O que é Steampunk?

Você está acostumado a ver as últimas novidades e as promessas para o futuro da tecnologia,  em abordagens sobre meios de transporte, gadgets e outros aparatos eletrônicos que são parte do seu cotidiano.

Mas e se grandes avanços já tivessem sido feitos há muito tempo, mais precisamente quando o motor a vapor era o principal meio industrializado de produção de energia e movimento? E se apenas esse elemento rudimentar fosse a base para todos os avanços da humanidade?

Essa é a proposta e a abordagem do steampunk, um movimento que nasceu na literatura e rapidamente conquistou outras mídias e uma grande quantidade de seguidores. Vale a pena conhecer o imaginário criado por vários autores, que montaram um universo inteiro representando uma alternativa para a tecnologia de hoje.

Pontapé inicial

Antes de firmar-se propriamente, o steampunk era apenas um subgênero de um subgênero: suas raízes remetem ao cyberpunk, uma ramificação da ficção científica que engloba universos paralelos futuristas e uma tecnologia muito mais avançada do que a encontrada na época em que se passam as histórias.

As primeiras obras surgiram em meados de 1980, na forma de pequenos romances. Neles, personagens históricos do século XIX, como Santos Dumont, são mesclados com heróis e aristocratas fictícios, criando textos originais e imaginativos.

(Fonte da imagem: DrawingNight)

O grande diferencial nesse estilo é justamente a tecnologia: nas histórias do steampunk, a tecnologia a vapor (steam, em inglês) não foi rapidamente superada, desenvolvendo-se mais do que todas as outras e sendo o grande invento do homem, enquanto a eletricidade fica em segundo plano. Junte isso com um excesso de aparelhos mecanizados e está criado o cenário para essas aventuras.

Com essas mudanças no curso da humanidade, tudo é afetado. Cientistas e engenheiros criam diversas bugigangas de uso militar ou civil, enquanto a arquitetura das cidades abusa de engrenagens e estruturas metálicas.

Juntando as primeiras engrenagens

A literatura foi o primeiro meio de divulgação do estilo, abrigando romances de alta qualidade. Talvez o maior destaque seja Julio Verne, o propagador mais popular do movimento, responsável por obras bastante lidas até hoje, como “20.000 Léguas Submarinas”, “Volta ao Mundo em 80 Dias” e “Viagem ao Centro da Terra”.

Nelas, tecnologias avançadas demais para a época, como submarinos e potentes escavadeiras, levavam o ser humano a locais extraordinários, como o fundo do mar e o núcleo do planeta.

(Fonte da imagem: MyFreeWallpapers)

Além disso, várias figuras consagradas da literatura tiveram ao menos um pé no estilo em algumas histórias, como Arthur Conan Doyle (da série Sherlock Holmes), H.G. Wells (de “Guerra dos Mundos”) e Charles Dickens (de “Oliver Twist”).

Com os autores convivendo quase no mesmo período, grande parte das tramas que abordam o steampunk ambientam-se na mesma época: a era vitoriana, período britânico de governo da Rainha Vitória, de 1837 a 1901. Ainda assim, universos paralelos de alguns autores conseguem trazer alguns desses temas para os dias de hoje, em uma literatura especulativa.

Dos livros para as telas

Mesmo que as bases mais fortes do steampunk estejam na literatura, o cinema e os games foram essenciais para sua popularização, já que o gênero foi retratado em grandes lançamentos.

“As Loucas Aventuras de James West”, com Will Smith. (Fonte da imagem: Warner Bros.)

A grande maioria consiste de filmes famosos, com um elenco cheio de estrelas. Entre longas com temática central ou apenas referências ao steampunk, é possível citar “As Aventuras de James West”, “A Liga Extraordinária”, “Blade Runner”, “Rocketeer”, “De Volta Para o Futuro III” e os recentes “Sucker Punch – Mundo Surreal” e “9 – A Salvação”.

Epic Mickey e o vapor como fonte de energia. (Fonte da imagem: Divulgação / Disney)

Além disso, até mesmo alguns games embarcaram na onda e criaram cenários, personagens ou armas com visuais steampunk bastante detalhados. Entre os títulos, destacam-se o jogo independente de naves Jamestown, a série Bioshock e até recente aventura do mais famoso personagem da Disney, Epic Mickey. Até mesmo a série Final Fantasy utiliza algumas referências desse universo, especialmente nos episódios VI e Dirge of Cerberus: Final Fantasy VII.

Muito mais que bugigangas

Um dos pontos mais interessantes do steampunk é que ele não se limita em um universo ficcional. Calma, não estamos falando da maquinaria característica do estilo, mas da legião de fãs que foi conquistada por esse movimento – que é praticamente uma filosofia para quem o celebra fielmente.

Admiradores do steampunk se reúnem caracterizados. (Fonte da imagem: Conselho Steampunk Paraná)

O Brasil é bastante avançado nesse meio: Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, possuem conselhos organizados que promovem várias atividades para os fãs. Nos encontros, há desde discussões sobre obras até a produção de artesanato com base no steampunk, tudo isso com fãs devidamente caracterizados como integrantes desse universo.

Até alguns produtos bastante originais e recentes resolveram homenagear o gênero, como um pendrive e um notebook.

Como o liberalismo produz vergonha alheia inclusive na música e na história

Mas o que é isso? Inacreditável a limitação cognitiva das mentes(?) ditas liberais!

Chamar compositores de música clássica famosos apenas pelos sobrenomes pode ser “prejudicial” hoje em dia, de acordo com um artigo publicado na revista liberal norte-americana Slate. A peça foi imediatamente ridicularizada online.

Escrevendo para a Slate, Chris White, professor assistente de teoria musical na Universidade de Massachusetts Amherst, questionou como alguns compositores, como Beethoven ou Mozart, costumam ser chamados apenas por seus sobrenomes, enquanto outros não. Na verdade, continuar usando esses monônimos hoje pode ser visto como “desatualizado e prejudicial”, argumentou.

Quando dizemos ‘esta noite, você vai ouvir sinfonias de Brahms e Edmond Dede’, estamos tratando linguisticamente o primeiro como estando em um plano diferente do último, uma diferença originalmente criada por séculos de preconceito sistemático, exclusão, sexismo , e racismo.

Para mudar a situação, o autor instou as pessoas a usarem os nomes completos dos compositores para que “possamos nos concentrar mais em sua música do que nas práticas culturais do passado que elevaram os homens brancos heterossexuais em detrimento de todos os outros”.

O artigo foi imediatamente ridicularizado online, com muitos sentindo que sua opinião era rebuscada e demais até mesmo para uma revista liberal. “Eu quero participar de uma de suas reuniões de argumento de venda. As histórias que não fazem sucesso, têm que ser melhores do que as que você publica”, twittou um leitor. “Pare de tirar sarro de Slate,” outro comentou brincando.

Alguns até juraram usar apenas o nome de batismo “completo” de Mozart a partir de agora, que consiste em quatro nomes diferentes.

As pessoas tentaram educar o autor sobre por que os monônimos se prendem a compositores específicos em primeiro lugar. “Se houvesse um conhecido Bob Beethoven ou Jimmy Wagner, faríamos a distinção. Incluímos o primeiro nome de Edmond Dede porque ele não é tão conhecido”, escreveu uma pessoa.

“Que bobagem no Slate!” um tweet lido. “Dede não é musical igual a Beethoven. Fama, e não racismo, nos permite identificar o compositor apenas pelo sobrenome. Isso vale para Dante, Chaucer, Shakespeare também. E artistas e cientistas como Picasso e Einstein, também.”

Outro usuário do Twitter acrescentou que “acontece o mesmo com pessoas tão famosas que podem usar seu primeiro nome, o que inclui muitas mulheres e pessoas de cor: Oprah, Beyonce, Ellen, Kanye, Chappelle, Kobe, Hillary, LeBron . “

As empresas do Japão que ajudam pessoas a desaparecer

Em todo o mundo, dos Estados Unidos à Alemanha ou Reino Unido, diversas pessoas decidem desaparecer sem deixar rastros, abandonando suas casas, empregos e famílias para começar outra vida. Getty Images

Desaparecimento é facilitado no Japão graças à legislação sobre privacidade

Muitas vezes fazem isso sem nem olhar para trás.

No Japão, essas pessoas são conhecidas como jouhatsu.

O termo significa “evaporação”, mas também se refere a pessoas que desaparecem propositalmente e escondem seu paradeiro, por anos ou às vezes até décadas.

“Fiquei farto das relações humanas. Peguei uma mala e desapareci”, diz Sugimoto, de 42 anos, que pediu para que seu primeiro nome fosse ocultado nesta reportagem.

“Eu simplesmente fugi.”

Ele afirma que em sua pequena cidade natal todos o conheciam por causa da família dele e de seu próspero negócio local, que Sugimoto deveria ter tocado adiante.

Mas ter esse papel imposto a ele causou-lhe tanta angústia que Sugimoto deixou cidade para sempre e não disse a ninguém para onde estava indo.

De dívidas inevitáveis ​​a casamentos sem amor, as motivações que levam ao jouhatsu variam.

