A falta de apuração, e conseqüente punição dos responsáveis, dos graves fatos que envolvem a quebra de sigilo fiscal de diversas pessoas, inclusive da filha de José Serra, projetam um avanço do aparelhamento partidário das instituições republicanas.

A permanecer a inércia da sociedade, os tentáculos de um estado Leviatã, se estenderão ao quintal de cada um dos brasileiros.

Fazer uso da mão pesada do Estado para afrontar direitos consagrados na Constituição Federal é caminho para o estabelecimento de ditaduras.
O Editor


Receita tentou abafar caso da violação do sigilo fiscal

Em meio ao discurso de que não havia irregularidade, governo já sabia que a procuração usada para violar dados de Verônica era falsa

O comando da Receita Federal suspeitou de fraude na violação do sigilo fiscal da filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, mas mesmo assim montou uma operação para abafar o escândalo e evitar impacto político na campanha de Dilma Rousseff (PT).

Em meio ao discurso oficial de que não havia irregularidade, o governo já sabia que a procuração usada para violar os dados de Verônica Serra poderia ser falsa.

Os novos documentos da investigação, a que o Estado teve acesso ontem, também provam que a Receita sabia desde o dia 20 de agosto que o sigilo fiscal de Verônica havia sido violado em setembro do ano passado.

A prova da suspeita da Receita está em um documento que mostra que, na tarde de terça-feira, a comissão de inquérito decidiu encaminhar o caso ao Ministério Público Federal. Ou seja, antes de a filha de Serra e o cartório afirmarem que o documento era falso, o que desmente o discurso e a entrevista dada ao Estado pelo secretário-geral da Receita, Otacílio Cartaxo.

Num documento obtido pelo Estado, com data de terça-feira, a comissão de investigação levanta suspeitas sobre Antônio Carlos Atella Ferreira, autor da procuração utilizada para retirar os dados fiscais de Verônica Serra em uma agência da Receita em Santo André.

No ofício, Ferreira é tratado como pessoa “supostamente” autorizada a retirar os documentos da filha de Serra. A comissão levantou informações sobre ele e cita que tem quatro CPFs em “diversos municípios”.

Diante da suspeita, a comissão pede que a procuração seja enviada à Procuradoria da República para “confirmação de autenticidade”. O documento da comissão, tratado como “ata de deliberação”, registra o horário das 17h de terça. A Receita descobriu pouco antes, às 13h42, que Ferreira era dono de quatro CPFs.

Na noite daquele mesmo dia, quando o portal estadão.com.br revelou, com exclusividade, o episódio, o Ministério da Fazenda e a Receita procuraram a imprensa, inclusive o Estado, para informar que não havia irregularidade e os dados de Verônica foram consultados mediante requisição autorizada e assinada por ela. O discurso foi compartilhado pelo primeiro escalão do governo durante toda a manhã de ontem, incluindo o ministro Guido Mantega (Fazenda) e o líder no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).

“A Receita vai comprovar que a filha de Serra pediu o acesso aos dados”, anunciou Jucá na Comissão de Constituição e Justiça, falando como porta-voz do Planalto. “A Receita é confiável e toda a curiosidade será explicada”, disse o próprio presidente Lula, com base em informações da Receita que garantiam a autenticidade da procuração. Mantega também chegou à Fazenda dizendo que “tudo seria esclarecido”.

Os documentos obtidos pelo Estado mostram ainda que, além de já suspeitar da violação do sigilo, a Receita descobrira havia pelo menos 10 dias que os dados fiscais da filha de Serra haviam sido invadidos ilegalmente.

Mais exatamente às 17h59 do dia 20 de agosto, quando Eduardo Nogueira Dias, membro da comissão de investigação, consultou o histórico dos acessos aos dados de Verônica. Naquele dia, ele descobriu que as declarações de renda dela foram acessadas às 16h59 de 30 de setembro de 2009 por meio da senha da servidora Lúcia de Fátima Gonçalves Milan, lotada em Santo André.

Ou seja, quando deram uma entrevista coletiva, convocada às pressas na sexta-feira passada, Cartaxo e o corregedor-geral, Antônio Carlos da Costa D” Avila, já tinham conhecimento do acesso aos dados fiscais de Verônica. Na sexta, Cartaxo e D” Avila anunciaram uma versão que até agora não se sustenta nos autos da investigação. Afirmaram que a Receita descobriu a existência de um esquema de venda de dados fiscais mediante “encomenda” e “pagamento de propina”.

