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ONU denuncia “violações graves dos direitos humanos” durante protestos no Chile

Alto Comissariado para os Direitos Humanos, chefiado pela ex-presidenta Michelle Bachelet, recebeu relatos de execuções simuladas

Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro.
Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro. GORAN 
  • Manifestantes suben al monumento al general Baquedano durante el octavo día de protestas contra el gobierno del presidente Sebastián Piñera el 25 de octubre de 2019 en Santiago, Chile.
  • Protestas en Santiago de Chile contra la política de Sebastián Piñera, el martes, 29 de octubre.
  • Una protesta en Santiago de Chile.

Por outro lado, o relatório reconhece que o Governo chileno cooperou, sustentou um “diálogo franco” e entregou “amplas informações”, facilitando o “acesso rápido e sem entraves” aos locais de detenção. No entanto, o ACNUDH denunciou que tanto os Carabineiros (polícia), como o Exército não aderiram às normas e padrões internacionais sobre o uso da força. O relatório afirma que das 26 investigações do Ministério Público por mortes ocorridas no contexto das manifestações no Chile, quatro casos se devem a ações que envolvem agentes estatais. Romario Veloz Cortés pertence a esse grupo: cidadão equatoriano de 26 anos, faleceu em La Serena, cerca de 500 quilômetros ao norte do Santiago, devido a disparos com munição letal feitos por pessoal militar, um fato que está sendo investigado. “Busco justiça… justiça para todos os que morreram”, afirmou sua mãe, segundo o relatório do ACNUDH.

As Nações Unidas apontam a grande quantidade de pessoas lesionadas durante os protestos, incluindo os feridos nos olhos pelo uso de balas de borracha. “O ACNUDH considera que o número alarmantemente alto de pessoas com lesões nos olhos ou no rosto (aproximadamente 350) mostra que há razões fundadas para acreditar que as armas menos letais foram usadas de maneira indiscriminada”, afirma o Alto Comissariado, acrescentando que, embora o uso das balas de borracha estivesse suspenso enquanto sua composição exata é determinada – elas continham apenas 20% de borracha, segundo dois estudos acadêmicos –, “esta ordem não foi completamente implementada”.

O organismo internacional menciona o caso de Gustavo Gatica, o estudante de 21 anos que em 8 de novembro foi ferido em ambos os olhos por disparos dos Carabineiros e perdeu totalmente a visão. “As autoridades tinham informação sobre o alcance das lesões causadas neste contexto desde em 22 de outubro. Entretanto, as medidas tomadas não foram imediatas e efetivas”, afirma o departamento liderado por Bachelet – que foi também a primeira mulher a ocupar o ministério da Defesa no Chile, durante o mandato de Ricardo Lagos (2000-2006).

Torturas e maus tratos

O ACNUDH dedica um espaço do seu relatório de 35 páginas à “tortura e maus tratos”, dos quais afirma ter reunido 133 casos. Em 28 de novembro, o Ministério Público tinha iniciado 44 investigações nesta linha. Na maioria, diz o escritório da ONU, “os supostos autores são membros de Carabineiros”. O relatório enumera as formas mais comuns que teriam sido empregadas: socos fortes, chutes, coronhadas e golpes de cassetete, frequentemente realizados por vários agentes ao mesmo tempo. “O ACNUDH também recebeu informação sobre vários casos de pessoas atropeladas por veículos e motocicletas das forças de segurança” e detalha relatos que denunciam “tortura psicológica como ameaças de morte, ameaças de fazer a pessoa ‘desaparecer’, ameaças de estupro, surras em familiares e amigos na frente da pessoa e ameaças de agressão contra os familiares”.

O organismo liderado por Bachelet recebeu “relatos isolados” de execuções simuladas por parte dos Carabineros e das forças militares, como a descrita por um chileno de 28 anos. “O Exército me jogou no chão, senti golpes com a coronha de uma arma na minha cabeça e na coluna vertebral. Quando entramos no veículo militar, eles continuavam nos batendo e disseram: ‘Levemos [os detidos] ao quartel e vejamos o quanto eles aguentam com a eletricidade’. Suplicamos que nos deixassem ir embora. Nos tiraram [do veículo] na escuridão, e pude reconhecer que estávamos na parte de trás do cemitério. Havia uns 12 soldados atrás de nós, que carregaram suas armas. Nos fizeram gritar ‘perdoe-me, Chile’. Nesse momento, pensei que atirariam em nós. Choramos, demos as mãos e nos despedimos.”

Sobre violência sexual – reportada antes pelo HRW –, o ACNUDH reuniu 24 casos, que incluem “estupro, ameaças de estupro, tratamento degradante (como ser obrigado a se despir), comentários homofóbicos ou misóginos, golpes e atos que causam dor nos genitais e manuseios”.

As Nações Unidas incluem o relato de Carla, de 16 anos: “Foi detida pelos Carabineros em Viña del Mar com seu pai em 5 de novembro. No momento da detenção, seu pai avisou os Carabineros que ela tinha uma deficiência psicossocial. Ela disse ter sido forçada a mostrar os seios, ter sido assediada fisicamente com um bastão/cassetete e ter sido ameaçada de que seria desaparecida.”

Com base nos dados do Ministério da Justiça, o ACNUDH estima que, entre 19 de outubro e 6 de dezembro, houve 28.210 pessoas detidas, das quais 1.615 permanecem em prisão preventiva. Ao se referir a casos de detenções ilegais ou arbitrárias, o organismo detalha o relato de Jacinto, de 20 anos: “Informou ter sido detido por uma camionete vermelha às 5:00 da manhã; colocaram um capuz em sua cabeça e o levaram a um edifício onde teria sido interrogado, ameaçado e torturado. Segundo os relatos, inseriram agulhas debaixo de suas unhas e lhe pediram que dissesse ‘tudo o que sabia sobre os protestos’.”

O ACNUDH mencionou a destruição da infraestrutura pública e privada no contexto da explosão social e entrevistou policiais feridos durante os protestos, que, de acordo com o Ministério do Interior, chegam a 2.705 efetivos. Também fez 21 recomendações ao Estado chileno, incluindo uma série de medidas relativas aos Carabineros, como “estabelecer um mecanismo para coletar, sistematizar e difundir as informações sobre violações dos direitos humanos” e assegurar que o processo de elaboração de uma nova Constituição seja inclusivo, participativo e transparente, “inclusive garantindo a paridade de gênero – 50% homens e 50% mulheres – durante o processo e a participação de povos indígenas”. “Os direitos humanos devem estar no centro deste debate nacional”, concluiu o organismo liderado por Bachelet em Genebra.

Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

Somos globalistas? Vamos examinar o pacote.

¹Nos discursos presidenciais na Assembleia da ONU em NYC, ouviu-se o slogan nacionalista (parecia anos 50) com Trump reiterando que sua política é “América First” e Bolsonaro grunhindo “A Amazônia é nossa”.

Pelo menos nos anos 50 o nacional-desenvolvimentismo fazia algum sentido, e pasmem era a contraparte do suposto “imperialismo ianque”. Era ainda anti-imperialista, nos anos seguintes, o mantra dos militares “integrar para não entregar”. A Amazônia era vista como vazio geográfico na iminência de ser tomado dos brasileiros. Naqueles anos, tais aventuras tiveram seu apelo e houve quem embarcasse à direita e à esquerda.

Hoje, tanto Donald Trump quanto Bolsonaro parecem – no curto prazo – leões que rugem em reinados despedaçados. O primeiro tenta com bazófias segurar um ciclo econômico de fôlego e data de validade prestes a vencer. Há quase unanimidade entre especialistas no prognóstico de que a América do Norte caminha para uma recessão.

