Demanda por energia limpa ameaça uma das regiões mais ricas e férteis na Amazônia


O boom de investidores chineses em 2019 e 2020 desencadeou o caos na extração de Pau-de-balsa no Equador

Poucos meses se passaram desde que de repente, como se nada tivesse acontecido, a chamada febre do Pau-de-balsa arrefeceu no Equador. Mas as consequências de dois anos de extração frenética dessa madeira são visíveis e preocupantes.

A demanda disparou porque investidores chineses, incentivados por um subsídio estatal, chegaram com muito dinheiro em busca de toneladas dessa madeira, usada na fabricação de pás para geradores eólicos.

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A urgência em conseguir a matéria-prima e a falta de controle do governo equatoriano diante das restrições devido à pandemia contribuíram para desencadear o caos, dentre outros territórios, na província de Pastaza, uma das áreas de maior riqueza natural da Amazônia e onde se concentram dezenas de milhares de hectares desta espécie.

O boom do Pau-de-balsa encheu o bolso de muitos, mas também deixou problemas para trás.
A extração frenética dos últimos meses ameaçou o habitat de animais protegidos, aumentou a extração ilegal, precarizou o trabalho e dividiu as comunidades indígenas, afirmam diferentes fontes consultadas pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

“Foi um desastre”, descreve Pablo Balarezo, coordenador de economia florestal da Fundação Pachamama, no Equador.

As comunidades indígenas da região, proprietárias ancestrais de muitos dos hectares onde se extrai o Pau-de-balsa, ativistas e empresários pedem ao Estado que intervenha, regularize mais o setor e o proteja dos anos que alguns temem ser irreversíveis.

O Ministério do Meio Ambiente e Águas do Equador realizou operações para interceptar o deslocamento e a exploração ilegal de Pau-de-balsa, mas várias associações acreditam que o esforço não tem sido suficiente. A BBC News Mundo entrou em contato com o ministério, mas não havia recebido resposta até o momento da publicação desta reportagem.
A falta de controle do Estado durante a pandemia e o aumento da demanda causaram a febre do Pau-de-balsa ao longo do Rio Pastaza, na Amazônia equatoriana

O que é o Pau-de-balsa e para que é usado
O Pau-de-Balsa é uma árvore que cresce nas florestas tropicais, em uma altitude entre 300 e 1.000 metros.

“Na América do Sul, você o encontra na Cordilheira dos Andes, na Amazônia, no Peru, na Colômbia, na Venezuela e no Panamá. Ao norte, você encontra o Pau-de-Balsa na Costa Rica e também no sul do México”, diz Ricardo Ortiz, que se dedica à exportação de Pau-de-Balsa há mais de 25 anos.

Do Pau-de-Balsa se obtém uma madeira leve, e cada árvore oferece um rendimento considerável, uma vez que pode chegar a ter entre 25 e 30 metros de altura. Em geral, ela morre aos 6 ou 7 anos, mas “para tirar o máximo proveito, é derrubada aos 3 ou 4 anos, quando sua madeira atinge a melhor qualidade”, explica Balarezo à BBC News Mundo.

A madeira do Pau-de-Balsa é usada principalmente para fabricar pás de geradores de energia eólica.
O Pau-de-balsa fornece uma matéria-prima leve e forte para a construção de pás de geradores de energia eólica

Ortiz conta que à medida que os países mais ricos buscam fontes renováveis ​​de energia, a demanda por Pau-de-Balsa aumentou no Equador.

“Na última década, ela vem crescendo, mas nada se compara ao que aconteceu nos últimos dois anos, desde que a China entrou com força no mercado. O ano de 2020 foi um frenesi. Ficou fora de controle”, afirma ele à BBC News Mundo.

Febre do Pau-de-balsa
Como diz Ortiz, nos últimos anos a China liberou bilhões em subsídios para incentivar a instalação de painéis solares e geradores de energia eólica em todo o país.

Há muitos geradores eólicos a serem fabricados — e, para isso, é necessário muito Pau-de-Balsa.

O Equador é o maior vendedor de Pau-de-Balsa do mundo. Ortiz estima que o país exporte 75% do total dessa madeira para todo o planeta. China, Estados Unidos e Europa são os principais compradores.

“Em 2019 e 2020, eu vi algo sem precedentes nos 25 anos que estou neste negócio. Os chineses vieram com muito dinheiro para comprar todo o Pau-de-Balsa que pudessem. O preço da matéria-prima triplicou. Muita gente pobre que vive nas áreas de maior concentração da espécie ganhou muito dinheiro”, relata Ortiz.
O preço do Pau-de-balsa triplicou durante a febre de extração de 2019 e 2020

O “frenesi” aumentou ainda mais no segundo trimestre de 2020, quando os lockdowns impostos pela pandemia de covid-19 foram relaxados, a China anunciou a redução dos subsídios e os investidores correram mais do que nunca para se apossar da madeira.

O empresário explica que compradores dos Estados Unidos e da Europa adquirem madeira certificada e cumprem com mais rigor os contratos. Os chineses, diz ele, trabalham mais em ondas e operam de forma um pouco “mais desorganizada”, o que também contribuiu para a enxurrada de demanda.

A necessidade de Pau-de-Balsa e seus lucros inegáveis ​​atraíram muito mais participantes para o negócio do que as empresas tradicionais que já atuavam nele.

As comunidades indígenas também tiram uma renda, e “as máfias fora do Equador atuam como intermediárias e lavam dinheiro para explorar o Pau-de-Balsa”, denuncia Balarezo, da Fundação Pachamama.

Por um pedaço de cerca de um metro e meio dessa madeira, se chegou a pagar entre 10 e 12 dólares.

“Juntou tudo. A demanda, os lucros e a falta de controle do governo devido às restrições da pandemia. Ficou uma bagunça”, acrescenta Balarezo.

Um problema ambiental… e social
A extração do Pau-de-Balsa por si só não é um problema grave de desmatamento. Trata-se de uma espécie primária e cresce tão rápido que, onde há uma árvore derrubada, volta a crescer outra que em cerca de quatro anos chega a 20 metros.

A “preocupação”, concordam empresários, representantes indígenas e ambientalistas, é quando sai do controle sem fiscalização estatal suficiente.

“Com o boom, o Pau-de-Balsa foi explorado sem a técnica necessária. Se desperdiçou madeira, e por acidente e desconhecimento, foram derrubadas outras árvores que, sim, são críticas”, explica Balarezo.

Muitas das áreas de Pau-de-Balsa são habitats de animais protegidos, como onças, tartarugas, várias espécies de pássaros e outros mamíferos.

“O desmatamento sem controle ameaça habitats muito delicados. O ecossistema de Pastaza é um dos mais ricos e conservados do Equador. Estamos brincando com fogo”, alerta Balarezo.
Balarezo afirma que a extração indiscriminada de Pau-de-balsa compromete um dos mais ricos e diversos ecossistemas do Equador

O especialista adverte ainda que as máfias camuflam madeiras nobres de outras árvores em caminhões carregados de Pau-de-Balsa.

“Foi algo que documentei e queria denunciar em fevereiro de 2020, mas eles me viram e me ameaçaram com uma arma no peito. Tive que apagar as fotos. Essa gente é muito perigosa.”

‘Divisão e decomposição dentro das comunidades indígenas’
A febre do Pau-de-Balsa tem gerado conflitos e divisões entre as comunidades indígenas que povoam a bacia do Rio Pastaza.

O negócio rendeu dinheiro, “e muitas comunidades indígenas muito pobres, donas do território, estão aproveitando isso”, diz Ortiz.

Mas o dinheiro “corrompe”, e alguns o estão usando “mal”, gerando problemas de dependência química, alcoolismo e “decomposição” social.
À medida que o mundo migra para fontes de energia mais limpas, as áreas que fornecem matéria-prima sofrem com problemas ambientais e sociais

“Muitos jovens indígenas, com o dinheiro do Pau-de-Balsa, vão às cidades gastar em festa. Não é que o capital do extrativismo esteja sendo utilizado com um bom fundo social”, afirma Andrés Tapia, da equipe de comunicação da Confederação das Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (Confeniae).

No entanto, não é isso que mais preocupa ele.

“Nossa principal ameaça é a divisão social. Gerou muita polarização entre aqueles que queriam trabalhar por necessidade e os que se opunham ao extrativismo. Muitos se manifestaram contra e proibiram a extração, mas outros, por conta própria, ignoraram esses pronunciamentos”, conta Tapia.

Fonte de renda, mas também de precarização
Balarezo e Tapia reconhecem que o boom de Pau-de-Balsa foi uma importante fonte de renda para muitas famílias, mas também admitem que levou à precarização do trabalho.