Leandro Colon/O Estado de S.Paulo

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A polarização da disputa política nas eleições para presidente do Brasil permite que se vislumbrem dois cenários. Ambos perigosos para a oxigenação, tão essencial, à democracia. Em uma possível vitória de Dilma Rousseff, o PT irá mais e mais estabelecendo uma perigosa hegemonia, estendendo seus (dele) tentáculos com voraz apetite sobre o Estado brasileiro.

Temo, nesse caso, que não haverá mais uma oposição que possas expressar algum vigor. Há exemplo do que aconteceu no governo Lula, essa oposição trafegará entre a ira santa de meia dúzia de indignados e o tráfego de interesses acomodados em um disfarçado governismo aproveitador.

Caso o vencedor seja José Serra, já se sabe que tipo de iracunda, irracional e destrutiva oposição petista o tucano terá que enfrentar.
O Editor


Quando a oposição perde, apita: PRIiiiiii!

O perigo da mexicanização está na transformação do Nosso Guia em “El Jefe Máximo” do Lulato

QUANDO A OPOSIÇÃO brasileira é devastada pelo resultado eleitoral, alguém apita: “PRIiii!”. É um grito de advertência contra o perigo da instalação de um regime de partido único (de fato) no Brasil. Algo parecido com a coligação de políticos, burocratas, sindicalistas e cleptocratas que governou o México de 1926 a 2000, boa parte do tempo sob a sigla do Partido da Revolução Institucionalizada.

O apito de PRI costumava soar depois da eleição. Agora ele veio antes, com um inoportuno componente de derrotismo. Ele soou em 1970, quando a popularidade do general Médici e os camburões da polícia esmagaram o MDB. A oposição ficou com 87 das 310 cadeiras da Câmara, perdendo até o terço necessário para requerer uma CPI. O governo elegeu 42 senadores, perdendo apenas no Rio de Janeiro e na antiga Guanabara. Era o PRI.

Quatro anos depois, o MDB elegeu os senadores em 16 dos 22 estados. Não se falou mais em PRI.

Em 1986, cavalgando o Plano Cruzado, o PMDB de José Sarney elegeu 22 governadores, 36 senadores e a maioria dos deputados. Novamente: PRI! Três anos depois Fernando Collor de Mello elegeu-se presidente da República e, desde então, o apito calou-se, para voltar a ser ouvido agora.

Falar em PRI no Brasil quando o PSDB caminha para completar 20 anos consecutivos de poder em São Paulo é, no mínimo, uma trapaça. Sabendo-se que o PT conformou-se com uma posição subsidiária nas eleições para governadores, o espantalho torna-se risível.

É nessa hora que se deve olhar para o espantalho. Ele não é o que quer o tucanato abichornado, mas o paralelo histórico tem algo a informar. O PRI surgiu depois de uma revolução durante a qual mataram-se três presidentes e desterraram-se outros dois.

Seu criador não foi Emiliano Zapata, muitos menos Pancho Villa (ambos passados nas armas), mas um general amigo dos sindicatos e dos movimentos sociais. Chamava-se Plutarco Elias Calles, assumiu em 1924, saiu em 28 e governou até 1935 por meio de prepostos, fazendo-se chamar de “Jefe Máximo”. Esse período da história mexicana é conhecido como “Maximato”. A boa notícia para quem flerta com um Lulato é que Calles parece-se com Nosso Guia na política voltada para o andar de baixo e até mesmo fisionomicamente, sem barba.

A má notícia vai para a turma do mensalão. Um dia “El Jefe Máximo” teve uma ideia e decidiu entregar o poder ao companheiro de armas Lázaro Cárdenas. Encurtando a história, Cárdenas dobrou à esquerda, exilou meia dúzia de larápios do “Maximato”, inclusive um ex-presidente e, em 1936, despachou o próprio Calles, que ralou cinco anos de exílio.

O que está aí para todo mundo ver é o Lulato, com Nosso Guia pedindo votos para sua candidata e uma grande parte do eleitorado, consciente e satisfeita, dizendo que atenderá com muito gosto ao seu pedido. Um país com a sofisticação econômica do Brasil, com a qualidade da sua burocracia e com o vigor de suas instituições democráticas não cai nas mãos de um PRI qualquer.

