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A influência mútua que existe entre arte e matemática

Ilustração: Linoca Souza
Reprodução do Blog Ciência Fundamental, da Folha de S.Paulo:
Por Edgard Pimentel

O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo

A matemática tem inspirado e favorecido a arte. Perspectiva, proporção e simetria, por exemplo, são fundamentais nas artes plásticas. E o cravo foi bem temperado com uma boa pitada matemática. As bandeirinhas de Volpi, os azulejos de Athos Bulcão, o cubismo… Mas, e o contrário? Será que a arte inspira a matemática?

Vem do outro lado do Atlântico uma evidência da conexão entre arte e matemática. Segundo Fernando Pessoa, “o binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo”, só que as pessoas não se dão conta disso. Aqui, a arte empresta seus ideais como uma seta que aponta para beleza do objeto matemático. Mas talvez se possa ir adiante.

Em 1954, o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, International Congress of Mathematicians) ocorreu em Amsterdã. Do programa constava uma exposição de Escher, cuja obra tem caráter fortemente geométrico. Basta ver suas escadas finitas que parecem sempre subir. Ou o revestimento de um plano com uma única figura (e.g. um peixinho alado) por meio de transformações matemáticas, sem deixar nenhum espaço vazio. O peixinho é uma região fundamental para um grupo de simetria –transformações do peixinho que resultam nele próprio.

Naquele congresso, Escher teve a oportunidade de se aproximar de cientistas como os matemáticos Harold Coxeter e o vencedor do Nobel Roger Penrose, também físico. A troca de cartas com o primeiro o inspirou a finalizar as obras “círculos-limite”: uma mesma figura se replica no interior de um círculo, ficando cada vez menor à medida que se aproxima das bordas.

Mas o contrário também teria lugar: as obras do artista teriam motivado, ao menos em parte, Roger Penrose e seu pai, Lionel Penrose. Em um artigo de 1958, publicado no The British Journal of Psychology, pai e filho discutem ilusões de ótica e a percepção de formas impossíveis. Uma das duas referências do trabalho é o catálogo da exposição de Escher, aquela de 1954.Talvez Escher e seus “parças” sejam uma via de mão dupla para a inspiração entre arte e matemática.

Por outro lado, será que a matemática poderia responder a alguma pergunta importante da arte?

Datar uma obra que não tem registro cronológico é tarefa relevante para a história da arte. Ou entender se, e como, o estilo de um/a artista se alterou com o tempo. E a matemática pode ajudar a desvendar essas questões. Como? Tratando uma pintura como um objeto matemático, uma função. E decompondo essa função em unidades menores. O estudo dessas unidades menores é uma chave que destrava informações sobre o/a artista em questão.

Uma ferramenta muito eficiente nesse sentido são as ondaletas: funções muito especiais que, como o nome sugere, parecem ondinhas, pequeninas e bem-comportadas. E extremamente poderosa – a ponto de o formato JPEG depender delas. Quando uma pintura é analisada por meio de ondaletas, o resultado é um conjunto de números que carregam informações sobre a pintura.

Na década passada, os museus Van Gogh e Kröller-Müller puseram à disposição de um estudo multidisciplinar mais de cem fotografias de alta resolução das obras de Van Gogh. Combinando ondaletas com aprendizagem de máquina, um grupo de cientistas obteve informações surpreendentes. Eles encontraram evidências, por exemplo, de que o número de pinceladas de Van Gogh é maior no período em que ele está em Paris e não em Arles. Uma das pesquisadoras-líder daquele grupo era a matemática belga Ingrid Daubechies.

Em 2018, o ICM aconteceu no Rio de Janeiro. Na ocasião, Daubechies discorreu acerca do estudo das obras de Van Gogh e de outros problemas da arte que motivaram pesquisas matemáticas. Dentre eles, a pesquisadora falou dos desafios por trás da remoção de rachaduras em uma pintura, capaz de revelar um texto de Tomás de Aquino em uma peça dos irmãos Van Eyck.

