A morte dos polinizadores: Desinformação desafia o controle do uso de agrotóxicos

Frente à expansão do agronegócio, nas últimas duas décadas, e à proximidade cada vez maior entre as plantações de soja e as comunidades rurais e urbanas, o controle do uso de agrotóxicos na Região Metropolitana de Santarém enfrenta dois grandes desafios.Meio Ambiente,Agricultura,Alimentos,Agrotóxico,Abelhas,Saúde,Ecologia,Blog do Mesquita

A subnotificação de casos de intoxicação por contato com essas substâncias químicas e a desinformação que tende a ampliar os riscos socioambientais causados tanto pela manipulação como pela aplicação inadequadas de produtos tóxicos nas lavouras de Belterra, Mojuí dos Campos e Santarém, municípios integrantes dessa região do oeste paraense.

O panorama é sintetizado por Gracivane Moura, liderança que tem buscado respostas para esses dilemas enfrentados pelas populações mais vulneráveis em três frentes de atuação na região. Como presidente do Conselho Municipal de Saúde de Santarém, secretária de Políticas Sociais do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, além de secretária do Fórum Regional de Combate ao Uso de Agrotóxicos do Baixo Amazonas. Esse é um movimento de articulação social, criado em 2017, que reúne pesquisadores e representações da sociedade civil com interesse no debate e na busca de soluções para o problema.

As ações são voltadas à orientação dos profissionais de saúde sobre como identificar possíveis interfaces entre sintomas relatados e a exposição dos pacientes às substâncias químicas usadas nos plantios, cada vez mais próximos às moradias das famílias que buscam atendimento médico. “Temos trabalhado nisso. Já estamos na terceira campanha de combate ao uso de agrotóxicos na região e desde a primeira temos trazido os agentes comunitários de saúde para atividades no Fórum”, afirma.

Ela reconhece que algumas queixas como vômito, tontura, dores de cabeça, entre outras, tendem a serem registradas, recorrentemente, como “virose”, seja por desinformação de alguns profissionais de saúde, ou por medo de retaliações à notificação compulsória de intoxicação por agrotóxicos. Desde 2011, as denominadas intoxicações exógenas (envolvem substâncias químicas como agrotóxicos, gases tóxicos e metais pesados) devem ser notificadas, conforme determinado pela Portaria Nº 104 do Ministério da Saúde.

Mas o medo de retaliações ganhou mais força diante de um episódio ocorrido na região, há pouco mais de um ano, quando uma técnica de enfermagem que realizou algumas notificações de intoxicação por agrotóxicos foi exonerada. Por medida de segurança, o nome da profissional de saúde e outros detalhes sobre esse caso não foram divulgados. No entanto, foi esclarecido que o Fórum vai buscar uma forma de reverter a exoneração por meio de ação junto ao Ministério Público.

Quanto à falta de informação sobre os riscos associados ao uso inadequado de agrotóxicos nas áreas rurais, a gravidade da situação é exemplificada pelos casos de agricultores que aplicam esses produtos químicos nas próprias pernas. Dessa forma, consideram que não serão picados por formigas durante o trabalho na lavoura. “Temos trazido essa discussão para o Fórum e também conseguido reverter alguns casos com campanhas educativas”, adianta a líder sindical.

Descalço e confiante na proteção divina

De pés descalços, vestido com roupas rasgadas e sem qualquer proteção, sob um sol a pino, o agricultor Antônio Carlos Alexandre do Nascimento, 51 anos, aplica na sua roça, os jatos de agrotóxico lançados de um equipamento de pulverização carregado nas costas. Essa demonstração evidente de risco associado à falta de informação e à vulnerabilidade social foi flagrada às margens da BR-163, no sentido Belterra-Santarém.
Antônio Carlos Alexandre do Nascimento, 51 anos, aplica na sua roça, os jatos de agrotóxico lançados de um equipamento de pulverização carregado nas costas (Elizabeth Oliveira)

Com jeito desconfiado, evitando entrar em muitos detalhes sobre a sua rotina, Nascimento relata, resumidamente, que tem trabalhado como agricultor, desde os 17 anos, sem nunca ter recebido nenhum tipo de instrução sobre como lidar com agrotóxicos. Não por acaso, as dosagens são determinadas pela sua própria intuição. Entre ramas de abóbora, para onde lança os jatos de veneno, ele afirma que se sente protegido por Deus. Por isso, não teme problemas de saúde decorrentes do contato com esses produtos químicos que sempre “ajudam a afastar uns bichinhos” dos alimentos cultivados, segundo ele, para consumo da própria família.

O biólogo, Ruy Bessa, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) relata que, nas suas aulas, costuma apresentar exemplos históricos de como nos campos de algodão, do sul dos Estados Unidos, a aplicação de agrotóxicos ocorria sem nenhum tipo de segurança, nas décadas de 1930 e 1940. Pela experiência acumulada na área de ecotoxicologia, ele afirma que, o que acontecia naquele país, no início do século passado, “continua acontecendo de forma muito corriqueira, não somente na Amazônia, mas no Brasil, em geral.”

Na opinião do professor, alguns fatores contribuem para essa realidade, dentre os quais, “muita permissividade no consumo de agrotóxico no país”. Uma ilustração dessa problemática tem envolvido, inclusive, a Portaria 43/2020 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que trata de “autorização automática” para registro de novos agrotóxicos, entre outros produtos, caso o pedido não seja analisado pela Secretaria de Defesa Agropecuária em até 60 dias. Entretanto, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou, no dia 16 de junho, a decisão do ministro Ricardo Lewandowski, pela suspensão de trechos da portaria que tratam dessa aprovação tácita, antes da sua entrada em vigor, em abril. Mas, a decisão teve caráter liminar e o mérito da ação ainda será julgado.

Outro problema mencionado pelo professor envolve uma relativa facilidade de aquisição de agrotóxicos no Brasil. Há uma legislação específica, determinando que a compra de um produto dessa natureza somente seja permitida mediante receituário de profissional habilitado (agrônomo e engenheiro florestal). Mas Bessa ressalta que, nas lojas de artigos de agropecuária, não é difícil adquirir essas substâncias, muitas vezes manipuladas e aplicadas sem critérios técnicos e sem proteção individual como nesse caso do agricultor de Belterra.

Além de ampliação da disseminação de informações para os agricultores e de ações de fiscalização de aquisição e uso, o especialista defende estudos em novas tecnologias de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), fundamentais para quem atua com a manipulação de agrotóxicos. Da mesma forma, alerta para a importância de capacitação e mobilização dos agricultores paraenses para que consigam ampliar as práticas de produção agroecológica.

Exposição humana ao uso prolongado preocupa especialistasAlimentos,Ambiente & Ecologia,Brasil,Agrotóxicos,Agricultura,Saúde

Diante de inúmeras formas de exposição ao uso prolongado de agrotóxicos, sobretudo envolvendo aplicação em larga escala, profissionais de saúde estão interessados na investigação do histórico de casos de câncer na Região Metropolitana de Santarém. Na comunidade de Boa Esperança, em Santarém, por exemplo, 12 pacientes em tratamento da doença vêm sendo diretamente acompanhados, desde 2016, por integrantes do Fórum.

Mas devido à intensificação desse debate, os integrantes do Fórum e de suas organizações parceiras têm sido cada vez mais cobrados pelos sindicatos dos produtores rurais da região. As entidades ligadas, principalmente, à cadeia da soja têm demandado a apresentação de resultados concretos de contaminação do ambiente e de impactos na saúde pública provocados por agrotóxicos utilizados nas suas atividades.

Como especialista que tem buscado intensificar investigações científicas sobre essa problemática na Região Metropolitana de Santarém, o biólogo Carlos Passos, professor da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que algumas pesquisas com esse enfoque estão em curso, embora os seus resultados não sejam alcançados de forma imediatista. São análises de mais longo prazo que, inclusive, precisam ser ampliadas em seus processos metodológicos para orientar decisões futuras.

Comprovar a contaminação por agrotóxicos desafia cientistas e juristas

Relatos de problemas provocados pela expansão agrícola na Região Metropolitana de Santarém, dentre os quais, o uso de agrotóxicos nos plantios de soja, têm sido frequentemente ouvidos pelo biólogo Ruy Bessa. Embora indícios sobre os impactos socioambientais já tenham sido levantados por alguns estudos realizados e, outros em andamento, comprovar a relação de causa e efeito dessa atividade para fins de responsabilização e adoção de novos protocolos de controle não é tarefa fácil. Parte da solução depende de monitoramento sistemático do teor de resíduos de agrotóxicos. Mas instalar um laboratório para esse fim “é um sonho” que, segundo estima, custaria pelo menos R$ 10 milhões.

Apesar do alto custo relacionado à instalação de um laboratório analítico de resíduos, “esse sonho” compartilhado pelo professor e outros atores sociais da região atenderia às demandas tanto dos órgãos de controle, que carecem de elementos comprobatórios, como da população exposta. Embora não haja nenhum acordo, no sentido de financiamento desse tipo de laboratório, Bessa considera fundamental que a iniciativa seja concretizada, futuramente, uma vez que seria benéfica para toda a sociedade.

Ele explica que a comprovação dos efeitos causados pela exposição a determinadas substâncias tóxicas é um processo que envolve grande complexidade, sendo comum, inclusive, a falta de respostas para a detecção da presença de resíduos em alguns organismos. Um exemplo nesse sentido se relaciona às análises a partir da coleta de sangue. Nesse caso, é difícil determinar se exposição a algum contaminante é recente ou se ocorreu no passado.Glifosato,Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Brasil

Por outro lado, os cabelos, as unhas, a saliva e a urina são matrizes biológicas importantes para a medição de contaminação do organismo por substâncias tóxicas. Entretanto, quando se realiza a verificação por uma dessas vias, é possível detectar o composto, ou não, ou mesmo, identificá-lo em baixas concentrações. Não por acaso, os custos desse tipo de investigação são altos e o monitoramento do problema precisa ser realizado mais ampla e continuamente, conforme recomenda o biólogo.

Diante das inúmeras dificuldades envolvidas com as análises de organismos vivos, incluindo o uso de métodos invasivos como a coleta de sangue, Bessa menciona que a água representa uma das matrizes mais fáceis de serem analisadas em processos de investigação sobre a presença de contaminantes.

Dos estudos pontuais ao ganho de escala, eis o dilema

Atento às demandas da sociedade sobre a necessidade de investigação mais ampla sobre os impactos decorrentes do uso de agrotóxicos nos plantios de soja da Região Metropolitana de Santarém, o professor Carlos Passos destaca a importância de realização de pesquisas com metodologias mais arrojadas.

Passos esclarece que, as pesquisas já realizadas, na região, não são, ainda, suficientemente avançadas, elaboradas e aprofundadas. “São pesquisas-piloto, projetos iniciais, embora essenciais para se compreender as necessidades de estudos, de fato, elaborados com metodologias mais arrojadas”, opina. Ele acrescenta que esse tipo de avanço é fundamental para que se possa analisar, mais amplamente, o grau de distribuição e de ocorrência de contaminantes no ambiente, além dos seus potenciais riscos à saúde humana.

