MeioAmbiente – Embaixadores europeus desconfiam das promessas de Bolsonaro para área ambiental

Em reunião com parlamentares brasileiros na semana passada, embaixadores da União Europeia, Noruega e Reino Unido se mostraram preocupados com a inércia do governo de Jair Bolsonaro, principalmente se o assunto é política ambiental.

Para apaziguar os ânimos diante de iminentes boicotes a produtos brasileiros nas prateleiras dos supermercados e queda dos investimentos estrangeiros, em abril, à Cúpula dos Líderes pelo Clima, prometeu a antecipação em dez anos, para 2050, para que o país atinja a chamada neutralidade climática.

Mas o orçamento para a área ambiental continua em menos de 1% do total. E tampouco há sinais de mais recursos, de contratação de pessoal e modernização de equipamentos, como os de tecnologia moderna de sensoriamento remoto. Pelo contrário, quer até desligar computador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A saída de Ricardo Salles do cargo de Ministro do Meio Ambiente e Ernesto Araújo da pasta de Relações Exteriores em nada melhoraram o cenário, afinal, tendo Jair Bolsonaro à frente do país, a situação continua a mesma.
E depois do encontro com os líderes de mais de 40 países, o que se viu foi o aumento da devastação ambiental. Para se ter uma ideia, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o desmatamento na região atingiu 926 km² em junho, uma área quase três vezes maior do que a cidade de Fortaleza.

O número representa um aumento de 10% em relação a junho de 2020 e é o terceiro maior para o mês em 10 anos. No acumulado dos primeiros seis meses de 2021, o desmatamento atingiu 4.014 km² – a maior área da década para o período, segundo o monitoramento do instituto, realizado por meio do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), que utiliza imagens de satélite e de radar.

À coluna Painel, da Folha de São Paulo, o deputado federal Rodrigo Agostinho (PSB-SP), que participou da reunião com embaixadores da União Europeia, Reino Unido e Noruega, disse que o clima é de desconfiança total.

O Brasil precisa ir muito além do discurso. A União Europeia (EU), por exemplo, anunciou um plano para combater as mudanças climáticas e iniciar um processo de “descarbonização” da sua economia. Rodrigo Agostinho, que é presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS) da Câmara dos Deputados, acredita que dificilmente países como estes vão destinar recursos ao Brasil se não houver uma reação.

Ainda mais com projetos em curso que ameaçam territórios indígenas, que flexibilizam a concessão de licenciamento ambiental e PL 2633, que na praticamente legaliza a grilagem.

Os Estados Unidos também já sinalizaram que só cooperam com o Brasil se houver comprometimento. Caso contrário, poderá haver até mesmo retaliações políticas. Bolsonaro precisa rever seus conceitos sob pena de ter também o setor produtivo no seu encalço.

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A responsabilidade do Brasil no futuro do meio ambiente

Poluição,Recursos Naturais,Crimes Ambientais,Clima,Aquecimento Global,Ambiente & Ecologia,Brasil,Ecologia,Desmatamento,Amazônia,Blog do MesquitaA Floresta Amazônica detém a maior biodiversidade do planeta e precisa ser protegida
Foto deDaniel Beltrá/ Greenpeace

“A natureza não pode ser vista como um mero recurso econômico, mas como uma garantia de vida das futuras gerações”, afirma Nilo D’Ávila, Diretor de Campanhas do Greenpeace Brasil.

“Reduzir o combate ao desmatamento faz com que o Brasil perca competitividade econômica, o que pode inclusive afetar a geração de empregos. Mercados internacionais e consumidores querem garantias de que o nosso produto agrícola não esteja manchado com a destruição florestal”, declara D’Ávila.

Durante sua campanha, Bolsonaro não apresentou propostas para o meio ambiente, mas sim ameaças. Agora que foi eleito presidente, exigimos responsabilidade com a agenda socioambiental. Precisamos agir agora para evitar que a temperatura do planeta suba para além de 1.5 graus. Bolsonaro pode ser um dos últimos presidentes do Brasil que pode agir a tempo de evitar um dano irreversível ao planeta.

Por isso, trabalharemos para proteger a floresta, combater as mudanças climáticas e denunciar retrocessos, nos opondo à perda de direitos e ao enfraquecimento da democracia brasileira.

Ao longo de 26 anos no Brasil, o Greenpeace nunca se furtou a criticar governos e políticos cujos projetos representassem ameaça ao meio ambiente e à população, independente do partido ou da cor da bandeira que defendem. Foi esta nossa linha de conduta nos governos Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e com Parlamentares dos mais diversos campos.

Greenpeace continuará defendendo o meio ambiente, a paz e a justiça social. Esses são os valores que guiam a organização desde a sua fundação, assim como a independência e a não violência.

Compensação de carbono usada por grandes companhias aéreas com base em sistema falho, alertam especialistas

Floresta,Desmatamento,Amazônia,Brasil,Meio Ambiente,EcologiaFlorestas em todo o mundo estão ameaçadas de desmatamento. O parque nacional Tapantí, na Costa Rica, é cuidadosamente protegido como parte dos planos do governo para chegar a zero líquido até 2050. Fotografia: REUTERS / Alamy

O mercado de compensação de carbono de proteção florestal usado por grandes companhias aéreas para reivindicações de voos neutros em carbono enfrenta um problema significativo de credibilidade, com especialistas alertando que o sistema não é adequado para o propósito, descobriu uma investigação.

O dinheiro das compensações de carbono pode fornecer suporte financeiro vital para projetos que buscam proteger e restaurar alguns dos mais belos ecossistemas ameaçados em todo o mundo. Dado que as soluções baseadas na natureza podem dar uma contribuição significativa para a mitigação do clima necessária para estabilizar o aquecimento global, um canal de financiamento funcional será importante para o progresso da mudança climática e, particularmente, para os países em desenvolvimento.Mas uma investigação conjunta sobre os esquemas de compensação usados ​​por algumas das maiores companhias aéreas do mundo realizada pelo Guardian and Unearthed, braço investigativo do Greenpeace, descobriu que embora muitos projetos florestais estivessem fazendo um trabalho valioso de conservação, os créditos que eles geraram ao prevenir a destruição ambiental aparecem para ser baseado em um sistema falho e muito criticado, mesmo que esses créditos estivessem sendo usados ​​para apoiar alegações de “vôo neutro em carbono” e compromissos líquidos zero.

Analisamos 10 esquemas de proteção florestal que as companhias aéreas estavam usando antes da pandemia, que foram credenciados pela Verra, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que administra o padrão de crédito de carbono líder mundial, VCS (Verified Carbon Standard). Os projetos estimam as emissões que evitaram, prevendo quanto desmatamento e desmatamento teriam ocorrido sem eles. As reduções são então vendidas como créditos. Descobrimos que suas previsões eram frequentemente inconsistentes com os níveis anteriores de desmatamento na área e, em alguns casos, a ameaça às árvores pode ter sido exagerada.

Além disso, existem preocupações sobre o problema inerente de olhar para o futuro e prever quais árvores seriam ou não abatidas, e de provar a adicionalidade – que o próprio projeto fez uma diferença para o resultado – que atrapalhou o sistema de compensação de seu início. Embora tenha havido trabalho para abordar essa questão fundamental, descobrimos que as preocupações permaneceram.

As descobertas foram duramente criticadas pela Verra, que afirma que os métodos por eles endossados ​​contribuíram para a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento, e transformaram as economias locais para melhor.
As descobertas foram duramente criticadas pela Verra, que afirma que os métodos por eles endossados ​​contribuíram para a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento, e transformaram as economias locais para melhor.

Thales West, um cientista e ex-auditor de projetos, conduziu um estudo sobre esquemas na Amazônia brasileira que descobriu que os projetos costumavam exagerar nas suas reduções de emissões. Ele disse que as metodologias “não são robustas o suficiente”, o que significa que “há espaço para projetos gerarem créditos que não tenham nenhum impacto no clima”.

Arild Angelsen, professor de economia da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida e especialista em Redd + (redução das emissões do desmatamento e degradação florestal), disse que embora as metodologias da Verra para reivindicar créditos fossem uma tentativa séria de medir as reduções de emissões decorrentes da redução do desmatamento, eles eram atualmente não é robusto o suficiente.

Britaldo Soares-Filho, especialista em modelagem de desmatamento e professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, disse ao Guardian que, no sistema atual, calcular reduções genuínas de emissões depende da capacidade de prever o futuro com precisão. “Os modelos não são bolas de cristal. Os modelos são um sinal para ajudar a formular políticas e avaliar as opções de políticas ”.

O software de uso da terra que ele projetou, Dinamica EGO, é frequentemente usado por projetos para prever onde o desmatamento teria ocorrido. Soares-Filho disse, em sua experiência, os projetos tendem a aumentar as ameaças à floresta e as atuais abordagens de modelagem resultam em “créditos de carbono fantasma”.
Alexandra Morel, uma cientista do ecossistema da Universidade de Dundee que esteve envolvida na criação de um dos 10 projetos em questão, acredita que foi difícil julgar se as reduções de emissões reivindicadas pelos projetos eram reais.

“É impossível provar um contrafactual”, disse ela. “Em vez de apenas avaliar quais florestas estão realmente lá, que estão ativamente fornecendo um sumidouro ou armazenamento de carbono agora, temos que supor quais florestas ainda estariam aqui contra quais são as florestas bônus que foram poupadas do machado teórico.”

