Allende: livro esconde ações da CIA no golpe do Chile


Um dos traços característicos de muitos livros contemporâneos é uma opção que se poderia chamar de história ideológica. São obras que pretendem usar fatos e personagens como instrumento para sustentar a opinião de seus autores. Não pretendem avançar o conhecimento, nem debater fatos estudados a partir de análises novas. Seu objetivo é fazer propaganda.

Poucas obras demonstram essa finalidade com tanta evidência como o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, e o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, parceira de Narloch com Duda Teixeira. Os dois retratam o Brasil e sobre o Continente é a de um universo de bufões, malandros e impostores, onde poucos se salvam.

Os autores pretendem demonstrar que brasileiros e latino-americanos são cidadãos de um universo piada, que até hoje foram retratados por maus historiadores que apenas inventaram para embelezá-los.

Só para você ter uma ideia. Na página 151 do livro sobre o Brasil, Leandro Narloch descreve o país como se fosse um paciente com “ diversos males psicológicos. Bipolar, oscilaria entre considerações muito negativas e muito positivas sobre si próprio. Obsecado com sua identidade, em todas as sessões aborreceria os colegas perguntando “Quem sou eu?”, “Que imagens devo passar”?, “O que me diferencia de vocês?”

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Não consigo achar graça nesse tipo de comparação que, a meu ver, sequer corresponde ao retrato que os brasileiros fazem de si próprios. Eu acho coisa de colonizado.

Você encontra muitas pessoas em dúvida sobre sua identidade na rua? Perguntam se são paraguaios, armenios ou ingleses na frente do espelho? Não sabem para quem torcer na Copa do Mundo? Como é que os brasileiros vêem o país, neste momento?

Mas a liberdade de expressão inclui o direito de dizer besteira e todo mundo pode abusar.

Só não precisa exagerar nas inverdades. Estou falando do livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina, que publica um capítulo sobre o presidente chileno Salvador Allende, deposto por um golpe militar em 1973.

Você talvez tenha ouvido falar que a professora Maria Ligia Prado, da Universidade de São Paulo, já desmascarou a dupla num artigo publicado no Estadão. A professora demonstrou que os dois fizeram uso errado de informações sobre um trabalho universitário de Allende, numa tentativa de sustentar, erradamente, que o presidente do Chile apoiava idéias nazistas na faculdade.

Depois de mostrar o erro grotesco dos autores, a professora recordou que “o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.”

Fique sabendo que tem mais bobagem por aí. A nova descoberta é deste blogueiro.

Coerentes em seus esforços permanentes de ridicularizar os nativos e glorificar os colonizadores, Narloch e Teixeira tentam reduzir o papel da CIA no golpe que derrubou Allende.

Como se fosse a verdade mais simples do mundo, eles escrevem na página 274 que a CIA atuou no país “entre 1962 e 1970”.

A data é precisa: Allende foi eleito em 1970 e tomou posse em 1971. Se a CIA parou de atuar em 1970, não pode ser responsabilizada por nada de ruim que ocorreu no país depois disso.

Referindo-se ao golpe, em setembro de 1973, Narloch e Teixeira sublinham que a CIA deixara o país antes dessa “data dramática.”

Pena que não foi assim. O engraçado é que tanta gente conhece o papel da CIA na queda de Allende que chega a ser espantoso que se tente negá-lo.

Basta abrir o livro de memórias de William Colby, com uma longa carreira em altos cargos na CIA, para descobrir que eles não falam a verdade.

Com a autoridade de quem era diretor da CIA em 1971– e o Chile era uma prioridade mundial da Casa Branca naquele momento – e assumiu a direção de operações clandestinas no fatídico ano de 1973, Colby escreve com a cautela de um executivo fiel às cláusulas de confidencialidade de seu trabalho, mas mesmo assim faz um relato instrutivo da atuação do serviço secreto americano no Chile, antes e depois da posse de Allende.

O livro de Colby nem é novo. Tem mais de 30 anos. Foi publicado em 1978, cinco anos depois do golpe, e traduzido em várias línguas. Li a versão em frances, “30 anos de CIA,” comprada na década de 80. Naquela época, Questionada por seu envolvimento em diversos crimes e conspirações, a CIA decidiu abrir alguns segredos. O livro de Colby pode ser visto como parte deste processo. Não conta tudo, esconde bastante, mas revela alguma coisa.

Falando sobre os trabalhos realizados no Chile a partir de 1971, Colby escreve na página 287: “as quantias que ali se gastava representavam uma parte considerável do orçamento” da agencia. Esclarece: “milhões de dólares.”Explica: “era preciso apoiar os partidos centristas, os jornais de oposição, os grupos sindicais e as entidades estudantis.”