O segundo, o nosso Capitão Viva a América, quer fazer caixa já, pagar as contas do dia seguinte e para tanto torra o patrimônio nacional, vendido a preço de banana.

No longo prazo ambos nos parecerão ratos que roeram a roupa do rei de Roma. E com seu nacionalismo populista de direita deixarão triste e malfadada lembrança.

Os dois, Trump e Bolsonaro – apresentam seu nacionalismo falacioso e acusam seus opositores de GLOBALISTAS. Inclui no pacote esquerda e ambientalistas.

Somos globalistas? Acho que não. É pura mistificação.

Vejamos: a globalização se deu via mercados e via doutrina neoliberal nos anos 80. A falência do estado de bem-estar social que predominava na Europa livre e a derrocada do socialismo soviético, fortaleceram o projeto de um capitalismo universal. Quem não se globaliza se trumbica, mais ou menos assim. Nunca foi um projeto da esquerda, muito menos ambientalista.
Globalismo? É mais um “ismo” em que se apoia o discurso do ódio.

Ao contrário, frequentando as várias edições do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e depois em outras praças, o slogan era “Outro Mundo é Possível”.

Ali como em outros lugares se fizeram presentes os “descontentes da globalização” (assim chamados por J. Stiglitz, ex-economista do Banco Mundial e prêmio Nobel de Economia). Os que sobraram no processo de globalização econômica feita aos trancos e barrancos. O processo foi tão brutal que gerou Davos e os Objetivos do Milênio.

Por isso é risível imputar à esquerda o epíteto de globalista.

No caso dos ambientalistas a mistificação também não se sustenta.

Sabemos desde os anos 70, enquanto comunidade científica, elites dirigentes, governantes ilustrados, tecnocracia competente e mídia informada – que a poluição de rios e oceanos e as mudanças climáticas não respeitam fronteiras. É só lembrar de Chernobyl nos anos 80.

Chuva ácida, radiação, animais migratórios, genes de plantas, vírus e pestes não fazem chek-in nem obedecem a processos aduaneiros. Simple like that!

Há muito tempo sabemos que existem problemas ambientais globais. O Planeta Terra é um só embora as culturas humanas possam ser diferentes.

Temos um encontro inadiável entre a História e a biologia da Terra.

A visão de que devemos construir uma governança global para administrar os problemas que afetam a todos, indistintamente, pode ser tudo menos ideologia de quinta.

Precisamos de lideranças visionárias e responsáveis.

As mudanças climáticas em curso não podem ser tratadas com fanfarronice. Ou com ferramentas políticas do século passado.

Nós ambientalistas falamos de Humanidade, de Civilização, dos direitos das gerações futuras.

Falamos sobretudo de responsabilidade e da preservação da vida.

Globalismo? É mais um “ismo” em que se apoia o discurso do ódio.

Triste ver governantes minúsculos em momento tão grave.
¹Por Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.

Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

E viva a farofa do capitalismo anárquico.

marxadam-smithblog-do-mesquitaEu só não concordo 100% é com essa estória de direita X esquerda

Esse paradigma, posto e martelado diuturnamente pela “grande mídia” da dicotomia conservadores X liberais, esquerda X direita, já está ultrapassado de há muito.

Os libertários não são liberais. Os libertários defendem os direitos individuais, e a liberdade individual (liberty); e defedem os princípios pregados pelos pais fundadores dos EUA, que criaram a Constituição americana que é toda baseada nas liberdades individuais. Já os globalistas, a maioria sem o saber, defendem essas politicas globalistas que irão culminar com um governo global totalitário. Esse é o objetivo final: uma ditadura global tecnocrata.

O Trumpete, por exemplo, não é direita. E ele nem é republicano também, apesar de ter sido eleito pelo partido.

Ele é libertário (libertarian). A maior parte do eleitorado dele se intitula libertário e patriotas. Libertário é diferente de liberal.

Na verdade, toda a cúpula do partido republicano boicotou a candidatura do Trumpete. Ele se candidadou na marra mesmo contra tudo e contra todos.

Por exemplo; o partido republicano gastou zero dólares no financiamento de ‘advertisement’ na camapanha do Trumpete; e foi a primeira vez que isso aconteceu.

Deem uma olhada no ‘feed’ no Twitter do Paul Watson Eu sempre entro no ‘feed” dele no Twitter. Ele trabalha pro site infowars (ponto com) e tem um site também, o prisonplanet (ponto com).

O cara tem mais de 600mil seguidores no Twitter. Tem mais de 20 milhões de visualizações no Twitter dele por mês. O cara tem mais audiência do que a CNN, ABC, NBC e CBS somados. Hahahaha.

E tem mais; há um punhado de garotos que também estão ganhando popularidade, mas que têm trabalhado nas redes sociais desde os anos 2000. São os “youtubers”.

Agora eles explodiram e tomaram toda a audiência, porque o público está faminto pela verdade, e essa mídia alternativa é que mostra as notícias que realmente importam.

Por isso que eu sempre escrevo que a mídia tradicional morreu, e a audiência está toda na mídia alternativa: zerohedge, infowars, prisonplanet, breitbart, milo yiannopoulos, etc, etc, etc.

Há o Milo que é o editor do breitbart. E ele é homosexual, e ai não dá nem pros esquerdopatas o chamarem de homofóbico.

Há uma entrevista recente dele para a BBC que ele destruiu o entrevistador.

O Paul Joseph Watson foi convidado também para uma entrevista na BBC, porque ele teve uma influência enorme nas eleições, mas ele rejeitou.
Disse que não iria e mandou a BBC &%*$&/#.

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita (9)

Oito Afirmações Marxistas Que Podem Te Surpreender

Críticos de Marx costumam não entender o grande pensador socialista. Estamos aqui para acertar as contas.

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“Trabalhadores do mundo, uni-vos!” – foto por lackingclass

Há muitas formas de se interpretar Marx. Muitas delas legítimas. Porém muitas delas buscam dispensá-lo invocando retórica anticomunista. Elas zombam dele como um determinista econômico estéril ou detonam suas análises e previsões como horripilantemente errôneas.

Marx nem sempre estava certo (quem está?). Mas ele estava certo ou afirmava coisas defensáveis com mais frequência do que a maioria das pessoas percebem. E por isso ele continua relevante.

Então, com o objetivo de refutar algumas das representações mais superficiais do grande pensador socialista, aqui estão oito afirmações que deveriam ser incluídas em qualquer interpretação respeitável de Marx ou do Marxismo.

1. Marx não dispensava simplesmente o capitalismo. Ele ficou impressionado por ele. Ele argumentou que é o sistema mais produtivo que o mundo jamais viu.

“A burguesia, em seu reino de apenas cem anos, criou forças produtivas mais massivas e mais colossais do que todas as gerações passadas juntas. Sujeição das forças da Natureza ao homem, ao maquinário, aplicação de química à indústria e à agricultura, navegação à vapor, ferrovias, telégrafos elétricos, desobstrução de continentes inteiros para cultivo, canalização de rios, populações inteiras invocadas do chão – que século anterior tinha sequer um pressentimento de que tais forças produtivas dormiam sobre o colo do trabalho social?”

2. Marx previu com precisão que o capitalismo criaria o que hoje se entende por globalização. Ele assistiu ao capitalismo criando um mercado global onde as nações se tornariam cada vez mais interdependentes.

“A burguesia, através da sua exploração do mercado global, deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para o imenso desgosto dos Reacionários, ela tirou de debaixo dos pés da indústria o solo nacional em que ela se encontrava. Todas as velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão sendo destruídas diariamente…

No lugar do antigo isolamento local e nacional e da autossuficiência, temos relações em todas as direções, interdependência universal das nações.”