Margaret Kim, CEO da Gold Standard, outra organização que certifica compensações de carbono, disse ao Guardian e à Unearthed que sua organização não certificou projetos Redd + porque ela acreditava que a forma como foi criada não funcionava. “Um projeto pode realmente selecionar áreas de proxy. Portanto, uma região de referência pode ser configurada para ser mais conveniente para um projeto para maximizar sua taxa de desmatamento de linha de base. ”

A Verra, que atesta os projetos estudados nesta investigação, apontou que muitos dos benefícios proporcionados por esses projetos eram difíceis de medir. “A Verra canaliza financiamento, tecnologia e conhecimento para comunidades rurais dependentes da floresta que, de outra forma, carecem de recursos. Esses projetos enfrentam o desmatamento de maneiras cada vez mais novas e criativas.”Em todo o mundo, terras agrícolas, como a plantação de óleo de palma vista aqui, estão devorando a floresta original. Os projetos florestais buscam reduzir o desmatamento usando uma variedade de métodos. Fotografia: Willy Kurniawan / Reuters

Eles criam empregos criando guardas para vigiar a extração ilegal de madeira; eles apóiam os agricultores locais que desejam mudar para práticas mais sustentáveis; melhoram o acesso à água e à educação. “Em suma, os projetos estão trabalhando para transformar as economias locais para que não tenham mais que depender do corte da floresta.” Alguns dos projetos apontaram que estavam lidando com pecuaristas e madeireiros agressivos, funcionários públicos corruptos, plantações de coca e cartéis de drogas locais e pobreza extrema, bem como mudança climática.

Mas a Verra também acredita fortemente em seu programa Redd + e argumentou que a análise de nossa investigação foi “profundamente falha”. Ele ressaltou que, desde nosso contato inicial com ele, havia iniciado o processo de alteração de seu padrão com um conjunto abrangente de atualizações que acredita representar “nosso compromisso em garantir que a contabilização das reduções de emissão dos esforços de preservação florestal seja o mais precisa possível , incorpora de forma consistente as melhores práticas científicas mais recentes e apóia esforços liderados pelo governo para impedir o desmatamento ”.

Crystal Davis, diretora do Global Forest Watch do World Resources Institute, defendeu fortemente a utilidade dos mecanismos de financiamento da conservação e destacou que “as florestas tropicais não podem perder o Redd + como mecanismo de financiamento da conservação em escala”.

Ela não acha que a análise da McKenzie Intelligence Services (MIS), uma empresa com sede em Londres especializada em análise e inteligência de imagens geoespaciais, mostrou que os projetos estavam inflando suas projeções, mas concordou que “a avaliação post-facto da integridade das linhas de base é realmente difícil de fazer.

“Isso é um grande problema. Eu não acho que o Redd + jamais alcançará todo o seu potencial como um mecanismo de financiamento da conservação se não pudermos criar mais transparência e responsabilidade voltadas para o público no sistema.” Ela acrescentou que foi incentivada a ver grandes esforços em andamento para alcançar isso.
Já se passou bem mais de uma década desde que os governos mundiais surgiram com um plano para desacelerar e até parar o desmatamento como parte da ação internacional sobre a crise climática. O plano era simples: os países em desenvolvimento seriam, basicamente, pagos para não derrubar árvores. A ideia, assinada em 2007, foi batizada de Redd +.

Esperava-se que as reduções de emissões alimentassem um sistema cap-and-trade para o clima, um método baseado no mercado que se provou bem-sucedido algumas décadas antes em lidar com a chuva ácida (e depois a camada de ozônio), estabelecendo limites sobre quanto dióxido de enxofre cada empresa poderia emitir. Se você precisava emitir mais do que seu limite, você comprava créditos de uma empresa que havia conseguido emitir menos. Os benefícios de emitir menos e o custo de emitir mais rapidamente reduziram as emissões. O plano era fazer o mesmo com os gases do efeito estufa em escala global.

Mas 13 anos depois, a intensa discordância sobre o mercado global de carbono que sustentaria o Redd + e outros sistemas de mitigação do clima significa que é a única parte do livro de regras do acordo de Paris que os governos ainda não concordaram. Na ausência de um sistema robusto e internacionalmente aceito, projetos de proteção florestal não regulamentados em pequena escala surgiram em todo o mundo, geralmente conhecidos como “Redd + voluntário”.

Não existe um sistema de certificação oficial, mas o mais utilizado é o Verra. Empresas como companhias aéreas, empresas de sorvete, bancos – qualquer um que emita carbono e queira compensar suas próprias emissões – dão dinheiro às ONGs para continuar protegendo a floresta.

Até agora, o mercado de compensação de carbono tem sido pequeno, cerca de US $ 300 milhões (£ 215 milhões) em 2019. Mas, durante os últimos dois anos, uma grande onda de estratégias corporativas líquidas de zero e reivindicações de neutralidade de carbono mudaram a necessidade de contabilidade de carbono rigorosa para créditos Redd +. O ex-governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, está liderando uma força-tarefa para transformar a compensação de carbono em um mercado anual de bilhões de libras. O chanceler, Rishi Sunak, anunciou sua intenção de fazer de Londres um centro de comércio global para compensações voluntárias.

Para que estes projetos cumpram o papel que lhes foi delineado na descarbonização do mundo desenvolvido, proporcionando compensações para grandes empresas e ajudando a contribuir para a jornada da rede zero, é vital que as metodologias que utilizam para calcular o a redução das emissões são rigorosas e precisas.A extração ilegal de madeira – como este carregamento apreendido pela Polícia Militar da Amazônia no Brasil no ano passado – é uma ameaça crítica para as florestas. Fotografia: Ricardo Oliveira / AFP / Getty Images

Atualmente, a Verra tem uma série de requisitos para projetos que concordará em certificar e existem várias metodologias que podem ser utilizadas. Geralmente, cada projeto Redd + deve medir o desmatamento e as mudanças no uso da terra em uma região de referência, uma área muito maior que é considerada representativa do esquema que geralmente inclui o projeto. Eles também devem documentar as ameaças ambientais de áreas próximas, suas atividades de conservação, a composição ecológica da área e o provável efeito do projeto Redd + nas comunidades que vivem dentro e ao redor dele, em muitos casos projetando tendências históricas no futuro.

O número de créditos de carbono gerados por um projeto depende da diferença entre sua previsão de desmatamento e o que realmente acontece. A Verra diz que suas metodologias são conservadoras por design para garantir que as previsões contrafactuais sejam realistas. As reivindicações são então verificadas por um auditor terceirizado aprovado para ver se eles seguiram a metodologia corretamente.

The Guardian and Unearthed analisaram 10 projetos, que fornecem créditos a seis grandes companhias aéreas, incluindo a British Airways e a easyJet, para avaliar, da melhor forma que pudemos com a ajuda de especialistas e análises de satélite encomendadas, exatamente o quão realistas eram suas previsões. Embora esta não seja uma análise abrangente de projetos voluntários do Redd +, esses projetos constituem 10 dos 79 que Verra supervisiona, portanto, uma análise dará algumas dicas úteis sobre o funcionamento do setor maior. Vimos as ferramentas que eles usaram para suas previsões e os resultados até o momento.

A investigação encontrou um uso inconsistente de métodos e ferramentas preditivas. Dois dos projetos usaram o Dinamica EGO para estimar onde o desmatamento ocorreria devido às ameaças ao meio ambiente. Soares-Filho advertiu contra seu uso para projetos Redd +, e disse que a abordagem de modelagem para calcular linhas de base prospectivas resultou em “créditos fantasmas” porque o software não foi projetado para prever o futuro com precisão.

Dois modelaram o desmatamento e a mudança no uso da terra usando uma ferramenta que lhes permite supor um aumento maciço na taxa de desmatamento em comparação com a taxa histórica.

Um projeto usou um modelo simples de variável única, que previu um grande aumento no desmatamento na ausência do projeto. Outros dois construíram seus próprios modelos – um alegando que toda a floresta tropical teria desaparecido sem eles, outro alegando que cerca de um quarto iria desaparecer. Outro adotou uma linha de base do governo nacional. Um disse que evitaria grandes quantidades de desmatamento com cultivo sustentável de nozes, outro com uma mistura de extração planejada de madeira e proteção florestal.

Vimos as taxas de desmatamento anteriores dentro e ao redor dos projetos e as comparamos com as taxas previstas. Aqui, descobrimos que, onde pudemos comparar, os projetos geralmente previam taxas de desmatamento que pareciam inconsistentes com as taxas anteriores.

Um projeto previu uma taxa anual que era o triplo do pior ano antes de começar. Um em uma parte remota e inacessível da selva baseava suas previsões na taxa de desmatamento de cada lado de uma estrada principal. Outro estava cuidando de uma área que havia sido transformada em parque nacional e onde não ocorria desmatamento ilegal há anos. Apesar disso, previu um grande aumento no desmatamento se o projeto não estivesse lá.

Um tinha taxas muito baixas de desmatamento antes do início do projeto, mas previa altas taxas anuais sem ele, enquanto outro havia adotado uma abordagem geralmente conservadora. Não foi possível avaliar as projeções de cinco projetos devido às limitações técnicas e metodológicas utilizadas.
Quatro esquemas haviam feito previsões de desmatamento sobre sua área de projeto e uma região de referência circundante que poderíamos facilmente examinar. Pedimos à MIS que avaliasse a perda de cobertura de árvores nas áreas de referência de todos os quatro projetos, excluindo as áreas do projeto (por uma série de razões, não era apropriado ou possível examinar todas as 10). Se a cobertura de árvores for menor nessa área, isso pode indicar que as previsões originais eram imprecisas e as linhas de base do desmatamento foram infladas.

No entanto, como Verra, GFW e alguns dos projetos nos indicaram, isso também pode indicar que os projetos foram muito mais bem-sucedidos do que o inicialmente esperado, e que o trabalho para reduzir o desmatamento dentro dos projetos se espalhou para a área circundante, reduzindo o desmatamento na região.

A análise do MIS, de fato, descobriu que o desmatamento nas regiões de referência foi muito menor do que o previsto; em dois projetos, a taxa real de desmatamento, de acordo com os números do MIS, ficou em torno de um terço da taxa prevista. Em outro era metade, enquanto em um terço era apenas um quinto. Mas a dificuldade em avaliar o significado dessas informações destaca um problema fundamental com o sistema contábil.

Conversamos com todos os projetos sobre seus desafios e benefícios de seu trabalho. “[Estamos lidando com] pecuaristas e madeireiros agressivos, funcionários públicos corruptos, plantações de coca e cartéis de drogas locais, pobreza extrema, tempestades tropicais, incêndios florestais, políticas perversas de uso da terra e agora mudanças climáticas”, disse um projeto.