A articulação de projetos em rede, segundo Passos, representa uma das principais demandas para o enfrentamento da realidade ainda marcada por estudos pontuais sobre essa problemática. “Até para que seja possível compreender melhor, comparativamente, como as situações vão se diferenciando, de uma região para outra, esse tipo de articulação é fundamental”, analisa. Na opinião do especialista, essa forma de atuação contribuiria para avanços no planejamento de estratégias de intervenção, visando à redução de riscos socioambientais decorrentes da expansão agrícola na Região Metropolitana de Santarém.

Pesquisas já indicaram a contaminação em leite materno

Mesmo diante de algumas limitações metodológicas referentes às pesquisas sobre os impactos do uso de agrotóxicos na Região Metropolitana de Santarém, incluindo suas escalas temporais e espaciais, além de seus altos custos, experiências já realizadas por universidades públicas sinalizam para alguns riscos que preocupam os pesquisadores.

Na dissertação de mestrado Avaliação da presença de pesticidas organoclorados em leite materno e bovino dos municípios de Mojuí dos Campos e Belterra, defendida em 2018 e coorientada por Ruy Bessa, foram identificadas cinco localidades rurais desses municípios, onde 15 amostras coletadas apresentaram resíduos dos organoclorados DDT e DDE (seu metabólito primário).Agrotóxico,meio Ambiente,Poluição,Insetos,Blog do Mesquita

O DDT é um pesticida proibido no país há mais de 30 anos. Seu nome consta na listagem da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) referente aos princípios ativos de uso não autorizado no Brasil. Entretanto, na pesquisa realizada na UFOPA, as amostras positivas (26% com resíduos de DDT e 46% com resíduos de DDE) estavam acima dos valores estabelecidos como seguros para a saúde humana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Plantação de soja em Belterra (Gabriel Siqueira)

O uso intensivo de DDT para o combate aos vetores de algumas doenças tropicais como a malária, medida que perdurou até a década de 1990, é cogitado como um dos possíveis fatores da contaminação identificada nos municípios paraenses. O solo também pode ter sido afetado pela utilização do DDT, na agricultura, até a década de 1980. Mas outras hipóteses são também mencionadas por Bessa. “A dieta das populações rurais da Amazônia, fortemente concentrada no pescado, neste cenário, capturado próximo às áreas agrícolas, pode indicar provável contaminação dos ambientes aquáticos.” Por fim, ele alerta para outro agravante: “Não se pode descartar a entrada sem registro de produtos comerciais à base de DDT, ainda largamente usados em países da Pan-Amazônia.”

A situação tem paralelo com o que se apurou em pesquisa realizada em Lucas do Rio Verde, cidade do Mato Grosso considerada um dos principais polos do agronegócio brasileiro, onde foi detectada a presença de agrotóxicos no leite materno. Naquele caso, 100% das 62 amostras analisadas apresentaram resíduos de dez substâncias presentes em agrotóxicos. A situação ganhou repercussão a partir da dissertação de mestrado intitulada Agrotóxicos em leite humano de mães residentes em Lucas do Rio Verde – MT, defendida em 2011, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sob a orientação do professor Wanderlei Pignati, referência brasileira no tema.

A pesquisa mencionada foi um dos principais desdobramentos científicos destinados à investigação de impactos decorrentes de pulverizações aéreas com agrotóxicos, realizadas em março de 2006, em Lucas do Rio Verde, por fazendeiros que estavam dessecando a soja para a colheita. Naquela época, uma nuvem tóxica foi levada pelo vento para área urbana tendo dessecado plantas e provocado surtos de intoxicações na população. A UFMT e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizaram um monitoramento no município, entre 2007 a 2014, para avaliar os impactos dessa dispersão no ambiente e na saúde humana.

As investigações de Pignati e da Fiocruz embasaram o documentário Nuvens de veneno e o professor da UFMT, juntamente com outros dois pesquisadores, relataram, em 2007, no artigo Acidente rural ampliado: o caso das “chuvas” de agrotóxicos sobre a cidade de Lucas do Rio Verde – MT esse caso emblemático em contaminação por agrotóxico no Brasil. Paralelamente, um amplo movimento da sociedade civil ganhou força, exigindo soluções e ampliação das ações de fiscalização.

O uso do glifosato também preocupa pesquisadores

Presente em várias formulações, o glifosato é líder de mercado mundialmente. No Brasil, onde lidera as vendas, são comercializados 110 produtos contendo glifosato, conforme destaca a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Nas lavouras de soja, costuma ser aplicado para combater as ervas invasoras e dessecar a oleaginosa. O professor Ruy Bessa acrescenta que há estudos adiantados, na comunidade europeia, para o seu banimento na agricultura. No entanto, em processo de reavaliação, oficializado em agosto de 2019, o governo brasileiro reduziu os níveis de toxidade, ao ser humano, de 93 produtos contendo essa substância, conforme apurado em reportagens exclusivas divulgadas pela Agência Pública de jornalismo investigativo e a ONG Repórter Brasil.

Seguindo em uma direção totalmente oposta ao entendimento do governo brasileiro, mais de 200 organizações da América Latina e do Caribe elaboraram um documento entre abril e maio deste ano, intitulado Abelhas e Agrotóxicos no qual solicitam à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) medidas urgentes para proteger as abelhas dos impactos causados pelo agronegócio.

No prólogo do documento, o agrônomo Rubens Onofre Nodari, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que artigos mencionados nessa publicação sugerem que os herbicidas à base de glifosato causam alteração de comportamento, redução do aprendizado olfativo e diminuição das populações de abelhas, além de aumentarem a suscetibilidade desses polinizadores a doenças, entre outros efeitos negativos.

Em função dos riscos sinalizados, o movimento formado por ambientalistas, cientistas (incluindo a física e ativista indiana Vandana Shiva) e outras representações da sociedade recomendou no documento que os Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) reconheçam as abelhas como Patrimônio Nacional. Nessa demanda se ressaltou o papel que desempenham como polinizadores das principais culturas agrícolas, sendo essenciais à segurança alimentar, entre outras funções ecológicas.

Diante dessas preocupações globais e nacionais e tendo em vista que nem todos os aspectos que preocupam os pesquisadores brasileiros foram mapeados em escalas ampliadas, especificamente na Região Metropolitana de Santarém, Bessa alerta sobre a necessidade de desdobramento das pesquisas com glifosato e outras substâncias tendo esse enfoque espacial. Nesse sentido, destaca a importância dos estudos liderados pelo biólogo e professor Carlos Passos, da UnB, que tem se dedicado às investigações sobre as águas, uma matriz que considera essencial a ser analisada em relação ao risco de contaminação por agrotóxicos.

Na dissertação de mestrado Expansão da fronteira agrícola e presença de Glifosato e Ampa em amostras de água da Região de Santarém (PA): desafios analíticos para o monitoramento ambiental, orientada pelo professor Carlos Passos, foram realizadas 63 amostras de águas, retiradas de córregos localizados em comunidades rurais adjacentes a grandes plantios de soja, dos municípios de Mojuí dos Campos e Santarém. Embora as investigações não tenham confirmado a contaminação nessas amostras, foram aplicados mais de 20 questionários para agricultores “que indicam um provável risco de exposição humana a agrotóxicos, principalmente pela via respiratória”, conforme expresso no trabalho final. Como parte das conclusões dessa pesquisa é defendida a ampliação de ações de monitoramento para tomadas de decisão que visem à proteção da natureza e da saúde humana.

Ministério Público demanda pesquisas para tomada de decisão

A realização de pesquisas científicas representa uma demanda crucial para os processos de tomada de decisão do Ministério Público do Estado do Pará que já está investigando queixas da população de Belterra e região sobre impactos socioambientais decorrentes do uso de agrotóxicos. Parte das reclamações envolve o extermínio de abelhas e outros polinizadores, o que tem causado a inviabilidade da produção de mel por pequenos produtores. Esse é o caso de João Batista Ferreira, conhecido como João do Mel, que depois de mais de 20 anos dedicados a um próspero negócio de meliponicultura (cultivo de abelhas nativas sem ferrão) teve o seu empreendimento desfeito. As manifestações têm sido apresentadas a partir de debates promovidos pelo Fórum Regional de Combate ao Uso de Agrotóxicos do Baixo Amazonas.

Ione Nakamura, promotora de Justiça com atuação no Ministério Público do Estado do Pará, informa que o processo investigatório, em curso, envolve coleta, tratamento e discussão de informações trazidas pelo Fórum para que seja possível avaliar qual a melhor forma de encaminhamento dessas demandas, se judicial ou extrajudicialmente.

A promotora que vem participando de diálogos com pesquisadores e outros integrantes do Fórum esclarece que, por meio desse espaço de debate e articulação, os especialistas têm buscado a construção de uma nota técnica a respeito de todas as metodologias de análises ambientais e humanas para se avaliar impactos dos agrotóxicos no ambiente e na saúde humana. Com base na literatura e nas evidências científicas, a ideia é apresentar orientações a partir da realidade da Região Metropolitana de Santarém.

“Essas evidências também vão nos ajudar nos trabalhos de acompanhamento de comunidades que têm tido a produção de frutas reduzida e a gente sabe que essa produção tem as abelhas como polinizadores. Nessa cadeia de troca de informações, o Fórum pretende ir construindo uma base de análises e monitoramento dos impactos dos agrotóxicos nessa região” adianta a promotora.Agrotóxico,Alimentos,blog do Mesquita

Ela percebe que há um processo gradativo de sensibilização da sociedade e de união de esforços para o levantamento de informações e acompanhamento dessa temática. “Talvez a gente só vá realmente perceber a importância disso daqui a algumas gerações. Mas a gente quer que não seja tarde demais e que se consiga fazer alguma coisa hoje”, analisa. A promotora acrescenta que as ações dos envolvidos nessa missão são inspiradas no Princípio da Precaução, utilizado pelo direito ambiental internacional em situações de incertezas sobre os impactos de determinadas atividades ou substâncias, na tentativa de se evitar possíveis efeitos na saúde humana e no ambiente,

“Vamos tentar usar a precaução, quando não se tem certeza dos impactos, além da prevenção, quando já sabe que uma determinada atividade causa impactos para buscar reduzi-los a partir de políticas públicas e outras alternativas”, adianta. Nesse contexto, a promotora considera importante até mesmo discutir ajustes na condução de políticas públicas, caso isso seja necessário, para se garantir a prevalência da vida e do direito das populações que podem vir a ser atingidas por atividades impactantes ao ambiente e à saúde humana.

O professor Bessa informou que todos os trabalhos acadêmicos que orienta ou coorienta serão depositados no Ministério Público. “Esse arsenal tem que existir para que apoie as petições, os documentos que são oriundos do judiciário para convocação, intimação, ou qualquer coisa desse tipo”, conclui.

Abelhas existem onde o agronegócio não alcançou

O tripé da crise já identificada na região é formado por fatores como a contaminação ambiental, o agravamento de problemas de saúde pública e o acirramento de conflitos agrários. Tudo isso já se reflete na dificuldade de manutenção do cultivo de abelhas sem ferrão por agricultores familiares e, consequentemente, na inviabilidade da produção e do comércio de mel.

Nas 297 comunidades de origem dos 8 mil trabalhadores rurais filiados ao Sindicato de Santarém, quase ninguém mais cultiva abelhas para a produção de mel. Mas a atividade ainda existe na Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, que abrange partes dos municípios de Aveiro e Santarém, “onde o agronegócio ainda não alcançou”, afirma a líder sindical Gracivane Moura. Seus argumentos reforçam a importância de manutenção da floresta de pé e da valorização dos conhecimentos das comunidades tradicionais para assegurar o futuro da meliponicultura e de todos os ganhos socioambientais e econômicos decorrentes dessa prática.

