Entrevista: Presidente do Bradesco diz que Lula é uma ‘reserva de valor’

Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco: “O Brasil tem hoje uma situação que permite trabalhar com demandas e prioridades que não sejam espetaculares”
Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco: “O Brasil tem hoje uma situação que permite trabalhar com demandas e prioridades que não sejam espetaculares”
No comando do Bradesco, segundo maior banco privado do país, o executivo Luiz Carlos Trabuco Cappi é de opinião que a presidente eleita Dilma Rousseff não precisará de “propostas grandiosas” na área econômica para manter o país em ciclo de crescimento. Para ele, existe uma “agenda virtuosa” prioritária, já em andamento, que inclui combater os gargalos da infraestrutura, as obras do PAC e a exploração do pré-sal. “O Brasil tem hoje uma situação que permite trabalhar com demandas e prioridades que não sejam espetaculares.”
Trabuco, que ascendeu à presidência do Bradesco em março do ano passado, na segunda metade do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acredita que Dilma não poderá abrir mão de “um conselho do presidente Lula”, que, em sua opinião, “representa uma reserva de valor do Brasil”.
Trabuco acredita, entretanto, que o fato de Dilma ter participado do governo Lula desde o início, de “seu núcleo duro”, a credencia para ocupar a Presidência.
“Foi uma escola de graduação e pós-graduação para conhecer com profundidade os meandros do governo, as pessoas e a composição partidária que dá sustentação.” A seguir, a entrevista:
Valor: Qual o senhor acredita que será a tônica do governo da presidente Dilma Rousseff na área econômica?
Luiz Carlos Trabuco Cappi: A nossa expectativa é a continuidade do modelo estabilidade econômica, crescimento e mobilidade social. O lastro é o tripé câmbio flutuante, meta de inflação e disciplina fiscal. Em algumas áreas, há demandas geradas pela nova realidade, o que deve endereçar uma reordenação. O petróleo é um exemplo. O novo governo vai tocar a exploração do pré-sal, que tem um grande valor estratégico para o Brasil. A preocupação deve ser agregar valor social, com a criação de empregos e distribuição de renda. O momento é oportuno. Estamos iniciando uma fase de bônus demográfico que vai fazer com que, nas próximas décadas, o Brasil tenha mais gente trabalhando e produzindo que na inatividade. Ou seja, milhões de pessoas consumindo. O desdobramento é o estímulo ao espírito empreendedor, com o surgimento de milhares de novas empresas no Brasil. As condições são semelhantes às dos Estados Unidos no pós-guerra.
Valor: E qual o senhor gostaria que fosse a tônica? Aspectos que o senhor considera importantes e que não vê como prioritários para a futura presidente.
Trabuco: O alongamento dos prazos da economia vem sendo uma das características positivas da economia brasileira. Seria importante avançar, criando mais estímulos para a poupança de longo prazo. Associado ao mercado de capitais, uma mexida na tributação, seria o caminho para aumentar as taxas de investimento da economia. O BNDES cumpre um papel estratégico na economia brasileira, foi fundamental no momento da crise, mas não pode arcar sozinho com a responsabilidade de financiar o investimento das empresas.
Valor: O senhor acredita que haverá mudanças de orientação em relação ao governo Lula? Quais?
Trabuco: O mote da campanha que elegeu a presidente Dilma define bem: mudou e vai continuar mudando. Mudanças pontuais, de reorientação, vão acontecer. O Brasil está crescendo, é preciso garantir energia abundante. O projeto Minha Casa, Minha tem um forte impacto econômico e social, é preciso olhar para a questão urbana e os investimentos em saneamento. São problemas positivos, cujas soluções virão para modernizar o Brasil. Mais pessoas estão usando avião, será preciso dotar os aeroportos de condições para receber esse aumento. Mais carros continuarão sendo produzidos, o que torna necessário trabalhar a mobilidade urbana.
“Não dá para abrir mão de um conselho do Lula, que, depois de oito anos de governo, sai com a popularidade que ele sai”
Valor: Em sua opinião a presidente deveria adotar um ajuste fiscal na largada do governo ou não vê necessidade disso?
