“Leonardos russos”: original e falsificação?

"Salvator Mundi": quadro mais caro do mundo talvez não seja DaVinci autêntico


Uma rara ocasião: o museu russo Eremitage emprestará a “Madona Benois” e a “Madona Litta” à Itália, por ocasião dos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci. Porém só a autenticidade de um dos quadros é indiscutível.    

Madona Litta, de Leonardo da VinciAutenticidade da “Madona Litta” é questionada há anos

Depois da França, a Rússia é o segundo país que possui mais obras do mestre renascentista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519): dos menos de 20 quadros existentes, no Museu do Louvre estão cinco, e em Florença, Munique, Cracóvia, Londres e Washington, há um, respectivamente.

O Eremitage de São Petersburgo é o orgulhoso proprietário de dois “Leonardos”, chegados ao país por caminhos tortuosos. Tanto a Madona Benois  quanto a Madona Litta receberam o nome de seus proprietários anteriores. No primeiro caso, ninguém questiona a autoria, mas o segundo é tema de polêmicas.

Nos 500 anos da morte do artista, ambos poderão ser admirados fora da Rússia: uma oportunidade extremamente rara, com caráter de sensação. O roteiro passa pela terra natal histórica: a Madona Benois estará por um mês, a partir de 1º de junho de 2019, na cidadezinha italiana de Fabriano, onde se realiza uma grande conferência da Unesco dedicada a “Creative cities”, da qual a Rússia participa. Depois segue para Perugia, de 4 de julho a 4 de agosto. Por sua vez, a Madona Litta ficará exposta em Milão de 8 de novembro a fevereiro de 2020.


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Sala do museu Eremitage de São PetersburgoEremitage de São Petersburgo é um dos museus de arte mais famosos do mundo

O fato de as duas pinturas poderem deixar a Rússia justamente no “ano Leonardo” se deve sobretudo à habilidade diplomática e uma “generosa contraproposta” de parte dos italianos, cujos museus têm apoiado numerosas mostras russas com seus empréstimos.

Sem dúvida, a “turnê da Madona” deve ser vista também como um gesto simbólico: o diretor do Eremitage, Mikhail Piotrovsky, se considera um opositor aos numerosos isolacionistas da política russa. Porém nem todos na instituição estão entusiasmados com os planos de exibição.

“Tenho um pressentimento desagradável com essas viagens todas”, confessa a curadora Tatiana Kustodieva. “O melhor é esses quadros nunca saírem dos seus museus. Afinal de contas, milhares de pessoas do país e de fora vêm diariamente ao Eremitage para ver os Leonardos.”

Há incríveis cinco décadas, a tão elegante quanto resoluta dama é responsável pela manutenção dos dois “Leonardos russos”. Ela também dirigiu a reconfiguração do salão dedicado a Da Vinci em seu museu, concluída pontualmente no ano do jubileu.

As duas obras-primas ganharam novas vitrines climatizadas e protegidas com vidro blindado, e seu posicionamento no salão foi também modificado. “Eu rearrumei um pouco, para que os visitantes não tenham que passar em fila, como antes, mas sim possam concentrar-se inteiramente nas obras”, conta a matriarca do Eremitage.

Beleza delicada

Segundo Kustodieva, “a Benois é absolutamente ímpar, pois quase nada restou das pinturas de juventude de Leonardo”. Supõe-se que a Nossa Senhora pintada em cores delicadas, de cintilações auriverdes, seja uma das primeiras obras autônomas de Da Vinci, realizada entre os 26 e 27 anos de idade, quando acabara de deixar o ateliê de seu professor Andrea del Verrocchio.

Reza a lenda que a Madona foi levada por músicos italianos para a Rússia em 1790. Desde o começo do século 19, ela esteve em grandes coleções privadas, até ser herdada por Maria Saposhnikova e seu marido, Leonti Benois. Descendente de uma famosa dinastia de arquitetos e artistas russos, Benois vendeu o quadro em 1914 ao czar Nicolau 2º por 150 rublos de ouro – o equivalente a 1,5 milhão de dólares atuais, um preço recorde para a época.

Madona Benois, de Leonardo da Vinci“Madona Benois” é possivelmente uma das primeiras obras autônomas de Da Vinci

Polêmica em cores brilhantes

Enquanto não há dúvida de que a Madona Benois seja um Leonardo autêntico, a Madona Litta, que brilha com os tradicionais trajes vermelho e azul, é alvo de discussões artísticas acirradas.

Certos historiadores de arte – entre os quais o conceituado especialista vinciano britânico Martin Kemp, professor da Universidade de Oxford e autor de Living with Leonardo  – admitem que ela se baseie num desenho do mestre, mas teria sido pintada por Giovanni Antonio Boltraffio entre 1490 e 1495.

Kustodieva defende decidida sua protegida: “Gerações de historiadores de arte reconheceram a Madona Litta como obra de Leonardo, no Eremitage há provas irrefutáveis disso. E, acima de tudo, esfreguem os olhos, incrédulos, e admirem esta joia!”

A obra foi vendida pelo aristocrata milanês Antonio Litta em 1864 para a coleção do czar, como um Leonardo original. Ao que consta, é assim também que ela será exposta em Milão, portanto não é de se esperar mais uma escalada na disputa entre experts.

Salvator Mundi, de Leonardo da Vinci“Salvator Mundi”: quadro mais caro do mundo talvez não seja Leonardo autêntico

O mistério do Salvator Mundi

Outro pomo da discórdia no mundo dos vincianos é o Salvator Mundi. Até então parte da coleção do bilionário russo Dmitri Rybolovlev, o quadro foi leiloado em novembro de 2017 pela casa Christie’s por 450,3 milhões de dólares. Seu comprador, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, anunciou a intenção de expô-lo no Louvre de Abu Dhabi como “presente ao mundo”.

No entanto, o Salvator está desaparecido há vários meses, e nem o Museu do Louvre nem sua sucursal na Arábia Saudita dão qualquer informação sobre o paradeiro da pintura mais cara do mundo. Além disso, está cercado de sérias dúvidas quanto a sua autenticidade.

Embora Martin Kemp tenha confirmado a assinatura artística de Da Vinci, para Tatiana Kustodieva é inquestionável que seu autor não foi o gênio toscano. “Olhem só como as roupas são toscas, ou a esfera na mão dele. Este não é um Leonardo, no máximo um trabalho de um de seus alunos menos talentosos.”

E assim se mantém o suspense e o mistério em torno do artista Leonardo da Vinci, mesmo 500 anos após sua morte.

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