” A nova terapia trás esperanças a todos que morrem de câncer a cada ano”!
Pérolas do Enem.
Horas breves de meu contentamento *
Diogo Bernardes ¹
Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse tornadas tão asinha
em tão compridos dias de tormento.
Aquelas torres, que fundei ao vento,
o vento as levou, já que as sustinha,
do mal, que me ficou, a culpa é minha,
que sobre coisas vãs fiz fundamento.
Amor com rosto ledo, e vista branca
promete quando dele se deseja,
tudo possível faz, tudo segura:
mas dês que dentro n’alma reina, e manda,
como na minha fez, quer que se veja
quão fugitivo é, quão pouco dura.
¹ Diogo Bernardes
* Ponte da Barca, Minho, Portugal – 1530 d.C
+ Ponte da Barca, Minho, Portugal – 1605 d.C
*Soneto também atribuído a Camões
Quem achava que somente o apedeuta do agreste maltratava a Última flor do Lácio, inculta e bela, se enganou.
Da tribuna do senado, José Sarney, engalanado membro da Academia Brasileira de Letras — onde compartilha saraus literários na companhia de “çabios” da estirpe de Paulo Coelho e Marco Maciel —, soltou essa pérola:
“Não sei a razão de pedirem a minha cassação por causa dos atos secretos. Eles são perfeitos, só são secretos porque não foram publicados”.
Uáu! Não diga, ex-celência!
Como dizia Nelson Rodrigues, eis aí um representante do “óbvio ululante”! O soba do Maranhão passa a integrar a galeria dos rodriguianos “idiotas da objetividade”.
Artigo excelente sobre a conhecida azia do chefe dos Tupiniquins à leitura. Aliás, aos jornalistas que “marretam” o Apedeuta por sua (dele) falta de leitura, fica a pergunta: os jornalistas leem o que Lula escreve?
O presidente Lula não lê. E daí?
Por Alberto Carlos Almeida¹ – Valor Econômico.
Certamente em um aspecto relevante o presidente Lula é um fiel representante do povo brasileiro: ele não lê. Como declarou em entrevista ao jornalista Mário Sérgio Conti, publicada pela revista “Piauí“, não é a falta de tempo que o impede de ler, mas, segundo o próprio mandatário máximo da nação, não é necessário ler para quem, como ele, conversa diariamente com inúmeras pessoas.
Todos somos, em grande medida, produtos do meio em que vivemos. Com Lula não é diferente. Ao ser eleito presidente ele não se transformou da água para o vinho, ao menos pessoalmente. A grande massa dos brasileiros não foi educada para gostar de ler. Orgulhamo-nos de ser uma mistura do branco europeu (português) com o índio e o negro. Nos três casos, culturas fundamentalmente orais.
Se deveríamos ter alguma esperança de menos oralidade, ela adviria da terra de Camões e Fernando Pessoa. Portugal sempre foi em termos de escolarização um dos países mais atrasados da Europa. Portugal e Espanha. Nos dois casos, a herança católica foi fundamental. Quanto mais fervoroso é o catolicismo, menos escolarizado é o rebanho. Até hoje o interior do Nordeste, onde fica a Garanhus de Lula, é a região mais católica do Brasil e a que apresenta os menores índices de escolarização.
Pode-se matizar o efeito da região afirmando que Lula migrou muito cedo para o “Sul Maravilha”. Sem dúvida isso teve impacto na sua formação, mas também o teve o histórico familiar. De uma família cuja herança religiosa e escolar não viria a contribuir para que o futuro presidente do Brasil gostasse de ler.
Nos Estados Unidos em 1810, a população branca totalizava 5.862.004 pessoas. No mesmo ano, havia 359 jornais com uma circulação de 22.321.700. Isso significava que havia 3,81 exemplares de jornais para cada habitante branco. A população e a circulação de jornais continuaram crescendo, a segunda mais rápido que a primeira. Quarenta anos mais tarde, em 1850, a população branca era de pouco mais de 19,5 milhões de habitantes. A circulação de jornais aumentou para 426.409.978, o que dava 21,81 exemplares por pessoa.
A tradição americana é menos oral e mais escrita. A brasileira é mais oral e menos escrita. Barack Obama, o Lula americano, é professor da Universidade de Chicago, a que tem a maior quantidade de prêmios Nobel. Lula veio do sindicalismo. A biblioteca do Congresso americano é a maior do mundo. O Brasil é o país onde o “Big Brother” mais faz sucesso. Novelas não há lá como cá, mas elas existem e fazem muito sucesso em Portugal.
