se apaixonou por ela a ponto de a pedir em casamento.

Decepcionado, o jovem Lou respondeu com um firme “não”.

Hino à vida

No final de 1880, ela deixou a Rússia acompanhada de sua mãe para estudar teologia, filosofia e história da arte na Universidade de Zurique, uma das poucas na Europa que recebia mulheres.

Mas, no verão do ano seguinte, ele teve que parar de assistir a palestras porque começou a tossir sangue.

Embora soubesse o quão perigosa era sua doença, aos 20 anos Lou queria devorar a vida, sentimento que ele capturou em seu poema “Hino à vida”.Getty Images

Anos mais tarde, ele o daria a Nietzsche e ele o musicaria.

O filósofo alemão foi uma das pessoas que ele conheceu, na Itália, onde procurou aconselhamento médico.

Salomé

Salomé chegou a Roma com uma carta de recomendação de um de seus professores em Zurique para a escritora alemã Malwida von Meysenbug, personalidade intimamente ligada ao meio intelectual e artístico europeu.

Uma profunda amizade se desenvolveu entre eles e uma das fases mais decisivas de sua vida começou em casa.

Lá ele conheceu o filósofo positivista Paul Rée que, apaixonado por Salomé, escreveu a seu amigo Nietzsche sobre ela.Getty Images

A atriz francesa Dominique Sanda como Lou Andreas Salomé, o ator britânico Robert Powell como Paul Rée e o ator sueco Erland Josephson como Friedrich Nietzsche no filme de 1977 “Além do Bem e do Mal”.

“Diga olá para aquela russa por mim, se ela tiver algum propósito: eu quero esse tipo de alma. (…) com o que tenho em mente para os próximos dez anos, vou precisar dela. O casamento seria um capítulo completamente diferente; no máximo , Poderia aceitar um casamento de dois anos … ”, respondeu Nietzsche, que desejava mesmo empreender aquele“ capítulo ”da sua vida com ela.

Ele a propôs várias vezes depois que finalmente a encontrou na Basílica de São Pedro em março de 1882, quando a cumprimentou dizendo:

“Em virtude de quais estrelas nós dois fomos nos encontrar aqui?” (Aparentemente, mesmo nas grandes mentes há espaço para o kitsch.)

Escândalo

Salomé rejeitou as propostas de Nietzsche e de Rée, mas fez uma contra-oferta: que os três vivessem juntos em uma espécie de comuna intelectual celibatária, na qual passariam o tempo discutindo filosofia, literatura e arte.

A ideia, que os dois filósofos acharam encantadora, parecia escandalosa para outros, particularmente no prestigioso círculo do compositor Richard Wagner e especialmente para um de seus membros: a irmã de Nietzsche, Elisabeth.

Não só Rée era de origem judaica, mas seu pensamento foi fortemente influenciado por Charles Darwin, a ciência materialista e os ensaístas franceses como La Rochefoucauld. Tudo que eles repudiaram.

Além disso, uma coexistência nesses termos violava as regras morais.

Elisabeth Nietzsche declarou uma guerra total contra Lou Salomé que durou para o resto de suas vidas e, felizmente para ela, até a ascensão dos nazistas ao poder, a quem ela se voltou contra ela.

Acima, para Elisabeth, Salomé ameaçava chamar a atenção do irmão.

Sua proximidade produziu um ódio tão profundo que a sujeitou a décadas de difamação pública, tão vil que 50 anos depois, em face do silêncio de Salomé, Freud perdeu a paciência.

“Muitas vezes me incomodou ver sua relação com Nietzsche mencionada de uma forma obviamente hostil contra você e que é impossível corresponder aos fatos. Você foi muito decente. Espero que agora você finalmente se defenda” (Freud para Salomé, 8 de maio de 1932).

Ele nunca fez isso.

O fato é que na década de 1880 ele começou a adquirir aquela fama mais parecida com a de seu homônimo bíblico, o Salomé que dançava para conseguir a cabeça de João Batista.

A Trindade

Para Nietzsche, o relacionamento com Salomé era crucial e tortuoso.

Inicialmente entusiasmado com a ideia do que chamou de “uma santíssima trindade”, aceitou as razões apresentadas para a primeira rejeição: a aversão fundamental de Lou ao casamento em geral – que entre outras coisas tinha apenas 21 anos, 17 anos mais jovem do que ele. e o fato de que ela perderia a pensão do pai, da qual vivia.

Mas depois de viajar pela Itália, Suíça e Alemanha com os dois amigos e a mãe de Salomé, ele a pediu em casamento novamente.

Desta vez, Salomé não deixou dúvidas de que, embora estivesse interessada na Trindade, não se casaria com ele agora ou no futuro.

Como Nietzsche não queria perdê-la completamente, concordou e, para celebrar o pacto, sugeriu que tirassem uma foto que ficou famosa.

A famosa foto da Trindade: da esquerda para a direita, Lou Salomé -no carrinho-, Paul Rée e Federico Nietzsche.

