O noticiário sobre o escândalo que tem como protagonistas principais o senador Demóstenes Torres e o “empresário” de jogos viciados Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como “Carlinhos Cachoeira”, começa a derivar perigosamente para uma queda de braço entre a chamada grande imprensa e alguns representantes do Partido dos Trabalhadores.

Nas primeiras páginas os principais jornais do país apostam numa disputa entre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e os réus do processo conhecido como “mensalão”, como pano de fundo das ações de parlamentares na investigação do caso Cachoeira.

Trata-se de uma situação inusitada e com potencial para desfechos surpreendentes.

Ao acusar o procurador-geral de se haver omitido em 2009, quando Carlos Cachoeira foi citado em uma operação da Polícia Federal na qual já apareciam sinais do envolvimento de políticos, alguns parlamentares estariam, segundo Gurgel, tentando reduzir as responsabilidades dos acusados no caso “mensalão”.

Papel da imprensa

Se demonstrado que o procurador prevaricou numa das etapas do processo que transforma em corréus o senador Demóstenes Torres e o bicheiro Cachoeira, a acusação ficaria enfraquecida também no caso “mensalão”.

Esse é o raciocínio que a imprensa oferece aos seus leitores. Mas há outra hipótese em construção nos bastidores do caso: o que os representantes do partido governista querem demonstrar é que tudo estaria intrincadamente misturado, ou seja, não há um caso “mensalão”, mas uma grande conspiração cujo principal articulador e financiador seria o bicheiro Carlos Cachoeira.

O ponto de partida seria o escândalo original do “mensalão”, no qual um assessor do então ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, foi apanhado cobrando propina do bicheiro. A gravação da cena, que foi parar em mãos de um editor da revista Veja, e daí para o resto da imprensa, teria sido uma “armação” do bicheiro já em conluio com Demóstenes Torres.

A partir daí teria sido montado o enredo conhecido como “mensalão”, ou uma suposta rede de pagamento mensal de propinas para estimular os votos favoráveis de parlamentares em questões de interesse do governo.

Essa tese provoca tensões no Supremo Tribunal Federal, onde alguns ministros deixam escapar certo desânimo com relação ao conjunto de provas contra os principais acusados do “mensalão”. Por outro lado, o procurador-geral da República insiste que as provas são consistentes e que esse seria o motivo dos ataques que vem sofrendo por parte de representantes da base aliada no Congresso.

No meio de tudo isso é preciso observar o papel da imprensa, que há muito tempo deixou de ser uma espectadora isenta e se transformou também em parte do processo.

Fonte privilegiada

Inicialmente, a mídia jogou o papel de porta-voz dos acusadores no caso “mensalão”, ampliando e dirigindo os debates públicos de modo a consolidar a interpretação geral de que houve um esquema de compra de votos no governo anterior.

Mas agora, com a revelação de relações suspeitas entre o bicheiro Carlos Cachoeira e um diretor de Veja – marcando o ponto exato de onde saíram quase todas as denúncias contra integrantes do governo e da bancada governista nos últimos seis anos – a imprensa á lançada no meio do escândalo. Não mais como observadora, mas como protagonista.

Na quinta-feira, dia 10, os jornais informam que houve um refluxo no ímpeto inicial de alguns parlamentares de convocar jornalistas para explicar suas relações com o bicheiro. Segundo os diários, o gabinete da Presidência da República ordenou cautela e recomendou que seja evitada a convocação de representantes da imprensa à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o caso Demóstenes-Cachoeira.

No entanto, segundo declarações reproduzidas pelos jornais, se houve mesmo mais de duzentas conversações gravadas entre o diretor de Veja em Brasília e integrantes do esquema do bicheiro, não haverá como evitar a convocação do jornalista.

Alguns parlamentares querem interrogar não apenas o diretor da sucursal da revista na capital federal, mas o próprio dono da Editora Abril, Roberto Civita, inimigo declarado do governo desde o primeiro mandato de Lula da Silva, quando sua empresa perdeu contratos para o fornecimento de livros didáticos para escolas públicas – segundo já foi divulgado pela imprensa.

Ao governo não parece interessar essa briga. Mas bem que a sociedade merece um esclarecimento sobre essa relação privilegiada entre a revista e o bicheiro, principalmente porque absolutamente tudo que o chefe da quadrilha “soprou” para Veja foi reproduzido pelo resto da imprensa sem reservas.
Luciano Martins Costa/Observatório da Imprensa

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O “doutor”, que o seu bom amigo “professor” ambicionava até vê-lo um dia de toga, como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), foi levado a descer aos infernos de seu ofício, a uma distância intransponível das alturas que se imaginava capaz de escalar.

“Doutor” era o tratamento que o senador goiano Demóstenes Torres recebia do batoteiro Carlinhos Cachoeira, a quem se dirigia como “professor” em algumas passagens dos 298 telefonemas trocados entre eles de fevereiro a agosto do ano passado e interceptados pela Polícia Federal.

Na quinta-feira, iniciando uma partida a uma sequência de procedimentos que em pouco mais de 60 dias devem culminar com a cassação de Demóstenes, o senador Humberto Costa, do PT pernambucano, relator no Conselho de Ética do pedido de ação disciplinar apresentado pelo PSOL, aprovou a abertura do processo por quebra do decoro contra o parlamentar que há um mês se desfiliou do DEM para não ser expulso do partido. O Senado cassou até hoje um único dos seus – o representante do Distrito Federal Luiz Estevão, punido em 2000 pelo desvio de R$ 169 milhões da obra da nova sede da Justiça do Trabalho em São Paulo.

Passados sete anos, a Casa preservou o mandato do alagoano Renan Calheiros, embora tivesse sido provado que uma empreiteira pagava por ele uma pensão alimentícia. Nem os dois nem quaisquer de seus pares que, antes do advento da Lei da Ficha Limpa, puderam conservar os direitos políticos renunciando ao mandato para não serem cassados, como o baiano Antonio Carlos Magalhães e o paraense Jader Barbalho, tinham, no entanto, um perfil que se parecesse, ainda que remotamente, com a imagem imaculada que o procurador e ex-secretário de Segurança de Goiás soube confeccionar para si nos seus dois mandatos de senador.

Por mais que os políticos tivessem habituado o público a esperar revelações desabonadoras a seu respeito, ao cair a máscara de Demóstenes a sensação de todos quantos aplaudiam as suas cobranças pela moralização do governo federal foi a de terem sido lesados.

