Efeito colateral de hidrelétrica, árvores centenárias morrem no leito do rio

Os paliteiros de macacarecuias mortas ao longo do rio Uatumã.
Foto: Angélica Resende

O rio é um organismo vivo e na Amazônia Central isso fica ainda mais visível ao observar os períodos de enchente e vazante, que causam disparidades de cerca de 10 metros entre o auge da cheia e da seca, numa completa transformação da paisagem.

Nesse ambiente de estresse hídrico, espécies da flora se desenvolveram e evoluíram junto com esses pulsos de inundação. A espécie que talvez melhor tenha se adaptado a isso é a macacarecuia, uma árvore típica das florestas alagáveis e que se especializou tão bem aos ciclos do rio que em alguns lugares “só dá ela”. Identificada como uma das árvores mais longevas da Amazônia, com indivíduos de mais de 800 anos de idade, a adaptação que tanto favoreceu a macacarecuia saiu pela culatra quando a construção de uma hidrelétrica alterou completamente o ritmo próprio do rio e seus ciclos de cheia e seca. Uma pesquisa recém-publicada aponta que a mudança causou alta mortalidade nas florestas de macacarecuias ao longo do rio Uatumã, abaixo de onde foi erguida a hidrelétrica de Balbina, construída na década de 80, no Amazonas.

O habitat das macacarecuias pode ser considerado o próprio rio, já que, em condições naturais, elas passam cerca de 10 meses inundadas por ano. Por isso, “se acontece qualquer alteração no rio, essa espécie vai sofrer. Ela pode ser considerada um indicador de distúrbio [no rio] porque como ela está mais próxima do rio, ela é a mais intimamente ligada com o pulso de inundação, qualquer alteração no pulso vai afetar primeiro ela”, explica a pesquisadora de pós-doutorado da Embrapa Amazônia Oriental, Angélica Resende, que liderou o estudo sobre as macacarecuias no rio Uatumã e os impactos da hidrelétrica nas populações a jusante (abaixo) da hidrelétrica.

A pesquisa foi feita com apoio de pesquisadores do do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e foi publicada em junho, no periódico New Phytologist.

As macacarecuias (Eschweilera tenuifolia) pertencem à família das castanheiras, do gênero Eschweilera. “É o gênero de árvore mais bem-sucedido na Amazônia, porque existem muitas espécies e elas estão espalhadas em diferentes ambientes, desde montanhas até ambientes como o que essa espécie vive, que são as florestas alagadas”, explica Angélica. Mais especificamente os igapós, já que a macacarecuia é uma espécie que ocorre em rios de água preta, como é o caso do rio Uatumã e do rio Negro.

A relação intrínseca da árvore com o rio e seus pulsos de inundação foi diretamente afetada com a construção da hidrelétrica de Balbina. De acordo com pesquisa do Inpa, tanto em 1983, quando a barragem começou a ser construída, quanto em 87, quando foi fechada para encher o reservatório, foram observados grandes picos de mortalidade das macacarecuias do rio Uatumã, no Amazonas.

Floresta de macacarecuias vivas no Parque Nacional do Jaú. Foto: Tayane Carvalho
“A gente datou a morte desses indivíduos mortos na parte baixa da hidrelétrica e vários morreram nesse período da construção. Ou seja, elas [as macacarecuias] responderam bem rapidamente a essa perturbação. Provavelmente as que estavam mais próximas do rio foram as que reagiram primeiro e a mortalidade de árvores seguiu até 125 quilômetros após a barragem”, explica a botânica.

A construção de uma hidrelétrica envolve estudos de impacto ambiental, mas via de regra, são observados apenas os impactos da área que será alagada, acima da barragem, e não como a construção pode impactar o rio como um todo. O impacto rio abaixo, entretanto, foi visível e chamou a atenção da equipe de pesquisadores do Inpa, que constatou os enormes paliteiros no leito do rio, como são chamados as áreas onde troncos nus de árvores mortas formam verdadeiros cemitérios fluviais. “Os estudos prévios que são feitos antes de instalar uma hidrelétrica nem sequer contemplam essa parte a jusante da barragem e a maioria dos estudos científicos também só aponta os efeitos da hidrelétrica acima da barragem. Nós decidimos estudar os efeitos na parte abaixo da barragem porque era visível ao percorrer o rio a quantidade de árvore morta”, descreve Angélica. “Em toda essa parte a jusante, a gente não tem uma noção exata do tamanho do dano que a hidrelétrica causa. Estamos só começando a entender isso”.

Na topografia da margem do rio e das florestas alagadas, há aquelas árvores que ficam mais próximas do rio, situadas em níveis mais baixos do terreno, e outras que ficam mais acima. “Na parte alta do igapó, as espécies passam menos tempo inundadas, são cerca de 2 meses por ano só. Já quem está na parte de baixo, passa cerca de 10 meses do ano inundada. Ou seja, são árvores que só saem da água em média 2 meses por ano. As macacarecuias podem até ser encontradas em florestas mistas, que são essas florestas altas que alagam menos, mas são mais raras nesse ambiente. Enquanto que na parte mais baixa, onde há mais alagação, ela ocorre em monodominância, que é uma coisa rara na Amazônia, que é um bioma onde no geral há uma grande variedade de espécies ocorrendo juntas. Na monodominância, uma espécie domina mais de 50% dos indivíduos, ou seja, existe local ali que só tem macacarecuia. E por que? Porque ela é altamente adaptada. As outras espécies que vivem mais acima no igapó não conseguem sobreviver a uma inundação tamanha, por isso ela domina aquele ambiente”, conta a botânica.

Usina Hidrelétrica de Balbina em construção. Crédito: International Rivers.
Em 2019, a pesquisadora já havia publicado um artigo com uma análise espacial de onde estão os paliteiros. “Se você analisar espacialmente onde estão as macacarecuais mortas e os espaços próximos, você vê que há outras florestas e outras populações que ainda estão sujeitas à uma alta perturbação, porque o pulso de inundação do rio Uatumã, abaixo da hidrelétrica de Balbina, passou a ser totalmente irregular após a instalação da hidrelétrica. Provavelmente as espécies que estão ali, não apenas as macacarecuias, vão sofrer ainda uma maior mortalidade”, complementa Angélica.

A pesquisa também estudou as árvores vivas a partir de amostras de madeira nas quais é possível identificar os anéis de crescimento da árvore, “cada ano ela forma um anel e fica marcado ali, justamente pelo pulso de inundação”, detalha. “Quando eu verifiquei os anéis, eu vi que elas vinham crescendo num ritmo e aí, quando foi instalada a hidrelétrica, a maioria delas aumentou o crescimento. Isso ocorreu provavelmente porque ao fechar a barragem para encher a hidrelétrica, elas aproveitaram esse período seco para crescer, já que elas crescem exatamente na seca e por isso costumam crescer tão lentamente e ficam tão velhas, porque em condições naturais elas têm só 2 meses fora d’água para isso”.

“Algumas morreram e outras aproveitaram para crescer”, resume a pesquisadora. A diferença entre vida e morte pode ter sido o acesso a outra fonte de água, como um lençol freático, supõe a botânica. O “estirão” de crescimento durou cerca de 10 anos e, no início dos anos 2000, cerca de 10 anos após a conclusão da hidrelétrica, elas passaram a diminuir seu crescimento. “Essas árvores estão decrescendo em incremento de diâmetro até hoje e nós acreditamos que são as próximas a morrer. Nossa hipótese é que ainda vai ter mais mortalidade de árvores de macacarecuias e provavelmente de outras espécies também”, alerta. Nesse mesmo período, no início dos anos 2000, houve um segundo pico de mortalidade entre as macacarecuias, porém menor.

O efeito das mudanças climáticas

A ameaça ao futuro das macacarecuias no rio Uatumã não é apenas a hidrelétrica, um perigo maior – e global – também lança uma sombra de incerteza sobre o futuro das florestas de macacarecuia em toda a Amazônia Central: as mudanças climáticas.

Outra população monodominante de árvores centenárias já mortas em igapó do Rio Uatumã, a jusante da barragem hidrelétrica de Balbina.
Foto: Jochen Schongart

Para poder comparar os resultados obtidos com as macacarecuias no rio Uatumã, os pesquisadores decidiram repetir a análise nas florestas alagadas do rio Jaú, no Parque Nacional do Jaú, uma área com pouca influência antrópica. “Lá também ocorrem esses macrohabitats de macacarecuias, só que ali elas não foram afetadas por hidrelétrica ou nenhum fator humano de grande impacto. Mas no Jaú, nós também vimos macacarecuias mortas, ainda que em menor quantidade”, descreve Angélica, “ou seja, as árvores também foram minimamente afetadas por algo e esse algo provavelmente são as mudanças climáticas”.

Nos últimos 100 anos, o nível mínimo médio dos rios na Amazônia Central subiu cerca de 1 metro e nos últimos 40 houve uma intensificação dos ciclos hidrológicos, que provoca cheias e secas mais extremas, e tudo isso também afeta as macacarecuias. Os períodos de mortalidade identificados no Jaú coincidiam com períodos de eventos climáticos extremos de El Niño e La Niña.

“Principalmente a La Niña, que causa na Amazônia Central um ano mais úmido, com mais chuva e mais cheia. Esses eventos climáticos extremos, que antigamente ocorriam com menor frequência e agora com o aquecimento global têm ocorrido com maior frequência, somado à influência das mudanças climáticas que estão afetando a Bacia Amazônica, com o aumento do nível mínimo médio dos rios e a intensificação dos ciclos hidrológicos, nos leva a conclusão de que essas espécies também sofrem influência climática. Lá no Uatumã, a influência é muito maior da hidrelétrica, mas também há efeitos do clima”, resume a pesquisadora.

“Com o aumento do nível do rio, elas já estão e continuarão sendo afetadas. Do lado da hidrelétrica, lá em Balbina, pode haver uma extinção local ou um colapso nos macrohabitats de macacarecuias, onde há monodominância. E claro, isso vai diminuir a longevidade local delas. Se o nível do rio continuar subindo, isso pode acontecer para toda bacia”, ressalta.

Os impactos da hidrelétrica

A história do rio Uatumã e da hidrelétrica de Balbina não é uma exceção. Nos processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas, onde são levantados os impactos ambientais que serão causados pelo empreendimento e propostas as ações compensatórias para mitigá-los, a parte do rio a jusante da barragem na maioria das vezes nem é considerada.

Balbina: lago gigantesco, com impactos ambientais e pouca energia gerada. Foto: Alexandre Kemenes

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, que por muitos anos trabalhou com licenciamento ambiental de hidrelétricas, explica que o dano causado à hidrelétrica à dinâmica natural de um rio é irreversível. “Quando você faz um barramento, atrapalha toda a migração de fauna que tem lá dentro e toda a dinâmica do rio, isso é irreversível. Até porque essa dinâmica de cheia e seca do rio é muito imprevisível, você não consegue fazer isso nem artificialmente se você quiser depois. Por quilômetros abaixo no rio, as espécies que estavam acostumadas a viver com o ciclo de cheia e seca, isso é perdido, completamente alterado. A árvore que esperaria 10 meses de alagamento, vai receber 5, e é um impacto grande tanto na estratégia produtiva dessa árvore quanto na estratégia reprodutiva de quem está dentro d’água, porque tem peixe que espera a cheia para ir pra terra depositar seus ovos nas raízes das árvores. É uma dinâmica muito particular. E essas coisas não entram no licenciamento. Esses impactos sobre a dinâmica hidrológica do rio são completamente subestimados, na maioria das vezes nem entram nos estudos”, reforça o biólogo.