Arte, matemática e ciência devem ter muito mais em comum do que nos salta aos olhos – afinal, são formas de elaboração do espírito humano. Tomara que haja cada vez mais gente que se dê conta disso.

Em batalha pelo patrimônio, México reivindica mais de 30 peças pré-colombianas que vão a leilão na França

Casa Christie’s oferecerá na próxima semana lotes com objetos das culturas asteca, maia e teotihuacana.

O México mantém sua luta para recuperar o patrimônio pré-colombiano exibido em acervos europeus, mas até agora obteve poucos resultados. Após tentar reaver o cocar de Montezuma, sob o poder de um museu austríaco, o país agora reivindica 33 objetos que a firma Christie’s leiloará no próximo dia 9 em Paris. O Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) solicitou ao Ministério Público mexicano que tome medidas legais contra a venda das peças e à Secretaria de Relações Exteriores (SRE) que empreenda ações diplomáticas para recuperar os objetos. “Determinou-se que o catálogo do leilão inclui peças que correspondem a culturas originárias do México, razão pela qual fazem parte do patrimônio da nação”, disse o Instituto em nota.

As peças correspondem a uma série de coleções exibidas no último século em países da Europa. Há esculturas, vasilhas, máscaras, pratos e estatuetas das culturas asteca, maia, tolteca, totonaca, teotihuacana e mixteca, provenientes de diversos Estados mexicanos. A maioria foi esculpida em pedra ou feita de barro. A Christie’s chamou o leilão de Quetzalcóatl, Serpente Emplumada, oferecendo suas peças por valores iniciais que variam de 4.000 a 900.000 euros (26.400 a 5,93 milhões de reais). A Christie’s garantiu a autenticidade dos lotes divulgando os acervos aos quais pertenciam as peças do catálogo.

No leilão, destacam-se dois objetos com o maior lance inicial. Por um lado, está uma máscara de pedra teotihuacana de 15 centímetros, do período clássico (450-650 d.C.), que foi chamada de Quetzalcóatl e cujo lance inicial deve se situar entre 350.000 e 550.000 euros (entre 2,3 e 3,63 milhões de reais). A Christie’s informa que a máscara pertenceu a Pierre Matisse, filho mais novo do pintor francês Henri Matisse, e foi exibida em duas ocasiões: em 2012, no Museu Quai Branly-Jacques Chirac, em Paris, e em 2018, no Palazzo Loredan, em Veneza. Não se sabe como a peça chegou à Europa. “Chamam-na Quetzalcóalt provavelmente porque acreditam que assim se venderá melhor. Esta venda é pouco ética, ilegal e muito sórdida”, escreveu no Twitter o arqueólogo Michael E. Smith, da Universidade Estadual do Arizona (EUA).

Também há uma escultura de pedra de Cihuatéotl, a deusa das mulheres que morrem no parto, achada no sítio arqueológico de Zapotal, em Veracruz (sul do México). A estatueta de 87 centímetros pertenceu à cultura totonaca no período clássico (600-1000 d.C.). A casa de leilões pede como preço inicial da disputa entre 600.000 e 900.000 euros (4 a 5,93 milhões de reais). A peça foi achada com outros 13 exemplares em um altar de adoração. A Christie’s diz que foi exibida ao público em duas ocasiões, em 1976 e 1982, em Bruxelas.

Há alguns anos, o México iniciou uma cruzada para recuperar o patrimônio histórico que se encontra em acervos privados no mundo. A França constantemente reluta em devolver as peças ao Governo mexicano, e a secretária de Cultura do país latino-americano, Alejandra Frausto, argumentou que a legislação francesa é “muito hostil” e impede a recuperação do patrimônio mexicano.