No vértice do triângulo goiano formado por Cachoeira, membros da equipe do governador Marconi Perillo (se não ele próprio) e o diretor regional da construtora Delta, Cláudio Abreu (com a anuência, ou não, do dono Fernando Cavendish), Demóstenes rotineiramente traficava influência nos Três Poderes em favor do bicheiro e da empreiteira da qual foi acusado de ser “sócio oculto” pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Além de presentes úteis (uma cozinha, um rádio-celular antigrampo) ou desfrutáveis (um lote de cinco garrafas do vinho “Cheval Blanc” 1947, por cerca de US$ 2,8 mil a unidade), ele recebeu de Cachoeira, segundo o Ministério Público, R$ 3,1 milhões. No Conselho de Ética, o relator Humberto Costa guardou-se, porém, de citar as gravações da Polícia Federal que serviram de base para Gurgel pedir ao STF que investigasse o senador. Fez bem. A defesa de Demóstenes quer que a Corte declare nulas as escutas, porque elas teriam infringido o seu direito ao foro privilegiado – a iniciativa teria de partir do Tribunal. Se este acolher a ação, o processo no Senado poderia perder o fundamento.

Em vez disso, Costa invocou palavras e atos de Demóstenes para sustentar a tese de que, em discurso no dia 6 de março, ele mentiu ao se dizer contrário à legalização do jogo de azar no País e ao afirmar que mantinha apenas “relações sociais” com Cachoeira, desconhecendo as suas atividades de “contravenção”. Em 2003, defendeu da tribuna a legalização da tavolagem. E pelo menos desde a CPI dos Bingos, em 2006, o ilícito ganha-pão de Cachoeira ficou caracterizado. As comprovadas inverdades de Demóstenes configuram atentado ao decoro; o mesmo vale para a obtenção de “vantagem indevida”. Uma coisa e outra são passíveis de cassação de mandato e perda de direitos políticos por 15 anos.

Para que o plenário do Senado se sinta encorajado a endossar a provável decisão do Conselho de Ética nesse sentido, é de desejar também que antes do dia D entre na pauta da Casa e seja aprovado o projeto que acaba com o voto secreto em casos de cassação. A proposta dorme há dois anos.
O Estado de S. Paulo

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É malcheiroso o odor que emana dos suntuosos tapetes que se esparramam sobre os pisos palacianos do planalto central dessa pobre e depauperada Taba dos Tupiniquins.
De todos os podres poderes.

Estamos todos aguardando que espécie de água verterá pela caudalosa cachoeira, que transformou o senador Demóstenes Torres em doença contagiosa, e vai contaminando Marconis, Agnelos e sabem-se lá mais quantos estarão no caminho da enlameada enxurrada.

A população parece já acostumada com a banalização das CPIs inúteis. A última, a do mensalão, nos presenteou com um filósofo da “quadratura intelectual” de um Delúbio Soares, que continua nos brindado com porções diárias de cinismo explícito. Quem virá agora, ao depor, dizer que tudo será uma grande piada de salão?
José Mesquita – Editor


Malfeitos, mal feitos e bem feitos
Nelson Mota/O Globo
Ao contrário de Lula, a oratória não está entre as qualidades da presidente Dilma, suas dificuldades de expressão prejudicam a comunicação de suas ideias, planos e ações ao público.

Não que a oratória seja uma qualidade em si, grandes canalhas e farsantes, como políticos palanqueiros e advogados safados, são os que melhor a usam com os piores objetivos.

É como dizia o grande psicanalista e poeta mineiro Hélio Pellegrino (1924-1988), um dos fundadores do PT: a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice.

Mas a avassaladora popularidade da presidente comprova que os brasileiros estão aprendendo a entender o intrincado dilmês.

Não se sabe se foi por falta de melhor expressão, se por imprecisão vocabular, ou se foi uma escolha consciente e bem pensada da presidente e do marqueteiro João Santana, mas a palavra “malfeito” se tornou uma marca de sucesso do governo Dilma.

Mais leve, flexível e genérica do que corrupção, ladroeira, gatunagem, banditismo, falcatrua, rapinagem, maracutaia, que poderiam ser associadas ao governo anterior, onde se originaram muitos malfeitos ora condenados, serve na medida para a presidente designar qualquer coisa entre a incompetência, a lambança, o erro técnico, o tráfico de influência, a fraude, o suborno e o roubo de dinheiro público.

Projetos mal feitos não ficam de pé, mas não são necessariamente corruptos, embora com boas chances de sê-lo, se feitos em algum órgão público.

O mensalão é um malfeito ou foi apenas mal feito, porque foi descoberto? E os aloprados, foram pilhados porque fizeram mal um malfeito?

E os malfeitos de Durval Barbosa, não foram bem feitos?

Arruda e Cachoeira foram para a cadeia?

Bem feito! Receber por palestras que não foram dadas é um malfeito ou só um não feito?

Saudada por Hillary Clinton como exemplo global de luta pela transparência e contra a corrupção, Dilma respondeu que “quanto maior a transparência e os canais de interação, mais justa e forte a democracia”, enquanto ecoava na memória nacional o histórico aforismo de seu correligionário Delúbio Soares: “Transparência demais é burrice.”

Publicado no Globo de hoje.

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Vixe! As águas, do esgoto, irão mesmo rolar?

Existe mesmo um ligação telefônica de Cachoeira para Demóstenes recomendando que o então vestal senador trocasse o DEM pelo PMDB para assim se aproximar de Dona Dilma?

Ou é tentativa de colar o “imbroglio” aquático na presidente, e desviar a cachoeira de Marconi Perillo?José Mesquita – Editor


Assessor de Cachoeira avisa que ele vai abrir as comportas, denunciando meio mundo.
Hildeberto Aleluia/Tribuna da Imprensa

O jornalista Mino Pedrosa, que foi assessor de Carlos Cachoeira e distribuiu a fita de Waldomiro Diniz, manda recado por meio de um blog: diz que, no calor da cela em Mossoró, Cachoeira pensa em contar tudo. O primeiro nome citado foi o do deputado Miro Teixeira. Ele ameaça o empreiteiro Fernando Cavendish, íntimo de Sergio Cabral, e até arrecadadores da campanha de Dilma.

Segundo o site 247, Mino Pedrosa é um dos jornalistas mais polêmicos de Brasília. Há quem ainda o considere repórter investigativo, outros o tratam como lobista e há ainda aquelas que usam qualificações impublicáveis. Em seu currículo, consta um dos maiores furos de reportagem da história da imprensa brasileira. Foi ele quem, em 1992, revelou a história do motorista Eriberto França, que selou o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. É da sua lavra também a revelação de um escândalo de grampos clandestinos, que abateu Antônio Carlos Magalhães.

