A blogosfera e os jornais
Por Renato Mendes

Se há poucos anos ainda existiam dúvidas sobre a influência da blogosfera no jornalismo, nos dias atuais, além das dúvidas terem desaparecido, a simbiose que emerge da relação entre os blogues e os jornais é objeto de análise de diversos estudos. Com o surgimento do primeiro blogue nos EUA, em 1993 – quando a internet era ainda incipiente –, abriu-se uma janela sem precedentes para o início de um modelo coletivo de colaboração, baseado no feedback e na partilha de informações e notícias que revolucionaria o universo comunicacional.

Um ano após Justin Hall escrever em HTML (Hypertext Markup Language) o conteúdo do primeiro blogue, muito antes de surgirem as empresas especializadas em desenvolvimento de softwares para a criação de blogues, o então estudante do Swarthmore College recebe o primeiro visitante em sua página na internet. Tal fato é tão importante quanto a própria criação do blogue, pois algo inédito acontecia: a troca de informações entre duas pessoas pela internet a partir de um conteúdo gerado e publicado no mundo virtual.

A partilha na internet só foi possível graças à criação da tecnologia do hipertexto, por Tim Berners Lee, que mais tarde se transformou na WWW (World Wide Web). Através de um programa, ou o primeiro browser, Lee proporcionou aos não especialistas a possibilidade de publicar documentos como páginas da internet, dando início a um processo irreversível: emergia um novo modelo de interação entre pessoas e informações.

Conteúdo e comportamento dos blogs

O conceito Web 2.0, criado em 2004 por Tim O’Reilly, traduz-se no paradigma da internet como plataforma central de uma inteligência coletiva. O conceito é sustentado pelo desenvolvimento de aplicativos, que aproveitam os “efeitos de rede” para evoluírem. Esta evolução é proporcional à participação das pessoas nas redes. Como exemplo, temos os softwares open source, ou código aberto. Neste caso, a “inteligência coletiva” pode ser interpretada como meio, mas também como um fim, para a construção de uma plataforma do saber.

Sobre o conceito Web 2.0, alguns dizem que é uma buzzword, puro marketing. De qualquer maneira, diversas multinacionais que baseiam seus negócios na internet adotaram e amplificaram o conceito de Web 2.0, apoiadas pelos lucros alcançados através da experiência coletiva. Esta noção pode ser interpretada como uma tendência, ou então como uma nova versão da mesma ideologia do criador da WWW, que tem a internet como plataforma de partilha do conhecimento.

É necessário dizer que os blogues sejam talvez o elemento central desta plataforma para a inteligência coletiva, de partilha do conhecimento. O sítio Technorati, em sua série de relatórios – como, por exemplo, “O estado da Blogosfera em 2009″ – desenvolve desde 2004 estudos sobre os blogues, utilizando gráficos para perceber tendências na produção de conteúdo e comportamento dos bloggers – sob vários aspectos, além de entrevistar os maiores especialistas nesta área. Ciência está sendo produzida a partir do conteúdo que emana dos blogues.

Um novo gênero de jornalismo

A importância dos blogues na produção e transformação do conhecimento é inquestionável nos dias atuais e desperta cada vez mais interesse nas empresas de mídia, à medida que interfere na produção das notícias dos jornais. No blogue “Monday Note” escrito por Frédéric Filloux, editor internacional de um grupo de mídia norueguês, uma questão polêmica emerge na forma de uma pergunta em um dos posts: “Blogging, a new journalistic genre?” A reposta chega nas primeiras linhas, “um dos mais interessantes desenvolvimentos da internet (em 2009) será a evolução contínua dos blogues” e segue com a argumentação de que os blogues transformaram-se em um novo gênero jornalístico, “o qual poderá tornar-se o principal motor dos sítios de notícias”.

Segundo Filloux, muitos dos jornalistas que mantêm blogues referenciados – muitos endossados pela grande imprensa – fazem dos posts matérias jornalísticas mais interessantes, se comparadas aos seus trabalhos principais, nas redações dos jornais. De maneira a afirmar a importância dos bloggers no processo de construção da notícia, e ao mesmo tempo colocar este novo gênero de jornalismo em um patamar mais elevado, Filloux menciona os nomes de Floyd Norris, chefe do serviço financeiro do jornal The New York Times, e Paul Krugman, Prêmio Nobel de economia, como bloggers conhecidos e profissionais. O autor avança com a idéia de que os blogues devem ser elementos essenciais na estratégia editorial dos mídia.

A reflexão sobre do processo de apropriação das informações, que emerge da blogosfera, pelas redações dos jornais, torna-se mais rica sob a ótica do conceito de “mediamorfose”, de Roger Fidler: as novas formas de comunicar, ou os novos mídia, não surgem de maneira espontânea, mas sim através da transformação dos mídia que já existem. Este quadro de transformação não condena ao desaparecimento as velhas formas de comunicar, mas imprimem uma necessidade de adaptação. Em última análise é isso que Filloux defende em seu post sobre o surgimento de um novo gênero de jornalismo, muito apoiado pelo que acontece com os jornais norte-americanos.

Hiperligações e intertextualidade

No artigo de Carlos Castilho “Protagonismo dos blogs muda contexto da campanha eleitoral na mídia”, publicado no sítio Observatório da Imprensa, o autor chama a atenção para a internet como um novo ambiente político, “onde os participantes são ao mesmo tempo atores e público”. Castilho destaca um ambiente de polarização de opiniões políticas à medida que a data das eleições presidenciais no Brasil se aproximam. Os segmentos conservadores ocuparam o espaço mediático convencional, enquanto a internet será apropriada por setores mais liberais da política. O autor do artigo salienta o papel de protagonista que o blogger adquire quando expõe suas cores políticas na internet.

No sentido de reforçar o movimento espontâneo de apropriação de uma tecnologia emergente, os blogues, que beneficiou o universo informativo, temos um evento midiático de escala global que chocou a todos. O 11 de setembro marcou um momento de virada, de acordo com Dan Gillmor, quando a reportagem e a produção de notícias em escala massiva passou a ser feito pela audiência. O jornalismo-cidadão, ou participativo, ganhou grande expressão nas televisões e jornais de todo mundo, quando relatos pela internet, através de blogues, preenchiam o conteúdo informativo da grande mídia.