Em setembro de 2019, a diplomacia mexicana procurou deter a luta de 95 objetos pré-hispânicos leiloados pela casa francesa Millon. A SRE, através da Embaixada em Paris, reivindicou as peças, sem sucesso. Um mês mais tarde, a casa Sotheby’s ofereceu 44 peças pré-hispânicas que também foram reclamadas pelo Governo mexicano. A legislação mexicana estabelece que os achados de objetos das culturas antigas em território mexicano pertencem à nação, mas, uma vez que saem do país de forma ilegal, as autoridades perdem seu rastro. Nem todos os casos terminaram sem solução —uma exceção foi o baixo-relevo de Xoc, achado em Paris em 2015, num leilão da firma Binoche et Giquello, e que foi devolvido ao México dois anos mais tarde.

A Capela Sistina como só Michelangelo havia visto, num livro de 115.000 reais

Seus criadores passaram cinco anos fazendo mais de 270.000 fotos digitais, em alta resolução, para oferecer todos os afrescos da sala do Vaticano em escala real e com um nível inédito de detalhes.

Nas palavras do próprio Michelangelo Buonarroti: “Minha alma não encontra escada para o céu, a menos que seja pela beleza da Terra.” Ele se referia ao seu trabalho na abóbada da Capela Sistina, que ocupou quase cinco anos de sua vida (1508 a 1512). “Após quatro anos de torturas e mais de 400 figuras de tamanho real, me senti tão velho e exausto quanto Jeremias. Tinha 37 anos e nem sequer meus amigos já reconheciam o ancião no qual eu havia me transformado”, disse o artista depois de concluir o trabalho.

Num espaço de mais de 1.000 metros quadrados e a 20 metros de altura, Michelangelo criou uma série de afrescos de arquitetura simulada onde incluiu o desenvolvimento das histórias do Gênesis com aquelas mais de 400 figuras em tamanho natural. Uma criação monumental, encomendada pelo papa Júlio II, que extrapolou as características próprias da arte renascentista, mas que ninguém pôde observar com o nível de detalhes criado pelo pintor, a não ser subindo com sua própria escada até o céu.

A editora Callaway Arts and Entertainment, em colaboração com os Museus Vaticanos e a editora italiana Scripta Maneant, subiu por essa escada num projeto fotográfico que exigiu mais tempo de trabalho que a própria obra de Michelangelo, cinco anos, e que oferece um olhar inédito da Capela Sistina em sua plenitude. Após vender todos os exemplares em italiano, a editora lança agora a versão em inglês.

Graças às mais novas tecnologias da fotografia digital, The Sistine Chapel apresenta em três volumes as imagens com alta resolução, tamanho natural e uma precisão de cor de 99,4% da abóbada de Michelangelo e dos afrescos pintados ao lado do altar por Sandro Botticelli, Perugino e Ghirlandaio, entre outros artistas do Renascimento, por ordem do papa Sisto IV. É uma das peças mais extravagantes do universo editorial, que custa 22.000 dólares (cerca de 115.000 reais), incluindo envio e manuseio.

Mais de 270.000 fotos digitais em alta resolução permitem reconstruir os afrescos em escala real e com uma precisão de cor de 99,4%, revelando detalhes que até hoje só Michelangelo pôde ver. CALLAWAY / EL PAÍS

“Acreditamos que se trate de uma compra por impulso, possivelmente a mais cara do mundo editorial”, reconheceu em nota o fundador da Callaway, Nicholas Callaway. Mas justificou: “Podemos dizer, sem exagerar, que este é o livro definitivo sobre a Capela Sistina.” A publicação pode ser reservada no site da Callaway, e parte dos lucros serão destinados aos Museus Vaticanos.

Com design tipográfico de Jerry Kelly, os textos são assinados por Antonio Paolucci, ex-diretor dos Museus Vaticanos e ex-diretor geral de Patrimônio Cultural de Toscana, que relata a história por trás das cenas de A Criação do Mundo, A Criação de Adão e Eva, O Pecado Original, O Sacrifício de Noé e O Dilúvio. Na opinião de seus criadores, no entanto, o que confere a The Sistine Chapel um valor de conservação são as mais de 270.000 imagens feitas para poder reproduzir as obras.

