Vento novo
Flora Figueiredo ¹
Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenescia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.
Amor a céu aberto, Editora Nova Fronteira, 1992 – Rio de Janeiro, Brasil
¹ Flora Figueiredo
* São Paulo, SP. – 1951 d.C
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Poema
Flora Figueiredo ¹
Canto aos quatro cantos,
aos quatro ventos.
Desnudo as pautas do tempo
em claves, bemóis e sustenidos.
Hei de fazer chegar aos seus ouvidos
uma rima de amor em tom maior.
Quando o mundo cantá-la já de cor,
eu trago a flauta
que põe ternura nessa nota que ainda falta
pra perpetuar o nosso amor na partitura
¹ Flora Figueiredo
* São Paulo, SP. – 1951 d.C
Tradutora de inglês pela Universidade de Michigan
Prêmios
Concurso Veia Poética – 1981
III Concurso Mackenzie de Poesia – 1982
I Concurso Vinícius de Moraes de Poesia – 1983
Antologias
Veia Poética, Antologia Poética Vinícius de Moraes, Voo da Palavra
Livros Publicados
Florescência – 1987/Calçada de Verão – 1989/Amor a Céu Aberto – 1992
Estações – 1995/O Trem que Traz a Noite – 2000/Chão de Vento 2005
site:www.florafigueiredo.com
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Poema
Flora Figueiredo ¹
A lembrança é um barbante.
Uma ponta amarrada no começo da história,
outra, em nosso tornozelo.
Se o fio estica muito, mal dá para continuar.
É a linha da Memória que vai ficando puída,
a da lembrança, não.
Feita de fibra grossa,
não afrouxa até que um anjo venha desatá-la
e a transforme numa corredeira de estrelas.
E quanto mais a corredeira for cumprida,
tanto mais rica há de ter sido a vida.
¹ Flora Figueiredo
* São Paulo, SP. – 1951 d.C
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Parceria
Flora Figueiredo ¹
Ficamos assim: você joga as queixas no telhado,
eu ponho as manias de lado,
você lava a escadaria, eu rego o jardim.
Podemos varrer juntos as nódoas secas aderentes ao passado.
Se você se habilita, eu me disponho, num desafio à desdita.
Você acende a luz, eu desempeno o sonho,
enquanto você ensaia o passo, eu troco a fita.
Na mesa torta, a toalha colorida.
O resto é fácil: basta mandar flores ao futuro,
derrubar o muro e acreditar na vida.
¹ Flora Figueiredo
* Brasil – 1951 d.C
Poetisa, cronista e tradutora de inglês pela Universidade de Michigan
Prêmios
Concurso Veia Poética – 1981
III Concurso Mackenzie de Poesia – 1982
I Concurso Vinícius de Moraes de Poesia – 1983
Antologias
Veia Poética,
Antologia Poética Vinícius de Moraes,
Voo da Palavra
Livros Publicados
Florescência – 1987
Calçada de Verão – 1989
Amor a Céu Aberto – 1992
Estações – 1995
O Trem que Traz a Noite – 2000
Chão de Vento 2005
site:www.florafigueiredo.com
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Enlevo
Flora Figueiredo 1
Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.
¹ Flora Figueiredo
* São Paulo, SP. – 1951 d.C
Tradutora de inglês pela Universidade de Michigan
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Comunicado
Flora Figueiredo ¹
Só por hoje
vou rasgar os códigos.
Desacato as regras,
os preços módicos.
Só por hoje
desacredito das retas,
descarrilho do trilho,
desvio das setas.
Preciso de tempo pra sonhar,
respirar fundo e carregar na mão
o sal da vida e o mel do mundo.
Se o compromisso tocar a campainha,
peço que aguarde na casa vizinha,
mansamente, sem fazer alarde.
Mas comunico a todos pela imprensa
que sumiu a lucidez.
Pediu licença.
É só por hoje,
mas agora é minha vez.
¹ Flora Figueiredo
* São Paulo, SP. – 1951 d.C
Tradutora de inglês pela Universidade de Michigan
Prêmios: Concurso Veia Poética – 1981/III Concurso Mackenzie de Poesia – 1982/I Concurso Vinícius de Moraes de Poesia – 1983
Antologias: Veia Poética/Antologia Poética Vinícius de Moraes/Voo da Palavra
Livros Publicados:
Florescência – 1987/ Calçada de Verão – 1989/ Amor a Céu Aberto – 1992/ Estações – 1995
O Trem que Traz a Noite – 2000/ Chão de Vento 2005
site:www.florafigueiredo.com
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Poema
Flora Figueiredo¹
Na dúvida, faça.
O risco faz parte.
A graça está em tentar,
em vez de sentar e assistir;
O mundo está em esticar-se todo para atingir;
O mundo está no desafio da interrogação:
E porque não?
Entre na festa,
Arranque a capa,
Morda a maçã.
Desate o cinto para voar livre pelo amanhã,
ainda que ele seja um labirinto.
Deixe o ID rolar,
Nesta arte viva de arriscar,
cônscio e devoto.
Pois que viver não é entrar no mar onde dá pé,
Mas mergulhar com fé no maremoto.
¹Flora Figueiredo
* Brasil – 1951
Poetisa, cronista e tradutora paulista, é autora de Florescência (1987), Calça de verão (1989) e Amor a céu aberto (1992); [ Nova Fronteira].
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