Al Gore: Soluções para clima e economia andam juntas


Em longa entrevista para The New York Times e publicada pelo O Estado de São Paulo – transcrita abaixo na íntegra -, o ex vice presidente norte americano e prêmio Nobel da Paz, Al Gore, faz uma análise das implicações, sociais, políticas e antropológicas, do que se deve esperar para o futuro da humanidade.

Al Gore, cujo documentário “Uma verdade inconveniente” ganhou o Oscar, coloca no “colo” de Obama e na liderança dos Estados unidos, a possibilidade de implementação de novas políticas ambientais, para evitar o colapso da civilização diante dos danos oriundos das mudanças climáticas.

Investir na substituição de tecnologias energéticas antiquadas ajudaria na criação de empregos

A inspiradora e transformadora escolha feita pelo povo americano ao eleger Barack Obama como nosso 44º presidente estabelece os fundamentos para outra escolha decisiva que ele – e nós – teremos de fazer em janeiro para dar início a um resgate da civilização humana, em caráter emergencial, da iminente e cada vez maior ameaça representada pela mudança climática.

A eletrizante redenção da revolucionária declaração feita pelos EUA afirmando que todos os seres humanos nascem iguais prepara o palco para a renovação da liderança americana num mundo que precisa desesperadamente proteger seu dote primário: a integridade e as condições de vida do planeta.

A autoridade mundial sobre a crise climática, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), depois de 20 anos de estudos detalhados e da publicação de quatro relatórios unânimes, diz agora que as provas são “inequívocas”. Para aqueles que ainda se sentem tentados a ignorar os alarmes cada vez mais urgentes emitidos pelos cientistas de todo o mundo, a fechar os olhos para o derretimento da calota de gelo sobre o pólo norte e para todas as outras advertências apocalípticas feitas pelo próprio planeta, e para aqueles que dão mostras de tédio à menor menção desta ameaça existencial ao futuro da espécie humana, por favor, acordem. Nossos filhos e netos precisam que vocês nos dêem ouvidos e reconheçam a verdadeira natureza da nossa situação, antes que seja tarde demais.

Eis as boas notícias: os ousados passos necessários para resolver a crise climática são os mesmos que precisam ser tomados para resolver a crise econômica e a crise de segurança energética.

Os economistas de todas as orientações – incluindo Martin Feldstein e Lawrence Summers – concordam que investimentos rápidos e de grande valor numa iniciativa de infra-estrutura capaz de criar muitos empregos são a melhor maneira de reanimar nossa economia de maneira ágil e sustentável. Muitos também concordam que nossa economia enfrentará dificuldades se continuarmos a gastar centenas de bilhões de dólares todos os anos com petróleo importado. Além disso, especialistas em segurança nacional de ambos os partidos concordam que enfrentaremos uma perigosa vulnerabilidade estratégica caso o mundo perca subitamente o acesso ao petróleo do Oriente Médio.

Conforme disse Abraham Lincoln no momento mais sombrio pelo qual a América já passou, “a ocasião nos apresenta uma montanha de dificuldades, e precisamos corresponder à ocasião. Por ser novo o nosso problema, nós também precisamos inovar nas nossas idéias, e agir de maneira inovadora”. No nosso caso atual, pensar de maneira inovadora exige rejeitar uma definição superada e fatalmente equivocada do problema que enfrentamos.

Há 35 anos, o presidente Richard Nixon criou o Projeto Independência, estabelecendo uma meta nacional que esperava, no prazo de sete anos, desenvolver nos EUA “o potencial para satisfazer nossas próprias necessidades energéticas sem depender de fontes estrangeiras de energia”. Essa declaração foi feita três semanas após o embargo árabe ao petróleo ter provocado uma aguda elevação nos preços e obrigado a América a acordar para os perigos da dependência em relação ao petróleo estrangeiro. E – não é coincidência – isso ocorreu apenas três anos depois de a produção de petróleo dos EUA ter atingido o seu ápice.

Na época, os EUA importavam de outros países menos de um terço do total de petróleo consumido.

E hoje, depois de todos os seis sucessores de Nixon terem repetido alguma versão dessa meta, nossa dependência dobrou, chegando a importação de quase dois terços do petróleo que consumimos – e muitos crêem que a produção mundial de petróleo esteja no seu ápice, ou muito próxima disso.