“A captura digital dos afrescos sobreviverá aos próprios livros”, afirma Callaway no comunicado. Em seu formato impresso, “trata-se de uma obra voltada aos historiadores da arte, estudantes, colecionadores e curadores, que poderão estudar as obras apresentadas com um detalhe sem precedentes.”

Eles poderão examinar, por exemplo, o profundo conhecimento da anatomia humana demonstrado pelas figuras de Michelangelo: arquitetônicas, gigantescas, robustas, enérgicas e muito elegantes, que evidenciavam ao mesmo tempo o momento histórico vivido pela Itália na época. “Os leitores”, acrescenta a diretora editorial da Callaway, Manuela Roosevelt, “poderão ver os afrescos como ninguém pôde fazer desde que foram pintados, já que os visitantes da Capela observam as obras a uma distância de mais de 20 metros, e em paredes nas quais quase não se podem apreciar os detalhes.”


Assim, a escala real permite apreciar do jogo de luzes no rosto da Sibila Délfica até o uso do pontilhismo no nariz da Virgem, representada na cena do Juízo Final, passando por cerca de 220 detalhes dos afrescos de Michelangelo e dos mestres italianos do século XV.

“Consideramos que os livros podem ser e são objetos de arte em si mesmos”, diz Callaway. E justamente desse modo é tratada esta edição de três volumes de 60 x 17,78 centímetros, somando 822 páginas encadernadas em capas de seda com impressões em lâminas de prata, ouro e platina. Os Museus Vaticanos restringiram a tiragem a 1.999 cópias (1.000 em italiano, 600 em inglês e as demais em russo e polonês). “Se você a inserir no âmbito das coisas únicas, ou se a colocar no contexto do mercado de arte, 20.000 euros não é uma obra de arte cara”, afirma Callaway.

Detalhes das imagens que podem ser vistas no livro ‘The Sistine Chapel’.

Arte – Fotografias

Beth Moon


Hans Pollner


Gjon Mili


Antonio Palmerini


Marc Ferrez – Bahia,1885


Hari Sulistiawan


Robert Rauschenberg,1949


Alfred Stieglitz


Ferrucio Francesco Leiss


Florence Henri


Erich Hartmann


Vladimir Clajivo Telepnev


Gilbert Garcin
La condition humaine,2010


Hengki Koentjoro


Sergei Smirnov


Silent World – Michael Kenna


Chris Killip


Davi Peixoto


Carol Beckwith – Angela Fisher Lovely
Dinka of South Sudan


Ernest Sebastlen


Florence Henri – Self Portrait,1938


Ilse Bing,1939


Louis Draper


Maarcelo Montecino


Adrian Limani


Pepi Merisio – Italy,1950


Raffaele Montepaone

Fotógrafo passa 6 meses viajando sozinho para fotografar povos indígenas da Sibéria

Os frutos da jornada de um homem usando a fotografia para imortalezar culturas remotas pelo mundo.

Recentemente, concluí uma aventura de 6 meses cruzando a Sibéria, acumulando 15.000 milhas ao volante de um SUV. Sua bela coleção de fotografias – completa com legendas – captura a notável diversidade dos “povos indígenas que vivem na Sibéria”. Caleb, Megan e Jim

A Rússia reconhece 40 diferentes povos indígenas que vivem na Sibéria, que vão desde Evenki, cuja população está espalhada em diferentes locais com milhares de milhares de distância, até o quase extinto Tazy, que Khimushin acredita ter fotografado pela primeira vez.

A maioria das estimativas oficiais da população estão erradas, tendendo a ficar mais altas do que a realidade. Enfrentando temperaturas extremas e populações cada vez menores, o fotógrafo australiano captura o orgulho que essas pessoas têm de suas culturas únicas.

