O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não escreve mais à mão. Artigos, estudos, mensagens – tudo ganha vida pelas teclas no computador. “Acho que nem sei mais escrever à mão”, disse durante palestra proferida na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) nesta quarta-feira (24/3). Mas isso não quer dizer que o sociólogo seja um prodígio da tecnologia. Pelo contrário: não raras vezes os bites e bytes lhe pregam peças do arco da velha.

FHC grande

Dias atrás, por exemplo, ele perdeu um texto que escrevia. O documento simplesmente escafedeu-se da tela do computador. “Pedi ajuda ao seu marido”, disse, da mesa de onde palestrava, para Monica Serra, esposa do governador de São Paulo, José Serra.

“Ele tentou me ajudar e não resolveu nada. Pedi para meu filho, que também não conseguiu resolver. O jeito foi chamar meu neto para dar uma solução”, afirmou, arrancando boas gargalhadas da plateia.

A história começou como piada, mas foi a forma de FHC dizer que – segundo palavras dele – a “grande revolução do momento é a da comunicação”, fenômeno propiciado pela tecnologia da informação. E que esse movimento será liderado pela juventude. “A revolução da tecnologia da comunicação é para gente nova. A pedagogia moderna é isso”.

Google e o Kindle, essa maquininha aí

Ao falar assim, a intenção do ex-presidente é destacar o papel de liderança das novas gerações no mundo contemporâneo, e não diminuir a importância dos mais velhos no processo de digitalização.

Para ele, pensar o País daqui para frente significa estar inserido na lógica da inovação científica, o que repercute em todos os setores da economia. “Só temos a Embraer competindo no exterior porque temos o ITA”, disse, referindo-se ao Instituto Tecnológico da Aeronáutica.

“Agora temos essa maquininha aí que permite ler livros”, afirmou, numa referência aos leitores digitais como Kindle. “Também existe a Wikipédia. Eles escrevem muitas bobagens sobre mim lá, mas é um ponto de partida para a pessoa avançar e descobrir mais sobre um assunto”, brincou. “E também temos o Google, o maior sabido do mundo hoje”.

E o que deve um país fazer diante de um cenário como esse? Ou, para ficar no tema de sua palestra (“Ensino superior como área crítica estratégica”), qual o lugar da universidade diante da revolução digital? “A questão é ser ou não ser um analfabeto na web. O importante não é a tecnologia, mas a pessoa. É a formação dos professores para que lidem com as tecnologias da informação”.

Sobrou até para o Lula

Esse contexto também permite analisar, segundo FHC, a aplicação da tecnologia como instrumento de desenvolvimento. Como exemplo, cita o caso do Chile, que, para ele, fez um bom trabalho de valorização de seus produtos e sua imagem como país. “Os chilenos inventaram um negócio que é vender ostra para a França. Parece coisa simples, mas é complicado. Envolve logística, tecnologia”, afirmou.

Outro exemplo é o vinho, que, de algumas décadas para cá, alcançou status internacional graças a um bom trabalho de marca, pela avaliação de FHC. Foi o que bastou para dar uma alfinetadinha em seu grande rival político.

“O Brasil tem uma grande produção de fruta, à la Lula, ‘a maior do mundo’, mas ninguém conhece. O mundo do futuro é do design, da moda, da tecnologia. É o que chamam de economia criativa”.

Castells e os soviéticos

Ao refletir sobre o desenvolvimento tecnológico, FHC citou até o sociólogo espanhol Manuel Castells, autor de a “Galáxia da Internet”, com quem afirmou “ter sólida amizade”.

Conforme relembrou o ex-presidente, um dos estudos de Castells, feito há algumas décadas, um dos motivos de o império soviético ter ruído se deve ao fato de a URSS ter perdido o bonde da evolução tecnológica, embora o país tivesse, durante bom tempo, despontado como potência científica. O descompasso se deu a partir do momento em que os EUA começaram a viver “a revolução tecnológica, a digitalização, a concepção binária”, disse FHC.

“Só depois o comando soviético percebeu que os americanos olhavam para o pequeno, o micro, enquanto eles continuaram no macro. E a evolução caminhou para a miniaturização, foi do complexo para simples”, analisou.

O resumo da ópera, seguindo o raciocínio de FHC, são as profundas transformações sociais, políticas e econômicas provocadas pela tecnologia. “A revolução tecnológica tem um efeito maior do que a revolução industrial teve em sua época”.

Clayton Melo/IDG Now

Clayton Melo

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Quando pensamos que os políticos brasileiros já esgotaram todas as artimanhas, barganhas, conchavos, adesões, e uma infinidade de adjetivos e sinônimos afins, somos sempre surpreendidos pela capacidade fisiológica de suas (deles) excelências.

Agora, o menino prodígio das alterosas cujo cacife inicial foi o de ser secretário do avô -  outro malabarista das “incensadas” e louvadas mineirices, – pensando sermos todos analfabetos mentais, vem com uma proposta típica dos almocreves.

Tá lá na Folha Online

Aécio Neves defende aliança com o PT em Belo Horizonte.
Por Thiago Guimarães

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), defendeu hoje uma aliança de seu partido com o PT em torno de nome único para disputar a Prefeitura de Belo Horizonte. O prefeito da capital mineira, Fernando Pimentel (PT), que mantém parceria administrativa com Aécio e não pode mais ser reeleito, é o principal defensor da aliança no campo petista.

Como potencial candidato à sucessão do tucano no governo de Minas em 2010, Pimentel poderia retribuir eventual apoio de Aécio patrocinando a candidatura do governador para a Presidência da República – mas enfrenta, contudo, resistências no PT, que administra Belo Horizonte há 16 anos.

“Essa possibilidade de entendimento com o Fernando Pimentel é uma das várias que aparecem. O que tenho dito apenas é que não devemos fechar as portas para ela”, disse Aécio. “Se pudermos amanhã ter um tucano administrando a prefeitura será muito bom, mas a prioridade, na minha avaliação, deve ser uma grande aliança que permita Belo Horizonte continuar avançando.”

Como a oposição histórica entre PT e PSDB deve dificultar a renúncia à cabeça de chapa pelas militâncias petista e tucana, nomes de fora dos partidos começam a ser considerados opções de consenso.

Um deles é o de Márcio Lacerda (PSB), secretário de Desenvolvimento Econômico de Aécio. Lacerda tem afinidades com o PT – foi secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional na gestão Ciro Gomes (2003 a abril de 2006) e militou em dissidência do PCB (Partido Comunista Brasileiro) no regime militar, ficando preso entre 1969 e 1973.

Procurado pela reportagem, Lacerda – que nunca disputou eleição - informou, por meio de sua assessoria, que não iria comentar a hipótese de concorrer à prefeitura.

O deputado estadual Roberto Carvalho (PT), liderança petista no Estado, disse que o nome de Lacerda será discutido. Citou que o PSB é aliado histórico do partido em BH. “Nunca colocamos que o PT, a priori, tem que ter a cabeça da chapa.”

O secretário-geral do PSDB municipal, Reinaldo Costa Neto, disse que o diretório irá seguir a orientação de Aécio. Disse, contudo, que Lacerda ainda é desconhecido no partido e que seu nome teria que ser trabalhado internamente. O deputado estadual João Leite, derrotado duas vezes pelo PT para a prefeitura da capital mineira, é o principal pré-candidato tucano até agora.

Para o governador mineiro, a aliança com o PT pode ser uma passo na direção da união de políticos mineiros em torno de sua eventual candidatura à Presidência em 2010.

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