O que dizer, então, sobre os blogues, quanto se tem em conta a produção de notícias de forma amadora e despretensiosa? A popularização dos softwares para a criação dos blogues faz com que em menos de cinco minutos uma pessoa possa publicar qualquer conteúdo na internet. O emprego de técnicas jornalísticas para a criação de uma notícia é fator determinante para classificar se os conteúdos publicados nos blogues são ou não são conteúdos jornalísticos. De outra forma: o que determina ou descreve de melhor forma o jornalismo, não é o meio de dispersão da informação, mas sim, as técnicas empregues para a criação da notícia.

O que se observa em grande escala na blogosfera são blogues que apontam para outros blogues, jornais e conteúdo diverso e disperso pela rede. O uso exacerbado das hiperligações e da intertextualidade – um dos tipos de transtextualidade, que se observa nos blogues faz com que a reprodução de informações e notícias seja o principal efeito desta vaga de massificação do acesso aos blogues. O ineditismo e a relevância da informação – dois elementos que norteiam a produção da notícia, neste quadro de massificação, são marcas escassas da informação na blogosfera.

Imaginar transformações começa a ser possível

A inexorável interferência do conteúdo dos blogues no campo mediático está transformando as técnicas jornalísticas. Autores apontam o conteúdo informativo gerado a partir de blogues como um novo gênero jornalístico. A apropriação dos blogues pela grande mídia é de tal forma avançada que existem jornalistas dedicados à produção de conteúdo on-line, é comum os posts tornarem-se excertos de trabalhos jornalísticos convencionais ou até mesmo serem utilizados integralmente em trabalhos jornalísticos convencionais. Uma nova classe de jornalistas está em nascimento, aqueles que perderam suas posições nas redações – ou mesmo aqueles que nunca tiveram a experiência de uma redação e encontram na publicação on-line, através de blogs, o seu sustento.

Casos de repórteres terem conseguido financiamento de viagens profissionais para a cobertura jornalística começam a surgir. Surgem também notícias dos que conseguem pagar suas contas e seguir na carreira de jornalista graças às contribuições financeiras realizadas por suas audiências, em troca de conteúdo jornalístico on-line. Imaginar as transformações que os blogues imprimirão nas empresas de mídia começa a ser possível agora. O ganho de consciência por parte das sociedades sobre o poder da informação que circula na blogosfera determinará em grande parte a forma pela qual a revolução que está em curso transformará o campo jornalístico.

Fonte: Observatório da Imprensa

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Para presidente da CNN, redes sociais são o novo desafio dos canais de notícias

Facebook e Twitter ‘ameaçam’ afastar público da TV, diz Jon Klein.

Além de expansão na web, canal aponta para serviços via celular.

O presidente da CNN, Jon Klein, procura meios para enfrentar a ‘ameaça’ representada pelas redes sociais.

O maior desafio para a Cable News Network, o canal de notícias americano mais conhecido pela sigla CNN, hoje, são as redes sociais como Facebook e Twitter e não novas emissoras dedicadas à informação 24 horas, admitiu o presidente de uma das mais respeitadas empresas de mídia do mundo, nesta quarta-feira (10).

“A competição que eu realmente temo são os sites de relacionamento social”, confessou Jon Klein, durante a conferência de mídia Bloomberg BusinessWeek 2010, realizada em Nova York. “Eles são uma alternativa que ameaça afastar as pessoas de nós”, acrescentou.

“As pessoas de quem você é amigo no Facebook ou que você segue no Twitter são fontes confiáveis de informação”, explicou Klein. “Você clica em links que elas te enviam e confia nelas”, acrescentou.

“Bem, nós queremos ser o nome mais confiável quando o assunto é notícia”, continuou. E por isso, “não queremos que as mil pessoas que você segue no Twitter sejam as fontes mais confiáveis para você”.

“É um desafio e nós temos que responder a ele”, afirmou Klein.

“Por isso, estou muito mais preocupado com as 500 milhões de pessoas que estão no Facebook do que com os dois milhões que assistem à Fox”, comparou o executivo, citando a rede de TV que é a maior concorrente da CNN.

Aspas

Estou muito mais preocupado com as 500 milhões de pessoas que estão no Facebook do que com os dois milhões que assistem à Fox”

O executivo disse ainda que a “missão” de sua emissora é trazer as redes sociais e outros usuários da internet a se conectar de alguma forma à CNN. Além de expandir seus domínios na rede com notícias e vídeo, a CNN está voltada também para serviços via celular, explicou Klein.

“Os serviços on-line são uma área em expansão para nós, os serviços via celular têm enorme potencial de crescimento e o serviço doméstico a cabo nos Estados Unidos já é uma área de desenvolvimento”, acrescentou. “Há muito espaço para onde expandir”, emendou.

“Estamos em muitos lugares e eu acho que este é o modelo que pode funcionar bem para nós”, afirmou. “Todo mundo no ramo da mídia busca ativamente por múltiplas fontes de lucro, isto não é segredo”, acrescentou.

Análises detalhadas

Para Klein, que assumiu o cargo de diretor de operações da CNN nos Estados Unidos em 2004, depois de trabalhar na rede CBS, com a explosão das novas mídias e da internet, estar no local de um acontecimento não é mais o suficiente.

“Simplesmente estar lá costumava ser grande coisa”, afirmou. “Hoje em dia, precisamos dar mais do que simplesmente chegar lá”, continuou.

“Aprofundar e fazer análises é mais complicado”, disse. “Exige mais capacidade mental, mais trabalho, pensar mais o trabalho, exige mais criatividade”, enumerou.

“As pessoas acompanham rapidamente o que acontece hoje”, afirmou. “Você precisa dar a elas mais detalhes sobre o que está acontecendo. E aí que nós vamos trabalhar para continuar a fazer a diferença”, concluiu.