Vários disseram que estavam protegendo ecossistemas preciosos com vida selvagem rara e suas atividades ajudaram a sustentar sua sobrevivência. “Contamos com o mercado voluntário de carbono para pagar as comunidades da floresta pelos serviços ambientais que prestam à comunidade global, que incluem a proteção da floresta e a redução das emissões de carbono”, disse outro. “Usamos a melhor ciência disponível e cumprimos os protocolos acordados e verificados por terceiros para produzir créditos de carbono que atestam os serviços ambientais que estão sendo prestados.”

Os créditos de carbono foram uma fonte vital de financiamento para quase todos os projetos. Um disse que eles preencheram a lacuna depois que o financiamento de doadores ocidentais acabou. Outro disse que o dinheiro dos créditos ajudava a apoiar comunidades que, de outra forma, não teriam uma fonte externa de renda. Alguns projetos Redd + eram esquemas com fins lucrativos e diziam que as críticas ao sistema eram ideológicas.

Infelizmente, nenhuma avaliação científica abrangente foi publicada sobre como os projetos de compensação de carbono com base em florestas afetam o desmatamento. Este ano, os pesquisadores da Universidade de Cambridge devem publicar um estudo inédito para avaliar o quão bem os projetos Redd + param e reduzem o desmatamento.

O estudo de 2020 da West, que foi publicado no PNAS, avaliou 12 esquemas Redd + aprovados pela Verra na Amazônia brasileira para analisar como as reduções de emissões alegadas combinavam com a realidade.

Para fazer isso, os pesquisadores compararam as tendências de desmatamento em projetos Redd + com grupos de controle com características semelhantes, descobrindo que os esquemas rotineiramente exageraram em suas reduções de emissões. O estudo descobriu que as reduções no desmatamento foram quase todas devido a políticas em nível nacional, como a moratória da soja de 2006 na Amazônia, que causou quedas espetaculares no desmatamento, não os projetos.

Embora os 12 projetos reivindicassem 24,8 milhões de toneladas de reduções de emissões usando metodologias Verra, as taxas de desmatamento em 11 deles não mostraram nenhuma diferença com os grupos de controle no estudo. Para o único projeto que o fez, os autores disseram que 40% das emissões declaradas foram exageradas.

Em um comunicado, a Verra disse estar preocupada que o Guardian não entendesse como suas metodologias funcionavam, ou as regras do VCS, a investigação era “fatalmente falha” e não havia produzido jornalismo baseado em fatos, ignorando seu sucesso na preservação de árvores em pé. A organização contestou a independência da investigação e a descreveu como um “hit” por causa da oposição do Greenpeace aos créditos de carbono, acrescentando que muitas das críticas estavam desatualizadas e não refletiam o que estava acontecendo atualmente com os créditos de carbono Redd +. Por fim, Verra disse que o jornalismo era perigoso, pois ameaçava as finanças para preservar as florestas em pé e era mais parecido com uma campanha política.

A Verra está fazendo mudanças substanciais na forma como os projetos geram créditos para cumprir as mudanças prováveis ​​se as divergências sobre o livro de regras do acordo de Paris que cobre o Redd + em nível nacional forem resolvidas. Os projetos serão “aninhados” em sistemas nacionais e regionais e derivarão créditos de uma linha de base alocada nacionalmente. A organização desenvolveu uma nova ferramenta de mapeamento de risco para destacar as áreas de maior risco de desmatamento. Verra disse que os créditos gerados com as metodologias anteriores não seriam retirados.

Em resposta aos resultados da investigação, as companhias aéreas disseram que confiavam na qualidade dos créditos Redd + que usavam para compromissos climáticos, que muitas vezes eram obtidos por meio de terceiros. A EasyJet, que compensa as emissões de combustível em nome de todos os clientes para “voos neutros em carbono”, disse que era uma medida provisória enquanto a tecnologia de emissão zero era desenvolvida e a companhia aérea estava confiante de que os projetos que apoiou estavam efetivamente evitando a perda de floresta.

A British Airways disse que está comprometida com as emissões líquidas zero até 2050 e que a compensação continua sendo uma parte importante de seu plano de curto prazo, enquanto alternativas aos combustíveis fósseis são desenvolvidas.

Delta disse que as metodologias da Verra são rigorosas e baseadas na ciência, acrescentando também que está investindo em tecnologias de baixo carbono. Outras companhias aéreas ecoaram esses comentários e disseram que o uso de compensações era uma medida intermediária.

O que tira o sono dos especialistas em clima?

De físicos a climatologistas e entomologistas, diversos cientistas falam sobre que aspecto da mudança climática mais os preocupa, à medida que o planeta vai se aquecendo inexoravelmente.

Jovens manifestantes do movimento Greve pelo Futuro

O que faz realmente meu estômago virar quando penso na mudança climática? O degelo do permafrost. Um quadro em que ele se derrete todo, liberando copiosas quantidades de dióxido de carbono e metano (o também chamado pergelissolo contém atualmente duas vezes mais carbono do que a atmosfera). E não há retorno.

Mas o que está no topo da lista de apreensões para os próprios cientistas do clima, aqueles que estudam como a mudança climática está progredindo, nas camadas de gelo do solo e nas esquinas urbanas, nos oceanos e campos arados?

A DW perguntou a um dezena de especialistas, de setores indo desde entomologia, oceanografia e climatologia até pesquisa do permafrost, o que lhes tira o sono quando o assunto é clima.

A maior incógnita: o ser humano

Nana Ama Browne Klutse analisa a mudança do clima na Universidade de Gana usando modelos digitais. Embora perigos definitivos como o degelo do permafrost a preocupem, sua maior apreensão é como os seres humanos lidarão com as transformações.

“O que você pode fazer, enquanto indivíduo, para evitar o impacto da mudança climática? São necessárias políticas governamentais no sentido da resiliência urbana, construir para a comunidade. Aí precisamos daquela ação global.”

A climatologista Ruth Mottram se ocupa das camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida e da elevação do nível marinho no Instituto Meteorológico Dinamarquês. Mas tampouco é a ciência que a deixa em suspense.

“Estou menos preocupada de que estejam ocorrendo processos desconhecidos que não entendemos, e de que alguma catástrofe imprevista possa estar a caminho. Sabemos como será grande parte dos impactos. Acho que o que me deixa acordada à noite, no sentido metafórico, é realmente a interação entre o sistema físico e como as sociedades humanas vão lidar com ele.”

Um exemplo é o nível marinho: ele subirá um metro no século corrente – portanto durante as vidas dos atuais habitantes do planeta e seus filhos – e serão necessárias medidas drásticas em relação às cidades costeiras. Mas a coisa não acaba aí.

“Acho que as sociedades humanas ainda não compreenderam realmente o que isso significa, que se adaptar à subida do nível do mar será um processo longo, e que vamos ter que fazer durante centenas de anos”, observa Mottram, sugerindo que se deve começar a pensar em termos das vidas das cidades (séculos), em vez de apenas vidas humanas.Derretimento do permafrost literalmente afundará comunidades inteiras nos polos

Proteger os mais vulneráveis

Embora Vladimir Romanovsky, professor de geofísica do Laboratório de Permafrost da Universidade de Alaska Fairbanks, saiba que o que acontece na Região Ártica afetará o resto o mundo, suas preocupações são muito mais locais.

“Devemos lembrar que ainda há algumas pessoas vivendo no Ártico”, frisa. Na realidade, aproximadamente 4 milhões teriam que encarar as consequências na vida real, se o chão sólido começar a derreter sob seus pés e suas casas. “Mudanças nesses tipos de climas e meios ambientes locais e regionais afetam essas pessoas, e alguns desses impactos podem ser muito severos.”

Mais próxima do outro polo do planeta, Carolina Vera teme que as desigualdades existentes sejam ainda exacerbadas pelas alterações climáticas, uma vez que “a mudança climática já está impactando os setores mais vulneráveis do nosso planeta”.

Pesquisadora-chefe do Conselho Nacional de Ciência da Argentina, professora da Universidade de Buenos Aires e chefe de gabinete do Ministério argentino de Ciência e Tecnologia, em seu trabalho Vera incorpora coleta de dados e saber local, envolvendo as comunidades que equilibram os problemas do desflorestamento com suas necessidades agropecuárias.

Calor humanamente insuportável

Não surpreende que o aquecimento global seja a principal apreensão para pesquisadores como Dim Coumou, especialista em condições meteorológicas extremas da Universidade Livre de Amsterdã. Especialmente alarmantes são os extremos de calor e humidade dos trópicos.

Sobretudo em áreas de alta densidade demográfica, como África Oriental, Paquistão e Índia, a permanência ao ar livre ficará insuportável. E quando não for mais possível refrescar-se suando, fica inviável o trabalho no campo e, portanto, o cultivo de alimentos. O provável resultado será migração em massa.

O problema não é só dos trópicos: intimamente relacionado ao calor está o agravamento das condições meteorológicas. Os estudos de Coumou e seus colegas mostram que alterações das correntes de jato provocarão tempo extremo na Europa, incluindo inundações e secas.

As intempéries extremas também são a principal preocupação do climatologista Abubakr Salih Babiker: “Uma atmosfera mais quente retém mais água, e as chuvas são mais pesadas, provocando inundações. Um oceano mais quente pode gerar ciclones tropicais mais fortes”, já que esse fenômeno ganha energia do calor da água.

“Temos visto provas de todos esses eventos”, prossegue o colaborador do Centro de Previsão e Aplicação do Clima (ICPAC), em Nairóbi, Quênia. “Os ciclones tropicais mais fortes que atingiram a Península Árabe, a Somália e Moçambique ocorreram nos últimos 20 anos.” Suas pesquisas também confirmaram que os extremos meteorológicos podem acarretar outros desastres ecológicos, como pragas de gafanhotos.Pragas de gafanhotos estão entre consequências secundárias do aquecimento global

“Como minha ciência pode ajudar?”

Pragas, secas e inundações também estão no centro das apreensões da entomologista Esther Ngumbi, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Seu trabalho com safras resistentes a pragas e secas é motivado pelo destino dos agricultores vulneráveis de países em que faltam redes de segurança social, e uma estação de devastação da colheita por insetos pode resultar em fome e na impossibilidade de pagar pela educação dos filhos.