“Em muitas ocasiões, as negociações são feitas diretamente com as comunidades indígenas, e estas, por não terem alternativas, aceitam condições injustas”, relata Balarezo.

“É verdade que pagam a eles pela madeira, mas se você levar em conta todo o esforço de mão de obra, o que eles recebem não é justo. Os intermediários que levam o Pau-de-Balsa para cidades como Guayaquil e Quevedo ficam com a maior parte”, acrescenta.
Setores da comunidade indígena extraem a madeira do Pau-de-balsa, que é transportada por intermediários até as grandes cidades para ser exportada

“Meus trabalhadores são formalizados, mas a extração em massa no oriente pelos indígenas não está regularizada de forma alguma”, denuncia Ortiz.

A falta de controle e a penetração de intermediários de cidades grandes em um ano de pandemia também fizeram com que o novo coronavírus se propagasse fatalmente entre as cidades amazônicas, acrescenta Tapia.

Oportunidade econômica, mas se o Estado intervir
Em meio ao que muitos consideram uma crise ambiental e social, as fontes consultadas pela BBC News Mundo concordam que, sendo controlada e administrada pelas autoridades, a exploração de Pau-de-Balsa pode ser uma importante oportunidade econômica.

É verdade que o boom de 2020 já passou, mas por isso mesmo acredita-se que seja o momento ideal para planejar essa atividade.

As principais potências estão buscando obter fontes de energia renováveis ​​e reduzir progressivamente a sua pegada de carbono.
Com investimento e controle, as fontes consultadas pela BBC News Mundo acreditam que a exportação de Pau-de-balsa é uma grande oportunidade econômica para o país

“Diante de tanta demanda, uma árvore como o Pau-de-Balsa, que se regenera rápido, pode oferecer muita rentabilidade sem comprometer gravemente o meio ambiente”, sinaliza Ortiz.

“Se o Estado controlar e a extração de madeira for feita de forma sustentável e amigável, é uma grande oportunidade. Por isso, estamos tentando promover o Pau-de-Balsa amazônico em áreas degradadas e assim diminuir a pressão em territórios que sofreram muito”, diz Balarezo.

Ortiz também pede mais investimentos em infraestrutura.

“A Europa e os Estados Unidos vêm comprando há muito tempo, mas não é que se tenha investido muito no país. É verdade que são necessários dezenas de milhões para plantar e construir, mas a rentabilidade poderia ser espetacular”, afirma o empresário.

Meio Ambiente:Quarenta deputados alemães pedem que Congresso brasileiro não flexibilize regras ambientais

Parlamentares alemães enviaram carta para Arthur Lira e Rodrigo Pacheco afirmando que eventual aprovação de três projetos de lei pode afetar a relação comercial entre Alemanha e Brasil.

Signatários, que incluem 40 membros do Parlamento alemão, afirmam que aprovação de projetos de lei teria potencial para elevar o desmatamento no Brasil.

Quarenta membros do Parlamento alemão (Bundestag) assinaram na sexta-feira (26/03) uma carta aberta endereçada aos presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), pedindo que eles não pautem para votação três projetos de lei que flexibilizam regras de proteção do meio ambiente e de comunidades tradicionais e indígenas.

O texto menciona o projeto que autoriza a mineração em terras indígenas, o que flexibiliza as normas para regularização de terras e o que estabelece um novo marco legal do licenciamento ambiental.

Entre os assinantes, está a vice-presidente do Bundestag Claudia Roth e Anton Hofreiter, líder dos Verdes no Parlamento alemão, além de mais cinco integrantes da Câmara dos Deputados da Itália e um membro do Parlamento Europeu, totalizando 46 políticos europeus com mandato.

Os signatários afirmam que a aprovação dos projetos tem potencial para elevar o desmatamento e a violência contra comunidades indígenas e tradicionais e significaria um retrocesso na legislação ambiental do Brasil.

A carta diz também que os projetos mencionados, se virarem lei, afetariam as relações atuais e futuras com o Brasil. Os parlamentares citam que ações que provoquem mais desmatamento, afetem os direitos humanos e prejudiquem o combate às mudanças climáticas devem ser levadas em conta em qualquer acordo comercial.

“Estamos muito preocupados que esse pacote de propostas legislativas possa ameaçar nossos esforços conjuntos e colocar em risco nossas relações econômicas e comerciais futuras”, diz o texto. “Gostaríamos de considerar o Brasil nosso parceiro num esforço conjunto por um mundo melhor. Um mundo que protege os direitos humanos, respeita a biodiversidade e o clima e dá suporte a sociedades prósperas.”

A carta é o mais recente capítulo da crescente pressão europeia para a preservação do meio ambiente no Brasil, agravada por políticas do governo Jair Bolsonaro que reduziram a proteção florestal e prejudicaram o combate ao desmatamento e a incêndios, deixando mais longe uma possível ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.

A favor da Amazônia, bancos e entidades católicas pressionam Bolsonaro

Carta assinada por 93 instituições, também financeiras, ameaça retirada de investimentos no Brasil, pede plano concreto contra desmatamento e proteção de povos indígenas.

Vista aérea de desmatamento na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, em Altamira, Pará

Diante do avanço da destruição da Floresta Amazônica, mais de 90 instituições internacionais católicas, entre as quais quatro bancos alemães, se uniram para manifestar publicamente oposição às políticas ambientais de Jair Bolsonaro.

Nesta segunda-feira (29/03), o grupo entrega uma carta ao presidente brasileiro e a seu vice, Hamilton Mourão, pedindo ações concretas para proteger a maior floresta tropical do mundo e os povos indígenas.

“Como investidores, nós estamos usando os meios possíveis para exercer pressão contra a destruição da Amazônia e de seus povos tradicionais”, justifica Tommy Piemonte, da instituição financeira católica alemã.

Segundo Piemonte, é a primeira vez que investidores católicos se unem para exercer esse tipo de pressão internacionalmente, motivados pelo aumento do desmatamento, queimadas, crimes ambientais e violações dos direitos indígenas. Em 2020, a área de vegetação destruída na Amazônia chegou a 11.088 quilômetros quadrados, batendo recorde dos últimos 12 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Se não houver mudanças, vamos retirar nossos investimentos e cancelar potenciais investimentos futuros”, afirma Piemonte. “Somos quatro bancos que têm muitos clientes, inclusive outras instituições católicas”, complementa, mencionando o Bank im Bistum Essen, Pax-Bank Köln e Steyler Ethik Bank, que também assinam a carta.

Com um total de ativos estimado em 5,6 bilhões de euros (cerca de 38 bilhões de reais), o BKC tem fundos de investimentos que incluem títulos do governo do brasileiro. Fundada em 1972, a instituição é uma das pioneiras em apoiar projetos sustentáveis e a se opor a negócios ligados à energia nuclear, usinas de carvão, indústria de armamento, ou que tenham violado direitos humanos e usado trabalho infantil.

“É importante mostrar nosso relativo poder como investidor ao Brasil. Afinal, oferecemos dinheiro para projetos, negócios, para a economia. E, desse modo, queremos aumentar a pressão vinda de fora sobre o governo brasileiro”, comenta Piemonte.

“Diálogo difícil”

A carta sugere uma lista de medidas de proteção à floresta – e que possam ser verificadas. Dentre os pontos do plano de ação sugerido estão implementação de legislação estrita de proteção ambiental; programa concreto de combate ao desmatamento com orçamento e metas intermediárias a serem medidas; mais recursos para combater incêndios; suspensão de medidas contra organizações não governamentais; proteção dos territórios e dos direitos da população indígena; reflorestamento e relatórios anuais sobre o progresso dessa atividade.

O documento pede ainda diálogo com o governo brasileiro. Eleito com forte apoio dos evangélicos, Bolsonaro administra o maior país católico do mundo, em que 50% da população se diz pertencente a essa religião, segundo pesquisa Datafolha de 2020.

“É muito difícil o diálogo”, diz Dom Vicente de Paula Ferreira, secretário da Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, que também encabeça o movimento de protesto.

Por outro lado, acrescenta o bispo, a CNBB tem um assento no Conselho Nacional de Justiça e mantém conversas com a Câmara de Deputados, senadores e comissões, como a de Meio Ambiente. “Há instâncias que estão abertas ao diálogo. Mas com o presidente é mais complicado, porque a pauta dele é totalmente contrária ao que pensamos.”

Encíclica “Laudato si'”, do papa Francisco, prega ecologia integral e proteção do meio ambiente

As críticas à postura antiambiental do governo Bolsonaro seguem as linhas gerais da encíclica Laudato si’, redigida pelo papa Francisco em 2015. O documento defende o planeta como casa comum, prega a ecologia integral, proteção do meio ambiente e ações contra as mudanças climáticas.

