Covid-19; Isolamento reforça importância dos parques para a saúde

O objetivo maior de uma unidade de conservação é a proteção da natureza, mas por debaixo dessa missão há na verdade uma troca, na qual a própria sociedade é protegida e beneficiada pela presença da área preservada.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

A quarentena pode ser um convite para repensar nossas conexões com a natureza e a importância das áreas protegidas.

Dentre os benefícios que a natureza nos presta, também conhecidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos, está a saúde promovida tanto diretamente pelo contato com a natureza, quanto indiretamente, por nos proteger contra doenças, como a febre amarela, a malária e, especula-se, o próprio coronavírus.

A lista de serviços ecossistêmicos prestados por uma área de natureza preservada é maior do que imaginamos. “A natureza nos presta serviços pelos quais a gente não paga nada: nascentes de água, regulação de clima, solo fértil… E há também o efeito de diluição. A biodiversidade tem a capacidade de diluir o processo de transmissão de agentes infecciosos e manter esses agentes numa proporção muito baixa dentro de uma área com grande biodiversidade. Esse é um serviço da natureza que a gente nunca fala”, ressalta a coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre da Fiocruz, Marcia Chame.

“Para quê que serve uma unidade de conservação? Serve para água, pra gente passear, pra ficar perto da natureza, desestressar, para tudo isso, mas também serve para diluir o processo de transmissão dos agentes infecciosos. A gente precisa fazer as pessoas entenderem o quanto as unidades de conservação nos protegem”, aponta Chame.

A pesquisadora lembra que essa rica biodiversidade também é fonte para remédios e princípios ativos de vacinas. “Quando você tem uma unidade de conservação grande, bem conservada, o que a gente tem ali dentro? Uma diversidade de espécies grandes também. É desse conjunto biológico que o homem se aproveita para produzir várias coisas, entre elas remédios. Mais de 75% dos remédios utilizados são baseados em compostos naturais, a maior parte de plantas. E o que não é produzido a partir dessas moléculas da natureza, é inspirado nessas moléculas. Quando você perde biodiversidade, você perde esse potencial todo de produção de remédio e de inspiração”.

Dentre as unidades de conservação, parques são a categoria que mais se aproximam da sociedade e que têm a missão de ser “a janela do sistema”, em referência ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Apesar dessa vocação ao público, ainda há um grande gargalo no Brasil para consolidar essa conexão entre parque e sociedade.

O voluntariado pode ser uma oportunidade para engajar as pessoas na conservação da natureza. Foto: Duda Menegassi.

De acordo com o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, uma das dimensões mais importantes para construir essa cultura de parques entre os brasileiros começa no imaginário. “Os parques são um patrimônio da sociedade. Parte desse processo inclui trazer os parques para o imaginário coletivo, inclui explicar para sociedade a conexão que os parques têm com saúde pública, com bem-estar, e com mais do que normalmente associamos à função de conservação ambiental do parque”, analisa Pieroni.

A publicação “Parques do Brasil: Percepções da População”, produzida e divulgada pelo Semeia em março deste ano, ajuda a mapear as percepções dos brasileiros sobre os parques e a entender como traduzir o papel deles para sociedade, tanto os naturais quanto os urbanos. “Há uma complementaridade. O parque urbano normalmente é o primeiro contato e que depois tende a te levar para um parque natural. Normalmente a experiência de imersão na natureza é diferente nos dois, assim como o tipo de atividade. O parque natural é visto como oportunidade de contato com a natureza, enquanto o parque urbano está mais relacionado com aquele esporte corriqueiro, passear, encontrar amigos”, descreve Pieroni baseado nos levantamentos do estudo.

O diretor acredita que os parques terão um papel importante na hora do fim do isolamento e pós-crise do coronavírus. “Tem muita gente sofrendo com esse confinamento em casa e se os parques já tinham um papel importante antes, na hora que as pessoas voltarem a sair de casa e quiserem se reconectar com espaços públicos e naturais, os parques terão um papel de descompressão emocional fundamental – principalmente os urbanos, que são mais acessíveis”.

O vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cláudio Maretti, acredita que o fim da quarentena será uma oportunidade para quem trabalha com áreas protegidas. “Acho que as pessoas que gostam da natureza e de estar ao ar livre vão sentir a necessidade de retomar esse contato o mais rápido possível, mesmo que seja em parques urbanos e mais antropizados. Principalmente as pessoas que estão confinadas em apartamentos nas grandes cidades”, analisa. “Isso seria uma oportunidade. Existe uma intenção manifesta, reprimida por causa do distanciamento social”.

Abrir a porta dos parques e colocar o tapete de bem-vindos, entretanto, não será suficiente para ganhar novos aliados da conservação. “Eu acho que vai ter essa corrida no início, e eu espero que ela seja ampla e duradoura, mas os outros estímulos, como cinemas e shoppings, vão continuar competindo. E competir com a indústria do entretenimento, com o consumismo, vai ser igualmente difícil. Cabe a nós, profissionais das áreas protegidas, abrir mais oportunidades com a oferta de atividades, mais áreas para visitação e a criação de programas de engajamento, como o voluntariado”, pondera o especialista em conservação.

Enquanto a quarentena não acaba e a fruição dos parques e de outras áreas protegidas fica comprometida, cabe buscar formas alternativas de manter o contato com a natureza – uma conexão que, inclusive, faz muito bem para saúde. Maretti, que em janeiro publicou em ((o)) eco uma coluna sobre a relação de áreas protegidas e saúde, pontua a quantidade de artigos científicos da área médica que indicam como o contato com a natureza contribui com o bem-estar, ajuda no combate ao estresse e até na recuperação de doenças.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

“Tem uma gradação que vai desde você ver uma foto, até você ter uma janela pro verde urbano, até você morar numa parte da cidade que é mais arborizada, ou numa área próxima a parques. É o que eu faço aqui em casa, vou para sacada ver o verde para me sentir melhor. Isso está nas pesquisas científicas. Há teorias que dizem que esse sentimento é uma herança do tempo em que a gente vivia no mato, uma convivência que perdemos com a vida urbana. Da mesma forma que você olha a foto de um ente querido e isso pode te fazer bem, faz bem olhar a natureza, mesmo que por uma imagem ou pela janela”, explica Maretti.

Para a ONU retorno ao uso do carro nem é saudável nem é sustentável.

Uma parte das Nações Unidas focada na Europa argumenta que o “uso em massa de carros não será sustentável” depois que os bloqueios globais diminuírem.

Ciclistas aproveitando seu primeiro volante de fim de semana desde o final do bloqueio, quando a França surge de … [+] GETTY IMAGES

Para cumprir as obrigações internacionais de mudança climática, os governos terão que financiar e promover formas de mobilidade “mais ambientalmente saudáveis, saudáveis ​​e sustentáveis”, “particularmente o uso de bicicletas”.

A Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa – ou UNECE – está defendendo o transporte pós-pandemia com base na “sustentabilidade e resiliência”.

Uma nova força-tarefa será formada para explorar “mudanças estratégicas e de longo prazo” para a mobilidade. Essa força-tarefa – Programa Pan-Europeu de Transporte, Saúde e Meio Ambiente, ou O PEP – “desenvolverá um conjunto de princípios para uma mobilidade sustentável verde e saudável”, afirma uma declaração da UNECE.

A organização argumenta que a “crise atual nos dá a oportunidade de reconsiderar o funcionamento do setor de transportes” e que existe uma “obrigação de reiniciar de uma maneira que conduza a um sistema mais eficiente, mais verde, mais saudável e mais sustentável”.

Como o comissário de ciclismo e caminhada da Grande Manchester disse muitas vezes, as evidências para um transporte mais ativo são esmagadoras, o que é necessário é a vontade política de agir sobre ele.

“Meu Deus, temos um mar de evidências sobre o que é necessário”, “Boardman twittou em 2018,” estamos nos afogando nisso. ”

O tweet foi uma resposta a outro comitê político perguntando como tirar as pessoas dos carros.

Boardman enfatizou: “Nós sabemos exatamente o que fazer: financiamento significativo e sustentado, forte liderança entre partes e um compromisso real com a mudança.”

É provável que a força-tarefa da UNESCE chegue às mesmas conclusões. Portanto, não seria melhor ir direto ao ponto e instar os governos a agir agora?

