A Terceira via
Adélia Prado ¹

Meu espírito – que é o alento de Deus em mim – te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.

Quero você na minha frente, extático
- Francisco e o Serafim, abrasados -,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando…

¹ Adélia Luzia Prado Freitas
* Divinópolis, MG. – 13 de Dezembro de 1935 d.C
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A Serenata
Adélia Prado ¹

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natal como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

¹ Adélia Luzia Prado Freitas
* Divinópolis, MG. – 13 de Dezembro de 1935 d.C
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Dá-me a tua mão
Clarice Lispector ¹

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,

existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,

e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

¹ Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C
>>>biografia

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Poema
Emily Dickison ¹

Para o Ódio nunca tive –
Tempo –
pois que a Morte espreita –
E a vida nunca foi
tanta
Que uma Aversão se acabasse.

Nem tempo tive de Amar –
Ocupar-me
Era preciso –
Do amor o simples Trabalho –
Como achei –
Que Me bastava.

¹ Emily Dickinson
* Boston, Usa – 10 de Dezembro de 1830 d.C
+ Boston, Usa – 15 de Maio de 1886 d.C

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Nota do Editor
O poema acima foi extraído do livro “Emily Dickinson: Alguns Poemas”.

Tendo vivido e produzido à margem dos círculos literários de seu tempo, solteira por convicção e auto-exilada dentro de casa por mais de vinte anos, Emily Dickinson não chegou a publicar os seus versos, por não se submeter aos rígidos padrões de discrição e singeleza que se esperava então de uma mulher.

Sua voz era uma voz estranha em meio às tímidas dicções poéticas da época, e por essa razão ela teve de encarar em vida a rejeição de seu labor poético. Ao arrumar o quarto de Emily depois que ela morreu, a sua irmã Lavinia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem.

Eram cadernos e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas inéditos. Disposta a divulgar a obra da irmã, Lavinia entrou em contato com um medíocre crítico literário, Thomas Higginson, que durante trinta anos renegou todos os versos que Emily lhe submetera, e uma obscura escritora, Mabel Todd, que por cinco anos havia freqüentado a casa da poeta sem nunca chegar sequer a vê-la.

Dessa improvável união de forças surgiu a publicação póstuma de alguns de seus poemas, seguida em pouco tempo de diversas outras edições, em vista da excepcional acolhida que tiveram.

Em 1955, o crítico e biógrafo Thomas H. Johnson reuniu numa edição definitiva todos os seus 1.775 poemas.

Sua escrita poética, ambígua, irônica, fragmentada, aberta a várias possibilidades de interpretação, antecipa, sob muitos aspectos, os movimentos modernistas que se sucederiam depois de sua morte. Essa instigante poesia, nascida na solidão e no anonimato dá hoje a Emily Dickinson um merecido e lugar na literatura universal.

Seus versos constam da coletânea “The Complete Poems of Emily Dickinson”, editada por Thomas H. Johnson, Cambridge, Mass (EUA), 1955.

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“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.”
Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C

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Os silêncios da fala
Maria Teresa Horta ¹

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

¹ Maria Teresa Mascarenhas Horta
* Lisboa, Portugal – 20 de Maio de 1937 d.C

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Ser mulher
Dorothy Parker ¹

Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?

E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?

Tradução de Ângela Carneiro

¹ Dorothy Rothschild
Dorothy Parker, Dot Parker ou Dottie Parkercmo, pseudônimo de Dorothy Rothschild
* New Jersey, EUA. – 22 de agosto de 1893 d.C
+ New York, EUA. – 7 de julho de 1967 d.C

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Musa Impassível I
Francisca Júlia da Silva ¹

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

do livro Mármores – 1895

¹ Francisca Júlia da Silva Munster
* Vila de Xiririca, São Paulo – 1871 d.C
+ Vila de Xiririca, São Paulo – 1920 d.C

Nasceu na antiga Vila de Xiririca, hoje Eldorado, no vale do Ribeira, São Paulo. Poeta do Impassível, valendo-se de uma linguagem e de figuras mitológicas e históricas próprias de um gosto parnasiano, encantou os seus contemporâneos. Seus últimos poemas já denotam algumas tendências ao simbolismo. Sobre seu túmulo está a estátua da “Musa Impassível”, de Victor Brecheret, em homenagem a um de seus poemas mais famosos.