Por que Antígona ainda é a peça de teatro mais representada do mundo 2,5 mil anos após sua estreia

Antígona: ‘Eu vou enterrar o nosso irmão. E me parece bela a possibilidade de morrer por isso’GettyImages

Ismênia, minha querida irmã, companheira de meu destino, de todos os males que Édipo deixou, suspensos, sobre a sua descendência, haverá algum com que Júpiter ainda não tenha afligido nossa vida infeliz?”

Com essas palavras, há quase 2,5 mil anos, o poeta Sófocles começa a contar a história de Antígona aos gregos presentes na Acrópole de Atenas, durante a festa em homenagem a Dionísio, o deus do teatro.

O seu público sabia dos infortúnios a que se referia a protagonista, porque a conheceram em sua obra anterior Édipo Rei — ela era uma das duas filhas do mais infeliz dos reis de Tebas que, sem saber, matou seu pai e se casou com sua mãe, Jocasta.

Quando o diálogo entre Antígona e Ismênia começa, Jocasta já havia se suicidado, e Édipo tinha furado os próprios olhos, se exilado e morrido.

Mas aos infortúnios da família se soma uma guerra em que lutaram os dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinice. Como destaca Ismênia, ela e a irmã perderam “num só dia, dois irmãos, um derramando o sangue do outro, se dando mutuamente o golpe de extermínio”.

O enredo que se desenrola a partir deste ponto é tão emocionante que “a peça de teatro mais representada no mundo não é uma das adaptações de Harry Potter, de Hamlet ou qualquer outra obra de Shakespeare: é Antígona“, diz o escritor irlandês Colm Tóibín.REBECCA HENDIN/BBC IDEAS
Ismênia e Antígona perderam o pai e a mãe, que foram vítimas de um destino funesto. No início desta peça, elas acabaram de perder os dois irmãos

“Porque é uma peça fantástica”, responde o diretor teatral Olivier Py. Sem dúvida, é uma grande obra, mas isso, felizmente, pode ser dito sobre muitas outras.

Mas, apesar da passagem do tempo, essa história de desobediência civil e de uma batalha devastadora continua tocando as pessoas até hoje. Vamos relembrar seu enredo:

Após a morte de Édipo, Etéocles e Polinice herdam o reino de Tebas com a condição de que governem alternadamente. Quando chega a hora de Etéocles ceder o poder ao irmão, ele se recusa, levando Polinice a formar um exército.

Depois que os irmãos se matam, seu tio Creonte assume o poder, e sua primeira decisão é honrar a memória de Etéocles e não sepultar Polinice, para que as aves de rapina e hienas o devorem.

Antígona não aceita isso. Embora a sociedade o julgue negativamente, seu irmão merece descansar com dignidade, e ela fará de tudo para honrá-lo com um simples gesto: jogar terra sobre seu corpo.REBECCA HENDIN/BBC IDEAS

Antígona: ‘Eu vou colocar terra sobre o corpo humilhado do meu pobre irmão’

Py montou Antígona no ano passado com detentos da prisão de Avignon-Le Pontet, na França, e os atores “entenderam profundamente esta ideia de que um homem ainda é um homem, independentemente do que ele tenha feito”.

“O maravilhoso de Antígona é que ela luta pelo direito de expressão e de contar a história sob seu ponto de vista. Por isso, para mim, seu ato de desafiar o Estado ou o poder é importante, porque normalmente só ouvimos a história sob a perspectiva dos fortes, dos vitoriosos ou das autoridades”, diz Py.

Enquanto estava preso, Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul conhecido por sua luta contra o apartheid, também atuou em uma versão de Antígona produzida na Ilha Robben, onde ficou encarcerado.

Para refugiadas sírias no campo de Shatila, no Líbano, que encenaram uma versão da peça criada por Mohammad al Attar, foi um reflexo de suas lutas diárias.

Esta versão da obra, criada pelo dramaturgo Mohammad Al Attar, mesclou as experiências das refugiadas. Sem querer, Al Attar descobriu que várias compartilhavam a mesma angústia de Antígona por não poder enterrar seus entes queridos.