G1

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Canibalismo na velha mídia
Segundo o Aurélio:
Canibalismo
[De canibal + -ismo.]
Substantivo masculino.
1. Antropofagia.
2. P. ext. Ato de um animal devorar outro da mesma espécie ou da mesma família.
3. Fig. Ferocidade de canibal.

A velha mídia não é mais a mesma. Mesmo tentando demonstrar unidade nesses encontros de direita que eles organizam de vez em quando para mostra força, fica cada vez mais claro que o projeto de opinião única e de assassinato do contraditório que eles queriam implantar através do auto-referenciamento, com ataques coordenados contra alvos comuns e ignorando os críticos, começa a fazer água. A suposta supremacia da associação suspeita dos principais órgãos de imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo começa a ser colocada em xeque, e se antes a imprensa de todo país reverenciava o poder dos barões da mídia carioca e paulista reverberando suas opiniões em cada gazeta desse país, hoje já começa a enfrentá-la e defender seus próprios argumentos.

O editorial do Estado de Minas intitulado “Minas a reboque, Não!” foi como um grito de independência, e mesmo que seja uma manifestação de apoio político claro para Aécio Neves, o que em minha opinião retira credibilidade do jornal que deveria ser imparcial, soou aos meus ouvidos como uma reação importante, principalmente vinda de um grande estado como Minas Gerais, no sentido que não era possível mais aceitar a manipulação da velha imprensa para satisfazer seus próprios interesses de salvar a candidatura Serra, passando por cima de Aécio e de Minas. Leia aqui a reprodução do editorial, convenientemente o link é de um blogueiro Serrista que protesta contra a independência do Jornal, acusando o mesmo de não publicar nada que contrarie Aécio (exatamente como ele faz com Serra em seu blog).

O editorial não ataca Serra diretamente como fez a velha mídia, que por diversas vezes atirou contra o playboy mineiro quando este ainda se aventurava a querer enfrentar, através de prévias partidárias, o queridinho governador de São Paulo, como é possível ver aqui e aqui. O editorial do Estado de Minas tem como alvo seus “colegas” do eixo Rio – São Paulo em um claro posicionamento de confronto.

Como vimos pela reação do blogueiro, soou mal entre os Serristas a posição de confrontamento do jornal mineiro, depois disso houve manifestações de tucanos mineiros e políticos do Democratas que subiram o tom, evidenciando as críticas da inviabilidade eleitoral da candidatura Serra e a nocividade para o partido de seguir com ela, além disso, em comemoração em Minas Gerais do centenário de Tancredo Neves, em clima de campanha antecipada, convidados do governador de Minas gritaram Aécio Presidente na presença de um atônito Serra que parecia querer enfiar a cabeça no chão de tão constrangido.

Não dá para prever se essa guerra autofágica vai se prolongar apenas até a definição oficial da candidatura tucana ou se a imprensa mineira, e a de outros estados inspirados nesta, tomarão gosto pela opinião própria e passarão a se manifestar de forma independente, sem o adesismo automático de apenas reproduzir o que sai na imprensa do Rio e São Paulo, “importando” junto à opinião pré-concebida destes.

De um jeito ou de outro, sendo provisório ou não eu vejo aspectos positivos nessa situação porque desarma essa neutralidade e silêncio contra os descalabros cometidos recentemente por essa imprensa ligada ao PSDB de São Paulo, eles estavam achando que tudo podiam, mas agora nós começamos a perceber que nem entre eles se entendem mais, já existe um ruído de contraditório que ameaça o avanço da opinião única. Simbólico é a melhor definição para esse motim do jornal mineiro.

blog do Len

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A incógnita da internet no jogo político-eleitoral

Há um consenso entre os que estudam a internet de que ela terá uma grande influência na definição dos novos centros de poder que estão surgindo na sociedade contemporânea. Mas o que ninguém sabe é como este processo vai se desenrolar, quando os seus resultados aparecerão e de que forma.

Os processos eleitorais configuram momentos em que as pessoas tomam decisões que vão moldar o cenário político e por consequência uma nova geografia do poder no país ou na região. Como a internet já faz parte do contexto social contemporâneo, ela começa a provocar reações desencontradas tanto entre os conservadores como entre os liberais.

As pessoas tomam decisões a partir de mensagens captadas pelo sistema cognitivo individual que por sua vez está condicionado a contextos específicos, dando origem a percepções diferenciadas. As mensagens são transmitidas e recebidas dentro do processo da comunicação, transportadas pelos chamados meios de comunicação (jornal, radio, TV, internet, cinema, livros, publicidade, propaganda etc.).

A internet é um meio de comunicação que opera no contexto de redes sociais formadas por usuários que interagem de forma horizontal e descentralizada. Estas características levaram o sociólogo espanhol Manual Castells a afirmar que “numa sociedade em rede, a política é essencialmente a política da mídia”, ou seja ela é determinada pela política dos meios de comunicação.

É esta característica que está deixando os conservadores nervosos e beligerantes enquanto os liberais mostram-se perplexos e desorientados. A internet quebrou o controle quase absoluto que os conservadores tinham sobre os meios de comunicação e isto os está assustando muito. A multiplicação vertiginosa dos weblogs, a disseminação viral dos twitters e o crescimento constante das redes como Facebook, os colocam diante de situações não previstas e incontroláveis.

O controle da comunicação sempre foi junto com a força militar o binômio responsável pela hegemonia de um segmento social cujo poder é financiado pela acumulação de riquezas. Como os conservadores estão perdendo o controle da comunicação isto os está obrigando a rever o seu modelo de poder político. A recente crise no sistema financeiro mundial é um sintoma deste ajuste, que até agora ninguém sabe como vai terminar.

Por seu lado, os liberais, ainda não chegaram a um consenso sobre o modelo econômico que viabilizará os negócios digitais, a longo prazo. A ausência deste modelo fragiliza os seus questionamentos políticos porque mantém a dependência dos internautas em relação à economia convencional.

Politicamente, a geração internet mostra-se refratária às práticas e valores tradicionais tendendo ao nihilismo eleitoral. Mas esta atitude, embora rotulada como apolítica, é na verdade profundamente política, porque aponta para o surgimento de um contra-poder alimentado pela comunicação horizontal e descentralizada dentro da internet.