Apitando-se, faz-se barulho, e só. O problema da oposição brasileira, com sua vertente demófoba, chama-se Lula, “El Jefe Máximo”, que o embaixador Celso Amorim chamou de Nosso Guia e Dilma Rousseff qualificou como o “grande mestre, ele nos ensinou o caminho”.

Elio Gaspari/O Globo

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Eleições e a cadeirinha para crianças em veículos



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Brasil: da série ” o tamanho do buraco”!
Alguém, mesmo um néscio, esperava que o PT assumisse a culpa do vazamento dos dados da Receita Federal, ou que o PSDB deixasse de acusar o PT pela gritante violação à Constituição Federal? Claro que enquanto perdurar a, digamos, ‘apuração rigorosa dos fatos’, vale o preceito constitucional da presunção da inocência. O fato do sigilo de várias pessoas, não necessariamente ligadas ao PSDB ou mesmo ao mundo político, não é, a priori, um atestado de inocência ao Partido dos Trabalhadores, pegue inúmeras vezes usando de artifícios não muito republicanos, para encurralar adversários. O fato é um só: toda quebra de sigilo, fiscal, bancário, telefônico, sem mandato judicial é crime! O Brasil caminhou a duras penas para construir uma, ainda, frágil democracia. A não punição, na forma mais dura que a lei permitir, produzirá danos irreparáveis no tecido social, tripudiando sobre a cidadania e colocando em risco a essencial segurança jurídica.
O Editor


Usurpação de cidadania

De todos os casos cabulosos ocorridos no governo Luiz Inácio da Silva, o da quebra indiscriminada de sigilo fiscal na delegacia da Receita Federal em Mauá é o mais angustiante.

De Waldomiro Diniz à arquitetura de dossiês na Casa Civil na Presidência da República para atrapalhar o trabalho da CPI dos Cartões Corporativos; das urdiduras da direção do PT envolvendo empréstimos fraudulentos e desvios de recursos em empresas públicas (mensalão), à quebra do sigilo bancário de uma testemunha das andanças do ministro da Fazenda em uma casa de lobby de Brasília, todos tiveram objetivos específicos.

Pretendiam algo: Waldomiro, o homem encarregado pelo então chefe da Casa Civil, José Dirceu, de organizar as relações com o Congresso, cobrava propina de um bicheiro.

O dossiê com os gastos da Presidência quando ocupada por Fernando Henrique Cardoso pretendia (e conseguiu) inibir a atuação dos oposicionistas na comissão parlamentar de inquérito criada para elucidar as razões do aumento nos gastos dos cartões corporativos do governo todo e também para pedir acesso às despesas secretas da Presidência.

Os empréstimos simulados visavam a “lavar” dinheiro que financiava as campanhas eleitorais dos partidos aliados e mantê-los, por esse método, como integrantes da base parlamentar governista.

A quebra do sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa na Caixa Econômica Federal deu-se com a finalidade de tentar desmoralizá-lo como a testemunha que desmentia o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no caso da casa de lobby. Palocci negou no Congresso e em pronunciamento que frequentasse a tal casa e Francenildo, caseiro do local, atestava que o via sempre por lá.

Os personagens eram conhecidos e os episódios por mais nebulosos que fossem eram compreendidos. Dava para entender sobre o que versavam. Era corrupção e/ou política.

Agora, o que assusta é inexistência de uma motivação específica claramente definida, a amplitude das ações, a multiplicidade de alvos e a tentativa do governo de abafar o caso dando a ele uma conotação de futrica eleitoral.

Evidente que Dilma Rousseff sabe do que se trata quando ouve dizer que 140 pessoas tiveram o sigilo fiscal violado numa delegacia da Receita em cidade das cercanias de São Paulo.

Sabe que estamos diante de algo que pode ser qualquer coisa, menos o que alega: mero factoide, “prova do desespero” da oposição.

Como “mãe do povo”, coordenadora do governo e responsável por tudo de maravilhoso que há no Brasil, Dilma deveria ser a primeira – depois do presidente Lula – a se preocupar com o fato de 140 cidadãos terem tido sua segurança institucional violada numa dependência do Estado.