Em 2004, Mino estava afastado das redações. Era assessor do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Foi ele quem fez circular entre algumas redações a fita em que Waldomiro Diniz, ex-assessor da Casa Civil, pede propina ao bicheiro, no primeiro escândalo do governo Lula. Mino e Cachoeira são amigos. Mais: são íntimos.

E foi nesta condição que o jornalista escreveu um texto no seu blog Quidnovi, que manda recados diversos. Aponta para uma suposta relação entre o bicheiro e o deputado Miro Teixeira (PDT/RJ), ex-ministro das Comunicações do governo Lula, e avisa que o contraventor está uma pilha de nervos. Pronto para abrir as comportas do seu mar de lama. Até arrecadadores da campanha presidencial de Dilma Rousseff teriam se banhado em sua cachoeira.

No cenário pintado por Cachoeira, Demóstenes não passa de uma piaba, ou melhor, um peixe pequeno, que o Ministério Público tenta sevar com denúncias inconsistentes para não ser obrigado a pescar os peixes grandes do PT e da base aliada do Governo.

Grandes nomes envolvidos?

Enquanto isso, em Mossoró, num calor de 43 graus, Carlinhos arde dentro da cela e prepara seu próximo torpedo em direção ao Planalto. São interlocutores das campanhas presidenciais do PT de Lula e Dilma, que receberam doações de Caixa 2 de Carlinhos, que garante ter registrado tudo.

Nos corredores do Ministério Público Federal se ouve falar de grandes nomes da política nacional envolvidos na contravenção. Um desses, seria o deputado carioca Miro Teixeira, ministro das Comunicações no Governo Lula e ex- PP, ex-PMDB, ex- PDT, ex- PPS, ex-PT e desde 2005 novamente PDT, hoje na base aliada do Governo Dilma. Essa história acontece exatamente no momento em que a presidente olha para Miro com olhos de promessa de um novo ministério. A depender do PDT.

Com a derrota do habeas corpus impetrado pelos advogados de Carlos Cachoeira, mas já com texto de Marcio Thomaz Bastos, o jurista achou necessário assumir a defesa do contraventor. Afinal, o PT não quer que o texto do MP seja repetido no segundo HC impetrado hoje pelo ex-ministro da Justiça.

Nas palavras do MP, “Ao contrário do que afirma a defesa, Carlinhos Cachoeira não ostenta condições favoráveis, seja porque não demonstrou possuir trabalho lícito ou porque não possui bons antecedentes criminais. Uma rápida consulta na internet permite constatar a existência de pelo menos três ações penais em três diferentes estados da Federação contra o acusado”.

Os fragmentos da Operação Monte Carlo atingem ainda várias pessoas influentes de Brasília e outros Estados. Estão sob segredo no MPF os nomes dos políticos que não interessa ao Planalto vazar para a imprensa.Cachoeira tem recebido visita da esposa, orientada por Márcio Thomaz Bastos, a convencê-lo a não detonar o arsenal contra tudo e contra todos.

Andressa, temendo que o marido não consiga o habeas corpus, conforme o jurista lhe disse, batalha para Carlinhos segurar seu arsenal de denúncias. O difícil é convencer o contraventor a mudar o alvo tendo o calor e a raiva como aliados na cela 17 do presídio em Mossoró.” 

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Delta construções que teve negócios com o governo de Fernando Henrique Cardoso, que tem obras no PAC desde o governo Lula, que tem negócios com o PAC do governo de Dilma Rousseff, que tem negócios do PAC com o Ministério dos Transportes, que tem negócios com o governo de Sérgio Cabral, que tem negócios com o governo de Geraldo Alckmin, que tem “negócios” com Carlos Cachoeira, que tem “amizades” com Demóstenes Torres…

Isso aí não lembra um certo poema de Drummond?
José Mesquita – Editor


Citada nos grampos da investigação da Polícia Federal contra a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, a empresa Delta Construções é uma gigante do mercado das obras públicas.

Desde 2001, penúltimo ano da gestão FHC, recebeu do governo federal R$ 4 bilhões, em valores não atualizados.

Deve-se o levantamento dos dados aos repórteres Dyelle Menezes, Paulo Victor Chagas e Yuri Freitas.

Em notícia veiculada no site da ONG Contas Abertas, a tróica reúne um conjunto de dados que impressiona.

Abaixo, alguns deles:

1. Em 2001, os contratos da Delta com órgãos federais renderam à contrutora R$ 41,4 milhões. No ano passado, as arcas do Tesouro repassaram à empresa R$ 884,5 milhões.

2. O grande salto no faturamento federal da Delta ocorreu em 2007, ano em que foi lançado o PAC, programa de obras coordenado pela ex-chefe da Casa Civil de Lula, Dilma Rousseff.

3. Desde então, a Delta só não ocupou o topo do ranking de empreiteiras do PAC em 2008, quando faturou R$ 324,2 milhões. Perdeu a primeira posição para a concorrente Queiroz Galvão, que amealhou R$ 2,3 milhões a mais.

4. Em 2009, de volta ao topo, a Delta recebeu da União R$ 675 milhões. Neste ano de 2012, já embolsou R$ 156,9 milhões. Aqui, uma tabela.

5. Fatiando-se os ganhos da Delta por setor, verifica-se que o principal cliente federal da empresa é o Ministério dos Transportes. No ano passado, dos R$ 884,5 milhões amealhados pela construtora, nada menos que R$ 796,8 milhões vieram dos contratos celebrados com os Transportes.

6. Nem só de cimento é feito o faturamento da Delta. O grupo oferece outros serviços. No momento, cuida, por exemplo, da limpeza pública no Distrito Federal de Agnelo Queiroz (PT) e na cidade goiana de Anápolis, base dos negócios de Cachoeira no ramo dos jogos ilícitos.

7. A Delta tem negócios em 24 das 27 unidades da federação – o Distrito Federal e mais 23 Estados. Em 2011, apenas com a limpeza de Brasília, faturou R$ 88,9 milhões.

8. No Rio, Estado governador por Sérgio Cabral (PMDB), a Delta beliscou no ano passado cerca de R$ 55 milhões só nas obras de urbanização e implantação do Parque Madureira.