“Como minha ciência pode ajudar de verdade?”, ela se pergunta. “Isso genuinamente me faz acordar todo dia e ir ao laboratório, para entender como minha pesquisa pode contribuir para as soluções de que precisamos.”

Também para Natasha Picone, climatologista urbana da Universidade Nacional do Centro de Buenos Aires, as soluções são o que ocupam sua mente. “Com a pandemia, eu me dei conta que não estamos fazendo o suficiente para tornar nossas cidades mais habitáveis.”

Sua pesquisa informa planejadores de cidades sobre problemas urbanos como o efeito ilha de calor, a poluição atmosférica e a escorrência superficial que pode ocasionar inundações. “Se não mudarmos esse curso agora, será realmente difícil voltar atrás.”

“As pessoas são a solução”

Uma fonte de ansiedade para a oceanógrafa Renata Hanae Nagai, da Universidade do Paraná, é seu sobrinho de quatro anos e como será a vida dele num mundo mais quente. Porém também lhe dá esperança: durante a visita recente a uma praia, para observar tartarugas pondo ovos, o menino avisou aos outros para deixarem os animais em paz.

Nagai nota o mesmo cuidado entre seus estudantes: aprender sobre os problemas e apresentar soluções. “As pessoas são a solução”, afirma a pesquisadora brasileira. “Nós tentamos, mesmo sob as condições mais duras.”

Para Levke Caesar, física do clima da Universidade de Maynooth, na Irlanda, o que mais preocupa são os indivíduos e organizações que negam a mudança climática. “Para mim, o que eles fazem é totalmente inaceitável, do ponto vista moral: eles mentem. Afinal, você não pode discutir com o clima.” Esse fato, contudo, só a faz se empenhar mais ainda para comunicar o que a ciência mostra.

Gerações mais jovens: fonte de ansiedade e esperança

Eles se preocupam conosco

Um traço comum nesta panorâmica um tanto anticientífica, é que enquanto nós, leigos, nos preocupamos com o que a ciência diz, os profissionais da áreas muitas vezes estão preocupados conosco.

“Os cientistas sempre pensam sobre quais serão os resultados de seus estudos, como serão importantes para as pessoas comuns, normais”, comentou o especialista em permafrost Vladimir Romanovsky. Em sua pesquisa, afirma, ele sempre está refletindo “como isso poderia ser usado para tornar a vida mais fácil e mais previsível”.

Meio Ambiente: Estamos perto de um ponto sem volta

Devemos fazer de 2021 o ano em que a ação climática atingiu a maturidade, ou enfrentaremos o desastre, escreve Inger Andersen, o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Incêndios extremos ligados às mudanças climáticas foram uma ocorrência frequente em 2020

Com a implementação dos programas de vacinação COVID-19, 2021 começa com a esperança de que o fim da pandemia esteja próximo. Precisávamos de liderança ousada, decisões difíceis e financiamento dedicado para nos levar até este ponto. Devemos agora aplicar o mesmo vigor para combater a mudança climática ou arriscar muitos mais anos tão mal quanto o anterior.

O ano de 2020 – provavelmente o mais quente já registrado – trouxe tempestades, incêndios florestais, secas, inundações e derretimento de geleiras. A desaceleração econômica associada à pandemia causou uma queda temporária nas emissões de dióxido de carbono, mas isso fará uma diferença insignificante nas temperaturas de longo prazo; nossas emissões anteriores ainda estão na atmosfera e estamos adicionando a elas.

Mesmo se os países implementassem as últimas promessas voluntárias – conhecidas como contribuições determinadas nacionalmente (NDCs) – sob o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, ainda estaríamos caminhando para um aumento projetado na temperatura média global de 3,2 graus Celsius (4,4 F) acima dos níveis pré-industriais até o final do século XXI. Esse aquecimento traria dor, miséria e perturbação que eclipsaria tudo o que COVID-19 jogou em nós.

Estamos perto de um ponto sem volta.

A seca e a escassez de água estão entre os muitos impactos do aumento das temperaturas

Os líderes podem recuar investindo em soluções sustentáveis ​​como parte dos esforços de recuperação da pandemia. O Relatório de Lacunas de Emissões 2020, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), nos disse que fazer isso poderia reduzir as emissões projetadas para 2030 em 25% – trazendo o mundo aproximadamente onde ele precisa estar para ter uma chance de atingir a meta do Acordo de Paris de limitando o aquecimento global a 2 graus Celsius. O comprometimento líquido zero pode até mesmo nos aproximar da meta de 1,5 grau Celsius.

Preparando-se para uma maratona

Medidas de recuperação verde e sustentável podem proporcionar esses cortes ao mesmo tempo em que apóiam outras metas ambientais, sociais e econômicas. Precisamos de suporte direto para tecnologias e infraestrutura de emissão zero. Fim dos subsídios ao carvão e aos combustíveis fósseis. Políticas que permitem o consumo de baixo carbono. Soluções baseadas na natureza – incluindo restauração de paisagem em grande escala e reflorestamento realizado durante a Década das Nações Unidas para Restauração de Ecossistemas, que começa este ano.

Inger Andersen, Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)

Até agora, poucas nações investiram em pacotes de estímulo verdes. Isso tem que mudar.

2021 é também o ano em que se realiza a COP26, reunião central dos países signatários do Acordo de Paris. De acordo com o Emissions Gap Report, 126 países adotaram, anunciaram ou estão considerando planos de emissão líquida zero. Se o novo governo dos EUA entrar na corrida conforme prometido, os países responsáveis ​​por mais de 63% das emissões globais de dióxido de carbono terão se comprometido com a neutralidade de carbono.

Mas, como quem se compromete no primeiro dia de janeiro a correr uma maratona até o final do ano, precisamos dar passos específicos, a partir de agora, para estarmos prontos para a corrida. Esses compromissos devem ser traduzidos urgentemente em políticas e ações fortes e de curto prazo que se integrem a uma recuperação pandêmica de baixo carbono e sejam incluídas em novos e mais fortes NDCs antes da cúpula de novembro. Caso contrário, são promessas vazias.

A energia limpa é fundamental para atingir metas líquidas de zero

O financiamento da adaptação precisa de um impulso

Outra prioridade é ajudar os países e comunidades vulneráveis ​​a lidar com os impactos cada vez maiores das mudanças climáticas. O Adaptation Gap Report do PNUMA, que será publicado nas próximas semanas, mostrará que ainda não estamos levando a adaptação a sério. O financiamento permanece muito abaixo dos níveis exigidos e a maioria das iniciativas ainda deve reduzir os riscos climáticos. Como disse o Secretário-Geral da ONU, precisamos de um compromisso global para destinar metade de todo o financiamento climático global à adaptação antes da COP26.

Este ano, temos uma chance real de evitar uma catástrofe climática. Usando recursos de estímulo com sabedoria para dar início a uma mudança sistêmica real, planejada e monitorada por meio de NDCs mais fortes e compromissos líquidos de zero, poderíamos não apenas atingir a meta de 2 ° C do Acordo de Paris, mas ter uma chance de lutar Meta de 1,5 ° C.

Devemos aproveitar esta oportunidade para proteger nosso clima e natureza e, por sua vez, a saúde humana, a paz e a prosperidade, nas próximas décadas. Pode ser um dos últimos que receberemos.

Fogo já consumiu mais de 10% do Pantanal em 2020

Região sofre com queimadas que já atingiram pelo menos 17 mil quilômetros quadrados. Extensão e velocidade com que as chamas se espalham assusta quem monitora a região. Especialistas já contam com redução de espécies.

Direito de imagem – Getty Images

Desde 1998, quando o monitoramento das queimadas no Pantanal foi iniciado pelo Inpe, nunca houve tantos focos de calor.

Assustador e sem precedentes: é assim que, quem conhece e monitora o Pantanal, descreve a situação da região, continuamente castigada por incêndios. Só em 2020, o fogo já consumiu 17.500 quilômetros quadrados de mata, o equivalente a mais de 10% da área do total de um dos biomas mais importantes do mundo.

Desde 1998, quando o monitoramento das queimadas no Pantanal foi iniciado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), nunca houve tantos focos de calor entre janeiro e agosto como agora: foram 7.727 registrados até 18 de agosto. Um aumento de 211% em relação ao mesmo período do ano passado.

O fogo no Pantanal não tem poupado sequer animais que conseguiam escapar das chamas a tempo: cenas de jacarés, macacos, cobras e antas carbonizadas chocam quem trabalha na região.

“A extensão, a velocidade com que as chamas se espalham é assustadora”, afirma Felipe Dias, diretor executivo do Instituto SOS Pantanal. Os prejuízos materiais e o impacto sobre a vida natural ainda estão sendo levantados. “O problema é que o fogo tem sido recorrente. Ele normalmente não voltava a uma região atingida. O que vemos agora é que os incêndios estão se repetindo nas mesmas regiões”, completa.

Ação humana

“Historicamente, a mobilização dos órgãos oficiais para combater o fogo começa em julho. Mas neste ano já estamos lutando desde fevereiro, tentando evitar com que as chamas cheguem em áreas protegidas e até em escolas”, diz à DW Brasil Angelo Rabelo, que implantou na década de 1980 a Polícia Ambiental em Corumbá, Mato Grosso do Sul, e fundador do Instituto Homem Pantaneiro.

Iniciado, segundo monitores, em mais de 90% dos casos por ação humana, o fogo encontra uma mata seca, esturricada, que funciona como um combustível poderoso.

“Já está tudo muito queimado, e o fogo ainda não acabou. Estamos à espera de uma grande chuva”, lamenta por sua vez Neiva Guedes, pesquisadora e presidente do Instituto Arara Azul, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Os indícios de que essa seria uma temporada severa vieram em fevereiro, época em que o Pantanal deveria estar coberto pela água. A área sofre influência dos rios que drenam a bacia do Alto Paraguai e que, quando transbordam durante a época de chuvas, de novembro a maio, alagam até dois terços da planície.

