A Era da Pós Verdade


Nada é o que Parece

alberto-dinesera-da-pos-verdadeopiniaocomportamentomidia

A era da pós- verdade anunciada pela revista britânica The Economist pode ser traduzida pela era da mentira, principalmente nesses tempos eleitorais onde o jato lava tudo e todos. O triplex de Guarujá não pertence a Lula e os bens armazenados ganhos durante a presidência, pagos pela OAS, eram “bugingangas”. Os processos nos quais Lula foi incriminado são pura perseguição.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

As contas de Eduardo Cunha na Suíça nunca foram dele. Nenhum dos apanhados por Sérgio Moro sabia de nada e só um dos bens levados a leilão dentro da Lava Jato, uma lancha do Paulo Roberto Costa, dos primeiros delatores da Operação, está avaliada entre R$3 milhões e R$ 785 mil. Uma tela que pertenceu ao banqueiro Edemar Cid Ferreira , agora envolvido no imbróglio do Lava Jato, foi vendida em Londres por 10,565 milhões de libras .

Marcelo Crivella tem 52% das intenções de voto no Rio e deverá vencer o segundo turno dizendo que não quer acordos e omitindo seu tio , o bispo Edir Macedo , mas por baixo do pano costura acordos com a centro direita, e com a Igreja Universal. O adversário Marcelo Freixo, com 25% das intenções de voto, fez uma campanha xôxa até agora parecendo que não queria vencer, o olho está pregado no governo do Rio em 2018. Nesse jogo cruzado, o candidato do PSOL recolhe votos de quem ganha mais de 10 salários mínimos enquanto Crivella , forte na periferia, angaria votos na zona sul.

Fernando Haddad , prefeito petista de São Paulo eleito pela classe média e derrotado pelos mais pobres, atua fortemente nos seus últimos meses, não para fechar o ano bem , mas para mirar o governo em 2018 e encher o buraco do PT implodido. João Dória, rico, eleito na periferia onde o PT perdeu, não governará por ele mas para eleger presidente seu padrinho , Geraldo Alckmin. Alckmin é só governador de São Paulo mas está de olho em 2018 e, na costura do plano, ameaça dar apoio na Câmara a um nome anti-Aécio, seu provável adversário.

A Primeira Dama paulista Bia Doria desfila no seu Porsche Cayenne mas se sente uma Evita Peron, “sou mais do povo, me sinto do povo”. ” Quem sabe um dia todos vão poder usar Ralph Laren?” diz Doria. Doria é mais político e marqueteiro que qualquer outro mas venceu as eleições se autointitulando gestor.

A mulher de Temer, Marcela, elevada por força das aparências políticas à condição de gerente do projeto Criança Feliz, fez um discurso que não teria escrito, e resume que só quer fazer uma criança feliz , sem explicar qual.

Hecatombe econômica anunciada

Os brasileiros ficarão mais pobres nos próximos anos engordando as classes C e D — mas votam nos candidatos mais ricos. Os políticos investigados pela Lava Jato não usaram o próprio nome mas codinomes e até hoje os promotores procuram saber quem é “Santo” e onde fica o “CEU”.

Há uma hecatombe econômica anunciada, uma guerra de tráfico no Rio, os assaltos se avolumam em São Paulo e a aposentadoria vira uma ilusão até na média de R$1.862,00 quando a dos políticos bate nos R$14,1 mil. Mas os candidatos ao poder em 2018 ainda não se convenceram a baixar os salário dos parlamentares, fixar o teto dos gastos públicos e usar os próprios carros ou metrô para trabalhar. São caricaturas de poder , camaleões.

Quando perguntados, todos negam. E os fãs de Doria acreditam no que ele prega: se aplicar metade das propostas de campanha , São Paulo vira Manhattan. A 400 km de um Rio em tiroteio entre favelas, inadimplente , onde o tráfico manda fechar quando bem entende o comércio de Ipanema e Copacabana , e o carioca acaba acreditando que só a Igreja e a política espiritualizada salva.

Nada é o que parece, é só ler o escritor anglo-irlandês Jonathan Swift em 1733 ” A Arte da Mentira Política” ou o psicólogo espanhol José María Martinez Selva, “A Grande Mentira”. Os políticos mentem mais porque precisam seduzir as pessoas, falar de um futuro imprevisível. Mentir é a arte de convencer o povo. Também vale se orientar pelo livro “Verdades e Mentiras” , na lista da semana dos mais vendidos, de Cortella, Dimenstein , Karnal e Pondé. Ou “O Declínio da Mentira” de Oscar Wilde.

E para entender os limites do ser humano, se aprofundar no romance do argentino-canadense Albert Manguel, “Todos os Homens São Mentirosos” . Mas não é nos candidatos com tantos limites que queremos votar e deixar governar. Só que eles precisam encantar e nós precisamos acreditar em alguma coisa embora, como cantou o Nobel Bob Dylan, “só quero dizer que posso ver através de suas máscaras”.

E ainda há quem estranhe o abandono dos jovens, a brutal abstenção e a ascensão do antipolítico.

***

Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa

Postado na categoria: Comportamento, Mídia - Palavras chave: , , , , , ,

Leia também:

É possível ser anônimo na era da internet?
É possível ser anônimo na era da internet?

Professor do Oxford Internet Institute diz que hoje

October 3, 2019, 11:40 am
SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS
SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS

Opressores não seriam tão fortes se não tivessem cúmplices

October 1, 2019, 1:41 pm