Os dilemas e incertezas dos que desconfiam da internet são claramente visíveis na imprensa brasileira, que se mostra integrada ao sistema de poder político hegemônico no país, sem dar-se conta de que existe um contra-poder em gestação, cujo perfil é totalmente distinto daquele que caracterizou a esquerda.

A cobertura das eleições presidenciais deste ano faz parte deste contexto midiático e tende a fortalecer a ideia de que só existe um poder político, o que é uma ficção. Existe um poder hegemônico, mas a internet está criando outro que funciona segundo regras próprias e que em sua maioria ainda não foram suficientemente materializadas. A única coisa que se sabe é que ele provavelmente será fragmentado e descentralizado.

Carlos Castilho/Observatório da Imprensa

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À cata de tábuas de salvação

Meses de rumores, boatos, informações e contrainformações desembocaram na quarta-feira (27/1) no Apple Event, em São Francisco, Califórnia (EUA), com o anúncio de Steve Jobs trazendo à existência uma nova criatura: o iPad. Dois adjetivos bastaram para incendiar a imaginação dos obcecados por novas tecnologias – e Jobs as pronunciou pausadamente: trata-se de um produto “mágico” e “revolucionário”.

Qual Moisés descendo do monte com as tábuas da lei, Steve Jobs subiu ao palco com sua tábua (tablet) multifacetada, de onde se pode ler livros (e todas as resenhas sobre os mesmos disponíveis na web), escutar música (e saber mais sobre compositores e intérpretes), assistir a filmes (e saber sobre custos de produção, prêmios a que concorre, biografia do elenco), escrever mensagens (por exemplo, reclamando porque o iPad não tem porta para conectar webcam), rodar videogames, exibir e editar imagens… e tudo isso na ponta dos dedos sobre uma plataforma de 24,6 centímetros, com 1,3 cm de espessura e peso de 680 gramas.

Na apresentação de Jobs, uma cena particularmente interessante foi a tela do novo produto reproduzindo a capa do The New York Times. Não é segredo, ao contrário, é objeto de análise de 10 entre 10 profissionais que fazem a crítica da mídia, que donos de jornais e de editoras nutrem grandes esperanças de que o tão esperado computador-leitor da Apple atraia novos leitores e reforce sua receita, mas também parece ser verdade que poucas esperam que ele reverta por si só a queda de um setor em crise.

Grupos editoriais como Time Warner, Conde Nast, New York Times Co. e HarperCollins, parte da News Corp., devem aguardar um pouco para ver se o caçula da linha de montagem da Apple conseguirá salvar a mídia impressa. O analista Mike Vorhaus, presidente da Magid Advisors, estimou que o tablet poderia elevar em 10% a 20% receita digital dos grupos editoriais. Pouco. Mas em mar aberto onde ninguém consegue ver ainda terra firme já é algo para celebrar.

Círculo vicioso

Voltando ao NYT, estamos diante de jogada muito inteligente porque ocorre exatamente quando os jornais se desesperam para que a água não lhes ultrapasse a linha do nariz. É a luta pela sobrevivência nossa de cada dia. Tanto que Jobs apresentou o iPad em conjunto com o aplicativo especialmente criado pelo NYT para rodar no iPad. Jogada de mestre, hein? E esse aplicativo simula no mundo virtual a experiência de ler jornal no mundo real, tendo um formato muito parecido com o jornal de papel, assimilando desde logo as funcionalidades presentes até então no iPhone, como marcar artigos para ler depois etc.

No iPad, é possível escolher a quantidade de colunas, tamanho do texto e navegar como se estivesse virando páginas. Não à toa, notícias dão conta que um grupo de investidores que está lutando por posições no conselho da New York Times Co. – e esse grupo bate o bumbo para que o NYT adquira empresas de internet. Antes que esqueça: a National Geographic anunciou também uma parceira com a Apple para oferecer versão digital de suas publicações para iPad.

Mas nem tudo são flores. O iPad vem com falhas absolutamente inexplicáveis. Não poderiam ter deixado dois dedos de genialidade para colocar nele um cartão SD para transferir arquivos facilmente? E a bendita portinha USB democratizando a bugiganga, tornando-a mais sociável com computadores do Bill Gates, com tantos outros dispositivos que fazem render o tempo de quem prefere a vida virtual à real?

Pelo que li, pela pesquisa que fiz e vídeos a que assisti, o mais grave defeito do iPad é não ser multitarefa: ou você lê um livro ou digita uma mensagem ou então deixa de fazer essas coisas e fica apenas escutando “Quadros de uma exposição”, de Modest Mussorgsky Uma coisa é ler um livro enquanto passeia de bicicleta pelo Parque da Cidade, em Brasília. Outra coisa bem diferente é ler o que acontece em Davos e em Porto Alegre enquanto espera alguém responder mensagem em cima de sua última observação (por escrito) usando o Skype. E isso é assim porque todo mundo tem um pouco de Hugo Chávez em sua marcha batida para controlar tudo. E Steve Jobs quer controlar tudo com seu iPhone, seu iPod, seu iMac e agora seu iPad.

Competência reconhecida ele tem. Genialidade e o pacote de excentricidades que fazem alguém se tornar gênio ele também tem. Já tem gente fazendo fila para manusear um iPad inteiramente destravado de forma que se possa instalar os programas que bem entender. É aí que a festa começa pra valer. Até lá há que se esperar o estilo conta gotas da Apple de ir liberando tudo aos poucos como um strip-tease cibernético. A verdade é que Jobs e sua turma já podiam lançar o IPad melhor resolvido, multitarefa… mas a regra do jogo é criar dificuldades para aguçar o desejo e então vender facilidades. É o círculo vicioso do consumo acima de tudo. Enquanto houver um vazio dentro de você a Apple – e mais uma centena de marcas globais – tudo irá fazer para preenchê-lo.