No lugar disso, só faz repetir o mantra da candidata ofendida. Pode ser conveniente, mas não é um acinte?

Assim como soa a provocação ao discernimento alheio a proteção da Receita Federal aos investigados e a tentativa de “vender” a versão fantasiosa sobre a venda de sigilo no mercado negro de informações.

A atitude do governo alimenta a suspeita de dolo. Natural seria que as autoridades se levantassem em defesa da preservação dos direitos e garantias individuais.

Nesta altura, embora seja relevante, não é realmente o mais importante a filiação partidária dos agredidos.

Eduardo Jorge, Ana Maria Braga, Ricardo Sérgio, a família dona das Casas Bahia, tanto faz.

Foram eles, mas poderia ser qualquer um de nós. Quem, aliás, garante que não seremos os próximos a constar de um rol de pessoas vilipendiadas nas mãos de um Estado leviano?

A questão vai muito além do ato eleitoral, é um caso grave de insegurança institucional, pois não se sabe de onde vem isso, aonde vai parar, quem são os responsáveis, como agem e o que pretendem com essa manipulação que cassa a cidadania e espalha insegurança.

Dora Kramer/O Estado de S. Paulo

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Ouvir os especialistas desses institutos de pesquisas é um exercício que trafega entre o cômico, o cínico e o trágico. Se o “achismo” é o esporte preferido dos “zilhões” de analistas, sociólogos, cientistas políticos e economistas, que pululam nos programas televisivos, quando oriundo dos chefões das pesquisas é puro oportunismo. Uma hora, os tucanos, quando tinham 15% de vantagem, validavam as pesquisas. Agora, as desqualificam. A turma da dona Dilma, à moda FHC, está sentando na cadeira presidencial antes da hora. O senhor do Ibope, que já errou antes, agora parece querer “tirar o braço da seringa” e ficar bem na foto. Mais uma vez os ingênuos e incautos Tupiniquins estão cara a cara com um estelionato estatístico.
O Editor
PS. E lembrar que esse senhor Montenegro – que a sua visão não se perca pelo sufixo – dizia em alto e bom som que Lula não transferia votos…


‘O Brasil já tem um presidente’, diz Montenegro, do Ibope

Presidente do Ibope admite que errou ao prever que Lula não faria o sucessor e diz que Dilma Rousseff será eleita no primeiro turno

Há exatamente um ano, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, declarou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não faria o sucessor, apesar da alta popularidade. Na ocasião, o responsável por um dos mais tradicionais institutos de pesquisas do País assegurava que o presidente não conseguiria transferir seu prestígio pessoal para um “poste”, como tratava a ex-ministra Dilma Rousseff.

Agora, a um mês das eleições e respaldado por números apresentados em pesquisas diárias, Montenegro faz um mea-culpa. “Errei e peço desculpas. Na vida, às vezes, você se engana”, afirmou. “O Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff.”

Segundo Montenegro, a ex-ministra da Casa Civil vem se conduzindo de forma convincente e confirma, na prática, o que o presidente disse sobre ela na histórica entrevista concedida à ISTOÉ na primeira semana de agosto: “Lula acertou. Dilma é um animal político. Está mostrando muito mais capacidade do que os adversários.”

O sr. disse que o presidente Lula não conseguiria transferir seu prestígio para a ex-ministra Dilma Rousseff, mas as pesquisas mostram o contrário. O sr. ain da sustenta que o presidente não fará o sucessor?

Eu nunca vi, em quase 40 anos de Ibope, uma mudança na curva, como aconteceu nesta eleição, reverter de novo. Por mais que ainda faltem 30 e poucos dias para a eleição, o Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff. Ela tem 80% de chances de resolver a eleição no primeiro turno. Mas, se não for eleita agora, será no segundo turno.

A que o sr. atribui essa virada?

Houve uma série de fatores. Primeiro a transferência do Lula, que realmente vai sair como o melhor presidente do Brasil. Um pouco acima até do patamar de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek. O segundo ponto é o preparo da candidata Dilma. Ela tem mostrado capacidade de gestão, equilíbrio, tranquilidade e firmeza. A terceira razão é seu bom desempenho na televisão, inclusive nos debates e entrevistas. Lula acertou ao dizer, em entrevista à ISTOÉ, que ela era um animal político. Está mostrando muito mais capacidade que os adversários e mostra que tem preparo para ser presidente.