“Num contexto maior, a nossa posição é critica e de denúncia de violações de direitos dos povos, da natureza. Por isso saímos em defesa das comunidades indígenas, quilombolas, pequenos agricultores, que formam uma rede que protege o meio ambiente e que, geralmente, são afetados por grandes projetos internacionais, especialmente na Amazônia”, diz Ferreira.

Mesmo sob a liderança que prega a defesa socioambiental do papa Francisco, há dificuldades internas dentro da Igreja Católica: “Há fragmentos ligados à ala mais extremista que apoiam muito também [o presidente Bolsonaro]”, reconhece o bispo.

Contra projetos de destruição

Com a carta pública, as instituições católicas esperam uma sinalização do governo Bolsonaro. “A destruição da Floresta Amazônica e a violação dos direitos humanos não representam apenas uma ameaça à reputação do Brasil na comunidade internacional, mas também uma ameaça real à economia brasileira”, alerta o documento.

Em toda a Europa, têm crescido pedidos de boicotes a produtos brasileiros como consequência da atual política ambiental do país. Bancos internacionais têm desencorajado investimentos em empresas que, direta ou indiretamente, atuam na cadeia ligada ao desmatamento. No fim de 2020, o governo francês anunciou que reduziria importações da soja brasileira devido ao aumento da devastação na Amazônia.

“Com esse comunicado ao governo brasileiro, esperamos fazer pressão sobre a economia, sobre as empresas que têm negócios no Brasil principalmente relacionados à madeira, mineração, soja”, diz Piemonte sobre as expectativas, acrescentando que, como o Brasil ainda é o maior país católico do mundo, espera também que o documento influencie a opinião pública.

Para Dom Vicente de Paula Ferreira, essa movimentação internacional é importante para mostrar ao mundo as violações, flexibilizações de leis de proteção ambiental, agressões às comunidades indígenas de que o Brasil tem registrado aumento nos últimos dois anos.

“Lá fora, a mensagem é de que está havendo sustentabilidade nos empreendimentos, mas isso não está acontecendo de fato nos territórios. É preciso que se questione os investimentos internacionais. Será que esses bancos e agências conhecem de fato a realidade para investir por aqui? No Brasil, há muitos projetos que são de destruição”, alerta Ferreira.

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Meio Ambiente: Destruição da natureza pelos humanos é suicida, alerta ONU

Relatório das Nações Unidas afirma que a humanidade e a ambição pelo crescimento econômico estão tornando a Terra um lugar inabitável, e exorta governos e empresas do mundo a agirem antes que seja tarde.

Amazônia,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita,Alter do Chão,Brasil,Pará“Sem a ajuda da natureza, não vamos prosperar, ou mesmo sobreviver”, afirmou o secretário-geral da ONU

Através das mudanças climáticas, da perda da biodiversidade e da poluição, os humanos estão destruindo a Terra e tornando-a um planeta cada vez mais inabitável, afirma um relatório das Nações Unidas.

Para reverter esse caminho trágico, o mundo precisa implementar mudanças urgentes e dramáticas na sociedade, na economia e na vida diária das pessoas, acrescenta o texto.

Diferente de relatórios anteriores da ONU, que costumam focar num problema e evitam orientar os governos sobre quais ações devem ser tomadas, o novo documento reúne três crises ambientais – o clima, a biodiversidade e a poluição – para dizer aos governos, empresas e pessoas ao redor do mundo o que precisa mudar, antes que seja tarde demais.

O texto pede, por exemplo, mudanças no que o governo tributa, em como as nações valorizam a produção econômica, em como a energia é gerada, em como a agricultura e a pecuária são geridas, na maneira como as pessoas se locomovem e no que elas comem.

“Sem a ajuda da natureza, não vamos prosperar, ou mesmo sobreviver”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Por muito tempo, temos travado uma guerra sem sentido e suicida contra a natureza. O resultado são três crises ambientais interligadas: perturbações climáticas, perda de biodiversidade e poluição ameaçam a nossa viabilidade como espécie.”

O título do relatório de 168 páginas, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), é direto: “Fazendo as pazes com a natureza: um plano científico para enfrentar as emergências do clima, da biodiversidade e da poluição.”

“Riscos inaceitáveis” para gerações futuras

Baseado em conclusões de outras grandes análises sobre clima e biodiversidade elaboradas por painéis internacionais de especialistas, o texto afirma que uma transição rápida para energia renovável e a eliminação da perda de habitat são essenciais para prevenir “riscos inaceitáveis” para gerações futuras.

“Nossos filhos e netos herdarão um mundo de eventos climáticos extremos, aumento do nível do mar, perda drástica de plantas e animais, insegurança alimentar e hídrica e aumento da probabilidade de futuras pandemias”, alertou o cientista britânico Robert Watson, principal autor do relatório.

A emergência que aflige o mundo hoje é “de fato mais profunda do que pensávamos poucos anos atrás”, disse Watson, um químico premiado que já liderou outros relatórios científicos da ONU sobre mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

Os problemas do planeta estão tão interligados que devem ser trabalhados juntos para que sejam resolvidos da maneira certa, destacam as Nações Unidas. E muitas das soluções podem combater múltiplos problemas, incluindo as mudanças climáticas e a poluição.

Segundo o relatório, uma dessas soluções seria a eliminação do uso de combustíveis fósseis. Além de pedir o fim do uso, o texto também defende que sejam anulados os 5 trilhões de dólares em subsídios que empresas de combustíveis fósseis recebem todos os anos de governos do mundo.

“Estatísticas assustadoras”

O documento reúne uma série de “estatísticas assustadoras”: cerca de 9 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência da poluição; cerca de 1 milhão das 8 milhões de espécies de plantas e animais estão ameaçadas de extinção; até 400 milhões de toneladas de metais pesados, lama tóxica e outros resíduos industriais são despejados nas águas do mundo todos os anos.

O texto alerta também que a Terra está a caminho de um aquecimento adicional de 3,5 graus Celsius em relação aos níveis de agora, muito acima da meta estabelecida internacionalmente no Acordo de Paris sobre o clima.

“No final, isso vai nos atingir”, afirmou o biólogo Thomas Lovejoy, que foi assessor científico do relatório. “Não se trata do que vai acontecer com os elefantes. Ou o que vai acontecer com o clima ou com o nível do mar. Tudo vai nos impactar.”

Com duas grandes cúpulas da ONU sobre mudança climática e perda de biodiversidade marcadas para ocorrer em 2021, os autores do texto pedem decisões robustas dos governos, afirmando que respostas “fragmentadas e descoordenadas” ficam muito aquém do que o planeta precisa.

“Embora eu aplauda todos os países do mundo que decidiram zerar as emissões líquidas de carbono até 2030, a verdadeira questão é o que os países farão até 2030”, afirma o autor principal, Watson. “É realmente necessária ação a curto prazo, não apenas metas ambiciosas para meados do século.”

Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”

María Neira, diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS, explica como os vírus do ebola, sars e HIV/aids saltaram dos animais para os humanos depois da destruição maciça de florestas tropicais

A médica espanhola María Neira, diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirma que a pandemia do coronavírus é mais uma prova da perigosa relação entre os vírus e as pressões do ser humano sobre o meio ambiente. Do seu escritório em Genebra, na Suíça, Neira explica como os vírus do ebola, sars e HIV, entre outros, saltaram de animais para seres humanos depois da destruição de florestas tropicais. Neira (Astúrias, 59 anos) insiste na necessidade de que Governos e indivíduos compreendam que a mudança climática é um problema de saúde pública, não uma questão de ecologia ou ativismo. A cientista, mestra em saúde pública e nutrição, propõe uma revolução saudável, positiva e verde, que tenha como pilar fundamental a rápida transição na direção de energias limpas. Segundo ela, países que decidirem trocar o petróleo e o carvão pela energia solar e eólica acelerarão seu crescimento e reduzirão a pobreza e a desigualdade.

Pergunta. No prólogo do livro Viral, de Juan Fueyo, você adverte sobre a perigosa relação entre os vírus e as pressões do ser humano sobre o meio ambiente, sobretudo o desmatamento. No que consiste essa relação? Como ela funciona?