“Estamos num ano extremamente seco, poucas chuvas e, na maior parte dos rios, não teve inundação. Foram poucas chuvas e pouca inundação, com temperaturas muito altas”, comenta o cenário prévio à catástrofe Danilo Bandini, pesquisador da UFMT, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Refúgio ameaçado

Numa zona pantaneira de difícil acesso em Mato Grosso, o entorno do refúgio das araras azuis ainda está em chamas. O santuário, área repleta de bocaiúvas, um tipo de palmeira, dentro de uma fazenda, abriga 20% da população dessa ave no Pantanal.

“O refúgio é um lugar único”, afirma Neiva Guedes, que estuda as araras azuis há três décadas. “A gente sente como se fosse a nossa própria pele queimando”, diz sobre o choque diante do cenário atual.

A queimada, que teria consumido 70% da fazenda onde fica o refúgio, traz um impacto grande sobre a espécie. “Ninho com ovos e filhotes são perdidos, há mortalidade por fumaça, calor, estresse dos pais, a perda de araras, das cavidades que elas ocupam”, diz Guedes.

As repercussões vão perdurar. “A médio e longo prazo, haverá falta de comida, de água. Aumenta a predação de juvenis e de adultos porque falta comida, há briga pelas cavidades”, explica a pesquisadora.

As conclusões vêm da experiência de 2019, quando o fogo destruiu parte do Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, no Mato Grosso do Sul, e atingiu ninhos de araras. Propriedade particular, a fazenda desenvolve três atividades: ecoturismo, pesquisa de conservação e pecuária.

Fora da lista brasileira de espécies em extinção desde 2014, mas considerada espécie vulnerável na lista internacional, a arara azul pode voltar para a zona de perigo extremo devido aos incêndios.

“É um risco que não só as araras estão correndo. O impacto dessas queimadas é gigantesco. Já pensou nos insetos, que não conseguem voar grandes extensões e que foram perdidos, mas que têm um papel fundamental nos ecossistemas?”, comenta Guedes.

Pouca proteção

Com suas nascentes principalmente no cerrado, que conta com menos de 50% de sua vegetação nativa, os rios que banham o Pantanal vêm sofrendo cada vez a influência da agropecuária.

“O uso e ocupação do solo tem grande influência. Nos últimos anos, a coisa pode ser agravado pela chegada de muitas fazendas de agricultura”, analisa José Marengo, pesquisador do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

Além do desmatamento no próprio bioma, a destruição da mata na Floresta Amazônia também influencia o regime das águas no Pantanal: parte das chuvas vem da umidade da Floresta Amazônica, por meio dos chamados rios voadores.

Até o fim da temporada da seca, a expectativa é desanimadora. “Estamos contanto com redução de algumas espécies. Muitas delas já são ameaçadas, e o fogo atual pode ter um efeito de piorar o status de conservação”, prevê Danilo Bandini, pesquisador da UFMT.

Região repleta de fazendas de gado, o Pantanal tem apenas 3,5% de seu território protegido por unidades de conservação onde, até o momento, não há registro de focos de calor pelo Inpe.

“Não há como dissociar o que está acontecendo agora com a relação que o homem tem com a natureza. Achar que é normal é um equívoco”, diz Angelo Rabelo, numa referência à pandemia e às queimadas. “Temos que repensar essa relação e cuidar dessas áreas que cumprem um papel determinante para proteger espécies que podem, no futuro, trazer soluções de doenças que ainda nem apareceram”, finaliza.

Efeito colateral de hidrelétrica, árvores centenárias morrem no leito do rio

Os paliteiros de macacarecuias mortas ao longo do rio Uatumã.
Foto: Angélica Resende

O rio é um organismo vivo e na Amazônia Central isso fica ainda mais visível ao observar os períodos de enchente e vazante, que causam disparidades de cerca de 10 metros entre o auge da cheia e da seca, numa completa transformação da paisagem.

Nesse ambiente de estresse hídrico, espécies da flora se desenvolveram e evoluíram junto com esses pulsos de inundação. A espécie que talvez melhor tenha se adaptado a isso é a macacarecuia, uma árvore típica das florestas alagáveis e que se especializou tão bem aos ciclos do rio que em alguns lugares “só dá ela”. Identificada como uma das árvores mais longevas da Amazônia, com indivíduos de mais de 800 anos de idade, a adaptação que tanto favoreceu a macacarecuia saiu pela culatra quando a construção de uma hidrelétrica alterou completamente o ritmo próprio do rio e seus ciclos de cheia e seca. Uma pesquisa recém-publicada aponta que a mudança causou alta mortalidade nas florestas de macacarecuias ao longo do rio Uatumã, abaixo de onde foi erguida a hidrelétrica de Balbina, construída na década de 80, no Amazonas.

O habitat das macacarecuias pode ser considerado o próprio rio, já que, em condições naturais, elas passam cerca de 10 meses inundadas por ano. Por isso, “se acontece qualquer alteração no rio, essa espécie vai sofrer. Ela pode ser considerada um indicador de distúrbio [no rio] porque como ela está mais próxima do rio, ela é a mais intimamente ligada com o pulso de inundação, qualquer alteração no pulso vai afetar primeiro ela”, explica a pesquisadora de pós-doutorado da Embrapa Amazônia Oriental, Angélica Resende, que liderou o estudo sobre as macacarecuias no rio Uatumã e os impactos da hidrelétrica nas populações a jusante (abaixo) da hidrelétrica.

A pesquisa foi feita com apoio de pesquisadores do do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e foi publicada em junho, no periódico New Phytologist.

As macacarecuias (Eschweilera tenuifolia) pertencem à família das castanheiras, do gênero Eschweilera. “É o gênero de árvore mais bem-sucedido na Amazônia, porque existem muitas espécies e elas estão espalhadas em diferentes ambientes, desde montanhas até ambientes como o que essa espécie vive, que são as florestas alagadas”, explica Angélica. Mais especificamente os igapós, já que a macacarecuia é uma espécie que ocorre em rios de água preta, como é o caso do rio Uatumã e do rio Negro.

A relação intrínseca da árvore com o rio e seus pulsos de inundação foi diretamente afetada com a construção da hidrelétrica de Balbina. De acordo com pesquisa do Inpa, tanto em 1983, quando a barragem começou a ser construída, quanto em 87, quando foi fechada para encher o reservatório, foram observados grandes picos de mortalidade das macacarecuias do rio Uatumã, no Amazonas.

Floresta de macacarecuias vivas no Parque Nacional do Jaú. Foto: Tayane Carvalho
“A gente datou a morte desses indivíduos mortos na parte baixa da hidrelétrica e vários morreram nesse período da construção. Ou seja, elas [as macacarecuias] responderam bem rapidamente a essa perturbação. Provavelmente as que estavam mais próximas do rio foram as que reagiram primeiro e a mortalidade de árvores seguiu até 125 quilômetros após a barragem”, explica a botânica.

A construção de uma hidrelétrica envolve estudos de impacto ambiental, mas via de regra, são observados apenas os impactos da área que será alagada, acima da barragem, e não como a construção pode impactar o rio como um todo. O impacto rio abaixo, entretanto, foi visível e chamou a atenção da equipe de pesquisadores do Inpa, que constatou os enormes paliteiros no leito do rio, como são chamados as áreas onde troncos nus de árvores mortas formam verdadeiros cemitérios fluviais. “Os estudos prévios que são feitos antes de instalar uma hidrelétrica nem sequer contemplam essa parte a jusante da barragem e a maioria dos estudos científicos também só aponta os efeitos da hidrelétrica acima da barragem. Nós decidimos estudar os efeitos na parte abaixo da barragem porque era visível ao percorrer o rio a quantidade de árvore morta”, descreve Angélica. “Em toda essa parte a jusante, a gente não tem uma noção exata do tamanho do dano que a hidrelétrica causa. Estamos só começando a entender isso”.

Na topografia da margem do rio e das florestas alagadas, há aquelas árvores que ficam mais próximas do rio, situadas em níveis mais baixos do terreno, e outras que ficam mais acima. “Na parte alta do igapó, as espécies passam menos tempo inundadas, são cerca de 2 meses por ano só. Já quem está na parte de baixo, passa cerca de 10 meses do ano inundada. Ou seja, são árvores que só saem da água em média 2 meses por ano. As macacarecuias podem até ser encontradas em florestas mistas, que são essas florestas altas que alagam menos, mas são mais raras nesse ambiente. Enquanto que na parte mais baixa, onde há mais alagação, ela ocorre em monodominância, que é uma coisa rara na Amazônia, que é um bioma onde no geral há uma grande variedade de espécies ocorrendo juntas. Na monodominância, uma espécie domina mais de 50% dos indivíduos, ou seja, existe local ali que só tem macacarecuia. E por que? Porque ela é altamente adaptada. As outras espécies que vivem mais acima no igapó não conseguem sobreviver a uma inundação tamanha, por isso ela domina aquele ambiente”, conta a botânica.

Usina Hidrelétrica de Balbina em construção. Crédito: International Rivers.
Em 2019, a pesquisadora já havia publicado um artigo com uma análise espacial de onde estão os paliteiros. “Se você analisar espacialmente onde estão as macacarecuais mortas e os espaços próximos, você vê que há outras florestas e outras populações que ainda estão sujeitas à uma alta perturbação, porque o pulso de inundação do rio Uatumã, abaixo da hidrelétrica de Balbina, passou a ser totalmente irregular após a instalação da hidrelétrica. Provavelmente as espécies que estão ali, não apenas as macacarecuias, vão sofrer ainda uma maior mortalidade”, complementa Angélica.

A pesquisa também estudou as árvores vivas a partir de amostras de madeira nas quais é possível identificar os anéis de crescimento da árvore, “cada ano ela forma um anel e fica marcado ali, justamente pelo pulso de inundação”, detalha. “Quando eu verifiquei os anéis, eu vi que elas vinham crescendo num ritmo e aí, quando foi instalada a hidrelétrica, a maioria delas aumentou o crescimento. Isso ocorreu provavelmente porque ao fechar a barragem para encher a hidrelétrica, elas aproveitaram esse período seco para crescer, já que elas crescem exatamente na seca e por isso costumam crescer tão lentamente e ficam tão velhas, porque em condições naturais elas têm só 2 meses fora d’água para isso”.