“Essa ideia de honrar nossos mortos é tão fundamental”, diz Tóibín, “que nenhum decreto, nenhuma lei, pode mudá-la”. Ainda assim, suscita dilemas difíceis.REBECCA HENDIN/BBC IDEAS

Honrar um sobrinho, desonrar o outro: o decreto de Creonte desencadeia uma verdadeira tragédia

Obedecer ou desafiar

A partir do primeiro diálogo entre as duas irmãs, Sófocles apresenta o dilema, ou melhor, um dos complicados dilemas com os quais a peça nos confronta.

Antígona havia levado Ismênia para fora do palácio para contar a ela o que Creonte decidiu fazer com o corpo de Polinice e sobre o decreto proibindo todos os cidadãos de sepultá-lo ou sequer chorar por ele.

“Sua decisão é fria, e ameaça quem a desrespeitar com a lapidação, morte a pedradas”, informa Antígona à irmã, enquanto a confronta com a realidade, sob seu ponto de vista.

“Agora sabes tudo. Logo poderás demonstrar se tu mesma és nobre ou se és apenas filha degenerada de uma raça nobre.”

Ismênia, consternada, responde: “Minha pobre irmã, se o caso é esse, que importa o que eu faça ou o que eu não faça?”REBECCA HENDIN/BBC IDEAS

Antígona: ‘Ninguém poderá enterrá-lo, nem sequer lamentá-lo, para que, sem luto ou sepultura, seja banquete fácil dos abutres’

Para Antígona, a única opção é enterrá-lo: “Enterro meu irmão, que é também o teu. Farei a minha e a tua parte se tu te recusares. Poderão me matar, mas não dizer que eu o traí.”

Ismênia, porém, é mais racional e pede a ela que reflita: “Temos que lembrar, primeiro, que nascemos mulheres, não podemos competir com os homens; segundo, que somos todos dominados pelos que detêm a força e temos que obedecer a eles, não apenas nisso, mas em coisas bem mais humilhantes.”

A ideia de “desafiar” é para ela um gesto excessivo e sem sentido: “Peço perdão aos mortos que só a terra oprime: não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida a obedecer, obedeço”.

Lealdade à família x lealdade à sociedade

“Sófocles sempre usa esse tipo de dualidade: dois personagens expondo o dilema”, destaca Lydia Koniordou, atriz, diretora e ex-ministra da Cultura da Grécia.

Cada irmã assume uma posição: Ismênia defende a sobrevivência; Antígona, a morte honrosa. Nenhuma delas é necessariamente boa ou má. Tudo depende do ponto de vista do público.

Essa é uma das razões pelas quais a obra de Sófocles pôde ser apresentada a qualquer momento, em qualquer lugar, até mesmo na França de 1944.

Por meio do uso inteligente da linguagem, o dramaturgo Jean Anouilh conseguiu fazer com que sua versão da obra fosse aceita pelos censores nazistas durante a ocupação alemã no país, embora permanecesse claramente uma reflexão sobre a submissão e resistência ao poder e ao controle.

E tem sido assim ao longo dos anos com esta peça, criada numa época em que o teatro tinha um papel muito especial.

Teatro para a democracia

GETTY IMAGEM
Como teria sido o Teatro de Dionísio, na encosta da Acrópole, em Atenas

Atenas, a cidade-estado, foi uma das primeiras democracias do mundo — e, em sua Acrópole, estava um dos primeiros teatros da história… e não foi por acaso.

“O teatro era parte integrante da democracia”, explica Koniordou. “Era uma das instituições da democracia: o Parlamento era uma, o Judiciário era a segunda, e a terceira era o Teatro.”

“Todos os cidadãos íam a Atenas para participar do diálogo e da discussão sobre assuntos públicos e privados da cidade. Para aqueles que não tinham dinheiro suficiente, a cidade dava ingressos grátis”, completa Koniordou.

E Sófocles era um gênio fomentando essas discussões, não apenas convidando à reflexão ao criar situações complexas, mas também personagens multifacetados.