Trabuco: A ideia parece ser focar no tamanho da dívida pública em relação ao PIB. É interessante, cria a expectativa de uma política de superávits primários sucessivos, com consequências na política monetária. Em nossa opinião, é importante não ser muito ambicioso, sendo pragmático, operando com os instrumentos que o governo tem. É como ir cortando a unha sem movimento brusco, para não ferir o dedo. A mensagem deve ser clara, equilibrar as contas, olhando principalmente os gastos correntes. Não pensamos em propostas de impacto.
Valor: O senhor vê necessidade de elevação da Selic em 2011? Em que momento? Ou o senhor acredita que a inflação vai convergir para o centro da meta com a taxa atual?
Trabuco: Essa discussão permeia as análises dos economistas de forma permanente. Acreditamos que o Copom tem uma meta a cumprir e, por ora, faltando uma reunião para acabar o calendário 2010, não vemos grandes mudanças. Vamos aguardar, até porque existe uma predisposição de maior rigidez em relação aos gastos. E o ritmo de expansão do crédito deverá diminuir um pouco.
Valor: Em sua opinião o país precisa de reformas estruturais – tributária, trabalhista, por exemplo – urgentes ou pode prescindir delas devido ao cenário de crescimento que se espera para os próximos anos?
Trabuco: Cada coisa ao seu tempo. O problema das propostas grandiosas é que elas geram expectativas desproporcionais aos efeitos práticos do dia seguinte. Da mesma forma, é muito difícil administrar frustrações quando elas não são aprovadas. O Brasil tem hoje uma situação que permite trabalhar com demandas e prioridades que não sejam espetaculares. Vamos trabalhar nos gargalos da infraestrutura, vamos olhar para atender aos objetivos do PAC, a exploração do pré-sal é fundamental, temos a Copa e as Olimpíadas. Essa agenda é virtuosa, de trabalho concreto, e já está em andamento. Agora, é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, o país tenha a necessidade de iniciar uma discussão sobre o modelo previdenciário, levando em conta as futuras gerações. O paradigma é a nova demografia, com pessoas vivendo cada vez mais. Outra questão importante, fundamental para a competitividade das empresas brasileiras, é o encargo trabalhista. Não podemos ser vulneráveis do ponto de vista da competição global.
Valor: Qual o seu prognóstico para o país em termos de taxa de crescimento, inflação, juros e câmbio com a nova presidente?
Trabuco: Não tenho a virtude dos economistas, que conseguem encontrar projeção para tudo, a partir de cálculos e modelos econométricos. É uma arte que respeito e admiro. Mas não é preciso ser oráculo para dizer que as condições gerais, enquanto tendência, não indicam solavancos. O crescimento vai continuar, um pouco menor que neste ano, mas num ritmo que as pessoas vão se sentir confiantes. Teremos a inflação dentro da meta, portanto, juros comportados. E o câmbio vai flutuar de acordo com o fluxo, que, dadas as condições positivas da nossa economia, tende a ser positivo. Medidas pontuais, administrativas, devem ser uma tônica nesse campo.
Valor: A questão cambial está no centro das discussões do momento, aqui e lá fora. O Brasil precisa conter a valorização do real? Por que?
Trabuco: O Brasil tem passado sem sustos por essa fase de ajuste cambial global. Devemos isso aos bons fundamentos da economia. Temos reservas que apontam para US$ 300 bilhões. Isso tem seu custo, mas também tem seu benefício, que não é desprezível. O ministro Guido Mantega [Fazenda] tem atuado de forma extraordinária com a expectativa dos agentes econômicos, fazendo o diagnóstico preciso do problema, sinalizando tendências e também adotando medidas pontuais. É importante. Na questão da capacidade exportadora brasileira muita coisa pode ser feita, um pouco na área tributária, outro tanto no custo trabalhista, combate a práticas desleais de comércio, estímulo ao financiamento, o governo está fazendo e vai continuar trabalhando, pois as coisas não vão se resolver sozinhas.
Valor: O que foi feito até agora lhe parece acertado?
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