Clima, coragem e a ambição de que precisamos agora

Enquanto formuladores de políticas e ativistas de todo o mundo se reúnem para a Semana do Clima na cidade de Nova York, Lynn Scarlett explica por que precisamos de compromissos mais ousados ​​- mas por que é nos detalhes diabólicos da ação que o progresso acontece.

Ser um defensor de longa data da ação climática às vezes parece ser Cassandra do mito grego – amaldiçoada por ver o futuro, mas nunca acreditar.

Este é talvez o aspecto mais assustador das mudanças climáticas. Conhecemos os terríveis impactos. Sabemos o que precisamos fazer para evitar uma catástrofe global. Mas ficamos muito aquém de tomar ações na escala necessária.

É de se perguntar o que Cassandra teria pensado se estivesse presente na assinatura do Acordo de Paris em 2015, sabendo que esse compromisso internacional sem precedentes seria seguido por mais quatro anos de aumento nas emissões, temperaturas e níveis do mar.

Ainda assim, não me desespero pelo futuro. Não me sinto como Cassandra – agora as vozes da ação climática estão sendo ouvidas de maneira mais ampla. Poderíamos estar à beira de uma oportunidade sem precedentes de ação climática corajosa.

Mexa-se agora
Convide os líderes mundiais a serem corajosos em relação às mudanças climáticas.

Um novo momento de conscientização
Quando o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou seu relatório de 1,5 graus em outubro passado, a reação do público foi alarmante – e isso é promissor. De repente, a mensagem se espalhou – de maneira ampla e com ressonância – quando as pessoas viram o que os Cassandras haviam visto há muito tempo.

Este ano traz mais dois relatórios do IPCC – um relatório sobre uso da terra e clima foi lançado em agosto, e outro focado no oceano e na criosfera chegará no final deste mês. Esses relatórios também não contêm boas notícias, mesmo que não estejam inspirando o mesmo choque que o relatório de meta de 1,5 grau. Mas vale a pena prestar atenção, porque os problemas específicos que eles colocam podem nos indicar soluções específicas.

É provável que o relatório das terras de agosto enfatize ainda mais o que já sabemos – que o uso extensivo da humanidade pelas terras da terra é um dos principais impulsionadores das mudanças climáticas. De fato, o setor de uso da terra é atualmente responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, bem como pela degradação do solo, desmatamento e perda de biodiversidade.

Mas isso também significa que mudar nossas ações pode beneficiar o futuro do planeta. A maneira como comunidades, proprietários de terras e empresas utilizam, protegem e desenvolvem a terra e a natureza é essencial para esse empreendimento. Pesquisa liderada pela The Nature Conservancy (TNC) mostra que soluções climáticas naturais – estratégias para proteger, restaurar e gerenciar terras para reduzir as emissões e melhorar o armazenamento de carbono – poderiam, em conceito, fornecer mais de um terço das reduções de emissões necessárias até 2030 para manter níveis de aquecimento abaixo de 2 graus Celsius.

As soluções terrestres capturam pouca atenção ou financiamento, pelo menos por enquanto, mas com mais investimento, elas podem ser um complemento poderoso para a transição contínua para a energia limpa. Natureza e tecnologia juntas fornecem a maioria das ferramentas necessárias para limitar as mudanças climáticas. A questão é se temos coragem de usá-los – e usá-los em breve.

As vozes da ação climática estão sendo ouvidas agora de forma mais ampla. Poderíamos estar à beira de uma oportunidade sem precedentes de ação climática corajosa.

Coragem significa ambição – e ambição significa detalhes.
O que quero dizer com coragem? Sim, é corajoso quando os países estabelecem e escalam compromissos de redução de emissões ou quando as empresas trabalham em direção a 100% de fontes de energia limpa ou cadeias de suprimento de desmatamento zero.

Tais compromissos são positivos, passos críticos; Estou animado em ver mais deles. Mas a verdadeira coragem climática não se resume apenas a anúncios grandiosos – ela é encontrada nas profundezas da execução. Requer ambição, mas também detalhes diabólicos – de como, quando, onde e quem – para transformar essas declarações em ações concretas.

Considere: sabemos que precisamos acelerar a transição para a energia limpa – mas também precisamos pensar em como fazemos essa transição e onde colocamos essa nova infraestrutura. A localização mais inteligente é necessária não apenas para proteger as terras naturais da conversão – sequestrando mais carbono naturalmente e protegendo a biodiversidade – mas também para eliminar alguns dos riscos financeiros que impedem a expansão da energia limpa.

Portanto, precisamos de políticas, planejamento e incentivos que direcionem desenvolvedores e investidores para a localização inteligente de infraestrutura de energia – é assim que atraímos investimentos de nível institucional em energia limpa, localizamos bem e garantimos a proteção de terras naturais. Foi exatamente isso que o estado norte-americano de Nevada fez – por meio de um foco de “mineração solar”, o estado está facilitando a localização da energia solar em áreas degradadas de minas. Se olharmos para a escala global, temos terras degradadas suficientes disponíveis para localização para atender às metas de energia limpa do mundo 17 vezes.

Da mesma forma, não basta simplesmente “proteger florestas”. Grande parte das terras florestais intactas do mundo é gerenciada por comunidades indígenas, muitas das quais são líderes em desenvolvimento sustentável de baixo carbono – e, no entanto, muitas delas não têm ou têm direitos tênues a essas terras. Portanto, os países precisam garantir que os povos indígenas garantam seus direitos e posse da terra.

Percorremos um longo caminho em um tempo relativamente curto para entender uma nova realidade climática. O que antes seriam promessas ousadas agora é quase comum. Mas ainda estamos muito aquém do avanço dos mecanismos pelos quais essas promessas são cumpridas – governança, política financeira, estruturas de incentivos e impostos e posse da terra, para citar alguns.

Esses processos raramente atraem a atenção do público, mas são um trabalho duro e corajoso – o tipo necessário para converter a coragem em ação climática tangível.

Nós somos os protagonistas. A única coisa que nos impede de enfrentar as mudanças climáticas é nossa lentidão para agir de maneira proporcional à escala dos desafios.
É necessário um trabalho árduo e corajoso para converter a coragem em ação climática tangível.

“Um drama épico”
Comecei por esse caminho pensando em coragem e figuras míticas como Cassandra depois de ouvir o autor David Wallace-Wells falar recentemente para uma audiência de conservacionistas comprometidos.

A luta atual da humanidade com as mudanças climáticas, disse David, “é um drama épico, do tipo que costumávamos ver apenas na mitologia ou na teologia, mas estamos vivendo em tempo real e como protagonistas – porque o clima futuro do planeta será escrito pelo que fazemos.”

Nós somos os protagonistas. A única coisa que nos impede de enfrentar as mudanças climáticas é nossa lentidão para agir de maneira proporcional à escala dos desafios.
Estranhamente, esse é um pensamento encorajador – porque ainda temos escolhas. E isso me faz pensar em outro termo para protagonista: herói.

Esse momento é revigorante: os alunos estão saindo das escolas; os líderes indígenas estão reivindicando seu lugar de direito nas negociações internacionais; Estados como Nova York e cidades de Nairóbi a Brasília estão estabelecendo planos de mitigação mais detalhados e ambiciosos do que qualquer governo nacional. Agora é hora de mais heróis nacionais e internacionais também.

Aqueles que se adiantam para realizar o trabalho árduo dessa jornada enfrentam incerteza – sobre as conseqüências de suas ações, intencionais e não intencionais; sobre se o resto do mundo seguirá o exemplo deles; sobre quais detalhes diabólicos da ação realmente produzirão grandes resultados; e sobre o tipo de impacto que experimentaremos, mesmo no melhor cenário.

É por isso que requer coragem. Mas a alternativa não é uma opção viável.

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MPF pede que Ibama desconsidere ato do Ministério do Meio Ambiente e mantenha proteção à Mata Atlântica em SP

Despacho assinado pelo ministro Ricardo Salles autoriza reconhecimento de propriedades rurais em áreas protegidas do bioma

Foto de trecho de Mata Atlântica com árvores altas

Imagem ilustrativa (foto: icmbio.gov.br)

O Ministério Público Federal (MPF) quer que o Ibama desconsidere um ato administrativo do Ministério do Meio Ambiente e mantenha interdições, autos de infração e outras sanções aplicadas por ocupação ilegal e degradação da Mata Atlântica no estado de São Paulo.

