Antônio de Cértima – Biografia emocional do povo


Biografia emocional do povo
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I
Boca de alma que se enfeita
Em rezas, cantos de amor…
– Não há lira mais perfeita
Que a do povo, trovador.

Prantos tristes, emoções,
Choros de fogo e paixão,
Tudo ele anima em canções,
Nas cordas do coração.

Almas de noivas errantes,
No céu da alma a vibrar,
Ele celebra, em descantes,
Quando se põe a evocar…

É olhá-lo: no modo triste
Há expressões traduzindo
Quanto bem que não existe,
Quanto mal que ainda é lindo!


Você leu?: Poesia – Eu te amo


O olhar tem certa beleza
Que entristece e dói… Assim
Deve ter sida a tristeza
Das faces de Bernardim!

Menina e Moça inda pura,
Perdida por seu encanto,
É a noiva que ele procura,
O Encoberto do seu pranto!

Só o povo português
Tem a intuição acertada
Que acorda no montanhês
Visões de vida passada.

Ecos de longe. Montanhas.
Contendas bravas, velhinhas.
E chamam por mães estranhas:
– Senhoras, Donas, Rainhas!

Donde virá tal nobreza?
De que grau de geração?
– É que a gente portuguesa
Tem sangue de condição.

Vem o. sol – cresta-lhe as veias:
E, em delírio, perde o tacto.
Busca a dança – ardem-lhe: as veias:
É o pulso de Viriato!

II
O povo humilde a cantar
Abre em doçura de asceta.
Sai à rua, está luar,
Solta uma queixa, – é poeta.

Nos seus poemas, corados
Nos vergéis, em tardes belas,
Espreitam lábios rosados,
Olhos garços de donzelas.

É a gente esquecer-se a ler
Tal poema sempre novo
E encontrar uma mulher
Em cada trova do povo.

Ingênuas virgens que passam,
Serenas, de passo mudo,
Levam bocas que se enlaçam
Noutras bocas de veludo.

Umas, de rostos de rosas
Frias, brancas, já mortais;
Outras em cores melindrosas
De céus espirituais.

E todas tão delicadas,
Tão cheias de puro encanto
Como a cinzel bem talhadas
De um gênio que fosse um santo!

São Marias da inocência,
Da graça nata e servida;
Corpos de nívea fulgência
Sem a mancha própria da vida.

Outras, Ofélias doridas
De quanto amor desgraçado!
Tendo ainda as rosas caídas
Sobre o manto de noivado.

E todas passam e lá vão
Na luz do sol ou luar…
– Venturoso o coração
Do povo que sabe amar!

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