“Acho que há uma ignorância muito grande, principalmente com essas questões de grandes rios da Amazônia, de subestimar o impacto que será causado. Eles estão preocupados com a barragem, com o tamanho do lago, com a floresta que será desmatada, mas eles não enxergam que por mais de 100 km a jusante ele vai impactar árvores centenárias e mudar toda dinâmica, é uma ignorância ecológica. E por outro lado, há pouca disposição de entender esses impactos”, continua Aroeira.

“Afeta o rio todo, afeta as florestas alagáveis e de terra firme, toda comunidade de plantas, os peixes… só que esses estudos só estão começando. Acima da barragem é muito mais bem estudado, então parece que em cima é muito maior o efeito, mas eu acredito que a gente não tenha ideia ainda de quão grande é o efeito abaixo”, alerta Angélica.

A alta mortalidade de árvores também causa outro efeito não calculado pelos estudos de impacto ambiental da hidrelétrica de Balbina: a alta emissão de metano, um dos principais gases do efeito estufa, liberados pela madeira apodrecida.

Segundo Aroeira, a solução para um processo de licenciamento mais adequado começaria com órgãos ambientais mais fortalecidos, com procedimentos padronizados e com mais servidores, o que permitiria análises mais rápidas e eficientes. Além disso, um zoneamento das áreas onde os impactos ambientais sejam considerados mais viáveis para construção de empreendimentos como hidrelétricas, o que inclusive reduziria os custos do empreendedor com medidas compensatórias.

“Acho que falta ter um debate mais honesto sobre impacto de hidrelétrica, porque tem coisa que não dá para mitigar, então a gente tem que partir do pressuposto que não será mitigado. Tendo clareza de que certas obras são inviáveis por conta de tais impactos em tais regiões, como um zoneamento, você já consegue dar mais informação e clareza pro empreendedor de que naquele local, o empreendimento dele não vai sair”, conclui.

Duda Menegassi

O audacioso plano da Nature Conservancy para salvar os oceanos do mundo

Como um projeto TED Audacious de 2019, a TNC espera desbloquear US $ 1,6 bilhão em financiamento para conservação.

Hoje, a The Nature Conservancy (TNC), uma organização ambiental internacional sem fins lucrativos, anunciou no TED em Vancouver, Canadá, um plano para aumentar drasticamente a conservação dos oceanos em todo o mundo.

Ao entregar Blue Bonds para a Conservação do Oceano em até 20 países nos próximos cinco anos, a TNC ajudará a garantir a nova proteção de até 4 milhões de quilômetros quadrados dos mais habitats oceânicos críticos para a biodiversidade do mundo – 15 aumento percentual na quantidade de oceano protegido que existe atualmente. Este plano, que foi selecionado entre mais de 1.500 candidatos ao The Audacious Project, já garantiu mais de US $ 23 milhões em financiamento de vários doadores dentre os US $ 40 milhões da TNC, em última análise, requer o desbloqueio de US $ 1,6 bilhão na conservação marinha.

Por que isso é importante? Os cientistas estimam que, com os negócios como de costume, 90% dos recifes de coral desaparecerão durante nossas vidas. Oitenta por cento da pesca global já são considerados totalmente explorados ou superexplorados. O aumento do mar e as tempestades mais fortes ameaçam 40% da população mundial. As florestas de mangue sequestram quatro vezes mais carbono que as florestas tropicais, mas estão desaparecendo em um ritmo três a cinco vezes mais rápido. Esses ecossistemas fornecem recursos e proteção cruciais para as comunidades costeiras e suas economias.Blog do Mesquita,Crimes Ambientais,Brasil,IBAMA,Meio Ambiente,Ecologia,Amazônia,Rio Amazonas,Economia,Petróleo,Poluição,Oceanos

Mas tudo não está perdido. A proteção do oceano, quando bem feita, funciona. Cabo Pulmo, na Península de Baja, no México, estabeleceu uma área marinha protegida e, 10 anos depois, reverteu o número de décadas de sobrepesca e aumentou o estoque de peixes em mais de 400%. Mas exemplos como esse são raros porque, com muita freqüência, as nações insulares e costeiras estão endividadas e não podem pagar pela conservação para tornar seu ambiente e economia mais resilientes.

“Ainda há tempo para reverter décadas de danos aos oceanos do mundo antes de chegarmos ao ponto de não retorno”, disse Mark Tercek, CEO da The Nature Conservancy. “Será preciso algo audacioso para enfrentar a proteção marinha nessa escala, o que significa pensar além das abordagens mais tradicionais de conservação dos oceanos”.

“Para proteger a vida marinha e restaurar a saúde e a produtividade de nossos oceanos, precisamos proteger muito mais áreas marinhas do planeta em sua condição natural”, disse Hansjörg Wyss, fundador e presidente da The Wyss Foundation e um financiador. Não há solução para a bala de prata, aplicando um conjunto cada vez mais inventivo de estratégias – de novas áreas protegidas e reformas de políticas a investimentos inteligentes em conservação – países e comunidades ao redor do mundo já estão começando a trazer vida de volta às áreas marinhas ameaçadas. ”

Como funciona?

Os títulos financeiros para conservação refinanciam e reestruturam a dívida dos países costeiros e insulares em grande escala.

No coração de um Blue Bond está um acordo. Uma nação costeira ou insular compromete-se a proteger pelo menos 30% de suas áreas oceânicas próximas à costa, incluindo recifes de coral, manguezais, locais de desova de peixes e outros habitats e espécies oceânicos importantes. Em troca, a TNC ajuda a reestruturar uma parte da dívida soberana do país, levando a taxas de juros mais baixas e períodos de reembolso mais longos, além de apoiar o trabalho de conservação em andamento, como melhorar o gerenciamento da pesca e reduzir a poluição.

Os cientistas da TNC criam então um plano espacial marinho com contribuições das comunidades locais, incluindo associações de pescadores, empresas de turismo e funcionários do governo. O engajamento local é fundamental para garantir que o plano apóie de maneira sustentável a economia local, enquanto protege o habitat.

Por fim, a TNC estabelece um fundo fiduciário para pagar pelas novas áreas marinhas protegidas e outras ações de conservação, usando economias da reestruturação da dívida e dólares filantrópicos. O fundo fiduciário – que é independente do governo e controla totalmente o financiamento – garante que o governo cumpra seu compromisso.

“Encontrar maneiras de proteger terras e águas – e pagar por essa proteção – está em nosso DNA”, continuou Tercek. “A Nature Conservancy trabalha com nações para projetar áreas marinhas protegidas há 30 anos. Lideramos mais de 100 projetos oceânicos cobrindo 1,3 milhão de quilômetros quadrados em todo o mundo e geramos mais de US $ 250 milhões em financiamento para a conservação marinha. Estamos empolgados com a oportunidade de aproveitar essa experiência e demonstrar a mais países que salvar a natureza é o investimento mais inteligente que eles podem fazer. ”

A TNC testou a idéia do Blue Bonds nas Seychelles a partir de 2012, e o país está agora no caminho de expandir as proteções marinhas para quase 400.000 quilômetros quadrados de habitat oceânico até 2020 – uma área do tamanho da Alemanha.

“A Nature Conservancy é pioneira na conservação da natureza – usando financiamento inovador para alimentar planos de proteção marinha cientificamente sólidos que trazem de volta à vida os corais, melhoram os estoques de peixes e protegem a vida e os meios de subsistência das pessoas”, disse Anna Verghese, diretora executiva do The Audacious Project . “Ficamos inspirados pela simplicidade do plano e pelo incrível histórico da Conservancy e esperamos ver o que a Conservancy realizará quando expandir seu alcance com o apoio alavancado por meio do The Audacious Project”.

Impacto esperado

A TNC agora pretende entregar o modelo de títulos azuis para conservação em 20 países nos próximos cinco anos. Com US $ 40 milhões em financiamento filantrópico antecipado – incluindo financiamento através do The Audacious Project, complementado por futuras contribuições filantrópicas – o objetivo da TNC é expandir sua capacidade de fechar rapidamente acordos que desbloqueiem um fluxo de receita sustentável de US $ 1,6 bilhão para a conservação do oceano. A TNC estima que existam perto de 100 países onde esses projetos poderiam ser desenvolvidos.

“Esta é a oportunidade filantrópica de uma vida”, disse Tercek. “Todo dólar que levantarmos resultará em 40 vezes o impacto. É difícil encontrar uma alavancagem melhor que essa. ”

Com seu plano de trazer Blue Bonds para 20 países, a organização espera realizar o seguinte:

Proteger 2 milhões de milhas quadradas (4 milhões de km2) de oceano
Compromissos dos países para proteger pelo menos um terço de seus recursos marinhos
Metade desses recursos marinhos são reservados para aumentar a resiliência às mudanças climáticas para as principais espécies e habitats marinhos
Economize 13% dos recifes de coral do mundo
Planos de proteção marinha personalizados garantem a proteção e restauração dos recifes de coral mais importantes
Recifes saudáveis ​​fornecem habitat para peixes, tartarugas marinhas, raias e outras espécies marinhas e “sementes” ao redor dos recifes, espalhando larvas de coral pelas correntes oceânicas
Beneficie 43 milhões de pessoas que vivem a 100 km de uma costa
A pesca saudável é protegida e a pesca degradada retorna à abundância, dando às pessoas do litoral uma fonte segura de alimento e renda
Recifes de coral, manguezais e zonas úmidas armazenam carbono, protegem as comunidades de tempestades e mares altos e reforçam as economias costeiras

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Reconversão pode ajudar a mitigar as mudanças climáticas

Um novo estudo mostrou que a reconversão pode ajudar a mitigar as mudanças climáticas, oferecendo uma gama diversificada de benefícios ao meio ambiente, com impactos regionais variados.

Pesquisa liderada pela Universidade de Sussex e publicada na revista Philosophical Transactions da Royal Society B, fornece uma avaliação global do potencial de re-silagem trófica para ajudar a mitigar as mudanças climáticas.

A reconversão trófica restaura espécies perdidas aos ecossistemas, que podem ter influências em cascata sobre toda a cadeia alimentar. Isso normalmente significa reintroduzir grandes herbívoros (por exemplo, elefantes) e predadores de topo (por exemplo, lobos), ou espécies conhecidas por projetar habitats mais diversos e complexos e beneficiar a biodiversidade (por exemplo, castores).

Mas a reintrodução de espécies não apenas influencia o ambiente local, mas também o clima. Animais, particularmente megaherbívoros (como elefantes) e grandes ruminantes (como bisões e gado) produzem metano – um gás de efeito estufa. Os grandes herbívoros também comem grandes quantidades de vegetação, o que pode impedir o crescimento de árvores. Isso impede que as árvores capturem carbono, mas, por outro lado, também pode impedir que as árvores reduzam o albedo no extremo norte e atenua o aquecimento. Os grandes herbívoros também distribuem grandes árvores semeadas que são particularmente boas na captura de carbono.

