Inteligência Artificial está ajudando a entender os oceanos

As aplicações de aprendizado de computadores estão se mostrando especialmente úteis para a comunidade científica que estuda as maiores massas de água do planeta.

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Se você tivesse cerca de 180.000 horas de gravações subaquáticas do Oceano Pacífico e precisasse saber quando e onde, nessas horas diferentes, baleias jubarte estavam cantando, você pesquisaria no Google?

Foi o que Ann Allen, ecologista de pesquisa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, fez. 

Em janeiro de 2018, ela se aproximou do Google e perguntou se eles poderiam ajudá-la a encontrar o sinal de músicas de baleias jubarte em meio a todo o ruído do oceano, como chamadas de golfinhos ou motores de navios. Usando 10 horas de dados anotados, nos quais as músicas das baleias e outros ruídos foram identificados, os engenheiros do Google treinaram uma rede neural para detectar as músicas, com base em um modelo para reconhecer sons nos vídeos do YouTube, disse Julie Cattiau, gerente de produtos do Google.

Cerca de nove meses depois, a Dra. Allen tinha um modelo para identificar canções de baleias jubarte, que ela está usando em sua pesquisa sobre a ocorrência da espécie em ilhas do Pacífico e como ela pode ter mudado na última década. O Google usou algoritmos semelhantes para ajudar o Departamento de Pescas e Oceanos do Canadá a monitorar em tempo real a população da Orca Residente do Sul, em risco de extinção, que tem cerca de 70 animais.

As aplicações de aprendizado de máquina e inteligência artificial estão se mostrando especialmente úteis no oceano, onde existem tantos dados – grandes superfícies, profundidades profundas – e dados insuficientes – é muito caro e não é necessariamente útil coletar amostras de qualquer tipo por toda parte.

A mudança climática também torna o aprendizado de máquina muito mais valioso: muitos dados disponíveis para os cientistas não são mais precisos, pois os animais mudam de habitat, as temperaturas aumentam e as correntes mudam. À medida que as espécies se movem, o manejo de populações se torna ainda mais crítico.

A baleia franca do Atlântico Norte, ameaçada de extinção, cuja população caiu para cerca de 400, é um animal que pode se beneficiar de um monitoramento tecnologicamente mais avançado: provavelmente por causa do aquecimento das temperaturas, essas baleias se mudaram para o norte de seu habitat tradicional do Golfo do Maine para o Golfo de São Lourenço no Canadá. Coincidir com essa mudança é o que a NOAA chamou de “evento incomum de mortalidade”, no qual se sabe que 30 baleias morreram desde 2017 – 21 no Canadá e 9 nos Estados Unidos – a maioria devido a ataques de navios ou emaranhados em equipamentos de pesca.

As baleias francas do Atlântico Norte, como esta mãe e filhote, se mudaram para o norte, e mais delas estão morrendo.

Para proteger as baleias, os cientistas precisam saber onde estão, o que o Charles Stark Draper Laboratory e o New England Aquarium estão fazendo no que chamam de “contar baleias do espaço”. Tomando dados de satélites, sonar, radar, avistamentos humanos, correntes oceânicas e muito mais, eles estão treinando um algoritmo de aprendizado de máquina para criar um modelo de probabilidade de onde as baleias podem estar. Com essas informações, as autoridades federais, estaduais e locais podem tomar decisões sobre rotas de navegação e velocidades e pesca mais rapidamente, ajudando-as a proteger melhor as baleias, de acordo com Sheila Hemami, diretora de desafios globais da Draper.

Muitas populações de peixes também estão se movendo ou estão com sobrepesca ou se aproximando, e grande parte dessa pesca é feita ilegalmente. Em um esforço para conter as atividades ilegais e manter as populações em níveis saudáveis no oceano, o Google também ajudou a iniciar o Global Fishing Watch, uma organização que monitora a pesca em todo o mundo coletando.

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“Facebook e Apple poderão ter o controle que a KGB nunca teve sobre os cidadãos”

O historiador Yuval Noah Harari, um dos pensadores do momento, reflete sobre como a inteligência artificial e o ‘big data’ transformarão a natureza humana

Yuval Noah Harari. JAIME VILLANUEVA

Um carro autônomo está prestes a atropelar cinco pedestres. O que deve fazer? Virar para o lado e matar seu dono para minimizar as baixas humanas, ou salvar a vida de seu passageiro e passar por cima de quem está na rua? Como se deveria programar o computador do automóvel? Dilemas éticos como esse preocupam Yuval Noah Harari (Israel, 1976), professor de História da Universidade Hebraica de Jerusalém e um dos pensadores de referência na atualidade. Seu primeiro livro, Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, tornou-se um fenômeno editorial recomendado por Barack Obama e Mark Zuckerberg. Em seu segundo livro, Homo Deus, Uma Breve História do Amanhã, vai mais adiante e alerta para os riscos da inteligência artificial, do big data e dos algoritmos que permitem complexas predições matemáticas.