Na pele

Saindo dos limões e correndo para a limonada, outra verdade é que um produto robusto, com muitas qualidades. A primeira delas é que receitado para quem detesta interagir na web mediado por teclado e mouse. É tudo no toque mesmo. Nossos olhos recebem nova configuração, desocupam seu espaço no rosto e ficam ali, colados, na ponta de nossos dedos. É simplicidade em estado bruto. Por mais que sejamos presas fáceis de multitarefas existe um formidável contingente de pessoas que continuam a fazer, desde que o mundo é mundo, uma coisa de cada vez. São pessoas que quando abrem mais de um programa na tela se sentem ansiosos a ponto de achar que irão “perder” alguma coisa e depois nunca mais achar. São pessoas que escrevendo um documento o salvam a cada dois minutos, com um nome diferente. Para essa pessoas o céu desceu à terra

O iPad tem processador de 1 GHz e segundo Jobs suporta rodar até 10 horas de vídeo com uma única carga. Em repouso, a bateria pode durar um mês. Eu só acredito vendo. Minha crença nessas baterias de computadores portáteis é tão grande quanto minha confiança que o Tibete será um país livre e o Dalai Lama será recebido nas encostas de Lhasa com festa e burburinho. O chefe da maçã nunca descuida seu público-alvo e sabe que este é bem estratificado, uns com muito dinheiro, outros com pouco e sua resposta – sempre bem sucedida na socialização de seus produtos – é imediata: o dispositivo será vendido em duas versões e três diferentes capacidades de armazenamento de dados. Uma versão, que não suporta conexão a redes 3G, terá preços de US$ 499 (16 GB), US$ 599 (32 GB) e US$ 699 (64 GB).

Continua em alta a tendência de otimizar espaço físico. O fato é que máquinas, equipamentos e tantos instrumentos que atravancavam nossa casa e que atendiam nossa necessidade de acesso a meios culturais e entretenimento individual e familiar hoje ocupam o espaço mínimo de uma bolsa. E o iPad reúne diversas características necessárias a um dispositivo de entretenimento e apelo universal. A empresa fez parceria com desenvolvedoras de games, como a Electronic Arts, para a produção de títulos para os quais a máquina possa dar suporte e também com a Disney e CBS, permitindo que os consumidores tenham acesso ao melhor da TV na tela do computador.

O iPad posiciona a Apple de forma direta no mercado editorial do qual a Amazon.com foi pioneira com o leitor eletrônico Kindle. A grande diferença é que o iPad desbanca o Kindle por agregar cor e vídeo e, certamente, irá revolucionar o setor editorial da mesma maneira que o iPod mudou a música. Além disso, a nova criatura da Apple se conectará com uma loja de livros eletrônicos, a iBooks Store, lançada em parceria com cinco grandes editoras norte-americanas (Penguin, HarperCollins, Simon & Schuster, Macmillan, e Hachette Book Group).

Os grupos editorais ainda sentem na pele o dano que a loja digital de música iTunes, da Apple, causou às gravadoras, ao ditar preços e permitir que os consumidores adquirissem as faixas individuais desejadas, o que destruiu as vendas de álbuns. Se forem espertos verão que Jobs foi ao ringue e os chama à luta. Entrar na luta, neste caso, é unir forças visando criar uma poderosa loja virtual para seus títulos, jornais e revistas. E de quebra entregar à clientela, a custo simbólico, sua própria maquininha.

Washington Araújo/Observatório da Imprensa
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Steve Jobs e as novas tábuas

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William Bonner, do Jornal Nacional, costuma dizer que todas as noites sua equipe tenta colocar um elefante dentro de uma caixa de sapatos. Sempre conseguem.

Trata-se da configuração do jornal de maior audiência na TV brasileira. Significa que grande quantidade das notícias produzidas é jogada na lata do lixo e outras tantas somente são divulgadas após lapidar edição que envolve a escolha de enquadramentos, incidências e aparas. Por ficarem de fora, não serão discutidas pelo público: o “lixo”, outros enquadramentos, outras incidências, outras maneiras de ver e de apresentar os temas.

É o que se denomina agendamento (agenda setting), teoria bastante conhecida em todo o mundo por qualquer estudante de comunicação, desde os anos 70, que revela como os meios de comunicação determinam a pauta (agenda) para a opinião pública. Ou seja, resolvem o que e de que forma – de que ângulo, de que ponto de vista, sob que aspecto ou profundidade – nós, indefesos leitores/ouvintes, devemos discutir a história de cada dia. Pois, para muitos, o que não deu no Jornal Nacional, a caixa de sapatos de Bonner, não aconteceu.

Tem-se no agendamento o instrumento de impor ao leitor/ouvinte uma carga de opiniões político-ideológicas ou culturais que interessam às instâncias de poder vinculadas aos donos do veículo de comunicação. Dito de outra forma, a linha ideológica nasce de modo “espontâneo”, das necessidades dos profissionais da comunicação de manter uma relação de boa convivência e conforto em seus postos de trabalho. Ou seja, a linha ideológica da notícia nasce não só do perfil intelectual e cultural do jornalista, de suas relações e afinidades ou do seu compromisso social, mas também e sobretudo do tipo de (in)dependência profissional com seu veículo empregador.

De qualquer forma, para a unanimidade dos estudiosos não há isenção na produção de qualquer matéria jornalística, mesmo a que não é rotulada como opinativa. E assim, o ouvinte/leitor recebe o “benefício” do agenda setting para não precisar pensar.

Já na década de 20, dizia o Estadão: “Um verdadeiro jornal constitui para o público uma verdadeira bênção. Dispensa-o de formar opiniões e formular ideias. Dá-lhes já feitas e polidas, todos os dias, sem disfarces e sem enfeites, lisas, claras e puras” (Editorial do O Estado de São Paulo, de 14/01/1928).

Pode-se inferir então que um mergulho no “lixo” e nas aparas, e um exame por ângulos e critérios ideológicos diversos no noticiário jornalístico, certamente produziriam caixas de sapatos diferentes da de Bonner. Um mergulho e um exame que serão facultados a qualquer ouvinte/leitor quando o veículo de comunicação lhe oferecer os diversos ângulos e a totalidade dos fatos, para que exerça criticamente sua análise e sua escolha. Será, enfim, a oportunidade de poder formar sua opinião, sua versão dos fatos.