¹Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” (Record).
Amor é um fogo que arde sem se ver
Camões¹
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
¹Luís Vaz de Camões
* 1524 d.C
+ 10 de Junho de 1580 d.C
No vestibular, de uma universidade de São Paulo, foi pedida uma análise deste trecho de poema de Camões:
“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer!”
Análise do poema, feita por uma aluna de 16 anos:
“Ah! Camões,
Se vivesses hoje em dia,
Tomavas uns anti-piréticos…
Uns quantos analgésicos
Xanax ou Prozac para a depressão
Compravas um computador,
Consultavas a internet e descobririas
Que essas dores que sentias,
Esses calores que te abrasavam,
Essas mudanças de humor repentinas,
Esses desatinos sem nexo,
Não eram feridas de amor,
Mas somente falta de sexo!”
Claudio Manuel Da Costa
* Ribeirão do Carmo, (Mariana) MG. – 1789 d.C.
+ Vila Rica (Ouro Preto), MG. – 4 de Julho de 1789 d.C.
Cláudio Manuel da Costa, advogado, magistrado e poeta.
É Patrono da Academia Brasileira de Letras – Cadeira nº8, por escolha do fundador Alberto de Oliveira – Glauceste Saturnino (ou Glauceste Satúrnio), pseudônimo do autor, faz parte da transição do Barroco para o Arcadismo. Seus sonetos herdaram a tradição de Camões.
Era filho de João Gonçalves da Costa, lavrador e minerador, no sítio da Vargem do Itacolomi , e de Teresa Ribeiro de Alvarenga. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; passou depois ao Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas. Em 1749, aos vinte anos de idade, seguiu para Lisboa e daí para Coimbra, em cuja Universidade se formou em Cânones, em 1753. Ali publicou, em opúsculos, pelo menos três poemas, Munúsculo métrico, Labirinto de amor e o Epicédio consagrado à memória de Frei Gaspar da Encarnação.
Clique na imagem para ampliar
Vista de Ouro Preto – Pintura de autoria de Alberto da Veiga Guignard
Entre 1753 e 54 recolheu ao Brasil, dando-se à advocacia em Vila Rica (hoje Ouro Preto), jurista culto e renomado da época, ali exerceu o cargo de procurador da Coroa, desembargador, também exerceu por duas vezes o importante cargo de secretário do Governo. Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu têrmo” em 1758.
Tornou-se conhecido principalmente pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Contudo, foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e mecenas do Aleijadinho. Estudou cânones em Coimbra e há quem acredite que ele tenha traduzido a obra de Adam Smith para o português, mas isso nunca foi muito bem fundamentado.
Vida
Por sua idade, boa lição clássica, fama de douto e crédito de autor publicado, exerceu Cláudio da Costa ali uma espécie de magistério entre os seus confrades em musa, maiores e menores, que todos lhe liam as suas obras e lhe escutavam os conselhos, era uma das figuras principais da Capitania.
Aos sessenta anos foi comprometido na chamada Conjuração Mineira. Preso e, para alguns, apavorado com as conseqüências da tremenda acusação de réu de inconfidência, morreu em circunstâncias obscuras, em Vila Rica, no dia 4 de julho de 1789, quando teria se suicidado na prisão.
Foi secretário de vários governadores, poeta admirado até em Portugal e advogado dos principais negociantes no seu tempo. Acumulou ampla fortuna e sua casa em Vila Rica, era uma das melhores da capital.
A memória de Cláudio Manuel da Costa, porém, não teve a mesma sorte. Até hoje paira sobre ele a suspeita de ter sido um miserável covarde que traiu os amigos e se suicidou na prisão. Outros negam até a própria relevância da sua participação na inconfidência mineira, pintando-o como um simples expectador privilegiado, amigo de Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, freqüentadores assíduos dos saraus que ele promovia.
Cláudio tentou ele próprio, diminuir a relevância da sua participação na conspiração, mas estava apenas tentando reduzir o peso da sua culpa diante dos juízes da devassa. Os clássicos da historiografia da inconfidência mineira são unânimes em valorizar sua participação no movimento. Parece que ele era meio descrente com as chances militares da conspiração. Mas não deixou de influenciar no lado mais intelectualizado do movimento, especialmente no que diz respeito à construção do edifico jurídico projetado para a república que pretendiam implantar em Minas Gerais, no final do século XVIII.
