A página Nós e Você: Já são dois gritando está desbravando um território ainda pouco explorado na imprensa brasileira. A proposta das organizações Globo de abrir canais de participação para o público é uma das raras iniciativas das indústrias brasileiras da comunicação voltadas para a valorização do consumidor de informações, seja o leitor, ouvinte, espectador ou internauta.

É claro que o conglomerado global procura ocupar espaços no ambiente Web e usa eficientemente o marketing crossmídia, ao divulgar a iniciativa pelos seus jornais impressos, rádios, televisões e sites noticiosos na Web. Mas é inegável que o Dois Gritando também contribui para que as pessoas em geral comecem a se acostumar com a nova participação interativa.

O site marca a segunda etapa de campanha “Muito além do papel de um jornal”, por meio da qual as Organizações Globo procuram desvincular-se da percepção pública que a associa ao jornal e à TV Globo para posicionar-se como prestadora de serviços de informação voltados para as necessidades diretas da população.

O Dois Gritando foca nas preocupações da população carioca, oferecendo um cardápio de 35 temas sobre os quais os visitantes do site podem postar comentários com até 900 caracteres. Cada comentário, por sua vez, é avaliado por outros visitantes que podem concordar ou discordar.

No dia 28/9, o cardápio apontava o tema corrupção como o mais acessado, com 891 comentários. Em segundo lugar vinha a violência do crime organizado com 295 referências distribuídas entre itens como arrastões, assaltos, balas perdidas e milícias. A saúde pública foi o terceiro tema a receber mais comentários, com um total de 294, seguindo-se a morosidade da justiça (233) e a educação pública (211).

A relação dos temas que mais despertam a atenção do público não tem nenhuma novidade porque ela está presente em todas as pesquisas de opinião realizadas nos últimos 10 anos. O que chama a atenção é a relevância adquirida pela corrupção e a irritação, que várias vezes se transforma em raiva contida, nos comentários de internautas.

Tentei saber se os comentários do Dois Gritando são submetidos a uma filtragem previa antes de serem publicados mas não consegui a informação desejada até a publicação deste texto. Mas vou continuar pesquisando porque é muito provável que exista alguma forma de monitoramento, porque o público do site parece muito comportado, contrastando com as opiniões, em especial sobre corrupção, expressadas em blogs que não monitoram comentários.

O site incorpora um componente lúdico ao dar a seus visitantes a possibilidade de medir o seu grito de protesto, usando a voz e o microfone do seu computador. Seria ótimo se a gente pudesse ouvir os gritos que foram dados. Uma verdadeira catarse. A página permite a participação do público por meio de mensagens Twitter.

O projeto Dois Gritando funciona em estreita ligação com o Eu Repórter , que é a página de jornalismo cidadão do conglomerado Globo. Com isto a maior corporação midiática do país largar na frente de todos os demais grupos nacionais da indústria da comunicação em matéria de buscar uma reaproximação com os leitores, ouvintes e espectadores.

A iniciativa global ajuda a criar uma maior consciência pública sobre a participação cidadã na produção de informações. Mas vai ser interessante observar até onde ela está disposta a bancar esta proposta, porque estamos nos aproximando de um período eleitoral onde as opiniões dos eleitores tendem a uma polarização.

O conglomerado Globo tem posições políticas e eleitorais bem definidas. Se ele tentar bloquear posicionamentos diferentes, certamente haverá uma forte resistência do público e a reaproximação com o leitor pode ir por água abaixo. É o risco que correm tanto os sites de empresas jornalísticas como os blogs individuais, quando entram em rota de colisão com os seus visitantes.

Carlos Castilho/Observatório da Imprensa

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por Fernando Bevilacqua*
colaborador do Blog

Alguns episódios ocorridos no final deste ano, trouxeram à tona um retrato preocupante, tanto da juventude como dos governantes.
Inicio pelos mais novos.

É quase obrigatório que a juventude se apresente ao mundo acesa, inquieta. Parece, contudo, que estão os moços a confundir inquietude com abandono de valores sociais e humanos elevados, e com sua própria preservação existencial.

As incontinências pelos prazeres e pela liberdade sem limites, ameaçam vidas e carreiras promissoras. Mal percebem esses jovens que, a continuarem se arrebentando nessas disparadas sem freios, podem estar arriscando a credibilidade e a confiança que as sociedades depositam no vigor e na capacidade de transformação que são depositários. E daí, confiar em quem?

