Artigo – Porque a Microsoft domina o mercado.


Uma série de erros históricos dos concorrentes ajudou o Windows.
Por
Ricardo Bánffy*

Muito do monopólio da Microsoft hoje não se deve tanto à competência dela em reconhecer tendências (e aproveitá–las, com produtos e estratégias), mas à inépcia dos seus concorrentes que não raro insistem em ir contra a razão ou se atacar entre si.


Claro que a conduta da empresa não é exemplar &#9472 afinal, ela foi condenada por comportamento anti–competitivo nos EUA e na União Européia e enfrenta processo semelhante na Coréia do Sul &#9472 mas nem méritos (que ela tem de sobra) nem suas práticas comerciais questionáveis (que ela também tem de sobra) podem, isoladamente ou em conjunto, explicar a completa dominação do mercado que ela tem.


▪ A Digital Research deixou de vender o CP/M pra IBM porque a esposa de Gary Kildall não quis assinar um NDA (a lenda de que ele estava pilotando seu avião e, por isso, faltou à reunião é, provavelmente, apenas lenda). Quando a IBM passou a oferecer o CPM/86 como opção ao DOS, ele era tão mais caro que ninguém comprava.


▪ A IBM deixou a Microsoft vender o DOS para outros fabricantes de computadores. O mercado de clones (que terminou por fazer a IBM desistir de fazer PCs e vender seu negócio de desktops e notebooks para a chinesa Lenovo) nasceu assim.


▪ A mesma Digital Research fez o GEM, que foi lançado antes do Windows. No entanto, era quase impossível comprá–lo &#9472 para tê–lo você tinha que comprar um produto que viesse com ele ou comprar o kit de desenvolvimento do GEM. Quem usou Ventura Publisher, usou GEM. O GEM era uma GUI tão Mac–like que fez a Apple processá–los e, para acalmar a ira dos advogados da Apple, a Digital Research teve que deixá–lo menos usável ainda do que o Windows 1. Ninguém comprou.


▪ A Lotus demorou uma eternidade para lançar uma versão gráfica do 123, anos depois do
LisaCalc no Lisa, do Multiplan no Mac e do Excel no Windows mostrarem como devia ser uma planilha em um ambiente gráfico (que não mudou quase nada desde então). Quando finalmente o fez, era uma versão para o OS/2.

▪ A Borland fez quase o mesmo com o Quatro Pro. Errou um pouco menos &#9472 a versão era para Windows 3.


▪ A mesma IBM, que ajudou a Microsoft a viabilizar seus competidores, vendia micros com OS/2 mais caro do que vendia micros com Windows. Eu sei porque eu quis comprar um.


▪ Essa mesma IBM tornou quase impossível desenvolver drivers para OS/2. O kit de desenvolvimento de drivers só apareceu, se bem me lembro, nos tempos do Warp e não vinha com um compilador &#9472 que tinha que ser comprado à parte, a peso de urânio enriquecido. Provavelmente era um compilador Microsoft. O OS/2 era lindo, rápido, não travava e nem imprimia.


▪ Qualquer um podia ter lançado um ambiente de desenvolvimento integrado depois da Apple mostrar como se faz um GUI builder no Hypercard, da NeXT no Interface Builder e do Whitewater Group, no Actor &#9472 todos com excelentes linguagens por trás. Mas a Microsoft fez para o Windows o primeiro IDE com GUI builder e uma linguagem meia–boca que qualquer programador com QI de dois dígitos aprende. Isso nos condenou a viver com o VB (e programadores com QI de dois dígitos) até hoje.


▪ A Apple sempre achou que seus computadores eram tão bons, mas tão bons, que se venderiam por si. Um Macintosh, até pouco tempo atrás, era tão mais caro em relação a um PC genérico que se tornou um símbolo de status. Por muitos anos, empresas que tivessem uma rede de PCs não tinham um jeito fácil de integrar Macs a elas. E vice–versa. Até os anos do System 7, se bem me lembro, um Mac nem mesmo podia trocar disquetes com um PC. Enquanto a Apple olhava pro jeito Microsoft de partilhar arquivos e gritava “Not Invented Here”, a Microsoft fazia o Windows NT servir arquivos para redes PC e Macintosh. E funcionava.


▪ Nenhum fornecedor de Unixes proprietários tentou competir seriamente com o Windows e com o OS/2 e os preços raramente desceram das nuvens &#9472 a licença de um revoltantemente feio ambiente gráfico CDE custava um rim e um olho. Por usuário.


Quando o primeiro Unix–like livre e barato apareceu (o 386/BSD), o Unix System Labs resolveu processá–los, o que deixou o produto atolado em um lamaçal jurídico por vários anos. Durante esses anos, o Linux foi construído praticamente do zero, pois não seria “seguro” usar código do BSD nele até a ação acabar. Quando ela acabou, se descobriu que, na verdade, era o Unix da USL que usava código do BSD não–creditado – violando a licença BSD, que só pede isso (que se diga que foram eles que fizeram). Isso garantiu que o OS/2 e o Windows NT não tivessem nenhum competidor de peso em plataforma x86 por vários anos.


A dominação do mercado pela Microsoft é uns 20% mérito, 30% práticas questionáveis e 50% burrice da competição.


Sobre o autor
* Ricardo Bánffy (ricardo@dieblinkenlights.com) é engenheiro, desenvolvedor, palestrante e consultor.

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