A influência dos grandes herbívoros também depende em parte dos efeitos de grandes predadores. Quanto maiores os predadores presentes, maiores as espécies de herbívoros regularmente no menu. Porém, devido às extinções passadas, as espécies sobreviventes que podem ser reintroduzidas são limitadas e isso altera o número e o tipo de herbívoros grandes que têm maior probabilidade de atingir densidades relativamente altas e, portanto, têm maior impacto em seu ambiente.

De acordo com esta nova pesquisa, todas essas relações de interação significam que a aplicação de re-silagem trófica em diferentes partes do mundo terá resultados diferentes para a mitigação climática.

O Dr. Chris Sandom, professor sênior de biologia da Universidade de Sussex, disse: “A principal coisa a lembrar aqui é que a natureza é complexa e precisa ser complexa.

“A reutilização trófica visa restaurar a natureza, incluindo sua complexidade, e depois permitir que ela siga seu próprio caminho. Esse caminho será diferente dependendo do tempo, local e chance. Mas a boa notícia é que isso também trará uma diversidade de resultados. A diversidade é boa porque as necessidades das pessoas e da natureza também são diversas.

No estudo, o Dr. Chris Sandom e colegas da Austrália, América, Dinamarca e Suécia avaliaram cenários em várias regiões do mundo para determinar onde a restauração de espécies que ainda existem hoje poderia ajudar a mitigar as mudanças climáticas.

Em algumas partes do mundo, como Europa e América do Norte, a maioria dos grandes predadores (leões) e herbívoros (elefantes) foi extinta. No entanto, com o retorno de populações saudáveis ​​de lobos, o número de herbívoros grandes restantes, como o cervo, pode ser reduzido, permitindo uma maior oportunidade de crescimento da vegetação e proporcionando efeitos mitigadores sobre as mudanças climáticas.

Owen Middleton, estudante de doutorado da Universidade de Sussex e co-autor do estudo, disse: “As extinções passadas significam que apenas uma pequena fração das espécies presentes na América do Norte e do Sul, Europa e Austrália pode ser reintroduzida em projetos de re-criação. Se todas as espécies disponíveis fossem reintroduzidas nesses locais, é provável que os predadores exerçam mais controle sobre os herbívoros do que no passado. Isso provavelmente resultaria em mais árvores crescendo com benefícios de mitigação das mudanças climáticas.

“Na África e na Ásia, onde a extinção foi menos severa, os megaherbívoros provavelmente seriam mais dominantes. Nas savanas, isso pode parar o crescimento das árvores, reduzindo o potencial de mitigação do clima, mas seria importante para a biodiversidade. É necessária uma análise regional para explorar os detalhes. ”

“Mas essas são estimativas simples de um sistema complexo. Pesquisas futuras devem se concentrar em estudos de caso regionais, que incluem a viabilidade social e ecológica da reintrodução de espécies, bem como como isso poderia ajudar com o clima e outras emergências. ”

Plantas irlandesas que são incomuns e fascinantes

Aqui está um grupo de plantas irlandesas que são incomuns e fascinantes. Apesar da perda de muitos lugares selvagens nos últimos 30 anos, eles sobrevivem principalmente.

Você pode visitar algumas das áreas selvagens restantes nos Parques Nacionais.

O medronheiro (Arbutus unedo) é uma árvore irlandesa nativa rara.
Pode ser encontrada de Cork a Sligo.

Originalmente mais comum, agora é mais frequentemente encontrado ao longo das margens dos lagos Killarney. Sua forma grisalha e casca única são lindas.

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Depois da madeira vem o gado: o desmatamento em Santo Antônio do Matupi

Bem ao sul do estado do Amazonas, perto das fronteiras de Rondônia e Mato Grosso, o  vilarejo de Santo Antônio do Matupi tem 23 oficinas mecânicas, 11 bares e restaurantes, 9 lojas de  produtos agropecuários, 8 hotéis, 4 farmácias e 3 postos de combustível. Toda essa estrutura parece incompatível com o vilarejo de cerca de 10 mil habitantes, à beira da BR 230, a estrada Transamazônica. Conhecido também pelo apelido de 180, em referência ao quilômetro da rodovia em que se localiza, Matupi é um distrito do município de Manicoré.
Matupi registra uma das maiores taxas de desmatamento do Amazonas, o que explica o disparate entre sua pequena população em comparação com sua abundante atividade econômica. Aqui o movimento começa cedo, com caminhonetes 4×4 circulando entre as fazendas. Nas chamadas agropecuárias, lojas de produtos agrícolas, a atividade também é intensa. Os clientes vêm em busca de rações, vermífugos, botas, borrifadores de agrotóxicos e o que mais for preciso para o trabalho no campo. Nas madeireiras, a fumaça sai das chaminés de grandes fornalhas e árvores gigantescas transformam-se em pilhas de madeira. A estrada é poeirenta quando faz sol e barrenta quando chove, mas o trânsito de caminhões carregando gado e madeira não para.

A origem do vilarejo reflete uma história comum da Amazônia nos últimos 50 anos. Os primeiros moradores chegaram junto com a Transamazônica, nos anos 1970, atraídos pela oferta infinita de terras a preço zero. Naquela época, para ganhar o título de propriedade bastava marcar uma área e desmatá-la. Manuel Vieira Alves, 72, chegou em 1990 e conseguiu seu pedaço de chão, depois de passar por Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. Segundo ele, a vila começou a crescer de verdade com a chegada das madeireiras, nos anos 2000: “Vieram as serrarias para cá e aí começou a atrair gente. Foi quando desenvolveu mais”.

Em 1995, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) criou o assentamento Santo Antônio do Matupi, que deu nome à localidade e atraiu migrantes vindos principalmente do sul do país.

Madeira, depois pecuária

Moradores contam que Matupi já teve mais de 50 madeireiras, a maioria ilegais. Os altos índices de desmatamento colocaram o distrito no radar da fiscalização ambiental. Houve operações do Ibama em 2009 – quando o órgão apreendeu 160 caminhões de madeira – em 2011 e 2013. Outras 9 ações de fiscalização ocorreram desde 2017. A mais recente foi em setembro de 2019, quando duas serrarias foram desmontadas. A repressão não conseguiu acabar com a atividade, mas reduziu o número de madeireiras à metade. Hoje, segundo o Ibama, existem 26 autorizadas a atuarem no distrito. Nem por isso a economia de Matupi parou de crescer. Faz alguns anos, a pecuária tomou a frente como principal atividade econômica. O distrito concentra praticamente todo gado de Manicoré – 115 mil cabeças – o que o torna o quarto maior rebanho do Amazonas. Entre 2004 e 2018, o número aumentou 800%, passando de 12,8 mil para 115 mil animais. No mesmo período, foi desmatada uma área equivalente a 82 mil campos de futebol.

José Carlos da Silva, 53, tem mais de 3 mil cabeças de gado. Sua família foi uma das primeiras a chegar a Matupi, em 1978, vinda do município de Xambrê, no interior do Paraná. Daquela época, ele lembra apenas da fome e da malária. Hoje, mora com a família em uma casa ampla e confortável, tudo graças à pecuária. “O pessoal até fala que gado é um negócio abençoado, e eu acredito que é. […] Tem os vegetarianos, né? Tem um monte de nome que eles falam lá, mas pra cá eu ainda não vi esse pessoal. Pra cá, as pessoas querem comer carne mesmo”. Da Silva acompanhou a transformação da economia local, da madeira para o gado:  “É um processo. Sempre nos lugares em que está começando, a madeira chega primeiro. Depois, vem o desmate da pecuária. Anda junto, a madeira com a pecuária”. As duas atividades também funcionam de forma parecida na hora de fugir da fiscalização ambiental. “Quantas vezes não saí correndo quando tava fazendo desmate?”, reclama Silva.

Atualmente, os bois criados em Santo Antônio do Matupi são vendidos para o abate em Manaus, Humaitá e Manicoré. Para chegar até Manaus, os animais são levados por 190 quilômetros em caminhões de boi até Humaitá, onde são colocados em barcaças, e viajam por 4 ou 5 dias pelo Rio Madeira. Outra opção é percorrer cerca de 100 km até o porto de Prainha e escoar pelo Rio Aripuanã.

O crescimento do rebanho local já atraiu a atenção de investidores. Hoje, há 2 frigoríficos em construção no distrito. Um deles pertence a um empresário local e deve ficar pronto no final de 2020. A unidade terá capacidade para abater 560 animais por dia, uma planta classificada como de porte médio. O segundo frigorífico está quase pronto e pertence ao grupo Frigonosso, dona de abatedouros em Cacoal e Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Boca do Acre (AM). A empresa foi a primeira a ser multada por descumprimento do TAC da Carne, um Termo de Ajustamento de Conduta em que os frigoríficos se comprometem a não comprar carne oriunda de desmatamento ilegal. Em ação judicial de outubro deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) pediu o pagamento de uma multa de R$ 3,8 milhões de reais, diante da “total ausência de esforços para cumprir as obrigações assumidas” pela empresa na sua unidade de Boca do Acre. Apesar da multa, o Frigonosso se prepara para abrir seu novo frigorífico em Santo Antônio de Matupi,  onde, nos últimos 10 anos, o Ibama já embargou 452 áreas de fazenda por ilícitos ambientais.

((o))eco entrou com contato com o representante do Frigonosso em Santo Antônio do Matupi, mas ele negou receber a reportagem. Também foi solicitada uma entrevista através do email institucional da empresa, sem resposta.

20 fazendas e R$ 80 milhões em multas

Se os primeiros fazendeiros a chegar aqui, nos anos 1970, chegaram com uma mão na frente e outra atrás, hoje Matupi atrai gente graúda. Douglas Pereira Louzada Neves, maior fazendeiro da região, tem 20 fazendas em seu nome, que somam 70,8 mil hectares (mais de 70 mil campos de futebol), situadas em Manicoré e no município vizinho, Novo Aripuanã. As informações constam no documento anexado a uma das 6 ações que o Ministério Público Federal abriu contra Neves, que denunciam o desmatamento ilegal de 1.661 hectares. No Ibama, Neves também se destaca pelo número de autuações: foram 40 vezes, com 8 propriedades embargadas. Somando multas do Ibama e pedidos de indenizações do MPF, o total é de R$ 79,8 milhões.

Mas quando recebeu ((o))eco em sua casa, em Santo Antônio do Matupi, Neves admitiu um patrimônio mais modesto, de 3 mil hectares de terra e 3 mil cabeças de gado. Homem de poucas palavras, explicou que veio de Colorado, em Rondônia, em busca de terras mais baratas. Questionado sobre as multas do Ibama, alertou: “Sua reportagem tá começando a ir pro lado errado. Daí, já vou desanimar de você”.

A chegada de grandes investidores como Douglas Neves à Matupi é um dos fatores que impacta a formação do assentamento original do Incra, onde agora é difícil encontrar os primeiros assentados. A maioria vendeu a propriedade para grandes fazendeiros vindos de outros estados, principalmente Rondônia: “Tem muito pouca gente daquele tempo. Uns venderam aquele lotinho e compraram área maior para fora. Tem assentado do Incra aí que vendeu aqui por R$ 10 mil e foi lá pra frente e comprou 3 vezes mais terra do que ele tinha aqui”, explica Manuel Vieira Alves.

