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William Gibson e a idiotice do patriotismo

Em 1984, o escritor norte-americano William Gibson publicou Neuromancer, obra que viria a compor a sua aclamada “trilogia do ciberespaço” (contando também com Count Zero e MonaLisa Overdrive).

No livro, Gibson mostra uma realidade cyberpunk, um futuro em que as pessoas buscariam de forma insaciável a conexão a um mundo virtual, através do qual fugiriam da realidade e teriam acesso a uma quantidade inimaginável de informações.

A trama, que acompanha o errático personagem Case em suas viagens alucinógenas pelo matrix e sua relação complicada com o uso de tóxicos, já foi mote para diversas discussões. Não é preciso muito esforço para encontrar textos falando sobre a capacidade premonitória de Gibson ao descrever, nos anos 1980, nossa relação com a tecnologia e a informação no século XXI. Porém, há outro aspecto da obra que merece atenção e reflexão, sobretudo em ano de eleições e copa do mundo.

No mundo de Gibson, as fronteiras nacionais foram praticamente limadas, e cidades outrora grandiosas viraram grandes amontoados de lixo e desordem (qualquer referência a Blade Runner, Ghost in the Shell e outras obras não é coincidência). Grandes conglomerados e corporações misteriosas são, finalmente, quem comandam o mundo, tanto em nível macroestrutural, moldando a economia, a política e a cultura; quanto em âmbito individual, intervindo na vida diária de cada pessoa (como mostrado na história de Case). Na estória, a companhia Tessier-Ashpool é quase onipresente e onipotente, chegando a ser capaz de controlar até mesmo as intrigas que põem em xeque a existência da corporação.

Mas, afinal, o que isso tem a ver com nossas eleições e a copa do mundo?

Em Neuromancer, Gibson, através de sua escrita confusa e das várias viradas narrativas, nos mostra aspectos de um mundo onde as corporações exercem grandes poderes, levando à sublimação da ideia de identidade nacional, dos mitos de congregação em torno de comunidades. Franceses bronzeados, jamaicanos alucinados, japoneses irados e pessoas sem nenhuma distinção identitária se confundem e misturam em uma realidade onde nada disso importa; somente os interesses individuais.

William Gibson escreveu essa história no momento de estruturação do neoliberalismo como agenda política e econômica no ocidente, e sua leitura sobre como o mundo caminharia nesse sentido nos leva a muitas reflexões. O avanço neoliberal das últimas décadas nos coloca frente à presença de grandes corporações nas entranhas dos estados nacionais, movendo a máquina política, articulando interesses que pouco tem a ver com o bem público, e sim, com as motivações das próprias empresas.

A realidade, finalmente, é que vivemos em um mundo governado pelas grandes empresas. Não é preciso grande esforço para perceber que essa afirmação não é conspiratória ou fantasiosa. Como no mundo de Gibson, grandes conglomerados influenciam nossa vida em tantos níveis que não somos capazes de realmente vê-los, apenas sentir o impacto de algumas de suas ações. Por outro lado, alguns ritos e tradições de nossa vida em comunidade levam as pessoas a um estado catártico de patriotismo que parece apagar toda a realidade das nossas mentes. A cada quatro anos, pessoas vestem a camisa literal e sentimental da pátria, esbravejando um sentimento de comunidade que não existe em nível individual, tampouco coletivo. É o típico abraço desordenado em desconhecidos após um gol da seleção brasileira, ou após a vitória de seu candidato salvador da pátria na eleição.

Essa é a idiotice do patriotismo. Através dele, compartilhamos um sentimento forçado de comunidade que não vivemos no cotidiano, somente em ocasiões pontuais da vida. Ao fim do dia, somos como os personagens de Gibson, procurando simplesmente suprir necessidades e desejos individuais (ou de uma coletividade muito pequena – família, amigos etc.). O sentimento de comunidade que pressupõe o patriotismo é ilusório, uma piada de mau gosto.

Não é que acredite ser preciso negar a vida em comunidade. Pelo contrário, é preciso viver de forma comunitária sem se apegar a símbolos tão voláteis como uma bandeira ou hino. Essas coisas, em muitas vezes, criam mais sensos de diferença do que pertencimento, e nos tiram o foco de questões mais profundas e sérias. Em vez de procurar nos ver como amantes da bandeira, poderíamos nos sentir todos trabalhadores, explorados pelos interesses do grande capital. Em vez de votar em pessoas que beijam bandeiras e cantam hinos enquanto desmontam a máquina pública às escondidas, poderíamos optar por aqueles que articulam propostas para o bem público, mesmo sem esbravejar o amor ao país.

Bandeiras e hinos são tradições, invenções (como já mostram Eric Hobsbawm e Michel de Certeau), e servem muito pouco à vida prática. Ainda mais se levarmos em conta o fato de serem atos automatizados: são poucos os que já pararam para ler o hino, ou mesmo que conhecem a história da bandeira, do lema “ordem e progresso”; que dirá a história do país. No fim das contas, estamos no mesmo ponto da história de Gibson: torcemos e bradamos por um jogo, enquanto quem exerce grande poder está jogando outro esporte.


Textos referenciados;

Gibson, William. Neuromancer. São Paulo: Editora Aleph, 2016. 5ª ed.

Certeau, Michel. A invenção do cotidiano. Vol. 1. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2012.

Hobsbawm, Eric J e Ranger, Terrence. A invenção das tradições. São Paulo: Paz & Terra, 2012. 11ª edição.

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