3. Ao contrário das sociedades passadas, que tinham a tendência de conservar tradições e seus modos de vida, o capitalismo prospera com a invenção de modos de produção novos e alternativos que afetam o nosso viver. As tecnologias mudam nossas vidas a uma velocidade ainda maior. Produtos velhos devem abrir o caminho para produtos novos (e aqueles que os produzem).

Apesar dos capitalistas retratarem isso como algo puramente bom, pode ser algo profundamente inquietante, mesmo que certas mudanças sejam positivas. Podem levar as pessoas a sentirem que seus valores e modos de vida não têm mais lugar no mundo – que estão vivendo como madeira morta. Além disso, o emprego de novas tecnologias e métodos de produção na busca de lucro para poucos pode levar a consequências imprevistas. (Em nosso tempo, sem dúvida Marx indicaria a mudança climática como consequência do capitalismo desenfreado.)

“A burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os instrumentos de produção e, assim, as relações de produção, e com elas todas as relações da sociedade…Revolução constante da produção, perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, incerteza e agitação sem fim distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e ultracongeladas, com o seu leque de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas, todas as novas formadas tornam-se antiquadas antes de poderem ossificar. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente obrigado a encarar com sentidos sóbrios suas reais condições de vida e suas relações com sua espécie.”

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4. Empresas poderosas, concentrações de riqueza e novos métodos de produção torna cada vez mais difícil para que profissionais independentes e comerciantes de classe média mantenham seu status. Eles acabam com o conjunto de habilidades errado ou trabalhando para empresas que acabaram com seus tipos de negócio. Em outras palavras, Marx antecipou a Walmartificação das sociedades capitalistas.

“Os estratos mais baixos da classe média – os pequenos comerciantes, lojistas e comerciantes aposentados em geral, os artesãos e camponeses – afundam-se gradualmente ao proletariado, em parte porque seu capital diminuto é insuficiente para a escala na qual a Indústria Moderna progride, e são inundados na competição com os grandes capitalistas, e em parte porque sua habilidade especializada é inutilizada por novos meios de produção.”

5. Marx não defendia a abolição de todas as propriedades. Ele não queria que a grande maioria das pessoas tivesse menos bens materiais. Ele não era um utopista anti-materialista. O que ele se opunha era à propriedade privada – as vastas quantidades de riqueza concentrada pertencentes aos capitalistas, a burguesia. Inclusive, no final da passagem abaixo, ele e Engels ironicamente acusam o capitalismo de privas das pessoas de sua “propriedade auto-conquistada”.

“A característica distintiva do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a propriedade privada burguesa moderna é a expressão final e mais completa do sistema de produção e apropriação de produtos, que é baseado em antagonismos de classe, na exploração dos muitos pelos poucos.

Nesse sentido, a teoria dos comunistas pode ser resumida numa única frase: Abolição da propriedade privada.

Nós comunistas temos sido acusados de desejar abolir o direito de adquirir pessoalmente a propriedade como fruto do trabalho de um homem, cuja propriedade é supostamente a base de toda a liberdade pessoal, atividade e independência.

Propriedade duramente conquistada, adquirida por si, auto-conquistada! Você quer dizer a propriedade do pequeno artesão e do pequeno camponês, uma forma de propriedade que precedeu a forma burguesa? Não há necessidade de abolir isso; o desenvolvimento da indústria já o destruiu em grande parte e segue o destruindo diariamente.”

6. Marx entendia que os seres humanos têm uma inclinação natural a se sentirem conectados aos objetos que eles criaram. Ele chamou isso de “objetificação” do trabalho, com o que ele quis dizer que colocamos algo de nós mesmos em nosso trabalho. Quando um indivíduo não consegue se conectar com a própria criação, quando se sente “externo” a ela, isso resulta em alienação. É como se você fosse esculpir uma estátua e alguém a tirasse de você, e você nunca teve permissão para vê-la ou tocá-la novamente. Marx argumentou que a os trabalhadores estavam em uma posição parecida nas fábricas capitalistas do século XIX.

“O que, então, constitui a alienação do trabalho?

Primeiro, o fato de que o trabalho é externo ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua natureza intrínseca; que em sua obra, portanto, ele não afirma a si mesmo, mas nega a si mesmo, não se sente contente, mas infeliz, não desenvolve livremente sua energia física e mental mas mortifica seu corpo e arruína sua mente. O trabalhador, portanto, apenas se sente fora de seu trabalho, e em seu trabalho se sente fora de si mesmo. Ele se sente em casa quando não está trabalhando e, quando está trabalhando, não se sente em casa. Seu trabalho, portanto, não é voluntário, mas coagido; é trabalho forçado.”

7. Marx queria que nos libertássemos da tirania da divisão do trabalho e das longas jornadas de trabalho, que impedem os indivíduos de desenvolver diferentes tipos de capacidades e talentos. Nos tornamos servos de um tipo de atividade e outras dimensões nossas são subdesenvolvidas. Em uma passagem inspiradora que ele escreveu quando jovem, Marx estruturou sua visão da seguinte maneira:

“Pois assim que a distribuição do trabalho ocorre, cada homem tem uma esfera de atividade particular e exclusiva, que é imposta a ele e da qual ele não pode escapar. Ele é um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico, e deve permanecer assim se não quiser perder seus meios de subsistência; enquanto na sociedade comunista, onde ninguém tem uma esfera de atividade exclusiva, mas cada uma pode se realizar em qualquer ramo que desejar, a sociedade regula a produção geral e, assim, possibilita que eu faça uma coisa hoje e outra amanhã, para caçar pela manhã , pescar à tarde, criar gado à noite, criticar após o jantar, como eu tenho em mente, sem nunca me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico.”

8. Marx não foi um determinista econômico bruto. A forma com que as pessoas pensam e agem importa. Em uma carta escrita por Engels, ele enfatizou a importância da economia mas tentou deixar claro que ele e Marx foram mal interpretados (por culpa deles mesmos, parcialmente).

“Marx e eu somos ​​parcialmente culpados pelo fato de que as pessoas mais jovens às vezes colocam mais ênfase no lado econômico do que é devido a ele. Tivemos que enfatizar o ponto principal em relação aos nossos adversários, que o negaram, e nem sempre tivemos tempo, local ou oportunidade de dar a atenção devida aos outros elementos envolvidos na interação. Mas quando se tratava de apresentar uma seção da história, ou seja, fazer uma aplicação prática, era uma questão diferente e não havia permissão para erros. Infelizmente, porém, acontece com muita frequência que as pessoas pensam que entenderam completamente uma nova teoria e podem aplicá-la sem mais delongas a partir do momento em que assimilaram seus aspectos principais, e mesmo estes nem sempre corretamente. E não posso isentar muitos dos “marxistas” mais recentes dessa censura, pois as besteiras mais surpreendentes também foram produzidas neste último trimestre…”

Mitchell Aboulafia é professor de filosofia no Manhattan College.

Palhaço,Tristeza,Blog do Mesquita

Brasil – Só dói quando eu rio

Miguel Paiva,Blog do Mesquita,Constituição

Art.7º,IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;

Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

A poderosa ‘távola redonda’ de megaempresas que quer redefinir a regras do capitalismo americano

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Jamie Dimon, chefe da Business Roundatble e CEO do banco JP Morgan Chase, diz que mudança levará ao sucesso empresarial no longo prazo

Ela é a nata do capitalismo americano e agora quer mudar a maneira de fazer negócios naquele país.