Mas no final, o idílio intelectual com que Salomé havia sonhado nunca se tornou realidade.

No final de 1882, passa um tempo com Nietzsche quando o visita na Turíngia e tem a oportunidade de conhecê-lo melhor e conhecê-lo melhor.

Eles passaram horas falando sobre “Deus e o mundo”. Como muitos antes e depois dele, Nietzsche ficou impressionado com sua capacidade de penetrar na essência dos mais variados assuntos.

Mas isso mexeu com seus sentimentos: ele a adorava e a rejeitava com a mesma intensidade.

Para ela, Nietzsche era um homem reservado e solene, de aparência anódina, exceto pelos olhos que pareciam “guardiães de tesouros e segredos não falados que nenhum intruso deveria ver”. Um homem que transformou “sua situação pessoal, a profundidade de sua miséria” em “uma fornalha incandescente na qual foi forjada sua vontade de saber”.

Em 1894, Salomé publicou “Friedrich Nietzsche, o homem em suas obras”, um estudo de sua personalidade e filosofia que foi muito difamado, mas, como grande parte de sua obra, está sendo reavaliado.

Andreas

Nos anos seguintes, Salomé conviveu com o outro membro da frustrada Trinity, Rée, em uma relação platônica e socializando com um círculo de amigos formado principalmente por cientistas que a chamavam de “a dama de honra” por ser a única mulher.

Feliz em meio às discussões filosóficas e científicas, publicou seu primeiro livro, o romance filosófico-psicológico “Na luta por Deus”, sob o pseudônimo de “Henri Lou”.

Seu sucesso abriu as portas para círculos mais amplos da sociedade e da cultura, e a tornou conhecida.

Em seu rastro, ele estava deixando mais homens apaixonados e rejeitando mais propostas de casamento.

Ela encantou diversos gênios não só porque era uma mulher muito inteligente, mas porque tinha uma capacidade extraordinária de ouvir e captar novas idéias com clareza e ver conexões ainda invisíveis para os outros.

Portanto, foi um alívio para a solidão de pessoas brilhantes, cujo destino é muitas vezes incompreendido e até temido, embora por trás da máscara da reverência.Getty Images

Salomé amava os homens que conhecia.

Em 1887, a coabitação com Rée chegou ao fim devido a um homem chamado Friedrich Carl Andreas.

Dizem que ele a convenceu a se casar com ele ameaçando cravar uma adaga em seu coração se ela não o fizesse.

É difícil verificar, mas a mulher que havia dito “não” a várias das principais cabeças da época, disse “sim” a um professor de estudos orientais.

Com uma condição: que nunca tenham relações íntimas … um com o outro.

Assim foi. Ele se tornou Lou Andreas-Salomé e viveu com ele até sua morte em 1930.

E já casada, conheceu aquele que se diz ser o amor da sua vida.

Amantes

Quando se conheceram, seu nome era René. Foi ela quem lhe deu o nome pelo qual o conhecemos: Rainer Maria Rilke

Ele não foi o primeiro de seus amantes.

A história da vida amorosa extraconjugal de Salomé havia começado em 1891 com Georg Ledebour, editor do diário social-democrata de Berlim, e mais tarde com um médico de Viena, Friedrich Pineles, cuja família a considerou sua esposa por 12 anos, apesar do fato de que ela nunca concordou oficialmente em se casar com ele, pois envolvia o divórcio de Andreas.

Foi nesta altura que causou uma torrente de indignação nos meios feministas com a publicação de “Erotica”, pois Salomé defendia a diferença entre mulheres e homens em vez da ideia de uma igualdade concedida pelo mundo dos homens.

A mulher não se libertava competindo com os homens e tornando-se igual a eles – ela acreditava – mas feminilizando o mundo e fazendo com que os homens encontrassem e aproveitassem seu lado feminino, tão profundo quanto sua masculinidade.Getty Images

Lou Andreas-Salomé (centro) e Rainer Maria Rilke (à esquerda) visitando o poeta russo Spiridon Drozhzhin.

Rilke
A primeira vez que se encontraram foi em Munique, em 1897, mas Rilke já estava interessado nela, pois havia lido um artigo sobre filosofia da religião intitulado “Jesus, o judeu”, publicado há um ano.

Para ele, o ensaio foi uma revelação, pois ela havia “expressado de forma magistral e clara” o que ele queria expressar em seu ciclo de poemas “Visões de Cristo”.

Então, quando a viu, ele já havia escrito cartas anônimas com poemas anexados.

A sua admiração transformou-se em amor, apesar de ela ter 36 anos e ele 21, e desde então até ao fim do seu namoro em 1900, dedicou-lhe todos os seus poemas de amor.

Ela demorou mais para se apaixonar.

Diante da avalanche de cartas românticas com que quem se tornaria um dos mais importantes poetas do século XX a inundou, Salomé passou a desejar que “fosse embora por completo”.