Harari descreve um futuro em que uma elite humana cada vez mais poderosa graças à tecnologia se distancia das massas até se transformar em uma nova espécie com capacidades nunca vistas. Um mundo controlado por máquinas e corporações tecnológicas que abandona à própria sorte os humanos que considera inúteis. Não se assustem: Harari diz em uma entrevista em Madri que ainda não é tarde para mudar o futuro.

Pergunta. Em meados deste ano, Zuckerberg recomendou seu primeiro ensaio. Acredita que fará o mesmo com o segundo?

Resposta. De fato este livro é mais desafiador, porque questiona opiniões e práticas do Vale do Silício. Não é um livro contra o Vale do Silício, mas sim sobre a revolução dos computadores e da Internet. É a coisa mais importante que está acontecendo agora e a deixamos nas mãos de umas poucas empresas. Permitir que o Facebook e a Amazon moldem o futuro da humanidade tem perigos inerentes. Não porque representem o mal, mas porque têm sua própria visão limitada do mundo, seus próprios interesses e não representam ninguém, ninguém votou neles. A maioria dos partidos e Governos não tem uma visão séria do futuro da humanidade.

“É preciso convencer os políticos de que a inteligência artificial não é ficção científica”

P. A promessa do Vale do Silício é mudar o mundo, torná-lo um lugar melhor. Não parece um objetivo ameaçador.

R. É preciso reconhecer que têm razão. O que se faz ali influirá mais que qualquer outra coisa no século XXI. Os políticos perderam o contato com a realidade. Donald Trump afirma que os chineses tirarão o trabalho dos americanos, mas serão os robôs. É preciso convencer os políticos de que a inteligência artificial não é uma fantasia de ficção científica.

P. Alguns especialistas dizem que os trabalhos que desaparecerão serão simplesmente substituídos por outros.

R. Não temos nenhuma garantia de que os trabalhos que vão surgir serão suficientes para compensar os que vão desaparecer. Também não está claro se os humanos serão capazes de realizar esses novos trabalhos melhor que a inteligência artificial. E, ainda, um terceiro problema é quantas pessoas terão a habilidade necessária para se reciclar.

“Estamos cedendo o controle de nossas vidas aos algoritmos”

P. O que acontecerá com essa massa de gente expulsa do mercado de trabalho?

R. Se as forças do mercado continuarem tomando as decisões mais importantes, é muito possível que uma elite monopolize o poder e o use para ascender a uma nova categoria, do Homo sapiens para Homo deus, uma espécie de super-humanos. E a maioria da população, uma nova classe formada por gente dispensável, ficará para trás. Isto já está acontecendo. Os exércitos mais avançados não recrutam mais milhares de soldados, mas um pequeno número de militares qualificados, apoiados por drones, robôs e técnicas de guerra cibernética. Para o exército, muitos soldados já são desnecessários. A engenharia genética e a inteligência artificial podem ser utilizadas para criar tipos de sociedades muito diferentes e deveríamos começar a discutir que sociedade queremos criar. Ainda podemos escolher.

P. Os algoritmos são cada vez mais importantes. Quais as consequências disso?

R. Um dos grandes perigos é que nos conhecem cada vez melhor e confiamos neles para que escolham por nós, desde coisas simples, como que notícias ler, até importantes, como nossa saúde. Perdemos o controle de nossas vidas e o entregamos aos algoritmos. É verdade que, muitas vezes, é positivo ceder. Por exemplo, Angelina Jolie fez um exame de DNA e encontrou uma mutação em um gene que, segundo o algoritmo, indicava uma possibilidade de 87% de desenvolver um câncer de mama. Naquele momento não estava doente, sentia-se perfeitamente bem. Mas se submeteu a uma dupla mastectomia. E, na minha opinião, fez bem. O potencial da tecnologia é incrível. O desafio é saber usá-lo, porque também tem um lado escuro. Se confiarmos nos algoritmos porque nos aconselham bem, damos a eles cada vez mais poder e controle sobre nossas vidas e podem começar a nos manipular, mesmo que de forma não intencional.