O sociólogo Hiroki Nakamori pesquisa jouhatsu há mais de uma década – GettyImages
Mas muitos, independentemente de seus motivos, procuram empresas para ajudá-los no processo.

Essas operações são chamadas de “mudança noturna”, um sinal da natureza secreta do processo para quem deseja virar um jouhatsu.

Essas empresas ajudam as pessoas que desejam desaparecer a se retirarem discretamente de suas vidas e ainda fornecem hospedagem em locais distantes.

“Normalmente, os motivos para a mudança costumam ser positivos, como ir para a universidade, conseguir um novo emprego ou um casamento. Mas também há mudanças tristes, quando o motivo é ter desistido da faculdade, perder o emprego ou quando você quer fugir de alguém que o persegue.”

Assim conta Sho Hatori, que fundou uma empresa de “mudança noturna” na década de 1990, quando a bolha econômica japonesa estourou.

Segundas vidas

Quando criou a empresa, ele acreditava que o motivo pelo qual as pessoas decidem fugir de suas vidas problemáticas era a ruína financeira, mas logo descobriu que também havia “motivos sociais”.

“O que fizemos foi ajudar as pessoas a começar uma segunda vida”, diz ele.

O sociólogo Hiroki Nakamori pesquisa o fenômeno jouhatsu há mais de dez anos.

Ele diz que o termo começou a ser usado na década de 1960 para descrever pessoas que decidiram desaparecer.

As taxas de divórcio eram (e ainda são) muito baixas no Japão, então algumas pessoas decidiram que era mais fácil sair e abandonar seus pares do que passar por procedimentos de divórcio complexos e formais.

“No Japão é mais fácil desaparecer” do que em outros países, diz Nakamori.

Privacidade é algo que é protegido com unhas e dentes.

Seria capaz de fugir e deixar tudo para trás? GettyImages

Pessoas desaparecidas podem sacar dinheiro em caixas eletrônicos sem serem descobertas,. E membros da família não podem acessar vídeos de câmeras de segurança, que poderiam ter gravado seus entes queridos enquanto fugiam.

“A polícia não vai intervir a menos que haja outro motivo, como um crime ou um acidente. Tudo o que a família pode fazer é pagar caro a um detetive particular. Ou simplesmente esperar. É isso.”

Fiquei chocada

Para os que ficam para trás, o abandono e a busca por seu jouhatsu podem ser insuportáveis.

“Fiquei chocada”, disse uma mulher que conversou com a reportagem da BBC, mas optou por permanecer no anonimato.

O filho dela, de 22 anos, desapareceu e nunca mais entrou em contato.

“Ele ficou desempregado duas vezes. Ele deve ter ficado muito triste com isso.”

Quando parou de ter notícias dele, ela dirigiu até onde morava, procurou no local e então esperou em seu carro por dias para ver se ele aparecia.

Isso nunca aconteceu.

Ela disse que a polícia não tem ajudado muito e que apenas informou que só poderiam se envolver no caso se houvesse suspeitas de que ele havia cometido suicídio.

Mas como não havia nenhuma pista disso, eles não investigam nada.

“Eu entendo que existem agressores e que a informação pode ser mal utilizada. Talvez a lei seja necessária, mas criminosos, agressores e pais que querem procurar seus próprios filhos são tratados da mesma forma por causa da proteção. Como isso pode acontecer?”, questiona.

“Com a lei atual e sem dinheiro, tudo o que posso fazer é verificar se meu filho está no necrotério. É tudo o que me resta.”

Os desaparecidos

Para muitos jouhatsu, embora tenham deixado suas vidas para trás, a tristeza e o arrependimento continuam.

“Tenho a sensação constante de que fiz algo errado”, diz Sugimoto, o empresário que deixou esposa e filhos na pequena cidade.

“Não vejo (meus filhos) há um ano. Disse a eles que faria uma viagem de negócios.”

Seu único arrependimento, diz ele, foi deixá-los.

Sugimoto vive escondido em uma região residencial de Tóquio.

A empresa de “mudança noturna” que o abriga é comandada por uma mulher chamada Saita, que prefere não dizer seu sobrenome para manter o anonimato

Ela mesma é uma jouhatsu que desapareceu há 17 anos.

Fugiu de um relacionamento fisicamente abusivo. “De certa forma, sou uma pessoa desaparecida, inclusive agora.”

Tipos de clientes

“Tenho vários tipos de clientes”, continua.

“Há pessoas que fogem da violência doméstica e outras que fazem isso por ego ou interesse próprio. Eu não julgo. Nunca digo: ‘Seu caso não é sério o suficiente’. Todo mundo tem suas angústias.”

Para pessoas como Sugimoto, a empresa ajudou a enfrentar sua própria batalha pessoal.

Mas mesmo que ele tenha conseguido desaparecer, isso não significa que os rastros de sua antiga vida não permaneçam.

“Só meu primeiro filho sabe a verdade. Ele tem 13 anos”, diz ele.

“As palavras que não consigo esquecer são: ‘O que o pai faz da vida é problema dele, e não posso mudar isso’. Soa mais maduro do que eu, não?”

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Onda conservadora estimula a venda de romances sobre sociedades opressivas

Frases de George Orwell estampam camisas, enquanto ‘O conto da aia’
inspira protestos nos Estados UnidosConto da Aia,Literatura,Orwell,Conservadorismo

Manifestante se veste como a protagonista de ‘O conto da aia’ em protesto contra assédio sexual realizado em Washington, nos Estados Unidos (foto: Jim Watson/AFP)

A literatura distópica passa por novo boom. Surpreendentemente, os livros que vêm figurando entre os mais vendidos no Brasil são obras clássicas, com até oito décadas de publicação: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1932), A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949), de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, e O conto da aia, de Margaret Atwood (1985).

Todas as narrativas têm em comum a crítica a estados autoritários. “Desde a ascensão do Trump e da nova direita no mundo, os romances de Orwell passaram a ser lidos novamente”, atesta Otávio Marques da Costa, publisher da Cia. das Letras, editora responsável pela obra do autor britânico no país.

A máxima “Make Orwell fiction again” (Faça Orwell ser ficção novamente) – adaptação do slogan de Donald Trump “Make America great again” (Faça a América grande novamente) – popularizou-se de tal forma que pode ser encontrada em camisetas, bonés, canecas e bolsas.Distopia,Orweel,Margaret Westwood,Blog do Mesquita

Em janeiro de 2017, na época da posse de Trump, a referência a 1984 por parte de uma assessora do presidente americano fez disparar as vendas do título nos EUA. O livro chegou ao primeiro lugar na gigante Amazon, e a editora Penguim mandou imprimir, às pressas, 75 mil exemplares.

“Naquele momento, houve um impacto quase imediato aqui, com aumento de 15% a 20% das vendas. Agora, com o novo contexto político brasileiro, notamos a segunda onda de interesse por Orwell”, acrescenta Marques da Costa.

O publisher destaca também que a edição ilustrada de A revolução dos bichos, assinada pelo gaúcho Odyr e lançada recentemente pela editora, catapultou parte das vendas do título. “Os responsáveis pelo espólio de Orwell gostaram tanto que ela vai virar a versão oficial em quadrinhos do livro. Deve ser lançada em meados do ano que vem nos EUA, com grande tiragem”, antecipa Marques da Costa.

Clássicos da distopia sempre tiveram boas vendas no Brasil, com momentos de pico. De acordo com ele, houve gente fazendo a ligação de Fahrenheit 451 com a campanha brasileira. “Já Admirável mundo novo, na minha opinião, tem relação zero com a eleição. Mas é um título que sempre vendeu muito bem, sobretudo por ser adotado nas escolas”, comenta Mauro Palermo, diretor da Globo Livros, que edita os dois títulos pelo selo Biblioteca Azul.

De acordo com ele, as polêmicas são sempre positivas. “Lembro-me de quando Caçadas de Pedrinho (1933), de Monteiro Lobato, foi acusado de racismo (em 2014, em imbróglio que chegou até o Superior Tribunal Federal. O livro passou a vender muito mais”, comenta Palermo.

O conto da aia, que em novembro alcançou o topo da lista dos livros de não-ficção mais vendidos no país, é um caso diferente. A adaptação do romance de Margaret Atwood para a série homônima, produzida nos EUA pela plataforma de streaming Hulu e exibida por aqui pelo Paramount Channel, virou febre mundial. A segunda temporada foi encerrada no último domingo pelo canal pago.

Vale dizer, no entanto, que ainda durante a campanha de Trump, em 2016, esse romance voltou a ser lido nos EUA. Quando a série foi lançada, em 2017, o interesse se multiplicou. Desde então, protestos pelos direitos das mulheres têm levado manifestantes, mundo afora, a se vestir com a roupa vermelha da protagonista do livro e do seriado.