Mas o amor de Rilke acabou superando e nasceu uma relação sempre apaixonada, primeiro de amantes e depois de amigos, confidentes e conselheiros, que durou até a morte do poeta em 1926.

Intelectualmente, ela começou a orientá-lo, ensinando-lhe russo para que ele pudesse ler Tolstói e depois levando-o à Rússia para conhecê-lo.

Com o tempo, foi amadurecendo como escritor e como pessoa, e a balança se equilibrou: foi uma das trocas artísticas mais fecundas do século XX.

Freud
Salomé era mais famoso do que Freud quando se conheceram em 1911.

Ele, 55, foi dedicado a uma nova ciência; ela, 50, foi uma renomada ensaísta, crítica e romancista.

Embora não tenha estudado psicanálise, em vários de seus trabalhos – como “Heroínas de Ibsen”, “Erotica” e as biografias de Nietzsche e Rilke – ele explorou o psiquismo.

Como Karl Abraham, a quem Freud chamou de “seu melhor aluno”, escreveu ao professor: “Nunca conheci uma pessoa com uma compreensão tão profunda e sutil da psicanálise”.

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Sigmund Freud (1856-1939) em um retrato feito por Ferdinand Schmutzer em 1926.

Freud reconheceu imediatamente seu talento e Salomé se tornou a única mulher aceita no Círculo Psicanalítico de Viena.

Para o resto de suas vidas, eles manteriam um relacionamento próximo baseado em profundo respeito e carinho.

Salomé se dedicou a dar terapia psicanalítica na cidade alemã de Göttingen até que, aos 74 anos, sua saúde o impediu.

Ela morreu dois anos depois, em 1937, perseguida pelos nazistas, graças ao seu eterno inimigo: a irmã de Nietzsche.

Dias depois, a Gestapo confiscou sua biblioteca por ter sido colega de Freud, praticar uma “ciência judaica” e possuir muitos livros de autores judeus.

Mas suas obras permaneceram – mais de uma dúzia de romances e numerosos estudos – assim como sua copiosa correspondência com os homens brilhantes de sua vida.

E seu exemplo de mulher que sempre lutou por sua liberdade intelectual.

A verdade sobre o abuso de drogas na Antiguidade, revelada pela ciência

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Imagem de uma versão árabe do século 13 do livro ‘Materia Medica’, de Dioscórides, em que o médico, farmacêutico e botânico da Grécia antiga está com um discípulo segurando um mandrágora

As referências ao consumo de drogas na Antiguidade são escassas e isoladas. Quando aparecem, as drogas são mencionadas quase por acaso — e se concentram em aspectos medicinais e religiosos, deixando de lado qualquer alusão ao uso recreativo.

Há, no entanto, um comércio internacional de drogas desde 1000 a.C., e a arqueologia se juntou à ciência para desvendar a verdade que parece ter sido cuidadosamente ocultada por escritores antigos e seus subsequentes tradutores.

Havia várias maneiras de alterar a realidade nas civilizações antigas do mundo Mediterrâneo, mas duas drogas dominavam: o ópio e a maconha.

Uma pesquisa minuciosa, realizada nas últimas duas décadas, começou a revelar padrões no uso dessas drogas — até então desconhecidos inclusive pelos historiadores clássicos do século 20.

Aparecimento do ópio

Uma das primeiras pistas que os povos antigos consideravam a papoula muito mais do que uma planta bonita vem do seu uso frequente em estátuas e gravuras.

Escultura feminina descoberta na ilha de Creta, chamada de ‘a deusa da papoula’, devido aos ornamentos na cabeça — acredita-se se tratar de uma deusa minoica

Os arqueólogos descobriram que, já em 1600 a.C., eram fabricados pequenos frascos na forma de “cápsulas” de papoula, a esfera volumosa que fica sob as pétalas da flor que produz o ópio. O formato dessas cápsulas artificiais tornava razoável supor para que eram usadas, mas até recentemente era impossível ter certeza.

Em 2018, a revista científica Science divulgou que o uso de novas técnicas para analisar os resíduos das cápsulas encontradas em escavações revelou que o material de origem vegetal continha não apenas ópio — mas, às vezes, outras substâncias psicoativas.

Esses frascos e cápsulas foram encontrados em toda região do Levante, do Egito e Oriente Médio. A uniformidade dos recipientes sugere que faziam parte de um sistema organizado de fabricação e distribuição.

A planta feliz

Mesmo antes, o ópio era cultivado na Mesopotâmia. Alguns pesquisadores não duvidam que os assírios estavam cientes das propriedades da planta.

De fato, o nome assírio da papoula pode ser lido (dependendo de como as tabuletas cuneiformes que a mencionam são interpretadas) como Hul Gil, que significa ‘planta feliz’.

Também foram encontrados jarros contendo resíduos de ópio nas tumbas egípcias, o que não é surpreendente, uma vez que a papoula foi amplamente cultivada no Egito.