Resposta. As práticas de desmatamento intenso, feitas sempre em nome da economia de curto prazo, têm efeitos devastadores para o futuro da humanidade. Ao derrubar a floresta para substituí-la por agricultura intensiva e poluente, os animais que vivem nesses lugares nos quais o homem não havia entrado sofrem profundas transformações. Aparecem espécies com as que não estávamos em contato e que podem nos transmitir doenças. Passar de uma floresta tropical para um cultivo, com adubos e pesticidas que nunca tinham entrado nesse ecossistema, altera o tipo de vetores capazes de transmitir os vírus. O desmatamento é uma forma de derrubar essa barreira ambiental entre espécies que nos protege de forma natural.

P. Pode contar um caso específico?

R. Um exemplo claro deste fenômeno é o vírus do ebola, que saltou dos morcegos frugívoros das florestas da África ocidental para os humanos e desatou o contágio. O grave é que aconteceu o mesmo com a aids e a sars. Cerca de 70% dos últimos surtos epidêmicos que sofremos tem sua origem no desmatamento e nessa ruptura violenta com os ecossistemas e suas espécies.

P. O que se pode fazer para prevenir isto?

R. Temos que entender que é necessário estar em equilíbrio com o meio ambiente, que é o que nos dá todos os recursos para sobreviver. É preciso aproveitá-los, mas não podemos destruir e poluir tudo o que tocamos, como está acontecendo neste momento. O oceano, por exemplo, está nos dando de comer. Milhões de pessoas se alimentam com as reservas de pesca, mas estamos enchendo o mar com milhões de toneladas de plástico. Estamos indo contra nós mesmos. É importante que as pessoas entendam que a mudança climática não é uma questão de ecologia ou ativismo, mas de saúde pública.

P. Quer dizer que o aquecimento global não só derrete as geleiras, ou deixa os ursos polares em perigo, como também produz muitas mortes de seres humanos?

R. Claro. Erramos na narrativa a respeito da mudança climática nestes últimos anos. Acho que se falou muito de como o nível do mar está subindo ou como a camada de ozônio é afetada, mas faltou explicarmos como tudo isso no fundo tem um impacto tremendo sobre a nossa saúde. Às vezes, de forma arrogante, dizemos que é preciso salvar o planeta. Mas não. Temos que salvar a nós mesmos. O planeta nós o estamos destruindo, mas ele vai encontrar uma maneira de sobreviver; os humanos, não.

P. Em uma recente conferência, você dizia que na luta contra o meio ambiente os seres humanos sempre perdem. Por quê?

R. Se destruirmos a fonte da qual vivemos, os prejudicados seremos nós mesmos. Vemos com cada vez mais frequência como o ser humano é muito vulnerável frente aos fenômenos meteorológicos que a mudança climática está desatando, como tsunamis ou furacões. Há alguns dias houve uma nevasca muito dura na Espanha e nos paralisou imediatamente. No final, quem sairá perdendo seremos nós.

P. Quais são as medidas mais urgentes que a OMS recomenda para evitar a deterioração do meio ambiente e da saúde pública?

R. Uma muito importante é o conhecimento. Temos que ganhar mais adeptos para a causa. O objetivo é que muita gente entenda a relação entre mudança climática e saúde; que entenda, por exemplo, que seus pulmões, seu sistema cardiovascular e seu cérebro estão em risco por causa da poluição. Segundo, temos que fazer a transição para energias limpas e renováveis o mais rapidamente possível. Os combustíveis fósseis estão nos matando. Há sete milhões de mortes prematuras causadas pela poluição atmosférica que poderiam ser reduzidas deixando de gerar eletricidade com carvão e petróleo. Acelerar essa transição para as energias limpas vai gerar uma economia que nos ajudará a sair desta crise que o coronavírus desatou.

P. Como é a relação entre energias limpas e desenvolvimento econômico?

R. Um dólar investido em energias renováveis vai gerar quatro vezes mais trabalho que um dólar investido em energias fósseis. Acredito que, se os países mais pobres começarem a investir em energia solar e eólica, eles podem acelerar seu crescimento. Esta pode ser uma estratégia contra a desigualdade que se agravou com a pandemia. Outra recomendação importante é o planejamento das cidades pensando na saúde do ser humano. É preciso tirar os carros dos centros urbanos, ter um sistema de transporte público sustentável e limpo, e sobretudo não ter cidades superpopulosas como as de agora, que são inabitáveis.

P. Como a densidade populacional das cidades afeta a transmissão dos vírus?

R. Em 20 anos, 70% da população estará vivendo em centros urbanos. Será preciso tornar essa situação saudável e equitativa. Podemos ter cidades que nos ofereçam muitos benefícios, mas que não atentem contra nossa saúde. Hoje as capitais de vários países têm muita densidade populacional. Isso contribui para uma transmissão mais rápida e eficiente de qualquer vírus ou bactéria. O mau planejamento das cidades também nos leva a ter uma vida sedentária, que a poluição termine em nossos pulmões e inclusive que haja um problema grave de saúde mental porque não se facilita a interação social.

P. O que fazer então?

R. É preciso criar cidades com zero emissão de carbono, cidades verdes e com economia circular. O CO2 que for produzido tem que ser eliminado. Essas cidades já são possíveis, a tecnologia permite isso, e a economia vai nesse sentido. Acredito que esta mudança seja irreversível.

P. No prólogo do livro de Fueyo, você propõe uma “revolução saudável, positiva, verde e economicamente sustentável”. Em que consiste?

R. Em que as decisões estratégicas que definem para onde um país deve avançar têm que pôr a saúde e o meio ambiente em primeiro lugar. É preciso investir em energias limpas. Essa decisão combate, ao mesmo tempo, a mudança climática e as doenças que esta gera. Além disso, é preciso reduzir o desmatamento e adotar práticas agrícolas mais sustentáveis.

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Árvores amazônicas estão vivendo menos, diz estudo

Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)Pesquisadores constatam círculo vicioso na região, impulsionado pelo aquecimento global, que estaria privilegiando árvores que morrem mais jovens. Quanto mais cedo elas desaparecem, menor o papel na absorção de carbono.

Árvores morrem porque estão passando do limite fisiológico que podem suportar

Um círculo vicioso vem sendo observado por cientistas na Amazônia. Por causa da tragédia climática em curso, árvores de crescimento rápido vêm sendo privilegiadas pela seleção natural. O problema é que elas apresentam maiores taxas de mortalidade. Ao longo da vida, portanto, retêm menos carbono e contribuem menos para mitigar o aquecimento global. Este, por sua vez, segue favorecendo as árvores de crescimento rápido.

Esta é a principal conclusão de um estudo publicado no periódico científico Nature Communications nesta semana. Um esforço da Rede Amazônica de Inventários Florestais (Rainfor) − consórcio de pesquisa fomentado por agências de financiamento de Brasil, Colômbia, Reino Unido e União Europeia −, com o trabalho de mais de 100 cientistas, analisou 30 anos de dados sobre espécies vegetais da Amazônia.

“No total, monitoramos 124 mil árvores, e 23 mil delas morreram no período”, conta à DW a bióloga e ecóloga brasileira Adriane Esquivel-Muelbert, pesquisadora da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e que esteve à frente do trabalho.

Vento é causa de morte de 50% das árvores

Foram analisados exemplares de 3.966 espécies. “As árvores que crescem mais rapidamente são as que estão sob maior risco de morrerem. Identificamos que 50% das árvores da Amazônia morrem por efeito de ventos. Quando elas são encontradas mortas, já estão quebradas ou com as raízes aparecendo”, exemplifica ela.

Em nota divulgada à imprensa, o professor da Universidade de Leeds, também no Reino Unido, David Galbraith, participante do estudo, externou preocupação com os resultados. “O serviço de sequestro de carbono fornecido pelas árvores da Amazônia está diminuindo”, resume ele.

Na região sul do bioma, a mortalidade das árvores vem sendo influenciada pela seca, conforme identificaram os pesquisadores. Como a área já sofre com um clima mais árido há bastante tempo − agravado nos últimos anos, com termômetros chegando a marcar 50 graus no verão −, havia uma expectativa de que as plantas estivessem se adaptando ao cenário. “O que está acontecendo nessa região é que as árvores estão passando do limite fisiológico que podem suportar. A condição é tão extrema que elas estão morrendo”, diz Esquivel-Muelbert. “[A região se tornou] um laboratório para entendermos o que está acontecendo. E não deixar que aconteça em outros locais.”

Pesquisas anteriores, publicadas a partir de 2015, já indicavam que as árvores amazônicas estavam vivendo menos do que o esperado. O estudo atual não só confirma essa hipótese como avança sobre as causas dessa mortalidade. Sobretudo na região sul da Amazônia também se observou que a fragmentação das florestas, causada pela expansão do desmatamento, é um fator que influencia a vida das árvores em intocadas áreas adjacentes. Conforme explica a pesquisadora, trata-se de um “risco extra”.