Quem estuda a queda de Allende, sabe a importancia dessas revelações. Em poucos meses de governo, o conflito entre aliados e adversários de Allende transformou a vida dos chilenos num caos. Ocorreram greves de caminheiros, mercado negro de alimentos, vários atos de sabotagem. Quando fala de “milhões de dólares” no financiamento dos inimigos de um presidente eleito, Colby confirmava as conhecidas acusações de que a Casa Branca atuava nos bastidores para derrubá-lo.

Ao retirar a CIA de cena, os autores fabricam uma versão falsa da história. Pelo que Colby revela, é uma falsificação e tanto.

Colby sustenta, no livro, a tese de que a CIA não participou do golpe militar de setembro de 1973. Não é preciso acreditar nessa versão, que já foi desmentida até pelo embaixador americano em Santiago.

Com sua versão, Colby assume a postura padrão dos altos funcionários do governo americano, que sempre sustentam em manifestações públicas que seu país não comete crimes e respeita as instituições e à democracia. Mesmo assim, as revelações mostram a CIA dentro do caos, fazendo o possível para enfraquecer Allende de todas as maneiras e em todas oportunidades. Dessa maneira, o livro deixa claro que a CIA ajudou os golpistas.

Colby reconhece, na página 289, que a ajuda aos adversários de Allende “gerava tensões na sociedade chilena.” Admite que é “indiscutível” que a “política oficial dos Estados Unidos” era hostil a Allende, que ela tentou dirigir “o capital privado contra o Chile, a bloquear créditos internacinais que poderiam beneficiar o país e o que militares americanos mantinham relações calorosas e permanentes com seus homólogos chilenos.”

Em sua versão conveniente, Colby garante que o plano era esperar até 1976, quando haveria nova eleição presidencial, para garantir uma vitória da oposição.

Mas na página 288 ele admite que, em 1973, quando ocorreram eleições para deputado, planejava-se arrancar Allende da cadeira num golpe parlamentar. Fala, mais uma vez, da ajuda à oposição. Em tom de lamento, escreve: “o apoio (da CIA) aos candidatos anti-Allende permitiu o ingresso na Câmara de Deputados uma maioria de representantes hostis ao presidente marxista. Faltaram apenas dois votos para que formasse uma maioria de dois terços que teria permitido afastá-lo do posto.”

Na mesma página, o diretor da CIA esclarece que os principais destinatários dos “milhões de dólares” eram partidos “moderados” e não organizações de extrema direita, como a lendária “Patria y Libertade”. Colby diz que essa organização embolsou pouco, pelo menos da CIA: 38 00o dólares em 1970 e 7 000 em 1971.

Colby conta que a intervenção da CIA naquele país foi discutida na Casa Branca, num encontro com a presença de Richard Nixon em pessoa. Recorda que por ordem expressa de Nixon a CIA tentou impedir a posse de Allende assim que ele venceu as eleições. Pretendia-se dar um golpe militar mas o plano foi abandonado diante da constatação de que René Schneider, o comandante-em-chefe das Forças Armadas era legalista até a medula. (Numa ação até hoje mal esclarecida, um grupo de extrema-direita, que tinha contatos com a CIA, matou Schneider numa tentativa de sequestrá-lo).

Com franqueza de bom memorialista, Colby faz uma revelação sobre os políticos chilenos e os maus costumes do serviço secreto americano. Lembra que, como Allende foi eleito com 36% dos votos, sua posse precisava ser aprovada pelo Congresso chileno. Depois de abandonar a ideia de um golpe militar, o plano seguinte do governo americano, então, foi conseguir dinheiro “para tentar corromper um número suficiente de deputados para votar contra Allende”. Não deu certo, admite. A verba foi economizada porque a operação não era “factivel,”ou seja, os parlamentares não estavam à venda.

Confesso que a descoberta de um erro tão constrangedor num livro que acusa os historiadores de esconder fatos desagradáveis e divulgar versões convenientes não chega a ser espantoso mas é lamentável. Os “politicamente incorretos” foram lançados num ambiente de impunidade intelectual e muita referência. Chegam a ser levados à serio. O critico musical Nelson Motta e o colunista Luiz Felipe Pondé fazem comentários elogiosos na contra-capa de um dos livros. Será que um deles abriu o livro para saber que talento genial de Noel Rosa foi reduzido a fazer “marketing da pobreza”? Ou que Florestan Fernandes deixou de ser sociólogo para se tornar historiador?
Meu Deus…

Paulo Moreira Leite/Revista Época
Jornalista desde os 17 anos, foi diretor de redação de ÉPOCA e do Diário de S. Paulo. Foi redator chefe da Veja, correspondente em Paris e em Washington.

Postado na categoria: Comportamento, Literatura - Palavras chave: , , , , , , , , , , ,

Leia também:

É possível ser anônimo na era da internet?
É possível ser anônimo na era da internet?

Professor do Oxford Internet Institute diz que hoje

October 3, 2019, 11:40 am
SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS
SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS

Opressores não seriam tão fortes se não tivessem cúmplices

October 1, 2019, 1:41 pm