Mas há um ano o sr. declarou que Lula dificilmente faria o sucessor.

Errei. Eu dizia de uma forma clara que, apesar de o Lula estar bem, ele não elegeria um poste. Foi uma declaração extemporânea, descuidada e muito mais fundamentada num pensamento político do que com base em pesquisas. Foi um pensamento meu. Acho que eu tinha o direito de pensar daquela forma, mas não tinha o direito de tornar público. Peço desculpas. Na vida, às vezes, você se engana.

O que mais o surpreendeu desde o momento do lançamento das candidaturas?

A oposição errou e essa é a quarta razão para o sucesso de Dilma. A campanha do Serra está velha e antiga. Não tem novidade. O PSDB repete 2002 e 2006. Está transmitindo para o eleitor uma coisa envelhecida. Vejo um despreparo total. O PSDB está perdido, da mesma forma que o Lula ficou nas eleições de 1994 e 1998 contra o Plano Real. Na ocasião, ele não sabia se criticava ou se apoiava e perdeu duas eleições.

O bom momento da economia, a geração de empregos e o consumo em alta não fazem do governo Lula um cabo eleitoral imbatível?

Essa, para mim, é a razão principal. O Brasil nunca viveu um momento tão bom. E as pessoas estão com medo de perder esse momento. O Plano Real acabou derrotando o Lula duas vezes. Mas o Lula, com o governo dele, sem querer ou por querer, acabou criando um plano que eu chamo de imperial. É o império do bem, em que cerca de 80% a 90% das pessoas pelo menos subiram um degrau. Quem não comia passou a comer uma refeição por dia, quem comia uma refeição passou a fazer duas, quem nunca teve crédito passou a ter crédito, quem andava a pé passou a andar de bicicleta ou moto, quem tinha carro comprou um mais novo e quem nunca viajou de avião passou a viajar. Os industriais também estão felizes, vendendo o que nunca venderam. Os banqueiros idem.

Mas esse fator não pesou logo de início, quando os candidatos lançaram os seus nomes e Serra permaneceu vários meses na frente.

No início, houve transferência do Lula. Mas, de uns três meses para cá, o Lula está associando o êxito dele ao êxito do governo como um todo. E está mostrando que Dilma é a gestora desse governo. O braço direito dele. E as pessoas estão confiantes nisso e não estão querendo perder o que ganharam.

É possível dizer então que o programa de tevê do PT é mais eficiente do que o da oposição?

A tevê ajudou na consolidação. Mas a virada de Dilma Rousseff na corrida para presidente da República se deu antes da tevê. Pelo menos antes do horário eleitoral gratuito.

Isso derruba o mito de que o programa eleitoral é capaz de virar a eleição?

Quando a eleição é disputada por candidatos pouco conhecidos, ele pode ser decisivo, sim. Por exemplo, a televisão está ajudando a eleição de Minas Gerais a se tornar mais dura. O Aécio está entrando agora, o Anastasia é o governador e eles estão mostrando as realizações do governo. Por isso, o Anastasia está crescendo. O Hélio Costa largou na frente porque já era uma pessoa muito mais conhecida do que o Anastasia. Mas, quando você pega uma eleição em que todos os candidatos são bem conhecidos, o uso da tevê é muito mais de manutenção e preenchimento do que para proporcionar uma virada.

E os debates? Eles podem mudar a eleição?

Só se houvesse um desastre. Cada eleitor acha que o seu candidato teve desempenho melhor. Vai ouvir o que está querendo ouvir. Já conhece as propostas anunciadas durante a propaganda eleitoral. Falando especificamente dessa eleição presidencial, repito que a população está de bem com a vida. Quer continuar esse bom momento. O Brasil quer Dilma presidente.

A candidatura de Marina Silva não tem força para levar a eleição até o segundo turno?

Cada vez mais a vitória de Dilma no primeiro turno fica cristalizada. Temos pesquisas diárias que mostram que essa eleição presidencial acabou. Agora, mais uma vez, o Brasil está dando um show de democracia. É bom dizer que os três principais candidatos são excelentes. Todos têm passado político, currículo e história. A história da Marina Silva, por exemplo, é maravilhosa. A luta dela pelo meio ambiente é muito importante. Mas a Marina até outro dia estava com Lula e as pessoas a relacionam com o presidente. Você pega a luta do Serra e ela também é fantástica. E o Serra, até outro dia, também estava no palanque do Lula, na luta contra a ditadura.