Comprometimento na estocagem de carbono

Os índices de desmatamento na Amazônia vêm batendo recordes recorrentes. No mês de outubro, a região perdeu quase 840 quilômetros quadrados de cobertura florestal, uma alta de 50,6% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), coletados pelo sistema Deter. O valor é o maior para o mês desde 2015, quando foi iniciada a série histórica.

O ritmo da devastação da Amazônia acelerou-se em maio de 2019. A partir de então, por 14 meses seguidos, a perda florestal foi superior ao ano anterior − em sete situações, atingiu-se um recorde para o mês.

À DW, o biólogo brasileiro Filipe França, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Rede Amazônia Sustentável, destacou que a pesquisa mostra como as condições atuais estão comprometendo a “habilidade das florestas em controlar as mudanças climáticas através da estocagem de carbono”.

Importância das pesquisas de longa duração

França pontua que a importância do trabalho também está em mostrar que há diferenças espaciais na Amazônia, de acordo com os gradientes de precipitação. E isso interfere na mortalidade das árvores. Assim, ações de conservação precisam levar em conta esses fatores − e não compreender o bioma como uma coisa só.

Outro ponto destacado por pesquisadores é o fato de que um mapeamento tão abrangente como este só foi possível graças a dados coletados por cientistas por um longo período. “Pesquisas de longa duração são fruto dos trabalhos de muitas pessoas, com financiamentos locais. Por isso é importante haver financiamento de longo prazo dos órgãos de fomento de ciência dos países locais, sem isso a gente não conseguiria entender o que está acontecendo na Amazônia — e no planeta como um todo. É preciso enfatizar a importância do investimento em ciência pelos governos”, salienta Esquivel-Muelbert.

A pesquisadora e sua equipe seguem debruçadas sobre os dados. A ideia é aprofundar mais a compreensão das causas mortis das árvores amazônicas para chegar a conclusões que expliquem esse aumento da mortalidade em todas as regiões do bioma.

Governo tenta intencionalmente destruir povos indígenas

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Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo. José Ortega y Gasset

Em entrevista, ex-presidente da Funai diz que já na não se pode falar em falha na proteção de reservas, mas numa política deliberada para destruí-las: “Não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”.

Queimada perto de Apui, no estado do Amazonas: destruição da floresta avança sob Bolsonaro

Se nos governos anteriores havia desaprovação a ações pontuais ligadas aos povos tradicionais, no governo de Jair Bolsonaro as críticas são direcionadas a tantas áreas que a questão indígena acaba diluída em meio a uma desaprovação maior e mais geral.

É essa a avaliação do jurista Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito Agrário e Socioambiental na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000.

Para o jurista, a política ambiental da atual gestão, simplesmente, não existe. “Até o ministro [do Meio Ambiente] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”, afirma.

Em entrevista à DW Brasil, Marés também comenta o enfraquecimento e desmonte gradual da Funai nos últimos anos, fala sobre o papel do governo federal em conter o avanço do coronavírus e dos recentes incêndios em terras indígenas e explica como a demarcação de terras ganhou cada vez mais ares de processo político em vez de técnico.

DW Brasil: Você foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000. Em essência, o que mudou de lá para cá em relação à questão indígena no Brasil?

Na virada de 1999 para 2000, os povos indígenas estavam muito expostos na mídia por causa dos 500 anos [do descobrimento]. Havia, então, essa exposição muito grande e, consequentemente, uma articulação muito grande. Justamente em 2000, houve uma repressão policial ao movimento indígena na festa dos 500 anos em Porto Seguro (BA), razão pela qual pedi demissão do cargo. Não podia compactuar com uma ação daquelas.

Quanto à Funai, nesses últimos 20 anos, ela foi sendo deteriorada do ponto de vista da ação possível. Até 2016, mais ou menos, embora estivesse fraca, ela ainda tinha dinheiro, funcionários e, portanto, ação. Mas de quatro anos para cá ela foi perdendo tudo isso. Foram muitas aposentadorias sem reposição de quadro funcional e uma deterioração da política significativa. Um exemplo é a proteção dos povos indígenas chamados “isolados”, que demandam somente uma aproximação muito distante. Essa é uma política correta e que não custa muito. Mas nos últimos anos, e principalmente nos primeiros dois anos de gestão [Jair] Bolsonaro, essa política foi rompida. Trata-se de uma política desastrosa, mortal. O correto é proteger as áreas de povos isolados e não deixar ninguém entrar.

A diferença, então, é que houve uma piora funcional e política. A Funai deixou de ser uma intermediária entre governo e povos indígenas para ela mesma ser contrária a essa população. O governo atual incentiva o ingresso em terras indígenas, a ocupação ilegal de terras, e a Funai não faz nada. E não adianta os indígenas correrem para a Funai porque a Funai “corre com eles”.

No fim de agosto, o presidente Bolsonaro afirmou em uma live que há “índios evoluídos” no Brasil, que poderiam ter “mais liberdade sobre sua terra”…

Não posso atribuir isso à ignorância porque o nome disso é racismo. Essa fala é racista e genocida. É uma postura inimiga dos indígenas, porque ele acha que os povos indígenas atrapalham. Quando ele diz que os indígenas devem ter mais liberdade, eu concordo plenamente, mas qual é a liberdade que os indígenas querem? Que ninguém entre em suas terras, que a natureza não seja destruída, que não tenha garimpeiro, madeireiro por lá. Os povos indígenas têm pouca força para usufruir dessa liberdade e quem tem que garanti-la é exatamente o Estado brasileiro. O Estado precisa ouvir os indígenas. Os ianomâmis [grupo que vive na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil], por exemplo, eu sei o que vão responder: tirem os garimpeiros das nossas terras.

Os indígenas querem liberdade, mas não para trazer gente branca para a terra deles, e sim para impedir que haja exploração. E o que o presidente quer dizer é que as terras indígenas devem ser mais livres para quem quiser invadir.

Um relatório divulgado recentemente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apontou que no primeiro ano de governo Bolsonaro (2019) as invasões em terras indígenas cresceram 135%. É exagero dizer que o atual governo está falhando na proteção aos povos indígenas?

“Falha” é uma palavra gentil. O governo não está falhando, está intencionalmente tentando destruir os povos indígenas. E isso é genocídio.

Até o momento foram registrados 36 mil casos de contaminação pela Covid-19 entre indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O senhor acredita que o estabelecimento de barreiras sanitárias em terras indígenas por parte do Governo Federal, previsto emMedida Provisória publicada no último dia 1°, ajudará, de forma efetiva, a conter esse cenário? Além disso, o governo não demorou muito para tomar ações a respeito? A pandemia começou em março.

Essa demora foi intencional. Essas barreiras sanitárias eram muito fáceis de terem sido feitas há seis meses. Alguns povos, inclusive, fizeram barreiras por conta própria, mas mesmo assim teve missionário que quis entrar [nas terras], pessoas do governo, gente para entregar remédio. Há uma tensão muito grande em relação ao coronavírus e os povos indígenas.

Somente em setembro, mais de uma centena de focos de incêndio avançaram sobre terras indígenas na região do Pantanal. Em agosto, foram 200 focos. Ainda que queimadas sejam esperadas para a região nesta época do ano, os números não são altos demais? Qual é o papel do Poder Público para proteger as terras indígenas?

O grande drama que vive o Pantanal, assim como o Cerrado e a Amazônia, é o desmatamento irregular. Sempre que acontece um episódio como esses incêndios temos que nos perguntar: alguém leva vantagem nisso? O incêndio é bom para alguém?

Nesses três biomas, há quem leve vantagem com os incêndios, que é quem quer ocupar terra, que são pessoas que não são de lá. Não são os indígenas, não são os povos tradicionais, os quilombolas. Agora, para quem quer expandir suas terras, o incêndio é bom. Lembro também do Cerrado porque é uma região da qual se fala menos, mas que está sendo duramente castigada pela abertura e derrubada da vegetação nativa para dar lugar a grandes monoculturas.

Podemos então dizer que hoje a demarcação das terras indígenas se transformou em um processo político e não técnico?

A resposta é sim, apesar de que o caráter político sempre esteve presente. Os indígenas têm garantido na Constituição Federal direito à terra que ocupam. Eles têm esse direito com ou sem demarcação. A demarcação é uma providência que a Constituição determinou ao Estado brasileiro para que haja melhor proteção da terra. A ideia, portanto, não é definir qual deve ser essa terra, mas dar proteção à terra que já é do povo. Só que as forças contrárias aos povos indígenas sabem que, uma vez demarcada, é mais difícil invadir a terra, matar índio, tocar fogo. Assim, politicamente, serão contra a demarcação. Essa ação contrária aos povos indígenas é uma ação política, e acaba transformando a demarcação em um ato político.