A organização Business Roundtable reúne os presidentes executivos de 181 das maiores corporações dos Estados Unidos – da Amazon à Xerox, passando pelas maiores empresas de varejo (Walmart), tecnologia (Apple), energia (Exxon Mobil), telecomunicações (AT&T), automóveis (Ford), finanças (JP Morgan Chase), entre muitas outras áreas.

Juntas, as companhias têm mais de 15 milhões de funcionários e faturamento anual superior a US$ 7 trilhões.

Na segunda-feira passada (19/8), os líderes dessas empresas divulgaram comunicado em que anunciam uma mudança radical de visão sobre o propósito de suas corporações, rompendo com a política mantida há mais de 20 anos, que privilegiava a maximização dos lucros dos acionistas acima de tudo.

A partir de agora, diz o comunicado, o propósito dessas empresas será ampliado com o objetivo de favorecer também seus funcionários, clientes e as comunidades em que atuam.

Mas a que se deve essa mudança?

Além do lucro

Desde 1978, a Business Roundtable publica declarações sobre os princípios de governança corporativa e, em todos os documentos divulgados desde 1997, respalda o conceito da “primazia do acionista”.

Essa visão se tornou popular na década de 1970, alimentada em grande parte pela doutrina elaborada pelo renomado e controverso economista Milton Friedman, da Universidade de Chicago, que publicou um artigo no jornal americano The New York Times afirmando que “a responsabilidade social de uma empresa é gerar lucro”.

Milton FriedmanDireito de imagem GETTY IMAGES
O economista Milton Friedman dizia que ‘a responsabilidade social da empresa está em gerar lucro’

“Em um sistema de livre comércio e propriedade privada, um executivo corporativo é um funcionário dos donos da empresa. Ele tem uma responsabilidade direta com seus empregadores.”

“Essa responsabilidade significa fazer negócios de acordo com seus desejos, que geralmente se resumem a fazer o máximo de dinheiro possível, respeitando as normas básicas da sociedade, tanto aquelas incorporadas nas leis quanto as entremeadas nos costumes éticos”, escreveu Friedman.

A proposta do economista surgiu em um momento em que as empresas americanas ofereciam planos de aposentadoria generosos aos funcionários e faziam doações importantes para as comunidades, mas os gestores eram criticados por trabalhar mais em benefício próprio do que a favor dos acionistas.

Foi então que houve a guinada que levou à era da “primazia dos acionistas”, na qual a política corporativa se concentra em maximizar os lucros às custas da redução dos benefícios dos empregados, assim como de quaisquer outras “despesas improdutivas”.

Para garantir que essas mudanças ocorressem, as empresas também criaram programas de incentivo, em que o bônus de seus principais executivos depende dos dividendos produzidos pela empresa no curto prazo.

Mas, se os lucros das grandes empresas aumentaram, também reforçaram uma imagem pública negativa.

Protesto contra grandes empresasDireito de imagem GETTY IMAGES
O repúdio às grandes corporações atingiu níveis muito altos após a crise financeira de 2008

“A desconfiança em relação às empresas americanas cresceu a tal ponto que a própria ideia de capitalismo está sendo debatida na cena política”,escreveu Andrew Ross Sorkin, colunista do New York Times, sobre a mudança proposta pela Business Roundtable. “O populismo está sendo acolhido nos dois extremos do espectro político, quer se trate do protecionismo comercial de Donald Trump ou da supremacia da rede de proteção social do senador (e pré-candidato à Presidência dos EUA) Bernie Sanders.”

Ao mesmo tempo, Sorkin destaca suas dúvidas em relação à proposta do Business Roundtable, afirmando que mudar a “supremacia do acionista” é por enquanto apenas uma possibilidade, e não uma certeza.

Aposta no longo prazo

No novo posicionamento sobre o objetivo de suas corporações, a Business Roundtable se compromete com cinco pontos específicos:

– Entregar serviços ou bens de valor aos clientes.

– Investir nos funcionários e recompensá-los de maneira justa.

– Negociar de forma justa e ética com os fornecedores.

– Apoiar as comunidades em que as empresas estão inseridas.

– Gerar rentabilidade de longo prazo para os acionistas.

Jamie Dimon, chefe da Business Roundatble e CEO do banco JP Morgan Chase, destacou que essa guinada está vinculada a uma visão de sustentabilidade no longo prazo.

“O sonho americano está vivo, mas está se desgastando. Os grandes empregadores estão investindo em seus funcionários e em suas comunidades porque sabem que esse é o único caminho para serem bem-sucedidos no longo prazo”.

Mulher ao lado de morador de rua pedindo esmolaDireito de imagem GETTY IMAGES
Apesar de ser uma das grandes potências mundiais, os EUA têm um alto nível de desigualdade

“Esses princípios modernizados refletem o compromisso firme da comunidade empresarial de continuar a impulsionar uma economia que sirva a todos os americanos”, acrescentou por meio de um comunicado à imprensa.

Tricia Griffith, presidente-executiva da seguradora Progressive Corporation, disse que, embora os gestores trabalhem para gerar receita e oferecer lucro aos acionistas, as melhores empresas vão mais além.

“Elas colocam os clientes em primeiro lugar e investem em seus funcionários e comunidades. No fim das contas, essa é a via mais promissora de construir valor no longo prazo”, afirmou.

Promessas ou ações?

A Business Roundtable foi criada em 1972 pela fusão de três diferentes organizações que compartilhavam a crença de que o setor empresarial deveria desempenhar um papel ativo no desenvolvimento de políticas públicas.

Desde então, teve uma participação importante na aprovação e veto de uma série de propostas legislativas.

Em 1975, por exemplo, suas atividades de lobby foram consideradas fundamentais para derrubar uma proposta que buscava reformar as regras antimonopólio para permitir aos procuradores-gerais dos 50 Estados americanos processar empresas em nome dos cidadãos.

Campanha Nafta na década de 1990Direito de imagem GETTY IMAGES
Nos anos 1990, a Business Roundtable fez lobby para a aprovação do acordo de livre comércio com México e Canadá

Em 1982, o grupo se opôs às metas de déficit fiscal propostas pelo governo do então presidente Ronald Reagan. Nos anos 1990, se mobilizou para fazer com que que o governo de George H.W. Bush promovesse o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) com o México e o Canadá.

Nos últimos tempos, a Business Roundtable tem defendido uma reforma migratória que abra as portas e facilite a entrada e permanência não só de mão de obra qualificada, mas também de trabalhadores agrícolas nos Estados Unidos.

A mudança de visão do grupo em relação ao propósito de suas corporações, anunciada nesta semana, foi recebida com certo ceticismo.

“Não acreditamos que seja por benevolência que os CEOs (presidentes-executivos) da Business Roundtable finalmente reconheceram que precisam defender mais do que os interesses dos acionistas”, escreveu Kenneth Roth, diretor-executivo da ONG Human Rights Watch, no Twitter. “Ignorar questões como a cumplicidade a abusos de direitos humanos é um convite a um desastre em termos de relações públicas.”

Outros críticos destacaram que o anúncio é mais uma declaração de intenções do que um plano de ação, por isso é razoável que haja dúvidas em relação a sua real aplicação.

“Não se enganem, não foi a democracia dos acionistas que deu origem a este novo momento de iluminação. A indignação pública levou a isso.”

“Os acionistas – com algumas exceções – não se deixaram convencer até que não tiveram escolha, a não ser entender que essas forças poderiam ter um impacto sobre seus investimentos”, escreveu Ross Sorkin no jornal The New York Times.