Um poder antigo

Creonte, o rei, tio de Antígona e pai de seu noivo, que poderia facilmente ser classificado como “o vilão”, é o homem com a responsabilidade de unir a sociedade após uma guerra civil. “Ismênia é uma personagem poderosa e interessante, e não fraca como às vezes é retratada”, diz Koniordou.

Antígona, por sua vez, é uma heroína que nem sempre é simpática — manipula e despreza a irmã, não é totalmente correta e se aproveita ao máximo da sua situação de vítima. “Antígona é tão exagerada quanto Creonte e igualmente rígida em suas decisões”, afirma a Koniordou.

Mas ela questiona o poder em um aspecto fundamental: seus limites. Creonte “não tem nenhum direito de me privar dos meus”, declara Antígona.

REBECCA HENDIN/BBC IDEAS
Uma verdade mais antiga que põe limite ao poder

Tóibín nos convida a lembrar “de qualquer momento em que as mulheres tenham enfrentado governos e o poder, por exemplo, no caso do movimento #MeToo (que denunciou casos de assédio e abuso sexual) ou das Mães da Praça de Maio (que tiveram filhos mortos ou desaparecidos durante a ditadura) na Argentina”.

“Elas disseram: ‘Representamos algo mais antigo e verdadeiro que um decreto ou uma legislação, ou o poder do Parlamento ou a ditadura’.”

“Esta obra permite que a mulher fale e acuse, e permite que ela diga: ‘Eu sei algo que você não sabe sobre o poder, e vou desafiá-lo, porque a forma como você o está usando é uma forma de abuso. Você pode ser o rei, mas está errado”, acrescenta o escritor irlandês.

Creonte se dá conta disso. Diferentemente dos políticos modernos “que nunca admitem que cometeram um erro”, diz Koniordou, Creonte tenta reparar os danos. Mas chega dolorosamente tarde demais.

Tanto ele quanto Antígona pagam o preço mais alto pelas decisões que tomaram e arrastam seus entes queridos para as profundezas do luto, não sem antes de nos levar a questionar tudo… seja no século 5 a.C., neste século ou, provavelmente, nos que virão.

Como diz Tóibín: “Esse mundo de 2,5 mil anos atrás ainda é, em certa medida, o nosso”.

Os incríveis dançarinos da Costa do Marfim

A seguir está a história da minha visita para ver os famosos dançarinos de palafitas da Côte d’Ivoire (Costa do Marfim).

Foi facilmente uma das melhores experiências que tive em todo o meu tempo na África Ocidental até agora.

Sento-me desconfortavelmente com minhas pernas de alguma forma espremidas entre meu peito e o assento à minha frente. Meus pés estão em cima de um grande saco de pimenta que tento ao máximo não esmagar. Uma senhora idosa está sentada ao meu lado à minha esquerda, sem medo de olhar para a visão estranha de ver um homem branco em um ônibus público no noroeste da Côte d’Ivoire; seus olhos raramente se desviam do meu rosto. Pela janela à minha direita, uma cena de aldeias ocasionalmente avistam a paisagem de terra vermelha. Cabanas de lama e telhados de palha pontilham as planícies ocasionalmente derrubadas por montanhas verdes.

O mini-ônibus para depois de algumas horas de viagem e sou conduzida para fora do veículo. Meu guia me disse que temos cerca de 6 quilômetros para caminhar até chegarmos à aldeia onde os famosos dançarinos de palafitas da Costa do Marfim irão se apresentar. Eu me sinto muito longe do normal, uma sensação que sempre pareço gostar.

Conforme nos aproximamos da aldeia, minhas pernas ainda doem da caminhada de 32 km de ontem em um dos picos mais altos da África Ocidental, a presença de crianças é a primeira coisa que noto; e eles me notam. Em cada um dos edifícios por onde passamos, os olhos perscrutadores das crianças olham para nós. Eles jogam um jogo de “se eu não posso te ver, você não pode me ver” enquanto se escondem atrás das paredes de edifícios redondos e cerâmicas gigantes. Eles são curiosos e tímidos; mas sua timidez não dura muito. Logo estou cercado por crianças segurando minha mão e tentando subir nas minhas costas.