Já no governo [Michel] Temer, mas com mais força a partir do governo Bolsonaro, veio uma vontade política muito forte de não demarcar. Mais ainda: tentar reverter as demarcações já feiras. E aqui esse adendo vale tanto para as terras indígenas como para os quilombolas. Antes de ser eleito, inclusive, o presidente Bolsonaro declarou que não iria demarcar nenhum centímetro a mais de terra indígena.

Para o senhor, quais são as principais diferenças entre o modo como o governo Bolsonaro trata a questão indígena em relação a governos anteriores? Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, receberam muitas críticas no sentido de que deveriam ter demarcado mais terras.

O governo Bolsonaro recebe críticas em tantas áreas – desenvolvimento, direitos humanos, etc – que a questão indígena é “só” mais uma coisa. No governo do PT houve fortes críticas à política ambiental, mas eram sempre críticas localizadas. A questão de [usina hidrelétrica de] Belo Monte, por exemplo, do rio Xingu, da Usina Hidrelétrica de Jirau. Eram ações específicas. Agora, no governo Bolsonaro, a política ambiental não existe, é de destruição. Até o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que diga que é a favor do meio ambiente. Nos outros governos ao menos tinha alguém para defender. Nesse sentido, as críticas ambientais acabam diluídas em meio a uma crítica maior e mais geral.

Costuma-se contrapor o direito dos povos indígenas ao desenvolvimento nacional. Essa contraposição já não seria, por si só, contraditória?

Dizer que a proteção aos povos indígenas é contrária ao desenvolvimento nacional é uma mentira. Não podemos admitir um desenvolvimento nacional com destruição da natureza, e as terras indígenas preservam a natureza. Quem é contrário a isso está ultrapassado. Uma das maiores preocupações mundiais é a alimentação. Mas a falta de comida significa que temos que invadir terras indígenas? Elas não são o lugar para produzir comida. É preciso pensar em desenvolvimento atrelado à preservação da natureza. Destruir as terras indígenas vai piorar a condição da água, gerando reflexos em todo o país. Dependemos da Amazônia, da Mata Atlântica. Tudo o que for destruidor da natureza prejudica o nosso desenvolvimento. Não se trata, portanto, de mera contradição, mas de uma mentira.

É hoje! Ministério do Meio Ambiente busca derrubar proteções ambientais de manguezais e restingas

Salles usará poder do governo federal sobre o Conama para garantir flexibilização.

O Ministério do Meio Ambiente está prestes a derrubar um conjunto de resoluções que hoje delimitam as áreas de proteção permanente (APPs) de manguezais e de restingas do litoral brasileiro. A revogação dessas regras abre espaço para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias e ocupação de áreas de mangues para produção de camarão.

Os temas estão na pauta da reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é presidido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles . Esse conselho, que tem papel fundamental na definição de normas e critérios da área ambiental, teve a sua estrutura modificada por Salles em junho do ano passado e, com isso, o poder de decisão do colegiado ficou nas mãos do governo federal.

Na reunião do Conama desta segunda-feira, o governo pretende revogar duas resoluções (302 e 303, de 2002) que, hoje, são os instrumentos de proteção dos mangues e das restingas, as faixas com vegetação comumente encontradas sobre áreas de dunas, em praias do Nordeste. O argumento do governo é que essas resoluções foram abarcadas por leis que vieram depois, como o Código Florestal. Especialistas em meio ambiente afirmam, porém, que até hoje essas resoluções são aplicadas, porque são os únicos instrumentos legais que protegem, efetivamente, essas áreas.

“Não há nenhuma outra norma brasileira que confirma proteção às restingas como essas resoluções do Conama, que continuam a definir limites. A realidade é que há um grande lobby de resorts e criadores de camarão do Nordeste, que querem entrar nessas áreas”, diz Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).

Em agosto, por exemplo, em São Paulo, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) perdeu uma ação na Justiça e foi obrigada, por meio de sentença, a respeitar as delimitações previstas na resolução de 2002, “para evitar a ocorrência de dano irreparável à coletividade e ao meio ambiente”.

Outra resolução que está na pauta do Conama (284/2001) acaba com os critérios de regras federais para licenciamento ambiental de empreendimentos de irrigação. No entendimento dos ambientalistas, a revogação tem o objetivo de acabar com exigências legais a pedido de parte do agronegócio.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) defende o fim da resolução, sob o argumento de “não haver embasamento técnico/legal da promulgação desta resolução, pois a irrigação não é um estabelecimento ou atividade, mas apenas uma tecnologia utilizada pela agricultura para o fornecimento de água para as plantas em quantidade suficiente e no momento certo”.

A pauta do Conama desta segunda-feira inclui ainda a proposta de uma nova resolução que trata de critérios de incineração de resíduos em fornos de produção de cimento, para liberar a queima de resíduos de agrotóxicos. Hoje esse material passa por um processo detalhado de tratamento e destinação. A nova resolução, porém, passa a permitir que tudo seja incinerado. Há preocupação, porém, com o material lançado na atmosfera após essa queima.

“Tudo foi pautado em regime de urgência. Qual é a urgência de tomar decisões tão importantes em tão pouco tempo e sem que esses temas sejam submetidos a estudos, por meio de câmaras técnicas? Todas essas resoluções mereceriam uma discussão aprofundada”, afirma Carlos Bocuhy, presidente do Proam. O ministro Ricardo Salles foi procurado pelo Estadão e, questionado sobre o assunto, afirmou que “as pautas do Conama serão debatidas e todos os conselheiros terão a oportunidade de expor suas posições”.

Para a ex-presidente do Ibama Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, trata-se de decisões graves, que poderão fragilizar profundamente a proteção ambiental. “O desmonte promovido pelo governo Bolsonaro na política ambiental atingiu duramente o Conama, que infelizmente parece estar reduzido a uma esfera de flexibilização de normas, de passar a boiada. A pauta dessa reunião é evidência forte nesse sentido: revogação de resoluções que dispõem áreas de preservação permanente e sobre licenciamento da irrigação, sem o debate público prévio que marcava os processos do Conselho”, diz Suely.

A especialista chama atenção ainda para a proposta de aprovar uma resolução que dá abertura para flexibilizar a concentração de poluentes orgânicos por meio de incineração. “Isso é totalmente inaceitável, chega a ser assustador.”

Órgão passou por mudanças e perdeu representantes de Estados e entidades civis em julho

O Conama – que é um órgão consultivo com poder de definir normas e critérios na área ambiental – foi desidratado em julho do ano passado em relação à sua estrutura anterior, concentrando nas mãos do governo federal e de representantes do setor produtivo a maioria dos votos. Estados e entidades civis perderam representação. Por decisão de Salles, o Conama teve seus membros reduzidos de 96 para 23 representantes.

A composição anterior do órgão tinha o objetivo de dar maior representatividade a vários segmentos da sociedade. Uma parte dos integrantes da sociedade era escolhida por indicação e outra, por eleição. Desde o ano passado, porém, essa escolha passou a ser feita por sorteio.

Instituições que representam a sociedade civil, incluindo associações de trabalhadores rurais e povos indígenas, viram suas posições caírem de 23 para 4. Os Estados também perderam representação. Se antes havia uma cadeira para cada um dos 26 Estados e o Distrito Federal, agora são 5 cadeiras representadas por um Estado de cada região geográfica do País. Os municípios, que tinham 8 representantes, agora têm 2.

*As informações são da Agência Estado”.

O turismo de onças e a tragédia dos incêndios no Pantanal: Uma reflexão

O Capitalismo da morte!
Da série:”Ao fim e ao cabo não irá sobrar nada. Nem a ira nem o choro”


No início de agosto, resolvi aceitar o convite de um amigo de longa data para ir ao o Pantanal com minha companheira Margarete, para matar a saudade das onças-pintadas do Porto Jofre.

Por:Peter G. Crawshaw Jr.

Uma onça-pintada tomando sol no Pantanal, em agosto de 2019.
Foto: Martha de Jong-Lantink/Flickr.