Os mais velhos e os velhos, ou já abandonaram as lides ou já demonstraram de como podem corromper e desestabilizar os indivíduos, as famílias, as instituições e o mundo. Nações inteiras não param de se transformar em adubo de terras, que mesmo “fertilizadas” com sangue, continuarão improdutivas. Em breve a fome irá restaurar o canibalismo.
Enquanto avança a barbárie, jovens bem postos nas camadas mais abastadas da sociedade, comportam-se tal qual selvagens.

Moços recém diplomados em Medicina, expandem suas alegrias ao término do curso, invadindo o hospital que fora o berço de sua formação profissional; não para distribuir alento e alívio aos pacientes, mas tormento e pavor. Andaram,simplesmente, na contramão da profissão. Se momentos antes de receberem autorização formal e legal para uso de suas “armas” as utilizam contra os que deles precisarão de auxílio e conforto, o que imaginar quando legalmente autorizados a exercer a profissão? A iniciação desses jovens leva a marca do desrespeito, da impiedade e da insensibilidade para com a dor e o sofrimento do ser humano, tudo que o médico deve abominar.

Não podem,definitivamente, ostentar o galardão de Médico! Ainda mais patético e estarrecedor, foi a demonstração de solidariedade do grupo restante em relação aos “colegas selvagens”, a ponto de a oradora da turma anunciar, indignada e ferida, que não havia motivo para nada festejar na solenidade de colação de grau – retirou-se com ar de “vitoriosa”! Que os deuses a perdoem.

Mas os jovens não pararam, e continuaram a patrocinar desvarios. Em cruzeiro marítimo que reuniu estudantes de Direito de universidade paulista, moça de 24 anos morre “afogada em seus próprios vômitos” após ingestão abusiva de bebidas alcoólicas. A declarações de alguns passageiros da mesma viagem são inimagináveis: malas de passageiros atiradas ao mar, mobiliários da nave danificados (não por acidente, mas pelo “prazer” do dano), vômitos, urina e fezes “presenteados” em locais de uso comum aos passageiros, balbúrdia desenfreada pelos corredores do navio madrugada a dentro, “assalto” a ambientes de lazer impedindo o desfrute dos mesmos por outros passageiros tudo coroado por selvageria sexual em nome da liberdade do gozo e do prazer! A bandeira é: “você tem dois dias para descarregar seu tesão”! Por óbvio marcaram presença as “drogas animadoras”.

No episódio em apreço, não faltaram defensores do desregramento, a culpar a empresa marítima por falta de fiscalização sobre os abusos juvenis. Patético, não?

Deixe-se a mocidade para trás e olhe-se para os menos jovens e os muito mais velhos.
Cidades de Santa Catarina afogadas em água, lama e doações.. Irmãos despejados de suas casas pela Natureza em fúria. Brasileiros, povo alegre, comunicativo, musical e solidário, patrocinam episódio horripilante: cristãos voluntários são pilhados furtando doações! Não tardou a surgir a face da perversidade.

No final do desfile, selam com invulgar maestria e insólita polidez para um chefe de estado, dois episódios memoráveis. O primeiro quando Lula – “O Magnífico” – revela que, da mesma forma que um médico não pode dizer ao paciente – você sifu, um presidente não pode anunciar à nação que a economia está gravemente abalada. Otimista deve ser o tom da mensagem! O segundo quando apela para os participantes de uma reunião de países sul-americanos e do Caribe, para que os repórteres, à semelhança do que aconteceu no Iraque com o presidente Bush, não atirem sapatos nos palestrantes.

O calor do ambiente aonde ocorria a reunião provocaria um chulé insuportável na atmosfera.
Um Ano Novo de 2009 com ocorrências ainda mais excitantes, meu Brasil!
Oremos!
(*) PASSANRE ENGAJADO

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Vou embora
Fernando Bevilacqua – Professor Titular da UERJ

Vou embora pra Pasárgada, mas por motivos diferentes do poeta. Vou embora pra Pasárgada porque aqui não conheço o rei e sequer gosto dele. Vou embora pra Pasárgada porque lá não tem rei.

Vou embora pra Pasárgada porque lá não tem operação Furacão, Ventania, Navalha, Peixeira. Aliás, não tem nem operação de “barriga aberta”. Lá as pessoas têm saúde física e moral! Não existe roubo, propinas, justiça de faz de conta, polícia de espalhafato. As balas em Pasárgada são levadas nos bolsos dos governantes e distribuídas às crianças. Elas são iguais e têm, todas, o mesmo nome – ESPERANÇA. A nenhuma criança negam-se o direito e o prazer de saborear as balas.