De qualquer modo José Pedro Machado Coelho Torres, juiz nomeado para a Devassa de 1789 em Minas Gerais, dele diz o seguinte: “O Dr. Cláudio Manoel da Costa era o sujeito em casa de quem se tratou de algumas cousas respeitantes à sublevação, uma das quais foi a respeito da bandeira e algumas determinações do modo de se reger a República: o sócio vigário da vila de S. José é quem declara nas perguntas formalmente”
Morte
Assassinato ou suicídio?
O ponto mais crítico da biografia do poeta inconfidente vem a ser a suspeita do seu suicídio. Sua morte está cercada de detalhes estranhos. Há mais de duzentos anos que o assunto suscita debates e há argumentos de peso tanto a favor como contra a tese do suicídio. Os partidários da crença de que Cláudio Manuel da Costa tenha se suicidado se baseiam no fato de que ele estava profundamente deprimido na véspera da sua morte.
Isso está estampado no seu próprio depoimento, registrado na Devassa. Além disso, seu padre confessor teria confirmando seu estado depressivo a um frade que trouxe o registro à luz. Os partidários da tese de que Cláudio tenha sido assassinado, contestam tanto a autenticidade do depoimento apensado aos autos da Devassa, quanto à honestidade do registro do frade.
Quem acredita na tese do assassinato se baseia em um argumento principal: o próprio laudo pericial que concluiu pelo suicídio. Pelo laudo, o indigitado poeta teria se enforcado usando os cadarços do calção, amarrados numa prateleira, contra a qual ele teria apertado o laço, forçando com um braço e um joelho. Muitos acreditam ser impossível alguém conseguir se enforcar em tais circunstâncias.
O historiador Ivo Porto de Menezes relata que ao organizar antigos documentos relativos à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, em 1957 ou 1958, encontrou no livro de assentos dos integrantes da Irmandade de São Miguel e Almas, a anotação da admissão de Cláudio Manuel e à margem a observação de que havia “sufragado com 30 missas” a alma do falecido, e “pago tudo pela fazenda real”. De igual forma procedera a Irmandade de Santo Antônio, que lançou em seu livro: “falecido em julho de 1789. E feitos os sufrágios.” Relembra que havia à época proibição de missas pelos suicidas.
Também Jarbas Sertório de Carvalho, em ensaio publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, defende com boa documentação a tese do assassinato.
Há ainda quem acredite que o próprio governador, Visconde de Barbacena, esteve envolvido na conspiração e Cláudio teria sido eliminado por estar disposto a revelar isso. Mas o fato é que somente a tese do suicídio pôde se lastrear em documentos, ainda que duvidosos quanto a sua honestidade e veracidade, como bem salientam os adeptos da tese de assassinato.
Assim, a própria História continua pendente quanto às verdadeiras circunstâncias da morte de Cláudio Manuel da Costa e isso continua a ser o ponto mais marcante da sua biografia, não obstante estar sua vida plena de passagens notáveis.
Dez dias depois da sua morte, a população de Paris tomava a fortaleza da Bastilha, marcando o início do fim da dinastia dos gloriosos Luíses de França. Começava a tomar corpo então, um projeto político, sonhado pelo próprio Cláudio Manuel da Costa para seu país. Demoraria, no entanto, mais trinta anos para que o Brasil se tornasse liberto de Portugal. Cem anos a mais seriam necessários para a realização da segunda parte do sonho, a implantação do regime republicano no Brasil.
Cláudio Manuel da Costa já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Emiliano Queiroz no filme “Tiradentes” (1999), Fernando Torres no filme “Os Inconfidentes” (1972) e na novela “Dez Vidas” (1969) e Carlos Vereza no filme “Aleijadinho – Paixão, Glória e Suplício” (2003).
Obras
* Epicediu – Coimbra, 1753.
* Labirinto de amor, poema – Coimbra, 1753.
* Númerosos harmônicos – Coimbra, 1753.
* Obras Poéticas – Coimbra, 1768
* Vila Rica, 1773
* Soneto
* Entre o Velho e o Novo Mundo
* Poesias diversas – Revista Brazileira, Rio de Janeiro, 1895 (post.).
* Minusculo métrico, romance heróico – Coimbra 1751.
Esta bigrafia incorpora texto do livro História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo, obra que está em domínio público.