Iríamos de avião de Porto Alegre a Brasília, onde encontraríamos o meu amigo, e depois seguiríamos em um carro alugado até Porto Jofre. Pelo meu histórico e conhecimento da região, eu havia sido encarregado de providenciar a logística de hospedagem no local. Já nos meus primeiros contatos, fiquei impressionado com o quanto o turismo direcionado às onças havia inflacionado e elitizado a oferta de hotéis e pousadas. Mesmo nas mais simples, as diárias chegavam a R$700,00 por pessoa, incluindo as refeições. A maioria delas era muito mais cara, algumas chegando a R$1.600,00 ou mais, com valores em dólares. O adicional do barco com piloteiro, para ter acesso aos locais usados pelas onças, representava um mínimo de R$1.200,00 a mais por dia. Portanto, para três pessoas por um período de sete dias, baseado nos menores valores que pude negociar, o preço total seria quase R$25.000,00, ou mais de R$7.000,00 por pessoa. Cheguei à conclusão que um funcionário público federal aposentado como eu não tem direito ao privilégio de observar uma onça-pintada na natureza, ao menos através da estrutura normal montada pelo setor especializado disponível no local.

Eu entendo que isso seja resultado da lei da oferta e da demanda, como me foi explicado por um amigo, que “como tem gringo de sobra querendo ver onça, as operadoras e pousadas aumentam o preço e continuam lotadas”, mas isso é tremendamente injusto para o turista brasileiro, que não pode competir com esses preços. Quase desisti da viagem, mas resolvi apelar para amizades e conseguimos, através de favores especiais, negociar uma situação aceitável de hospedagem. Quanto ao barco, uma amiga que desenvolve um projeto na região e que no momento se encontra fora do país, ofereceu o barco do projeto para nosso uso durante a visita. Como o barco se encontrava sem uso há oito meses, pagamos uma revisão completa por um técnico especializado vindo de Cuiabá, que deixou o motor e a embarcação prontos para o nosso uso. Com minha habilitação (arrais) em dia e minha longa experiência com barcos e conhecimento da área, depois de ter morado na região, eu mesmo pilotaria o barco.

Chegamos no Porto Jofre na tarde do dia 5 de agosto, e saímos com o barco para um reconhecimento. Eu já havia marcado de antemão no meu GPS vários pontos de avistamentos de onças ao longo dos rios e corixos repassados por minha amiga, a maioria deles dentro do Parque Estadual Encontro das Águas. O parque é considerado um dos melhores lugares do mundo para a observação da espécie. Saímos do rio Cuiabá e subimos um bom trecho do rio Três Irmãos, mas tivemos que voltar pelo avançado da hora. Fizemos o mesmo trajeto no dia seguinte, subindo novamente o Três Irmãos. Em um ponto, cruzamos com outro barco com turistas, cujo piloteiro nos avisou que tinham encontrado duas onças, dando-nos alguns detalhes dos locais. Seguindo mais ou menos as instruções, subimos até o corixo do Caxiri, entrando por ele e indo até o rio Cuiabá sem, entretanto, encontrar sinais das onças. Voltamos novamente para o Três Irmãos e subimos mais um trecho dele, entrando por outro corixo que também saiu no rio Cuiabá.

No trajeto, passamos por um local onde eu havia me hospedado em agosto de 2007, naquela época um pesqueiro particular, e agora uma pousada chamada Recanto do Jaguar Lodge. Encontramos apenas uma ariranha, que passou várias vezes por baixo do barco enquanto tentávamos tirar algumas fotos dela. Enquanto pilotava o barco, pensava no por que não havíamos encontrado ainda nenhuma onça. Dei-me conta que, pela economia que estávamos fazendo, não pagando os preços vigentes, nos faltava o apoio da eficiente rede montada pelos piloteiros e guias de turismo da região que, com rádios portáteis operando em uma mesma frequência, informavam as posições dos animais avistados para aqueles que se encontravam nos rios, procurando, descrevendo os locais com nomes específicos que todos eles conhecem, e permitindo assim livre acesso às informações e aos animais.

“Sentindo a água gelada, minha primeira reação foi agradecer aos céus por todos nós estarmos com coletes salva-vidas, um detalhe de segurança que eu havia insistido em observar.”

No nosso terceiro dia, ainda nos adaptando ao nosso sistema improvisado de exploração, resolvemos subir o rio Piquiri para visitar uma toca de ariranhas, cuja localização me havia sido passada por minha amiga, e que eu havia marcado no GPS. Antes de chegarmos ao local da toca, no entanto, encontramos o grupo de ariranhas se alimentando, e meu amigo começou a tirar fotos. Havia pelo menos uns 10 a 12 indivíduos espalhados, alguns mergulhando concentrados em pescar e outros, já com peixes, degustando a refeição apoiados em troncos dentro d’água.

O ar vibrava com os sons emitidos pelos animais. Eu havia esquecido meu equipamento fotográfico na casa de minha irmã em Porto Alegre antes de ir para o aeroporto e, portanto, tive que me ater a filmar o que pude com minha versão mais barata de filmadora GoPro. Tudo ia muito bem, o barco a uns 6 metros da margem direita e os animais pescando na margem esquerda a uns 40 metros de distância, todos envolvidos em um clima de exaltação, quando, de repente, aconteceu! Meu amigo, talvez concentrado demais nas fotos que estava tirando e nos equipamentos necessários, fez um movimento muito errado, vindo para o mesmo lado que eu estava, e desequilibrou o barco, desafiando as leis da física. Por uma fração de segundos, esperei o melhor e achei que a embarcação fosse se estabilizar, mas então, sem acreditar no que estava acontecendo, me dei conta que estávamos mesmo virando e íamos inexoravelmente ao fundo.

O peso do motor de 40 hp e a má distribuição momentânea de peso, apesar de perfeitamente dentro da capacidade do barco, fez com que ele girasse no seu eixo horizontal e, em uma velocidade inacreditável, tudo se acabou, ele sumiu na água profunda. Sentindo a água gelada, minha primeira reação foi agradecer aos céus por todos nós estarmos com coletes salva-vidas, um detalhe de segurança que eu havia insistido em observar! Enquanto terminava de fechar o último fecho do meu colete, comecei a chamar meus companheiros.

A Margarete respondeu imediatamente, ainda tentando em vão segurar a corda presa à proa do barco. Como filha de prático de navios no porto de Maceió, em Alagoas, ela havia crescido familiarizada com água. Meu amigo não respondeu e, preocupado, procurei por ele. Vi logo que ele estava flutuando, tentando com dificuldade segurar parte do seu pesado equipamento. Eu disse a ele que soltasse, pois sua vida era mais importante. Juntei duas mochilas que estavam flutuando próximas a mim e, analisando a situação, me dei conta que não conseguiria chegar à praia mais próxima, porque a correnteza, muito forte, nos levava na direção da margem oposta.

Margarete já estava quase chegando à praia, mas gritei para ela que deveríamos permanecer juntos. Segurando as mochilas, comecei a bater pernas e um braço, na intenção de aproveitar a correnteza para chegar à outra margem. Vi que meu amigo seguia mais ou menos o mesmo curso, mesmo sem se movimentar muito. Nadando de costas, eu conseguia enxergar por cima da testa a sombra das árvores se aproximando aos poucos. Quando pude me virar, vi um tronco de árvore enorme caído dentro d’água e me dirigi para ele mas, quando cheguei, a velocidade da correnteza me forçava para baixo dele. Eu sabia que se isso acontecesse, não conseguiria mais subir, pelo cansaço que já sentia. Optei por largar as mochilas, que a Margarete por sorte conseguiu juntar mais abaixo, e reunindo toda minha força, fui me esgueirando com os braços em direção à ponta do tronco, enquanto minhas pernas eram forçadas para baixo dele. Consegui finalmente fazer a volta por cima  e me agarrar em galhos secos um pouco mais abaixo, alguns dos quais iam quebrando, até que pude me firmar. Enquanto isso, a Margarete, em melhores condições físicas, tinha usado o remo que trouxera para puxar meu amigo para a galharia, pouco mais abaixo de onde eu estava. Estávamos agora os três quietos, recuperando o fôlego e nos recobrando do susto.

Pouco depois, antes mesmo de podermos pensar muito, escutamos o barulho de um motor e, em seguida, um barco apareceu na curva acima. Fizemos sinal e eles vieram nos socorrer. Já com quatro pessoas e bastante carga, pedi a eles que nos deixassem na praia do outro lado do rio e que avisassem a pousada onde estávamos hospedados, que eles providenciariam o nosso resgate. O pessoal do barco, no entanto, foi irredutível e não quis nos deixar na praia, pois, segundo eles, uma onça certamente iria nos pegar. Depois de reajeitar a carga e as pessoas no barco, abriram espaço para que embarcássemos. Cansado como eu estava e com as limitações de movimentos que tenho nas pernas desde um acidente de ultraleve em 1998, foi necessário que um dos pantaneiros me içasse como um guindaste para dentro do barco.