Não há balas perdidas, todas têm destino certo e justo. Mesmo o excesso das balas de Pasárgada não é capaz de destruir os dentes e mostrar sorrisos repelentes; as crianças são todas bem cuidadas, são como flores – não apenas crescem, florescem!

Vou embora pra Pasárgada porque lá não existem juízes que cobram preços elevadíssimos para promover injustiças, para ocultar as verdades e fazer os justos esperarem à exaustão. Cada qual é o seu próprio juiz, e cada um se auto-aplica castigos e punições pelos desvios porventura cometidos.

Vou embora pra Pasárgada.

Lá as antigas cadeias foram transformadas em escolas, pois que as prisões de então eram verdadeiras centrais de comando do crime. Centenas de ligações telefônicas mantinham os chefões informados dos acontecimentos externos e as operações criminosas eram rigorosamente administradas. Isto tinha o apoio infalível dos guardas, que na verdade “guardavam” os privilégios e mordomias dos encarcerados – tudo por preço previamente ajustado e quase nunca módico, pois a arrecadação dos dinheiros havia de ser rateada entre muitos da “corporação”.

Vou embora pra Pasárgada. Lá as escolas cuidam de formar e aprimorar as inteligências e preparar verdadeiros cidadãos, responsáveis e civilizados. Nunca se cogitou de implantar uma Resolução nos moldes da 946, que estabelece o “fim da reprovação e a cobrança de freqüência somente a cada três anos”. Em Pasárgada, ao contrário, a escola respeita a criança, embora não estimule o infantilismo; distribui prêmios para os que se destacam nos estudos, porque parte do princípio que o mundo é feito de diferenças, e que é ilusório e até desastroso tentar “formatar” pessoas (no caso alunos) em série: a escola de lá sabe identificar e estimular o crescimento e as potencialidades individuais.

A escola de Pasárgada reprova sim, pois sabe que permitir aos que não atingem os objetivos educacionais propostos ir adiante, além de causar decepção e desestímulo aos que se esforçam, gera e fecunda o pior – a certeza da impunidade! Que horror! Uma escola que estabelece como doutrina a certeza de que as conquistas e os degraus da escalada existencial podem ser alcançados sem esforço, sem mérito, despidos de competência, e mais, sem a exigência da indispensável assiduidade regular.

É por rejeitar radicalmente tais princípios da Resolução 946 que, em Pasárgada, juízes, desembargadores e ministros não deixam livres nem criminosos de bermudas e tênis e muito menos os de paletó de tropical inglês e gravata de seda. Eles julgam, apenas à luz das verdades apuradas, pois foram educados e cresceram à margem dos fermentos da ilicitude, da irresponsabilidade e da impunidade.

Ah, ia esquecendo: professores e funcionários públicos (estes mesmos, pagos com os dinheiros do povo) não faltam aos seus trabalhos vez que, desde a infância, foram responsavelmente obrigados a provar assiduidade aos trabalhos escolares. Faltar às obrigações escolares e ao trabalho, sem aceitáveis justificativas, em Pasárgada, o primeiro reprova e o segundo gera desconto no salário. Quanta injustiça, não!

Acho que reis, presidentes, ministros, governadores, juízes, professores, empresários, todos são treinados para mentir. Quando surpreendidos em suas falcatruas, expressam indignação com tantas calúnias e difamações sobre eles derramadas. Probidade e decoro são então proclamados com a energia dos injustiçados naqueles momentos … e nada acontece. Isto porque não se está em Pasárgada.

Querem saber? Não tenho mais tempo nem gosto de ficar aqui.

Vou embora pra Pasárgada, pois lá nem amigo do rei posso ser. Lá não existe nem presidente, quanto mais rei. Mas antes de ir, digo-lhes que Pasárgada pode passar de ficção para uma realidade que seja, ao menos, a sua realidade; neste caso que tal convidar um vizinho, um amigo, ou mesmo um passante desconhecido para visitar sua Pasárgada?
Quem sabe eles gostem e decidam experimentar,

Viver em Pasárgada.