Na quarta-feira, Atwood anunciou a publicação, em setembro de 2019, de The testaments, sequência de O conto da aia. Isso deve manter o interesse pelo romance por um bom tempo – a terceira temporada da série estreia nos EUA no primeiro semestre.Distopia,Orweel,Margaret Westwood,Blog do Mesquita 01

A Rocco publica O conto da aia desde 2006. Ano passado, o romance ganhou outra edição, com nova capa. Ele se tornou fenômeno de vendas a partir da série. O sucesso do título, lançado em 1985, trouxe mais visibilidade à obra de autora canadense, em especial a outros romances distópicos dela, como Oryx e Crake (2003) e O ano do dilúvio (2009). No primeiro semestre de 2019, a Rocco publica Maddadão (2013), livro que encerra essa trilogia.
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A livreira Simone Pessoa, que trabalha na Ouvidor, em BH, afirma que todos os títulos citados nesta reportagem sempre venderam bem. “Mas não com o ímpeto de agora. Avós, tias, pessoas mais velhas, têm vindo comprar livros para adolescentes de 13, 14 anos. Assim que A revolução dos bichos em quadrinhos foi lançado, virou uma pequena febre aqui na loja”, comenta.

Só agora Manoel Neto, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC Minas, está lendo A revolução dos bichos – “que é mais uma crítica ao stalinismo, aos autoritarismos de esquerda”. De acordo com ele, boa parte desses títulos geralmente atrai os jovens. “Li 1984 no primeiro ano do ensino médio. Na época, aquilo pareceu muito distante da realidade, pois estávamos no processo de redemocratização do Brasil. Os jovens de agora podem lê-lo para tentar entender o que está acontecendo tanto no país quanto no mundo.”

De acordo com o professor, o mais interessante é que títulos assim levam a pensar “numa terceira alternativa, para tentar superar a polarização atual.”

A historiadora Heloísa Starling recomenda aos jovens procurar tais livros. “Estamos tão habituados com a democracia, pois são 30 anos da experiência democrática no Brasil, que boa parte da meninada acha que ela é algo natural. A literatura distópica nos mostra o que ocorre quando se perde a democracia”, conclui.

Biblioterapia: A cura pela leitura

Literatura: Um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia, a biblioterapia vem ganhando adeptos no Brasil.
Mariane Morisawa/Valor, de São PauloLiteratura,Leitura,Livros

Um relacionamento que termina é sempre um motivo de tristeza ou de pausa para repensar a vida. Para superar a fase difícil, que tal um bom livro? “Flashman”, de George MacDonald Fraser, sobre um soldado britânico pouco recomendável, condecorado por heroísmo, pode distraí-lo de sua autopiedade. “Do Amor”, de Stendhal, pode auxiliá-lo a lidar com a melancolia, e “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton, pode servir mesmo de consolo. Acabou de perder o emprego?

Dureza, mas não se desespere! Uma boa pedida é rir com o conto “Bartleby”, de Herman Melville, sobre um empregado que recebe a solicitação para fazer uma coisa e diz preferir não fazer, mas estranhamente continua dia e noite no escritório. Já quem sofre pelo luto pode encontrar suporte em “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, de Dave Eggers, baseado na história do próprio autor, que perdeu os pais jovem e precisou cuidar do irmão, ou “Metamorfoses”, de Ovídio, que descreve as transformações de todas as coisas, da vida à morte.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Essas são indicações genéricas de Ella Berthoud, da School of Life de Londres, fundada em 2008. Na prática, as “receitas” são individualizadas. O interessado pode marcar uma consulta pessoalmente, por telefone ou Skype. Depois de responder a um questionário sobre suas preferências literárias e conversar com a especialista, recebe uma lista de livros mais adequados às suas aflições. Usar literatura para ajudar a superar alguma dificuldade ou dor tem nome: biblioterapia.

Desde a Antiguidade há relatos de prescrição de livros para enfrentar problemas cotidianos, mas só no século passado a prática ganhou esse nome e os primeiros estudos sobre seus benefícios, principalmente para doentes e presidiários. No Brasil, ela começa a ser difundida, com trabalhos principalmente em hospitais, ainda que não haja grupos fixos até o momento.

A biblioterapia pode ser um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia. A bibliotecária Clarice Fortkamp Caldin, autora de “Biblioterapia: um Cuidado com o Ser”, prefere fazer a distinção. “Biblioterapeuta é o psicanalista que se vale da leitura como uma das terapias, pois desenvolve a biblioterapia clínica com o intuito de cuidar das patologias psíquicas”, diz.

“O bibliotecário, a seu turno, desenvolve a biblioterapia de desenvolvimento, quer dizer, cuida do ser na sua totalidade, sem fazer julgamento do que é ou não normal. Costumo chamá-lo de ‘aplicador da biblioterapia’. Não é um título tão charmoso quanto o primeiro, mas me parece mais justo.”

Clarice começou a se interessar pelo assunto quando percebeu que o bibliotecário estava muito preso às funções técnicas, esquecendo-se do lado humanista da profissão. Em 2001, defendeu dissertação sobre a leitura como função pedagógica, social e terapêutica. Depois, elaborou um curso de 80 horas na Universidade Federal de Santa Catarina. Na sua opinião, a eficácia vem da falta de cobranças. “O aplicador de biblioterapia não prescreve uma norma de conduta nem um remédio a ser tomado em horários determinados.

Dela participa quem quiser, quem tiver vontade de escutar uma história”, afirma. “Essa história agirá no ouvinte do jeito que ele achar melhor ou mais conveniente naquele instante de sua vida. Será digerida lentamente, ficará na sua mente ou no seu subconsciente por tempo indeterminado e poderá ser retomada a qualquer momento.” E, como é grátis, não precisa ser interrompida se o dinheiro estiver curto.

Em sua experiência de quatro meses na ala pediátrica de um hospital em Santa Catarina, na qual se executou a biblioterapia por meio de leitura, contação, dramatização de histórias e brincadeiras, as crianças, segundo ela, esqueceram-se de que estavam em um hospital. Os familiares também se beneficiaram com o alívio do estresse. Num presídio feminino, as sessões de contos e poesias ajudaram as participantes a superar a sensação de impotência e a saudade dos maridos e filhos. Elas saíram do estado de prostração e chegaram até a escrever um jornalzinho interno.

Normalmente, a biblioterapia se dá em grupo.

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Os humanos não estão preparados para proteger a natureza

O filósofo Peter Sloterdijk, afirma que a humanidade está aprendendo uma nova “gramática comportamental” para lidar com as mudanças climáticas e vê elementos dela na reação global ao coronavírus.

Filósofo Peter Sloterdijk
Segundo o pensador Peter Sloterdijk, estamos vivendo um período de inocência perdida.

A humanidade passa por um período de inocência perdida do ponto de vista ambiental e está aprendendo a mudar a “gramática do seu comportamento”, avalia o filósofo alemão Peter Sloterdijk.

“Ainda estamos desconfortáveis no nível da mudança lexical. Estamos agora aprendendo novos termos, um novo vocabulário, mas, aos poucos, também aprenderemos uma nova gramática”, afirma.

Mudança, para Sloterdijk, nada mais é do que o nome atual para o que a filosofia clássica chamava de devir, pois tudo o que existe não existe em formas estáveis e eternas, mas precisa se tornar o que é.

Segundo o filósofo, um dos pensadores mais influentes da Alemanha, modernidade é, em essência, interferir nesse processo de tornar-se e empurrá-lo para uma direção que se encaixe melhor com os propósitos humanos.

Em entrevista o autor de dezenas de livros que percorrem toda a gama da investigação filosófica, dedica algumas reflexões a respeito da dificuldade dos seres humanos para mudar e o que isso tem a ver com a atual crise climática.

Então estamos todos em constante mudança?

Peter Sloterdijk: Sim. A natureza como tal é uma entidade automutável. E tudo o que nos resta é, por assim dizer, continuar surfando na onda da mudança.

Quando se olha para o futuro, e se vê essa onda cada vez devido ao perigo das mudanças climáticas, há algumas grandes mudanças que temos que adotar, como espécie. E ainda assim parece que, no momento, não somos capazes de executá-las. Por quê?

Os seres humanos não estão preparados para proteger a natureza, em nenhum sentido. Porque em toda a nossa história como espécie, nossa convicção mais profunda sempre foi a de que somos nós que devemos ser protegidos pelos poderes da natureza. E não estamos realmente preparados para essa inversão. Assim como um bebê não pode carregar sua mãe, os seres humanos não estão preparados – ou não são capazes – de carregar a natureza. Eles precisam aprender a lidar com essa imensidão. Isso é um grande desafio, porque não existe mais a desculpa clássica de que somos muito pequenos para lidar com essas imensidades.

Seria um certo narcisismo que impede isso? Qual é o problema?

Sinto que é um problema de dimensões. Somos fisiologicamente quase incapazes de entender os resultados de nosso próprio comportamento – e as consequências disso são enormes. Estamos profundamente convencidos de que tudo o que fazemos pode e deve ser perdoado. Do ponto de vista ambiental, estamos vivendo um período de inocência perdida.

Então estamos todos, em uma escala planetária, procurando por uma sensação de perdão? Queremos nos purificar do que fizemos?

E haverá muitos pecados a serem perdoados. E quanto mais compreendermos isso, maior será a probabilidade de um dia desenvolvermos padrões de comportamento para lidar com a nova situação.

Nossa resposta à pandemia foi imediata, foi rápida e unificada de uma forma quase inacreditável. Já a nossa resposta à crise climática parece travada ou estagnada. Há uma maneira de encarar essas duas formas de crise de forma semelhante?