9. Também o Estado de São Paulo, gerido por Geraldo Alckmin (PSDB), mantém negócios com a Delta. Repassou à empresa, no ano passado, R$ 12,9 milhões –de conservação de estradas à execução de obras.

10. Como sói acontecer com todas as empreiteiras que se ligam a gestores públicos, a Delta é provedora de verbas eleitorais. Na eleição de 2010, repassou R$ 2,3 milhões aos diretórios nacionais do PT e do PMDB –metade para cada um.

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Senador foi acusado de usar mandato para beneficiar Carlinhos Cachoeira.
Na 1ª fala após auge das denúncias, ele questionou comando do conselho.

O senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) falou nesta quinta-feira (12) pela primeira vez desde o auge das denúncias de que usou o mandato para beneficiar o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Ele foi à reunião do Conselho de Ética que definiu o senador Humberto Costa (PT-PE) como relator do processo que vai apurar se houve quebra de decoro parlamentar por parte de Demóstenes na relação com o contraventor. Na quarta (11), o senador voltou ao Senado após 21 dias de ausência, mas não tinha se pronunciado.

“Farei minha defesa por escrito e depois de forma mais contundente pois serei questionado pelos membros conforme o regimento interno da Casa. [...] O que tem de ser feito judicialmente vai ser feito. Aqui, quero me defender no mérito. Ainda não tive oportunidade de fazer, eu farei e provarei que sou inocente”, afirmou Demóstenes aos integrantes do Conselho de Ética nesta quinta.

O processo contra Demóstenes no Conselho de Ética foi aberto na terça (10). Devido às denúncias, Demóstenes já tinha deixado a liderança do DEM e depois pedido desfiliação do partido.

“Não estou aqui para questionar qualquer ato que tenha tomado o Conselho de Ética, apenas para fazer um alerta e dizer que não farei nada contra o regimento. Considero-me notificado desde ontem [quarta] e os prazos eu obedecerei independentemente do que disserem a partir de hoje [quinta]“, disse o senador. Demóstenes tem 10 dias úteis a partir desta quinta para apresentar defesa.

O senador parabenizou o novo presidente do Conselho de Ética, Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), mas questionou os trâmites para a escolha.

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“O senhor tem história política para levar adiante esta investigação com competência. [...] O que se percebe é que os artigos 24 e 88 não foram cumpridos. E não obstante Vossa Excelência ter todos os atribudos morais, tem o meu aplauso, mas é fato que as ordens regimentais têm de ser cumpridas. Não há eleição de presidente interino. Todas as eleições nesta Casa são para cumprir o mandato totalmente ou remanescente. Isto é claro.”

Demóstenes disse que gostaria apenas que o conselho realizasse a eleição para referendar o nome de Valadares no cargo. “Eu gostaria que o conselho escolhesse, conforme o regimento, e que este presidente seja Vossa Excelência [Valadares] para evitar de ficar discutindo regimento.”

A última vez que Demóstenes falou sobre as denúncias referentes ao elo com Cachoeira foi em 6 de março, no plenário do Senado. Ele afirmou, após denúncia de que tinha recebido presente do bicheiro, que era amigo de Cachoeira, mas não tinha negócios com o contraventor. Depois disso, surgiram denúncias e gravações da Operação Monte Carlo apontando que Demóstenes usou o mandato de senador para tentar beneficiar Carlinhos Cachoeira.

Após breve declaração aos integrantes do conselho, o senador deixou a reunião. “Peço licença para vossas excelências para me ausentar.” Demóstenes não quis responder perguntas de jornalistas ao deixar a reunião. Antes de entrar em elevador privativo de senadores, ele afirmou: “Sou inocente e vou provar isso. Fique tranquilo, sou inocente.” Perguntado sobre como vai provar a inocência, ele disse: “Com provas”.

Presidente do conselho
O PMDB anunciou nesta quinta-feira (12) que o partido irá manter o senador Antonio Carlos Valadares na presidência do Conselho de Ética do Senado. Valadares foi eleito para a presidência na última terça-feira (10). Regimentalmente, a vaga pertence ao PMDB, partido que tem a maior bancada no Senado. O PMDB chegou a anunciar que indicaria outro nome, mas não conseguiu um senador para o cargo até esta quinta.

Tramitação
Demóstenes Torres terá 10 dias úteis a partir desta quinta para apresentar defesa prévia. Oferecida a defesa, o relator apresentará relatório preliminar, no prazo de até cinco dias úteis, e o Conselho, também em até cinco dias úteis, realizará análise inicial do mérito da representação, onde se examinará se há indícios de prática de ato que possa sujeitar o senador à perda do mandato.

Após essa fase, o denunciado terá três dias úteis para apresentar as alegações finais. Após esse prazo, o relator finalizará seu relatório, que será apreciado pelo Conselho em até dez dias úteis.
Em caso de indicação para a perda do mandato, o parecer do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar será encaminhado à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania para exame dos aspectos constitucional, legal e jurídico, o que deverá ser feito no prazo de 5 cinco sessões ordinárias.

Concluída a tramitação no Conselho de Ética e na Comissão de Constituição e Justiça, o processo será encaminhado à Mesa Diretora e, depois de lido no expediente, será publicado no “Diário do Senado Federal” e distribuído em avulsos para inclusão na ordem do dia. A cassação, se for indicada, precisa ser aprovada em plenário.
Iara Lemos/G1, em Brasília

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Demóstenes, Marconi e Policarpo
Editorial da Revista Carta Capital 

O caso do senador Demóstenes Torres é representativo de uma crise moral que, a bem da sacrossanta verdade, transcende a política, envolve tendências, hábitos, tradições até, da sociedade nativa. No quadro, cabe à mídia um papel de extrema relevância. Qual é no momento seu transparente objetivo? Fazer com que o escândalo goiano fique circunscrito à figura do senador, o qual, aliás, prestimoso se imola ao se despedir do DEM. DEM, é de pasmar, de democratas.

Ora, ora. Por que a mídia silencia a respeito de um ponto importante das passagens conhecidas do relatório da Polícia Federal? Aludo ao relacionamento entre o bicheiro Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior. E por que com tanto atraso se refere ao envolvimento do governador Marconi Perillo? E por que se fecha em copas diante do sequestro sofrido por CartaCapital em Goiânia no dia da chegada às bancas da sua última edição? Lembrei-me dos tempos da ditadura em que a Veja dirigida por mim era apreendida pela PM.