Uma dinâmica que mantém ativa a engrenagem do desmatamento. Quem vem na frente consegue a terra quase de graça, mas arca com as dificuldades de chegar em um lugar sem infraestrutura e onde o Estado é inexistente. Quem vem atrás paga um pouco mais caro, mas chega com mais dinheiro e melhores condições de investimento. Um processo que faz parte da história de ocupação da Amazônia, como explica Gabriel Cardoso Carrero, pesquisador sênior associado do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia): “É um processo que poderia ser chamado de matogranização de Rondônia, e depois de rondonização do Amazonas. São pessoas que têm esse perfil de trabalharem mais com pecuária do que com agricultura, e que vão atrás de terras desocupadas, sem nenhuma infraestrutura. Quando a infraestrutura chega, estas terras valorizam e essas pessoas acabam por vender a terra e vão mais à frente na fronteira”.

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“Se você não se preocupa com as plantas, é possível que não saiba cuidar de outro ser humano”

A cada ano, 2.100 espécies vegetais fascinam as 250.000 pessoas que visitam o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston. Seu diretor admite que ele próprio não deixa de se surpreender com elas

O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha.
O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha. ADELINE MARCOS (SINC)

Milhares de crianças visitam anualmente o Arnold Arboretum, o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston (EUA), onde há uma norma: todos são capazes de ensinar, dos universitários aos cientistas, passando pelos funcionários.

Um deles é o biólogo William Friedman, que esteve recentemente na Espanha para participar do festival científico Passion for Knowledge (P4K), em San Sebastián. Apaixonado pelas plantas, Friedman é professor de Biologia Evolutiva e dos Organismos na Universidade de Harvard e dedicou toda sua carreira ao estudo da diversificação evolutiva das plantas.

Pergunta. Você demonstrou que as plantas têm relações especiais e se ajudam mutuamente. Nesse sentido, são melhores que nós?

Resposta. Do ponto de vista de um biólogo evolutivo, entre as plantas ocorre uma grande quantidade de mortes prematuras. Por cada pássaro que você vê pela janela, 199 morreram. Por cada planta que você vê, quantas sementes caíram ou cresceram um pouco e não conseguiram ir além? As plantas fazem coisas maravilhosas ao cooperar entre elas, mas às vezes têm um lado sombrio.

P. Que aspecto das plantas mais o surpreendeu ao longo de sua carreira?

R. Tive surpresas incríveis ao longo de minha vida, sobretudo com o estudo da origem evolutiva das plantas de flor, que são um grupo muito recente, o mais jovem. Como é possível então que estejam por toda parte? Estudei o tecido interior das sementes onde as mães põem seu alimento, e que depois vai para o embrião. É algo que domesticamos para comer, o chamado endoesperma. Comemos um grão de arroz ou de milho porque está cheio de nutrientes. Descobri muitas coisas sobre este processo.

P. Como o quê?

R. Que mães e pais diferem quanto à contribuição nutritiva desse tecido, e podemos ver isso com análises genéticas. Quando observo uma semente, posso ver os genes da mãe e os do pai, como estes debatem sobre quanto alimento deveria haver. Estou há vinte anos me perguntando se pais e mães discutem sobre como alimentar a seu broto, e nos cinco últimos anos descobrimos…

P. E quem ganha?

R. Ah [risos], pois a verdade é que depende. Essa é a questão. Em geral, os pais são doadores de esperma, e as mães do óvulo, mas além disso eles têm que alimentar. Alguém se envolve mais que o outro, que só fornece os seus genes. Isto ocorre com os animais, mas também com as plantas.

P. Então, o que quer um pai quando dá seus genes a uma semente da mãe?

R. Que essa semente tenha todo o alimento possível. As mães têm muitas sementes, mas selecionam e rejeitam as que acreditam que não são boas, porque têm recursos limitados e precisam decidir onde investem seu alimento.

P. E ao analisar essas sementes, que mais se pode ver?

R. Nos estudos de genética molecular se pode ver inclusive como tudo isto ocorre. Como fazem diferentes investimentos, os pais são egoístas, e as mães tentam tomar decisões universais. Se uma mãe com 100 sementes só tem comida para 50, em quais vai investir? Ela vai se perguntar quais são as melhores. As fêmeas reconhecem as sementes que podem estar aparentadas geneticamente e fecham a chegada do pólen de maneira bioquímica. Estão continuamente filtrando os pais. É uma das grandes histórias das plantas, e não creio que muita gente a conheça.

P. Quando rejeitam um pai, podem escolher outro?

R. No caso dos pinheiros, que polinizam por meio do vento, a mãe recebe o esperma de muitos pais, e assim pode escolher. Se insetos entrarem em jogo, a cada flor chegam pais de diferentes origens, e as mães faz que compitam entre si.

P. Mas como sabem se são bons pais?

R. Conhecem os atributos genéticos do pai, é incrível. Em alguns casos, saberão se o pai é um parente direto; em outros saberão se não é um bom partido, e então as mães interromperão a fertilização. E inclusive quando a fertilização já começou elas podem abortar as sementes. Durante muitos anos me diverti entendendo que as plantas, como os humanos e outros animais, têm conversas entre progenitores e tomam decisões.

P. Quando começou a se interessar pelas plantas?

R. Cresci no campo, mas foi nas aulas de Biologia do colégio onde me interessei mais. Não era bom, mas eu gostava tanto… Uma manhã, estávamos no laboratório e tínhamos um porco peludo morto em formol, que tínhamos que dissecar. Não gostei nada. Não tinha nem ideia de como os animais funcionavam. Então pensei que talvez não devesse ser biólogo [risos]. Mas de repente apareceram as plantas, e senti com elas uma conexão instintiva e profunda. Tive muita sorte em experimentar essa sensação com as plantas e seguir em frente.

P. Então na verdade foram as plantas que o escolheram…

R. A verdade é que sim, e me sinto muito afortunado de ter descoberto seu mundo [risos].

P. De todas as características das plantas, qual delas foi para você inimaginável quando começou a estudá-las?

R. As plantas fazem muitas coisas estranhas. Conhece o ginkgo? É uma árvore muito antiga, presente nas cidades. Tem dois sexos (os que fazem o pólen, os machos, e os que fazem as sementes, as fêmeas), mas você não vai vê-las juntas em Madri. Não verá nenhuma semente pela cidade, e a razão é que têm um cheiro muito forte, então só os machos são plantados. No jardim botânico de Harvard temos fêmeas, e cheiram a vômito por causa do ácido butírico do seu interior. As sementes estão dispersas pelo chão, e cheira como se todo mundo na cidade tivesse vomitado ali. É muito forte.

P. E que sentido tem que as fêmeas façam isto?

R. Algum animal extinto achou que cheiravam muito bem e começou a comer as sementes para dispersá-las. A planta ficou com esse código, que cheira péssimo para nós, mas você pode ver todo tipo de moscas, que dispersam sementes, voando ao redor.

P. Foi sua maneira de se adaptar e sobreviver, mas em geral as plantas enfrentam muitas ameaças…

R. Sim, como os patógenos invasores que se deslocam em pallets de madeira transportados em navios. Como movimentamos coisas pelo mundo todo e às vezes não tomamos cuidado, continuamos introduzindo ameaças que poderiam aniquilar toda uma espécie. Podem ser insetos, cogumelos ou bactérias nos lugares mais insuspeitos, como as solas dos meus sapatos.

P. Todo isso piorará com a crise climática.

R. Claro. A mudança climática agrava a situação. Posso lhe dar um exemplo. No jardim botânico temos magníficas faias que padecem de uma enfermidade causada por um cogumelo invasor. As árvores podem lutar contra a epidemia, como você e eu fazemos se estivermos saudáveis, mas o que acontece se estivermos estressados, se formos mais velhos ou nos alimentarmos mal? Neste sentido, as plantas são exatamente iguais aos humanos. Há três anos tivemos a pior seca da região. Durante dois meses sofremos condições de aridez, e nos dois anos posteriores as árvores doentes terminaram por perecer. A doença ganhou. As faias estavam tão estressadas por causa da seca que não puderam lutar. Tivemos que abater árvores de três metros de largura que tinham morrido. E isto está sendo visto com insetos e aves por todo o mundo. A questão é se nos preocupa ou não. Acredito que à maioria sim, mas não aos que têm o poder para tomar decisões.

P. Por que se preocupar com as plantas, perguntarão muitos?

R. Claro, não somos nós. Os pássaros não somos nós, os insetos não somos nós. Se você não consegue se preocupar com uma planta, é possível que não consiga cuidar de outro ser humano. Dizem que devemos nos preocupar com a natureza porque, se não, perderemos a capacidade de alimentar o mundo, mas não acredito que seja a principal razão.

P. E qual seria?

R. Pensar que todos estes organismos são nossa comida e dependem de nossa exploração é ser míope. Há um valor mais profundo. Devemos nos preocupar porque compartilhamos a Terra com eles.

P. As plantas estão há milhões de anos se adaptando, mas continuam mantendo essa capacidade agora?

R. As plantas podem se adaptar, sim. Podem se adaptar rapidamente? Sim. Podem se adaptar à velocidade com que estamos mudando o planeta? Veremos. Há 20.000 anos, em Boston, não havia nem plantas nem árvores, havia uma geleira, e agora a cidade está repleta de vegetação. As plantas se movem, mudam, crescem e se adaptam. Entretanto, as mudanças que estamos introduzindo agora são tão rápidas que certos ecossistemas tombarão.

P. O que acontecerá? Não poderemos voltar ao ponto de partida?

R. Se afinal der errado, sem dúvida será nossa culpa. Não poderemos voltar. Será um novo futuro.

P. E como será esse futuro?

R. Não sei… Talvez seja sem humanos. Mas de uma coisa estou certo: que esse futuro será muito rico graças à evolução. O mais incrível da vida é que é resistente. O equilíbrio pode voltar. Talvez nós não sejamos suficientemente resistentes, mas em milhões de anos é possível que o planeta continue sendo verde e continue tendo animais. Se quisermos continuar sendo parte disso, temos que ser mais cuidadosos.

P. Pode ser que atualmente estejamos começando a mudar. Não notou?

R. Sim, há cada vez mais consciência ambiental. Há 40 anos, quando comecei meus estudos, os cientistas não falavam com o público, achavam não ser parte do seu trabalho. Nos últimos 20 anos, o jornalismo científico virou uma maneira muito poderosa de ajudar os cientistas — que não eram bons explicando coisas — a se conectarem com as pessoas. Ser cientista não é só fazer ciência. Somos cidadãos encarregados de conscientizar os outros.

P. Algum dia saberemos tudo das plantas?

R. Não acredito… Há um poema de Alfred Tennyson chamado Flower in the Crannied Wall, de 1863, que é a resposta a sua pergunta. Se eu pudesse conhecer totalmente cada uma das plantas, conheceria todo o universo. Mas não podemos. Cada planta é tão complicada que acaba sendo impossível. É isso que torna a natureza seja tão maravilhosa.