O que a resposta ao coronavírus tem provado é que a globalização através da mídia é um projeto quase concretizado. O mundo inteiro é mais ou menos sincronizado e coopera numa estufa de notícias contagiosas. A infecção por informação é tão forte quanto a infecção pelo vírus, na verdade ainda mais. E, assim, temos duas pandemias concomitantes: uma do medo e outra do contágio real.

O senhor diz que a modernidade nos impediu de tornarmo-nos o que somos. Podemos mudar o que somos?

Sim. Eu não acho que possamos mudar nosso DNA simplesmente mudando nossos pensamentos. Mas podemos mudar a gramática do nosso comportamento. E é isso o que o século 21 ensinará à comunidade global.

O que isso significa?

Tudo o que fazemos adere a uma estrutura – semelhante a uma linguagem. E a ação é algo governado por estruturas ocultas, como todas as frases que produzimos são regidas pela gramática e pelo léxico. E acho que ainda estamos desconfortáveis no nível da mudança lexical. Estamos agora aprendendo novos termos, um novo vocabulário, mas, aos poucos, também aprenderemos uma nova gramática.

Estamos, portanto, no processo de unir os blocos semânticos da linguagem. O senhor acha que conseguiremos falar antes que a destruição anunciada se torne realidade?

O que achei especialmente impressionante no comportamento das massas durante essa crise é a incrível obediência com que vastas partes da população no Ocidente – assim como no Oriente – estiveram prontas para obedecer às novas regras de precaução e distanciamento. Estes já são novos elementos de uma nova gramática social.

Mas isso também pode ser assustador, certo? Que nós, em questão de semanas, fomos capazes de abrir mão de liberdades extremamente básicas.

Ah, sim. Ao mesmo tempo, isso mostra que não devemos subestimar a maleabilidade do elemento humano. Mas quem pode saber quanto tempo esse comportamento paciente vai durar. Acho que devemos continuar nossas reflexões daqui a um ano, mais ou menos. Eu ficaria surpreso se, até lá, você não tiver aprendido mais.

Sobre o elemento humano: a nossa resposta ao coronavírus – algo com o que ninguém havia se deparado até então – mudou de alguma forma a percepção que o senhor tem da humanidade?

Sim e não. Certamente estou tão surpreso quanto muitos outros. Mas, ao mesmo tempo, isso também confirma algo que venho desenvolvendo há décadas num nível teórico. O que quero dizer é que isso confirma minha suposição de que a raça humana alcançou uma situação de sincronicidade com base num fluxo de informações. Estamos mesmo globalmente conectados e vivendo cada vez mais na mesma dimensão de tempo. Existe algo como a presença perene da globalização, e isso tem sido uma característica importante dessa crise. Tudo acontece mais ou menos ao mesmo tempo. E as únicas diferenças que vemos são atrasos entre diferentes focos de eventos. Mas, no geral, há uma grande cadeia de eventos e conexão.

Num nível pessoal, o senhor consegue se lembrar da última vez que percebeu uma mudança dentro de si mesmo?

Sim, experimentei uma profunda mudança no meu humor existencial aos 33 anos. Fui à Índia e passei aproximadamente quatro meses por lá. Foi um evento perturbador em minha vida. Mas o evento mais parecido e mais comparável com o que ocorre agora, por mais incrível que isso soe, foram os dias sublimes da queda do Muro de Berlim. Durante um período de aproximadamente dois meses, eu não estava em condições de ouvir ou ver nada além de notícias do fronte político.

E isso foi a, por assim dizer, sublime música da Reunificação. E quando ela terminou, eu só fui entender que havia terminado quando pude assistir a um filme comum pela primeira vez depois daquilo tudo. E agora ainda estou esperando o momento em que poderei escutar música e assistir a filmes como fazia antes.

O discurso dos quem exigem seu privilégio ao ódio

Com a redemocratização do Brasil durante a década de 1980, aqueles que sempre estiveram a margens dos processos de decisões do jogo politico, econômico e social no Brasil começaram a lutar por uma igualdade e uma equidade nos seus direitos constitucionais e de liberdade individual de cada ser enquanto cidadão.

Movimentos como da consciência negra, a luta das comunidades indígenas pela preservação de seu modo de vida, o movimento LGBT, os sem-terra e sua busca pela reforma agrária, sindicatos de trabalhadores, enfim, todos aqueles que antes estavam sendo silenciados durante um longo período da história nacional agora expõem os problemas e opressões, reivindicando seus direitos que estavam sendo suprimidos por tanto tempo. liberdade.

Entretanto, estas disputas e encarniçadas lutas na busca de leis que concretizem o respeito as diferenças e que acarrete numa igualitária justiça gera a ojeriza, medo, rancor e o mais profundo ódio das forças conservadoras de uma classe e grupo contrária a equidade do espaço público, da democracia e acima de tudo, do direito de cada ser decidir para si o que é mais adequado a seu modo de vida, ideias e pensamento.

Este grupo, ao qual podemos jocosamente dar a alcunha de “cidadãos de bem”, reforça para si toda uma tentativa de manter um status quo baseado num repressivo aparato social, econômico e cultural que acaba por marginalizar boa parte da sociedade, pois ignorantemente acredita ser maioria, o que é uma das grandes falácias que o senso-comum destes leva como verdade absoluta justificando seus escusos preconceitos.

O “cidadão de bem” dorme em berço esplendido da hipocrisia: se diz cumpridor das leis, contra as drogas, sem preconceitos, fiel a esposa e família. Mas na surdina infringe uma série de leis no transito, consome algumas gramas “inofensivas” de maconha e cocaína na madrugada enquanto procura alguma garota ou garoto de programa nas sinaleiras, e ai de seus filhos se acabaram namorando um negro ou se declararem gays, seriam “deserdados por destruírem a honra da família”.

Porém no contexto atual, percebeu-se que muitos com este pensamento retrógrado e agressivo aos poucos estão perdendo a vergonha, e evidenciando publicamente este lado sinistro de suas ideias nada aprazíveis. discurso.jpg Acuados e perdendo seus privilégios que por grande e longa duração de tempo mantiveram para disseminar uma falaciosa supremacia e superioridade enquanto indivíduos perante outros grupos sociais, o “cidadão de bem” perdeu a vergonha que nunca teve e agora destila seu discurso de ódio e violência publicamente. Facilitado pela rápida e fácil disseminação de ideias através da internet e suas redes sociais, além da conivência de uma mídia ainda pautada na busca irracional pela audiência, que segue diretrizes que convergem com os interesses defendidos dentro deste discurso de Ódio.Trump,Bolsonaro,Violência,Xenofobia,Ideologia,Preconceito,Ódio,Comportamento

Na democracia o “cidadão de bem” pode ter este direito de possuir ideias nada benfazejas a uma convivência na sociedade mais equilibrada, coesa e justa. Vivemos em um país com um estado democrático, que acaba partindo desta prerrogativa de liberdade de pensamento que até mesmo é possivel e garantido por lei adotar um discurso contra a democracia e seus tramites para as decisões acerca do que é melhor para a nação como um todo. Mas neste contexto, é um tanto cômico nos depararmos em pessoas exigindo a volta de um regime totalitário numa democracia ser algo perfeitamente possível e sem nenhuma repressão, quando bem sabemos que fazer justamente o contrário sem que haja derramamento de sangue é ensinado pela história como uma utopia.

De onde vem tanta estupidez?

Imaginávamos viver o pico da civilização com a tecnologia e conhecimento, mas nos deparamos com uma progressiva regressão social. A prevalência de crenças ao invés de fatos, falta de empatia e doutrinas extremistas tornam-se mais que frequentes, são aceitas. De onde vem essa necessidade de sempre ter razão? Onde ficou a humildade em nos reconhecer ignorantes?

Estamos sentindo na pele o quanto a popular “burrice” pode ser danosa à sociedade. Os males que uma pessoa burra pode causar representa mais que um atraso do progresso ou retrocesso, nas palavras do historiador e economista Carlo Cipolla, conhecido por seus ensaios sobre a estupidez humana, uma pessoa burra “causa algum dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando”.

Antes de refletir sobre isso, temos que ter claro que a ignorância é diferente da burrice. “O conhecimento da ignorância é o início da sabedoria” – esse pensamento socrático traz a visão romântica da ignorância, considera o não-saber como único meio de acesso genuíno ao conhecimento. Sócrates exprime essa máxima filosófica quando afirma “só sei que nada sei”, distinguindo a ignorância da burrice. Já o sábio escritor brasileiro Nelson Rodrigues é mais cirúrgico quando diz que “a ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades.

A burrice é uma força da natureza”. E ele tem razão. Ignorar é não saber, enquanto o burro sabe mal. A burrice é um estado de defesa, seria como uma reação à ignorância. Enquanto a ignorância busca conhecer mais, a burrice se fecha na fé de que sabe e não se abre ao aprendizado.Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 07

O lado mais nocivo da burrice é a naturalidade dela se converter em ação. O burro não hesita e tem grande confiança em suas convicções. Nesse ponto há algo interessante a ser observado. Filosoficamente, o pensamento é feito da hesitação. É a capacidade humana de ponderar que nos torna inteligentes. Pois assim conseguimos controlar os instintos advindos de nossa carga genética e tomarmos ações mais plurais, com vista ao bem comum. Essa capacidade de hesitar antes de executar é o que leva o exercício da sabedoria.