A omissão da mídia nativa é um clássico, precipitado pela peculiar convicção de que fato não noticiado simplesmente não se deu. Não há somente algo de podre nas redações, mas também de tresloucado. Este aspecto patológico da atuação do jornalismo pátrio acentua-se na perspectiva de novas e candentes revelações contidas no relatório da PF. Para nos esclarecer, mais e mais, a respeito da influência de Cachoeira junto ao governo tucano de Goiás e da parceria entre o bicheiro e o jornalista Policarpo. E em geral a dilatar o alcance da investigação policial.

Quanto à jornalística, vale uma súbita, desagradável suspeita. Como se deu que os trechos do documento relativos às conversas entre Cachoeira e Policarpo tenham chegado à redação de Veja? Sim, a revista os publica, quem sabe apenas em parte, para demonstrar que o chefe da sucursal cumpria dignamente sua tarefa profissional. Ou seria missão? No entanto, à luz de um princípio ético elementar, o crédito conferido pelo jornalista às informações do criminoso configura, por si, a traição aos valores da profissão. Quanto à suspeita formulada no início deste parágrafo, ela se justifica plenamente: é simples supor vazamento originado nos próprios gabinetes da PF. E vamos assim de traição em traição.

A receita não a dispensa, a traição, antes a exige nas mais diversas tonalidades e sabores. A ser misturada, para a perfeição do guisado, com hipocrisia, prepotência, desfaçatez, demagogia, arrogância etc. etc. E a contribuição inestimável da mídia, empenhada em liquidar rapidamente o caso Demóstenes, para voltar, de mãos livres, à inesgotável tentativa de criar problemas para o governo. Os resultados são decepcionantes, permito-me observar. A popularidade da presidenta Dilma acaba de crescer de 72% para 77%.

E aqui constato haver quem tenha CartaCapital como praticante de um certo, ou incerto, “jornalismo ideológico”. Confesso, contristado, minha ignorância quanto ao exato significado da expressão. Se ideológico significa fidelidade canina à verdade factual, exercício desabrido do espírito crítico, fiscalização diuturna do poder onde quer que se manifeste, então a definição é correta. E é se significa que, no nosso entendimento, a liberdade é apanágio de poucos, pouquíssimos, se não houver igualdade. A qual, como sabemos, no Brasil por ora não passa de miragem.

E é se a prova for buscada na nossa convicção de que Adam Smith não imaginava, como fim último do capitalismo, fabricantes de dinheiro em lugar de produtores de bens e serviços. Ou buscada em outra convicção, a da irresponsabilidade secular da elite nativa, pródiga no desperdício sistemático do patrimônio Brasil e hoje admiravelmente representada por uma minoria privilegiada exibicionista, pretensiosa, ignorante, instalada no derradeiro degrau do provincianismo. Ou buscada no nosso apreço por toda iniciativa governista propícia à distribuição da renda e à realização de uma política exterior independente.

Sim, enxergamos no tucanato a última flor do udenismo velho de guerra e em Fernando Henrique Cardoso um mestre em hipocrisia. Quid demonstrandum est pela leitura do seu mais recente artigo domingueiro na página 2 do Estadão. O presidente da privataria tucana, comprador dos votos parlamentares para conseguir a reeleição e autor do maior engodo eleitoral da história do Brasil, afirma, com expressão de Catão, o censor, que se não houver reação, a corrupção ainda será “condição de governabilidade”.

Achamos demagógica e apressada a decisão de realizar a Copa no Brasil e tememos o fracasso da organização do evento, com efeitos negativos sobre o prestígio conquistado pelo País mundo afora nos últimos dez anos. Ah, sim, estivéssemos de volta ao passado, a 2002, 2006 e 2010, confirmaríamos nosso apoio às candidaturas de Lula e Dilma Rousseff. Se isso nos torna ideológicos, também o são os jornais que nos Estados Unidos apoiaram e apoiarão Obama, ou que na Itália se colocaram contra Silvio Berlusconi. Ou o Estadão, quando em 2006 deu seu voto a Geraldo Alckmin e em 2010 a José Serra.

Não acreditamos, positivamente, que de 1964 a 1985 o Brasil tenha sido entregue a uma “ditabranda”, muito pelo contrário, embora os ditadores, e seus verdugos e torturadores, tenham se excedido sem necessidade em violência, por terem de enfrentar uma resistência pífia e contarem com o apoio maciço da minoria privilegiada, ou seja, a dos marchadores da família, com Deus e pela liberdade. Hoje estamos impavidamente decepcionados com o comportamento de muitos que se apresentavam como esquerdistas e despencaram do lado oposto, enquanto gostaríamos que a chamada Comissão da Verdade atingisse suas últimas consequências.

Agora me pergunto como haveria de ser definido o jornalismo dos demais órgãos da mídia nativa, patrões, jagunços, sabujos e fâmulos, com algumas exceções, tanto mais notáveis porque raras. Ideologias são construídas pelas ideias. De verdade, alimentamos ideias opostas. Nós acreditamos que algum dia o Brasil será justo e feliz. Eles querem que nada mude, se possível que regrida.

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Demóstenes Torres: a cova está aberta

O sistema do poder, do dinheiro e da informação prepara o enterro do senador Demóstenes Torres, mais um notável da República que virou cadáver notório. A cova ainda aberta, os senhores da terra já comemoram sua desgraça, arreganhando os sestros das hienas.

Demóstenes foi um fiel servidor dos impolutos “investigativos” que agora executam sua liquidação moral e política. Repito o que escrevi há tempos: a língua inglesa tem uma palavra precisa – self-righteousness – para designar as exibições de virtude dos caçadores de corruptos que, como Torres, se ocupam de achincalhar os adversários com as desfeitas do moralismo dos fariseus. O Novo Michaelis define: self-righteous, o cidadão que imposta a self-righteousness, é farisaico, hipócrita.

Há que se admirar, no entanto, o desmazelo da turma dos self-righteous nos labores de selecionar seus operadores políticos. Por causa de tais “falhas de mercado”, o morgue das reputações perdidas é invadido por uma frenética circulação de cadáveres excelentes, todos mortos a golpes de primeira página.

Enquanto isso, sobrevive impávida a estrutura de poder real que sustenta a procissão de promiscuidades entre a mídia e a política. Mandam e desmandam os mesmos de sempre, agora reforçados pelas pirotecnias eletrônicas à moda de Ruppert Murdoch.

A grande inovação dos tempos, além da internet e do celular, é a fábrica de grampos, empreendimento comum de arapongas e de certos “operadores” da mídia dita investigativa.