Durante o trajeto de volta a Porto Jofre, um dos passageiros nos contou que foi muita sorte eles terem passado por ali naquele momento. Disse ele que eram funcionários de uma pousada mais acima no rio Piquiri, fechada desde março devido à pandemia. Eles haviam saído para ir a Poconé, mas quis o destino que alguém esquecesse um documento e tiveram que voltar à pousada para buscá-lo. Se isso não tivesse acontecido, eles teriam passado por nós enquanto ainda fotografávamos as ariranhas, e nós teríamos perdido nosso resgate quase que imediato. Embora eu tivesse tido a precaução de dizer para onde iríamos, o pessoal da pousada só iria se preocupar com a nossa ausência se não chegássemos ao final da tarde, o que representaria, no mínimo, passar a noite na margem do rio. Se isso acontecesse, não seria a minha primeira vez, mas certamente seria uma experiência traumática para meus companheiros. O curioso foi que a Margarete, sendo neófita no Pantanal, depois de ter se portado exemplarmente durante todo o episódio, contou que havia todo o tempo ficado preocupada com as onças na praia e com jacarés abocanhando-a por baixo d’água, mas ficou horrorizada quando soube depois que havia também piranhas no rio…

Resgate do barco. Foto: Fernando Tortato/Panthera Brasil,

Enfim, chegamos ilesos de volta à pousada. As únicas perdas que tivemos foram os equipamentos, principalmente de meu amigo, que perdeu várias dezenas de milhares de dólares em câmeras e lentes. Mas, como diz o ditado, vão-se os anéis, ficam os dedos. Depois de explicar o ocorrido, o pessoal da pousada conseguiu ajuda da colônia de pescadores e eu voltei ao local do acidente para tentar localizar o barco afundado. Com a ajuda do piloteiro que havia nos resgatado, e tendo identificado o local com a ajuda do malfadado tronco para baixo do qual quase fui levado, achamos o barco. Com cordas e ganchos e puxando com três barcos, conseguimos levá-lo para perto da praia, e a força de oito homens acabou de puxá-lo até a margem. No trajeto de volta à pousada, agradeci aos céus pelas bênçãos que havia recebido naquele dia.

Ao chegar à pousada, providenciei novamente a vinda do mecânico para efetuar os procedimentos necessários para limpeza do motor, troca dupla de óleo e nova revisão. Infelizmente, fiquei sabendo que, por ter afundado, o motor, que tinha menos de 100 horas de uso, perdera a garantia de cinco anos pela fábrica. Isso selou o compromisso de comprar novo motor para devolver à minha amiga. No dia seguinte ao naufrágio, retornamos à Brasília e depois a Porto Alegre. Na semana seguinte, compramos um motor igual e, no dia 18 de agosto, eu estava de volta em Cuiabá para fazer a reposição. O barco está agora pronto para quando minha amiga chegar ao Brasil, no início de outubro. Enquanto isso, o motor afundado está passando por uma revisão completa e será colocado à venda, para diminuir nosso prejuízo. E pensar que tudo isso aconteceu porque estávamos tentando economizar!

“É cedo ainda, mas dá para imaginar o impacto que esses incêndios terão no Pantanal, não apenas nos animais, mas na vegetação como um todo.”

Enfim, usei esse incidente incomum como preâmbulo para escrever sobre a situação que tem deixado estarrecidos a todos aqueles que conhecem e que amam o Pantanal. É irônico agora, e muito triste, pensar que um mês atrás eu estava nesse mesmo local onde agora as chamas reduzem tudo a solo torrado e onde onças e antas são encontradas mortas ou resgatadas por grupos de pessoas abnegadas e levadas para tratamento, onde permanecem lutando entre a vida e morte.  E, como disse um amigo da área, “se os grandes e fortes estão morrendo, imagine os pequenos e indefesos”.

É cedo ainda, mas dá para imaginar o impacto que esses incêndios terão no Pantanal, não apenas nos animais, mas na vegetação como um todo. Esse impacto vai ser diferencial conforme as espécies, algumas se recuperarão mais rápido, outras demorarão muito mais. Talvez algumas não se recuperem. Não sabemos ainda se poderemos acompanhar todos esses processos, em todas as suas escalas. Mas será um imenso aprendizado. E espero, sinceramente, que possamos aprender pelo menos algumas lições básicas sobre como evitar situações semelhantes no futuro para que não se repitam. Porque, infelizmente, agora que o leite já se derramou, sabemos que o desastre vinha se anunciando há décadas.

O Pantanal é resultado de várias características, sendo uma das mais marcantes o seu ciclo anual, de cheia e de seca. Além desse, costumava ser identificado também um ciclo plurianual de secas e cheias, com um período de aproximadamente 14 anos de enchentes mais pronunciadas, seguido depois de outros tantos anos de secas acentuadas, que se alternavam. No entanto, desde as grandes cheias da década de 70, esse ciclo maior tem se desequilibrado, talvez como consequência de alterações antrópicas mesmo fora da bacia do Pantanal. Com o recuo da pecuária na parte central do Pantanal por causa das grandes enchentes, e com a criação e proteção de várias áreas para conservação, mais e mais extensões de mata foram se acumulando. Mesmo na região do Jofre, grandes áreas abertas foram sendo tomadas por ambientes florestados. Com os últimos anos de secas intensas, foram-se criando as condições que culminaram com a ignição dos fogos espalhados praticamente em toda a bacia do Pantanal, intencionais ou acidentais, ainda piorado pela longa ausência de chuvas nesse período. É o aspecto negativo das grandes extensões florestadas protegidas demais com a finalidade de conservação.

Combate aéreo ao incêndio no Parque Estadual Encontro das Águas.
Foto: Mario Friedlander/AECOPAN

São criadas as condições para os chamados “wildfires”, ou incêndios florestais, que, quando começam, ardem sem possibilidade de controle. Isso tem ocorrido mesmo em países com boas políticas de manejo de fogo, como Estados Unidos, Austrália e alguns países da Europa. Temos que proteger grandes áreas de mata, sim, mas, ao mesmo tempo, manter condições de protegê-las contra fogo, por mais dispendioso e trabalhoso que isso possa ser.

Como apontado por um amigo, Walfrido Tomás, da Embrapa Pantanal, as mudanças climáticas globais são agora um componente mais sério. No ano passado, choveu 25% menos que a média na Bacia do Alto Paraguai, e esse ano já estamos ultrapassando 40% de déficit em relação à média. Os cenários de mudanças climáticas indicam que a partir de 2070 os modelos mais negativos seriam de uma redução de 30% em relação à média, com aumento da temperatura e incidência de eventos climáticos extremos. O Pantanal é regido por instabilidade quando se olha em escala de tempo mais longo, não em ciclos previsíveis. O que era o “normal” já não vale mais, mesmo sendo caracterizado por instabilidade. A região vai se tornando mais seca e mais quente, e esse será um novo normal. Assim, como preconizado por ele, talvez seja necessário se adaptar à uma nova realidade, onde mesmo as tradições, usos e costumes no manejo das terras terão que ser adequadas ao novo normal. Isso inclui o manejo de áreas protegidas, cujos gestores precisam ser realistas e adotar a queima prescrita como uma pratica conservacionista de rotina, como já feito por algumas unidades de conservação. Ao invés de disputas e conflitos, quem sabe seja preciso uma aproximação de objetivos, fazendeiros usando a terra de forma mais parecida com as unidades de conservação e as unidades de conservação sendo protegidas de forma mais parecida com as fazendas.

Para o momento, vamos ter que correr atrás do prejuízo, e esperar que o Pantanal, com sua resiliência, comece a se regenerar. E enquanto toda a sua parte biológica lambe suas feridas, a parte antrópica, social, que sobrevive a esse desastre ambiental, com muitos daqueles que viviam em função do turismo da onça, terão que se reinventar e se readequar, na esperança que, algum dia, em breve, as onças possam voltar a ser o astro principal no palco onde a natureza brilha mais forte, nos rios do Pantanal. Esperamos que depois que as chamas se apaguem, possamos descobrir que as sobreviventes serão bem mais numerosas que aquelas mortas ou retiradas para recuperação e que elas consigam se acomodar e sobreviver no que restar da hecatombe que passou pelo que antes era sua casa. É provável que por alguns anos, as fotografias dessas onças tiradas por turistas na beira dos rios não tenham o verde e o aspecto selvagem que costumavam ter, mas com o tempo, eles voltarão. E quem sabe então, esse tipo de turismo possa vir a ser mais equilibrado, e não restrito apenas aos mais abastados, de forma que pessoas com menor poder aquisitivo também tenham acesso ao privilégio de ver uma onça em seu lugar de direito.