Assim, essa mudança na visão dos propósitos corporativos das grandes empresas dos EUA é, por enquanto, uma semente, cujo cultivo não parece garantido.

Na França, acordo entre UE e Mercosul enfrenta oposição e protestos

Agricultores protestam na França contra acordo da União Europeia com o MercosulDireito de imagemAFP
Para agricultores franceses e europeus, há uma grande diferença nos métodos de produção entre os dois blocos

Enquanto o setor industrial francês comemora, agricultores, ambientalistas e inúmeros políticos da França, inclusive do partido do governo, se opõem abertamente ao acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, anunciado no dia 28 de junho. Esses setores contrários ao acordo redobraram a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron para que a França não ratifique um tratado que irá permitir a entrada de produtos agrícolas, sobretudo do Brasil, no país.

Produtores agrícolas e ecologistas franceses afirmam que o Brasil não cumpre as mesmas exigências sanitárias, trabalhistas e ambientais impostas a produtores da Europa e que, por isso, os produtos sul-americanos têm preços “incomparáveis” aos dos europeus.

Na visão deles, além da “concorrência desleal” por conta disso, os consumidores do bloco também seriam “enganados” ao comprar produtos agrícolas do Mercosul, afirmam.

Apesar das oportunidades econômicas – a Comissão Europeia estima que o acordo permitirá às empresas do bloco economizar 4 bilhões de euros por ano em tarifas para vender no Mercosul – a contestação vem ganhando força na França. Agricultores franceses já fizeram protestos pelo país na terça-feira e prometem

Do lado político, diante de tantas críticas e reticências em relação ao acordo, o governo francês tem demonstrado prudência, prometendo examinar o texto em detalhes antes de validá-lo.

Ministros franceses declararam na terça-feira (2/7) não saber se o país dará apoio ao acordo comercial. “O acordo só será ratificado se o Brasil respeitar seus engajamentos. Nós vamos esmiuçar o texto”, afirmou François de Rugy, ministro da Transição Ecológica.

“Não teremos um acordo a qualquer preço. A história ainda não terminou”, afirmou o ministro francês da Agricultura, Didier Guillaume.

A versão definitiva do texto só será publicada nas próximas semanas. O acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento europeu, e pelos legislativos nacionais dos 28 países do bloco.

As críticas contra o acordo com o Mercosul complicam a situação política de Macron, que alimenta uma imagem internacional de defensor do meio ambiente. O presidente anunciou o lançamento “em breve” de uma “avaliação independente, completa e transparente” do tratado.

Há divisões sobre o assunto dentro do próprio partido de Macron. O presidente francês defendeu o acordo em declarações na terça-feira, em Bruxelas, e alertou contra os riscos de “neoprotecionismo”.

Para o deputado Jean-Baptiste Moreau, do partido do governo, o acordo é “ruim”. Em resposta à declaração de Macron, ele afirma ser preciso achar um meio termo entre a “ingenuidade” do livre comércio no passado (que não levava em conta aspectos ambientais e o desequilíbrio de setores) e “o protecionismo idiota do presidente americano, Donald Trump, que não favorece a economia”.

Brasil ‘sem regras’

A insatisfação entre os produtores rurais franceses é grande. “Nos põem em concorrência desleal com um país que não têm nenhuma regra”, disse à BBC News Brasil Patrick Bénézit, secretário-geral adjunto do FNSEA, maior sindicato agrícola da França, que reúne mais de 200 mil produtores.

“O Brasil não tem os mesmos padrões europeus. Tudo o que é proibido na Europa é autorizado no país”, diz ele. Segundo Bénézit, 74% dos pesticidas utilizados no Brasil são proibidos na Europa, muitos, há décadas. O Greenpeace, por sua vez, estima que 30% dos 239 agrotóxicos liberados desde janeiro pelo governo do presidente Jair Bolsonaro já foram vetados no bloco europeu.

A especialista Aline Gurgel, do Instituto Oswaldo Cruz, entrevistada pelo jornal francês Le Monde no fim de junho, disse que dos 197 agrotóxicos que começaram a ser comercializados em maio, quase metade é considerada extremamente ou altamente tóxica.

Além disso, agricultores franceses e europeus afirmam que precisam cumprir normas sanitárias e ambientais cada vez mais rigorosas, que encarecem os custos de produção, enquanto o Brasil aplica métodos proibidos na Europa, como a utilização de hormônios de crescimento e de antibióticos pelo setor de carnes e a alimentação de bovinos com farinha de carne, afirmam.

O desmatamento no Brasil é outra forte crítica dos opositores.

Vacas na FrançaDireito de imagemAFP
Image captionEuropeus criticam uso de hormônios de crescimento pelo setor de carnes brasileiro

“Não podem nos exigir de fazer cada vez mais produtos de melhor qualidade e, ao mesmo tempo, abrir as comportas para qualquer coisa”, diz Bénézit, da FNSEA, acrescentando que a rastreabilidade bovina “é inexistente no Brasil.”

O Copa Cogeca, principal sindicato agrícola europeu, diz que “a caixa de Pandora dos padrões duplos na agricultura” foi aberta e afirma que o acordo amplia ainda mais o fosso entre o que se exige dos agricultores europeus e o que se tolera dos produtores do Mercosul.

‘Blasfêmia’

Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), afirma que é “uma blasfêmia” alegar que os produtores do Brasil utilizam promotores de crescimento, tanto hormônios quanto antibióticos para esse fim. Ele diz que a legislação nacional não autoriza isso e também não permite ração de origem animal.

“Não estou vendo por enquanto nenhuma argumentação técnica que dê vazão às reclamações dos produtores europeus”, diz Camardelli. Segundo o presidente da Abiec, somente fazendas brasileiras registradas (aprovadas) pela União Europeia têm autorização para exportar para o bloco, o que não é exigido de outros países.

Camardelli afirma ainda que a carne exportada, em termos sanitários, é a mesma consumida no Brasil, que representa 80% da produção. “Não tem diferença entre mercado interno e externo. A saúda pública é para todo mundo.”

“Estamos muito tranquilos”, diz o presidente da Abiec em relação às alegações dos produtores de carne franceses e europeus.

Segundo ele, há rastreabilidade do gado no Brasil e cada boi enviado ao abatedouro tem um processo de identificação de sua origem e das fases no frigorífico. A diferença é em relação a alguns cortes específicos, que não têm a origem especificada, apenas o lote e a data.

Tarifa zero

O acordo firmado em Bruxelas no dia 28 de junho de 2019, após 20 anos de negociações, prevê que 82% das exportações agrícolas do Mercosul para a Europa terão tarifas de importação zeradas, de acordo com um documento divulgado pela Comissão Europeia.

O restante será sujeito a uma liberalização parcial, o que inclui cotas de comercialização para produtos “sensíveis” para os europeus, como carne bovina, um tema espinhoso até a reta final das discussões, frango, açúcar e etanol.

Do lado europeu, 93% dos produtos agrícolas do continente terão tarifas eliminadas gradualmente no Mercosul.

Apesar disso, o FNSEA diz que a abertura do mercado do Mercosul não compensa para os agricultores franceses, que sofrerão com a concorrência do bloco sul-americano. “Vamos vender algumas centenas de toneladas aqui e ali no Mercosul”, diz ele, sugerindo que a contrapartida para isso não será vantajosa.

“Vai haver uma abertura para os produtos lácteos sofisticados, certos queijos ou leite infantil e em pó”, mas já venderíamos esses produtos mesmo sem o acordo”, afirma Bénézit.