Na era clássica, o extrato da planta era conhecido como ‘Opium Thebiacum’, proveniente da cidade do Egito à qual os gregos deram o nome de Tebas. Outra versão era chamada de ‘Opium Cyrenaicum’, uma variação ligeiramente diferente da planta, cultivada mais a oeste, na Líbia.

‘Poções sutis e excelentes’

Há uma passagem muito sugestiva na Odisseia, de Homero, em que Helena de Troia mistura uma droga no vinho que afasta as memórias tristes, a dor e a raiva. “Quem a tomava, naquele dia seria incapaz de derramar lágrimas, mesmo que lhe morresse o pai ou a mãe, mesmo que lhe matassem um irmão ou um filho diante de seus próprios olhos.”

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‘Os Amores de Paris e Helena’, de Jacques Louis David (1748-1825)

Helena, disse Homero, tinha essas “poções sutis e excelentes” pois havia ganhado de Polidamna, esposa de Tom, uma mulher proveniente do Egito, “cuja terra, fértil em trigo, produzia inúmeras drogas, muitas, quando misturadas, eficazes para a cura e muitas para a morte.”

O nome Tom é significativo, uma vez que os egípcios acreditavam que o deus chamado Thoth havia ensinado à humanidade o uso do ópio, de acordo com Galeno, filósofo e médico da Grécia Antiga.

Sonho eterno

Dioscórides — médico, farmacêutico e botânico da antiga Grécia, autor do livro De Materia Medica (uma enciclopédia da fitoterapia) — descreveu a técnica de colheita:

“Aqueles que produzem ópio devem esperar até o orvalho secar para cortar levemente com uma faca ao redor da parte superior da planta. E tomar cuidado para não cortar o interior.”

“Na parte externa da cápsula, faça um corte para baixo. Quando o líquido sair, use o dedo para colocá-lo em uma colher. Ao retornar mais tarde, é possível colher mais resíduos após engrossar e ainda mais no dia seguinte.”

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O termo ‘ópio’ deriva do grego ‘oppion’, que significa ‘suco’, uma referência ao látex que sai quando se corta a papoula

Dioscórides também alerta sobre a overdose. “Mata”, diz ele sem rodeios.

Na verdade, muitos romanos compravam ópio exatamente por esse motivo. O suicídio não era pecado no mundo romano, e muitas pessoas que sofriam com doenças e a velhice optavam por tirar a própria vida com uma onda suave de ópio.

Não é muito provável que seja coincidência que as divindades gregas Hipnos — deus do sono — e Tânatos — seu irmão gêmeo, o deus da morte sem violência — sejam representadas com coroas ou ramos de papoulas.

BIRMINGHAM MUSEUM OF ART
Observe o que Hipnos, deus do sono, tem na mão

O ópio era um sonífero comum, ao mesmo tempo em que o filósofo grego Teofrasto dizia: “do sumo da papoula e da cicuta vem a morte fácil e indolor”.

Em tablete

Os romanos tomavam uma espécie de vinho à base de ópio para combater a insônia e ‘mêkonion’, uma bebida de folhas de papoula, que era menos potente.

O ópio podia ser comprado na forma de pequenos tabletes em postos especializados na maioria dos mercados. Na cidade de Roma, Galeno recomendava um varejista localizado a poucos passos da Via Sacra, perto do Fórum Romano.

Na próspera Cápua, os vendedores de drogas ocupavam uma área conhecida como Seplasia — mais tarde, “seplasia” se tornou um termo genérico para drogas, perfumes e cremes que alteravam a mente.

Cícero, filósofo romano, faz uma referência irônica a esse fato ao comentar sobre dois dignatários: “Eles não mostraram a moderação geralmente consistente com nossos cônsules… seu andar e comportamento eram dignos da Seplasia”.

Fábricas de drogas

A cannabis tem uma história ainda mais antiga que o ópio. Chegou à Europa antes mesmo de começarem seus primeiros registros, junto com o misterioso povo Yamna, proveniente da Ásia Central. No norte e centro da Europa, a planta está presente há mais de 5 mil anos.

Sem dúvida, era apreciada por seu uso na fabricação de cordas e tecidos — mas foram encontrados braseiros contendo cannabis carbonizada, o que mostra que aspectos menos práticos da planta também foram explorados.

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Uma planta com múltiplos usos e uma longa história.

Sabe-se que os chineses cultivavam uma cannabis significativamente mais forte que a planta selvagem há pelo menos 2,5 mil anos — e tanto o produto quanto o conhecimento de como produzi-lo teriam percorrido a Rota da Seda.

Na cidade de Ebla, localizada onde hoje é a Síria, os arqueólogos descobriram o que parece ter sido uma grande cozinha não muito longe do palácio da cidade, com oito fogões e panelas com capacidade para até 70 litros.

Mas não havia vestígios de restos de comida, como costuma acontecer em cozinhas antigas.

A análise dos recipientes encontrados deixa poucas dúvidas de que o local era utilizado apenas para a fabricação de produtos farmacêuticos psicotrópicos.