O fato de Dilma nunca ter disputado uma eleição não deveria pesar a favor de José Serra?

No Chile, Michele Bachelet tinha 80% de aprovação, mas não conseguiu fazer o sucessor. Por quê? Porque ele tinha passado. Já tinha concorrido. Quando você concorre, você pega experiência por um lado, mas a pessoa deixa de ser virgem, politicamente falando. Sempre há brigas que você tem que comprar e vem a rejeição. No caso da Dilma, o fato de ela nunca ter concorrido, ter sido sempre uma gestora, uma técnica, precisando só exercitar o seu lado político, ajudou muito.

Em que medida o fato de Dilma ser mulher a ajudou nessas eleições?

Acho que não ajudou muito. Mas é algo diferente. O Brasil já tem implementado coisas novas na política, como foi a eleição de um sindicalista. É um fato interessante, mas a competência do Lula e da Dilma ajudaram muito mais.

O atabalhoado processo de escolha do vice na chapa do PSDB prejudicou a candidatura de José Serra?

Não. Nunca vi vice ganhar eleição. Nem perder.

O sr. acredita que Lula possa puxar votos para candidatos do PT nos Estados, como em São Paulo, por exemplo?

Acho muito difícil. O Lula tinha toda essa popularidade em 2008, apoiou a Marta e ela perdeu do Gilberto Kassab, que estava fazendo uma boa administração.

Dilma eleita, qual a saída para a oposição?

Está provado que o modelo da oposição não deu certo. Talvez ganhe em alguns Estados importantes, como São Paulo, Minas, Paraná e Goiás. Sempre terá um papel importante. Mas essa eleição mostra que está na hora de uma reforma política. É preciso diminuir o número de partidos. Os programas partidários também precisam ser mais respeitados. Os partidos são os pilares da democracia.

Octávio Costa e Sérgio Pardellas/ISTOÉ

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Eleições, pesquisas e vida de coiote




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O tucano parece não saber mais em quem atirar. Aliás, em quem atirar ele até sabe, a Dilma, o que falta é a definição do tipo de munição.
O Editor

Serra diz que Dilma ‘senta na cadeira’ antes da hora

Um dia depois de Dilma Rousseff ter dito que estenderá a mão a seus opositores se for eleita, José Serra tratou de levar o pé atrás.

O presidenciável tucano enxergou a mão estendida da rival petista como um gesto desrespeitoso.

“Eu acho que essa declaração tem uma certa falta de respeito para com as pessoas. É alguém sentando na cadeira a mais de um mês da eleição”, disse Serra.

“Me pareceu uma atitude pouco respeitosa com os eleitores”, ele acrescentou.

Dilma fizera a declaração no mesmo dia em que viera à luz o último Ibope, que lhe atribui 24 pontos de vantagem: 51% a 27%. Um cenário de vitória eno primeiro turno.

O comentário de Serra soou na Associação dos Nordestinos do Estado de São Paulo, que ele visitou na companhia da mulher, Mônica.

O candidato dirigiu à colônia nordestina um pedido de voto extensivo aos familiares que deixaram em seus Estados de origem:

“Eu queria pedir para vocês, que me conhecem mais de perto, que escrevam pras suas famílias no Nordeste”.

Em Brasília, Dilma se ocupava de desfazer um burburinho típico de quem flerta com a cadeira que Serra ainda crê desocupada.

A pupila de Lula voltou a negar que os cargos de sua eventual gestão já estejam sendo partilhados. Tachou a discussão de “factóide”.

“Eu desautorizo todas as especulações sobre quem quer que seja, ocupar qualquer que seja o cargo”.

Tratar disso agora, disse a candidata, equivaleria a “colocar o carro na frente dos bois”.

blog Josias de Souza

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Os cabeças da oposição em Pernambuco espantaram-se com a acidez das críticas que Lula lhes dirigiu em comício realizado na noite de sexta (27).

Chamado de “aquele menorzinho”, Raul Jugmann (PPS) disse que Lula porta-se “como donatário. Vê Pernambuco como sua capitania hereditária”.