Obra poética:
Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903), Alma Infantil (com Júlio César da Silva, 1912), Esfinges – 2º ed. (ampliada, 1921),
Poesias (organizadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1962).

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Dentre todas as Almas já criadas
Emily Dickinson ¹

Dentre todas as Almas já criadas -
Uma – foi minha escolha -
Quando Alma e Essência – se esvaírem -
E a Mentira – se for -

Quando o que é – e o que já foi – ao lado -
Intrínsecos – ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia – escoar -

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina – fundir-se -
Eis – entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!

Extraído do livro “Emily Dickinson: Alguns Poemas”.

¹ Emily Dickinson
* Boston, Usa – 10 de Dezembro de 1830 d.C
+ Boston, Usa – 15 de Maio de 1886 d.C

>> biografia de Emily Dickinson

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Poema
Lília Chaves ¹

O meu poema é feito
para ser imagem
(sem ser visto)
e falar pelo silêncio
de um suspiro refletido.
É lido para ser pensado
e viver no pensamento adormecido
como um vôo de pássaro que passou.

É essa passagem absoluta que ficou.

O meu poema
é um jeito de fechar os olhos

¹ Lilia Silvestre Chaves
Poeta, professora de Literatura Francesa.
Autora de ensaios sobre teoria literária e do livro de poemas “E todas as orquestras acenderam a lua”.

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É tarde
Adelina Lopes Vieira ¹

Na sombra, assim, esconde-te alma triste,
não procures o sol que esplende, fora,
Oh! Não te aquecerá, da tua aurora,
do teu dia de luz, já nada existe.

Se a um raio ousado e quente o selo abriste,
se a tua noite te horrorisa agora,
pensa que é tarde, e soluçando chora
que as lágrimas são balsamo. Resiste!

Lembram-te sei, alfombras orvalhadas
todas cheias de luz e de violetas,
as pombas pelo azul em revoadas,

as ondas do mar alto, irrequietas,
as montanhas ao longe, illuminadas…
Morre! Mas cala as maguas indiscretas.

¹ Adelina Amélia Lopes Vieira
* Lisboa, Portugal – 1850 d.C
+ Lisboa, Portugal – ? d.C

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Condição humana
Helena Ortiz ¹

visto preto e meu marido
é vivo

sou seu lençol
mãe de seu filho ausente

lavo seus colarinhos
não dormimos juntos

juntos
só colocamos
sal nas feridas

¹ Helena Ortiz
* Porto Alegre, RS.

Helena Ortiz é brasileira, natural do Rio Grande dos Sul, radicada no Rio de Janeiro, onde edita o jornal de literatura panorama da palavra, atualmente em sua 66ª edição e é responsável pela Editora da Palavra.

Publicou os livros de poesia Pedaço de mim (Porto Alegre: T&T Editores, 1995), Margaridas (Rio de Janeiro: Ed. Blocos, 1997) Azul e sem sapatos (Rio de Janeiro: Ed. Blocos, 1997), Em par (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2001) e Sol sobre o dilúvio (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2005).

Em prosa, publicou Contos de Oficina 5 (Porto Alegre: Ed. AGE, 1994) e Mais ao sul do que eu pensava (Ed AGE, Porto Alegre, 1995).

Tem poemas publicados nas revistas Continente Sul/Sur, do Instituto Estadual do Livro (Porto Alegre, RS); Cuadernos Montecariocas (Rio de Janeiro/Montevideo/Barcelona; Bolsa de Arte do Rio de Janeiro; cartões Telemar; Antologia dos poetas contemporâneos do Rio Grande do Sul; Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional; revista da Academia Brasileira de Letras; revista virtual Malabia, na revista Iararana, da Bahia e no livro Além do cânone, organizado pela professora Helena Parente Cunha.

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