O MPF criticou os fundamentos jurídicos de um despacho editado pelo ministro Ricardo Salles, em 6 de abril, que autoriza o reconhecimento de propriedades rurais instaladas em áreas de preservação, em detrimento da lei que protege um dos biomas mais ameaçados do país. O pedido é parte de uma atuação nacional conjunta com os Ministérios Públicos estaduais, articulada pela Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF (4ªCCR/MPF).

O entendimento do Ministério do Meio Ambiente baseia-se em um parecer da Advocacia-Geral da União emitido por pressão de setores do agronegócio. Segundo a nova diretriz do governo federal, o Código Florestal (Lei 12.651/2012) garantiria a consolidação de unidades rurais estabelecidas até 22 de julho de 2008 em áreas protegidas, invalidando eventuais punições aos proprietários na Mata Atlântica, ainda que essas ocupações sejam desprovidas de autorização ambiental. Porém, alerta o MPF, essas disposições não revogam a Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006), que, embora anterior, deve prevalecer sobre a legislação aprovada em 2012 devido a seu escopo mais específico.

De acordo com a lei de 2006, a vegetação considerada nativa ou em regeneração no bioma deve ser preservada e não perderá essa classificação em caso de incêndio ou desmatamento. Portanto, mesmo que ocupadas até julho de 2008, essas áreas permanecem sujeitas à fiscalização, com a possibilidade de aplicação de multas e outras sanções. Nem mesmo a compensação ambiental em outro local é autorizada, devendo o proprietário recuperar a mata e interromper atividades econômicas que causem a degradação.

Ao negar a prevalência da Lei da Mata Atlântica, o Ministério do Meio Ambiente põe em risco as poucas áreas remanescentes do bioma, que correspondem a menos de 10% da cobertura original ao longo de 17 estados brasileiros. O MPF destaca que o despacho de Ricardo Salles “pode implicar o cancelamento indevido de milhares de autos de infração ambiental e termos de embargos lavrados a partir da constatação de supressões, cortes e intervenções danosas e não autorizadas à Mata Atlântica, assim como a abstenção indevida da tomada de providência e do regular exercício do poder de polícia em relação a desmatamentos ilegais”.

O pedido para que o Ibama deixe de aplicar o ato administrativo do Ministério do Meio Ambiente foi enviado na forma de uma recomendação à superintendência da autarquia em São Paulo. O órgão tem cinco dias, a partir da data de recebimento, para indicar as providências que serão adotadas e, caso não acate o pedido, ficará sujeito a medidas judiciais.

Leia a íntegra da recomendação do MPF

Assessoria de Comunicação
Procuradoria da República no Estado de São Paulo
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Informações à imprensa:
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(11) 3269-5701

Guerreiros do desperdício zero: conheça pessoas cujo lixo doméstico cabe em um pote de geleia

Desde fazer sua própria pasta de dente até procurar localmente plantas comestíveis, mais e mais pessoas estão aprendendo a reduzir a quantidade de lixo que jogam fora.

Ander Zabala com seu pote que contém todo o lixo que sua família produziu em janeiro. Foto: Linda Nylind / The Guardian

Aqui está como eles fazem isso.

Através do meu trabalho, vi a enorme quantidade de resíduos e reciclagem que produzimos. Observar um incinerador por meia hora me chocou e me fez querer agir. Eu estava de pé na varanda, vestindo um traje completo e óculos de proteção, observando gigantescos garimpeiros esvaziando resíduos de caminhões. A escala é tão chocante e você percebe o quão pequeno somos em comparação com a quantidade de desperdício que criamos. Não quero contribuir para esse desperdício e isso me fez querer agir.

Em 2018, fiz o desafio da Zero Waste Week e continuei. Estabeleci uma meta para 2019 de não ter nenhum lixo coletado. Eu assumi esse compromisso nas mídias sociais, por isso me senti investido. Em vez de usar uma lixeira, colocava meus resíduos em uma jarra todo mês para poder ver o que estava jogando fora. Também reduzi a quantidade que estava reciclando.

Eu olho para o desperdício de uma perspectiva de dados. No final de 2019, abri todos os frascos de resíduos não recicláveis que mantinha. Eles pesavam um total de 5,72 kg no ano. A casa média de Londres produz 10 kg de lixo por semana, em comparação com a média semanal de 0,11 kg da minha casa. Portanto, nosso desperdício foi 99% menor que a média.

Meu marido e eu recebemos uma entrega de veg box de Riverford toda semana. Eu compro muitas outras coisas soltas na minha loja local da esquina e outras peças de um mercado a granel e de um supermercado turco nas proximidades. Trago meus próprios recipientes e sacolas para encher com cereais, farinha, macarrão, arroz, tofu, açúcar, grãos de café, lentilhas, especiarias e muito mais. Também reabasteço meu xampu, detergente para loiça, líquido para lavar roupas e frascos de limpador de banheiro. Também recebo recargas de vinho em uma loja local.

No começo, me senti um pouco estranho pegando meus próprios contêineres, mas isso obriga a explicar o que está fazendo às pessoas ao seu redor. Geralmente, as pessoas são realmente positivas e dizem: “Que ótima idéia”. Eu levo as banheiras de volta para o meu delivery indiano para ser recarregada e agora elas esperam. É claro que, no momento, eu não pediria que enchessem meus recipientes porque todo mundo está tomando precauções de higiene devido ao coronavírus, mas eu ainda uso as banheiras para minhas compras regulares. Minha reciclagem aumentou durante o bloqueio porque não posso reutilizar as coisas tanto quanto normalmente faria.

Um dos maiores benefícios do estilo de vida é usar mais minhas lojas locais. Eu costumava ir ao supermercado e fazer check-out automático, mas ganhei muito conversando com lojistas e caixas locais.

Também cozinhamos muito mais, especialmente fazendo coisas que não podemos comprar sem embalagem. Meu marido aprendeu a fazer chapatis e pão naan, e eles têm um sabor melhor do que os que compramos nas lojas – e ele pode fazê-los em minutos. Fabricamos nosso próprio leite de aveia, que é tão barato e fácil. Ocasionalmente compro um pacote de biscoitos, porque não tenho tempo para fazer tudo.

Às vezes, eu ficava um pouco militante. Eu perguntava a amigos em festas: “Por que você comprou isso quando não pode ser reciclado?” Ou eu encontraria algumas embalagens de plástico em casa e mandava uma mensagem para meu marido dizendo: “O que é isso?” Fui chamado de polícia sem desperdício. Mas agora estou indo um pouco mais fácil para mim e para os outros.

No geral, essas mudanças nos poupam muito dinheiro, principalmente pela redução de nosso consumo. Paramos de comprar coisas que realmente não precisamos, mas gastamos um pouco mais com as coisas que compramos. Também comemos de maneira mais saudável porque compramos menos alimentos processados.

Ainda estou colocando meu lixo em uma jarra para mantê-lo visível. Sei que, se houver uma caixa grande na sala, as pessoas a usarão.

Cate Cody, cantora de jazz e conselheira verde de Tewkesbury

Não colocamos nossa lixeira para coleta por mais de três anos, desde janeiro de 2017. Meu parceiro e eu temos uma pequena lixeira de metal na cozinha e essa é a única lixeira da casa. Quase não há nada, apenas pedaços ocasionais de embalagens plásticas não recicláveis, geralmente de presentes de pessoas bem-intencionadas.

Tentamos obter o mínimo possível, comprando apenas o que precisamos e de segunda mão, sempre que possível, o que tende a evitar embalagens. Reutilizamos, reutilizamos, reciclamos e adubamos.

Recebemos uma caixa de legumes semanal cheia de produtos locais e sazonais. Também busco coisas como urtigas e alho selvagem. Cultivamos nossa própria salada, que é muito fácil e rápida de crescer.

Compramos outros alimentos, como massas, arroz e leguminosas, a granel de um atacadista ético de cooperativas chamado Suma. Recebemos uma entrega a cada dois meses que compartilhamos com outros cinco amigos. Nossa aveia vem em um saco de papel de 10 kg. O papel higiênico vem em embalagens biodegradáveis que entram no composto e também há fio dental biodegradável.