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A derrota de Paes

Do blog da jornalista Cora Rónai:

Abrindo mão das próprias convicções (se é que um dia as teve), aliando-se ao que há de mais podre no estado, gastando rios de dinheiro, jogando sujo, usando descaradamente a máquina estadual, federal e universal, beneficiando-se até de um feriado mal intencionado, enfim, com tudo isso, Eduardo Paes só conseguiu ganhar de Gabeira por 50 mil míseros votos.

Como vitória política, já é um resultado extremamente questionável; mas do ponto de vista pessoal, é uma derrota acachapante.

Eduardo Paes levou a prefeitura, sim, mas de contrapeso ficou com uma quadrilha de aliados que não deixa nada a dever àquela que ele acusava o presidente Lula de comandar.

Vai ser prefeito, sim, mas vai ter de arranjar boquinhas para o Crivella, para o Lupi, para o Piciani, para a Clarissa Garotinho, para o Roberto Jefferson, para a Carminha Jerominho, para o Babu, para o Dornelles, para a Jandira… estou esquecendo alguém?

Conquistou um cargo, é verdade, mas conquistou também o desprezo mais profundo de metade do eleitorado.

Em compensação, como carioca, perdeu a chance de viver um momento histórico, em que a prefeitura seria, afinal, ocupada por um homem de bem, com idéias novas e um novo jeito de fazer política; perdeu a chance de ver o Rio de Janeiro sair do limbo a que foi condenado nas últimas décadas, e ganhar projeção pela singularidade da sua administração.

Se Gabeira tivesse sido eleito prefeito, o Rio, que hoje não significa nada em termos políticos, voltaria a ter relevância, até pelo inusitado da coisa. Um prefeito eleito na base do voluntariado, do entusiasmo dos eleitores e da vontade coletiva de virar a mesa seria alguém em quem o país seria obrigado a prestar atenção.

Agora, lá vamos nós para quatro anos de subserviente nulidade, quatro anos em que o recado das urnas será interpretado, pela corja que domina esta infeliz cidade, como um retumbante “Liberou geral!”

Nojo, nojo, nojo.

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Para gerar reflexões e resistir contra a ditadura da mídia.

blog do Altamiro Borges

Kassab e a cegueira da classe média

- “É um absurdo investir tanto dinheiro público em teatros luxuosos e em piscinas aquecidas nos CEUs do fundão da periferia. Aqueles nordestinos não têm cultura e vão destruir tudo”. Chilique de uma especialista na área de saúde e estética.

- “Eu fico puto com estes corredores de ônibus. Gastei uma fortuna no meu carro e ele anda mais devagar do que os ônibus. Parece que a prefeita privilegia quem não tem carro”. Desabafo de um ex-gerente de uma multinacional do setor de alimentação.

As duas declarações absurdas, mas verídicas, revelam bem a visão mesquinha da chamada classe média paulistana. Foram dadas, com a maior franqueza, por vizinhos do bairro da Bela Vista, na região central da capital paulista, quando Marta Suplicy ainda era prefeita. Este comportamento tacanho talvez explique porque Gilberto Kassab, representante do que há de mais conservador na política, deu de goleada neste bairro, venceu o primeiro turno e, segundo as pesquisas, deverá se sagrar o vitorioso no pleito neste final de semana, salvando o oligárquico Demo da total falência.

As farsas paulistanas

O mapa de votação do primeiro turno mostra que Kassab venceu com folga nos bairros nobres e de classe média da cidade; Marta Suplicy só ganhou nos extremos da periferia. Já as pesquisas de segundo turno revelam que o demo tem 73% da preferência entre eleitores que ganham acima de 10 salários mínimos. Estes dados corroboram a triste história do maior centro econômico do país, que sempre apostou em farsas conservadoras. É certo que a visão elitista da classe média paulista é antiga e não deveria gerar surpresas. Mesmo assim, ela causa asco e revolta. Numa linguagem sarcástica, o jornalista Nirlando Beirão, editor da coluna Estilo da revista Carta Capital, lembra:

“São Paulo era contra Getúlio Vargas e a favor da oligarquia. Apoiou o populismo de Adhemar de Barros e inventou Jânio Quadros para a política. Vociferou contra Juscelino Kubitschek.

Com as Marchas com Deus pela Família, preparou e apoiou o golpe militar de 1964. Revelou Maluf. Na eleição municipal de 1985, elegeu Jânio contra Fernando Henrique. Na primeira direta para presidente, elegeu clamorosamente Fernando Collor. FHC contra Lula? FHC duas vezes.