Infelizmente, na primeira aldeia que chegamos, houve uma morte na noite anterior. A dança com pernas de pau foi cancelada no rastro e nos disseram para descer mais 5km pela estrada, onde eles estarão esperando por nós.Quando chegamos à segunda aldeia, sou invadida por crianças. Eles aprenderam a magia da câmera e a diversão que é a foto do grupo. Eles aprenderam que cada vez que a câmera clicar, eles verão uma nova imagem na tela posterior. Logo se desenvolve uma cena de dezenas de crianças empurrando e abrindo caminho para ver o LCD da minha câmera rindo histericamente enquanto fazem isso. Eu tiro algumas centenas de fotos, nem mesmo aquelas que eu mesma usaria, só para divertir as crianças. Sua risada não tem preço.

Logo, um grupo de anciãos sai e, com um simples grito de uma ou duas palavras, as crianças se dispersam, deixando-me a sós com minha câmera. O ritmo da batida dos tambores logo começa a preencher o ar e um clima de empolgação se espalha pelo rosto das crianças. Alguns bateristas aparecem e param, deixando um rastro de poeira no ar. Homens idosos começam a caminhar para a área aberta enquanto as crianças correm para colocar uma cadeira de madeira atrás deles. Acendem um cigarro, sinal de riqueza nas aldeias rurais, e cruzam as pernas de paciência.

Jovens mulheres vestidas de branco começam a se afunilar na cena de diferentes direções e começam a envolver os bateristas em uma dança de transe lento. Suas belas vozes carregam uma canção de felicidade no ar como uma pomba matinal na primavera após uma chuva suave. A festa demora para se desenvolver, mas o que falta em velocidade ganha em dramático.

O que começou lentamente agora se transformou em um festival de teatro completo. Homens com borlas feitas de palha e pele de animal enrolada em seus braços e resíduos assumem o meio da pista de dança girando e andando no ritmo. Eles passam por cada um dos mais velhos, dançando especialmente para eles. Eles são seguidos por mulheres pintadas com tinta branca. Eles também parecem sentir o transe. Seus olhos permanecem semicerrados enquanto eles vão de um pé para o outro carregando as notas da música com eles. Eles ocasionalmente erguem os olhos, uma pausa de seu estado de captura, e sorriem.

A dança culmina de uma forma espetacular com os famosos dançarinos de palafitas da Côte d’Ivoire se divertindo ao sol. Esperando seu caminho para a cena, a dança das pernas de pau parece arrogante e ousada. Ele para no meio, levanta os braços para o lado e solta um grito animalesco aos deuses. A dançarina de pernas de pau gira em uma perna antes de se abaixar e soltar outro grito. É realmente como ver algo de outro mundo. Os dançarinos de pernas de pau são ensinados a assumir uma forma não humana em sua dança, e isso é evidente. Não posso deixar de ficar pasmo enquanto vejo a cena. A dançarina de pernas de pau é tão misteriosa, poderosa e intimidadora.

No final do show, o dançarino de pernas de pau agarra minha mão e me puxa para o centro da cena, levando-me como um pai a seu filho. Cercada pelos olhos e risos de uma centena de aldeões marfinenses, eu danço. É uma experiência que você pode acumular em casa. Como o amor, é um sentimento que você não pode explicar para aqueles que nunca o sentiram. É uma sensação que simplesmente não tem significado para ninguém além de você. No final do dia, assistir aos famosos dançarinos de palafitas na Costa do Marfim foi um dos melhores dias não apenas em minhas viagens, mas em toda a minha vida. É uma memória que guardarei comigo para sempre e uma experiência que ninguém pode tirar de mim. Sinto-me abençoado por ter experimentado isso e me sinto ainda mais privilegiado em compartilhar essa experiência com você.