Tempo houve em que o grampo se prestava a finalidades excelentes. Excelentes porque, de fato, excediam sua banalidade ilusoriamente óbvia. O grampo cuidava, então, de adornar os cabelos das estrelas de Hollywood, mulheres inesquecíveis, como Rita Hayworth em Gilda ou, melhor ainda, Kim Novak em Vertigo.

Nem todos se deram conta do poder de sedução abrigado nos prosaicos grampos, quase invisíveis, em seu nobre mister de prender os longos cabelos cuidadosamente repartidos de Rita ou as madeixas prateadas de miss Novak, magistralmente dirigida por Alfred Hitchcock.

Hoje os grampos transformaram-se em meios de troca no intercâmbio de favores entre as improbidades da jogatina ilegal e a reportagem escandalosa.

Os senhores tornaram-se mais ferozes na aplicação de métodos suaves. Aprenderam a usar instrumentos mais sutis e eficientes para torturar coletivamente os cidadãos com as técnicas da desinformação, do massacre ideológico e da “espetacularização” da política.

Os cúmplices de ontem e os algozes de hoje enfrentam, porém, uma dúvida terrível: não sabem se, de fato, o cadáver está bem morto. Defunto notório, o senador Demóstenes é possuidor de amplos e reconhecidos saberes a respeito das ligações entre as mazelas da política nativa e as manobras dos “investigadores” que desfrutavam de sua convivência e intimidade. Os estragos de uma ressurreição ou de um último suspiro podem ser pavorosos.

Imagino as angústias que nesta hora oprimem os corações de alguns acusadores de ocasião. Como pistoleiros de aluguel, só vão sossegar o espírito quando convencidos de que o cadáver está completamente morto. Não podem fazer outra coisa senão esperar sua defunção definitiva. Mas aqui só há uma certeza possível: contra ele, todos os golpes já foram desferidos.

Então caberia pesar as conveniências do assassinato de um personagem tão emblemático, uma encarnação perfeita dos vícios e das virtudes do sistema dominante. Os vícios são muitos. Deixo à imaginação do leitor o trabalho de enunciar o elenco.

De resto, neste momento o establishment nativo se encarrega do conhecido esporte praticado com os pés, na boa tradição das habilidades brasileiras: o chute ao cadáver. Os barões do pedaço e seus lacaios preparam requintados pontapés na carcaça de quem, enfim, serviu tão bem a seus interesses e apetites.

No Brasil de hoje, uma lógica fatal contamina as instâncias decisivas da vida social e política. O sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais parecem ter sido engendrados com o propósito de transformar o Congresso num mercado de balcão: os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos tonitruantes do senador Demóstenes.

O arbítrio, o favorecimento, o segredo, a obscuridade, o nepotismo são os demônios da República. Pois os curupiras da Pátria Amada estão aí, livres e folgazões, gargalhando sobre as nossas incríveis angústias.

O povo, entre perplexo e cada vez mais desencantado, contempla o espetáculo da mudança sem esperança, ou como dizia um crítico de Adorno, “a realização das esperanças do passado”.

Assim os senhores da terra concebem o progresso.

Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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Nas redes sociais, principalmente, há muitas vozes interessadas em desqualificar o discurso contra a corrupção porque ele foi sustentado com raro desassombro nos últimos anos por um político conservador agora suspeito de cometer graves malfeitos fantasiado de paladino da moralidade.

O que pretendem com isso? Banalizar a corrupção? Talvez.

Enfraquecer os que a combatem? Pode ser.

Aumentar o ceticismo dos que acompanham sem dar valor as denúncias de novos casos de apropriação do dinheiro público? Na mosca!

Este é o objetivo principal de coro tão afinado: os políticos são corruptos. Voto porque a lei me obriga. Mansaleiros? Liga não. Tem por toda parte, do PT ao DEM.

Viram Demóstenes Torres? Logo aquele senador careca, ex-gordinho, recém-casado.

Lembram do que ele dizia com tanta convicção?

E, no entanto, era bandido como os bandidos que condenava, a serem verdadeiras as provas reunidas contra ele pela Polícia Federal. Por Deus: como acreditar nessa gente?

É desaconselhável acreditar em toda essa gente. Mas é injusto não reconhecer que em meio a toda essa gente há uma parcela de gente séria.

Pior do que isso: é burrice imaginar que nada temos a ver com a péssima qualidade dos nossos representantes. Ora, só temos. Não somos nós que os elegemos?

Demóstenes é acusado de ter feito parte da quadrilha do ex-bicheiro Carlinhos Cachoeira que explorava jogos ilegais no Centro-Oeste. Na história recente do Senado ninguém como ele fez do combate à corrupção a razão de ser do mandato.

Até outro dia, era um homem acima de qualquer suspeita, dono de uma biografia imaculada.

Quem acompanha as operações da Polícia Federal dá testemunho: nada mais comum do que a reunião de muitos indícios de crimes cometidos por muitas pessoas.

O que espanta no caso da operação batizada pela polícia de Monte Carlo é a quantidade brutal de indícios reunida contra uma só pessoa com a projeção política de Demóstenes.

“O pior ainda está por vir”, comentou Demóstenes na semana passada durante conversa com um dos seus companheiros da direção do DEM. Foi no dia em que concordou em deixar o partido.

O colega insistiu para que fosse mais claro. Demóstenes recusou-se. Perdeu a verve. Tornou-se monossilábico. Receia estar sendo gravado.

Logo que o mundo começou a desabar sobre sua cabeça, Demóstenes ouviu um apelo dos que trabalham com ele no Senado: “Senador, diga o que está acontecendo. Diga o que é verdade e o que é mentira em tudo isso que se publica”.

Demóstenes baixou a cabeça e nada disse. Há quem jure ter percebido um brilho diferente nos seus olhos.

- Ele não se defende nem mesmo entre amigos – conta um deles, amigo de mais de 20 anos do senador.

Só há uma pessoa com quem Demóstenes troca idéias livremente: seu advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakai, defensor de nove entre dez políticos de Brasília às voltas com acusações pesadas e quase sempre incontornáveis.

Kakai está convencido de que absolverá Demóstenes no Supremo Tribunal Federal. Quanto ao Senado, onde ele será julgado por quebra de decoro… Ali está tudo pronto para ferrá-lo.

Se depender do PT, uma CPI será instalada na Câmara para investigar deputados e governadores envolvidos com Cachoeira. O governo deu seu o.k.