MARINA MILELLA / DECARCH
Ebla foi um dos primeiros reinos da Síria, estabelecido pela primeira vez por volta de 3.500 a.C.

Em outras palavras, o mundo antigo possuía fábricas de drogas em larga escala há 3 mil anos.

Algumas menções

Dioscórides estava familiarizado com a maconha e relatou que o uso excessivo tendia a sabotar a vida sexual do usuário, a ponto de recomendar o uso da droga para reduzir o desejo sexual em indivíduos ou em situações em que esses impulsos poderiam ser considerados inadequados.

O filósofo romano Plínio, o Velho, também fala sobre a “erva do riso”, que ele diz ser “intoxicante” quando adicionada ao vinho, ao enumerar as propriedades de muitas plantas em seu livro História Natural.

Galeno descreve, por sua vez, como a maconha era usada em reuniões sociais para ajudar a trazer “alegria e riso”.

Meio milênio antes, o historiador grego Heródoto havia escrito sobre algo semelhante.

Por que não aparecem nos textos?

Parece que os citas, que viviam perto do Mar Negro, combinavam negócios com prazer.

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A ‘erva do riso’ levava alegria, mas, ao que tudo indica, também prejudicava a vida sexual se usada em excesso

Heródoto, que foi um antropólogo extraordinariamente competente, assim como o primeiro historiador do mundo, comenta que eles faziam roupas de cânhamo tão finas que era impossível diferenciá-las das feitas com linho.

“Depois, os citas pegam as sementes de cannabis e jogam sobre pedras quentes, onde [queimam] e levantam fumaça”, escreveu Heródoto.

“Armam uma tenda e ficam embaixo dela, enquanto a fumaça emergia tão densamente que nenhum banho de vapor grego seria capaz de produzir mais. Os citas uivavam de alegria em seu banho de vapor”.

Essa é uma típica passagem sobre o uso de drogas no mundo antigo.

Heródoto era realmente tão ingênuo que não reconheceu a influência da droga? Ou seria um tabu discutir sobre o tema — no mundo clássico ou nos mosteiros, onde os textos antigos eram copiados e preservados?

Parece estranho que, embora as descobertas arqueológicas sugiram que o uso recreativo de drogas estava longe de ser incomum na Antiguidade, as referências a essa prática tendam a ser escassas em número e conteúdo.

É difícil de encontrar, inclusive, referências ao uso medicinal da cannabis em textos antigos.

Mas agora os arqueólogos sabem o que procurar.

Por exemplo, uma tumba romana do século 4 d.C. de uma menina de 14 anos que morreu ao dar à luz foi encontrada na década 1990, perto da cidade de Beit Shemesh (próximo a Jerusalém).

Acreditava-se que uma substância achada na área abdominal do esqueleto fosse incenso, até que análises científicas revelaram se tratar de tetra-hidrocanabinol (THC), um componente da cannabis. Parece provável que a droga tenha sido usada para aliviar a dor do parto e, finalmente, para ajudá-la a morrer.

Quando se trata de drogas no mundo antigo, precisamos ler nas entrelinhas, como é o caso de grande parte da história.

Outras seis maneiras como os povos antigos alteravam a realidade
Cravagem ou Esporão do centeio

Conhecido desde o ano 600 a.C., não era consumido voluntariamente. O fungo era comum no centeio e, às vezes, encontrado em outros cereais. Causava delírio, alucinações e, frequentemente, a morte.

Lótus azul

Foi imortalizada no livro Odisseia, de Homero, em que Ulisses deve levar sua tripulação à “terra dos comedores de lótus”. O alcaloide psicoativo da flor de lótus azul causa leve euforia e tranquilidade, combinadas com um aumento da libido.

Mel

O mel das flores de rododendro contém neurotoxinas que causam alteração da consciência, delírio e náuseas. Era consumido recreativamente na antiga Anatólia e ocasionalmente por apicultores descuidados em outros lugares.

Meimendro-negro

Plínio descreveu os efeitos desta planta como semelhante à embriaguez, quando inalada como fumaça ou ingerida. Em geral, era usada como parte de um coquetel alucinógeno para fins mágicos ou medicinais.

Beladona

Poetas como Ovídio indicam que as bruxas usavam beladona em feitiços e poções. Embora o resultado mais comum após o consumo seja a morte, doses cuidadosamente calculadas podem provocar alucinações que duram dias.

Peixe dos sonhos

Originário do Mediterrâneo, o Sarpa salpa, também chamado de peixe dos sonhos, é uma espécie de peixe capaz de causar alucinações vívidas, e é possível que tenha sido consumido na Roma antiga.

* Philip Matyszak tem doutorado em história romana pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e é autor de vários livros sobre civilização clássica.