“Algumas morreram e outras aproveitaram para crescer”, resume a pesquisadora. A diferença entre vida e morte pode ter sido o acesso a outra fonte de água, como um lençol freático, supõe a botânica. O “estirão” de crescimento durou cerca de 10 anos e, no início dos anos 2000, cerca de 10 anos após a conclusão da hidrelétrica, elas passaram a diminuir seu crescimento. “Essas árvores estão decrescendo em incremento de diâmetro até hoje e nós acreditamos que são as próximas a morrer. Nossa hipótese é que ainda vai ter mais mortalidade de árvores de macacarecuias e provavelmente de outras espécies também”, alerta. Nesse mesmo período, no início dos anos 2000, houve um segundo pico de mortalidade entre as macacarecuias, porém menor.

O efeito das mudanças climáticas

A ameaça ao futuro das macacarecuias no rio Uatumã não é apenas a hidrelétrica, um perigo maior – e global – também lança uma sombra de incerteza sobre o futuro das florestas de macacarecuia em toda a Amazônia Central: as mudanças climáticas.

Outra população monodominante de árvores centenárias já mortas em igapó do Rio Uatumã, a jusante da barragem hidrelétrica de Balbina.
Foto: Jochen Schongart

Para poder comparar os resultados obtidos com as macacarecuias no rio Uatumã, os pesquisadores decidiram repetir a análise nas florestas alagadas do rio Jaú, no Parque Nacional do Jaú, uma área com pouca influência antrópica. “Lá também ocorrem esses macrohabitats de macacarecuias, só que ali elas não foram afetadas por hidrelétrica ou nenhum fator humano de grande impacto. Mas no Jaú, nós também vimos macacarecuias mortas, ainda que em menor quantidade”, descreve Angélica, “ou seja, as árvores também foram minimamente afetadas por algo e esse algo provavelmente são as mudanças climáticas”.

Nos últimos 100 anos, o nível mínimo médio dos rios na Amazônia Central subiu cerca de 1 metro e nos últimos 40 houve uma intensificação dos ciclos hidrológicos, que provoca cheias e secas mais extremas, e tudo isso também afeta as macacarecuias. Os períodos de mortalidade identificados no Jaú coincidiam com períodos de eventos climáticos extremos de El Niño e La Niña.

“Principalmente a La Niña, que causa na Amazônia Central um ano mais úmido, com mais chuva e mais cheia. Esses eventos climáticos extremos, que antigamente ocorriam com menor frequência e agora com o aquecimento global têm ocorrido com maior frequência, somado à influência das mudanças climáticas que estão afetando a Bacia Amazônica, com o aumento do nível mínimo médio dos rios e a intensificação dos ciclos hidrológicos, nos leva a conclusão de que essas espécies também sofrem influência climática. Lá no Uatumã, a influência é muito maior da hidrelétrica, mas também há efeitos do clima”, resume a pesquisadora.

“Com o aumento do nível do rio, elas já estão e continuarão sendo afetadas. Do lado da hidrelétrica, lá em Balbina, pode haver uma extinção local ou um colapso nos macrohabitats de macacarecuias, onde há monodominância. E claro, isso vai diminuir a longevidade local delas. Se o nível do rio continuar subindo, isso pode acontecer para toda bacia”, ressalta.

Os impactos da hidrelétrica

A história do rio Uatumã e da hidrelétrica de Balbina não é uma exceção. Nos processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas, onde são levantados os impactos ambientais que serão causados pelo empreendimento e propostas as ações compensatórias para mitigá-los, a parte do rio a jusante da barragem na maioria das vezes nem é considerada.

Balbina: lago gigantesco, com impactos ambientais e pouca energia gerada. Foto: Alexandre Kemenes

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, que por muitos anos trabalhou com licenciamento ambiental de hidrelétricas, explica que o dano causado à hidrelétrica à dinâmica natural de um rio é irreversível. “Quando você faz um barramento, atrapalha toda a migração de fauna que tem lá dentro e toda a dinâmica do rio, isso é irreversível. Até porque essa dinâmica de cheia e seca do rio é muito imprevisível, você não consegue fazer isso nem artificialmente se você quiser depois. Por quilômetros abaixo no rio, as espécies que estavam acostumadas a viver com o ciclo de cheia e seca, isso é perdido, completamente alterado. A árvore que esperaria 10 meses de alagamento, vai receber 5, e é um impacto grande tanto na estratégia produtiva dessa árvore quanto na estratégia reprodutiva de quem está dentro d’água, porque tem peixe que espera a cheia para ir pra terra depositar seus ovos nas raízes das árvores. É uma dinâmica muito particular. E essas coisas não entram no licenciamento. Esses impactos sobre a dinâmica hidrológica do rio são completamente subestimados, na maioria das vezes nem entram nos estudos”, reforça o biólogo.

“Acho que há uma ignorância muito grande, principalmente com essas questões de grandes rios da Amazônia, de subestimar o impacto que será causado. Eles estão preocupados com a barragem, com o tamanho do lago, com a floresta que será desmatada, mas eles não enxergam que por mais de 100 km a jusante ele vai impactar árvores centenárias e mudar toda dinâmica, é uma ignorância ecológica. E por outro lado, há pouca disposição de entender esses impactos”, continua Aroeira.

“Afeta o rio todo, afeta as florestas alagáveis e de terra firme, toda comunidade de plantas, os peixes… só que esses estudos só estão começando. Acima da barragem é muito mais bem estudado, então parece que em cima é muito maior o efeito, mas eu acredito que a gente não tenha ideia ainda de quão grande é o efeito abaixo”, alerta Angélica.

A alta mortalidade de árvores também causa outro efeito não calculado pelos estudos de impacto ambiental da hidrelétrica de Balbina: a alta emissão de metano, um dos principais gases do efeito estufa, liberados pela madeira apodrecida.

Segundo Aroeira, a solução para um processo de licenciamento mais adequado começaria com órgãos ambientais mais fortalecidos, com procedimentos padronizados e com mais servidores, o que permitiria análises mais rápidas e eficientes. Além disso, um zoneamento das áreas onde os impactos ambientais sejam considerados mais viáveis para construção de empreendimentos como hidrelétricas, o que inclusive reduziria os custos do empreendedor com medidas compensatórias.

“Acho que falta ter um debate mais honesto sobre impacto de hidrelétrica, porque tem coisa que não dá para mitigar, então a gente tem que partir do pressuposto que não será mitigado. Tendo clareza de que certas obras são inviáveis por conta de tais impactos em tais regiões, como um zoneamento, você já consegue dar mais informação e clareza pro empreendedor de que naquele local, o empreendimento dele não vai sair”, conclui.

Duda Menegassi

Covid-19; Isolamento reforça importância dos parques para a saúde

O objetivo maior de uma unidade de conservação é a proteção da natureza, mas por debaixo dessa missão há na verdade uma troca, na qual a própria sociedade é protegida e beneficiada pela presença da área preservada.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

A quarentena pode ser um convite para repensar nossas conexões com a natureza e a importância das áreas protegidas.

Dentre os benefícios que a natureza nos presta, também conhecidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos, está a saúde promovida tanto diretamente pelo contato com a natureza, quanto indiretamente, por nos proteger contra doenças, como a febre amarela, a malária e, especula-se, o próprio coronavírus.

A lista de serviços ecossistêmicos prestados por uma área de natureza preservada é maior do que imaginamos. “A natureza nos presta serviços pelos quais a gente não paga nada: nascentes de água, regulação de clima, solo fértil… E há também o efeito de diluição. A biodiversidade tem a capacidade de diluir o processo de transmissão de agentes infecciosos e manter esses agentes numa proporção muito baixa dentro de uma área com grande biodiversidade. Esse é um serviço da natureza que a gente nunca fala”, ressalta a coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre da Fiocruz, Marcia Chame.

“Para quê que serve uma unidade de conservação? Serve para água, pra gente passear, pra ficar perto da natureza, desestressar, para tudo isso, mas também serve para diluir o processo de transmissão dos agentes infecciosos. A gente precisa fazer as pessoas entenderem o quanto as unidades de conservação nos protegem”, aponta Chame.

A pesquisadora lembra que essa rica biodiversidade também é fonte para remédios e princípios ativos de vacinas. “Quando você tem uma unidade de conservação grande, bem conservada, o que a gente tem ali dentro? Uma diversidade de espécies grandes também. É desse conjunto biológico que o homem se aproveita para produzir várias coisas, entre elas remédios. Mais de 75% dos remédios utilizados são baseados em compostos naturais, a maior parte de plantas. E o que não é produzido a partir dessas moléculas da natureza, é inspirado nessas moléculas. Quando você perde biodiversidade, você perde esse potencial todo de produção de remédio e de inspiração”.

Dentre as unidades de conservação, parques são a categoria que mais se aproximam da sociedade e que têm a missão de ser “a janela do sistema”, em referência ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Apesar dessa vocação ao público, ainda há um grande gargalo no Brasil para consolidar essa conexão entre parque e sociedade.

O voluntariado pode ser uma oportunidade para engajar as pessoas na conservação da natureza. Foto: Duda Menegassi.

De acordo com o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, uma das dimensões mais importantes para construir essa cultura de parques entre os brasileiros começa no imaginário. “Os parques são um patrimônio da sociedade. Parte desse processo inclui trazer os parques para o imaginário coletivo, inclui explicar para sociedade a conexão que os parques têm com saúde pública, com bem-estar, e com mais do que normalmente associamos à função de conservação ambiental do parque”, analisa Pieroni.

A publicação “Parques do Brasil: Percepções da População”, produzida e divulgada pelo Semeia em março deste ano, ajuda a mapear as percepções dos brasileiros sobre os parques e a entender como traduzir o papel deles para sociedade, tanto os naturais quanto os urbanos. “Há uma complementaridade. O parque urbano normalmente é o primeiro contato e que depois tende a te levar para um parque natural. Normalmente a experiência de imersão na natureza é diferente nos dois, assim como o tipo de atividade. O parque natural é visto como oportunidade de contato com a natureza, enquanto o parque urbano está mais relacionado com aquele esporte corriqueiro, passear, encontrar amigos”, descreve Pieroni baseado nos levantamentos do estudo.