A Resex Tapajós-Arapiuns é uma das áreas onde a ONG Saúde & Alegria vem atuando, nos últimos três anos, em projetos de estímulo ao empreendedorismo comunitário, dentre os quais, o manejo de abelhas. Para que seja possível avançar no fortalecimento da produção de mel, estão sendo impulsionadas ações de capacitação e reflorestamento com espécies de árvores como cumaru, ingá e outras de preferência de abelhas nativas.Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Brasil

Com apoio de diversas organizações parceiras, outras comunidades incluídas nessas ações estão distribuídas ao longo da Área de Proteção Ambiental (APA) Alter do Chão, da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós e no Assentamento PAE Lago Grande. Um levantamento já realizado indicou que essa mobilização contribuiu para a produção de 1,6 mil litros de mel, a partir de 1,7 mil colmeias, entre o início de 2018 e maio de 2019.

Alexandre Godinho, técnico agropecuário e morador da comunidade Anã, na Resex Tapajós-Arapiuns, tem atuado diretamente nas ações de capacitação dos meliponicultores das comunidades contempladas com as ações de empreendedorismo. Além do desenvolvimento de um plano de negócios para que o produto final seja reconhecido no mercado, outra demanda percebida no diálogo com os produtores envolve a criação de uma cooperativa. Ele conta que a presença dessas áreas protegidas faz grande diferença na vida dessas comunidades, em contraste com a realidade de tradicionais produtores de mel da região. “Tenho amigos de Belterra que perderam em um ano tudo o que construíram em 20 anos”, lamenta.

Caetano Scannavino, coordenador da ONG Saúde & Alegria, destaca que a produção de mel nessas comunidades representa uma alternativa das mais promissoras e surgiu do desejo manifestado pelos próprios comunitários. Essa foi uma das cadeias produtivas identificadas, nos últimos quatro anos, quando foram traçadas estratégias de atuação para reflorestamento, além de mapeamento de vocações socioeconômicas regionais compatíveis com a manutenção da floresta e dos modos de vida das suas populações tradicionais.

O ambientalista conta que, além da possibilidade de comercialização de mel, própolis e de outros derivados, esse é um tipo de produção que também contribui para o fortalecimento da segurança alimentar. “A rede de manejadores que apoiamos já está pensando em venda de colmeias e aumento da produtividade”, comemora.

Scannavino acrescenta que a proposta da organização e de seus apoiadores é de atuar fortemente com o reflorestamento do complexo da Flona do Tapajós e da Resex Tapajós-Arapiuns, com 30 mil mudas de árvores nativas. O movimento pretende alcançar também os arredores de Belterra envolvendo grupos para ações de capacitação. Com entusiasmo, o ambientalista afirma que o Brasil pode ser líder em projetos socioambientais. Mel, azeite de castanha e óleos de andiroba e copaíba são alguns dos produtos com grande potencial de produção em bases mais sustentáveis que menciona como exemplos do que pode ser incentivado na chamada bioeconomia da Amazônia. Nesse contexto, ele considera fundamental o compromisso de desmatamento zero pelo agronegócio.
Colmeia de mel produzida na Resex (Gabriel Siqueira)

“Resgatar o valor da floresta é fundamental”, defende educadora

Diante da exuberância das sementes de andiroba recolhidas do chão, a bióloga e professora Laura Chagas explica que parte da riqueza da Amazônia está atrelada ao acúmulo de matéria orgânica depositada no seu solo. Apontando para o emaranhado de folhas, galhos, cascas, frutos e sementes, tudo ainda bem molhado pelas fortes chuvas amazônicas, ela observa que esses e outros elementos naturais, quando decompostos, se transformam em nutrientes fundamentais. Assim são alimentadas inúmeras formas de vida presentes em ambientes únicos como aquele fragmento verde, ainda existente nos arredores da Vila Americana de Belterra, onde mora. É desse processo que se retroalimenta, continuamente, a dinâmica da floresta de pé, cujo valor intrínseco precisa ser resgatado, na opinião da educadora.
Andiroba é um dos produtos com grande potencial de produção em bases mais sustentáveis (Elizabeth Oliveira)

Ela alerta que a sociedade depende dessa interação ecológica que vem sofrendo, cada vez mais, interferências de atividades econômicas insustentáveis. E enquadra nessa categoria as monoculturas que alteram ciclos naturais com consequências preocupantes para o equilíbrio climático, além da proteção das reservas de água e das espécies, dentre as quais, as abelhas e outros polinizadores. Além de indicadores da qualidade do ar, esses são elementos vitais à produção de tradicionais alimentos amazônicos. “Como vamos ficar sem castanha-do-pará, açaí, buriti e cupuaçu? Eles dependem das abelhas. Sem elas, como será?”, questiona.

Do passado marcado pela devastação da floresta para a construção de infraestrutura urbana, na tentativa de implantação de um polo de borracha natural que fracassou, na década de 1940, à expansão da produção da soja, cultura estabelecida, também, pela ampliação do desmatamento, a professora confessa não enxergar avanços atuais em Belterra e arredores. Pelo contrário, considera preocupante o cenário para essa região. Sua percepção de riscos é resumida com a seguinte analogia: “Plantar soja na Amazônia é como jogar bola em uma casa de vidro.”

Com base em uma imagem do Google Earth, a professora afirma que Belterra “é uma cidade sitiada pelos plantios de soja”. E identifica na foto os locais onde funcionam prédios públicos como escola, hospital e posto de saúde, além de quadras de propriedades de meliponicultores, todos cercados por plantações da oleaginosa.

Sobre cenários de riscos existentes, a professora destaca que a floresta também tem as suas fragilidades, além de interconexões entre espécies que estão sendo desestruturadas gradativamente. Nesse contexto, exemplifica que o fipronil, agrotóxico muito usado pelos produtores de soja da região, mata as abelhas. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com uma empresa privada, concluiu que o fipronil pode ter causado a morte de 480 milhões de abelhas, entre 2018 e 2019, naquele estado da região sul.

Na escola de ensino médio de Belterra, onde atua, Laura tem ouvido relatos frequentes de pais em estado de depressão, diante de perdas contínuas de suas fontes de renda e alimentação. Além disso, tem tomado conhecimento de famílias que precisam se ausentar de suas casas, por até uma semana, por não suportarem mais o efeito dos agrotóxicos pulverizados nos arredores. Algumas acabam vendendo seus imóveis como forma de escapar dessa pressão. “Quem pagará por esses prejuízos?”, questiona.

E diante dos impactos associados à alteração da dinâmica de reprodução das abelhas, dentre as quais, as mangangás ou mangangavas, ela conta que já existem famílias produtoras de frutas da região pagando por serviços de polinização manual. “Nunca pensei que algo assim fosse acontecer na Amazônia”, lamenta. E lança o desafio: “Polinizar manualmente culturas como a do maracujá pode ser mais fácil. Mas como será com árvores altas como a castanheira?”.

Como bióloga atenta a essas dinâmicas, Laura alerta, ainda, que já se tem notícias na região de competição entre abelhas para a retirada do pólen, processo que tende a se agravar diante de perda de habitat e outros impactos ambientais impulsionados, principalmente, pela expansão das monoculturas. A flora comprometida, consequentemente, vai dificultar a sobrevivência e os processos de reprodução da fauna. “Vai faltar alimento para pacas, cotias, araras e tantos outros animais da floresta. É a morte anunciada em efeito cascata”, adverte.

E diante da falta de ação do poder público para resolver a situação relatada, a professora considera que uma das saídas possíveis envolve o fortalecimento da capacidade de articulação social por meio do Fórum Regional de Combate ao Uso de Agrotóxicos do Baixo Amazonas, movimento do qual participa. “Se o Brasil não abrir os olhos terá um futuro de muita tristeza”, conclui.Blog do Mesquita,Saúde,Brasil,Alimentos,Agrotóxico,Paulo Guedes,Economia

O alerta da educadora encontra ressonância nos versos finais do Lamento do João do Mel, divididos entre a revolta, o questionamento, um fio de esperança e, ao mesmo tempo, o senso crítico diante da falta de respostas da sociedade que realmente contemplem o bem comum. “Os rios poluídos, veneno ingerido, macabros presentes desse vil metal. Eles matam por tão pouco. Na guerra das terras para onde irão? Mas os ciclos, os ciclos da vida sobreviverão (que somos nós). Oh, pátria amada, idolatrada, salve-se quem puder.”

Até o fechamento desta edição não houve retorno às solicitações de entrevistas encaminhadas por intermédio de assessores do prefeito de Belterra, Jociclélio Castro Macedo, e da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina .

Mara Régia é publicitária e jornalista, baseada em Brasília, que há 40 anos dialoga com comunidades da Amazônia por meio de reportagens radiofônicas e oficinas sobre gênero, ambiente e sociedade. Elizabeth Oliveira é jornalista e pesquisadora, baseada no Rio de Janeiro. Há 25 anos atua na cobertura de temas socioambientais. Esta reportagem foi produzida com apoio do Rainforest Journalism Fund em parceria com o Pulitzer Center. A viagem foi realizada antes das medidas de isolamento social devido à pandemia da Covid-19.

Estamos comendo golfinhos, tartarugas e aves marinhas?

O que seu almoço tem a ver com golfinhos,
tartarugas e aves marinhas?

Se você achou essa pergunta sem sentido, precisamos conversar sobre pesca acidental. Este é um grave problema ambiental, que está contribuindo com a extinção de espécies no Brasil e no mundo. A pesca acidental ou captura acidental (bycatch, em inglês) pode ser definida como espécies que são capturadas de forma não intencional nas pescarias.

Para entendermos melhor este conceito, podemos pensar em um tiro ao alvo. O centro corresponde às “espécies-alvo” – aquelas com interesse econômico e comercial -, enquanto o entorno é repleto de outros animais que podem ser atingidos acidentalmente. Se considerarmos a pesca, há um desafio adicional nos arremessos: já que não vemos o que está no fundo do mar, é como se lançássemos os dardos com olhos vendados.

Por serem pouco seletivos, os artefatos utilizados na pesca acabam capturando muitos outros animais. Entre estes artefatos estão: redes de arrasto de fundo, que são arrastadas pelo fundo do mar para capturar principalmente camarões; redes de emalhe, que ficam esticadas na coluna d’água e capturam animais de passagem; e o espinhel, uma sequência de anzóis (20 a 300) presos em um cabo que permanece esticado em diferentes profundidades.

Ilustração de diferentes artefatos de pesca: (A) Arrasto de fundo; (B) Redes de emalhe; e (C) Espinhel. Fonte: adaptado de CEPSUL/IBAMA.

A consequente quantidade de animais capturados de forma não intencional é alarmante. Segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), entre 2010 e 2014 foram 9,1 milhões de toneladas de animais capturados por pesca acidental no mundo. Isso equivale a 3.600 piscinas olímpicas cheias de animais que serão descartados – mortos ou feridos. Uma das espécies-alvo com maior taxa de captura acidental associada é o camarão: neste caso, são capturados até 20 quilos de outros animais para cada quilo de camarão comercializado.