Os fura-filas da vacinação contra a covid-19 mostram a nefasta versão 2.0 do jeitinho brasileiro

Fenômeno é reflexo da perda de valores sociais de coletividade e é potencializado, segundo especialistas, pela polarização política. Punição de infratores não deveria paralisar imunização, como em Manaus

No grande festival fura-fila que se tornou a vacinação contra a covid-19 em vários Estados brasileiros, juízes federais do Rio Grande do Sul tentam encomendar doses do imunizante Covaxin, fabricada pela empresa indiana Bharat Biontech, pelo preço de 800 reais por duas doses. Essa vacina ainda não foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e sua precificação é ilegal, já que não foi definida na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Mas esse é apenas o exemplo mais recente de como o processo de vacinação durante a pandemia escancara a crise moral que assola o país e que, segundo diferentes especialistas, é potencializada pela polarização política dos afetos.

O Ministério Público do Amazonas pediu a prisão preventiva do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), e da secretária municipal de Saúde, Shadia Fraxe, por suposta fraude no processo de vacinação. Eles são acusados de desviar recursos de saúde para “atender a interesses particulares” e imunizar pessoas com “ligações políticas e econômico-financeiras” com Almeida. Em Pires do Rio (GO), o agora ex-secretário de Saúde Assis Silva Filho incluiu a si própria e a sua mulher na lista de vacinação antes dos grupos prioritários. Denunciado pelo Ministério Público (MP) do Estado, ele fez acordo para pagar 50.000 reais de multa e deixou o cargo.

Também é notório o caso do caso da enfermeira Nathanna Faria Ceschim, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES), que publicou nas redes sociais um vídeo questionando a eficácia da Coronavac e, dias depois, fez outra publicação dizendo que tinha se vacinado apenas para viajar. Ela foi demitida na última segunda-feira (25/01). Já na quinta-feira, uma técnica de enfermagem foi afastada após ter simulado aplicar a vacina em uma idosa de 97 anos, em Maceió. A cuidadora da nonagenária filmou o momento e denunciou a prática da profissional.

“Estamos vivendo a versão 2.0 do jeitinho brasileiro, que se aproveita do desespero dos demais para tirar vantagem”, lamenta Renato Meirelles, fundador e presidente do Instituto Locomotiva. Em junho de 2020, o Instituto publicou uma pesquisa mostrando que um terço das classes A e B usufruiu do auxílio emergencial criado para a população socioeconomicamente vulnerável. “A fraude é transversal a todas as classes econômicas, mas ela foi acentuada pelas narrativas de disputa política. Vivemos um enfrentamento entre o campo da ação civilizatória e o da barbárie”, explica. Já não se trata de uma disputa “entre direita e esquerda”, mas de uma oposição entre aqueles que sabem que a Terra é redonda e os que acreditam no terraplanismo.

“A noção deles de liberdade não é a favor, é sempre contra os outros. É a liberdade de fazer os outros morrerem”, avalia Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor de Ética na USP (Universidade de São Paulo). Ele concorda com a chanceler alemã, Angela Merkel, que disse que a pandemia de covid-19 é o maior desafio da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. “E o mais grave é que a pandemia chegou em um período de racha no mundo, desde a crise de 2008, quando a extrema direita se ergueu e construiu governos antissolidários, com agendas de destruição e não de construção”, acrescenta.

E, no Brasil, como lembra Meirelles, a narrativa do que é certo ou errado depende, historicamente, das circunstâncias. “É um país onde as elites consideram o privilégio um direito adquirido e impera o lema farinha pouca, meu pirão primeiro. Não teria nenhum problema, por exemplo, as pessoas quererem comprar vacina, se têm dinheiro para isso, caso houvesse uma abundância de imunizantes, mas há uma escassez”, argumenta.

Ambos especialistas consideram que as infrações individuais no processo de imunização são espelho das falhas institucionais de um Governo que, inicialmente, negou a gravidade da pandemia, e depois recusou-se a montar estratégias para prevenir o avanço do contágio e preparar uma imunização com insumos e capilaridade suficientes. “Se a situação política fosse outra, não perderíamos tempo discutindo fatos e já teríamos entendido, como sociedade, que o uso da máscara é para proteger o outro, para proteger a vida em sociedade, um princípio que rege também a proibição de fumar em local fechado, por exemplo”, diz Meirelles.

O fundador do Instituto Locomotiva explica que o fato de o Brasil viver “uma contínua crise econômica”, que remonta a 2015, gera também uma crise de perspectiva: como os cidadãos perderam muito —financeiramente e em outros aspectos—, surge uma raiva e um sentimento antissistema que fomenta atitudes individualistas. A disputa de narrativas políticas que leva à polarização acaba provocando rupturas no tecido social. “Os atores políticos que surfaram nessa onda, entre eles [Jair] Bolsonaro, tourearam as raivas da população e foram limando um sentimento de coletividade em prol do individualismo”, argumenta.