Um computador é burro mesmo com sua capacidade de cálculos e operações porque lhe falta justamente essa exclusividade humana que é o parar. Hoje somos bombardeados de estímulos externos e o ócio é algo quase que extinto, dificilmente paramos. O mundo atual obriga as pessoas a serem sempre ativas e otimistas, até o descanso ganhou o nome de “ócio criativo” sempre prevendo produzir algo. Isso é também parte do problema, pois nos impede de hesitar e pensar. Sobre esse ponto aprofundaremos mais à frente com o pensamento do autor do livro “Sociedade do Cansaço”, do sociólogo Byung-Chul Han.

Pesquisas e neurologistas têm explicações do funcionamento do cérebro que indicam porque somos teimosos com nossas crenças e como esses processos químicos se dão em nossa mente, provando que isso é realmente um sistema de defesa do cérebro. Esta complexa máquina que controla o corpo é uma grande contadora de histórias que cria realidades ilusórias que nos convém. Existem, inclusive, cientistas cognitivos como Hugo Mercier e Dan Sperber, de Harvard, que afirmam que a razão não é fruto da reflexão profunda. Segundo eles, ela “altera-se conforme o contexto, e sua grande utilidade é construir acordos sociais – custe o que custar”. Partindo desse princípio, nossos maiores equívocos tendem a ser nossas certezas. Quanto mais certezas temos, mais burros somos.

Einstein nos alerta sobre duas coisas que são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em épocas de defesas ferrenhas às próprias opiniões, ninguém se assume ignorante. Inevitavelmente, a pessoa mesmo frente a evidências do contrário daquilo que ela acredita não se diz burro e ainda nega aquela afirmação. Por isso, não à toa, encontramos pessoas em nossos círculos sociais com acesso à informação, instruídas e viajadas colocando opiniões que fogem completamente da lógica e bom senso. Esse comportamento é, na verdade, um fenômeno social, que torna justificável o fato de cérebros sadios e dotados de recursos fazerem escolhas tão… burras.

“No âmbito clínico, a burrice é a pior doença, por ser incurável”, esta é a conclusão dos estudos do psicólogo italiano Luigi Anolli, um dos especialistas que tentam entender melhor como esse “bloqueio” nos afeta fisiologicamente. Evidentemente, a burrice hoje é um fato indiscutível. O crescimento da anticiência, posturas fanáticas, pensamentos fascistas e até mesmo religiões que prometem milagres nos fazem compreender que há um contexto muito mais denso dessa realidade.

A partir dessa percepção, entendemos que a burrice se tornou uma epidemia e afeta toda a espécie humana com danos reais à espécie. Por seu aspecto risível, a burrice foi sempre subestimada, porém hoje se mostra como uma ameaça, principalmente no âmbito político em que decisões tomadas têm rumos irreversíveis. Como entender que há pessoas inteligentes que, vez por outra, têm pensamentos burros? E o mais importante, é possível reverter isso? A definição de Aristóteles que homem é um ser racional, com a capacidade de examinar diversas variáveis e chegar a conclusões importantes e elaboradas, que guiou pensamentos do Iluminismo e Descartes, parece estar em desuso por posturas negacionistas e completamente fechadas em si.

Para ajudar neste embate, o historiador e economista Carlo Cipolla, já citado anteriormente, listou cinco “leis fundamentais da burrice” e destaca o aspecto contagioso deste mal. Isso explica como populações inteiras (a exemplo da Alemanha nazista ou na Itália fascista) são facilmente condicionadas a objetivos insanos. Como exemplo, podemos tomar o caso de não muito tempo, em que após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugestionar que a ingestão de desinfetantes poderia matar o vírus COVID-19, o centro de controle de envenenamento de Nova York recebeu 30 chamadas relacionadas aos produtos nas 18 horas seguintes à declaração.

Outro ponto fundamental, segundo Carlo Cipolla, é que o burro é a pessoa mais perigosa que existe. Grandes pensadores também concordam com isso, como o caso de Ruy Barbosa que atesta a periculosidade da burrice ao afirmar que “A chave misteriosa das desgraças que nos afligem é esta; e somente esta: a Ignorância! Ela é a mãe da servilidade e da miséria”. Goethe diz que “não há nada mais terrível que a Ignorância” e de fato o mundo nos mostra (e será ainda mais incisivo em afirmar isso à humanidade) que nossas ações individuais têm impacto direto em tudo e em todos.

A psicologia tem um termo para explicar essa dissonância cognitiva que transforma a máquina mais incrível da natureza em pura estupidez. Nomeada de “Avareza cognitiva”, esta teoria surgiu em 1984 pelos psicólogos Susan Fiske e Shelley e hoje representa o modelo predominante de cognição social. A teoria afirma que o processamento de informação por parte do nosso cérebro está sujeito a determinados limites para tratar simultaneamente as diversas variáveis do ambiente.

O cérebro seleciona uma pequena parcela destes estímulos que podem ser atendidos e desconsidera a imensa maioria dos elementos presentes. Além disso, trata de forma bastante superficial a informação, favorecendo a utilização de atalhos mentais durante as operações de processamento para “autocompletar” as percepções. Ou seja, nosso cérebro é naturalmente preguiçoso e fará de tudo para poupar energia e chegar as mais fáceis conclusões. Se juntarmos essa característica do cérebro junto com nossa sociedade organizada em “links”, em cliques, essa geração que tudo se resolve com um botão, uma pílula etc. em que temos uma noção supérflua de tudo, porém aprofundada de nada, podemos concluir que estamos atrofiando nosso cérebro ao invés de exercitá-lo.

Para comprovar essa teoria, um estudo de Leonid Rozenblit e Frank Keil, psicólogos da universidade americana de Yale, aponta como as pessoas acreditam que realmente sabem mais do que realmente sabem sobre tudo. Neste experimento, eles convidaram as pessoas a explicar detalhadamente algo que acreditam saber como funciona. O estudo identificou o fenômeno batizado de “ilusão da profundidade de explicação”, em que mostrou que quando as pessoas são forçadas a explicar, elas se viam obrigadas a reconhecer que conheciam muito menos um assunto do que acreditavam. Esses são os pequenos atalhos mentais para disfarçar de nós mesmos a dimensão da nossa ignorância.

Outra pesquisa, do professor Philip Fernbach, da Universidade do Colorado, tentou uma abordagem mais próxima da nossa realidade para explicar como isso acontece nas pessoas. O estudo foi feito com americanos na internet sobre assuntos polêmicos, como sanções ao Irã, reforma do sistema de saúde e soluções para reduzir o aquecimento global. Dois grupos foram separados, em que no primeiro as pessoas foram convidadas apenas a expor sua visão sobre determinado tema, já o segundo grupo tinha algo a mais para fazer: precisavam explicar passo a passo – do começo ao fim – o caminho pelo qual a política que defendiam produziria o resultado que desejavam. Os resultados mostraram que as pessoas do primeiro grupo mantiveram suas posições inalteradas. Já os que precisaram explicar em detalhes suas visões, acabaram adotando posturas menos radicais. A Avareza Cognitiva nos condiciona a não obter profundidade em nossos argumentos.
O homem vive em sociedade. Portanto o fator social é como se fosse o organismo condutor da pandemia da burrice, sendo um ponto fundamental. A sociedade nos contamina e tratá-la não é simples. Neste aspecto, é interessante a interpretação do tempo em que vivemos feita pelo sociólogo coreano Byung-chul Han, em seu ensaio Sociedade do Cansaço. Ele defende que nossos dias são marcados pelo excesso de positividade. Isso nos torna exaustos demais para agir e nos coloca como “empreendedores de nós mesmos”, criando uma “sociedade do desempenho”. Nela, o status quo faz você acreditar que é capaz (como o slogan da campanha presidencial de Barack Obama em 2008: “Yes, we can” – “Sim, nós podemos”). Ao contrário da sociedade de nossos pais, chamada de “Sociedade Disciplinar” (que era regida pelo o medo e negatividade), a Sociedade do desempenho tem a positividade como pano de fundo, que, segundo o autor, gera pessoas depressivas e fracassadas.

Anteriormente falamos da capacidade de hesitar como base do raciocínio filosófico. Neste aspecto, a visão de Byung-chul Han coincide ao afirmar que vivemos um excesso de estímulos que geram estados psíquicos doentes por nos impedir de descansar. Nietzsche afirma que “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie”, e atualmente o repouso é algo condenável do ponto de vista de produção. A “pressão do desempenho” é o que causa o esgotamento porque neste novo modelo precisamos obedecer somente a nós mesmos. Segundo Byung-chul “a depressão é a expressão patológica do fracasso do homem pós-moderno em ser ele mesmo”.