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Comunidade indígena vítima de aplicação de agrotóxico será indenizada

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Comunidade Indígena Tey Jusu (Foto: Arquivo)

A Justiça Federal condenou um proprietário rural, um piloto agrícola e uma empresa a pagarem, solidariamente, R$ 150 mil à Comunidade Indígena Tey Jusu, vítima de aplicação irregular de agrotóxico.
Segundo o Ministério Público Federal, a comunidade –localizada em Caarapó (MS), 270km ao sul da capital, Campo Grande— é a primeira do estado a ser indenizada por danos morais coletivos. Eles foram condenados com base no Inquérito Policial nº 0015/2016, instaurado para apuração do delito previsto na Lei nº 7.802/98: ação ilícita de aspersão de agrotóxicos em descumprimento às exigências estabelecidas na legislação. Não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a uma distância mínima de quinhentos metros de povoações.

O fato ocorreu em 2015. A aspersão causou, em crianças e adultos, dores de cabeça e garganta, diarreia e febre.

Os membros da comunidade relataram que o avião sobrevoou os barracos de sete famílias, derramando o agrotóxico diretamente sobre elas. Depois, sobrevoou outros barracos junto a uma plantação de milho.

Os indígenas produziram vídeos que mostram um avião agrícola em operação, utilizado na aplicação de fertilizantes e agrotóxicos, em que era possível ler o prefixo da aeronave. O piloto do avião foi identificado. O MPF constatou que foi aspergido sobre a comunidade o fungicida Nativo, classe III.

A Justiça concordou com o argumento do MPF, de que os barracos de lona dos indígenas estavam localizados a menos de 500 metros de distância do local onde ocorreu a aplicação de produtos agroquímicos.

Muitos estavam a apenas 30 ou 50 metros de distância da lavoura. Segundo o MPF, os responsáveis assumiram o risco ao executar a aplicação de agrotóxicos.

Os réus sustentaram que a culpa pela intoxicação seria das vítimas, ao argumento de que os indígenas teriam se afastado da aldeia localizada a mais de 500 metros da área de aplicação do produto para adentrar a lavoura exatamente no dia e hora da aspersão.

A Justiça considerou que os laudos apresentados pelo MPF comprovam a existência de barracos próximos à plantação e não o mero trânsito.

Por fim, a sentença afirma que a condenação por dano moral coletivo é “resultante de ofensa à coletividade indígena – lesão à honra e à dignidade -, consubstanciada na exposição, de parcela de seu grupo, à substância imprópria à saúde humana. A dignidade humana é por excelência o bem jurídico supremo. E, para sua proteção, impõe-se o dever jurídico de todos e do próprio Estado em respeitar a dignidade do próximo, seja o próximo um negro, um branco, um índio ou pertencente a qualquer outra raça ou etnia”.(Frederico Vasconcelos/FolhaPressSNG)

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Meio Ambiente: Degradação da Amazônia já chegou a ponto irrecuperável

Pesquisa conduzida por cientista brasileiro aponta que desmatamento e mudanças climáticas podem aumentar área atingida por queimadas, transformando floresta de sumidouro em fonte de carbono.    

Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019

Professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o engenheiro florestal brasileiro Paulo Brando costuma usar uma analogia simples do mundo financeiro para explicar a importância da preservação da Amazônia. Ele convida o interlocutor a imaginar uma conta poupança. “Bem grande, cujos juros geram bastante dinheiro. Mas em vez de dinheiro, nela há um estoque de carbono. Ou seja, os juros são a capacidade de absorção de mais carbono.” Quanto mais você tira o dinheiro, menos juros essa conta rende. No caso das queimadas na Amazônia, estamos tirando a capacidade de absorção do carbono. Então basicamente os incêndios florestais somos nós queimando dinheiro”, compara o cientista.

Nesta sexta-feira (10/01), o periódico científico Science Advances traz uma pesquisa conduzida por Brando, na qual ele modelou os cenários da floresta brasileira diante das queimadas e do aquecimento global. E o futuro não é nada animador. A Amazônia caminha para o colapso, diz o pesquisador.

“No pior dos cenários, 16% da floresta serão queimados daqui para a frente até 2050. Junto a outros fatores de degradação, isso vai interagir com o clima”, afirma ele, à DW Brasil. “Estamos jogando uma roleta russa ambiental. Não sabemos qual é o número [a data exata do colapso], mas estamos chegando cada vez mais perto. Se chegarmos, a coisa vai para o buraco. O fogo é catalisador do processo.”

A pesquisa mostra que os níveis de desmatamento e o cenário previsto para o aquecimento global irão contribuir para intensificar ainda mais as queimadas na Amazônia.

Em agosto do ano passado, a floresta brasileira teve uma quantidade de incêndios bem acima da média. No período, foram registrados 30.901 focos de incêndio – a média registrada entre 1998 e 2018 para o mesmo mês era de 25.853. Comparando somente com o mês de agosto do ano anterior (10.421 focos de incêndio), a alta foi de 196%.

“O resultado desse processo é que, com a intensificação do fogo, haverá mais emissão de carbono na atmosfera. O desmatamento interage com mudanças climáticas e pode aumentar ainda mais a área queimada e as emissões pelo fogo”, comenta Brando. Trata-se de um ciclo vicioso, diz.

“Nosso estudo prevê o impacto disso na floresta. A Amazônia se protege do fogo porque tem um sub-bosque úmido, que não deixa as folhas secarem. A proteção da floresta é este sub-bosque. Quando há uma seca, uma temperatura mais alta, as plantas podem ficar estressadas hidricamente e jogar folhas para reduzir esse estresse. Com isso, entra mais luz, seca o sub-bosque e acaba essa proteção.” Então, conforme explica o cientista, o fogo gerado nas zonas desmatadas, por ação humana, “escapam e invadem a área de floresta primária”.

Segundo Brando, o estágio desse processo já é tão grave que, mesmo se todo o processo de desmatamento fosse interrompido hoje, o índice de incêndios prováveis para as próximas décadas seria reduzido em apenas 50%. “Se compararmos a Amazônia que existia na primeira década dos anos 2000 e a que deve existir em 2050, a área queimada quase dobra”, afirma.

De acordo com a pesquisa, a degradação da Amazônia já chegou a um ponto irrecuperável. “Em nossas simulações, a floresta não consegue se recuperar totalmente mais, mesmo em uma condição sem nenhum fogo”, pontua. “Mesmo que haja, na natureza, uma tendência de recuperação, [no atual estágio] isso não é suficiente, porque as mudanças climáticas não permitem. Então tem mais carbono ficando na atmosfera.”

Ciclo vicioso

“Os cenários futuros de clima gerados por modelos climáticos, que têm incertezas, sugerem que, no futuro, devido ao aumento de temperatura de de concentração de dióxido de carbono, a floresta pode entrar em colapso, por não conseguir mais absorver mais carbono – e passar a emitir carbono”, comenta o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Segundo ele, isso significa a transformação de uma floresta sempre verde numa área florestal do tipo secundária ou mesmo na chamada savanização da Amazônia, ou seja, numa “vegetação tipo cerrado”.

“[Esse cenário] pode agravar a situação atual de aquecimento global”, completa o climatologista. “Podemos ter um clima mais seco, quente. E isso pode favorecer mais o risco de fogo e queimadas, que no final liberam ainda mais dióxido de carbono.”

De acordo com o climatologista Carlos Nobre, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), a floresta “não perturbada” tem absorvido nas últimas décadas uma quantidade que varia entre 1 bilhão e 2 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano.

“Globalmente, as atividades humanas emitem cerca de 40 bilhões de toneladas por ano”, afirma ele. “Portanto, a Amazônia retira da atmosfera entre 2,5% e 5% de todo o dióxido de carbono emitido. Se ela se tornar uma fonte de carbono, tanto pelo seu desmatamento, pelo aumento da destruição da floresta pelo fogo, quanto pelo próprio aumento da morte de árvores devido às mudanças climáticas, perde-se este importantíssimo serviço ecossistêmico para o planeta.”

Ação humana

Os incêndios ocorridos em 2019, concordam os especialistas, estiveram diretamente ligados à ação humana. “2019 não foi um ano anormalmente seco, como foi 2016, na Amazônia. Ainda assim, os desmatamentos e as queimadas induzidas diretamente por ações humanas aumentaram muito. O número de queimadas e a área queimada na Amazônia brasileira quase dobraram em 2019 em relação a 2018 e foram até bem maiores do que em 2016, ano de uma seca extrema”, diz Nobre.

“Isto é, o aumento de queimadas não pode ser atribuído somente a fatores de secas extremas. A ação humana em desmatar e colocar fogo para abrir novas áreas para a agropecuária contribuem muito para o aumento das queimadas”, acrescenta.

Segundo o climatologista, também o tradicional uso do fogo na agricultura tropical contribui para uma maior ocorrência de queimadas. “Muitas das áreas de florestas que pegam fogo são contíguas a áreas de agricultura. É o fogo para limpar a pastagem ou resíduos de culturas agrícolas escapam e propagam pelo chão da floresta. Podem propagar por centenas de metros no chão da floresta, queimando a biomassa da serrapilheira, mas também afetando árvores e aumentando a mortalidade de muitas árvores, que vão morrendo em anos subsequentes”, explica.

“As queimadas na Amazônia são maiormente geradas pelo homem, e com atmosfera e superfície secas o fogo se propaga rapidamente. O ano 2019 é sim uma mostra do que pode acontecer se aquecimento global aumenta e se desmatamento aumenta, mas não podemos dizer que a situação de 2019 vai se repetir em todos os anos seguintes”, acrescenta Marengo.

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19 fatos que marcaram o clima em 2019

A ativista Greta Thunberg com sua placa de “greve escolar pelo clima” (Foto: Cherwell.org).

Aquele que caminha para ser o segundo ou terceiro ano mais quente da história também foi quente para o noticiário ambiental. Em 2019, o mundo despertou para a emergência climática, jovens tomaram as ruas, idosos famosos foram presos em atos pelo clima e governos mostraram que não conseguem responder aos apelos da população.

No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro promoveu a agenda ambiental a inimiga, paradoxalmente dando a ela uma visibilidade pública inédita. Atravessamos uma crise ambiental crônica chamada Ricardo Salles, com episódios agudos: recorde de queimadas em agosto, recorde de derramamento de óleo em setembro, recorde de desmatamento em novembro. Em janeiro, o Brasil teve o desastre ambiental mais fatal de sua história, com 270 mortos após o rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho. O governo aparentemente está respondendo à falha de regulação que permitiu esse crime com menos regulação. Em agosto, as queimadas na Amazônia botaram o país no centro de uma crise internacional, reforçada pelo pico no desmatamento confirmado em novembro.

Nesta retrospectiva, selecionamos alguns dos eventos que marcaram a luta contra a mudança do clima e os combustíveis fósseis neste ano.