“E a situação é agravada pelos grandes passadores de pano, que são lenientes com as atitudes do Governo Federal”, acrescenta Janine Ribeiro ao citar os mais de 60 pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro que aguardam tramitação na Câmara dos Deputados, presidida por Rodrigo Maia (DEM). O filósofo acredita, no entanto, que a sociedade brasileira ainda não chegou a um ponto de não retorno e tem chance de resgatar valores civilizatórios. Ele usa a Alemanha como exemplo ao lembrar que, décadas depois do nazismo —”que foi a pior coisa do século XX”—, o país fez um ajuste de contas com seu passado de autoritarismo e se consolidou como uma república garantista de direitos.

O desafio nesse caminho, no entanto, é que o Brasil “nunca processou sua história”, de acordo com o filósofo. “A ditadura é um exemplo disso. Cada vez que o Brasil sai de uma grande crise, ele a varre para debaixo do tapete, quando o que deveria fazer é olhá-la, fazer questionamentos, procurar os responsáveis e puni-los”, afirma.

Crime e castigo

No caso dos fura-filas da vacina contra a covid-19, o advogado Marcelo Válio, especialista em Direito Constitucional, explica que não faltam instrumentos legais para responsabilizá-los. O primeiro que cita é o Artigo 268 do Código Penal, que dispõe sobre a infração de medida sanitária preventiva. “É justamente o caso de quem passa na frente de grupos prioritários, mesmo conhecendo as determinações das autoridades de saúde”, diz. O jurista também cita a Lei 13.869 de 2019, que atribui crime de responsabilidade a prefeitos que desviem “bens [no caso, as vacinas], rendas ou serviços públicos” para benefício próprio ou de terceiros.

Válio salienta que, pelo menos nos casos citados nesta reportagem, também há corrupção passiva e ativa e que, de modo geral, não deveria existir dificuldade para a punição dos infratores. “Os Ministérios Públicos Estaduais têm competência para denunciar essas pessoas. No caso de secretários de saúde [como o que vacinou a esposa como uma declaração de amor], o MP pode entrar com uma medida cautelar de suspensão do exercício de função pública [previsto no Artigo 319 do Código de Processo Penal]”.

O epidemiologista Antonio Lima, especialista em saúde pública, considera, no entanto, que o país deve ter outras prioridades antes de voltar-se para a punição dos infratores. “Claro que eles devem ser punidos no rigor da lei, mas, para que isso seja feito, não podemos permitir que as investigações travem a campanha de vacinação, como aconteceu em Manaus”, pondera. A vacinação na capital amazonense foi suspensa no dia 22 de janeiro, após a suspeita de fraude na distribuição e aplicação das doses, e só foi retomada quatro dias depois. Na terça-feira (26/01), a juíza federal Jaiza Fraxe suspendeu a distribuição das vacinas de Oxford (produzidas em parceria com a AstraZeneca) em Manaus para garantir total transparência na programação e critérios de vacinação.

“É perigoso travar a campanha de imunização, temos é que correr, ainda mais quando não há previsão de insumos imunológicos”, afirma Lima, que defende que a vacinação de profissionais de saúde deveria ocorrer concomitantemente com a imunização de idosos entre 65 e 85 anos. Segundo o epidemiologista, a média etária de maior mortalidade por covid-19 é de 72 anos.

O pesquisador espanhol, Lluis Montoliu, também argumenta que os furas-filas devem receber a segunda dose da vacina, mesmo tendo cometido uma falha inaceitável: “Estas pessoas devem receber a segunda dose, porque é maior o bem que obtemos ao vaciná-las (protegendo a elas e ao resto da população) que o dano que elas cometeram à sociedade ao se vacinarem antes da hora, ou que o dano que causaríamos à sociedade ao interromper o protocolo de vacinação e causar risco a essas pessoas e ao seu entorno”, escreveu ele.

Lima lembra que, além da escassa quantidade de doses no país, a eficácia —muito inferior aos 95% da vacina contra a influenza, por exemplo—, é “muito boa” para evitar hospitalizações e mortes, mas exige uma cobertura grande coletiva. Ou seja, trata-se de uma vacina que tem potencial para frear a pandemia e desafogar as UTIs, principalmente do SUS (Sistema Único de Saúde). Por isso, o epidemiologista tem pressa e ecoa a dúvida urgente de milhões de brasileiros: “Quanto tempo vamos levar para colocar a vacina no braço de quem precisa?”.

Os incríveis dançarinos da Costa do Marfim

A seguir está a história da minha visita para ver os famosos dançarinos de palafitas da Côte d’Ivoire (Costa do Marfim).

Foi facilmente uma das melhores experiências que tive em todo o meu tempo na África Ocidental até agora.

Sento-me desconfortavelmente com minhas pernas de alguma forma espremidas entre meu peito e o assento à minha frente. Meus pés estão em cima de um grande saco de pimenta que tento ao máximo não esmagar. Uma senhora idosa está sentada ao meu lado à minha esquerda, sem medo de olhar para a visão estranha de ver um homem branco em um ônibus público no noroeste da Côte d’Ivoire; seus olhos raramente se desviam do meu rosto. Pela janela à minha direita, uma cena de aldeias ocasionalmente avistam a paisagem de terra vermelha. Cabanas de lama e telhados de palha pontilham as planícies ocasionalmente derrubadas por montanhas verdes.