A triste realidade da captura acidental: são milhões de animais mortos a cada ano. Fonte: adaptado de Natural Environment Research Council; Food & Agriculture Organization of the United Nations.
De acordo com o mesmo relatório, as regiões que mais contribuem com a captura acidental no mundo estão no Hemisfério Norte: entre a Groenlândia e Noruega (nordeste do Oceano Atlântico); e na extensão costeira do Japão e leste da Rússia (noroeste do Oceano Pacífico). Ambas somam aproximadamente 40% da pesca acidental global. Contudo, é no Atlântico Sul Ocidental – região que inclui a costa brasileira e que se estende até o limite com a Antártica – que se encontra a faixa com a maior taxa de descarte. Isso quer dizer para cada tonelada de pescado comercializado, há uma maior proporção de animais descartados associada.

Distribuição das taxas de descarte pesqueiro no mundo (toneladas de descarte por toneladas de pesca). As estrelas vermelhas indicam as regiões com maior captura acidental absoluta (em toneladas). Fonte: adaptado de Natural Environment Research Council; Food & Agriculture Organization of the United Nations.
Que espécies são vítimas dos arremessos errados?

Os animais capturados de forma acidental incluem diversas espécies: podem ser peixes que não serão consumidos ou com tamanho muito pequeno, além de aves marinhas, tubarões, golfinhos, tartarugas marinhas, baleias. Muitos destes animais ficam presos nas redes e acabam morrendo por estresse ou afogamento.

Uma característica comum entre várias espécies que são capturadas acidentalmente é que estes animais se reproduzem em ritmos lentos. Isto quer dizer que têm poucos filhotes por vez e sua gestação é demorada. Dessa forma, ao terem as populações reduzidas, sua recuperação será lenta. Essas perdas são ainda mais graves quando falamos em espécies ameaçadas e que já têm populações pequenas.

A toninha (Pontoporia blainvillei) é um exemplo de animal que atende a todos esses pré-requisitos preocupantes: está entre os golfinhos mais ameaçados do mundo, as fêmeas têm apenas um filhote a cada dois anos e sua gestação dura 11 meses. Estes golfinhos só existem em águas rasas do Brasil, Argentina e Uruguai e suas populações estão diminuindo em função de várias ameaças. Dentre elas, a pesca acidental figura como principal causa de suas mortes.
Toninhas mortas por estresse, asfixia e afogamento após emalhe em rede de pesca. Foto: Santiago Anguita/PMP-BS/UDESC.

Toninha grávida, morta por afogamento e com marcas de emalhe em rede de pesca. Foto: PMP-BS/Univille.

As capturas desta espécie são alarmantes, pois além da população reduzida, a maioria dos animais que ficam presos em redes é jovem. Isto acontece porque indivíduos jovens ainda não desenvolveram de forma ampla o seu sentido de ecolocalização (capacidade de perceber o ambiente através dos sons e dos ecos produzidos). Como estes animais não conseguem detectar a presença das redes, acabam sendo as principais vítimas. Para a população, perder indivíduos jovens é inestimável: além da redução no número de indivíduos, estes jovens mortos não tiveram a oportunidade de se reproduzirem e deixarem descendentes.

A pesca acidental e suas consequências são problemas tão graves quanto complexos, mas a atenção que lhes é dada está longe de ser proporcional. Ao olhamos para o Brasil, o horizonte de solução parece ainda mais distante, já que sequer temos estatística pesqueira básica. Se quisermos uma mudança promissora nesse tiro ao alvo e a garantia de um oceano com vida, é imprescindível resgatarmos nossa gestão pesqueira da deriva.

Fonte: Instituto VIVA Verde e Azul.

*Textos produzidos pelos(as) alunos(as) da disciplina “Conservação da Biodiversidade no Antropoceno”, ministrada no Programa de pós-graduação em Ecologia da UFSC, pela Profa. Dra. Michele de Sá Dechoum (UFSC) e pela Dra. Paula Drummond de Castro (Labjor – UNICAMP). 

Este texto foi escrito por:

Larissa Dalpaz é bióloga, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFSC e bolsista “STOP Bycatch” do Instituto Viva Verde Azul.

Mario Tagliari é biólogo, doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFSC e idealizador do projeto de divulgação científica Ciência no Bar.

Samuel Costa é biólogo, Mestre em Ciências Ambientais e Professor do Instituto Federal de Santa Catarina.

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Investidores globais exigem debater desmatamento com diplomatas do Brasil

Um grupo de 29 empresas globais de investimento que administram 3,7 trilhões de dólares está exigindo reuniões com diplomatas brasileiros em todo o mundo para pedir ao governo do presidente Jair Bolsonaro que detenha o avanço do desmatamento na Floresta Amazônica.

Área desmatada da Amazônia brasileira em Itaituba, no Pará 26/09/2019 REUTERS/Ricardo Moraes

Os investidores, liderados pela empresa de seguros e pensões norueguesa Storebrand Asset Management, enviaram cartas a embaixadas do Brasil em sete países pedindo reuniões e expressando o receio de que o Brasil esteja eliminando proteções ambientais, de acordo com um comunicado que incluiu uma cópia da carta.

“A escalada do desmatamento nos últimos anos, combinada a relatos de um desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos e de agências de vigilância, está criando uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou oferecer serviços financeiros no Brasil”, disse a carta.

Ambientalistas culpam Bolsonaro por enfraquecer as proteções e causar um aumento no desmatamento e nos incêndios florestais desde que tomou posse em 2019.

Bolsonaro argumenta que o Brasil é um modelo de conservação, ao mesmo tempo em que pede mais mineração e agricultura na região amazônica.

O Ministério das Relações Exteriores brasileiro não respondeu a um pedido de comentário.

O presidente-executivo da Storebrand Asset Management, Jan Erik Saugestad, disse em uma entrevista que, embora iniciativas anteriores tenham se concentrado em pressionar empresas brasileiras, o novo esforço visa precisamente o governo.

Entre as 25 empresas europeias que assinaram estão a também norueguesa Nordea Asset Management e a Igreja da Inglaterra, que tem um fundo de pensão equivalente a 3,5 bilhões de dólares. A britânica Legal & General Investment Management (LGIM) está entre as maiores investidoras com seus 1,2 trilhão de libras esterlinas sob gerenciamento.

As norte-americanas Domini Impact Investment e Pax World Funds também assinaram a carta. A Fram Capital, que tem sede em São Paulo, é a única signatária brasileira.

A carta não fala em consequências se o governo brasileiro não agir, mas na semana passada sete empresas da Europa disseram à Reuters que podem desinvestir em ativos ligados ao país se a destruição ambiental continuar. Muitas destas empresas também assinaram a carta enviada às embaixadas.

Desmatamento e fogo podem agravar pandemia na Amazônia

Cerca de 4.5 mil km2 de Floresta Amazônica desmatados estão prontos para serem queimados.

Levantamento aponta imensa área desmatada na Amazônia que pode virar cinzas nos próximos meses. Problemas respiratórios trazidos por essa poluição devem pressionar ainda mais sistema de saúde que sofre com covid-19.

Abatidos pela alta incidência da covid-19 e a baixa oferta de leitos hospitalares de cuidado intensivo, os estados amazônicos podem ver o número de pacientes com problemas respiratórios explodir a partir das próximas semanas, quando começa a temporada do fogo na região. Com o fim do período de chuvas, desmatadores costumam retornam aos locais onde a floresta foi derrubada anteriormente para queimar os restos e, assim, “limpar” o terreno.

Estimativas divulgadas nesta segunda-feira (08/06) pelo Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam) indicam que este deve ser o destino dos 4.509 quilômetros quadrados de Floresta Amazônica – o equivalente a quatro vezes a cidade de Belém, no Pará – derrubados entre janeiro de 2019 e abril de 2020 e que ainda não foram queimados

“Se continuar o ritmo intenso de desmatamento nos próximos meses, que é quando, geralmente, há aumento porque fica mais seco e mais fácil de entrar na mata com o trator, haverá uma área bem maior pra queimar, que pode chegar a 9 mil quilômetros quadrados”, afirmou Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam. “Pode ser uma área nunca vista antes para queimar”, adverte.

A nota técnica identificou áreas desmatadas no ano passado, mas que ainda não queimadas. Em 2019, a Amazônia em chamas gerou fortes críticas às políticas ambientais do presidente Jair Bolsonaro. Em reação, o governo enviou em agosto soldados das Forças Armadas para controlar a situação. A ofensiva levou muitos desmatadores a se esconderem e adiarem a etapa do fogo.

“Todo desmatamento é seguido do fogo. É custoso derrubar floresta, pode custar de 800 a 1.200 reais por hectare. Por isso que quem derrubou a mata vai querer garantir o investimento e vai voltar para queimar”, acrescenta Moutinho.

Essa catástrofe ambiental pode ainda gerar uma tragédia de saúde pública. A fumaça atinge em cheio os pulmões já expostos ao novo coronavírus, que provoca uma síndrome respiratória aguda grave. Um estudo prestes a ser publicado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, aponta que mesmo um pequeno aumento da poluição pode elevar a taxa de mortalidade por covid-19.

No Brasil, pesquisas feitas nas últimas décadas traçam a relação direta entre o fogo na Amazônia e internações por problemas respiratórios. Mais recentemente, um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concluiu que viver em uma cidade próxima a focos de calor aumenta em 36% a probabilidade de internação.

“Crianças e idosos são os mais vulneráveis”, complementa o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP). Até quem está longe do fogo é atingido: a poluição das queimadas da Amazônia viaja por quilômetros e atinge populações isoladas que respiram o ar insalubre, acrescenta o cientista.

Apesar da abertura recente de novos leitos para tratar pacientes com covid-19, a taxa de ocupação segue elevada em alguns estados da Amazônia. O Pará, por exemplo, está com 85% de sua capacidade ocupada, segundo profissionais do sistema público. Juntamente com Mato Grosso, Rondônia e Amazonas, o estado faz parte do grupo que concentra 88% da área de floresta derrubada à espera da queima.

Seca, desmatamento e fogo

Além do cenário identificado pelo levantamento do Ipam, uma possível seca nos próximos meses pode intensificar a temporada do fogo. Uma nota técnica assinada por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontou um aumento da temperatura acima de toda a média histórica foi identificado no oceano Atlântico, fenômeno que tende a causar secas em regiões próximas ao Acre.

“Estas secas induzem a uma intensificação das queimadas nas áreas desmatadas, e aumentam o risco de incêndios florestais nas áreas em que o fogo é utilizado para manejo da terra”, afirma a nota. De agosto de 2019 a maio de 2020, foram detectados 78.443 focos de queimadas na Amazônia, um número maior do que o registrado no mesmo período entre 2018 e 2019.

“Com muita área para queimar, com o impacto da seca e o número grande de infectados pelo vírus, a pressão sobre o sistema hospitalar será enorme”, pontua Moutinho.Amazônia,Brasil,Queimadas,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

A saída para evitar uma catástrofe ambiental e de saúde pública, sugerem os pesquisadores, é evitar que a grande área já desmatada vire cinzas.

“É fundamental que o poder público crie uma estratégia de combate não só às queimadas, mas à raiz do problema, que é o desmatamento”, argumenta Moutinho. “Com queima da floresta e a pandemia, o problema é agravado. Se não for feito nada, a conta virá em número de mortes, além da perda de biodiversidade e da mudança do clima regional”, adiciona.

