A maldade como espetáculo em 2015


As decapitações do Estado Islâmico e o avião lançado sobre os Alpes consolidaram ideia. 

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O Estado Islâmico atacou o Hotel Riu Imperial de Tunis no dia 28 de junho. O atentado deixou 40 mortos, em sua maioria turistas britânicos.
Foto de Kenzo Tribouillard AFP

A ideia do “mal absoluto”, como acontece com quase tudo aquilo que é absoluto, costuma ter um pano-de-fundo teológico. Mesmo quando utilizado em contextos aparentemente profanos, como, por exemplo, para descrever a política de extermínio nazista.

Costuma se referir, frequentemente, à incompatibilidade entre o fato histórico e a existência de um deus bondoso, como uma espécie de demonstração antiteológica de que existe um princípio mal equivalente ou até mesmo superior ao “bem supremo”, ou uma divindade diabólica e abjeta.
Uma hipótese, certamente, nada desprezível.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

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Também se falou em “mal absoluto” para se referir ao terrorismo, especialmente àquele que denominamos hoje em dia de “jihadista”, que deu este ano demonstrações terríveis —das decapitações filmadas de reféns pelo Estado Islâmico aos atentados de Paris— de sua capacidade de vileza, mesmo ano que viu a forma como o copiloto Andreas Lubitz lançou deliberadamente sobre os Alpes um avião com 150 passageiros a bordo.

Quando se fala em “absoluto”, o que se quer dizer é que a sua maldade não pode ser explicada ou entendida a partir das circunstâncias de seus protagonistas e que estes, diferentemente do que Jeanette cantava, não são “rebeldes por que o mundo os fez assim”, mas sim “rebeldes sem causa”, sem razão nem qualquer justificativa possível, como se se tratasse de algo inato ou surgido dos abismos da psicose, de uma maldade sem razão.


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E foi essa figura da “maldade absoluta” —que culmina com o mito romântico do “lobo solitário”— que muitas vezes tomou conta das páginas dos jornais ao longo deste ano.

De um mal que era “relativo” por fundar suas raízes na história, parece termos passado a um mal que surge de repente

Há uma dupla razão para o sucesso alcançado por essa figura. Por um lado, ele tem a ver com o desaparecimento do chamado “equilíbrio do terror” que desde 1945 vinha garantindo a paz no Ocidente: de um mundo polarizado entre dois inimigos bem ajustados, apoiado, em suma, na lógica da guerra (fria), passamos a uma ordem na qual reina apenas uma potência militar capaz de empreender uma guerra em nível global, e os inimigos dessa potência já não podem ser adversários comparáveis a ela em termos de capacidade de ataque ou defesa, mas apenas rivais desiguais sem residência fixa que compensam a sua inferioridade combatendo de forma irregular, desleal, surpreendente e espetacular, incluindo a divulgação mundial de vídeos gore.

Daí a grande dificuldade de se chamar o combate a esses novos inimigos de “guerra”. Além disso, o fato de eles darem a suas ações a roupagem de um discurso religioso de uma cultura diferente da “nossa” aumenta aos nossos olhos a dimensão de alteridade (eles não são diferentes de nós por serem maus, são maus porque são diferentes).

E, por outro lado, a atratividade dessa imagem se deve à forma como se divulgam hoje em dia os seus impactos em termos de informação: eles chegam às telas não só imediatamente como também sem qualquer discurso, sem qualquer elaboração jornalística, como imagens do cinema mudo, desvinculadas de suas circunstâncias históricas, de seus contextos, de suas raízes concretas, o que consolida a sensação de um mal “sem causa nem razão”, que acumula em si todos os traços do “inumano”, enquanto aqueles que os combatem atribuem a si mesmos todos os direitos da humanidade.

Em suma, de um mal que era “relativo” por fundar suas raízes na história, parece termos passado a um mal que se introduz na história como que surgido de repente, como um raio, que causa enormes estragos e logo desaparece entre as nuvens.

O mal nunca é “absoluto” no sentido de vir de algum princípio cósmico obscuro ou infernal; a raiz da qual todos os males procedem é a liberdade

Essa imagem expressa muito bem o espírito do nosso tempo. Mas, até que ponto podemos realmente acreditar nela? Embora haja coisas tão más que gostaríamos de enfatizar o nosso desacordo com elas dizendo que são “absolutamente” más, nunca conseguimos fazer com que essa “condenação absoluta” de certas ações ou atitudes exclua seus autores do pertencimento à mesma condição humana da qual nós, testemunhas e vítimas, fazemos parte.

O mal nunca é “absoluto” no sentido de vir de algum princípio cósmico obscuro ou infernal; a raiz da qual todos os males procedem é a liberdade.

Justamente por isso, devemos desconfiar radicalmente de todos aqueles que nos prometem, qualquer que seja a versão da promessa dentre as várias existentes, acabar definitiva e absolutamente com o mal, porque isso só poderia ser feito à custa da extinção da liberdade no mundo inteiro.

O que não significa, é claro, que tenhamos de aceitar em silêncio as atrocidades, a começar pela barbárie que é o terrorismo.

A única coisa que devemos fazer enquanto as combatemos com todas as nossas forças é lembrar que os nossos inimigos são feitos da mesma matéria que a nossa, e que a mesquinharia que consiste em justificar o sofrimento alheio como um meio necessário para atingir as nossas finalidades não é um impulso estranho a nenhum dos corações dos membros da nossa espécie.
José Luis Pardo/El País

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