Amanhã, o Conselho de Ética do Senado elegerá seu presidente. Que em seguida acolherá a representação do PSOL pedindo a abertura de inquérito para a cassação do mandato de Demóstenes por quebra de decoro parlamentar.

O relator do inquérito será escolhido por meio de sorteio. E o trabalho começará de imediato.

As cabeças coroadas de todos os partidos, inclusive as do DEM, se puseram de acordo: o rito de cassação será sumário. O Senado só tem a perder se não decidir rapidinho.

O voto é aberto no Conselho de Ética. Saberemos quem votou a favor ou contra a cassação. No plenário o voto é secreto. Não se teme uma surpresa. A conferir.
por: Ricardo Noblat

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O início do “imbroglio”: o, digamos, “empresário” de jogos Carlinhos Cachoeira, habilitou em Miami 15 aparelhos de rádio, da marca Nextel, e os distribuiu entre pessoas de sua mais estrita confiança.

De acordo com a Polícia Federal, o propósito de Cachoeira era evitar que escutas telefônicas, legais ou ilegais, captassem suas conversas com os comandantes de uma rede de exploração ilegal de máquinas caça-níqueis em Goiás e na periferia de Brasília.

Segundo o blog do Ailton Medeiros, nos relatórios da investigação, o grupo contemplado com os rádios é chamado de “14 + 1”.

Entre os 14, há foragidos e os que foram presos com Carlinhos Cachoeira durante a Operação Monte Carlo, da PF. O “1” é o senador Demóstenes Torres (GO), líder do Democratas no Senado Federal.
José Mesquita – Editor


O ministro Gilmar Mendes, todos lembram, saiu a bradar aos quatro ventos sobre “grampo” na linha telefônica que servia ao seu gabinete no Supremo Tribunal Federal (STF).

Mendes acusou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), chamou o presidente Lula às falas e, com apoio na uma inverdade apresentada pelo ministro Nelson Jobim a respeito de equipamentos para interceptações telefônicas disponíveis, derrubou o correto e íntegro delegado Paulo Lacerda, responsável pela agência de inteligência.

Em outras palavras, Lula cedeu e “fritou” Paulo Lacerda, que foi “exilado” em Lisboa.

A respeito da postura de Lula com relação ao caso Mendes-Lacerda escrevi vários artigos na revista CartaCapital.

Em papel, o ministro Mendes apresentou à imprensa o teor do “grampo”, ou melhor, da conversa entre ele e Demóstenes.

Até agora, não se sabe de onde foi feita a transcrição.

Demóstenes confirmou o teor do diálogo dado como interceptado. Gilmar, idem.

A prova da materialidade, no entanto, nunca apareceu e a Polícia Federal jamais encontrou o tal grampo.

Um caso teratológico de escuta sem áudio.

Para a Polícia Federal não existiu grampo e nenhum indício sobre o denunciado por Mendes. Sobre a fita que serviu à transcrição em papel, silêncio sepulcral.

O jornal Folha de S.Paulo informava que no gabinete do senador Demóstenes trabalha a enteada de Gilmar Mendes.

Fora isso, a Folha apresenta matérias das ligações promíscuas entre Demóstenes e o notório Carlinhos Cachoeira, bicheiro e explorador da jogatina eletrônica e ilegal.

Além de presentes de casamento recebidos de Cachoeira, o senador Demóstenes teria, conforme grampo telefônico feito com autorização judicial, pedido ao seu amigo — que explora ilegalmente a jogatina — para pagar despesas de táxi-aéreo no valor de R$ 3 mil.

Para especialistas, não há impedimento legal (não haveria nepotismo, pois Montesquieu consolidou a separação dos Poderes e a Constituição diz serem independentes e harmônicos) no convite feito pelo senador para colocar, em cargo de confiança, a enteada de Gilmar Mendes que, funcionária de carreira do Ministério Público Federal, põe um bom extra remuneratório na bolsa com a deslocação para um cargo de confiança.

Com a enteada no seu gabinete e na iminência de ser investigado caso haja autorização do STF, espera-se que o ministro Gilmar Mendes, por motivo de foro íntimo, não decida em casos a envolver Demóstenes.

De boa cautela, também, que, sobre impedimentos de foro íntimo, Mendes não se aconselhe com o ministro Dias Toffoli.

O ministro Toffoli nunca enxerga impedimentos, quer na Ilha de Capri, quer no Brasil e, por exemplo, no casos em que a namorada atua como advogada de réu do “mensalão” ou no relativo a inimigo político do irmão prefeito que condena criminalmente.
Viva o Brasil.
Por Wálter Fanganiello Maierovitch

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Completadas duas semanas de intenso bombardeio contra o castelo de moralidade do senador Demóstenes Torres, do Partido Democratas, os jornais começam, finalmente, a apresentar ao leitor o pivô do escândalo, o empresário Carlos Augusto Ramos, conhecido como “Carlinhos Cachoeira”.

Deveria causar estranheza a prática jornalística segundo a qual os agentes públicos envolvidos em casos de corrupção têm que ser sempre a peça central – quando não a única – no noticiário escandaloso. Na terça-feira (3/4), por exemplo, o Globo abre manchete para chamar Demóstenes Torres de “senador do bicho”.

Mas seria ele o único representante dos contraventores no Congresso? E ainda é correto chamar de “contraventores” esse indivíduos envolvidos em uma longa lista de delinquências?

E qual seria, afinal, a posição de “Carlinhos Cachoeira” na estrutura do crime organizado que, misturado a negócios legalizados, espalha-se por todo o país, infiltrando-se nas instituições públicas?

O Estado e o crime

A julgar pelo peso que lhe dá o noticiário em torno do senador Torres, pode-se concluir que se trata de um capo de primeira grandeza, uma espécie de “poderoso chefão” capaz de envolver e seduzir um antigo baluarte da moralidade na política.

Mas ao centralizar suas reportagens no bicheiro goiano, a imprensa nacional deixa na sombra outros protagonistas dessa novela policial muito mais importantes para se entender o processo de contaminação da política por parte de organizações de delinquentes. Alguns desses criminosos circulam alegremente pelos salões do poder há décadas, poupados de escândalos pela pouca capacidade ou pouco interesse de investigação da imprensa.

O jogo do bicho deixou de ser uma atividade inocente há quase um quarto de século. No fim dos anos 1980, jornalistas brasileiros investigavam um movimento de contraventores na organização de grandes negócios de jogo, que envolviam a tentativa de legalizar cassinos e abrir as portas para a exploração de máquinas “caça-níqueis”.