Se olharmos os dados alarmantes do estado da saúde mental da população mundial, veremos que faz sentido essa interpretação. Não é normal que, segundo os últimos relatórios da OMS, o suicídio cause mais mortes de jovens que homicídios e guerras. Não é normal uma sociedade cuja depressão seja a principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga global de doenças, segundo a OPAS/OMS. Estima-se que 350 milhões de pessoas pelo planeta sofram de depressão, o que corresponde a 5% da população mundial. As crises contemporâneas apenas evidenciam como as desigualdades e as injustiças existem em nossa sociedade e devemos aproveitar que a ferida está aberta para tratar e curar essas chagas.

O que não precisamos são de brasileiros tentando explicar o nazismo para a Alemanha, pessoas contestando a ditadura à historiadores ou ainda recomendações médicas por aqueles que não tem nenhuma ligação com a área da saúde. Esse é o triunfo da burrice. É o estágio em que existe um organismo doente e que começa a se prejudicar. Nesta trilha, existem dois caminhos. O da dor e da consciência. Não entraremos no mérito de como a proliferação de idiotas se deu, precisamos nos concentrar em encontrar uma vacina para esse ódio e ignorância que tem se tornado comum e que tem sido aplaudido.

Os construtores de bunkers se preparando para o dia do juízo final

Para quem está de fora, parece um pouco com uma instalação secreta do governo – e de fato era uma vez. Mas este não é um bunker construído para esconder cidadãos ou proteger os políticos que ordenaram sua construção. É um silo de mísseis Atlas F, construído pelos EUA no início dos anos 60 a um custo de cerca de US $ 15 milhões.

Aninhado entre os campos de milho do Kansas em uma paisagem desprovida de qualquer topografia natural visível, um monte verdejante pode ser visto de uma estrada de terra. Cercado por uma cerca de corrente militar e à sombra de uma grande turbina eólica, um segurança camuflado percorre a linha da cerca com um rifle de assalto. Se você olhar de perto, poderá notar o que parece uma caixa de comprimidos de concreto no topo da pequena colina, ladeada por câmeras. O que está por baixo é um bunker despretensioso, inatacável e – para muitos – inacreditável.

Para alguns, a crise atual é uma corrida fictícia para o bloqueio a longo prazo. Em todo o mundo, bunkers de luxo estão sendo construídos para poucos sortudos sobreviverem à calamidade e ao colapso.

Foi uma das 72 estruturas de silo explosivas “endurecidas”, construídas para proteger os mísseis balísticos intercontinentais (IBMs) de ponta nuclear, com uma munição 100 vezes mais poderosa que a bomba lançada em Nagasaki. Embora estivesse fora de vista e incompreensível para o cidadão médio dos EUA, ele desempenhou um papel crucial em uma agenda geopolítica de significância em nível de extinção durante a Guerra Fria.

No entanto, isso foi então. O bunker agora não é mais de propriedade do governo, mas de Larry Hall, um ex-empreiteiro do governo, promotor imobiliário e “confessor do dia do juízo final confessado” que o comprou em 2008. Preppers são as pessoas que antecipam e tentam se adaptar ao que querem. ver como condições prováveis ​​ou inevitáveis ​​de calamidade (variando de crises de baixo nível a eventos em nível de extinção). De acordo com Michael Mills, um criminologista da Universidade de Kent, os pimentões são criados para situações em que “alimentos e serviços básicos podem não estar disponíveis, a assistência do governo pode não existir e os sobreviventes podem ter que sustentar individualmente sua própria sobrevivência”.

Desde a compra do silo, há mais de uma década, Hall transformou essa megaestrutura subterrânea em um bloco de torre invertido de 15 andares – um “geoscraper” – agora apelidado de Survival Condo. Ele foi projetado para uma comunidade de até 75 pessoas para resistir a um máximo de cinco anos em um habitat de luxo autossuficiente e fechado. Quando o evento passa, os residentes esperam poder emergir no mundo pós-apocalíptico (Paw, na linguagem prepper) para reconstruir a sociedade novamente.

Passei três anos realizando pesquisas etnográficas com quase 100 preppers de seis países, incluindo Austrália, Reino Unido, Alemanha, Tailândia, Coréia e EUA. Eu participei de complexos de bunkers nas Grandes Planícies, com grupos cultivando alimentos em florestas secretas, com pessoas construindo veículos fortemente blindados e com comunidades religiosas que coletaram suprimentos que estão prontos para entregar a estranhos em necessidade. De acordo com esses preppers, a pandemia de Covid-19 em andamento é apenas um evento de “nível intermediário” – um aquecimento para o que está por vir. Eles anteciparam e se prepararam para um desastre como este e – ao contrário de muitos de nós – dizem que não foram pegos de surpresa.

Larry Hall diz que o complexo de bunkers é um “experimento em arquitetura” (Crédito: Bradley Garrett)

De fato, a maioria dos preppers não está se preparando para o dia do juízo final – eles são pessoas comuns que antecipam e tentam se adaptar a muitas condições de calamidade; condições que eles acreditam serem inevitáveis ​​e foram exponencialmente escalonadas através da arrogância humana e da dependência excessiva da tecnologia e das redes comerciais globais. Enquanto os desastres que eles antecipam podem – no extremo mais extremo do espectro – incluir “redefinições” importantes, como uma guerra nuclear total ou um pulso eletromagnético maciço do Sol que fritaria nossos eletrônicos frágeis, a maioria dos estoques de estocagem de baixo a médio crises de nível como o que o mundo está passando agora.

De fato, um novo banner no site do Survival Condo ostenta que os filtros de ar nuclear, biológico e químico do silo podem “filtrar” o vírus Covid-19. Embora a maioria de nós não se oponha a uma crise nesse nível, nem aproveite a oportunidade, ainda há algumas lições que descobri que a sociedade pode aprender com os preppers e com a maneira como vê o mundo.

Uma breve história do survivalism

Antes da preparação, havia sobrevivência, uma prática da era da Guerra Fria focada em abordagens práticas para possíveis desastres culturais e ambientais. Uma das principais preocupações dos sobreviventes era a possibilidade de guerra nuclear. Esta foi uma ameaça que eles consideraram provocada por cientistas, elites e políticos dispostos a sacrificar cidadãos em nome da geopolítica. Muitos sobreviventes, como resultado, desconfiavam do governo pesado e da globalização – eles muitas vezes se esquivavam dos impostos e da lei, enquanto se apoiavam fortemente na percepção da autonomia consagrada pela Constituição dos EUA.

Kurt Saxon, o homem que cunhou o termo survivalismo, defendeu a revolução armada e escreveu cartilhas sobre como criar armas e munições improvisadas. Alguns sobreviventes, seguindo sua liderança, se radicalizaram enquanto trabalhavam para cultivar a auto-suficiência rompendo com a supervisão do governo. Timothy McVeigh, o Oklahoma City Bomber e David Koresh, o líder Davidiano do Waco Branch, investiu profundamente na prática

Hoje, a maioria dos preppers adotam uma postura distintamente defensiva, em um esforço para se distanciar da política dos primeiros sobreviventes
Nas décadas de 1980 e 1990, o governo dos EUA perseguiu e processou muitos sobreviventes, em um esforço para acabar com o movimento, que naquela época incluía até três milhões de americanos. Alguns dos nomes envolvidos, como Randy Weaver (em Ruby Ridge), Bo Gritz (supostamente a inspiração para Rambo) e William Stanton (do Montana Freemen) se tornaram nomes conhecidos. Sua repressão deu origem a frustrações mais amplas e mais sentimentos antigovernamentais. Determinando que as pessoas estavam ficando “paranóicas”, o governo aumentou a vigilância, o que apenas levou a mais militância.

A maioria dos preppers hoje, em contraste, adota uma postura distintamente defensiva, em um esforço para se distanciar da política dos primeiros sobreviventes, concentrando-se mais em aspectos práticos do que em debates ideológicos partidários. No entanto, as percepções orientadas pela mídia geralmente pintam retratos rudes deles. Percorrendo o Condomínio de Sobrevivência multimilionário, construído com a permissão total de planejamento do Estado do Kansas, é óbvio que muita coisa mudou em poucas décadas.

Condomínio de Sobrevivência

Quando Hall me levou em uma turnê pelo condomínio em 2018, ele explicou que “a idéia era que pudéssemos construir uma estrutura verde para o dia do juízo final que alguém pudesse usar como uma segunda casa que também fosse um bunker com proteção nuclear”. Hall chamou de “experimento em arquitetura” seguro, independente e sustentável – o equivalente subterrâneo do projeto da Biosfera 2 da Universidade Estadual do Arizona.

A seita ramo davidiana em Waco, Texas – sujeita a um cerco em 1993 – foi parcialmente construída com base em ensinamentos de sobrevivência (Crédito: Getty Images)

A Biosfera 2, também conhecida como “Arca da Estufa”, foi um dos projetos mais ambiciosos em isolamento comunitário já orquestrados. O complexo de três acres tinha sete “biomas” sob vidro. Em 1991, uma equipe de quatro homens e quatro mulheres se trancou para ver se poderia sobreviver em um sistema fechado por dois anos. Concluiu com “brigas entre cientistas, desnutrição e outras armadilhas sociais e ambientais”, de acordo com um dos tripulantes originais. Hall, no entanto, permaneceu convencido de que poderia melhorar o modelo:

“Este é um sistema completamente fechado. As pessoas tentam construir sistemas como este em suas fazendas e são infiltradas por insetos … danos causados ​​pela chuva e pelo vento. Removemos todos esses fatores “.