Questionado o Ministério do Meio Ambiente informou que as ações na Amazônia estão a cargo da vice-presidência da República. O órgão não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Labirinto de papéis e falta de transparência ocultam investimento em desmatadores

No ano passado, a jornalista Débora Gastal decidiu fazer um pé de meia para ter uma velhice mais confortável.

Aos 31 anos, ela se somou aos 13,5 milhões de brasileiros que têm uma previdência privada ou complementar – modalidade de investimento em que o banco usa o dinheiro do cliente para apostar no mercado financeiro em busca de lucro. Como trabalha em uma ONG com foco em mudanças climáticas, Gastal não queria financiar empresas de combustíveis fósseis ou outras companhias não comprometidas com o meio ambiente. Mas, sem saber, estava ajudando a capitalizar a indústria petroquímica, fabricantes de celulose e de agrotóxicos.

Ela tentou descobrir onde o Banco do Brasil estava colocando seu dinheiro, mas na agência, o gerente não soube dizer. Procurou, então, essa informação no relatório de investimentos, que recebe todos os meses por e-mail. Mas ali também não há menção às empresas nas quais estão aplicadas suas economias, apenas uma lista de fundos com nomes pomposos que as administram – Premium IV, Multi Dividendos I, Estratégia 2035 III, e assim por diante – e o quanto aquela aplicação está rendendo ao cliente.

“Eu queria poder selecionar as empresas em que estou investindo, para apoiar propósitos nos quais acredito. Mas tive que investir no escuro, apostando apenas na rentabilidade”, lamenta a jornalista.

Como Gastal, milhões de brasileiros que aplicam seus rendimentos em fundos podem estar apoiando empresas envolvidas em graves problemas ambientais. “Os fundos, sejam de previdência ou de ações, são estruturas intermediárias de investimento. Você está confiando seu dinheiro para um gestor, ou seja, está terceirizando estas decisões. E tradicionalmente os investidores sempre estiveram mais preocupados com o lucro das suas carteiras do que com riscos socioambientais de suas aplicações”, explica Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI, uma organização que trabalha para estimular os investimentos em iniciativas com impacto socioambiental positivo.
Se o objetivo do cliente for depositar suas economias em negócios bons para o planeta, é bom abrir o olho ao procurar alguma das 67 corretoras de ações e 94 distribuidoras listadas na CVM. São empresas que apostam em plataformas online amigáveis e pouca burocracia para conquistar o cliente não especializado. Uma de suas missões é orientar quem não entende direito o funcionamento do mercado sobre os melhores ativos nos quais investir – o que incluiria apontar riscos de papéis contaminados com práticas prejudiciais à natureza, conforme determina uma norma do Banco Central do Brasil: “instituições financeiras nacionais devem estabelecer critérios e mecanismos de avaliação de risco em operações relacionadas a atividades econômicas com maior potencial de causar danos socioambientais”.

Mas, se isso está sendo feito, não chega até a ponta da cadeia onde estão a jornalista Débora Gastal e outros clientes. Exemplo: em dezembro do ano passado, a XP Investimentos, uma das principais corretoras do país, que gerencia R$ 409 bilhões investidos por 1,7 milhão de pessoas, recomendava aos clientes que comprassem ações da JBS. “Os resultados da empresa devem continuar fortes com uma demanda pujante nos Estados Unidos […], crescimento das exportações do Brasil e ambiente favorável para o setor de proteínas devido à Peste Suína Africana na China”. No mesmo mês, o BTG Pactual também colocou a JBS como um “produto destaque” em sua prateleira de investimentos.

Parecem recomendações adequadas para a maior produtora de carne do planeta, que recentemente anunciou o melhor resultado de sua história, obtido no ano de 2019: um lucro recorde de R$ 6 bilhões. Mas a JBS é também a empresa mais exposta ao desmatamento no Brasil, segundo um estudo do Imazon. Com 32 frigoríficos na Amazônia, 21 deles ativos, a área onde estão seus potenciais fornecedores inclui 1,75 milhão de hectares embargados pelo Ibama em razão de crimes ambientais, 1,65 milhão de hectares de área desmatada entre 2010 e 2015 e outro 1,24 milhão de hectares de floresta com risco preocupante de sofrer derrubadas a partir de 2016, ano em que o trabalho dos pesquisadores se encerrou. No total, a atuação da JBS cobre 4,6 milhões de hectares desmatados ou sob risco de desmatamento, o que representa 1% de toda a extensão da floresta em território brasileiro.
Fachada do escritório da empresa JBS em São Paulo. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Grupos internacionais cobram responsabilidade

Informações como essa não constam no relatório da XP aos seus clientes, embora sejam relevantes para investidores internacionais. Em setembro de 2019, no auge das queimadas na Amazônia, um grupo de 254 gestores de capital de todo o mundo, cujas carteiras incluem ativos que superam em valor o PIB da China (um total de US$ 18 trilhões) publicou uma carta na qual manifestou preocupação sobre “o impacto financeiro que o desmatamento pode ter sobre as empresas investidas, pelo aumento dos riscos reputacionais, operacionais e regulatórios”.

Outro manifesto, esse assinado por 46 investidores donos de US$ 6,8 trilhões, endereçava-se especificamente ao setor da carne, e também cobrava a eliminação do desmatamento das cadeias de fornecimento. Ocorre que dois terços de tudo o que é desmatado na Amazônia e no Cerrado brasileiros são áreas depois transformadas em pasto. A cada ano, a Amazônia perde até 580 mil hectares de floresta para a pecuária – quase quatro vezes a cidade de São Paulo – ainda que já se saiba que não é necessário derrubar nenhuma árvore a mais para manter os ganhos econômicos do setor.

Conscientes de que a savanização da Amazônia, que virá na esteira de derrubadas descontroladas, afetará o clima planetário – o que “prejudicaria gravemente o setor agrícola e outras atividades econômicas, reduzindo as chuvas e aumentando a temperatura a longo prazo” –, os gestores que assinam a primeira carta alertam que companhias cuja reputação esteja contaminada pelo desmatamento vão “encontrar crescentes dificuldades para acessar os mercados internacionais”, impondo perdas econômicas aos negócios e, em consequência, ao bolso de quem injeta recursos neles.


Desmatamento na Terra Indígena Menkragnoti no sul do Pará. A pecuária é uma das primeira atividades econômicas a ocupar áreas recém desmatadas. Foto: Marcio Isensee e Sá.
“O movimento de investidores para incluir fatores socioambientais no processo de decisão começou por questões éticas. Mas com o passar do tempo, eles perceberam que isso reduzia os riscos dos investimentos e, eventualmente, poderia levar a ganhos superiores”, observa Pimentel, que clama por “mais massa crítica no Brasil”: “Precisamos de gente como a Débora Gastal, que questiona os porquês de o dinheiro estar indo para determinada empresa. O que mais se escuta dos gestores é que o investidor não quer saber disso”, lamenta o consultor.

Rastreamento dos grandes financiadores é impossível

O mesmo mecanismo que impede Débora Gastal de acompanhar a trajetória de seu dinheiro até a indústria petroquímica – que ela não apoiaria, se fosse consultada –, funciona para ocultar o apoio de grandes investidores a companhias comprometidas por práticas que agridem o meio ambiente. Mas enquanto a jornalista luta por mais informação, os peixes grandes nessa cadeia se beneficiam da falta de transparência, assegurando lucros sem mostrar a cara.

É verdade que há informação pública disponível no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Dois exemplos: a carteira de investimentos dos fundos nos quais o dinheiro de Gastal foi aplicado, e a composição societária das empresas que operam na bolsa de valores. Assim, qualquer cidadão pode constatar que o BNDES detém 21% da JBS.

Mas além de vender ações, as empresas que operam no mercado financeiro têm outras formas de levantar dinheiro, menos rastreáveis, porque não configuram uma participação direta na sociedade. Elas podem emitir títulos da dívida, obter empréstimos corporativos, e vender uma série de outros produtos aos quais o mercado financeiro dá nomes difíceis: debts, bonds, debêntures, etc.

Em busca desses investidores ocultos, a organização internacional Global Witness publicou um levantamento em setembro do ano passado, revelando os principais investidores das três empresas de carne que mais compram gado da Amazônia. O estudo tem nome sugestivo, Money to burn (“dinheiro para queimar”), e sua pretensão é indicar “como bancos e investidores financiam a destruição das maiores florestas tropicais do mundo”, incluindo a Amazônia. O documento mostra que além do BNDES, a JBS conta com aportes financeiros do American Capital Group, do BlackRock e do Deutsche Bank, o maior banco da Alemanha.

A Marfrig (a 5ª mais exposta ao desmatamento, segundo o estudo do Imazon) tem entre seus maiores investidores o Santander e a empresa norte-americana Brandes Investment Partners.

A Minerva, por sua vez, recebeu quase meio bilhão de dólares em crédito do Bank of America entre 2013 e 2019. E embora publicamente se proponha a combater a pobreza no mundo e a fomentar soluções sustentáveis, o Banco Mundial concedeu um empréstimo de US$ 62,5 milhões para a companhia, que é a 10ª no ranking de risco de desmatamento na Amazônia.

Ao todo, os três frigoríficos que operam na floresta receberam mais de US$ 18 bilhões em financiamentos entre 2013 e 2019 através de produtos financeiros, conforme análise desenvolvida pelo ((o)) eco a partir dos dados brutos da Global Witness. O valor foi levantado junto a 255 investidores, provenientes de 26 países. A maioria absoluta desse dinheiro é nacional (48,1%), mas Estados Unidos tem 22,7% de participação na bolada e Reino Unido, 12,1%. A Espanha, representada unicamente pelo Santander, ocupa a quarta posição, com 7,6% do total de investimentos.
Apesar de revelador, o levantamento da Global Witness não conseguiu ir tão a fundo quanto gostaria. Mais uma vez, o problema é a falta de transparência. Chris Moye, investigador florestal da Global Witness, explica que só é possível rastrear os recursos das empresas de capital aberto, que negociam suas ações na bolsa de valores brasileira. É este o caso de JBS, Marfrig e Minerva.

Mas cada uma destas companhias possui subsidiárias tanto no Brasil como no exterior – são empresas que elas controlam direta ou indiretamente, e que contribuem para seu negócio, mas que tem um CNPJ diferente. O problema é que muitas delas não vendem ações na bolsa, e portanto, não estão sujeitas aos controles de transparência sobre suas movimentações financeiras, como acontece com os CNPJs principais. “Os dados das subsidiárias são impossíveis de achar, é um mundo escuro que ninguém está conseguindo investigar. Sem falar que todas estas empresas usam paraísos fiscais, o que dificulta ainda mais a investigação. Só o fato de terem contas em paraísos fiscais indica que eles estão tentando esconder algo”, salienta Moye.

A Minerva, por exemplo, tem cinco controladas no Brasil e 24 no exterior – três servem unicamente para captação de recursos financeiros, e estão localizadas em paraísos fiscais – países onde os bancos não precisam identificar as pessoas e empresas por trás das transações financeiras. No total, são 29 empresas que fazem parte do negócio principal, mas nenhuma delas está sujeita aos controles do mercado de ações, pois todas têm capital fechado.
A situação é ainda mais complexa no setor de varejo, que compra e vende esta carne para os consumidores. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, possui nada menos do que 67 controladas e 27 empresas associadas – deste total, apenas duas são de capital aberto e, portanto, podem ser examinadas a fundo.