Para que isso aconteça, a sociedade precisa se dar conta de que existe um direito que a Constituição lhe garante: o Direito à Informação. Informação em sua integralidade, que permita acesso a uma leitura crítica, personalizada, liberta das amarras opinativas unidirecionais viciadas. Democraticamente aberta a múltiplas interpretações e juízos. Múltiplas caixas de sapatos…

Um novo olhar

Uma amostragem do que “não aconteceu” (o lixo e as aparas do Bonner) pode ser vista no noticiário dos últimos dias:

Na última quinta-feira (24/12), o prestigiado jornal francês Le Monde escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “o homem do ano de 2009. Por seu sucesso à frente de um país tão complexo como o Brasil, por sua preocupação com o desenvolvimento econômico, com a luta contra as desigualdades e com a defesa do meio-ambiente”.

Poucos dias antes, Lula foi escolhido pelo jornal espanhol El País a primeira das cem personalidades mais importantes do mundo ibero-americano em 2009. Com direto a foto de capa inteira e perfil assinado pelo próprio primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero. “Homem que assombra o mundo”, “completo e tenaz”, “por quem sinto uma profunda admiração”, escreveu o premiê espanhol.

Neste dia 29 de dezembro, o jornal britânico Financial Times escolheu o presidente brasileiro como uma das 50 personalidades que moldaram a última década, porque “é o líder mais popular da história do Brasil”. “Charme e habilidade política… baixa inflação… programas eficientes de transferência de rendas…”, diz o jornal.

Há nestas notícias da imprensa internacional o reflexo de um novo dia, de um novo tempo de novos sonhos. Um novo olhar do mundo sobre o Brasil. No entanto, para o leitor/ouvinte dos nossos jornalões, simplesmente nada disso aconteceu.

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Desconfiar sempre de qualquer vestal! Essa deve ser a regra.
Boris Casoy: mais um falso moralista que desce para o ralo da história.
Os garis deveriam lavar o minúsculo, se não inexistente, cérebro do preconceituoso jornalista com água sanitária!

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A mudança nos telejornais é impressionante. Para concorrer com os blogs, os âncoras dos telejornais têm agora uma postura mais descontraída.

Perderam aquele ar que o Cid Moreira ‘trajava’, tal e qual um abonador da narrativa de uma verdade história, e adotaram a informalidade blogueira de um William Bonner.

Para não serem “furados” pelo Twitter os telejornais deram maior dinâmica às barras de informações que ‘correm’ na base da tela.

Ainda assim, na forma, a notícia está descontextualizada com o espectador comum. Esse quer somente quer saber se vai chover ou não. Dispensa toda aquela linguagem incompreensível e empolada de tecnicidades de “frentes equatoriais” e “massa polar intertropical” e outros quejandos meteorológicos.

A necessidade de uma fala mais coloquial talvez tenha precipitado o ostracismo de “o dono da verdade” de um Boris Casoy.

O Editor


Nos anos 1950, Walter Cronkite, o ícone mundial dos âncoras de telejornais, tornou-se um personagem paternal para milhões de norte-americanos ao encarnar a figura de um grande contador de histórias do jornalismo moderno.

Com a industrialização do processo de produção de notícias nos jornais impressos e a brutal concorrência entre telejornais, a figura do contador de histórias perdeu cada vez mais espaços até ser recuperada, muito recentemente, com surgimento dos weblogs produzidos por pessoas comuns, sem formação jornalística.

A generalização dos manuais de redação e a ditadura da pirâmide invertida acabaram padronizando e pasteurizando os textos jornalísticos que se tornaram frios e impessoais, como uma bula de remédios. As notícias publicadas num jornal ou lidas pelos âncoras de telejornais passaram a ser algo muito distante do público, ao usar estilos de redação que ninguém ousa reproduzir numa conversa de bar ou em família, sob pena de ser imediatamente ridicularizado.

Você já imaginou o que seus amigos diriam se você chegasse no bar e anunciasse: “O presidente do Senado, José Sarney, disse ontem que não deve ser discutida a decisão do STF que manteve a censura sobre o jornal O Estado de S.Paulo. Anteontem a corte rejeitou o pedido do jornal de publicar informações sobre investigações da Polícia Federal sobre Fernando Sarney, o filho do senador”.

No mínimo uma sucessão de gozações, motivadas pelo fato de que você ignorou a regra básica de qualquer contador de histórias: a informalidade e a descontração. Em circunstâncias absolutamente normais você diria: “Pessoal, dá para acreditar… O Sarney está agora defendendo também a censura à imprensa. Ele disse que a gente tem que aceitar sem discutir a decisão do STF de impedir o Estadão de publicar uma reportagem sobre suspeitas de corrupção do filho dele. Pode…”.

Os profissionais perderam o hábito de contar histórias, e os mais jovens nem chegaram a experimentá-lo por causa da automatização e produção em massa de notícias dentro de redações jornalísticas. Para evitar erros e diante da falta de tempo para corrigi-los, criaram-se os manuais de redação que acabaram sendo desvirtuados ao se transformarem em barreira contra a diversificação e personalização das narrativas jornalísticas.

Quando Henry Ford criou a linha de montagem na indústria automobilística o resultado foi um aumento na produção de carros e um menor índice de erros, mas o sistema se mostrou, mais tarde, inibidor da criatividade dos empregados e da personalização dos automóveis, uma exigência do consumidor. Uma das razões do sucesso da indústria automobilística japonesa está justamente na crítica da linha de montagem fordiana.

O desaparecimento do repórter contador de histórias, uma postura que nasceu junto com o jornalismo, há séculos, coincidiu também com o divórcio dos profissionais em relação ao público. Os leitores passaram a ser um incômodo para as redações, o que está na origem de um distanciamento que alimenta queixas e antagonismos.