Acha que Lula não se deu conta da “gravidade de seus atos”. Lembra que as pesquisas atribuem ao presidente “90% de popularidade no Estado”.

“Ao personalizar a crítica, ele submete os oposicitores ao risco de eliminação física”, disse Jungmann ao blog. Esmiuçou o raciocínio:

“Lula quer a morte civil e política da oposição. E açula seus seguidores. Um maluco pode entender que deve eliminar no sentido físico”.

Irônico, Jungmann disse que cogita pedir “garantias de vida à Polícia Federal”. Insinuou que Lula mimetiza o estilo autocrático do venezuelano Hugo Chávez:

“Vou me declarar o primeiro perseguido político da era do chavismo lulista”, disse o deputado ao repórter.

Jungmann integra a chapa pernambucana de Jarbas Vasconcelos (PMDB). Ao lado de Marco Maciel (DEM), disputa uma cadeira no Senado.

No comício de sexta, acompanhado de Dilma Rousseff e aliados locais, Lula vergastou também Maciel. Disse ele é “senador desde o tempo do Império”.

Afirmou que, a despeito de ter sido vice-presidente de FHC, Maciel não fez nada por Pernambuco.

Embora avesso a contendas, Maciel viu-se compelido a responder. Evocando Joaquim Nabuco, o senador ‘demo’ disse que faz “política com ‘P’ grande”.

Afirmou que se guia por princípios “doutrinários”. Trazia nas mão uma lista de obras que ajudou a plantar no Estado. Enumerou-as.

Jarbas Vasconcelos, candidato a governador, também comentou os ataques de Lula. Chamou-o de “semideus”.

Acha que Lula quer “esmagar” a oposição. “Ele continua como uma figura extravagante, ferindo a lei”, declarou Jarbas.

“Ele se considera acima de tudo, da Constituição, da Justiça, do Tribunal de Contas, do Congresso. É um semideus. Então, acha que pode tudo”.

Na opinião de Jungmann, Lula deveria dispensar um mínimo de “respeito e civilidade à oposição”.

Afirma que “a discriminação é apenas o primeiro passo”. “Depois, virá perseguição política”.

Acomoda a disputa entre o tucano José Serra e a petista Dilma Rousseff em segundo plano.

“O país não vai optar apenas por um presidente. Vai decidir se haverá direitos e garantias para todos ou só para alguns, os amigos do rei e da rainha”.

blog Josias de Souza

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O tucano, em almoço com militares, sutil como um elefante em uma loja de louças, fez ‘veladas’ referências à possibilidade de um golpe, retomando a cantilena da ameaça de uma ‘república Sindicalistas’. O resto são sinônimos. Entrou no grupo dos que o Marechal Castelo Branco apelidou de “vivandeiras de porta de quartéis”!
Confira:
“— Em 64, uma grande motivação para a derrubada do Jango foi a república sindicalista. Lembra disso? Não tinha nada disso, isso não tinha a menor possibilidade.
Eles fizeram agora a verdadeira república sindicalista”.

A lenga lenga de Serra foi reproduzida pelo jornal O Globo na sua edição de sábado. Serra parece não acreditar na força da democracia, na soberania da vontade do povo expressa no voto, na convivência dos contrários nem no funcionamento das instituições.
O Editor

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Fica cada vez mais difícil garantir que Lula não elegeria um poste. A inacreditável popularidade do chefe dos Tupiniquins está sendo transferida para sua candidata ” in pectore”.Será o fim do mantra “voto não se transfere?
O Editor


José Roberto de Toledo/O Estado de S.Paulo

Por que 51% dos eleitores declara voto em Dilma Rousseff (PT)? Principalmente porque, entre todos os candidatos a presidente, ela é vista como “a que tem mais condições de dar continuidade ao governo Lula”. Mas não só por isso.

Segundo a maioria absoluta do eleitorado, Dilma é a melhor presidenciável para manter o poder de compra da população, assegurar o prestígio do Brasil no exterior e cuidar dos mais pobres.

O Ibope testou oito temas junto aos eleitores. Em apenas um deles, “melhorar a qualidade da saúde e dos hospitais do País”, José Serra (PSDB) se equiparou à petista como o mais apto a realizar a tarefa. Nos outros sete, a petista foi apontada por mais eleitores como a mais indicada.