Usamos buchas em vez de esponjas comuns para lavar a louça, porque elas são feitas de um material natural e podem ser compostadas posteriormente. Eles são mais caros, mas achamos que duram mais, por isso os custos não são tão diferentes.

Quando você começa a reduzir seu desperdício, percebe as coisas pendentes que ainda estão na lixeira e depois procura alternativas para elas. Quando você se dedica a isso, pode encontrar uma solução para quase tudo. Um desafio foi o que fazer com um tubo interno de bicicleta antiga. Eu considerei algumas possibilidades e acabei transformando-o em um cinto de ferramentas.

Eu odiava tubos de pasta de dente que iriam para o aterro, então comecei a fazer minha própria pasta de dente misturando bicarbonato de sódio com óleo de coco e hortelã-pimenta. É muito diferente, mas funciona. Dito isto, agora transformamos a prefeitura de Tewkesbury em um ponto de coleta para reciclagem de tubos de pasta de dente, para que outros não precisem acabar na lixeira.

Eu nunca compro papel de embrulho. Para amigos e familiares próximos, usarei um lenço ou uma toalha de mesa e eles geralmente devolvem depois. Recentemente, embrulhei o presente de um amigo usando receitas de um jornal amarrado com barbante e expliquei que as receitas (escolhidas especialmente) faziam parte do presente. Eles adoraram.

Felizmente, uso uma barra de sabão em vez de gel de banho e não olhava para trás. De qualquer maneira, o gel deslizava direto pelo ralo. Um sabão decente dura muito mais tempo.

Em vez de rolo de cozinha, uso pano velho e, em vez de lenços de maquiagem, uso um pequeno lenço ou um pedaço de pano. Todos podem ser lavados.

Não sinto falta das coisas que desisti. Não se trata de perda, é sobre o que você ganha. Sinto satisfação real por não jogar coisas fora e adquiri habilidades aprendendo a fazer as coisas sozinho. É também possuir menos coisas; se eu quiser ler um livro, pedirei na biblioteca. Talvez eu tenha que esperar mais por isso, para que haja menos gratificação instantânea, mas pode parecer uma criança esperando o Natal e é ainda mais gratificante quando chega.

Como cantora de jazz, eu reciclei músicas e, no resto da minha vida, tento reciclar todo o resto.

Claudi Williams, gerente de oficina da Beeswax Wrap Co, Stroud

Claudi Williams em casa perto de Stroud. Foto: Sam Frost / The Guardian

Fiquei frustrado com a quantidade de plástico na minha vida, então em 2016 decidi tentar não comprar nenhum por um ano. Foi uma curva acentuada de aprendizado para mim, meu marido e nossos dois filhos, mas, depois de alguns meses, nosso desperdício caiu para quase nada. Tornou-se nosso novo normal.

Foi difícil no começo porque estávamos acostumados com a conveniência de comprar coisas no último minuto e não podíamos mais fazer isso. Agora temos uma rotina, cozinhando todos os dias e fazendo nossos próprios almoços embalados.

A primeira coisa que nos perguntamos é: “Precisamos disso?” A segunda é: “Como posso obter isso descompactado?” Podemos fazer nós mesmos? Podemos obtê-lo em segunda mão? Podemos emprestar?

A compra de alimentos não embalados tende a fazer você comprar mais alimentos locais e sazonais, o que também reduz o número de quilômetros de comida, criando assim um círculo virtuoso. Compramos alimentos no mercado dos fazendeiros e na loja local.

Creme dental caseiro, sabonete e esfregão reutilizável e compostável – e avelãs do jardim de Cate Cody. Foto: Sam Frost / The Guardian

Quando começamos, fiz uma pequena auditoria em casa para ver quantos produtos de limpeza estávamos usando e o resultado foi impressionante. Somos levados a acreditar que precisamos de um produto diferente para cada coisa que limpamos, mas na verdade você pode limpar quase tudo de maneira eficaz com bicarbonato de sódio, vinagre, limões e sabão simples. Agora só uso sabão e pincel e faço meu próprio spray com vinagre para coisas como azulejos, espelhos e pias. Toda a jornada foi de simplificação cada vez mais. O bicarb é uma ótima coisa para se ter por perto – por exemplo, você pode polvilhar em xícaras manchadas de chá para remover as manchas.

Você pode fazer muitas coisas com ingredientes básicos, e encontrar novas soluções é extremamente empoderador. Por exemplo, quando precisávamos de líquido para limpador de pára-brisas para o carro, encontrei uma receita realmente fácil na internet que custava apenas alguns centavos. Eu faço minha própria pasta de dente e desodorante, o que leva apenas cinco minutos. Para o xampu, compro refis do Faith in Nature ou um bar da Mind the Trash. Eu uso um barbeador de segurança de metal para fazer a barba. Pego papel higiênico de um serviço de assinatura chamado Greencane que envia 48 rolos não embalados em uma caixa de papelão.

Adoro chás de ervas e estava procurando chá a granel, e então percebi que havia plantas no meu jardim que eu poderia escolher e usar. Você precisa mudar seu cérebro do consumo e perceber o que está em seu ambiente. Seco ervas como camomila e hortelã-pimenta para usar nos meses de inverno amarrando cachos em um ramo e pendurando-os de cabeça para baixo em um armário.

Viver assim realmente me mudou. Por fim, simplesmente vivemos com menos coisas. Costumava colocar as coisas no carrinho de supermercado por impulso, mas agora tenho um relacionamento totalmente diferente com o que quero e preciso. Eu me sinto muito mais auto-suficiente e mais inteligente sobre como faço compras. Considero cada compra um voto.

Índia equilibra crescimento econômico e meio ambiente

Um dos países de crescimento mais rápido do planeta se aproxima para equilibrar o crescimento econômico com a natureza.

O lago Narayanapuram fica quase perdido em meio ao crescimento urbano na periferia de Chennai, uma cidade extensa de mais de 8 milhões de pessoas perto da Baía de Bengala. Torres de apartamentos recém-construídas e casas térreas de concreto lotam as margens do lago, enquanto ondas de lambretas, caminhões-pipa e caminhões carregados com vergalhões de aço passam, tudo parte da arremetida cacofônica da Índia para um futuro mais próspero.

Um quarto de século atrás, o lago estava cercado por campos de arroz. As bermas entre elas estavam alinhadas com palmeiras Palmyra distintas, que ainda ajudam as pessoas a discernir o contorno remanescente de um sistema de água interconectado muito maior. Narayanapuram é um de uma série de 32 lagos que caem em cascata no Pantanal Pallikaranai, o último pantanal natural remanescente em Chennai. Atualmente, é difícil apreciar o sistema como um todo ecológico em funcionamento, uma vez que abrange quase 20.000 acres. Apenas 10% do pântano permanece.

Alpana Jain fica na beira do lago, sua roupa de calça e túnica vermelha é um contraponto vívido à poeira e ao concreto. Jain gerencia projetos urbanos para o programa recém-inaugurado pela The Nature Conservancy na Índia. No caminho para cá, ela notou o desaparecimento de outro lago próximo, destruído por novas construções. “Agora se foi”, disse ela. “Ele desapareceu do mapa”.

Na manhã de janeiro, Chennai está sofrendo com uma seca, mas também há sugestões visíveis de um problema diferente. Na margem leste do lago, um templo hindu tecnicolor com sinos chocantes fica teimosamente ensacado contra as águas do passado e do futuro. Essa é a realidade da vida em Chennai, uma serra cruel entre água insuficiente e demais. Para o lago Narayanapuram, essa dualidade dura é agravada por insultos adicionais. O lago e seus pântanos costumavam armazenar água da chuva e recarregar o aqüífero subterrâneo. Agora, eles absorvem grandes fluxos de esgoto não tratado. E, com grandes porções dos lagos cercadas e pavimentadas, a água da chuva não tem para onde ir além das casas das pessoas.

Se você observar bem o suficiente, ainda há sinais da natureza em Narayanapuram. Ainda hoje, as aves migratórias usam o lago: íbis brilhantes, jacanas de cauda de faisão, cegonhas pintadas e flamingos que voam até aqui a quase 5.000 quilômetros do Irã. “Apesar de todo o trauma na região”, diz Jain, “ainda existem 122 espécies que usam os lagos e os pântanos”.

