O Capitalismo perdeu o bonde da história


Comecei 2019 decidido a me lançar em uma reflexão sobre um certo anacronismo contemporâneo: o modus operandi de boa parte das profissões, com suas burocracias, expedientes exaustivos, rotinas e procedimentos ancorados na maneira de pensar da sociedade industrial. É o que o sociólogo italiano Domenico de Masi chama de “cultural gap”, uma defasagem cultural — típica do capitalismo deste século 21 — em relação a um passado já quase remoto.

Passei alguns dias garimpando uma bibliografia e, depois de fuçar várias sinopses, resolvi iniciar o ano acompanhado do excelente “O imaterial — Conhecimento, valor e capital” (2003), do filósofo austro-francês André Gorz.

Uma ideia central do livro é a necessidade de repensar o capitalismo a partir do inegável protagonismo do conhecimento como principal força produtiva do sistema econômico. E quando fala em conhecimento, Gorz se refere àqueles que, com a informatização, tornaram-se ainda mais insubstituíveis: “o saber da experiência, o discernimento, a capacidade de coordenação, de auto-organização e de comunicação”.

Esse conjunto complexo de habilidades — que as empresas insistem em rotular de “motivação” — são fruto, na realidade, de uma meticuloso “investimento de si mesmo”, que está quase sempre desconectado do contexto corporativo. Uma vez que essa motivação, aliada a um componente comportamental, é a responsável pela criação de valor, o julgamento por parte dos chefes e dos clientes se torna um tanto mais subjetivo. Antes, diria Adam Smith, trabalho era trabalho e ponto final: bastava bater o ponto na hora certa. Hoje, não. O profissional precisa criar um nome, uma marca; investir na própria formação e no aperfeiçoamento.Pensem comigo: se “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, ganhasse um reboot de Hollywood, o protagonista não estaria apertando parafusos loucamente em uma fábrica, mas preenchendo planilhas às 22h de uma sexta-feira, entre um gole e outro de Redbull, e estressadíssimo porque precisou faltar a aula do MBA. André Gorz diz que no lugar da exploração entra a “auto-exploração e a auto-comercialização do Eu/SA, que rendem lucros às grandes empresas, que são os clientes do auto-empresário”. BUM! Por essa nem Max Gehringer esperava!


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E aí surgem os problemas: o trabalho deixou de ser mensurável segundo padrões e normas preestabelecidas. Nesse ponto, Gorz trava um diálogo com o cientista social Pierre Veltz, que afirma: “Não se sabe mais como definir as tarefas de maneira objetiva. O desempenho não é mais definido na relação com essas tarefas; ele tem a ver diretamente com as pessoas”. E o próprio André Gorz completa: “As qualidades impossíveis de demandar e que são esperadas são o discernimento, a capacidade de enfrentar o imprevisto, de identificar e resolver problemas”. Você pode protestar: “Mas e eu, que sou de Virgem, com ascendente em Escorpião? O máximo de imprevisto que consigo lidar é a tela azul do Windows 2000; vou saber enfrentar as broncas da empresa?”. Provavelmente sim, uma vez que esses conhecimentos tão valorizados são lastreados sobretudo na cultura do cotidiano, na habilidade de improvisar; enfim, em “capacidades expressivas e cooperativas que não se podem ensinar”. É uma bagagem cultural que se adquire em jogos, esportes em equipe, lutas, disputas, atividades musicais, teatrais etc.

Dessa forma, a dupla de filósofos Muriel Combes e Bernard Aspe vai defender que não são mais as pessoas que interiorizam a “cultura da empresa”, mas as empresas contemporâneas que vão buscar na vida cotidiana de cada um as vivências de que necessitam. Eles também apontam, por outro lado, o perigo de uma “mobilização total” das capacidades e disposições, ou seja, o hábito de ficar 24 horas à disposição do trabalho: “Não se concebe como uma economia do imaterial poderia funcionar sem submeter indivíduos a uma nova forma de servidão voluntária”. Uma possível resposta para essa demanda ilegítima é a recusa da imersão total no trabalho, muitas vezes investindo sua dignidade e sua capacidade em tarefas fora do âmbito corporativo. “São muitas as maneiras de salvar sua alma. Para subtrair uma parte de sua vida à aplicação integral no trabalho, os ‘trabalhadores do imaterial’ dão às atividades lúdicas, esportivas, culturais e associativas, nas quais a produção de si é a própria finalidade, uma importância que enfim ultrapassa a do trabalho”. (Agora você tem condições de entender aquele fenômeno editorial dos livros com mandalas para colorir).

O poderia ser feito, então, por parte das empresas? A resposta é do teórico Hervé Serieyx: “deve apostar na abundância, no aumento de atividades e de trocas multilaterais dos membros de seu pessoal, e não procurar dominá-los pretendendo seus desempenhos individuais. A sobrevivência da empresa num ambiente complexo depende dessa faculdade de auto-organização — de sua capacidade de promover o desenvolvimento da inteligência coletiva e individual”
Felipe Torres/Obvius

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