P. Muita gente não se importa de ceder seus dados.

R. Nossos dados pessoais são nosso maior patrimônio. Que lugares você frequenta, o que compra e, ainda por cima, seus dados biométricos, seu DNA, sua pressão arterial… Mas as pessoas cedem tudo isso a empresas como Amazon, Facebook e Google em troca de correio eletrônico, redes sociais e vídeos de gatinhos. Essas empresas acumulam uma grande quantidade de dados que lhes permitem compreender a sociedade e o mundo melhor que ninguém. O Facebook pode, teoricamente, decidir as eleições nos Estados Unidos. Uma das informações mais valiosas hoje em dia é quem são os eleitores indecisos. O Facebook tem essa informação. Nem todos estamos na rede social, é verdade, mas muita gente sim, e a empresa poderia tentar verificar quem são esses indecisos e até o que o candidato deveria dizer a eles para ganhar seu voto. O Facebook tem esse poder porque os usuários lhe entregam todos os seus dados pessoais.

P. É o fim do livre-arbítrio?

“É muito possível que uma nova classe de super-humanos monopolize o poder no futuro”

R. O cérebro é tão complexo que nem a KGB soviética, espionando os cidadãos o tempo todo, era capaz de entender as pessoas ou predizer seus gostos e desejos. Em certo sentido, isso nos torna livres. Mas, no século XXI, estamos adquirindo mais conhecimentos biológicos e os computadores têm mais poder. Assim, o que a KGB era incapaz de controlar, o Facebook e a Apple conseguirão em… 10, 20 ou 30 anos? Poderiam monitorar seu corpo com sensores biométricos, registrar esses dados e, com algoritmos sofisticados, analisá-los para saber exatamente quem você é, sua personalidade, o que você gosta, que resposta daria a determinada pergunta. Quando uma entidade externa te entende melhor que você mesmo, não há mais livre-arbítrio.

P. Muita gente o verá como mais um tecnófobo …

R. No livro falo mais dos riscos que das vantagens da tecnologia, porque acredito que é responsabilidade dos pensadores, historiadores e filósofos alertar para os perigos e buscar soluções. Os engenheiros e os empresários já se encarregam de ressaltar as vantagens. É importante que nós mesmos nos conheçamos e saibamos o que queremos na vida. Acredito que, assim, poderemos usar a tecnologia de forma mais sensata e alcançar nossos próprios objetivos.

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Agência polonesa tem acesso a gravações de assistente virtual Alexa

Comandos verbais de usuários alemães de Alexa, da Amazon, vão parar na Polônia para transcrição não supervisionada. Escândalo recente revelou que assistente Siri, da Apple, faz gravações, por exemplo, durante o sexo.    

Aparelhos da linha Echo, da Amazon, distribuídos sobre mesa de madeiraLinha Echo da Amazon inclui assistente virtual Alexa: quadrilha de espiões dentro de casa?

A multinacional americana Amazon admitiu que emprega funcionários temporários, em parte trabalhando de casa, para transcrever manualmente os comandos verbais dados a sua assistente virtual, Alexa.

A admissão veio em resposta a revelações do semanário alemão Welt am Sonntag, de que empregados contratados por uma agência na Polônia tinham permissão para escutar as gravações vocais de usuários alemães de Alexa.

Essa revelação agrava as atuais preocupações sobre privacidade, em meio à popularidade crescente de recursos interativos permitindo o uso de instruções verbais para aparelhos reproduzirem música, acenderem luzes ou consultarem as notícias ou a meteorologia.

Revelações anteriores mostraram que os assistentes virtuais podem ser involuntariamente ativados para gravar conversas. No fim de julho, o jornal inglês The Guardian noticiou que funcionários trabalhando no assistente virtual da Apple, Siri, escutavam mais do que as instruções dos usuários, tendo acompanhado eventos como negócios com drogas ou relações sexuais. Entre os “sinais-gatilho” programados estavam, por exemplo, o som de um zíper.

O artigo do Welt revela agora que os comandos vocais dos usuários alemães de Alexa não são escutados apenas por funcionários da Amazon, mas também por indivíduos contratados pela agência Randstad, na Polônia. O fato de eles poderem trabalhar de casa ou em trânsito, potencialmente abre a possibilidade de que as informações pessoais dos usuários sejam copiadas ou partilhadas, sem qualquer instância de controle.

Embora a Amazon assegure que apenas seu quadro de confiança tem acesso às gravações, os anúncios de emprego da Randstad ofereciam a candidatos com excelentes conhecimentos de alemão a promessa de “trabalhar de todo o país”, após treinamento na sucursal da Amazon em Gdansk.

Embora admitindo que transcrições de áudio podem ser realizadas de casa, a gigante do comércio eletrônico insistiu haver “medidas e diretrizes estritas de segurança, que todo empregado deve respeitar”. Trabalhar em locais públicos, por exemplo, seria proibido.

Segundo confirmou um contratado da agência polonesa ao periódico alemão, era possível escutarem-se, nos áudios transmitidos, nomes e locais que potencialmente permitiriam a identificação dos usuários de Alexa.