Foram os weblogs produzidos pelos chamados jornalistas amadores que começaram a recuperar uma velha tradição de contar histórias, um formato narrativo muito mais próximo do público do que as fórmulas preconizadas nos manuais de redação. Cronkite simbolizava o personagem paternal que no início da noite contava para seu público o que havia acontecido nas ultimas 24 horas. Era o pajé eletrônico contando as novidades do dia para a aldeia televisiva reunida na taba virtual.

Não se trata de lamentar, nem de saudosismos do tipo “velhos e bons tempos”, mas de recuperar uma relação de confiança mútua entre profissional e o público que permanece na base da jornalismo. É necessário repensar e contextualizar as fórmulas e os manuais de redação para integrá-los à nova ecologia informativa criada pela internet, onde o leitor deixou de ser um consumidor passivo de notícias.

Alguns dirão que a missão do jornalista não é contar histórias, mas sim dar informações. Outros, como o americano Jeff Jarvis, afirmam que os profissionais já não são mais donos das histórias e nem podem se colocar no centro do palco para contar um fato. Há muita polêmica sobre como os jornalistas devem passar informações, se do tipo relatório impessoal ou contando histórias. Uma coisa parece, no entanto, inevitável: o estilo pirâmide invertida já não é mais uma unanimidade.

Carlos Castilho/Observatório da Imprensa

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O jornalismo tradicional “dá tratos à bola” para sobreviver diante do avanço das novas mídias. As redes sociais, especialmente blogs e Twitters, além de ágeis, ganham credibilidade por não estarem submetidas às pressões dos interesses econômicos.

Cada ‘blogueiro’ ou ‘twitteiro’ é seu próprio editor, repórter e editorialista. O jornalismo praticado nos grandes grupos de comunicação não reflete mais os anseios da sociedade. Noticia somente o que lhes é conveniente e parecem desconhecer a revolução das mídias digitais, com suas enormes plataformas de relacionamentos, nas quais a mentira oficiosa tem vida curta.

Esses grupos tradicionais que controlavam até agora a formação da opinião pública, se vê agora caindo em descrédito. Para segurar espectadores para os telejornais, as novelas se estendem no pieguismo e demais programas apelam para noticiários do tipo ‘mundo cão’. No resumo; são diretamente responsáveis por manter essa oligarquia política que se mantém no poder por mais de meio século.

O Editor


Telejornalismo também paga o preço da crise na imprensa

Até agora os telejornais olhavam com um certo ar de superioridade em relação aos jornais impressos diante as dificuldades enfrentadas pelos profissionais do papel na luta para encontrar um novo modelo de negócios capaz de assegurar a sua sobrevivência diante da internet.

Mas o quadro parece estar mudando, e muito rapidamente. Nos últimos dois meses, algumas das mais importantes emissoras européias admitiram mudanças profundas em seus departamentos de jornalismo, ao mesmo tempo em que a NBC norte-americana anunciou um corte de 700 funcionários da área de telejornais, em conseqüência de uma redução de 800 milhões de dólares nas suas receitas publicitárias desde 2007.

Na Inglaterra, o executivo chefe da rede independente de televisão (ITV), Michael Grade, admitiu em depoimento ao parlamento britânico que sua rede não está mais interessada em notícias porque os gastos superam as receitas. Ele disse também que não pedirá mais ajuda pública para os programas jornalísticos regionais porque “eles são um saco sem fundo”. Grade foi ainda mais longe em seu pessimismo, trocando o cargo na principal emissora comercial inglesa por um emprego fora da TV.

Emissoras como a inglesa BBC e a alemã ARD (ambas controladas pelo governo) sempre colocaram os seus programas jornalísticos como os carros-chefes de uma programação que seus responsáveis definem como de interesse público e sem fins lucrativos. Os telejornais da BBC e da ARD, bem como de várias outras emissoras européias que recebem fundos estatais, não podem veicular publicidade comercial.

As emissoras públicas européias admitem, em privado, que também podem reduzir drasticamente os orçamentos de programas jornalísticos, segundo informações da newsletter Follow the Media. Mas a situação já se tornou dramática em países da Europa Central, o antigo bloco socialista do Leste europeu, onde pelo menos dez projetos de telejornalismo foram desativados por falta de dinheiro.

O projeto de televisão comunitária RE:TV, criado na Bulgária há dois anos com recursos de um multimilionário local, anunciou no início de dezembro que sairá do ar até o final do ano. O canal reunia uma equipe formada pelos melhores jornalistas búlgaros e produzia programas retransmitidos por quase todas as grandes emissoras européias.

A crise nos departamentos de jornalismo das televisões européias é mais séria do que se imagina, porque no Velho Mundo o telejornalismo é a âncora do resto da programação, ao contrário do que acontece com as emissoras comerciais. Emissoras como a BBC e a ARD usam o jornalismo independente como grande argumento para pedir fundos aos respectivos governos. Para elas, o jornalismo é uma espécie de ícone do interesse publico.

Mas não é só isto que está em jogo. Caso a perda de sustentabilidade financeira se agrave ainda mais, o jornalismo na televisão pode tornar-se ainda mais exposto aos interesses comerciais, como já é possível perceber na TV Globo, onde as chamadas “promoções da casa” ocupam cada vez mais espaço nas emissões noticiosas. O caso extremo é o noticiário esportivo, onde quase tudo o que sai no ar tem algum interesse comercial embutido.

A informação jornalística menos influenciada por interesses corporativos privados, até agora, estava marcada na televisão pela existência de canais públicos que funcionavam como inibidores da comercialização desenfreada do noticiário. No caso europeu, o fator predominante era a qualidade da informação gerada por uma BBC, por exemplo. Já em países como o Brasil, a simples existência de uma emissora pública, mesmo débil, já é suficiente para criar um parâmetro de comparação em matéria de noticiário.

Tudo isso indica que o público terá que se preocupar cada vez mais com o tipo de informação que receberá nos próximos anos, porque as emissoras privadas vão acabar sacrificando a qualidade em nome da sobrevivência financeira e as públicas terão cada vez mais dificuldade para arrancar verbas estatais capazes de manter a programação atual.

por Carlos Castilho/Observatório da Imprensa

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15 de Dezembro de 2009

A carta abaixo foi escrita por um membro de AA e enviada à “Veja” em resposta a absurda reportagem sobre os Alcoólicos Anônimos publicada nesta semana:

“Pasmados! Sim, pasmados com a publicação da matéria com o título “É Preciso Dar Mais Do Que Doze Passos”!