O setor leiteiro brasileiro, menos competitivo, sofrerá concorrência direta dos europeus, principalmente franceses. Europeus, como os países do Mercosul, poderão vender 30 mil toneladas de queijo com tarifa zero (a tarifa atual para importação é de 28%).

queijo camembert francêsDireito de imagemGETTY IMAGES
O setor leiteiro brasileiro deve sofrer impacto, mas queijos tanto do Mercosul quanto da Europa terão tarifa zero

Já o setor de vinhos europeu, muito competitivo, celebra o fim das tarifas, hoje de 27%, no prazo de oito anos. O champanhe e outros espumantes terão suas tarifas zeradas após 12 anos. Azeite, frutas frescas, como maçãs e peras, ou ainda biscoitos, chocolates e batatas congeladas integram a lista de produtos agrícolas da União Europeia que serão liberalizados no Mercosul.

Os europeus também conseguiram obter a proteção da indicação geográfica (a denominação de origem) de 357 produtos do continente, como queijo francês Comté ou presunto italiano de Parma, para evitar imitações. Também foi um tema tenso nas negociações devido ao grande número de produtos da lista, na avaliação do governo brasileiro.

Para Bénézit, da FNSEA, o reconhecimento da origem geográfica é importante, mas não muda sua visão geral sobre os problemas do acordo comercial. O bloco sul-americano terá algumas dezenas de produtos protegidos, como a cachaça brasileira.

A França é uma potência agrícola, mas em geral manteve um modelo de agricultura familiar, com pequenas propriedades, de apenas alguns hectares, afirma Bénézit, criador de gado. “O tamanho médio das fazendas na França é de 100 cabeças, bem diferente das do Brasil, com rebanhos que podem ter mais de 100 mil”, afirma. Ou seja, os franceses não têm os mesmos volumes e escalas de produção dos brasileiros, o que dificulta a competição.

Retrato de Emmanuel Macron, presidente da FrançaDireito de imagemAFP
Vários políticos do partido do presidente Macron criticam o acordo comercial entre UE e Mercosul

‘Calamidade para os brasileiros’

É raro na França ecologistas e agricultores compartilharem a mesma visão sobre um assunto, como no caso do acordo entre Mercosul e União Europeia.

O Europa Ecologia Os Verdes denuncia a política ambiental do presidente Bolsonaro, o aumento do desmatamento no Brasil, o uso maciço no Brasil de pesticidas e a fiscalização pouco rigorosa da produção alimentar no país.

“O acordo vai destruir a agricultura europeia que já sofre bastante”, disse à BBC News Brasil Sandra Regol, porta-voz do partido. Segundo ela, a França já perdeu 5 milhões de produtores rurais nos últimos 40 anos.

Regol diz que os pesticidas liberados pelo governo Bolsonaro farão com que os alimentos vendidos na Europa fiquem “altamente tóxicos”.

“É um problema não só para os europeus, mas também é uma calamidade para os brasileiros que consomem esses produtos em termos de impacto sanitário”, diz ela.

O glifosato, agrotóxico amplamente utilizado no Brasil, só poderá ser usado na Europa até 2022, conforme uma decisão da Comissão Europeia. A Áustria já se antecipou e foi o primeiro país do bloco a anunciar, no dia 2 de julho de 2019, a proibição desse pesticida.

Considerado eficiente e barato, o glifosato é amplamente utilizado no mundo. O fim de seu uso na Europa deverá aumentar os custos de produção dos agricultores do continente.

Os ecologistas se tornaram a terceira maior força política na França nas eleições europeias realizadas em maio. O presidente Macron sabe que precisa do apoio desse partido nas próximas eleições no país, como as municipais em 2020.

Lígia Dutra, superintendente de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA), que reúne mais de dois milhões de produtores, diz que há um “desconhecimento proposital” em relação aos pesticidas brasileiros e que os agricultores do país cumprem as mesmas regras da União Europeia.

Para exportar, o Brasil respeita os limites de resíduos de defensivos exigidos pelo bloco. Por ter uma agricultura tropical, os agrotóxicos utilizados no Brasil são diferentes dos usados em climas temperados, acrescenta Dutra.

No mercado interno, acrescenta Dutra, o Brasil, como a Europa, também fixou seus limites de resíduos de pesticidas e segue ainda, no caso de vários alimentos, os tetos definidos pela FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

Regras ambientais rigorosas no Brasil

Para a superintendente da CNA, os agricultores brasileiros têm regras ambientais “muito mais rigorosas”, impostas pelo Código Florestal, do que os franceses e europeus. Segundo ela, o desmatamento não tem aumentado em áreas de produção rural no Brasil.

Ela destaca ainda que os agricultores europeus têm vantagens porque recebem subsídios, de 58 bilhões de euros em 2019, mais do que o valor bruto de toda a produção agropecuária brasileira. Uma das críticas na Europa é que essa ajuda só beneficia grandes produtores.

Para a Dutra, as acusações dos franceses são “picuinha” e não têm fundamento econômico nem científico. “Os franceses gostam muito de atacar, enquanto nós, brasileiros, preferimos olhar para os nossos problemas e tentar resolver.”

O documento sobre os princípios do acordo com o Mercosul – um texto preliminar, já que a redação jurídica do tratado está sendo realizada – diz que os padrões sanitários e fitossanitários do bloco europeu serão mantidos e que esse ponto é “inegociável”.

O princípio de precaução prevê que a Europa possa barrar importações sob a alegação de que ela pode causar danos à saúde, sem comprovação científica disso. O mecanismo é na prática uma barreira não tarifaria. Mas para o governo brasileiro, uma série de condições foram incluídas no texto para evitar o uso indiscriminado desse sistema pelos europeus.

O tratado prevê ainda que mais de 90% dos bens industriais dos dois blocos ficarão isentos de tarifas para importação depois de um período de transição de até dez anos para a maior parte dos produtos.

Os europeus também se beneficiaram com o fim das alíquotas de setores como o de automóveis e autopeças, maquinário, químicos e fármacos, que terão mais de 90% de suas exportações liberalizadas.+

Mineral brasileiro segue enriquecendo países

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Ouro que te quero ouro: mineral brasileiro segue enriquecendo países “desenvolvidos”

Como em nosso passado colonial, reservas auríferas brasileiras são exploradas por empresas estrangeiras e riqueza escoa facilmente via contrabando

A história do roubo do ouro, no aeroporto internacional de São Paulo é realmente fascinante e nos provocou procurar saber o que é que está acontecendo com nosso ouro. Afinal, aquilo não foi um assalto qualquer, pois levaram mais de cem quilos de ouro em barra, o que significa ouro 24 quilates, ou seja, 999,99 de pureza, ou 99,99% de AU, cotado em US$ 2,5 milhões.

É coisa de gente grande e muito bem informada.

Primeira reação: uma chuva de perguntas. Pra onde vai esse ouro? Quem comprou? Quem vendeu? Quem extraiu? Quem fundiu?

Pra onde ia é fácil saber, pois tinha endereço de entrega: parte iria para o Canadá e a outra parte para a Suíça, dois entre os grandes compradores de ouro brasileiro. No Canadá, ao que parece, o destino era o Banco Central; já na Suíça, paraíso dos lavadores de dinheiro, é bom ter um pé atrás. Sabe-se que o guardião do ouro era a Transportadora Brink, mas ela não abre os donos. E os donos abrirão a origem?

O ouro no Brasil tem duas fontes: a cata manual — garimpo — e a extração industrial — subterrânea ou a céu aberto — praticadas por grandes empresas.

O Brasil poderia ter a maior reserva de ouro do mundo. Imaginem o que foi o chamado Ciclo do Ouro na história do Brasil colonial. Toda economia girava em torno da extração e fundição. Esta já é uma outra história.