Tantos as grandes indústrias da carne – JBS, Marfrig, Minerva – como as maiores redes de varejo – Pão de Açúcar, Walmart e Carrefour – vêm assinando pactos para assegurar a venda ao consumidor de carne livre de desmatamento ilegal. No caso dos frigoríficos, os principais são o Compromisso Público da Pecuária na Amazônia (uma iniciativa do Greenpeace, que depois abandonou o acordo) e o Termo de Ajustamento de Conduta formulado pelo Ministério Público Federal (MPF), que ficou conhecido como TAC da Carne. Mas em novembro do ano passado, quando o acordo completou 10 anos, o Procurador da República Daniel Azeredo foi categórico ao divulgar as novas auditorias do TAC: “Nenhuma empresa hoje que compra da Amazônia pode dizer que não tem gado vindo de desmatamento em sua atividade produtiva (…) Nenhuma empresa frigorífica e nenhum supermercado também”.
Rede de Supermercados em São Paulo garante 100% de monitoramento de sua carne, porém não é possível garantir que esteja livre de desmatamento. Foto: Fábio Nascimento.
Cultura do lucro se sobrepõe ao cuidado com meio ambiente

Pequenos poupadores são facilmente ignorados pelos gestores dos bancos. Mas os grandes investidores têm o poder de mudar as práticas do mercado financeiro. Bancos e corretoras de ações têm por hábito desenvolver produtos e políticas específicos para atender aos propósitos daqueles que possuem mais R$ 10 milhões para aplicar – no Brasil, apenas 0,23% de quem declara Imposto de Renda tem patrimônio próximo ou superior a esta faixa de valor. “Este é o número mágico, a partir do qual o investidor ganha um atendimento diferenciado”, anota Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI.

Mas na prática, a maioria dos pesos pesados está topando, por enquanto, financiar o desmatamento em troca de uma boa taxa de rendimentos.

Entre julho e setembro do ano passado, as queimadas na Amazônia Legal bateram recordes, chegando a 39.176 focos de incêndio em agosto, segundo dados do Inpe. Em dezembro, jornalistas investigativos mostraram, com base em dados do Imazon, que 70% dos alertas de incêndio emitidos pela Nasa neste período estavam nas áreas de compra dos frigoríficos – apesar de essa área cobrir menos da metade do território.

Dos 554 mil alertas, 250 mil (45%) ocorreram nas áreas de compra da JBS, 80 mil (14%) nas áreas de compra da Marfrig e 66 mil (12%) nas áreas de compra da Minerva. Mesmo assim, as ações da JBS seguiram em alta, chegando a R$ 33,2, o valor mais alto desde setembro de 2015.

“A maioria das empresas de carne se valorizou durante a crise das queimadas, porque com a gripe suína na China e a guerra comercial entre China e EUA, os investidores sabiam que a demanda pela carne brasileira iria crescer”, aponta Cole Martin, analista da Fitch Solutions. A empresa produz relatórios e previsões sobre diversos setores da economia, que auxiliam na tomada de decisão de clientes como empresários, investidores, bancos e governos.
“No mercado financeiro existe uma palavra mágica que é materialidade. Não adianta eu falar para o gestor do investimento sobre a floresta, o meio ambiente. Ele quer saber quantos bilhões vai perder com isso”, complementa Paulo Barreto, pesquisador-sênior do Imazon e observador atento do perfil de investimentos na cadeia da pecuária.

Já há notícias de instituições internacionais deixando de investir nas empresas de carne brasileiras. Mas isso não ocorre porque elas estejam envolvidas com desmatamento, e sim, com a corrupção. No caso da JBS, a materialidade do prejuízo em função da corrupção é clara. Em 2017, a empresa se comprometeu a pagar R$ 10,3 bilhões em um acordo de leniência na operação Lava Jato. Isso levou um grupo de acionistas da empresa a entrar na justiça contra a companhia, reclamando danos de R$ 1,4 bilhão em função dos escândalos envolvendo a classe política brasileira.

Esse movimento leva Barreto a crer que, caso o MPF tivesse multado a JBS em 2018, quando a empresa teve 19% de irregularidades na auditoria do TAC da Carne, o desmatamento geraria um prejuízo palpável, e poderia espantar investidores. Na época, o órgão preferiu não aplicar as sanções previstas no acordo judicial.

Um cenário mais favorável à penalização dos desmatadores começou a se desenhar também a partir da crise das queimadas de 2019, que foi usada por países europeus como argumento para um eventual boicote ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Fechado pelos poderes executivos dos países em junho do ano passado, o tratado ainda tem que ser aprovado pelos parlamentares dos países envolvidos. “Se o governo não conseguir lutar contra o desmatamento ilegal e reduzi-lo às taxas de 2017, acho que não tem nenhuma chance de ratificar [o acordo] na Alemanha”, disse o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, ao jornal Valor Econômico.

Além disso, diversos veículos de imprensa – inclusive internacionais – começaram a fazer a conexão entre o desmatamento e a indústria da carne, apontando seus financiadores. “Um dos elementos da materialidade é a reputação, que é relevante porque pode fazer as pessoas pararem de comprar daquela empresa e os agentes financeiros pararem de investir, ou ao menos emprestarem dinheiro a juros mais altos. Mas este movimento ainda está muito atrasado. As coisas não estão andando como deveriam”, conclui Barreto.

Contraponto: o que dizem as empresas

Resposta Brasilprev (leia a íntegra aqui):

A Brasilprev afirma que não compra diretamente ativos, mas sim fundos de investimento de gestores. Nessa atividade, a empresa faz um processo de engajamento junto à gestora para que todos os ativos que componham o portfólio da Brasilprev passem por avaliação das questões ASG (ambientais sociais e de governança). Essa avaliação feita pela gestora pode levar a eliminação de um ativo ou aumentar/diminuir o peso dos mesmos nos fundos.

Resposta BTG Pactual (leia a íntegra aqui):

O BTG Pactual afirma a equipe de Equity Research do BTG Pactual realiza análises fundamentalistas e independentes que têm como um dos seus objetivos definir recomendações de compra ou venda de ações de empresas listadas para seus clientes. São levados em consideração todos os fatores de risco que possam comprometer a capacidade das companhias de gerar valor, impactando os preços de mercado das suas ações, inclusive critérios ESG – do inglês Environmental, Social and Governance (ambientais, sociais e de governança).

No caso específico da JBS, a equipe de Equity Research do BTG Pactual publicou no último dia 6 de novembro relatório em que discute exclusivamente as iniciativas associadas aos critérios ESG da companhia.

Resposta da JBS (leia a íntegra aqui):

A JBS afirma que atende aos critérios socioambientais estabelecidos por todos os países mais relevantes do mercado mundial de proteínas. A companhia também possui um compromisso público de desmatamento e monitora toda a sua cadeia produtiva, com auditorias independentes anuais que “mostram que as compras de gado da Companhia não provêm de fazendas ligadas ao desmatamento”. A JBS também afirma que está investindo em projetos com o objetivo de aumentar o controle sobre os fornecedores indiretos.

Resposta da Marfrig (leia a íntegra aqui):

A Marfrig informa que mantém o Compromisso Público de Pecuária Sustentável assumido em 2009, de “Desmatamento Zero” no bioma Amazônia, e que também é signatária do TAC do Mato Grosso. A empresa afirma que utiliza sistemas de satélite para monitorar todos os seus fornecedores, e que pelo 7° ano consecutivo uma auditoria independente confirmou 100% de conformidade em suas compras. A Marfrig também pede que seus fornecedores informem, voluntariamente, os nomes dos produtores e fazendas dos quais podem ter adquirido animais previamente, como forma de aumentar o controle sobre os fornecedores indiretos.

Resposta da Minerva: (leia a íntegra aqui):

A Minerva afirma que auditorias do Compromisso Público de Pecuária Sustentável e do TAC da Carne comprovam a conformidade ambiental de suas compras no bioma Amazônia, que são 100% monitoradas. Sobre os fornecedores indiretos, a empresa diz que está “avaliando a possibilidade de testar uma ferramenta de cruzamento eletrônico de GTAs desenvolvida pela Universidade de Winsconsin, chamada VISIPEC”, que “pode auxiliar na definição de estratégias para mitigação de riscos de irregularidades de fornecedores indiretos”.

Baleias vivas geram bilhões de dólares ao país em serviços ecossistêmicos

Por muito tempo, o valor econômico de uma baleia poderia ser medido pelo óleo extraído do animal morto, usado para iluminar as cidades antes do advento da eletricidade.
Observação de baleia em Porto Seguro, Bahia. Foto: Projeto Baleia Jubarte.

O que pouca gente sabe é que as baleias vivas também podem ser medidas em termos de ganhos econômicos. E a cifra não é pequena. Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Universidade Duke estimou que as grandes baleias que trafegam pelas águas de jurisdição brasileira são avaliadas em cerca de 82,5 bilhões de dólares. Os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Universidade Duke (Carolina do Norte) calcularam, a pedido do Projeto Baleia Jubarte e da organização Great Whale Conservancy (GWC), o valor das baleias vivas para o Brasil levando em conta o turismo de observação que existe em torno desses animais, a captura de carbono e a fertilização marinha.

Esse mesmo grupo de economistas havia calculado, em 2019, o valor global dos serviços ecossistêmicos das baleias vivas em cerca de um trilhão de dólares norte-americanos.

Como foi feito o cálculo?

O Projeto Baleia Jubarte e a organização Great Whale Conservancy (GWC) forneceram estimativas das populações de baleias em águas brasileiras. Os economistas do FMI e da Universidade Duke pegaram essas estimativas e calcularam os valores dos serviços oferecidos pelas baleias em ecoturismo, sequestro de carbono, e estímulo ao crescimento do fitoplâncton, utilizando as ferramentas de Economia Financeira, como a Valoração.

“A principal dificuldade para nós era fazer previsões sobre as populações futuras, no caso de recursos naturais vivos, como as baleias. É especialmente difícil prever com que rapidez uma espécie ou ecossistema ameaçado crescerá. Felizmente, tivemos o apoio de outros cientistas especialistas em biologia das baleias, e uma de nossa equipe é especialista em modelagem matemática”, explica o economista Connel Fullenkamp, professor da Universidade Duke e um dos autores do estudo.

Baleia franca astral. Foto: Wikipédia

“No momento, estamos escrevendo um documento técnico que detalha os cálculos, e o publicaremos quando estiver pronto. Uma breve visão geral é que projetamos os serviços fornecidos pelas baleias no futuro e, usando estimativas dos preços de mercado desses serviços, localizamos o valor presente (o valor hoje) desses serviços”, disse, em entrevista a ((o))eco, por e-mail..

Capturadoras de carbono

As baleias acumulam carbono ao longo da vida. Cada grande baleia sequestra, em média, 33 toneladas de CO2, retirando esse carbono da atmosfera por séculos. Para efeito de comparação, uma árvore absorve, em média, apenas 7 kg de CO2 por ano.