Hall disse que seu bunker era uma boa prática para sistemas fechados, como viagens espaciais. Bancas como o Condomínio de Sobrevivência, encontrado em locais remotos como vilarejos remotos na Tailândia, são empreendimentos distintamente privados que buscam usar tecnologias renováveis ​​para diminuir a dependência da infraestrutura do estado. O Condomínio de Sobrevivência também faz parte de um desejo crescente de “preparar” da maneira mais sustentável possível, sem necessariamente abrir mão do conforto do capitalismo tardio. Essa é uma visão de mundo cheia de pavor sobre o desconhecido especulativo.

Mas não é barato comprar o caminho para sair do enigma existencial. Uma “cobertura” no condomínio custaria US $ 4,5 milhões (3,7 milhões de libras), enquanto uma unidade de meio andar custa cerca de US $ 1,5 milhão (1,2 milhões de libras). Como as hipotecas “perdidas” ainda são uma coisa, apenas os compradores em dinheiro precisam se inscrever. Incrivelmente, Hall não apenas vendeu todos os espaços no primeiro silo, mas agora está construindo um segundo, a 20 minutos. Esse fato reflete uma inquietação óbvia e crescente sobre o futuro.

A energia para o bunker é fornecida por cinco sistemas redundantes diferentes – portanto, se um deles cair, há quatro backups
Em outro local em Dakota do Sul chamado xPoint, que visitei várias vezes nos últimos anos, os moradores gastaram US $ 25 a US $ 35.000 (US $ 20 a US $ 28.500) por bunkers de concreto vazios no meio das Grandes Planícies. Originalmente construídos durante a Primeira Guerra Mundial para armazenar munições, esses 575 bunkers agora estão rapidamente se tornando a maior comunidade de prepper da Terra.

De volta ao Kansas, segui Hall por uma das portas de explosão de 16.000 libras (7,2 toneladas) que podem ser “trancadas” a qualquer momento. Ele me indicou a unidade de filtragem de ar nuclear, biológica e química do condomínio e explicou que eles tinham três filtros de nível militar, cada um fornecendo 2.000 pés cúbicos por minuto de filtragem, que “eram US $ 30.000 (24.400) por pop”. , diz Hall. “Coloquei US $ 20 milhões nesse lugar e, quando você começa a comprar equipamentos militares do governo, não acredita na rapidez com que chega a esse número”, disse ele.

A equipe de Hall havia perfurado poços geotérmicos subterrâneos de 45, 300 pés (91m) de profundidade e construído em um sistema de filtragem de água que usava esterilização por UV e filtros de papel carbono. O sistema pode filtrar 10.000 galões (45.400 litros) de água por dia em três tanques monitorados eletronicamente, de 25.000 galões (113.500 litros). A energia para o bunker é fornecida por cinco sistemas redundantes diferentes – portanto, se um deles cair, há quatro backups. Isso é crucial, pois como sistema de suporte à vida, a perda de energia mataria todos na instalação.

O bunker que Larry Hall transformou foi originalmente construído para lançar mísseis nucleares da Atlas (Crédito: Getty Images)

Hall diz: “Temos um banco de 386 baterias submarinas com vida útil de 15 ou 16 anos. Atualmente, estamos rodando de 50 a 60 kW, dos quais 16 a 18 são provenientes da turbina eólica … No entanto, não podemos usar energia solar aqui … porque os painéis são frágeis e, afinal, é um tornado beco. Em algum momento, sabemos que a turbina eólica também vai funcionar. Quero dizer, não passará por cinco anos de tempestades de gelo e granizo, então também temos dois geradores a diesel de 100kW, cada um dos quais poderia operar a instalação por 2,5 anos.

O Condomínio de Sobrevivência possui áreas privadas e comunais, como você pode encontrar em qualquer empreendimento alto. Mas neste bloco de torre, durante o modo de bloqueio total, não pode haver suporte externo. Ele deve funcionar como um sistema fechado, onde as pessoas são mantidas saudáveis ​​e ocupadas até que possam emergir.

Experimentos em sistemas fechados de suporte à vida conduzidos pelos militares (para submarinos) e cientistas (para naves espaciais) muitas vezes negligenciaram a consideração dos sistemas sociais após o bloqueio. Hall diz que reconhece que sustentabilidade não é simplesmente uma funcionalidade técnica. Em minha turnê, ele abriu outra porta para uma piscina interna de 227.000 litros, cercada por uma cachoeira de pedra, espreguiçadeiras e uma mesa de piquenique. Era como uma cena de um resort de férias – mas sem o sol.

No caso de um incidente grave, o cordão umbilical para o mundo, do outro lado das portas de explosão, seria cortado e o relógio começaria a correr para um reabastecimento.

No nível do teatro e do lounge, sentamos em poltronas de couro e assistimos a uma exibição em 4K do filme de Bond, Skyfall. O cinema estava conectado ao bar, que pretendia atuar como “terreno neutro” para futuros moradores. Eles tinham um sistema de barril de cerveja e um dos moradores havia fornecido 2.600 garrafas de vinho de seu restaurante para estocar o rack de vinhos. Como ele me mostrou isso, Hall insistiu que recreação, compartilhamento e comunidade eram tão importantes para o projeto e gerenciamento do condomínio quanto os sistemas técnicos.

Dadas as severas limitações da vida subterrânea, qualquer coisa estranha deve ser eliminada. Todo o edifício deve ser pensado como uma única unidade, onde as ações de cada residente afetam inevitavelmente todos os outros residentes. É isso que torna o bunker mais parecido com um submarino do que com um bloco de torre. No caso de um incidente grave, o cordão umbilical para o mundo, do outro lado das portas de explosão, seria cortado e o relógio começaria a funcionar com um reabastecimento.

Por outro lado, em uma era de vigilância dominada pelo que alguns consideram um esforço conjunto das elites do Vale do Silício para eviscerar todas as formas de privacidade, a área subterrânea pode ser o último refúgio da humanidade contra a total transparência – pelo menos por enquanto. Um prepper que entrevistei sugeriu que o bunker que ele estava construindo no leste da América era o melhor plano de fuga possível. Ele me disse: “Não podemos construir uma arca celeste como Elon Musk, não podemos deixar a Terra, então vamos para a Terra. Estou construindo uma nave espacial na Terra”.

O consultor

Dentro do Condomínio de Sobrevivência, Hall disse, também haveria um sistema de rotatividade de empregos por cinco anos, tanto para que as pessoas fossem ocupadas (“As pessoas em férias constantemente obtêm tendências destrutivas”) quanto para que aprendessem individualmente as diferentes operações críticas no bunker. Esta foi uma lição aprendida com o projeto Biosphere 2 da ASU. De fato, Hall contratou um consultor que havia trabalhado na Biosfera 2 para ajudar no planejamento do Condomínio de Sobrevivência, que examinava tudo com detalhes meticulosos. Das cores e texturas nas paredes à iluminação LED para ajudar a prevenir a depressão. Como Hall disse:

“As pessoas vêm aqui e querem saber por que as pessoas precisam de todo esse” luxo “- cinema, parede de escalada, tênis de mesa, videogame, campo de tiro, sauna, biblioteca e tudo mais … mas o que não recebem é que não se trata de luxo, esse material é essencial para a sobrevivência.”

A entrada do bunker revela pouco da escala da instalação abaixo do solo (Crédito: Bradley Garrett)

Hall acredita que, se essas comodidades não forem integradas, o cérebro manterá uma pontuação subconsciente de “coisas anormais”, que ocorrem quando a depressão ou a febre da cabine se aproxima. confinamento:

“Seja para trabalhar madeira ou apenas levar o cachorro para passear, é crucial que as pessoas sintam que estão vivendo uma vida relativamente normal – mesmo que o mundo esteja queimando lá fora. As pessoas querem água e comida de boa qualidade, para se sentirem seguras e sentirem que estão trabalhando juntas para um objetivo comum. Essa coisa tem que funcionar como um navio de cruzeiro em miniatura. ”

Durante os primeiros dias da Guerra Fria, governos, militares e universidades realizaram inúmeras experiências para ver quanto tempo as pessoas poderiam suportar ficar presas no subsolo. Em um estudo do governo de 1959 em Pleasant Hill, Califórnia, 99 prisioneiros foram confinados em confinamento subterrâneo por duas semanas (um experimento que nunca receberia aprovação ética hoje em dia). Quando surgiram, “todos estavam de boa saúde e espírito”, segundo um porta-voz do grupo. Parecia que as pessoas podiam se adaptar e se contentar – desde que soubessem que a situação era temporária. Era como um período de submersão em um submarino: apertado e desconfortável, mas tolerável desde que houvesse um plano para a superfície, um destino no tempo traçado. Este era precisamente o modelo em que Hall estava operando – embora, em vez de duas semanas, Hall estivesse planejando até cinco anos em confinamento.

Útero e túmulo

A mais de 60 metros abaixo da superfície da Terra, observamos estantes cheias de alimentos com validade de 25 anos armazenados no nível do supermercado – uma réplica convincente de um supermercado, completo com cestas de compras, uma máquina de café expresso atrás do balcão e uma estética americana de classe média.