O ouro levado para Portugal criou no Brasil uma plutocracia de governança local. Lá, enriqueceu os membros da corte e financiou a Revolução industrial na Inglaterra. Era a Inglaterra quem controlava os bancos e os fluxos financeiros.

Na época, a exploração era do ouro de aluvião, catado facilmente nos leitos dos rios. Milhões de quilos. Há quem diga que foram tiradas mais de mil toneladas por ano e tivemos quase 150 anos de exploração contínua. Terá sido somente isso? E o que levaram em diamantes e outras pedras preciosas? Esta também é outra história.

Vila Rica, em Minas Gerais, e Potosí, na Bolívia, são fruto dessa exploração de ouro e prata, respectivamente. Cidades que, no século 18, tinham uma população maior do que qualquer capital da Europa. Nos Estados Unidos, o ciclo do ouro corroborou a expansão territorial e o extermínio da população nativa. Lá, como aqui, a mesma índole genocida.

A Corte se fixou no Rio de Janeiro para poder melhor controlar o fluxo do ouro, grande parte contrabandeado. O povo brasileiro, índios e negros que produziam essa riqueza, só sofreram castigos. Terminado o ciclo, começou a era do café e nada mudou para o povo.

O Brasil do neoliberalismo vai em sentido contrário. Despreza suas riquezas naturais.

Um novo ciclo do ouro a partir dos anos 1980

Na década de 1980, o Brasil viveu algo parecido com um novo ciclo do ouro com a descoberta das jazidas de Serra Pelada, distrito de Curionópolis, no Sudeste do Pará, que em 1984 produziu 100 quilos de ouro por ano, tendo chegado a mais de 45 toneladas retiradas, a maioria, logicamente, contrabandeada. A corrida ao ouro atraiu 100 mil pessoas. Em 1986, o fotógrafo Sebastião Salgado esteve lá. Suas fotos revelam cenas dantescas, de um inferno de violência, prostituição e degradação humana.

Em meados de 2014, Serra Pelada provocou uma nova corrida ao ouro, desta vez em local abandonado pela mineradora canadense Colossus. Outra empresa canadense, Annapurna, realizou parcerias para voltar a prospectar na região.

A saga do ouro e outros minerais preciosos tem sido contínua.

Os maiores produtores de ouro são: a China, em primeiro lugar, com 345 toneladas, 14% do total mundial; Austrália, com 9,3%; África do Sul e Estados unidos, com 9% cada um. Brasil aparece em 12º lugar, com 58 toneladas. A Venezuela tenta obter a certificação internacional, que pode posicioná-la como dona da segunda maior reserva do mundo.

Os maiores compradores do ouro brasileiro são: Reino Unido, Emirados Árabes, Suíça, Estados Unidos e Canadá.

Na última década, em função da debilidade do dólar e do crescente abandono da moeda estadunidense como padrão das transações internacionais, muitos Bancos Centrais estão comprando ouro para reforçar suas reservas para prevenir futuras crises. Uma medida inteligente.

Brasil despreza suas riquezas minerais

O Brasil do neoliberalismo vai em sentido contrário. Despreza suas riquezas naturais.

O nosso ouro, em lugar de financiar o desenvolvimento ou fazer reservas para lastrear nossa moeda e, assim, livrá-la da dependência do dólar, simplesmente abandona o minério nas mão de estrangeiros e especuladores.

Não há hoje no Brasil uma só empresa nacional dedicada à extração do ouro. Todas são estrangeiras. Nacional só o garimpo, assim mesmo ilegal.

O governo de ocupação já anunciou o desejo de entregar à exploração das estrangeiras os demais minerais raros e caros como urânio, nióbio titânio, vanádio, lítio, cromo, alumínio, cobre, manganês, molibdênio, gálio, índio, tungstênio, tântalo. Além disso há pelo menos uns 39 minerais raros descobertos no Brasil, dos quais 33 foram descritos por estrangeiros. As terras raras também compõem a lista de minerais raros e caros.

O Brasil contém 98% das reservas mundiais de nióbio, considerado o metal mais valioso do mundo. O ferro-nióbio brasileiro tem 66% de nióbio e 30% de ferro, alto grau que eleva a cobiça das mineradoras estrangeiras.

Onde está o nosso ouro

Roraima, no extremo Noroeste brasileiro, sem possuir uma única mina, exportou 194 quilos de ouro para a Índia por US$ 6,5 milhões, conforme notícia da BBC. A Índia é o quarto maior importador do ouro brasileiro e grande produtor de joias.

O estado é importante porque está na mídia em função do conflito criado com a demarcação das terras Yanomami. Como não há minas e nem mesmo garimpo e só uma empresa mineradora — Art Minas — registrada legalmente em Roraima, que diz que ainda não extraiu uma grama, todo esse ouro é proveniente de garimpo ilegal, invasão e poluição dos rios em área protegida.

O governo de ocupação diz com todas as letras que quer abrir essa e demais áreas protegidas para a mineração. Para lucro de quem, cara pálida?

Só mesmo neste país de malucos seria possível um Estado avalizar a exportação de ouro ilegal. E, convenhamos, essa é a quantidade revelada pelos intermediários. E as quantidades não reveladas? quantos quilos ou toneladas estarão roubando do Brasil diariamente?

Quanto de ouro sai com o ferro de Carajás? Há um comércio paralelo difícil de ser contabilizado.

O garimpo é ilegal, a fundição é ilegal (clandestina) e o sujeito que quer investir em ouro, compra de um corretor ou direto da fundição. A Bolsa de Mercadorias (BM&F) divulga cotação diária oficial e vc pode comprar por metade do preço ou até menos. Se depois for vendido pelo preço oficial, tem um lucro razoável de 100%.

Com a desconfiança crescente com relação ao dólar estadunidense, bancos centrais de todo o mundo viraram grandes compradores de ouro. Segundo a Parmetal, especializada em negociar ouro como ativo financeiro, no primeiro semestre de 2019 foram compradas 375 toneladas, podendo chegar até o fim do ano ao valor recorde de mais de 700 toneladas. Quando consultamos o site, a barra estava cotada em R$ 174,21 pra compra e R$ 178,22 pra venda.

Quem está levando nosso ouro?

Em 2018, a venda de mineral acarretou um superávit recorde de US$ 23,4 bilhões, puxado pela exportação de 389,8 milhões de toneladas de ferro, US$ 20,2, (80%) , seguido do ouro US$ 2 bilhões e nióbio US$ 2,8 bilhões.

Os maiores produtores, segundo o Relatório do Departamento Nacional de Produção Mineral, em 2017, foram:

Kinross Brasil Mineração S.A. MG    22,34
Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração S.A. MG    19,27
Salobo Metais S.A. PA    759
Beadell Brasil Ltda. GO    7,00
Mineração Serra Grande S.A. AP    6,24
Jacobina Mineração e Comércio Ltda. BA    5,54
Pilar de Goiás Desenvolvimento Mineral S.A. GO    4,06
Fazenda Brasileiro Desenvolvimento Mineral Ltda. PA    3,42
Mineração Turmalina Ltda BA    3,02
Vale S.A. MT    2,64(¹)

Participação percentual da empresa no valor total da comercialização da produção mineral da substância a partir de duas usinas produtoras. A produção bruta desse ano foi de 149 toneladas.