Além do sequestro no próprio corpo, as baleias têm o poder de multiplicar a produção de fitoplâncton, criaturas microscópicas responsáveis pela captura de nada mais, nada menos, que 40% do CO2 produzido no mundo. Isso equivale à quantidade de emissões capturada por 1,70 trilhão de árvores – ou quatro florestas amazônicas. Mais fitoplâncton significa mais captura de carbono.

“A diversidade de baleias que ocorre aqui contribui para a fertilização marinha de maneiras diferentes. Por exemplo, os cachalotes, que vivem na borda da plataforma continental, se alimentam a grandes profundidades e depois defecam nas águas superficiais, promovendo aumento do fitoplâncton que está na base da cadeia alimentar.

Já espécies grande-migratórias, como as baleias-jubarte, se alimentam nas regiões polares no verão e trazem nutrientes para as regiões tropicais no verão. São literalmente centenas de milhares de toneladas de fertilizante natural que, em última análise, torna a pesca possível em nossa costa em volumes muito maiores do que se não houvesse esse serviço prestado pelas baleias”, explica José Truda Palazzo, Jr, ex-chefe da delegação científica do Brasil à Comissão Internacional da Baleia e atual Coordenador de Desenvolvimento do Instituto Baleia Jubarte.

A ciclagem de carbono e a fertilização dos oceanos são dois serviços ecossistêmicos de maior relevância prestada pelos grandes cetáceos, animais que tiveram redução drástica de população em todo mundo por causa da caça. Apesar da proibição na década de 80, e do anúncio recente do fim da captura “científica” de baleias pelo Japão, que restringirá a caça ao seu próprio território marinho, as grandes populações de cetáceos ainda se recuperam de séculos de caça indiscriminada.

Atividade não extrativa em Abrolhos. Foto: Projeto Baleia Jubarte.
Ainda segundo Truda, que também é colunista de ((o))eco, a fertilização dos oceanos promovida pelas grandes baleias beneficia diretamente a pesca. “Esse fenômeno é ainda mais importante em mares tropicais, relativamente pobres de nutrientes, como no Brasil”.

Outro importante serviço fornecido pelas grandes baleias, principalmente as mais exibidas, como a jubarte (Megaptera novaeangliae) e a franca (Eubalaena australis), é o turismo de observação, um dos maiores aliados da conservação destas espécies.

“[O turismo de observação de baleias] é uma atividade muito próspera, principalmente porque agrega a conservação do animal, gera pesquisa científica e aproximação das pessoas com os animais marinhos”, explica Sergio Cipolotti, coordenador operacional do Instituto Baleia Jubarte.

O turismo de observação de cetáceos movimenta, no mundo, cerca de 2 bilhões de dólares anuais. São mais de 130 países que promovem a atividade.

No Bahia, a visitação embarcada para observação ocorre principalmente no inverno, na época de reprodução das jubartes.

“A baleia fomenta o turismo no momento de baixa temporada e atrai pessoas do mundo inteiro. É uma atividade muito emocionante, todos têm um feedback muito positivo e, principalmente, aproxima as pessoas da questão da conservação dos oceanos. É uma forma única de sensibilização para essas questões, com as pessoas em um ambiente natural observando esses animais majestosos”, diz Cipolotti, que é encarregado da área de turismo do Instituto Baleia Jubarte.

Meio Ambiente: Protejam as metrópoles dos carros

Em muitos países, o confinamento está sendo relaxado, e a população, voltando ao trabalho. Uma oportunidade única de mudar radicalmente as grandes cidades: em paraísos para ciclistas e pedestres.

Como muitas outras cidades atingidas pelo coronavírus, Londres se tornou um oásis de paz nas últimas semanas. Mal se vê um carro nas ruas principais, onde o trânsito geralmente é tão intenso que os cruzamentos ficam regularmente congestionados.

Mesmo no centro da cidade a primeira visão matinal pela janela é agradável: um céu realmente azul! Não aquele azul urbano nublado por smog, pela mistura de neblina e poluição como de costume, mas um azul de férias. Nem mesmo rastros de condensação das aeronaves encobrem a paisagem de cartão-postal.

Em vez de carros, veem-se agora ciclistas por todos os lados, inclusive muitos novatos que ainda trafegam um pouco inseguros e trêmulos pelas ruas. Eles agora se atrevem a sair para onde costumavam ter medo. Porque, embora existam ciclovias e essas também tenham sido ampliadas nos últimos anos, Londres ainda é uma cidade voltada principalmente para os motoristas.

Os ciclistas precisam estar constantemente alertas, são odiados por carros e, principalmente, por taxistas, sendo até atacados. Geralmente, as ciclovias são demarcadas apenas simbolicamente nas ruas ou terminam sem aviso: o ciclista é repentinamente jogado no meio do tráfego de uma via principal, porque o distrito vizinho não considera necessário continuar a demarcação.

Os pedestres também precisam temer por suas vidas em muitos lugares, mesmo vizinho às escolas de meus filhos, os semáforos são direcionados apenas para motoristas. Não há sinalização para a passagem de pedestres, de forma que as crianças precisam se apressar e atravessar o trânsito pelas brechas. Dificilmente um aluno vai à escola de bicicleta em Londres, especialmente sem os pais.

Agora, durante o confinamento, as crianças se movimentam mais, meus filhos adolescentes também estão se aventurando pela cidade por conta própria de bicicleta, desfrutando suas novas liberdades. Há longas filas em frente às lojas de bicicletas, que mal conseguem dar conta das encomendas. Quero que o final do bloqueio não seja o fim do boom desse meio de transporte. Pois o trânsito nas vias principais já está aumentando novamente.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, prometeu agora fechar para carros algumas ruas principais e abrir mais vias para ciclistas e pedestres. Alguns distritos londrinos já entraram em ação, acalmando o tráfego com grandes jarros de flores, alargando as calçadas. No distrito financeiro, a chamada City, os carros quase não têm vez. Outras grandes cidades como Paris ou Milão têm projetos semelhantes. Eles precisam agora ser implementados rapidamente antes que cada vez pessoas retornem motorizadas ao trabalho, por medo de contrair o vírus em ônibus e trens.

A oportunidade é única. A crise mostrou que nossa sociedade pode mudar radicalmente, quase da noite para o dia, caso reconheça a necessidade para tal. O céu também está azul em Nova Délhi, as emissões de CO2 da Índia caíram pela primeira vez em 40 anos. O ar também está mais limpo em muitas cidades do Sudeste Asiático, como Cingapura, Jacarta e Bangcoc.

Já estamos vendo efeitos positivos: o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea) estima que, desde o início da crise de covid-19, seis mil crianças em toda a Europa não desenvolveram asma, que 1,9 mil pessoas não tiveram de ser atendidas nos serviços de emergência e que 600 bebês não chegaram prematuramente ao mundo.

A economia também sairá ganhando se a política agir agora com rapidez e no interesse do meio ambiente. Especialistas em todo o mundo exigem que os governos promovam principalmente projetos de responsabilidade ambiental para revitalizar a economia após a crise de coronavírus.

Um novo estudo da Universidade de Oxford concluiu que projetos ecológicos criam mais empregos e maiores retornos do que a promoção de tecnologias e produtos tradicionais. Isso também inclui a criação de uma nova infraestrutura mais verde de transporte.

Não há mais desculpas!

Corrida do Ouro ameaça a Amazônia

Ouro extraído por garimpeiros acarreta desmatamento, poluição e violência antes de seguir para mercado global. Projeto de lei que permite mineração em terras indígenas gera temores de que garimpo ilegal se intensifique.

Ouro extraído ilegalmente é derretido e transformado em barras padronizadas

Vistos do alto, os arredores de Creporizão, uma cidade isolada da Amazônia no Pará, parecem um cobertor verde-escuro. Ao longo das estradas e rios que atravessam a floresta tropical, a vista é outra, devido às manchas marrons lamacentas que marcam suas margens: garimpos de ouro ilegais.

Todos os dias, centenas de exploradores procuram o metal precioso, e esperam encontrar algo nessa região. Alguns chegam aos garimpos de barco, rio acima e rio abaixo; outros vêm em pequenos aviões. São imagens que se tornaram cotidianas na maior floresta tropical do mundo, um dos principais motivos da vasta destruição da mata.

José Maria – que prefere ocultar seu sobrenome – é um dos garimpeiros vindos do estado do Maranhão, cerca de mil quilômetros a leste. Esperando à margem do rio para ser levado de barco até uma das minas, ele se defende: “A gente faz trabalho honesto aqui, para ganhar a vida. Qual é o problema?”

“Já está havendo uma corrida do ouro”

Os garimpos em que José e seus colegas trabalham se situam nos mais de 2 milhões de hectares da reserva onde vive uma das maiores etnias indígenas da Amazônia, os munduruku. Suas terras, ricas em minerais, são protegidas pela Constituição brasileira de 1988.

Segundo uma pesquisa de opinião de 2019, uma maioria esmagadora da população do Brasil é contra a mineração nas áreas indígenas. No entanto é justamente isso o que o presidente Jair Bolsonaro exige num controverso projeto de lei apresentado ao Congresso. Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados, apesar de considerar o projeto constitucional, adiou a votação, por não ser “o momento certo”.

O Ministério de Minas e Energia afirmou que planeja regular as atividades mineradoras em terras indígenas, acrescentando ser necessário consultar as comunidades indígenas, para que participem da extração de ouro. Embora alguns mundurukus tenham cedido à sedução do dinheiro rápido, a maioria da comunidade continua se opondo ao garimpo ilegal.

O mercúrio despejado no rio Tapajós durante o garimpo se espalha por afluentes que passam perto de Creporizão, no Pará

Aproximadamente um décimo da área do Brasil é classificada como “indígena”, dividindo-se em mais de 400 reservas. No entanto, segundo a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), há mais de 450 zonas de mineração ilegais na Amazônia brasileira. Uma lei seguindo a vontade de Bolsonaro poderia acarretar um aumento dramático de tais atividades mineradoras.

“Se a lei passar, o teto vai cair na nossa cabeça”, comenta o antropólogo americano Glenn Shepard, que trabalha junto à população indígena afetada pelo garimpo ilegal. “A lei vai aquecer novamente as minas de ouro ilegais. Já está havendo uma verdadeira corrida do ouro, fora do controle dos grupos indígenas.”

A equipe de jornalistas Unearthed, do Greenpeace, noticiou que os garimpeiros planejavam continuar trabalhando mesmo durante a pandemia do novo coronavírus, acirrando assim os temores de contágio dos indígenas com a covid-19. O Ministério das Minas e Energia afirmou à DW que, antes mesmo da votação do projeto de lei, já recebeu mais de 4 mil solicitações para atividades mineradoras nas terras dos nativos brasileiros.

Riqueza à custa de vidas indígenas

Garimpeiros e indígenas encontram-se em conflito constante. Em julho de 2019, a Fundação Nacional do Índio (Funai) registrou que um líder da comunidade waiãpi fora morto por garimpeiros no Amapá. Segundo dados da Global Witness, só em 2018 foram mortos 20 ambientalistas e defensores dos direitos à terra no Brasil. A ONG internacional aponta que, com 43 assassinatos registrados em todo o mundo naquele ano, a mineração foi o setor mais mortal para os ativistas.

A mineração também causa graves danos ao meio ambiente, contribuindo decisivamente para o desmatamento: de acordo com a revista especializada Nature Communications, entre 2005 e 2015 ela foi responsável por 9% de toda a mata destruída na Região Amazônica.