Narayanapuram representa a história de mais de 85% das áreas úmidas de Chennai, que foram degradadas ou perdidas devido à urbanização rápida e não planejada. Jain está ajudando a lançar um programa que restaurará o sistema de lagos de Chennai e o pântano restante, o que poderia oferecer esperança não apenas para aves migratórias e outros animais selvagens, mas também para o povo de Chennai. Agora, a TNC e seus parceiros – Care Earth Trust e Instituto Indiano de Tecnologia de Madras – estão trabalhando juntos em um projeto piloto para mostrar que um sistema de áreas úmidas restauradas pode ajudar a capturar inundações durante fortes chuvas e reabastecer aquíferos subterrâneos como proteção contra a seca. O trabalho aqui em Chennai faz parte do programa mais amplo da TNC na Índia, lançado oficialmente em junho de 2017.

A população do país rivaliza com a China, e o Fundo Monetário Internacional estima que as economias dos dois países estão crescendo aproximadamente na mesma taxa alucinante. Proteger a natureza e manter os sistemas naturais sustentáveis ​​diante de um crescimento tão esmagador será um enorme desafio – mas também pode ser crítico para sustentar o momento que está ajudando a tirar milhões de pessoas da pobreza todos os anos.

Para demonstrar como a Índia pode continuar a crescer sem sacrificar seus maiores ativos naturais, a TNC está lançando uma série de novos projetos agressivos para enfrentar problemas no ar, na água, nas terras e nas cidades. “A Índia é um país que enfrenta os desafios das pessoas e da natureza”, diz Seema Paul, diretor da TNC para a Índia. “Tem alto crescimento econômico. Tem 1,3 bilhão de pessoas. Quer ser sustentável. Como a TNC pode não estar na Índia? ”

Os viajantes de Nova Délhi são cobertos por uma fumaça amarga. A fumaça é causada pela queima de campos agrícolas para a mudança sazonal das colheitas de arroz para o trigo. © Associated Press.

A Índia está crescendo em uma velocidade e escala que geralmente são difíceis de serem contadas. O país possui cerca de 16% da população mundial, 8% de sua biodiversidade e cerca de 2% de suas terras. Possui a sétima maior economia do mundo, e um grande número de cidadãos se eleva a um nível de vida mais alto a cada ano.

Mas toda essa mudança rápida vem com problemas. Estima-se que cerca de 600 milhões de pessoas migrarão para as cidades da Índia até 2050, mas muitas cidades estão se desenvolvendo sem planejamento adequado. A agricultura está tornando o ar respirável por causa da prática generalizada de queimar os resíduos das colheitas, e o bombeamento das águas subterrâneas está esgotando os aqüíferos e tributando a tensão da infraestrutura elétrica da Índia. Prevê-se que a demanda de energia em todo o país quase dobre até 2050.

Para organizações ambientais, há trabalho a ser feito em toda a Índia. Diante de uma necessidade tão esmagadora, a TNC está tentando identificar e responder aos desafios mais prementes.

O Conservancy começou a avaliar o potencial para trabalhar na Índia há menos de cinco anos, determinando como ele poderia se basear no trabalho de organizações não-governamentais existentes. Enquanto a Índia tem uma abundância desses grupos, muitos são relativamente pequenos e trabalham bem perto do chão.

“Quando desenvolvemos nossa estratégia para a Índia, analisamos o que é a TNC e o que a Índia precisa”, diz Paul. Em um país com inúmeras organizações ideologicamente orientadas – e um estabelecimento que costuma ser cético em relação a seus motivos – a TNC se destaca por sua capacidade de conduzir sua própria ciência imparcial para preencher importantes lacunas de conhecimento. “O papel que podemos desempenhar aqui”, diz ela, “é um dos líderes da ciência aplicada”.

Trabalhando com parceiros, a TNC está desenvolvendo projetos de demonstração que abordam a segurança da água, a qualidade do ar e o desenvolvimento de energia renovável em todo o país. Ao mostrar a viabilidade de cada conceito, a equipe espera contar com a ajuda de parceiros e do governo para levar os esforços a uma escala muito maior.

“A cultura aqui [na TNC Índia] é mais como uma start-up”, diz Sushil Saigal, que supervisiona o programa de terras da TNC na Índia.

De todos os problemas ambientais que afetam a Índia, a poluição do ar recebeu a atenção internacional mais recente. A Organização Mundial da Saúde calcula que 1,4 milhão de indianos morrem prematuramente todos os anos por causa da poluição do ar, mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Mas o impressionante preço do progresso econômico não é mais evidente do que em Nova Délhi. Lá, mais de 19 milhões de pessoas sofrem com um “airpocalypse”, agora anual no inverno, que fecha rotineiramente as escolas, envia crianças para unidades de terapia intensiva e sufoca a cidade com um fedor generalizado.

A névoa tóxica consiste em diesel e exaustão industrial, além de madeira e lixo queimados para aquecimento no inverno. Mas um quarto do problema decorre de agricultores nos estados vizinhos de Haryana, Punjab e Uttar Pradesh queimando restolho de arroz em preparação para a colheita de trigo no inverno. O governo respondeu com a proibição de queimar resíduos de colheitas, mas os agricultores o ignoraram porque têm apenas algumas semanas para mudar seus campos de arroz para trigo.

Para enfrentar esse desafio, a TNC – em parceria com o Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, o Instituto Borlaug para o Sul da Ásia e o Conselho de Energia, Meio Ambiente e Água – está elaborando um plano centrado em um implemento agrícola produzido localmente chamado Happy Semeador. O aparelho, que pode ser engatado na parte traseira de um trator, corta e espalha a restolho de arroz pelo campo enquanto simultaneamente planta sementes de trigo. A cobertura morta que produz preserva a umidade valiosa do solo e também serve como fertilizante gratuito, eliminando completamente a necessidade dos agricultores de queimar seus campos.

Atualmente, cerca de 2.000 semeadores felizes estão em operação em Punjab e Haryana, mas a TNC e seus parceiros esperam ajudar os agricultores a colocar um total de 50.000 em uso nos próximos cinco anos – um esforço que custaria algo em torno de US $ 120 milhões. No início deste ano, o governo da Índia anunciou que subsidiaria até metade do custo de um semeador feliz para agricultores individuais e 80% do custo para cooperativas de agricultores.

As organizações parceiras estão agora trabalhando para lançar um programa de conscientização em larga escala entre os agricultores. Se a parceria puder colocar essas semeadoras nos campos do noroeste da Índia, isso significaria solo mais saudável, melhores colheitas e 8,4 milhões de acres que não precisam mais ser queimados.

Um leopardo espreita à beira do Parque Nacional Sanjay Gandhi, em Mumbai. O desenvolvimento levou a habitação até as fronteiras do parque. © Steve Winter / National Geographic

Em uma cordilheira rochosa e pontilhada de árvores no centro da Índia, Dhaval Negandhi, economista ecológico da TNC, observa dezenas de turbinas eólicas girando lentamente pela brisa enquanto uma música de Bollywood surge de uma vila próxima. O parque eólico aqui oferece um vislumbre do futuro energético da Índia.

Segundo dados do governo, cerca de 300 milhões de indianos ainda não têm acesso à eletricidade. O governo está correndo para fechar essa lacuna, criando demanda por mais fontes de energia. Ao mesmo tempo, a Índia se comprometeu a alcançar duas metas climáticas ambiciosas até 2030: possuir 40% de sua capacidade de geração elétrica com base em recursos renováveis ​​e criar sumidouros de carbono para sequestrar outros 2,5 a 3 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Em 2022, o estado de Madhya Pradesh, onde está localizado esse parque eólico, e o vizinho Maharashtra planejam quase o triplo de sua capacidade combinada de energia renovável, para 34 gigawatts. Isso incluirá pelo menos sete projetos de “mega” energia solar, com média de cerca de 640 megawatts cada.

Isso será bom para o clima. Mas projetos de energia renovável, quando mal planejados, podem destruir grandes áreas de habitat. Cada megawatt de energia solar, por exemplo, normalmente requer aproximadamente 10 a 12 acres de terra. Adicione todos os projetos potenciais de energia renovável da Índia e eles podem ter um enorme impacto nos habitats naturais.

Este parque eólico, a cerca de 130 quilômetros da cidade de Bhopal, sugere o problema: ele foi construído em antigas florestas tecnicamente sob proteção de Madhya Pradesh.