1 – Pirralha porreta

Greta Thunberg encara Trump na ONU (Foto: reprodução de TV)

Em dezembro de 2018, uma adolescente loira de tranças aparentando menos que os 15 anos que tinha caminhava incógnita pelos corredores da conferência do clima de Katowice, na Polônia. Um ano depois, Greta Thunberg não conseguiria repetir as aparições discretas na COP de Madri: elevada a status de celebridade global, a ativista sueca, 16, arrasta multidões e fieiras de câmeras aonde quer que vá. Suas greves solitárias às sextas-feiras, quando matava aula para sentar-se diante do Parlamento sueco cobrando mais ação contra a crise climática, se transformaram em 2019 num movimento global, o Fridays For Future. Greta proferiu discursos furiosos sem aliviar para os adultos no Fórum Econômico Mundial, em fevereiro (“Eu não quero a esperança de vocês. Quero que vocês entrem em pânico”) e na Assembleia Geral da ONU, em setembro (“Como ousam?”). Inspirou milhões de jovens a participarem da maior marcha pelo clima da história, em 20 de setembro. Atraiu a ira de néscios, sobretudo da extrema-direita. E tornou-se a pessoa do ano da revista Time por ter capturado como nenhum ativista antes dela a hipocrisia do discurso da esperança e o abismo entre as boas intenções declaradas dos governos e seus atos reais contra os gases de efeito estufa – um dia depois de ser chamada de “pirralha” por Jair Bolsonaro.

O movimento de jovens foi reforçado por diversos movimentos de adultos. Na Europa, o coletivo Extinction Rebellion promoveu atos de desobediência civil que pararam Londres por dias (e terminaram com um monte de gente na cadeia). Nos EUA, celebridades como a atriz Jane Fonda iniciaram em outubro protestos na frente do Congresso. Fonda, 81, disse que sua meta era ser presa uma vez por semana. Até 20 de dezembro, ela já havia sido detida quatro vezes em 11 atos.

2 – Desmatamento em alta

Foto: Reprodução Facebook MCTIC.

A taxa de desmatamento na Amazônia cresceu 29,5% no período medido entre agosto de 2018 e julho de 2019. Trata-se do maior desmatamento em uma década e do terceiro maior incremento na taxa desde que o Inpe começou a fazer as medições do sistema Prodes, em 1988.

A escrita já estava no muro desde agosto do ano passado, quando o candidato Jair Bolsonaro prometia acabar com o Ibama e com as ONGs, estimulando desmatadores na Amazônia – no período eleitoral, o desmatamento cresceu 50%. Após um primeiro quadrimestre chuvoso, o desmate começou a mostrar aceleração forte em maio, batendo recordes sucessivos em junho (98% de aumento em relação a julho anterior), julho (274%) e agosto (223%). O sistema Deter, do Inpe, precisou mudar duas vezes a escala dos gráficos em sua página na internet, para acomodar taxas mensais sem precedentes. O ministro do Meio Ambiente chamou a divulgação dos dados de “sensacionalismo”, depois encomendou a seu fiel escudeiro Evaristo de Miranda um PowerPoint mostrando supostos “furos” no Deter, que justificariam a contratação de um sistema privado para “complementar” as informações do Inpe. Quando o Prodes saiu, mostrando a perda de 9.762 km2 de floresta e confirmando os alertas do Deter, o ministro tentou fugir para a frente e culpar os países ricos por não darem dinheiro para a conservação.

3 – Brasil negacionista

O chanceler Ernesto Araújo, que nega o aquecimento da Terra (Foto: Arthur Max/MRE).

Havia um tempo em que os brasileiros podiam se gabar de não precisarem discutir em praça pública se o aquecimento global é real ou não. Aceitávamos a ciência e dávamos risadinhas arrogantes do mundo anglo-saxão, onde o debate público foi capturado pelo lobby fóssil, o que atrasou em 20 anos a tomada de providências contra a crise do clima.

Isso mudou com a eleição de 2018.

O Brasil de Bolsonaro entrou para o grupo dos países nos quais o negacionismo climático é política de Estado. Por via do escritório de importação ideológica instalado na Virgínia, compramos o pacote fechado dos movimentos obscurantistas dos EUA. O ministro das Relações Exteriores professa a variante xucra do negacionismo, segundo a qual a ciência climática é uma invenção da esquerda para destruir o Ocidente e criminalizar o consumo de carne (e o sexo heterossexual). O ministro do Meio Ambiente é um mais alinhado com o negacionismo “prafrentex”, do século 21: admite que a mudança climática existe, mas questiona se é causada pelos humanos. Os ministros não estão sozinhos: o Senado brasileiro agora convoca negacionistas para audiências públicas e tem um negacionista como presidente da comissão mista de… Mudanças Climáticas. Para além da vergonha alheia, tal disseminação do negacionismo significa que nenhuma ação real no clima deverá ser adotada por este governo.

4 – RIP Fundo Amazônia

Logomarca Fundo Amazônia – Logo Floresta.

O que você faz quando tem uma floresta de 4 milhões de quilômetros quadrados para preservar e países ricos te dão quase R$ 3,5 bilhões para isso? Se você é o ministro Ricardo Salles, a resposta é simples: você chuta tudo para o alto porque tem birrinha de ONG.

Desde fevereiro, Salles tem tentado controlar o Fundo Amazônia, uma iniciativa bem-sucedida de pagamentos por redução de desmatamento (REDD+) em vigor desde 2008 numa parceria entre BNDES e os governos da Noruega e da Alemanha. O objetivo do ministro era cortar todos os recursos repassados à sociedade civil e distribuir o dinheiro a seus amigos do agro. Sugeriu, sem nunca ter provado, que ONGs estariam malversando a verba. Ou que o fundo não tinha critérios. Ou que o BNDES, um banco, não sabia gerenciar dinheiro. Tentou aparelhar os comitês gestores do fundo. Só que os doadores nunca toparam. #Xatiado, Salles extinguiu os comitês e desde então vem declarando que a retomada do fundo está “em negociação”. Na prática, o Fundo Amazônia está morto. Governadores da Amazônia, que juntamente com a União recebiam a maior parte do recurso, já estão atrás de doações diretas.

5 – Galvão não se dobra

Foto: Google.

Em 19 de julho, diante das notícias sobre a explosão do desmatamento na Amazônia em junho, Jair Bolsonaro inventou uma mentira para escapar à responsabilidade. Chamou a imprensa internacional para dizer que os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram “mentirosos” e que o diretor do Inpe, o físico Ricardo Galvão, 72, devia estar “a serviço de alguma ONG”. O presidente só não contava com a reação de Galvão. No dia seguinte, Galvão declarou ao jornal O Estado de S.Paulo que a atitude de Bolsonaro foi “pusilânime e covarde”. A declaração lhe custou o cargo, mas ajudou a preservar o Inpe, instituição que mede desmatamento na Amazônia por satélite há mais de 30 anos. Os holofotes da opinião pública passaram a ficar tão em cima do instituto que qualquer tentativa do governo de manipular os dados seria imediatamente percebida. A integridade do cientista e sua decisão de peitar o governo tornaram Galvão um herói nacional. Em dezembro, ele abriu a lista da prestigiosa revista Nature das dez pessoas que fizeram a diferença na ciência no mundo em 2019.

6 – O fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente

Da esq. para a dir.: José Carlos Carvalho, Sarney Filho, Izabella Teixeira, Rubens Ricupero, Marina Silva, Edson Duarte e Carlos Minc em reunião de ex-ministros (Foto: OC).

Em dezembro de 2018, quando Ricardo Salles foi escolhido para ser ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, o Observatório do Clima alertou que o movimento visava extinguir na prática o Ministério do Meio Ambiente sem o ônus de fechá-lo formalmente. A nomeação de um ruralista e então réu (ora condenado) por improbidade realizava o desejo de subordinar o MMA à pasta da Agricultura. Gostaríamos de estar errados quanto a isso.

Mas o primeiro ano da gestão Salles foi exatamente o que se esperava: o de desmonte acelerado do ministério, denunciado inclusive por oito dos nove ex-ministros vivos. O desmonte começou na própria estrutura da pasta, que no primeiro dia de governo perdeu a secretaria de Clima e Florestas (responsável por implementar os compromissos do Brasil no Acordo de Paris), a Agência Nacional de Águas e o Serviço Florestal Brasileiro. Aprofundou-se com a militarização do ICMBio, o esvaziamento das chefias do Ibama e dos cargos de chefia do próprio ministério, o aparelhamento do Conama, a mordaça às comunicações e a execução orçamentária pífia, mesmo com dinheiro em caixa e um monte de problemas ambientais para resolver. Até 25 de novembro, o empenho orçamentário da administração direta do MMA havia sido de menos de R$ 3 milhões, contra R$ 35,8 milhões em 2018.

7 – A “foice no Ibama”

Multado em 2012 por pesca ilegal numa unidade de conservação em Angra dos Reis, Jair Bolsonaro passou o primeiro ano de governo usando a Presidência para promover uma vendeta contra o Ibama, que ele chama de “indústria da multa”. Sob a batuta do ministro Ricardo Salles e execução do presidente Eduardo Bim, a autarquia passou a perseguir os próprios fiscais, abandonou estratégias de inteligência contra o crime ambiental, deixou a maioria de suas superintendências nos Estados acéfalas, censurou as comunicações com a imprensa – um elemento importante de dissuasão de crimes ambientais –, divulgou locais de operação na internet, alertando os criminosos, perdeu recursos para áreas estratégicas como combate ao fogo e viu a mais alta figura da República ordenar o fim da destruição de equipamentos apreendidos de bandidos em áreas protegidas federais. Funcionou: o Ibama aplicou em 2019 o menor número de multas em 15 anos, de acordo com dados públicos obtidos pelo OC e publicados no relatório The Worst is Yet to Come (“O Pior Ainda Está por Vir), lançado na COP25. O número de multas por desmatamento na Amazônia (3.445) foi o menor desde 2012, e o desmatamento foi o maior desde 2008.

8 – Indígenas viram alvo

Paulo Paulino Guajajara, guardião indígena assassinado (Foto: Jesus Pérez-chuseto.com).

Terras indígenas na Amazônia estocam o equivalente a 42 bilhões de toneladas de gás carbônico, sendo portanto fundamentais para o equilíbrio climático global. Mas elas também ajudam a manter o ciclo de chuvas no Brasil e conservar a biodiversidade – além, claro, de garantir a sobrevivência de mais de 170 povos.

Apoiado pela ala militar, pelos liberais e pelos evangélicos, Jair Bolsonaro abriu a temporada de caça às terras indígenas, vistas como um entrave ao “desenvolvimento” (que é como eles chamam a exploração de produtos primários vendidos a preço de banana no mercado internacional) e uma ameaça à “soberania”. Bolsonaro tem prometido abrir essas terras ao garimpo, à agropecuária e à extração de madeira. Na ponta, as promessas vêm sendo entendidas como um “liberou geral”. De janeiro a setembro, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) registrou 160 invasões a terras indígenas, contra 111 no ano passado. O desmatamento em TIs subiu 65%. E líderes indígenas vêm sendo assassinados, como o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, morto numa emboscada em novembro na TI Arariboia, invadida por madeireiros (mais dois guajajaras foram mortos no começo de dezembro na mesma terra). O estímulo às invasões levou Bolsonaro a ser denunciado por genocídio ao Tribunal Penal Internacional.

9 – ONGs viram alvo

Os #4deSantarém deixam a prisão.