Primeiramente, a chamada de página “VÍCIO” está errada, porque o alcoolismo – segundo também a Organização Mundial de Saúde (OMS) – é uma doença física e não simplesmente um vício.

Surpresos, também, pela Irmandade de Alcoólicos Anônimos (AA) não ser ouvida e fazer parte da reportagem, como manda a ética jornalística de se ouvir as partes envolvidas.

O que se constata é uma crítica infundada a AA, totalmente desprovida de bom senso. Os 257 dependentes de álcool enviados ao AA, evidente que poucos resultados apresentariam, comparecendo ao menos uma vez ao mês.

Primeiro motivo: AA tem como uma das suas principais máximas o “EVITE O PRIMEIRO GOLE”, enquanto o PROAD mantém como linha de tratamento a “CONTENÇÃO DE DANOS”, ou seja, o indivíduo pode beber ou usar drogas, mas com o comprometimento de ir diminuindo com o passar do tempo.

Ora, se bebendo ou usando drogas a pessoa perde sua autocensura e suas barreiras morais – como comprovado -, jamais desejará parar de usar álcool ou as drogas; ainda mais apoiado por um órgão “específico”. Lembrem-se que os indivíduos, antes de irem a AA, já faziam parte do Proad.

Em segundo lugar: Nenhum dependente – doente alcoólico, adicto ou cruzado – fará um tratamento sério, como em AA, se tem a permissividade estabelecida por um profissional de saúde.

AA nunca foi contra nenhum tipo de tratamento psiquiátrico, desde que seja necessário e que quem o atenda seja um profissional com profundos conhecimentos do alcoolismo e drogas – raríssimos -, pois a maioria visa somente lucros e nunca deixou o consultório, emaranhando-se em pretensas pesquisas para justificar as grandes verbas de incentivo dos órgãos governamentais.

Sou coordenador-geral do Grupo Girassol de Alcoólicos Anônimos e, com 29 anos de AA, só comprovei o contrário do que as pesquisas da Proad-Unifesp apontaram. Vi e comprovo, sim, que muitas e muitas vidas foram salvas por AA. Vi, também, verdadeiros “milagres” acontecerem.

E não foram só os 9% citados. Muitos membros, antes de frequentarem AA, já haviam frequentado consultórios psiquiátricos, de psicólogos, religiões as mais variadas e nada adiantava; depois de ingressarem em AA, conseguiram deter a doença e, hoje, levam uma vida de construtiva sobriedade e serenidade cotidianas.

Retomaram suas vidas, deixaram de fazer sofrer seus familiares e amigos, voltaram a ser produtivos; muitos retomaram os estudos, formaram-se e alguns tornaram-se psicólogos e psiquiatras

também.

AA FUNCIONA SOZINHO, sem nenhum auxílio de psiquiatras.

Alcoólicos Anônimos não trata de religião – cada qual tem a sua ou não a tem -, denomina como Poder Superior um deus do entendimento de cada membro, que tanto pode ser religioso ou qualquer outra coisa.

Muitos chamam de Poder Superior o próprio Grupo de AA, porém a recuperação não depende da credulidade em um Poder Superior!

AA NÃO COBRA ABSOLUTAMENTE NADA! Ao contrário do que foi dito na matéria, a maioria dos frequentadores de AA não é de classes menos favorecidas – enquanto os programas apresentados na matéria de Veja (também a maioria), são procurados por pessoas de classes muito menos favorecidas.

Deixa-se claro que, em AA não se discrimina ninguém, não há preconceito de nenhuma espécie.

Os Doze Passos de AA representam uma “ferramenta” para os membros lidarem com seus problemas do dia-a-dia. O Primeiro Passo citado é primordial para que o alcoólico se disponha a tratar-se em AA.

Nas reuniões de AA, os membros compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolvermos nosso problema em comum e ajudarmos outras pessoas a se reabilitarem da doença do alcoolismo.

As ditas “reuniões pesadas”, depende de como as pessoas as encaram, mas a grande maioria das reuniões transcorre em clima alegre e descontraído.

Estamos à disposição para quaisquer esclarecimentos”.

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A Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara aprovou na quarta-feira (2/12) o projeto de lei 29, que abre o mercado de TV paga às operadoras de telecomunicações. Os pontos mais polêmicos do projeto, como a criação de cotas para conteúdo nacional, devem ser votados em destaque na próxima semana. Um ponto do texto aprovado, no entanto, está preocupando as empresas, pois pode ter impacto nos vídeos transmitidos via internet.

As empresas temem que, do jeito que está, o texto impeça a transmissão gratuita de eventos ao vivo via internet, como jogos de futebol e shows. O inciso 23 do artigo 2º do projeto, que define o que é o “serviço de acesso condicionado” (como é chamada a TV paga), diz que a recepção de canais na modalidade “avulsa de conteúdo programado” é condicionada à “contratação remunerada por assinantes”. Um evento ao vivo, no caso, se encaixa na definição de canal (inciso 4 do mesmo artigo), que é “arranjo de conteúdos audiovisuais organizados em sequência linear temporal com horários predeterminados”.

Dessa forma, a transmissão dos jogos da Copa de 2010 pela internet, por exemplo, poderia ser feita somente a clientes pagantes, e o portal que os transmitisse precisaria de licença de TV paga. Essa redação foi vista, por algumas fontes do mercado, como uma forma de circunscrever a atuação das teles à TV paga, sem criar concorrentes potenciais (porque gratuitos) à TV aberta.

“O projeto é tão mal escrito e deixa tantas dúvidas que existe o perigo de pegar a internet”, afirmou o advogado Marcos Bitelli, especialista em Direito da Comunicação. Ele criticou o poder de intervenção do governo na atividade de televisão por assinatura, criado pelo projeto. “O assinante é o único que não foi ouvido. Esse nacionalismo barato não ajuda a ninguém.

blog do Renato Cruz

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