Para proteger as fazendas, diz Negandhi, as políticas do governo dificultam o acesso das incorporadoras às terras agrícolas. Enquanto isso, a área florestal é relativamente fácil de construir. Isso é um problema. Aqui, as clareiras destruídas pelas torres eólicas, além de dezenas de quilômetros de novas estradas de acesso, totalizando aproximadamente 500 acres, minaram os esforços de seqüestro de carbono da Índia e fragmentaram a floresta.

A Índia central também é uma paisagem importante para o tigre de Bengala, um animal carregado de significado icônico. Desde a década de 1970, a Índia reduziu a população de tigres de menos de 1.000 para cerca de 2.300 hoje – mais da metade do total do mundo. E os tigres representam ecologicamente algo muito mais que eles mesmos. “O tigre é uma espécie de guarda-chuva”, diz Negandhi. “Por ter uma área residencial muito grande, quando você protege o tigre, acaba protegendo um grande número de espécies que compartilham esse habitat”. Apesar da alta densidade populacional da Índia, ela ainda suporta alta biodiversidade e populações relativamente saudáveis ​​de grandes mamíferos em locais próximos aos seres humanos.

Negandhi está focada em encontrar um caminho equilibrado para o desenvolvimento futuro de energias renováveis. O Conservancy quer ver novas instalações priorizadas em propriedades que já foram perturbadas – por exemplo, instalar turbinas eólicas perto de campos agrícolas ou painéis solares nos telhados – em vez de limpar áreas selvagens. “Há tanta terra disponível que você pode facilmente atingir 10 vezes o seu objetivo [sem degradar a terra]”, diz ele. “É apenas uma questão de planejamento”. A chave, ele acrescenta, é ir além do trabalho de projeto por projeto e ajudar os tomadores de decisão a identificar onde o desenvolvimento de novas energias causará menos perturbações à natureza.

A The Conservancy está adaptando seus programas de localização de energia existentes para a Índia. Está colaborando com o Centro de Estudo de Ciência, Tecnologia e Política de Bangalore, que está modificando uma ferramenta de planejamento de energia chamada Darpan (“espelho” em hindi). O programa visa facilitar situações em que todos ganham, onde desenvolvedores e tomadores de decisão podem alcançar suas metas de energia renovável sem criar novos projetos em áreas ecologicamente e socialmente sensíveis – e até reduzir atrasos no processo de licenciamento.

“Precisamos iniciar essa conversa rapidamente”, diz Gaurav Kapoor, principal pesquisador do centro. “Como na taxa em que o desenvolvimento de energia renovável está acontecendo, pode ser tarde demais em alguns anos para pensar em conservação”.

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Hackathons: Uma maneira inclusiva de enfrentar a crise climática?

Pode uma mistura eclética de centenas de estudantes reunidos para trabalhar contra o relógio encontrar soluções tecnológicas para os problemas ambientais do mundo?

Era por volta das três da manhã em uma noite de fim de semana em meados de janeiro. Centenas de estudantes com olhos turvos na Universidade da Califórnia em Santa Cruz se amontoaram em pequenos grupos, sussurrando com urgência. Eles ligaram seus laptops, examinando diagramas, equações e fluxogramas de aparência complexa.

Os corredores ao redor deles estavam cheios de mais estudantes em sacos de dormir, revezando para tirar uma soneca antes de reabastecer o café e voltar à ação. Eles estavam trabalhando desde as 17h. na noite anterior e tinham apenas 12 horas para concluir seus projetos a tempo de apresentá-los a um painel de especialistas.

Mas eles não estavam trabalhando contra o relógio para passar em algum exame; eles estavam lá por opção, para participar do CruzHacks – um hackathon de 34 horas.

Sanjana Paul, 22 anos, chefe da Earth Hack Foundation, que patrocinou o CruzHacks, descreve esses hackathons como um “modelo inexplorado de ativismo climático”.

Eles atraem centenas de jovens dispostos a trabalhar com prazos apertados para encontrar soluções técnicas para problemas ambientais, e Paul espera que eles forneçam soluções para alguns dos problemas climáticos globais mais prementes.

Quebrando barreiras

Mais de 500 pessoas compareceram ao evento em Santa Cruz, enfrentando problemas apresentados no início em categorias como sustentabilidade e tecnologia de conservação da terra, saúde mental e justiça social.Os alunos comiam e às vezes dormiam no evento para maximizar seu tempo trabalhando em soluções.

Foi o quinto hackathon apoiado pela Earth Hack Foundation, desde que Paul começou em 2018. Os hackathons são organizados por estudantes universitários, com a fundação fornecendo suporte e ocasional assistência financeira.

Algumas soluções criadas ao longo do caminho foram desenvolvidas ainda mais. Um grupo do CruzHacks foi aceito no programa de pré-acelerador da universidade para criar um protótipo de seus “adesivos de esporos” – adesivos infundidos com esporos de cogumelos para ajudar o papelão a se decompor mais rapidamente, enquanto desintoxicava simultaneamente o solo.

Outros projetos de hackathons anteriores incluem sensores para smartphones que reduzem o lixo eletrônico, termostatos inteligentes para incentivar a economia de energia e filtros de musgo para purificar o ar dentro dos edifícios.

A inclusão é um valor central para os eventos. “Eu queria quebrar as barreiras de entrada para pessoas que geralmente são excluídas dos espaços de inovação ambiental, por exemplo, comunidades de baixa renda e minorias étnicas”, disse Paul, um ex-estudante de engenharia que agora trabalha como engenheiro de software de ciências atmosféricas.

A equipe de Paul criou estratégias de divulgação para atrair esse tipo de aluno e “mostrar a eles que há um lugar para eles no Earth Hacks”. Os hacks são livres para participar e a comida é fornecida, portanto, não há barreiras de custo para participar. Uma regra de um laptop por equipe também é incentivada para que os alunos que não têm o seu próprio não sejam intimidados e Paul deseja que os eventos promovam a colaboração aberta.

“Vindo de uma formação técnica, é realmente uma pena ver quantas pessoas no espaço tecnológico desconsideram os conjuntos de habilidades e opiniões das pessoas apenas porque não são assistentes de ciência de dados”, disse Paul.

Embora as questões ambientais sempre a interessassem, ela disse que ficou particularmente envolvida aos 16 anos, quando começou a ver “apelos desesperados de cientistas”.

“A situação ambiental global ficou ainda mais terrível desde então e agora é praticamente tudo o que penso”, disse Paul. “Nada mais importa se não tivermos um planeta habitável para ele importar”.

Paul deseja apoiar mais hackathons, mas devido à pandemia em curso do COVID-19, todos os eventos programados até o verão foram adiados para uma data posterior ou estão se tornando totalmente virtuais.
Um valor fundamental para o CruzHacks é garantir que os eventos sejam acessíveis e inclusivos.

Os alunos combatem o cansaço enquanto trabalham a noite toda em respostas a alguns dos nossos problemas climáticos mais prementes

Tecnologia para o bem

E certamente há um apetite por esses eventos. Shivika Sivakumar, 19 anos, participou do CruzHacks.

“Como a ciência da computação e a política se duplicam, a interseção das áreas que eu quero estudar é essencialmente a idéia de tecnologia para o bem social”, disse ela. “Acho que os hackathons são o lugar perfeito para perseguir essa idéia, e na verdade se torna divertido quando você faz isso com os amigos.”

Embora seja novo no desenvolvimento de back-end, Sivakumar passou várias horas online tentando aprender as habilidades para desenvolver um algoritmo. Sua equipe desenvolveu o “News Not Hues”, um projeto que tenta resolver o problema de notícias falsas ou tendenciosas. Eles criaram uma extensão do navegador que poderia ser ativada em qualquer artigo de notícias para julgar seu viés.

Um dos projetos para ganhar uma parte do fundo de prêmios de US $ 10.000 (€ 9.200) no CruzHacks foi o “H20ceans”, que projetou um modelo de aprendizado de máquina para rastrear e fazer previsões sobre as populações de espécies-chave.

A equipe foi composta pelos participantes pela primeira vez, Fahed Abudayyeh, Navika Gupta e Kayla Bowler – todos com 20 anos de idade, da Califórnia.

“Como estudantes de graduação em ciência da computação, dificilmente temos a oportunidade de explorar diferentes campos de pesquisa”, disse Abudayyeh. “Entrando no CruzHacks, estávamos empolgados com a oportunidade de desenvolver uma causa que foi significativa para nós”.