O mini-ônibus para depois de algumas horas de viagem e sou conduzida para fora do veículo. Meu guia me disse que temos cerca de 6 quilômetros para caminhar até chegarmos à aldeia onde os famosos dançarinos de palafitas da Costa do Marfim irão se apresentar. Eu me sinto muito longe do normal, uma sensação que sempre pareço gostar.

Conforme nos aproximamos da aldeia, minhas pernas ainda doem da caminhada de 32 km de ontem em um dos picos mais altos da África Ocidental, a presença de crianças é a primeira coisa que noto; e eles me notam. Em cada um dos edifícios por onde passamos, os olhos perscrutadores das crianças olham para nós. Eles jogam um jogo de “se eu não posso te ver, você não pode me ver” enquanto se escondem atrás das paredes de edifícios redondos e cerâmicas gigantes. Eles são curiosos e tímidos; mas sua timidez não dura muito. Logo estou cercado por crianças segurando minha mão e tentando subir nas minhas costas.

Infelizmente, na primeira aldeia que chegamos, houve uma morte na noite anterior. A dança com pernas de pau foi cancelada no rastro e nos disseram para descer mais 5km pela estrada, onde eles estarão esperando por nós.Quando chegamos à segunda aldeia, sou invadida por crianças. Eles aprenderam a magia da câmera e a diversão que é a foto do grupo. Eles aprenderam que cada vez que a câmera clicar, eles verão uma nova imagem na tela posterior. Logo se desenvolve uma cena de dezenas de crianças empurrando e abrindo caminho para ver o LCD da minha câmera rindo histericamente enquanto fazem isso. Eu tiro algumas centenas de fotos, nem mesmo aquelas que eu mesma usaria, só para divertir as crianças. Sua risada não tem preço.

Logo, um grupo de anciãos sai e, com um simples grito de uma ou duas palavras, as crianças se dispersam, deixando-me a sós com minha câmera. O ritmo da batida dos tambores logo começa a preencher o ar e um clima de empolgação se espalha pelo rosto das crianças. Alguns bateristas aparecem e param, deixando um rastro de poeira no ar. Homens idosos começam a caminhar para a área aberta enquanto as crianças correm para colocar uma cadeira de madeira atrás deles. Acendem um cigarro, sinal de riqueza nas aldeias rurais, e cruzam as pernas de paciência.

Jovens mulheres vestidas de branco começam a se afunilar na cena de diferentes direções e começam a envolver os bateristas em uma dança de transe lento. Suas belas vozes carregam uma canção de felicidade no ar como uma pomba matinal na primavera após uma chuva suave. A festa demora para se desenvolver, mas o que falta em velocidade ganha em dramático.

O que começou lentamente agora se transformou em um festival de teatro completo. Homens com borlas feitas de palha e pele de animal enrolada em seus braços e resíduos assumem o meio da pista de dança girando e andando no ritmo. Eles passam por cada um dos mais velhos, dançando especialmente para eles. Eles são seguidos por mulheres pintadas com tinta branca. Eles também parecem sentir o transe. Seus olhos permanecem semicerrados enquanto eles vão de um pé para o outro carregando as notas da música com eles. Eles ocasionalmente erguem os olhos, uma pausa de seu estado de captura, e sorriem.

A dança culmina de uma forma espetacular com os famosos dançarinos de palafitas da Côte d’Ivoire se divertindo ao sol. Esperando seu caminho para a cena, a dança das pernas de pau parece arrogante e ousada. Ele para no meio, levanta os braços para o lado e solta um grito animalesco aos deuses. A dançarina de pernas de pau gira em uma perna antes de se abaixar e soltar outro grito. É realmente como ver algo de outro mundo. Os dançarinos de pernas de pau são ensinados a assumir uma forma não humana em sua dança, e isso é evidente. Não posso deixar de ficar pasmo enquanto vejo a cena. A dançarina de pernas de pau é tão misteriosa, poderosa e intimidadora.

No final do show, o dançarino de pernas de pau agarra minha mão e me puxa para o centro da cena, levando-me como um pai a seu filho. Cercada pelos olhos e risos de uma centena de aldeões marfinenses, eu danço. É uma experiência que você pode acumular em casa. Como o amor, é um sentimento que você não pode explicar para aqueles que nunca o sentiram. É uma sensação que simplesmente não tem significado para ninguém além de você. No final do dia, assistir aos famosos dançarinos de palafitas na Costa do Marfim foi um dos melhores dias não apenas em minhas viagens, mas em toda a minha vida. É uma memória que guardarei comigo para sempre e uma experiência que ninguém pode tirar de mim. Sinto-me abençoado por ter experimentado isso e me sinto ainda mais privilegiado em compartilhar essa experiência com você.