Durante a campanha, Jair Bolsonaro prometeu “acabar com todo tipo de ativismo” no Brasil. Em seus discursos, o presidente tem incluído as ONGs na mesma categoria do pessoal que tem de ir para a tal “ponta da praia”. O ministro Ricardo Salles tem tentado cumprir a promessa presidencial sufocando financeiramente as ONGs: primeiro com o ofício (ilegal e do qual teve de recuar) determinando a suspensão de todos os convênios do ministério com organizações do terceiro setor; depois, congelando o Fundo Amazônia. Em abril, um decreto presidencial eliminou centenas de colegiados com participação da sociedade civil em todo o Executivo, limitando o controle social da administração federal. Em seguida, o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) foi alterado, mais uma vez para limitar a participação social e aumentar o controle do governo.

A nova fase da eliminação do ativismo parece ser a criminalização. No final de novembro, quatro brigadistas voluntários foram presos e o escritório do Projeto Saúde e Alegria foi invadido pela Polícia Civil de Santarém (PA), sob a acusação surreal de que os ambientalistas estariam por trás dos incêndios feitos por grileiros numa área de proteção em Alter do Chão. Numa omissão inexplicável do governador Helder Barbalho (MDB), os quatro foram indiciados na semana do Natal.

10 – Amazônia em chamas

Incêndio em Alter do Chão em setembro (Foto: Eugênio Scannavino).

Em 10 de agosto, fazendeiros da região de Novo Progresso, no Pará, combinaram por WhatsApp um “Dia do Fogo”, uma espécie de queimadaço coletivo de áreas que eles haviam derrubado. A queima tinha o objetivo declarado de “mostrar serviço” ao presidente Jair Bolsonaro. E iniciou uma crise internacional. Naquele mês, o número de queimadas na Amazônia foi o maior em sete anos – o triplo do registrado no mesmo mês do ano passado. Foi o maior número de focos da queimada registrado num mês de agosto desde o início da queda no desmatamento que não esteve associado a nenhum evento de El Niño ou seca extrema.

O governo reagiu primeiro tentando desqualificar o dado (eram “fogueiras de acampamento”, nas palavras imorredouras do chanceler), depois relativizá-lo e, por fim, quando a realidade tornou-se inescapável, restou culpar as ONGs e os índios pelas queimadas. Mas todos os dados científicos mostravam que as chamas nada mais eram do que a etapa final do desmatamento da floresta, que havia acelerado no segundo semestre, como vinha mostrando o Inpe. Em setembro, Bolsonaro determinou a contragosto que o Exército fosse deslocado para combater o fogo. A presença dos militares, aliada ao retorno das chuvas, fez o número de focos cair em outubro. Mas o desmatamento teve um repique em novembro, tão logo o Exército saiu de campo. Na estação seca, toda essa floresta derrubada queimará novamente.

11 – Califórnia em chamas

Os incêndios florestais devastadores no Estado americano da Califórnia tornaram-se endêmicos, como os cientistas previam há 30 anos. Em outubro de 2019 os californianos assistiram a mais uma temporada grave de fogo, mas menos severa do que nos anos de 2017 e 2018, os piores da história, quando mais de uma centena de pessoas morreram. Neste ano, a estação de fogo veio acompanhada de blecautes maciços (algo comum nas grandes cidades brasileiras, mas inédito nos EUA). A ligação entre a infraestrutura de transmissão de eletricidade e o início dos incêndios fez a distribuidora de energia PG&E decretar falência, tornando-se a primeira falência relacionada à mudança climática no mundo.

12 – Austrália em chamas

Bombeiro resgata coala na Nova Gales do Sul, Austrália.

Do outro lado do Pacífico, a Austrália vive dias de terror desde novembro devido ao fogo, à estiagem e as altíssimas temperaturas. Enquanto esta retrospectiva era escrita, as queimadas mais devastadoras da história arrasavam o continente, cacatuas caíam mortas das árvores pelo calor e aborígenes da região central australiana eram forçados a sair de suas terras – os primeiros refugiados climáticos australianos. Em novembro, centenas de coalas morreram nos incêndios, levando a manchetes exageradas sobre a espécie estar “funcionalmente extinta”. Em 18 de dezembro, o país teve a temperatura mais alta da história: uma média nacional de 41,9oC, o que significa que em algumas localidades os termômetros bateram os 50oC. O serviço de meteorologia australiano mudou até o código de cores de seus mapas de temperatura, usando um marrom para simbolizar as regiões mais quentes – à falta de tons mais escuros de vermelho. Em 10 de novembro, a Austrália registrou, também pela primeira vez em sua história, um dia sem chuvas em parte alguma de seus 7,9 milhões de quilômetros quadrados.

O governo australiano aparentemente acha que se trata de castigo divino ou de uma “variabilidade do sistema”. O premiê australiano, Scott Morrison – eleito numa disputa apertada que tinha como um dos temas principais a crise do clima –, é um negacionista climático que quer manter a lucrativa indústria do carvão mineral. Já a ciência não hesita em classificar os incêndios e o calorão como decorrência direta da mudança do clima. Talvez os eleitores australianos ouçam a ciência da próxima vez.

13 – Fiasco madrileno

Foto: Kiara Worth / IISD.

A COP que não deveria ter sido foi, e o resultado só faz provar que ela não deveria ter sido. Rejeitada pelo Brasil, abraçada pelo Chile e desviada de última hora para a Espanha após a Primavera Chilena, a COP25 tinha duas missões: completar a negociação sobre mercados de carbono, fechando o chamado “livro de regras” do Acordo de Paris, e arrancar dos governos um compromisso forte de aumentar a ambição de suas metas de corte de emissão (NDCs) para 2020. Fracassou fragorosamente em ambas. O chamado artigo 6 do acordo (as regras para os mercados) não fechou e a exortação sobre ambição foi genérica e, digamos, pouco ambiciosa.

O resultado foi em parte responsabilidade da presidência fraca da ministra chilena Carolina Schmidt, mas em grande parte culpa dos grandes países emissores. Um em especial teve um papel particularmente deletério: o Brasil. O ministro Ricardo Salles (aquele mesmo que dizia que COPs eram apenas férias de luxo para funcionários públicos e que tentou impedir a Climate Week, uma espécie de “miniCOP” latino-americana na Bahia, alegando tratar-se de mera oportunidade para turismo gastronômico) passou duas semanas em Madri chefiando a delegação brasileira, algo inédito, já que ministros só participam dos últimos dias de negociação. Entre uma ida às compras e outra, Salles fez bullying em diplomatas brasileiros e tentou chantagear os outros países a dar dinheiro ao Brasil em troca de destravar negociações. De forma inédita, o Brasil vetou menções a direitos humanos e a emergência climática nos textos em negociação – e, na plenária de encerramento, ficou isolado ao tentar retirar a menção a oceanos numa manobra em defesa dos ruralistas. As mudanças de orientação do Brasil acabaram dando palco a países como a Austrália para melar toda a negociação, e o resultado foi um fiasco como não se via desde 2009 numa COP. A atuação deu ao Brasil o antiprêmio Fóssil do Ano, concedido pelas ONGs aos países que mais atrapalham as negociações. Em mais uma profecia autorrealizável e com o decoro que lhe é peculiar, Salles botou a culpa no processo e nos outros por uma derrocada que ele mesmo protagonizou.

14 – Etanol na vala comum

Tereza, Jair e Paulo (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil).

Alguém se lembra do etanol, aquele biocombustível vendido pelo Brasil como sustentável porque não aumentava o desmatamento nem competia por terra com culturas alimentares? Em 6 de novembro ele foi jogado na lama pelo governo Bolsonaro. E justamente pelas mãos de dois ministros considerados “técnicos” e “razoáveis”: Tereza Cristina (Agricultura) e Paulo Guedes (Economia). Numa canetada, os dois e o presidente extinguiram uma proibição em vigor há dez anos do plantio de cana na Amazônia e no Pantanal. Desta vez, tiveram o apoio da Unica, o lobby sucroalcooleiro que um ano atrás se manifestara contra o fim da proibição (um desejo antigo de alguns ruralistas) por achar que isso gerava muito dano de imagem para pouco proveito econômico concreto (achavam certo: as áreas designadas no país como aptas ara a cana equivalem a seis vezes tudo o que o Brasil plantou dessa gramínea em 500 anos, ou seja, não há nenhuma necessidade de plantar na Amazônia e no Pantanal). O decreto de novembro parece ser mais uma demonstração de poder dos ruralistas, que querem eliminar qualquer regulação sobre sua atividade. E traz um sinal para outros setores, como o da soja e o da carne, de que nenhuma restrição, estatal ou voluntária, deverá valer mais para as commodities brasileiras.

15 – Investidores reagem

Queimada em Porto Velho, Rondônia – Foto: Victor Moriyama / Greenpeace.

A política antiambiental de Bolsonaro não passou incólume a dois grupos de pessoas que se informam por outros canais que não os grupos de WhatsApp do Carluxo: os investidores e os mercados internacionais. Em agosto, 18 marcas internacionais, incluindo Vans, Timberland e The North Face reunidas sob a VF Corporation, anunciaram boicote ao couro brasileiro devido à situação da Amazônia. Em setembro foi a vez da H&M, uma das maiores redes varejistas do mundo. Também em agosto, grupos de investidores com US$ 16 trilhões em ativos pediram ao governo providências concretas contra as queimadas na floresta e demandaram às empresas que expliquem como estão lidando com o problema. Em dezembro, 87 grandes corporações, incluindo a Tesco e o Carrefour, escreveram a Bolsonaro pedindo a manutenção da moratória da soja, em vigor há 13 anos, depois que os produtores, reunidos na Aprosoja, prometeram derrubá-la.

16 – 408, 7.6, 1.1, 0.6 – os números do ano

Enquanto os políticos falham em responder à altura à crise do clima, a ciência segue contabilizando a catástrofe em relatórios anuais que mostram quão longe a humanidade está de um clima seguro. Neste ano, a Organização Meteorológica Mundial mostrou que a temperatura média do planeta (continentes e oceanos) deve fechar em 1,1ºC, o que tornará 2019 o segundo ou terceiro ano mais quente da história. A OMM também divulgou mais um recorde das concentrações de CO2 na atmosfera: 407,8 partes por milhão em 2018, 47% acima dos níveis pré-industriais. O IPCC, que lançou dois relatórios especiais (um sobre terra e outro sobre oceanos e criosfera) neste ano, mostrou que, sobre os continentes, o aquecimento global já bateu o limite de 1,5oC preconizado pelo Acordo de Paris. E, no fim do ano, o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) publicou a nova edição de seu relatório Emissions Gap, segundo a qual a humanidade precisa cortar emissões em 7,6% por ano todos os anos daqui a 2030 – algo que não está nem próximo do horizonte – se quiser ter uma chance razoável de evitar a ultrapassagem da barreira do 1,5oC. A “boa” notícia ficou por conta do consórcio Global Carbon Project: em 2 de dezembro, eles publicaram sua estimativa anual das emissões globais por combustíveis fósseis, mostrando que em 2019 elas cresceram “apenas” 0,6%, metade do ritmo verificado no ano anterior. Lembrando que deveriam ter caído 7,6%.