Alguns ainda enxergam isso como um problema de produção doméstica. Se ao menos conseguíssemos aumentar nossa produção de petróleo e carvão, argumentam eles, assim não teríamos de depender de importações do Oriente Médio. Outros inventaram maneiras ainda mais sujas e caras de obter os mesmos velhos combustíveis, como o carvão líquido, o petróleo de xisto, a areia alcatroada e a tecnologia do “carvão limpo”. Mas em cada um desses casos, os recursos em questão são caros demais ou poluentes demais.

Eis o que podemos fazer agora: um investimento elevado e imediato para empregar as pessoas na substituição das tecnologias energéticas do século 19, que dependem de combustíveis perigosos e caros de matriz carbônica, pelas tecnologias do século 21, que utilizam combustível gratuito e abundante: o sol, o vento e o calor natural da terra. Segue-se um plano de cinco partes para restaurar o poder energético da América com o compromisso de produzir 100% da nossa energia a partir de fontes livres do carbono em um prazo de dez anos. É um plano que nos aproximaria de soluções para a crise climática e econômica – e criaria milhões de novos empregos que não poderiam ser terceirizados.

Em primeiro lugar, Obama e o novo congresso deveriam oferecer incentivos de larga escala ao investimento na construção de instalações solares e térmicas concentradas nos desertos do sudoeste, instalações eólicas no corredor que vai do Texas até as Dakotas e instalações avançadas em pontos de grande geração de calor geotérmico capazes de produzir boa quantidade de eletricidade.

Em segundo lugar, devemos começar o planejamento e construção de uma rede nacional inteligente e unificada para o transporte da energia renovável, desde as zonas rurais onde ela é gerada na sua maior parte até as zonas urbanas onde ela é consumida. Nova fiação subterrânea de alta voltagem e grande eficiência pode ser projetada com recursos “inteligentes” , eliminando o desperdício. O custo dessa rede moderna – US$ 400 bilhões ao longo de dez anos – não se compara à perda anual das empresas americanas (cerca de US$ 120 bilhões) provocada pelo efeito cascata de falhas que são endêmicas à nossa rede elétrica.

Em terceiro lugar, devemos ajudar a indústria automobilística americana (não apenas as três grandes, mas também as novas empresas, mais inovadoras) na rápida conversão para modelos híbridos capazes de funcionar alimentados com a energia renovável que estará disponível conforme este plano amadurecer.

Em quarto lugar, devemos embarcar num esforço nacional pela adaptação de melhores sistemas de isolamento e janelas e sistemas de iluminação de maior eficiência energética. Aproximadamente 40% das emissões de dióxido de carbono nos EUA vêm dos prédios – e combater esta poluição economiza o dinheiro dos proprietários de apartamentos e de estabelecimentos comerciais. Esta iniciativa deve ser acompanhada no Congresso por uma proposta de ajuda aos americanos prejudicados pelas hipotecas cujo valor excede o de seus lares.

Em quinto lugar, os EUA devem mostrar o caminho adotando um preço doméstico para o carbono, e liderando, no ano que vem, o esforço mundial em Copenhague pela substituição do Tratado de Kyoto por um pacto mais eficaz, que limite as emissões globais de dióxido de carbono e encoraje os países a investir juntos, de maneira eficiente, na rápida redução da poluição responsável pelo aquecimento global, e na redução do desmatamento.

É claro que a melhor maneira – na verdade a única maneira – de garantir um acordo global para proteger nosso futuro é por meio do restabelecimento dos EUA como um país detentor da autoridade moral e política para liderar o mundo na direção de uma solução.

Olhando para o futuro, tenho grande esperança de que teremos a coragem de abraçar as mudanças necessárias para salvar nossa economia, nosso planeta e, afinal, a nós mesmos.

Numa era anterior de transformação na história americana, o presidente John F. Kennedy desafiou nosso país a colocar um homem na lua dentro de dez anos. Oito anos e dois meses mais tarde, Neil Armstrong pôs os pés na superfície lunar. A média de idade entre os engenheiros de sistemas que comemoraram o sucesso da missão da Apollo 11 na sala de controle de Houston naquele dia era de 26 anos, o que significa que sua média de idade quando o presidente Kennedy anunciou o desafio era de 18 anos.

Este ano viu igualmente a ascensão dos jovens americanos, cujo entusiasmo eletrizou a campanha de Barack Obama. Não há muita dúvida de que este mesmo grupo de jovens desempenhará um papel essencial neste projeto para garantir o futuro do nosso país, novamente transformando metas aparentemente impossíveis em sucessos inspiradores.

O Estado SP

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