Alguns dos parlamentares eleitos com ajuda da máfia da jogatina se tornaram personagens importantes da República. Os arquivos dos jornais e revistas semanais guardam registros de personalidades que apoiaram esse movimento.

Mas a estratégia dos contraventores era ainda mais ambiciosa: alguns deles estavam articulando o sistema de financiamento do tráfico de drogas. O resultado foi a contaminação das instituições públicas pelas “doações” aos caixas ilegais de campanha – que na verdade são operações financeiras pagas com o dinheiro público.

O “empresário” Walter Spinelli de Oliveira, conhecido como Marechal, foi assassinado no autódromo de Interlagos, em São Paulo, em fevereiro de 1989 porque se negava a permitir que o “negócio” do jogo, uma tradição de sua família, fosse envolvido no narcotráfico.

Ele era a última resistência, entre os chamados “barões” do jogo, na transição entre a folclórica figura do “apontador” e a do investidor oculto, aquele que faz girar a máquina do crime e reinveste os lucros em negócios da mais elevada respeitabilidade.

Sorte e política

A julgar pelo noticiário, a associação entre Carlos Cachoeira e Demóstenes Torres é resultado dessa simbiose, mas está longe de representar o núcleo do sistema de poder que coloca o Estado a serviço do crime. A notícia de que até mesmo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) pode ter sido envolvido em irregularidade mostra que não há limites para as ambições desse personagem. Mas é apenas um indício de onde podem chegar essas associações.

Um dos escândalos que moveram a imprensa nos últimos anos indicava o interesse de contraventores em controlar o sistema oficial de loterias. Não há registro de que a imprensa tenha se interessado em investigar a hipótese de que algumas loterias estaduais possam de fato ter sido loteadas entre empresários da jogatina. Afinal, como ensinou o ex-deputado João Alves, essa é a maneira mais fácil de lavar dinheiro.

Aliás, o que fizeram os jornais com o dado estatístico segundo o qual Brasília lidera de longe a lista dos ganhadores das loterias oficiais, não apenas em número de sortudos como no valor dos prêmios?

Deve haver uma explicação matemática razoável para esse fato, como a de que os brasilienses costumam apostar mais e em valores mais altos, mas qualquer notícia sobre envolvimento de bicheiros com políticos deveria aguçar a curiosidade dos jornalistas sobre os setores mais obviamente vulneráveis a tais parcerias.

O que se tem noticiado nos últimos dias é mais do que suficiente para definir o destino da carreira política de Demóstenes Torres. Mas ainda está longe de explicar como um chefete do jogo do bicho consegue ir tão fundo em suas relações com o poder público.
Por Luciano Martins Costa/Observatório da Imprensa

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Fila que anda
Dora Kramer/O Estado de S.Paulo

Evidente está que a influência do contraventor Carlos Augusto Ramos no mundo da política não se circunscreve ao senador Demóstenes Torres nem ao DEM.

O “arco de alianças” inclui governadores e deputados do PSDB, PPS, PT, PTB e PP. Isso ao que se sabe até agora.

Entre os amigos parlamentares, pelo menos um – o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes – já deu a seus pares, motivo para que (no mínimo) se questionem sobre a conveniência de continuarem a privar de sua convivência.

Assim como outros quatro deputados, o petebista não negou seus vínculos com o bicheiro que gosta de receber tratamento de “empresário”.

Mas foi além: pagou para ver se a tolerância do Parlamento na preservação do decoro é ampla ou se a intolerância para com a conduta de Demóstenes guarda certo sabor de desforra por causa do rigor ético aplicado aos colegas.

Em entrevista ao jornal O Globo, Jovair Arantes traça um autorretrato: “Sou o tipo do cara que não fica procurando se a pessoa tem problema na vida dela. Não sei se ele (Cachoeira) ganhou dinheiro em jogo, se era um negócio legal ou ilegal. Não me interessa. Não sei, não me aprofundei nem quero me aprofundar”.

Afirma que procurou o “empresário”, mas que não estava atrás do dinheiro dele e sim de sua influência em Goiás.

“É um cara influente, isso é inegável e está provado por essa operação”, diz, referindo-se à Operação Monte Carlo que acabou com a carreira de um senador e pôs o “cara influente” na cadeia.

Em suma: o líder do PTB não olha com quem anda, não liga que disso decorra uma avaliação negativa sobre quem ele (o deputado) é.

Não quer saber se é correta ou não a conduta de quem lhe empresta prestígio e só falta acrescentar que tem raiva de quem sabe.

Lixa-se, portanto, para a opinião pública e para o decoro exigido de um parlamentar que, aliás, já se torna suspeito só de admitir amizades com quem tem vulgo.

Se o arrazoado do líder não é o bastante para que a Câmara não se faça de surda e abra investigação para saber até onde vão suas ligações com o homem de quem o senador Demóstenes também se dizia mero amigo para revelar-se prestador de serviços, francamente nada mais é motivo.

Fica difícil até confiar na definição do termo decoro.

Segundo Houaiss, significa decência, pundonor, compostura. Pode ser que a Câmara tenha outros sinônimos que, a depender da atitude da Casa, soarão como antônimos.

Névoa seca. O PT e o governo não têm como explicar a operação casada entre a compra de lanchas (23 das 28 ainda em desuso) para o Ministério da Pesca e o pedido de doação para a seção do partido em Santa Catarina feito à empresa vendedora.

À falta de justificativa para ato que o próprio dono da Intech Boating caracteriza como uso privado do Estado “foi um pedido do ministério”, diz José Antônio Galízio Neto – busca-se confundir a cena resumindo-se os fatos a uma questão de acusação ou defesa da ministra Ideli Salvatti, ex-titular da Pesca, cuja campanha para o governo do Estado recebeu aqueles recursos.

O caso não tem a ver com Ideli em particular, mas com as práticas do PT em geral. Pedir dinheiro a fornecedor do ministério não está entre as atribuições normais de um partido, cujo dever seria manter as coisas em seus devidos lugares. Separadas.

De novo, não. Queira o respeito à paciência alheia que os políticos e partidos envolvidos com o contraventor vulgo Cachoeira não comecem a atribuir suas estripulias ilícitas à falta de reforma política, alegando que o “sistema” os obriga a recorrer à busca de recursos paralelos para financiar suas campanhas.

A história sempre se repete. Mas, de tanto ser contada, já não convence. Seja pela indisposição dos partidos e dos políticos em reformar, seja pela culpa que a lei forte não tem diante do fraco de certas excelências.

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