Outro projeto vencedor foi o aplicativo “PollenPlanter”. Os usuários escolhem seus polinizadores – que incluem beija-flores, abelhas carpinteiras e borboletas – e o aplicativo cria um perfil personalizado explicando quais plantas as atraem.

“Isso oferece uma maneira de contribuir positivamente para os ecossistemas cada vez menores de animais e insetos”, disse Maya Apotheker, membro da equipe.Alguns argumentam que hackathons têm potencial para acelerar idéias inovadoras sobre sustentabilidade e resposta climática.

Em algumas universidades, existem oportunidades e infraestrutura para os projetos continuarem. Nesses casos, o Earth Hack tenta trabalhar em estreita colaboração com os organizadores dos estudantes para garantir que os participantes possam se beneficiar.

O empresário de tecnologia Mick Liubinskas vê essa colaboração como uma oportunidade de ouro. “Há muitas pesquisas surpreendentes que não têm chance de comercialização, porque permanecem em universidades e laboratórios. Precisamos reunir e financiar empreendedores e pesquisadores”.

Paul diz que ela está motivada, fornecendo um alerta para os estudantes no espaço técnico e diminuindo as barreiras à entrada de estudantes não-STEM.

“Um dos meus exemplos favoritos é quando um estudante de engenharia biomédica se aproximou de mim após um evento e disse que estava um pouco bravo comigo por fazê-los pensar indiretamente sobre energia solar a noite toda”, disse Paul. “Eles ficaram loucos por causa da privação de sono que se seguiu e entraram em pânico com a dependência de combustíveis fósseis. Ver esse tipo de mudança de comportamento é realmente incrível e importante”.

Como desenvolver a economia na Amazônia sem desmatar

Autor de livro sobre práticas sustentáveis na Amazônia explica por que associar desenvolvimento econômico ao desmatamento é uma falácia e indica novos caminhos para gerar riqueza sem destruir.

Quem defende o desmatamento de áreas na Amazônia costuma dizer que ele é necessário para levar progresso à região e desenvolvê-la economicamente. Essa foi uma das teses do regime militar para o bioma e segue presente em setores do governo federal e em parte dos empresários do agronegócio. Sob esse lógica, manter a floresta reduz a possibilidade de um país carente como o Brasil gerar riqueza.

O conflito entre preservar a floresta e desenvolver a região, porém, é uma ideia errada e fora de lugar, afirma Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP). Ele lançou em outubro o livro Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, em que analisa e propõe formas de conservar a mata e gerar crescimento econômico ao mesmo tempo.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

Como desenvolver a região da Amazônia sem desmatar?

Ricardo Abramovay: Primeiro, é necessário corrigir os rumos do que já se faz. Os produtores de soja devem reiterar o compromisso da Moratória da Soja e respeitar a regra de que não se compra soja de terras recentemente desmatadas. A pecuária precisa se tornar racional e sustentável.

Hoje, a pecuária na Amazônia é em grande parte de baixíssima produtividade. E interromper as atividades ilegais ligadas ao garimpo e à exploração clandestina de madeira. Essas são as premissas, não adianta sonhar com outra coisa se não conseguimos nem um mínimo de organização empresarial civilizada em torno daquilo que já existe.

E como ir além disso para gerar mais riqueza na região?

A verdadeira alternativa é a economia da floresta em pé, em substituição à economia da destruição da natureza que predomina hoje. Essa economia do conhecimento da natureza é composta de elementos que já existem de maneira precária ou que ainda não existem, mas são potenciais.

Os que existem de maneira precária e precisam ser desenvolvidos referem-se às cadeias de valor baseadas em produtos da floresta em pé. O açaí é o exemplo mais emblemático, o rendimento de um hectare de açaí é muito superior ao de um hectare de soja [R$ 26,8 mil para o açaí e R$ 2,8 mil para a soja por ano em 2015].

Há outras cadeias de valor relativamente existentes, como castanha do pará, borracha e piscicultura, mas exploradas em condições muito precárias. A piscicultura de peixes de água doce em cativeiro na Amazônia tem a vantagem sobre as formas mais conhecidas de piscicultura em cativeiro, como o salmão. O peixes da Amazônia criados em água doce não são carnívoros, logo o impacto ambiental é mais baixo.

Além disso, o turismo ecológico no mundo cresce 15% ao ano, e na Amazônia ele tem um potencial de crescimento imenso. E você tem também todo um potencial de moléculas da biodiversidade para a produção de fármacos. O Brasil vive o paradoxo de ser o país com a maior diversidade do mundo e ter uma indústria farmacêutica concentrada na produção de genéricos, pouco voltada a inovações para as principais moléstias do século 21. É outro potencial para a valorização da floresta em pé que não estamos aproveitando.

Qual a relação entre desmatamento e crescimento econômico?

Quando o Brasil se destacou pelo combate vigoroso ao desmatamento, reduzido em 80% na Amazônia entre 2004 e 2012, ao mesmo tempo a produção agropecuária da região aumentou devido à tecnologia avançada aplicada nas áreas de produção de soja, sobretudo em Mato Grosso.

Se o desmatamento avança, quais são seus protagonistas? Às vezes dizem que quem desmata são os pobres que não têm alternativa de vida, mas não é assim. Desmatar é caro, exige investimento, máquinas, contratar trabalhadores. O desmatamento hoje é feito por grupos organizados, que, diante da mensagem de que a suposta indústria de multas não vai parar as suas atividades, se organizam na expectativa de terem legalizados direitos que não lhes foram reconhecidos sobre terras públicas. Essa é uma explicação importante para a explosão do desmatamento em 2019.

É claro que no desmatamento a economia cresce de alguma forma, você vende madeira, têm exploração de garimpo, mas é um crescimento baseado em ilegalidade e muito menor do que quando você tem condições legais para exercer as atividades econômicas. Um ambiente institucional que coíba o desmatamento ilegal é um ambiente em que investidores responsáveis poderão agir.

Que políticas públicas o Estado brasileiro deve desenvolver para incentivar a economia da floresta em pé?

A primeira é uma sinalização clara de que haverá fiscalização e que não será tolerada a permanência de atividades ilegais. É importante mudar a narrativa do governo federal, porque ela forma uma cultura empresarial. E a narrativa do governo hoje é que, se a Amazônia não for desmatada, os 25 milhões de pessoas que moram lá vão morrer de fome. Uma narrativa perniciosa que estimula os atores locais a adotarem as piores práticas.

Amazônia brasileira: uma história de destruiçãoDesmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Também é preciso valorizar o trabalho feito por organizações não governamentais, que junto com as populações tradicionais na floresta são os atores dessa economia do conhecimento da natureza. E apoiar a junção entre comunidade científica, organizações não governamentais e empresários voltados à exploração sustentável da floresta. Hoje existem algumas iniciativas fazendo isso, como o Centro de Empreendedorismo da Amazônia, mas sem qualquer tipo de apoio ou sequer entusiasmo governamental.

E também apoiar o multilateralismo democrático, destruído por razões ideológicas pelo atual governo. O Fundo Amazônia era uma das expressões mais emblemáticas da cooperação entre três países democráticos, Noruega, Alemanha e Brasil, para enfrentar o desmatamento.

Qual é o formato para estimular a inovação na exploração sustentável da floresta?

Uma proposta, do Carlos Nobre e do Ismael Nobre, são os laboratórios de inovação da Amazônia, para descentralizar o processo de inovação e multiplicar as possibilidades de junção entre conhecimentos tradicionais e científicos vindo da academia e das organizações que fazem pesquisa. As universidades têm papel importante, mas sozinhas não são capazes de fazer isso. Existe uma comunidade de pessoas com doutorado em municípios da Amazônia que podem ser a base para isso.

Agora, o formato exato ainda ninguém sabe, é por meio da experimentação, que precisa de apoio governamental. Nos Estados Unidos, quando se tem desafios dessa natureza, a Darpa (agência de pesquisa do departamento de Defesa) lança editais com desafios para estimular processos de experimentação. É importante estimular que grupos procurem dar respostas ao desafio.

Há um embate entre setores do agronegócio e ambientalistas sobre o grau de desmatamento a ser admitido na Amazônia: o desmatamento zero versus o desmatamento de até 20% nas áreas privadas, permitido pelo Código Florestal. Qual é a saída?