Uma análise de imagens de satélite publicada pela ONG Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP) mostrou que em 2019 um total de 2 mil hectares de árvores foi derrubado na reserva dos índios munduruku – mais do que o dobro do ano anterior.

Em novembro de 2019, dezenas de líderes indígenas amazônicos se reuniram em Brasília para denunciar e apresentar queixa à autoridades competentes pelas irregularidades em suas terras.

Imagem aérea mostra garimpo na região de Creporizão, no Pará

“Seria a morte do nosso povo”: assim Alessandra Korap Munduruku, uma líder do estado do Pará, que participou do encontro, resume os efeitos de uma eventual legalização da mineração. A busca pelo ouro traz doenças, prostituição, dependência de drogas entre as crianças e conflitos violentos entre os homens, além de envenenar os peixes com mercúrio, enumera.

O mercúrio despejado no rio Tapajós durante o garimpo se espalha por seus afluentes, também pelos que passam perto de Creporizão e são fonte de água para as comunidades locais.

O neurologista Erik Jennings, atuante na cidade de Santarém, Pará, tirou amostras de sangue e cabelo de 112 nativos para medir seus níveis do metal pesado, numa pesquisa pioneira. “É um genocídio lento”, revelou à DW. “Mercúrio no corpo pode causar graves impedimentos cognitivos e visuais, e deformar os fetos.”

Ouro anônimo

Até mesmo o comércio de ouro legal no Brasil é, em grande parte, não regulado, o que permite negócios ilegais, enquanto a Região Amazônica vai sendo cada vez mais destruída.

“É relativamente fácil cometer fraude nesse setor. É quase impossível ir atrás de todos esses casos”, explica Luís de Camões Lima Boaventura, advogado em Santarém. “Até ser instalado um sistema computadorizado, as autoridades não têm como verificar a legalidade das transações. Para realizar uma transação ilegal com ouro, no momento só é preciso lápis e papel.”

Estimativas da Agência Nacional de Mineração indicam que a cada ano são comercializadas ilegalmente no Pará cerca de 30 toneladas de ouro, no valor de cerca de 4,5 bilhões de reais – mais de seis vezes o volume declarado oficialmente.

Quando garimpeiros como José Maria retornam a Creporizão, após a jornada que por vezes dura um dia inteiro, eles se dirigem a uma das muitas lojas de ouro da cidade. Lá, o metal trazido pelos garimpeiros é derretido e transformado em barras padronizadas.

Assim, ouro extraído ilegalmente torna-se parte do mercado global, e sua origem não pode mais ser traçada. E no fim, ninguém mais sabe que essas barras douradas são também responsáveis pelo monstruoso desmatamento, poluição ambiental e violência na Amazônia.

Lixão tóxico: ferro-velho de primeiro mundo no Gana coloca milhares em risco de câncer

 Gana se tornou um dos maiores depósitos de lixo do mundo para lixo eletrônico, criando uma indústria mortal que colocou milhares em risco.

O ferro-velho de eletrônicos perto da capital do Gana, Accra, deixou a região circundante contaminada com toxinas perigosas que poluíram o meio ambiente e criaram sérios problemas de saúde para os moradores.

Segundo uma estimativa, cerca de 200.000 toneladas dos eletrônicos descartados do mundo chegam a uma favela em Accra – o peso equivalente a mais de mil baleias azuis.

O enorme depósito de lixo é a principal fonte de renda para muitos trabalhadores, que escolhem montanhas de eletrônicos descartados e os derretem em metais como ferro e latão.

O processo de extração é altamente perigoso, liberando toxinas no ar que estão ligadas a uma série de problemas ambientais e de saúde sérios, incluindo dores crônicas, natimortos, poluição generalizada e danos à cadeia alimentar.

Os trabalhadores explicaram que sofrem de uma série de doenças, respirando a fumaça dos incêndios usados para queimar os aparelhos eletrônicose que causa dores no peito – e também dores de cabeça debilitantes.

Um estudo realizado por grupos de redes ambientais, o IPEN e a Rede de Ação da Basiléia, constatou que a exposição a longo prazo a vapores perigosos pode levar a sérios problemas de saúde, incluindo câncer ou danos aos sistemas imunológico e neurológico. Jindrich Petrlik, co-autor de um estudo ambiental, disse que não há sinais de que a situação esteja melhorando.

O crescimento do ferro-velho e a quantidade de lixo eletrônico … estão aumentando ano a ano; portanto, se nada for feito, o problema será maior e uma população maior poderá ser afetada pela contaminação geral do local e de seus arredores.

Os pesquisadores também descobriram que as toxinas mortais já entraram na cadeia alimentar. Galinhas que se alimentam perto do solo altamente contaminado em torno do lixão maciço absorveram o lixo em seus sistemas – expondo os humanos que os comem, ou seus ovos, a sérios riscos à saúde. Os poluentes também foram detectados no leite materno, o que significa que as toxinas estão sendo repassadas aos filhos dos trabalhadores.

Enfrentando problemas ambientais e de saúde que poderiam facilmente se estender por gerações, os habitantes locais disseram a que estavam desesperados por uma solução. Infelizmente, não há sinal de que o despejo maciço esteja indo a lugar algum.

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Meio Ambiente: A poluição microplástica está em toda parte

A poluição por plásticos é uma preocupação global crescente. Grandes pedaços de plástico foram encontrados em quase toda parte da Terra, das praias mais visitadas às ilhas remotas e desabitadas. Como a vida selvagem é regularmente exposta à poluição por plásticos, geralmente perguntamos que efeitos os plásticos têm sobre os animais.

Com o tempo, os macroplásticos (detritos de plástico com mais de cinco milímetros de tamanho) se decompõem em pequenas partículas chamadas microplásticos (menores que cinco milímetros), que podem persistir no ambiente por centenas de anos.Ambiente,MicroPlásticos,Poluição,Oceanos,Alimentos,Blog do Mesquita 01

Sabe-se que os macroplásticos causam efeitos prejudiciais à vida selvagem. Animais individuais podem ingerir pedaços grandes ou enredar-se em itens de plástico, como equipamentos de pesca, e sufocar ou morrer de fome. Embora não haja dúvida de que os macroplásticos são prejudiciais à vida selvagem, os efeitos dos microplásticos não são tão diretos.Meio Ambiente,Plásticos,Oceanos,Poluição,Blog do Mesquita 05

Enquanto muitos estudos descobrem que os microplásticos podem afetar a expressão gênica, o crescimento, a reprodução ou a sobrevivência de um animal, outros concluem que os microplásticos não têm efeitos negativos. A falta de um consenso claro torna mais difícil para os tomadores de decisão adotarem políticas eficazes para mitigar a poluição por plásticos.

Nem todos os plásticos são iguais

Recentemente, aprofundamos a pesquisa que analisou como a poluição por plásticos afeta a vida selvagem aquática e terrestre.

Descobrimos que, embora os macroplásticos continuem causando efeitos prejudiciais a animais individuais, eles também estão causando mudanças em larga escala nas populações de animais, comunidades e ecossistemas. Por exemplo, a poluição plástica pode introduzir espécies invasoras em novos habitats transportando organismos a centenas de quilômetros de sua faixa nativa, alterando a composição das espécies em uma comunidade.Ambiente & Ecologia,Poluição,Vida Selvagem,Oceanos,Plástico

Os efeitos dos microplásticos, no entanto, são muito mais complicados. Dos estudos que incluímos em nossa revisão, quase metade (45%) constatou que os microplásticos causavam um efeito. Alguns estudos observaram que os microplásticos fizeram com que os animais tivessem vidas mais curtas, comessem menos ou nadassem mais devagar, e outros viram mudanças no número de filhotes produzidos e mudanças nos genes sendo expressos. No entanto, 55% dos estudos não detectaram efeitos.

Por que alguns estudos detectam efeitos enquanto outros não? Existem várias possibilidades. Por um lado, os pesquisadores usaram diferentes desenhos experimentais em seus experimentos de laboratório.

Há também a questão do uso do termo microplástico, que se refere a uma mistura complexa de plásticos que variam em material (como polietileno, poliestireno ou cloreto de polivinil), os produtos químicos associados a eles (incluindo aditivos, cargas e corantes), além de seu tamanho e forma. Cada uma dessas características, juntamente com a quantidade de plástico ao qual o animal é exposto no experimento, pode afetar seu potencial de detectar um efeito.

Microfibras e microesferas

Por exemplo, vimos que, quando os estudos expuseram crustáceos ao poliestireno, um tipo de plástico usado para fazer recipientes, tampas e talheres descartáveis, os crustáceos geralmente produziam mais descendentes. Mas quando foram expostos ao polietileno ou ao tereftalato de polietileno, usado para fazer sacolas plásticas e garrafas de bebidas, os crustáceos produziram menos filhos.

As microesferas são encontradas em produtos esfoliantes, como produtos de limpeza de rosto e creme dental. Vários países proibiram sua produção e venda. Crédito: Shutterstock

Vários países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, proibiram recentemente as microesferas de plástico – as esferas e fragmentos esféricos em lavagem de rosto, esfoliação corporal e pasta de dentes – porque estavam contaminando o meio ambiente e poderiam causar efeitos negativos em animais aquáticos. Embora essa legislação reduza um tipo de microplástico no meio ambiente, é irrelevante para muitos outros.

Também descobriu-se que estudos usando partículas menores têm maior probabilidade de detectar um efeito. Isso ocorre porque partículas menores são mais facilmente consumidas por pequenos organismos ou porque podem se mover através da membrana celular e causar efeitos nocivos, como inflamação.

No que diz respeito à forma do plástico, as microfibras (de roupas ou cordas) e os fragmentos tiveram maior probabilidade de afetar negativamente o organismo em comparação com as esferas (dos produtos de limpeza facial). Por exemplo, um estudo descobriu que as microfibras eram mais tóxicas para uma espécie de camarão marinho do que fragmentos ou esferas microplásticos.

Finalmente, pode-se esperar que os animais sejam mais prejudicados quando expostos a concentrações mais altas de microplásticos. Embora seja verdade que os crustáceos tenham mais probabilidade de morrer quando expostos a doses crescentes de microplásticos, o efeito na reprodução foi mais complexo. O número de filhotes aumentou com doses extremamente altas, mas diminuiu com doses mais baixas, semelhante ao observado no ambiente.Ecologia,Plásticos,Microplásticos,Meio Ambiente,Ambiente,Natureza,Poluição,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Blog do Mesquita,Brasil

Muitos tipos, muitos resultados

Com base em nossa análise, acreditamos que pesquisas futuras precisam reconhecer a complexidade dos microplásticos e os cientistas precisam projetar seus testes estrategicamente para que possamos realmente entender como os diferentes tipos, tamanhos, formas, doses e a duração da exposição aos microplásticos afetam a vida selvagem.

Somente se tivermos uma melhor compreensão de como os diferentes tipos, formas e concentrações de microplásticos afetam a vida selvagem podemos tomar melhores decisões políticas. Se, por exemplo, as microfibras são realmente mais nocivas que as esferas, poderíamos concentrar nossa atenção em impedir que essas fibras entrem em nossas vias navegáveis ​​por fontes conhecidas, como máquinas de lavar.