Existe alguma preparação para a vida toda depois que as portas de segurança reabrem?
Hall disse que eles precisavam de tetos pretos baixos, paredes bege, piso de ladrilhos e caixas bem apresentadas, porque se as pessoas estivessem trancadas neste prédio e tivessem que descer aqui para vasculhar caixas de papelão para conseguir sua comida, logo ficariam deprimidas.

Também era necessário implementar uma regra de que ninguém poderia consumir mais de três dias de compras porque as compras são “um evento social”. Hall disse que “como tudo aqui já está pago, é preciso incentivar as pessoas a descer aqui para cheirar pão e fazer um café e conversar ou trocar suprimentos e serviços”.

Visitamos um dos condomínios concluídos de 1.800 pés quadrados, que parecia um quarto de hotel limpo e previsível. Olhei pela janela e fiquei chocado ao ver que era noite lá fora. Imaginei que devíamos estar no subsolo por mais de algumas horas neste momento.

Eu tinha esquecido completamente que estávamos no subsolo. Hall pegou um controle remoto e ligou um vídeo sendo direcionado para a “janela” – uma tela de LED – muito parecida com a de um filme futurista. De repente, folhas de carvalho estremeceram em primeiro plano, bem na frente de nossos carros, estacionadas do lado de fora da porta da explosão. À distância, a sentinela camuflada postada na cerca do arame estava no mesmo lugar de quando chegamos.

Esses bunkers vazios nas Grandes Planícies se tornaram a maior comunidade “prepper” do planeta (Crédito: Bradley Garrett)

As telas podem ser carregadas com material ou ter um feed ao vivo, mas a maioria das pessoas prefere saber a que horas do dia é do que ver uma praia em San Francisco ou o que for “, explicou Hall.” O que o consultor fez repetidas vezes era que meu trabalho como desenvolvedor era tornar esse lugar o mais normal possível. Toda essa infraestrutura de segurança, você quer que as pessoas saibam como funciona e como corrigi-lo, mas não queremos ser lembrados o tempo todo de que você está basicamente vivendo em uma nave espacial ou submarino “.

Emergindo da crisálida

Mas toda essa preparação é vitalícia durante o confinamento. Existe alguma preparação para a vida toda depois que as portas de segurança reabrem? Um prepper chamado Auggie, que estava construindo um bunker em grande escala na Tailândia, me disse: “Imagino atravessar as portas do bunker quando ele finalmente termina e sentir a ansiedade sair do meu corpo. Imagino passar um tempo lá com minha família, segura e protegida, tornando-se minha melhor versão de mim mesma “. Outro em Dakota do Sul, quando questionado sobre o que eles poderiam fazer em seu bunker, disse:

“Bem, você poderia fazer qualquer coisa, aprender a meditar, aprender a levitar, aprender a atravessar paredes. Quando você se livra de todas as distrações e porcaria que nos rodeia, impedindo-nos de fazer essas coisas, quem sabe o que você pode realizar?

O espaço racional, ordenado e planejado do bunker é a antítese do que alguns vêem como a aceleração e acumulação inúteis da vida moderna
Alguns pensam que o bunker é uma crisálida para a transformação em um “modelo de si”, onde os preparativos levam a uma existência perfeitamente rotineira, após a qual uma pessoa pode emergir como uma versão superior de si mesma. Muitos de nós experimentamos isso durante as primeiras semanas da pandemia de Covid-19, que para alguns trouxe alívio das obrigações indesejadas de viagem e para outros, proporcionou um período produtivo de isolamento e privacidade. Uma utopia para alguns foi um desastre para outros, que estavam sem recursos para se acocorar e ficaram sem emprego, doentes e mortos.

Portanto, nesse sentido, o espaço racional, ordenado e planejado do bunker é a antítese do que alguns vêem como a aceleração e acumulação inúteis da vida moderna. Essas narrativas contrastam a representação da mídia sobre a preparação e a construção de bunkers como uma prática distópica sombria. Minha pesquisa descobriu que a preparação é, em última análise, esperançosa, embora um pouco egoísta. Egoísta porque os preppers estão cuidando de si mesmos, já que não confiam no governo para fazê-lo. No entanto, como muitos deles me deixaram claro durante a atual pandemia, o fato de serem autossuficientes aliviou a pressão sobre recursos críticos e instalações de assistência médica, colocando um giro altruísta no que parece ser um empreendimento egocêntrico. . Ao contrário dos sobreviventes, o objetivo do prepper não é sair da sociedade, mas ajudar a sustentá-la através da preparação pessoal.

Esta seção mostra a escala completa do bunker, construído em um antigo silo de mísseis (Crédito: SurvivalCondo.com)

Um construtor de bunkers na Califórnia me explicou que “ninguém quer entrar no bunker tanto quanto quer sair do bunker”. Como tal, o bunker é uma forma de transporte, mas que, em vez de transportar corpos e materiais pelo espaço, os transporta pelo tempo.

Esperança do pavor

Para preparar, o bunker é um laboratório controlado no qual se constrói um eu melhor, um lugar para reafirmar a ação perdida e uma crisálida a partir da qual renascer depois de uma “restauração” necessária de um mundo confuso, complicado e frágil.

É provável que a pandemia do Covid-19 aumente o temor das pessoas – e, portanto, a vontade – de normalizar as práticas de preparação
À luz da pandemia de Covid-19, ficou claro que os preppers não são anomalias sociais, mas guardiões da compreensão da condição humana contemporânea – assim como os sobreviventes do passado refletiam as ansiedades da Guerra Fria. Espaços como o Condomínio de Sobrevivência parecem improváveis, se não impossíveis, mas é a escolha de construí-los que interessa, porque em ação a esperança pode surgir do pavor. Como Hall sugeriu no final de nossa turnê:

“Este não era um espaço de esperança. A capacidade defensiva dessa estrutura só existia na medida necessária para proteger uma arma, um míssil – esse bunker era um sistema de armas. Então, convertemos uma arma de destruição em massa no completo oposto. ”

Mas o que os preppers estão construindo é menos importante do que nossa necessidade de entender que a preparação refrata as ansiedades subjacentes criadas pela desigualdade, austeridade, confiança cada vez menor no governo, desânimo com a globalização e a velocidade das mudanças tecnológicas e sociais. É provável que a pandemia do Covid-19 aumente o medo das pessoas – e, portanto, a vontade – de normalizar as práticas de preparação. Portanto, pode ser que o futuro da humanidade não esteja nas estrelas, afinal – mas profundamente sob a superfície da Terra.

Este excerto de “A Peste”, de Albert Camus de 1947 parece que foi escrito hoje

A grande cidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços e inertes, entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos, com seus falsos rostos de pedra ou de bronze, evocar uma imagem degradada do que fora o homem.

Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes.

Mas a noite também estava em todos os corações, e as verdades, como as lendas que se contavam sobre os enterros, não eram feitas para tranquilizar nossos concidadãos. Porque é efetivamente necessário falar dos enterros, e o narrador pede desculpas. Sente naturalmente a crítica que lhe poderia ser feita a respeito, mas a única justificativa é que houve enterros durante toda essa época e que, de certo modo, o obrigaram, como obrigaram a todos os nossos concidadãos, a preocupar-se com enterros.

Não é que ele goste desse tipo de cerimônias, preferindo, pelo contrário, a sociedade dos vivos, e, para dar um exemplo, os banhos de mar. Mas, afinal, os banhos de mar tinham sido suprimidos, e a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar à sociedade dos mortos. Era a evidência. Na verdade era sempre possível esforçar-se por não vê-la, fechar os olhos e recusá-la, mas a evidência tem uma força terrível que acaba sempre vencendo.

Qual o meio, por exemplo, de recusar os enterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados? Pois bem, o que caracterizava no início , nossas cerimônias era a rapidez. Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa fúnebre fora suprimida.

Os doentes morriam longe da família, e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podia deslocar-se por estar de quarentena, se tinha vivido perto do doente. No caso de a família não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada da partida para o cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão. (…)

Num extremo do cemitério, num local coberto de árvores, tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. Sob esse aspecto, as autoridades respeitavam as conveniências, e foi só muito mais tarde que, pela força das circunstâncias, este último pudor desapareceu e se enterraram de qualquer maneira, uns sobre os outros, sem preocupações de decência, os homens e as mulheres.

Para todas essas operações era preciso pessoal, e este estava sempre prestes a faltar. Muitos desses enfermeiros e coveiros, primeiros oficiais, depois improvisados, morreram de peste. Por mais precauções que se tomassem, o contágio acabava por se fazer um dia. No entanto, quando se pensa bem, o mais extraordinário é que nunca faltaram homens para exercer essa profissão durante todo o tempo da epidemia. (…)

Mas, a partir do momento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade, então seu próprio excesso provocou consequências bastante cômodas, pois ela desorganizou a vida econômica e suscitou assim um número considerável de desempregados. (…)

Sabia também que, se as estatísticas continuassem a subir, nenhuma organização, por melhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas praças públicas, os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de ódio legítimo e de estúpida esperança”.