A pressão institucional para o desmatamento zero, não o desmatamento ilegal zero, é imensa. Ela se baseia na ideia de que os produtores [e consumidores] de soja querem dissociar o produto de qualquer perigo de desmatamento na Amazônia. E existem condições técnicas de a produção de soja se expandir no Brasil e no mundo sem desmatar a Amazônia e o Cerrado.Amazônia,Desmatamento,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Ecocologia,Agronegócio 01

Autorizar algo na Amazônia que não seja a economia da floresta em pé pode satisfazer as necessidades de um produtor individual, mas não os interesses do país e da preservação do ecossistema. Não há razão para não aderir ao desmatamento zero integral. Mas o dado importante é que o desmatamento que ocorreu em 2019 não foi o desmatamento desses 20% [autorizados por lei]: 90% do desmatamento de 2019 foram ilegais.

Como você avalia a postura do agronegócio brasileiro em relação à Amazônia?

Há um conjunto de empresários interessados em interromper a devastação na Amazônia, favoráveis ao desmatamento dos 20% [permitidos], mas apoiam a Moratória da Soja, não apoiam a invasão de terras públicas. Por outro lado, há um conjunto de atores econômicos oportunistas incentivando políticas predatórias. A oposição hoje não é bem agronegócio versus ambientalistas, porque uma parte do agronegócio está junto com os ambientalistas, mas dentro do próprio agronegócio.

‘Híbridos horríveis’: os produtos plásticos que dão pesadelos aos recicladores

De cartões de aniversário a bolsas de comida para bebê, uma tendência crescente de misturar materiais está tornando a reciclagem ainda mais difícil.

Estudos têm demonstrado que a proliferação de plásticos descartáveis ​​está acelerando as mudanças climáticas. Ilustração: Cat Finnie / The Guardian

A voz alegre e cantante dentro do seu cartão musical de “feliz aniversário” é suficiente para causar horror no coração do reciclador local.

Os cartões musicais, que tocam uma gravação quando abertos, parecem papelão comum, facilitando o lançamento acidental da lixeira. Mas especialistas dizem que o interior está repleto de eletrônicos baratos e baterias tóxicas – tornando-os um pesadelo para se desfazer.

Esses cartões são apenas um exemplo do que os recicladores dizem ser uma tendência crescente na mistura de diferentes materiais para criar novos tipos de produtos e embalagens, o que dificulta muito o trabalho de recuperação de produtos reutilizáveis.

“Eu os chamo de ‘híbridos horríveis'”, disse Heidi Sanborn, que chefia o Conselho Nacional de Ação de Administração, uma rede de grupos que busca fazer com que os fabricantes assumam a responsabilidade pelo descarte adequado dos produtos que vendem. “Eles são feitos de vários materiais ou materiais impossíveis de reciclar. É um monte de coisas. ”

Os plásticos descartáveis ​​de uso único tornaram-se um ponto de exclamação ambiental internacional, pois apareceram nas barrigas de pássaros e peixes, inundaram praias intocadas em países remotos com lixo e até foram detectados em quantidades microscópicas na água da chuva. Os produtos plásticos projetados para serem usados ​​por alguns minutos podem levar décadas ou mais para se decompor.Meio Ambiente,Oceanos,Plásticos,Poluição,Blog do Mesquita

Estudos também mostraram que a proliferação de plásticos descartáveis ​​está acelerando as mudanças climáticas através das emissões de gases de efeito estufa em todas as etapas do seu ciclo de vida. Enquanto grupos ambientais que lutam para reduzir o uso de plásticos descartáveis ​​ganharam visibilidade nos últimos anos, a indústria de petróleo está investindo pesadamente em uma enorme onda de produção de plástico – que a indústria espera crescer 40% até 2030. O aumento de plásticos a produção deve ser alimentada pelo gás de xisto ultra-barato que flui do boom de fracking dos EUA. A indústria petroquímica já investiu US $ 200 bilhões na construção de novas usinas de craqueamento que separam etano do gás para produzir o eteno necessário para a fabricação de plásticos. Outros US $ 100 bilhões em investimentos estão planejados.

A indústria costuma apontar a reciclagem como a solução para todos os novos plásticos. No entanto, apenas uma fração dos produtos plásticos acaba sendo reciclada, um problema que foi exacerbado quando a China fechou suas portas em 2018 para o dilúvio de plásticos de outros países que anteriormente reciclava.

Os municípios e recicladores dos EUA estão se esforçando para aumentar a quantidade de reciclagem que podem fazer no mercado interno. Mas essas novas formulações de embalagens híbridas – itens que misturam materiais como papel alumínio, papel e, às vezes, vários tipos de plásticos – impedem as soluções de reciclagem e, na maioria das vezes, acabam no lixo.

Exemplos incluem sapatos e roupas embutidos com eletrônicos; as bolsas de plástico flexível cada vez mais populares usadas para embalar coisas como vagens de detergente, arroz e comida para bebê; e garrafas e latas recicláveis firmemente embrulhadas em etiquetas de plástico extras.

Cartões de canto e outros produtos com pequenos componentes eletrônicos dentro deles são especialmente irritantes para os recicladores. Eles não apenas incluem lixo eletrônico tóxico, mas quando as pequenas baterias são esmagadas nas máquinas dentro das usinas de reciclagem, é sabido que elas causam incêndios.

“Um dos maiores problemas para os recicladores atualmente são todos os produtos que contêm baterias de íon de lítio, como cartões de canto, balões e outros produtos inovadores”, disse Kate Bailey, diretora de pesquisa da Eco-Cycle, em Boulder, Colorado, reciclador. “Essas baterias podem acender facilmente quando são apanhadas no equipamento de processamento ou atropeladas por uma carregadora frontal, e essas faíscas podem levar a incêndios desastrosos no centro de reciclagem”.

Os recicladores estão pedindo aos fabricantes que simplifiquem os produtos que fabricam para facilitar a reciclagem. Mas eles dizem que os consumidores também podem ajudar procurando produtos mais recicláveis – e depois votando com seus dólares.

Bolsas de plástico

Outra ameaça crescente para os recicladores são as bolsas de plástico cada vez mais usadas para armazenar tudo, desde vagens de detergente para roupas a cereais e sucos. Esta embalagem flexível é feita com muitas camadas finas de diferentes tipos e cores de plástico e, às vezes, é revestida com papel alumínio e cera.

Fabricantes e produtores de plásticos divulgam essas bolsas para diminuir o tamanho das embalagens, reduzir os custos de remessa e aumentar a vida útil dos alimentos. “Algumas camadas finas e cuidadosamente escolhidas significam mais valor, menos espaço ocupado”, diz um vídeo do grupo de lobby de produtores de plástico, o American Chemistry Council, que promove essas bolsas.

Mas os recicladores dizem que são praticamente impossíveis de reciclar. E eles tendem a acabar no oceano e levar décadas para se biodegradar. Ao escolher o detergente para a roupa, eles dizem, os consumidores podem procurar produtos em caixas sem revestimento ou tentar novas formulações, como tiras de detergente concentradas, que não exigem embalagem plástica.

Etiquetas plásticas

Outro problemão para recicladores é o uso crescente de embalagens não recicláveis ​​em torno de garrafas e latas perfeitamente recicláveis. Por exemplo, a maioria dos produtos de limpeza com spray vem em garrafas de polietileno de alta densidade, que podem ser prontamente recicladas. Mas primeiro os consumidores devem remover as borrifadoras, pois elas são feitas de plásticos diferentes e não são recicláveis. Em seguida, os consumidores precisam encontrar uma maneira de extrair as embalagens plásticas coloridas impressas que os embaladores estão cada vez mais enrolando em garrafas para tornar a etiqueta mais atraente.

“Quem faz tudo isso? Ninguém – disse Sanborn. “Tornamos a reciclagem muito complicada. Quem tem tempo para ler um manual de tudo o que se livrar?

Em vez disso, os consumidores podem procurar garrafas de cores claras ou brancas com a etiqueta impressa na própria garrafa. É ainda melhor se eles escolherem marcas comprometidas com o uso de plástico reciclado para fabricar essas garrafas, como os produtos de limpeza Method. Outra ótima opção é que os clientes misturem seus próprios produtos de limpeza e reutilizem as garrafas de plástico.