O jornal paracatu.Net registrou documentário da jornalista da TV estatal da França, Zinedine Boudaoud, intitulado “Ouro a qualquer preço”, sobre a atividade empresa mineradora do grupo canadense Kinross Gold Corporation em Paracatu, Minas Gerais . Tomamos a liberdade de copiar um trecho:

Esta mina de 110 km² parece um enorme monstro que devora a cada dia um pouco mais a cidade e seus moradores afetados por muitas doenças. Paracatu é uma cidade brasileira de 84 mil habitantes, localizada no estado de Minas Gerais. Ela é apelidada de “Cidade do Ouro”, mas deve, antes, ser chamada de “a cidade de arsênio”. O número de casos de câncer e outras doenças graves estão crescendo de forma anormal. As doenças listadas são graves: câncer de todos os tipos, condições neurológicas graves acompanhadas de paralisia, síndrome de Guillain-Barré, deficiência auditiva, acuidade visual reduzida, entre outros.

Essa é considerada a maior mina de ouro em céu aberto do mundo e, desde 1987, a população local está exporta à intoxicação maciça sem que as autoridades tomem providências.

Todas as mineradoras são estrangeiras 

A AngloGold Ashanti é uma empresa sul-africana que veio para o Brasil ainda no tempo em que o apartheid separava, oficialmente, a população africana e negra dos brancos colonizadores. Hoje, opera em mais de 10 países e produz milhões de onças de ouro, equivalentes a 10% da produção mundial. No Brasil, ela assumiu o lugar da inglesa Saint John del Rey Mining Co, que explorava a mina do Morro Velho, em São João del Rei, Minas Gerais.

Em 2004, houve a fusão entre a Anglo Gold e a Ashanti Goldfields, dando origem à Anglo Gold Ashanti, cuja mina Cuiabá, a mais de mil metros de profundidade, produziu o recorde de 7 milhões de onças. Em 2018, assumiu o controle da Mineração São Bento, em 2012 da Mineração Serra Grande (4 milhões de onças), em Goiás. Este ano (2019) o grupo está investindo US$ 120 milhões no Brasil.

  • A Salobo Metais era da inglesa Anglo American Brasil Ltda, produz cobre e ouro, foi comprada pela transnacional Vale, antiga estatal Vale do Rio Doce, maior mineradora do mundo, vendida escandalosamente, a preço de banana, no governo de Fernando Henrique Cardoso. A Salobo tem reservas de 784 milhões de toneladas de minério, com teor de cobre de 0,96 e 0,6 gramas de ouro por tonelada.

  • A australiana Beadell Resources descobriu o ouro no Amapá foi comprada pela Great Panther, que explora minas de prata no México e no Peru. Um bom negócio que em um ano lhe proporcionou aumento de 165% em sua receita com a produção de 107.448 onças de ouro só nos primeiros meses de 2018.

  • Yamana Gold – Jacobina Mineração e Comércio Ltda é empresa canadense que explora minas de ouro da Argentina, Brasil, Chile e México. Está há 15 anos no Brasil. A produção total da empresa, em 2018, foi de 1.041.350 onças equivalentes, incluindo 940.619 onças de ouro e 8,02 milhões de onças de prata. Em setembro desse mesmo ano, o Ministério Público da Bahia exigiu uma audiência pública pra avaliar o impacto ambiental na mina de Jacobina, que corre risco de desabamento igual ao ocorrido em Brumadinho, Minas Gerais.

Vale registrar que em outubro de 2016, um bando de 15 homens assaltaram a Mineradora Jacobina e levaram três sacos de ouro no valor, segundo a empresa, de US$ 2,6 milhões.

  • Pilar de Goiás Desenvolvimento Mineral S.A, instalada em 2015 em Pilar, Goiás, para extrair metais preciosos, controlada pela Brio Gold, hoje associada a Ledgold, ambas canadenses. Além da mina em Pilar, explora a Fazenda Brasileiro, na Bahia e RDM, em Minas Gerais. A expectativa da Brio Gold é que a produção de ouro chegue a 400 mil onças em 2019. Mas a campeã é a Jaguar Mining, segundo o site da empresa:

Reservas Provadas e Prováveis: 0,97 milhões de toneladas com teor de 3,99 g/t, contendo 125.000 onças de ouro.

Recursos Medidos e Indicados: 3,79 milhões de toneladas com teor de 4,37 g/t, contendo 532.000 onças de ouro.

Recursos Inferidos: 2,38 milhões de toneladas com teor de 5,69 g/t, contendo 433.000 onças de ouro.

  • Fazenda Brasileiro Desenvolvimento Mineral Ltda, em Barrocas, Bahia é uma empresa da Leagold que explora ouro e prata e comprou essa mina da Brio Gold, que antes comprara da Yamana. Essa mina subterrânea processa mais de mil toneladas por ano.

Em 1º de março de 2019, uma explosão na mina feriu cinco trabalhadores, dos quais dois morreram no hospital. O Sindicato dos Trabalhadores nas Minas fez uma greve contra a MAP, empresa terceirizada para realizar a extração do minério.

Vale anotar neste primeiro decênio do século 21 a Bahia se destaca como uma nova grande província mineral, atraindo mineradoras do mundo inteiro. Ouro e tálio, de grande valor, níquel, bauxita e ferro. É o maior produtor de urânio, cromo e outros minerais raros.

  • A Mina de Ouro Turmalina, na região ferrífera a 130 Km de Belo Horizonte onde já foi grande produtora de ouro em séculos passados, e até 1983 foi responsável por 40% da produção nacional de ouro. Agora é propriedade da Jaguar Mining Inc, com sede em Toronto, Canadá. Além desta, a Jaguar explora nas minas de Pilar, Roça Grande, Paciência e Pedra Grande.

  • Fazenda Holdings BV e Brazil Holdings Cooperatie U.A ambas com sede em Amsterdam, Holanda reúnem empresas não financeiras, dedicadas à mineração de ouro.

  • G44 Brasil SA é uma holding empresarial que faz gestão de empresas de Mineração e com criptomoedas. Fundada por Saleem Ahmed Zaheer, um paquistanês que se fez trading em Portugal, atuou na Nova Zelândia, Suíça, Paquistão, antes de chegar ao Brasil. Está na lista restrita do Bitcoin por gestão fraudulenta.  Explora ouro no distrito de Lourenço e Calçoena, no Amapá, com capacidade de processar 640 toneladas dia.

Controla a Mineração G44 Brasil na cidade de Campos Verdes, Goiás, com o maior beneficiamento de esmeraldas do país. Tem como parceiro o Banco Rodobens Brasil.

Colonialismo de novo tipo

Como se vê, o ouro continua servindo para enriquecer os países mais desenvolvidos através de uma relação, senão colonial, neocolonial, de dominação imperialista. Passa o tempo, muda o nome, a rapinagem é a mesma.

O Brasil sequer alcançou a soberania sobre as riquezas naturais, mesmo depois de mais de 500 anos do início da ocupação europeia.

Mostramos o que acontece com o ouro, por ser um metal emblemático. Paradigmático também, porque é o que está ocorrendo com todas as riquezas minerais brasileiras. Um regime de ocupação que não cessa ao longo da história.

Ser colonizado parece ter forte enraizamento cultural. Se assim for, a libertação tem que começar com uma revolução cultural, que liberte os intelectuais da servidão intelectual, e que as escolas assumam o papel de desenvolver o espírito crítico e criativo da cidadania, com conhecimento dos direitos assegurados pela Constituição.

Soberania sobre todo o território e as riquezas nele contida, a começar do povo, a principal riqueza de qualquer nação. Mas para manter o povo saudável, só com soberania e pleno emprego e domínio sobre os centros de decisão.

Mais um argumento para unir nosso povo em torno de uma Frente de Salvação Nacional, que comece com a recuperação da soberania.