Fator Lula.
A pesquisa também deixa claro que não é pelos atributos pessoais que Dilma seduz tantos eleitores. Dois em cada três votos vêm explicitamente da transferência de prestígio do presidente.

Nada menos do que 54% dos eleitores de Dilma citam como principal razão desse seu voto a continuidade do governo Lula, e outros 12% falam que votam nela porque é a candidata de Lula.

Apenas 8% creditam seu voto ao fato de ela ter “mais capacidade para governar o País”. Outros 5%, por sua história de vida, e 4% por ela ser mulher.

Entre os eleitores de Serra, o motivo mais citado para votar nele (34%) é porque ele tem mais condições de avançar na saúde, segurança e educação. Outros 27% citam sua capacidade para governar o País.

Assim como mais eleitores votam na petista, é esperado que, aos olhos do eleitorado, Dilma supere os adversários também na capacidade de realizar as tarefas listadas. Mas em três dos temas ela se destaca mais do que em outros, pois atinge maioria absoluta.

Para 54% do total do eleitorado e 89% dos seus eleitores, Dilma é a melhor para “manter a nossa economia forte e o crescimento do poder de compra da população”. Só 26% apontam Serra, e 4%, Marina Silva (PV).

Surpreendentemente, 53% dos eleitores (e 89% dos dela) dizem que Dilma é a melhor para “manter o prestígio do Brasil no exterior”.

Finalmente, 52% do eleitorado (e 87% dos que votam nela) aponta Dilma como a mais indicada para “dar atenção à população mais pobre”.

Como era de se esperar, o tema no qual Marina se sai melhor é “melhorar a preservação do meio ambiente”, com 19% das citações dos eleitores, contra 22% de Serra e 40% de Dilma.


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Apesar da origem humilde — trabalhou como feirante ajudando o pai no mercado de S. Paulo — José Serra sempre teve sua (dele) imagem associada à elite mais soberba do paulistério desvairado. Agora a propaganda tenta convencer que Zé — sim, os marqueteiros tentam empurrar de goela abaixo do eleitor que Serra é um simplório Zé —, é o cara.
O Editor


Serra se distancia dos mais pobres – mostra pesquisa da Sensus

Se ainda não é possível dizer que José Serra se firmou como o candidato dos ricos, o mesmo não ocorre com Dilma em relação à população de baixa renda. Pesquisa CNT / Sensus divulgada nesta terça-feira (24) mostra que a petista tem 53,2% da preferência dos eleitores com renda familiar mensal de até um salário mínimo, atualmente em R$ 510.

Nesta faixa, Serra fica com 20,7%, mas cresce nas intenções de voto à medida que a renda dos entrevistados aumenta, movimento contrário do de Dilma, que encolhe entre os mais ricos até empatar com o tucano em 36,8% da preferência daqueles que ganham mais de 20 salários mínimos.

Serra, no entanto, não ultrapassa a candidata do PT em nenhuma faixa de renda.

A campanha do PSDB tenta correr atrás do prejuízo. Depois de prometer dobrar o Bolsa-família e ser apelidado de “Zé” no programa eleitoral, Serra agora anunciou a criação de um programa habitacional voltado para famílias com renda de até 3 salários mínimos. Nesta fatia do eleitorado, o candidato oscila entre 20,7% (até 1 salário) e 28,2% (de 1 a 5 salários), segundo pesquisa.

O tucano luta contra o possível estigma de candidato dos ricos. Em sabatinas, debates e outras aparições públicas ressalta a origem humilde, de filho de dona de casa e de um comerciante de frutas, e cunhou uma frase repetida com frequência desde o lançamento de sua candidatura: a de que seu pai carregou caixas de frutas, para que ele pudesse carregar caixas de livros.

Vitória em primeiro turno – A pesquisa CNT/Sensus mostrou que Dilma venceria em primeiro turno a disputa pela presidência com 46% das intenções de voto, enquanto Serra apresenta 28,1% e Marina Silva tem 8,1%. A candidata do PT tem 55,3% dos votos válidos (excluídos brancos e nulos) e o tucano, 33,7%.

Priscilla Mendes/blog Christina Lemos

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Serra, Dilma e pesquisas


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