O diretor acredita que os parques terão um papel importante na hora do fim do isolamento e pós-crise do coronavírus. “Tem muita gente sofrendo com esse confinamento em casa e se os parques já tinham um papel importante antes, na hora que as pessoas voltarem a sair de casa e quiserem se reconectar com espaços públicos e naturais, os parques terão um papel de descompressão emocional fundamental – principalmente os urbanos, que são mais acessíveis”.

O vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cláudio Maretti, acredita que o fim da quarentena será uma oportunidade para quem trabalha com áreas protegidas. “Acho que as pessoas que gostam da natureza e de estar ao ar livre vão sentir a necessidade de retomar esse contato o mais rápido possível, mesmo que seja em parques urbanos e mais antropizados. Principalmente as pessoas que estão confinadas em apartamentos nas grandes cidades”, analisa. “Isso seria uma oportunidade. Existe uma intenção manifesta, reprimida por causa do distanciamento social”.

Abrir a porta dos parques e colocar o tapete de bem-vindos, entretanto, não será suficiente para ganhar novos aliados da conservação. “Eu acho que vai ter essa corrida no início, e eu espero que ela seja ampla e duradoura, mas os outros estímulos, como cinemas e shoppings, vão continuar competindo. E competir com a indústria do entretenimento, com o consumismo, vai ser igualmente difícil. Cabe a nós, profissionais das áreas protegidas, abrir mais oportunidades com a oferta de atividades, mais áreas para visitação e a criação de programas de engajamento, como o voluntariado”, pondera o especialista em conservação.

Enquanto a quarentena não acaba e a fruição dos parques e de outras áreas protegidas fica comprometida, cabe buscar formas alternativas de manter o contato com a natureza – uma conexão que, inclusive, faz muito bem para saúde. Maretti, que em janeiro publicou em ((o)) eco uma coluna sobre a relação de áreas protegidas e saúde, pontua a quantidade de artigos científicos da área médica que indicam como o contato com a natureza contribui com o bem-estar, ajuda no combate ao estresse e até na recuperação de doenças.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

“Tem uma gradação que vai desde você ver uma foto, até você ter uma janela pro verde urbano, até você morar numa parte da cidade que é mais arborizada, ou numa área próxima a parques. É o que eu faço aqui em casa, vou para sacada ver o verde para me sentir melhor. Isso está nas pesquisas científicas. Há teorias que dizem que esse sentimento é uma herança do tempo em que a gente vivia no mato, uma convivência que perdemos com a vida urbana. Da mesma forma que você olha a foto de um ente querido e isso pode te fazer bem, faz bem olhar a natureza, mesmo que por uma imagem ou pela janela”, explica Maretti.

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Meio Ambiente:Cerca de 3,5 bilhões poderão viver em zonas de calor extremo até 2070, diz estudo

Em 50 anos, um terço da população mundial poderá sofrer com o aumento da temperatura global se emissões de gases poluentes não forem reduzidas, alertam cientistas.

Regiões quentes do planeta deverão aumentar até 19%.

Daqui a 50 anos, até 3,5 bilhões de pessoas poderão estar vivendo em zonas de calor extremo ao redor do mundo se as emissões globais de gases de efeito estufa não forem reduzidas, diz um estudo da universidade holandesa de Wageningen divulgado nesta segunda-feira (04/05).

Até 2070, estima-se que a população mundial seja de 10 bilhões de pessoas. Nesse período, na pior das hipóteses, um terço da população mundial deverá viver em áreas onde se prevê que a temperatura média anual subirá para acima de 29ºC, apontam os especialistas no estudo publicado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Quantas pessoas exatamente acabarão vivendo sob risco dependerá da redução das emissões de gases poluentes na atmosfera e da velocidade de crescimento da população.

Atualmente, entre 20 e 25 milhões de pessoas vivem nas regiões mais quentes do planeta, concentradas principalmente no deserto do Saara. Em 2070, as áreas mais afetadas pelo calor extremo deverão ser América do Sul, África, Índia, Sudeste da Ásia e norte da Austrália. Apenas na Índia, o clima mais quente deverá afetar mais de um bilhão de pessoas. Na Nigéria, no Paquistão, na Índia e no Sudão, mais de 100 milhões de habitantes sofrerão as consequências do calor extremo.

“O coronavírus mudou o mundo de uma forma difícil de imaginar há alguns meses. Nossos resultados mostram como as mudanças climáticas poderiam causar algo similar”, afirmou Marten Scheffer, que liderou o estudo.

Segundo o estudo, as mudanças climáticas não ocorrerão tão rapidamente quanto as causadas pela pandemia da covid-19, mas, ao contrário do cenário atual, o mundo não teria uma perspectiva de alívio num futuro imediato.

Para o estudo, os cientistas adotaram uma abordagem incomum das mudanças climáticas e avaliaram os seres humanos como fazem com ursos, pássaros e abelhas, para saber em que “nicho climático” civilizações florescem.Aquecimento Global,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 01

Parte das conclusões dos pesquisadores foram baseadas em análises de dados passados, em que compararam condições climáticas das regiões onde os seres humanos mais se estabeleceram. A densidade populacional teve picos em áreas onde as temperaturas médias anuais ficavam em torno de 11 e 15ºC. Um segundo pico de densidade, mais baixo que o primeiro, ocorreu em regiões com temperaturas entre 20 e 25ºC. Como a distribuição populacional quase não se alterou nos últimos 6 mil anos, os pesquisadores chamaram esse intervalo de temperatura de “nicho ecológico humano”.

Quanto mais a temperatura se afasta desse nicho, mais difícil é a sobrevivência de seres humanos numa determinada área.  De acordo Scheffer, os habitantes das futuras regiões de calor extremo habitarão áreas fora do “nicho climático” ocupado por seres humanos nos últimos 6 mil anos.

Para prognósticos de cenários futuros, os cientistas usaram uma previsão climática do quinto relatório de análise do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas como base. Esse relatório prevê que a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera continuará se expandindo desenfreadamente – assim como ocorreu nas últimas décadas –, levando a aumentos equivalentes de temperatura em todo o planeta.

Usando as projeções internacionais da terceira Via Socioeconômica Compartilhada (SSP3), que prevê um futuro marcado por rivalidades regionais, os pesquisadores calcularam um modelo em que comparam a população mundial prevista com a alta das temperaturas. Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

Eles descobriram que a área continental com uma temperatura média anual de mais de 29ºC vai se ampliar de 0,8% (que, atualmente, se localiza principalmente no deserto do Saara) para 19% em 2070. “Isso também dificultaria a gestão de crises futuras como novas pandemias pelas sociedades”, enfatizou Scheffer.

O especialista preferiu não prever migrações em massa a partir das regiões mais afetadas, dizendo que esses movimentos têm gatilhos complexos. Mas ele disse esperar que o estudo seja visto como um alerta urgente à comunidade global para reduzir velozmente as emissões de gases poluentes na

Amazônia,Brasil,Blog do Mesquita

Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil

Se hoje a bancada ruralista é a principal força pressionando o Congresso para flexibilizar a proteção ambiental, é consenso entre agrônomos e pesquisadores que o futuro do agronegócio depende da preservação ambiental.

PAULO WHITAKER/REUTERS

Agrônomos, biólogos e entidades como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) alertam que a destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas têm grande potencial para prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil, porque afetam diversos fatores ambientais de grande influência sobre a atividade agrícola.

O principal deles é o regime de distribuição das chuvas, essenciais para nossa produção – apenas 10% das lavouras brasileiras são irrigadas. Com o desmatamento e o aumento das temperaturas, serão afetados umidade, qualidade do solo, polinizadores, pragas.

Eles dizem as notícias sobre o setor ambiental no Brasil não são animadoras: se o ritmo de desmatamento na Amazônia continuar como está, atingiremos em pouco tempo um nível de devastação sem volta. Junho foi o mês com mais desmatamento na Amazônia, 920,4 km², desde o início do monitoramento com sistema de alerta pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em 2015. Foi um aumento de 88% em relação ao mesmo mês no ano passado.

Ao mesmo tempo, as pressões e cobranças internacionais chamam atenção para a agenda ambiental do governo Bolsonaro, que tem flexibilizado a legislação ambiental e diminuído a fiscalização.

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A Floresta Amazônica é questão central no debate ecológico internacional

Crise iminente

Atualmente, o agronegócio é responsável por 21,6% do PIB brasileiro, segundo o Ministério da Agricultura.

Preocupados com questões como logística, estrutura e desafios comerciais como o vaivém das commodities no mercado internacional, a questão da sustentabilidade acaba não sendo prioridade para o setor como um todo.

“A questão da sustentabilidade, no sentido amplo, é uma preocupação. Mas em primeiro lugar vêm a estrutura e a logística e as questões comerciais”, afirma o agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e coordenador da área de agro da Fundação Getúlio Vargas.

No entanto, os riscos gerados pela devastação ambiental na agricultura são uma ameaça muito mais iminente do que se imagina, segundo o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa.

Alguns estudos, como um feito por pesquisadores das Universidades Federais de Minas Gerais e Viçosa, projetam perdas de produtividade causadas por desmatamento e mudanças climáticas para os próximos 30 anos. Outros não trabalham com tempo, mas com nível de devastação, como o estudo Efeitos do Desmatamento Tropical no Clima e na Agricultura, das cientistas americanas Deborah Lawrence e Karen Vandecar, que afirma que quando o desmatamento na Amazônia atingir 40% do território (atualmente ele está em 20%), a redução das chuvas será sentida a mais de 3,2 mil km de distância, na bacia do Rio da Prata.Direito de imagem GETTY IMAGES

O agronegócio corresponde a mais de 20% do PIB brasileiro

Para Assad, que também é professor da FGV Agro e membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, os efeitos da destruição do ambiente e das mudanças climáticas já começam a ser sentidos.

Ele cita, por exemplo, o relatório da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) que mostra a perda de mais de 16 milhões de toneladas na safra de soja deste ano devido a seca que atingiu as principais regiões produtoras desde dezembro. “Já há evidências de que as mudanças climáticas aumentaram o número de eventos extremos, como secas e ondas e calor”, afirma Assad.