17 – Adieu, Paris

No dia 5 de novembro, surpreendendo a um total aproximado de zero pessoa, o presidente dos EUA, Donald Trump, mandou à ONU a carta de denúncia do Acordo de Paris, iniciando formalmente o processo de saída do tratado. A notificação afirma que o acordo climático é “oneroso” para os Estados Unidos, mas deixa em aberto a possibilidade – vista como infâmia pela comunidade internacional – de retornar caso Paris seja “renegociado” nos termos que Trump deseja. De acordo com as regras do pacto, a saída se efetiva um ano após a notificação. Ou seja, os EUA estarão fora em 4 de novembro, um dia após a eleição presidencial que pode apear Trump do poder.

Sem os Estados Unidos, o clima de cooperação internacional visto em 2015 em Paris e fundamental para o sucesso da implementação do acordo não deve se repetir. Países em desenvolvimento, por exemplo, tendem a fazer corpo mole com suas metas de corte de emissão, já que a promessa de financiamento climático dos países ricos fica mais difícil de cumprir sem o aporte do mais rico de todos eles. Por outro lado, as emissões dos EUA já estão em queda devido a mudanças tecnológicas na geração de energia – e isso dificilmente se reverterá, por mais que Trump goste do carvão mineral.

18 – #ÓleonoNordeste

Em 2019, os brasileiros quase tiveram saudades do tempo em que a coisa mais sinistra que aportava misteriosamente nas praias eram latas de maconha. No final de agosto, manchas de óleo começaram a aparecer em algumas praias nordestinas, no que se tornaria o maior desastre ambiental do litoral brasileiro: 4.500 km de praias foram contaminados, do Rio de Janeiro ao Maranhão. Em setembro, grandes quantidades de óleo tomaram praias icônicas, como a Praia dos Carneiros, em Pernambuco, e Itapoã, na Bahia, além de estuários e manguezais. Apesar das declarações do secretário da Pesca, Jorge Seif Jr., sobre a cognição avançada dos peixes, a indústria pesqueira nordestina sofreu um baque que ainda não pôde ser calculado, com a contaminação de pescado por substâncias tóxicas no óleo. O governo levou 41 dias para acionar o plano de contingência contra vazamentos, que o ministro do Meio Ambiente só descobriu que existia no fim de setembro. Os dois comitês que gerenciavam a resposta rápida haviam sido extintos. A limpeza das praias foi feita por voluntários, que colocaram a própria saúde em risco, e por funcionários locais do Ibama. Até hoje não se sabe de onde o óleo veio, nem quando vai parar de chegar às praias. Na dúvida, o ministro Ricardo Salles adorou a estratégia do chefe e culpou o Greenpeace pelo vazamento – e levou um processo. O episódio mostra mais um risco da dependência de combustíveis fósseis e indica quão preparado o Brasil não está para lidar com vazamentos de grandes proporções no pré-sal.

19 – Grile, que o Jair garante

Paulo Lopes/Futura Press.

Em 11 de dezembro, com a COP25 em pleno curso, Jair Bolsonaro deu um presentão de Natal para os criminosos que desmatam a Amazônia: baixou uma Medida Provisória liberando a regularização de terras griladas até 2018, atendendo a seus eleitores que invadiram, devastaram e ocuparam florestas públicas para especular com a terra, apostando na impunidade. A MP repete, ampliando, a anistia à grilagem que já havia sido dada por Michel Temer e que é objeto de uma ação de inconstitucionalidade no STF.

A ocupação de terras públicas é o principal motor do desmatamento na Amazônia – e, portanto, a principal causa individual de emissões de carbono do Brasil: 35% do desmatamento visto em 2019 ocorreu em terras devolutas ou sem informação sobre posse. Diferentemente do que alega o governo, a grilagem é feita em sua esmagadora maioria por quadrilhas bem organizadas e bem financiadas, muitas vezes comandadas desde São Paulo – e não por pequenos agricultores pobres. O limite de 2.500 hectares dado pela MP de Bolsonaro para tornar um imóvel passível de regularização também mostra que são os latifundiários que se beneficiam da medida presidencial.

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Desmatamento e mudança climática, em 10 imagens – Fotografias

As consequências da ação do homem sobre a natureza estão em discussão na COP25, conferência da ONU que ocorre em Madri

  • O solo é um elemento essencial nos ecossistemas, pois ajuda a regular processos importantes, como absorção de nutrientes, decomposição e disponibilidade de água, básicos para o desenvolvimento da vegetação. Nesta imagem, uma ameaça de chuva em uma área punida pela seca em Graaf Reinet, na África do Sul.
    O solo é um elemento essencial nos ecossistemas, pois ajuda a regular processos importantes, como absorção de nutrientes, decomposição e disponibilidade de água, básicos para o desenvolvimento da vegetação. Nesta imagem, uma ameaça de chuva em uma área punida pela seca em Graaf Reinet, na África do Sul. MIKE HUTCHINGS REUTERS
  • Segundo a ONU, a frequência e magnitude dos incêndios florestais, algo que ocorria anteriormente sazonalmente, está aumentando devido às mudanças climáticas com efeitos devastadores que resultam na perda de vidas, propriedades, recursos para subsistência e biodiversidade. Na foto, um policial tenta combater um incêndio em Riau, na Indonésia, em 4 de outubro.
    Segundo a ONU, a frequência e magnitude dos incêndios florestais, algo que ocorria anteriormente sazonalmente, está aumentando devido às mudanças climáticas com efeitos devastadores que resultam na perda de vidas, propriedades, recursos para subsistência e biodiversidade. Na foto, um policial tenta combater um incêndio em Riau, na Indonésia, em 4 de outubro. BARCROFT MEDIA GETTY
  • O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que em agosto deste ano foram queimados 2,5 milhões de hectares na Amazônia. A queima intencional de florestas para uso agrícola marcou um ano desastroso para o grande pulmão do nosso planeta. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro disse que "queima controlada" é uma "tradição" em algumas partes do país. Na foto, o agricultor Hélio Lombardo Do Santos e seu cachorro, em uma área de floresta queimada em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 26 de agosto.
    O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que em agosto deste ano foram queimados 2,5 milhões de hectares na Amazônia. A queima intencional de florestas para uso agrícola marcou um ano desastroso para o grande pulmão do nosso planeta. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro disse que “queima controlada” é uma “tradição” em algumas partes do país. Na foto, o agricultor Hélio Lombardo Do Santos e seu cachorro, em uma área de floresta queimada em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 26 de agosto. CARL DE SOUZA AFP
  • Um dos animais mais afetados pelo desmatamento na Ásia são os orangotangos, além de outras espécies como tigres, elefantes e rinocerontes. Nesta imagem, trabalhadores resgatam um orangotango de Sumatra de uma plantação de óleo de palma para entrar em uma área mais segura em Geulagang Gajah, na província de Aceh, na Indonésia, em 3 de agosto de 2018.
    Um dos animais mais afetados pelo desmatamento na Ásia são os orangotangos, além de outras espécies como tigres, elefantes e rinocerontes. Nesta imagem, trabalhadores resgatam um orangotango de Sumatra de uma plantação de óleo de palma para entrar em uma área mais segura em Geulagang Gajah, na província de Aceh, na Indonésia, em 3 de agosto de 2018. BARCROFT MEDIA GETTY
  • Vista aérea de um incêndio em 25 de agosto deste ano em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o número de incêndios detectados por satélite no Brasil é o mais alto desde 2010.
    Vista aérea de um incêndio em 25 de agosto deste ano em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o número de incêndios detectados por satélite no Brasil é o mais alto desde 2010. VICTOR MORIYAMA GETTY IMAGES
  • Incêndio voluntário da floresta virgem da Amazônia para a criação de áreas de gado no Brasil em uma imagem de 2017.
    Incêndio voluntário da floresta virgem da Amazônia para a criação de áreas de gado no Brasil em uma imagem de 2017. HANS SILVESTER GETTY
  • Mais de 10 milhões de pessoas no Chifre da África estão sendo afetadas pela pior seca em 60 anos. Segundo um relatório publicado pelas Nações Unidas, a escassez de chuvas no leste da África está causando uma grave crise alimentar e um aumento nas taxas de desnutrição em muitos países. Na imagem, o corpo de um búfalo deitado no Parque Nacional Mana Pools, no Zimbábue.
    7Mais de 10 milhões de pessoas no Chifre da África estão sendo afetadas pela pior seca em 60 anos. Segundo um relatório publicado pelas Nações Unidas, a escassez de chuvas no leste da África está causando uma grave crise alimentar e um aumento nas taxas de desnutrição em muitos países. Na imagem, o corpo de um búfalo deitado no Parque Nacional Mana Pools, no Zimbábue. TSVANGIRAYI MUKWAZHI AP
  • Uma mulher se desespera durante um incêndio em Pampilhosa da Serra, em Portugal, em 18 de junho de 2017. Incêndios, tsunamis e furacões fazem parte do cenário que a crise climática atraiu nos últimos anos e está muito presente nas discussões da COP25, convenção do clima que ocorre em Madri.
    Uma mulher se desespera durante um incêndio em Pampilhosa da Serra, em Portugal, em 18 de junho de 2017. Incêndios, tsunamis e furacões fazem parte do cenário que a crise climática atraiu nos últimos anos e está muito presente nas discussões da COP25, convenção do clima que ocorre em Madri. PAULO NOVAIS EFE
  • A Califórnia tem sido uma das áreas dos Estados Unidos mais afetadas por grandes incêndios. Os dois maiores incêndios dos últimos anos, o de outubro de 2017 em Santa Rosa (23 mortos quando um bairro inteiro foi arrasado) e o de novembro de 2018 em Paradise (85 mortos em poucas horas), tiveram origem em falhas na infraestrutura elétrica. Na foto, um bombeiro trabalha na extinção de um incêndio em Somis, Califórnia, em 31 de outubro deste ano.
    A Califórnia tem sido uma das áreas dos Estados Unidos mais afetadas por grandes incêndios. Os dois maiores incêndios dos últimos anos, o de outubro de 2017 em Santa Rosa (23 mortos quando um bairro inteiro foi arrasado) e o de novembro de 2018 em Paradise (85 mortos em poucas horas), tiveram origem em falhas na infraestrutura elétrica. Na foto, um bombeiro trabalha na extinção de um incêndio em Somis, Califórnia, em 31 de outubro deste ano. MARCIO JOSÉ SÁNCHEZ AP
  • A Austrália tem sofrido uma seca insistente nos últimos três anos, e também uma das mais devastadoras desde que os registros foram feitos. Cerca de 98% de Nova Gales do Sul sofre com a seca e, na mesma situação, dois terços da vizinha Queensland. Segundo dados oficiais, a seca causou prejuízo de cerca de 5.000 milhões de dólares australianos (3.000 milhões de euros). Na imagem, vista aérea de fazendas afetadas pela seca, no sudoeste do país.
    A Austrália tem sofrido uma seca insistente nos últimos três anos, e também uma das mais devastadoras desde que os registros foram feitos. Cerca de 98% de Nova Gales do Sul sofre com a seca e, na mesma situação, dois terços da vizinha Queensland. Segundo dados oficiais, a seca causou prejuízo de cerca de 5.000 milhões de dólares australianos (3.000 milhões de euros). Na imagem, vista aérea de fazendas afetadas pela seca, no sudoeste do país. DAVID GRAY REUTERS