Há duas ameaças principais, segundo Lawrence e Vandecar. A primeira é o aquecimento global, que acontece em escala global e que é intensificado pelo desmatamento. A outra são os riscos adicionais criados pela devastação das florestas, que geram impactos imediatos na quantidade de chuva e temperatura, tanto em nível local quanto continental.

Deficiência hídrica e temperatura

A maior parte da produção agrícola brasileira depende das chuvas – só 5% da produção total e 10% da produção de grãos são irrigados. Isso significa que mudanças na precipitação afetam diretamente nossa produção.

O regime de chuvas é afetado por uma série de fatores – desde a topografia até as correntes marítimas. Um fator importante é a dinâmica de evaporação e transpiração terrestres, ou seja, a umidade produzida pela respiração das árvores e plantas, explica o agrônomo da USP Gerd Sparovek, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo.

Esse fenômeno, chamado de evapotranspiração, é especialmente alto em florestas tropicais como a amazônica – elas são o ecossistema terrestre que mais movimenta água, transformando a água do solo em umidade no ar e diminuindo a temperatura da atmosfera sobre elas.

“Ao cortar a vegetação natural que, durante o ano inteiro joga água na atmosfera, umas das principais consequências é a formação de menos nuvens no período seco”, explica Assad, da Embrapa. “Um estudo que acabamos de finalizar mostra um aumento significativo de deficiência hídrica do Nordeste ao Centro-Oeste”, diz.Direito de imagem GETTY IMAGES

A destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas vão prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil.

Isso afeta as chuvas potencialmente até no Sudeste, já que há correntes de ar que normalmente empurram essas nuvens para sul.

A destruição da vegetação nativa afeta até a duração das temporadas de chuvas e estiagem, segundo o estudo de Lawrence e Vandecar, que faz uma revisão da literatura científica e foi publicado em 2014 na revista Nature.

O corte da vegetação nativa também altera a temperatura e clima local, e potencialmente também o de regiões mais distantes, explica Sparovek, da Esalq. “As alterações, nesse caso, são sempre desfavoráveis.”

E isso vale não só para a Amazônia: a remoção do Cerrado, onde hoje se encontra a principal expansão da fronteira produtiva, também eleva a temperatura local.

Esse problema é reforçado pelo aquecimento global, que torna o clima mais instável e aumenta a frequência de extremos, como ondas de calor e estiagens e chuvas em excesso. E o desmatamento só intensifica esse processo.Direito de imagem GETTY IMAGES

Risco para o agronegócio é maior quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas

O risco para o agronegócio é especialmente grande quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas – isso diminui a produtividade das lavouras e pode comprometer safras inteiras, diz o biólogo.

Um efeito adicional do comprometimento da disponibilidade de água tem a ver com a produção de energia elétrica, que também é importante para o agronegócio, aponta Sparovek. Um clima mais seco ou maiores períodos de estiagem podem comprometer a vazão dos rios e dos reservatórios, afetando diretamente a produção de energia, já que nossa matriz energética é em sua maioria dependente de hidroelétricas.

Perda de área produtiva

A retirada total das florestas também gera outros problemas relativos aos recursos hídricos além da chuva, explica o biólogo Jean Paul Metzger, professor da USP e doutor em ecologia de paisagem.

A retirada da vegetação nativa retira a proteção do solo, que não é reposta mesmo se a área virar uma plantação, já que as raízes das plantas cultivadas são muito superficiais. O solo cultivado também tem pouca permeabilidade.

Isso dificulta a infiltração da água no solo, o que gera dois problemas. Um é a falta de reposição da água nos lençóis freáticos. A outra, é um processo de erosão e poluição dos rios.

“A chuva vai escoando superficialmente e levando o solo junto, há uma perda da camada mais fértil, vai tudo para o rio” diz Metzger. “E a partir de um certo momento você não tem como reverter, há uma perda de área produtiva via erosão.”

Reserva Legal

A melhor forma de evitar esse processo é manter a vegetação nativa – inclusive nas propriedades rurais, onde a cobertura florestal pode fazer uma filtragem das enxurradas antes de chegarem ao rio. Metzer aponta que as propriedades produtivas devem ter cerca de 30% de cobertura florestal, na média, para que o ciclo hidrólógico e os chamados serviços ambientais funcionem normalmente.

Serviços ambientais são benefícios trazidos ao cultivo pelo ecossistema, como, por exemplo, a polinização e o controle natural de pragas.Direito de imagem LARISSA RODRIGUES

O processo de respiração e transpiração das árvores afeta diretamente o regime de chuvas.

“Paisagens onde há produção agrícola em desequilíbrio com o ambiente são poucos favoráveis à produção. Os inimigos naturais das pragas e doenças de plantas desaparecem, e a produção passa a depender cada vez mais de agrotóxicos”, diz Sparovek, da Esalq.

Daí, dizem os pesquisadores, vem a importância da manutenção das reservas legais – áreas de mata nativa dentro de propriedades rurais cujo desmatamento é proibido por lei. O índice de proteção exigido é de 80% na Amazônia, de 35% no Cerrado e de 20% nos outros biomas.

O assunto esteve em pauta nos últimos meses, graças a um projeto do senador carioca Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, que quer acabar com as reservas legais, citando o “direito à propriedade”. Pela Constituição, no entanto, nenhum direito à propriedade é absoluto no Brasil – a construção em propriedades urbanas, por exemplo, fica restrita às leis de zoneamento municipais.

Agrotóxicos

O uso indiscriminado de agrotóxicos também é um problema ambiental que acaba se voltando contra o próprio agronegócio.

Ele afeta principalmente os cultivos que dependem da polinização, já que os animais polinizadores – abelhas, besouros, borboletas, vespas e até aves e morcegos – são fortemente afetados por alguns tipos de inseticidas e até por herbicidas usados contra pragas em lavouras, sofrendo desde morte por envenenamento a desorientação durante o voo.

Das 191 culturas agrícolas de produção de alimentos no país, 114 (60%) dependem de polinizadores, segundo o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em resultado de safra, cerca de 25% da produção nacional é dependente de polinização, segundo Assad, da Embrapa.

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Desmatamento e agrotóxicos prejudicam culturas que dependem de polinização

Além disso, o uso excessivo de agrotóxicos em espécies resistentes se torna um problema para produtores vizinhos de cultivos que não tem a mesma resistência. Produtores de uva do Rio Grande do Sul têm registrado milhões de reais de prejuízo por causa do herbicida 2,4-D, usado em plantações de soja. Ao se espalhar para as propriedades produtoras de uva, ele chegou a reduzir a colheita de uva em até 70%, segundo produtores do Estado.

O Instituto Brasileiro do Vinho chegou a defender a proibição do uso do agrotóxico na região. O noroeste gaúcho é campeão nacional no uso de agrotóxicos, segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Questão da Produtividade

Até hoje, olhando a série histórica, a produtividade do agronegócio no Brasil só aumentou. A produção do milho, por exemplo, subiu de 3,6 ton/ha em 2009 para 5,6 ton/ha em 2019 (previsão), de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

“O aumento da produção muitas vezes é usado como argumento pra dizer que não está acontecendo nada (em termos de efeitos da mudança climática). Mas a produtividade aumenta porque antes era muito baixa, porque estamos implementando as diversas tecnologias existentes”, afirma Assad, que também é membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. “O teto de produtividade do milho, por exemplo, é de 10 toneladas por hectare considerando a tecnologia existente.”

Isso não quer dizer, diz ele, que os efeitos da devastação não terão um impacto na produtividade.

Segundo cálculos no modelo feito por cientistas das Universidade Federais de Minas Gerais e Viçosa, em 30 anos as perdas na produção de soja podem ir de 25% a 60%, dependendo da região, graças ao desmatamento da Amazônia.

Até a pecuária pode ser afetada, com a produtividade do pasto caindo de 28% a 33% e alguns lugares deixando de ser viáveis para a atividade.

Expansão?

Mas por que ainda há resistência em aceitar a visão de que a devastação do meio ambiente prejudica o agronegócio?

Segundo Sparovek, da Esalq, narrativas que defendem a necessidade de expandir a fronteira agrícola não têm embasamento científico. Ele afirma que “quando se analisa a necessidade de expansão do agronegócio brasileiro prevista pelo próprio setor até 2050, não se vê necessidade alguma de desmatar e expandir a fronteira agrícola.”

“Temos áreas abertas o suficiente para produzir a demanda projetada e ainda restaurar a vegetação em uma quantidade enorme de terras”, diz o agrônomo.Direito de imagem GETTY IMAGES

Agrotóxicos afetam polinizadores e podem prejudicar lavouras vizinhas que não são resistentes a eles

Só na Amazônia, há 17 milhões de hectares cortados, desmatados e abandonados, segundo Assad, da Embrapa.

Além das terras abertas existentes, há uma enorme possibilidade de incremento da produtividade através de implementação tecnológica, afirma o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

Assad, da Embrapa, afirma que soluções boas para a produção e para o ambiente – como técnicas de agricultura de baixa emissão de carbono e boas práticas de manejo de solo e água – têm se tornado cada vez mais acessíveis, e que uma maior organização de cooperativas agrícolas é necessária para aumentar o acesso dos pequenos produtores a tecnologias e avanços.

Sparovek afirma que a expansão da fronteira, especialmente na Amazônia, não interessa diretamente, não ajuda a produzir – especialmente com o avanço tecnológico que exige um terreno mais plano pelo tamanho e velocidade das máquinas. “Isso é uma agenda muito mais ligada à valorização imobiliária das terras e à grilagem. Quem se beneficia disso é o especulador do mercado de terras, lícito ou criminoso.”

Segundo Rodrigues, o Brasil é um país gigantesco que não tem “uma agricultura ou um agricultor”, mas diversos grupos com interesses diferentes. A existência de agricultores que não têm preocupação nenhuma com sustentabilidade ou com o longo prazo é “um pouco uma questão de educação, cultura e formação técnica adequada.”

“Temos 4,4 milhões de produtores que seguiram o Código Florestal e fizeram o Cadastro Ambiental Rural (mecanismos de regulação das práticas agrícolas)”, diz Assad. “É 1 milhão de agricultores que fazem essa confusão toda. É só um povo que produz como na idade média (que tem interesse no desmatamento).”