Maluf contra Eduardo Suplicy? Maluf. Pitta contra Erundina? Pitta. Serra contra Lula? Serra. Alckmin contra Lula? Geraldinho. Serra contra Marta? Serra. Kassab contra Marta? Kassab…

Quando Erundina venceu em 1988, não havia segundo turno. Em 2000, o eleitor correu para Marta só porque tinha se cansado da impagável dupla Maluf-Pitta. Exceções que confirmam a regra”.

Come mortadela e arrota caviar

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Carlso Chagas – Tribuna da Imprensa

Nem Gabeira, nem Eduardo Paes. Muito menos Kassab e Marta. Quintão e Márcio Lacerda, também. O mesmo para Maria do Rosário e José Fogaça. Inclua-se no rol os demais candidatos a prefeito das capitais onde se realizará o segundo turno e se terá uma coincidência no mínimo singular: nenhum deles prometeu que, eleito, cumprirá o mandato até o fim. Traduzindo: são todos aspirantes às eleições de governador dos respectivos estados, em 2010.

Parece significativa a onda de renovação nascida das eleições municipais. Primeiro porque, salvo exceções, os favoritos quebraram ou estão quebrando a cara. Não ousaram, em suas campanhas, perdendo espaço para aqueles que, mesmo sem ousar, surgem diferentes. Com as exceções de sempre, vale repetir. Funciona, também, o desgaste dos governadores atuais, precisamente por não terem inovado.

A pergunta que se faz é se as eleições gerais marcadas para daqui a dois anos ficarão fora dessa tendência. Pode ser que não. O eleitorado adora surpreender, esmerando-se em dar sustos na ortodoxia, qualquer que ela seja.

Todo esse preâmbulo se faz em função das eleições presidenciais. Muita água passará debaixo da ponte, mas alguém garante que a disputa pelo palácio do Planalto se limitará a Dilma Rousseff, de um lado, e José Serra, de outro? Mesmo incluindo-se na relação Aécio Neves e Ciro Gomes, quem garante que outro nome ainda hoje desconhecido não será capaz de atropelar? De quando em quando a sociedade reage diante daqueles que se imaginavam donos de sua opinião. Poderemos estar nas preliminares desse fenômeno. Principalmente se os candidatos clássicos mantiverem suas propostas rotineiras, já conhecidas.

Um pretendente à presidência da República que defender a pena de morte para crimes hediondos, por exemplo, deixará de sensibilizar os eleitores? Se avançar mais no reino do inusitado, prometendo enquadrar o Legislativo e o Judiciário, não despertará entusiasmo? Caso se comprometa com a obrigatoriedade de permanecerem presos os criminosos do colarinho branco, os especuladores e os malandros com bilhões aplicados fora do território brasileiro, sem direito a habeas-corpus, conquistará quantos milhões de votos?

O que dizer do candidato disposto a enfrentar a ferro e fogo o narcotráfico e o contrabando, tratando bandidos como devem ser tratados? Ou aquele que se dispuser a acabar com a farra dos bancos, anunciando a estatização dos que vivem das benesses dos cofres públicos? Algum com coragem de anunciar que não permitirá mais a humilhação do Brasil por parte de vizinhos ensandecidos?

Nas prateleiras da indignação do cidadão comum existem mil outros produtos prontos para ser oferecidos. É bom prestar atenção, apesar dos excessos que despertará esse tipo de ajuste de contas entre o eleitor e os candidatos.

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Os brasileiros que ainda não perderam a capacidade da indignação, sempre encontram espaço aqui neste blog, que plural e democrático, para se manifestarem. Observadas as normas civilizadas que regem os argumentos elegantes do contraditório, não haverá censura. As opinões externadas, por terceiros, não necessariamente refletem a opinião do editor.

Finalmente enfureci
Por: Waldo Luís Viana – escritor e economista.

Acordei de madrugada, neste outono de terremoto, a pensar sobre o que aconteceu realmente em meu país. Todo mundo já disse tudo. A imprensa golpista, a imprensa esquerdista que não se diz golpista (aliás que caricatura grotesca o esquerdismo a favor!) – e fiquei matutando: o que nos aconteceu?

Os políticos continuam os mesmos, safados, entre uísques, interesses e amantes, procurando os seus cadinhos, como moscas em volta das fezes do poder. Uma Pátria dirigida por pútridos, em sucessão de escândalos que não dá pra registrar, empreiteiros, bicheiros, lobistas, vigaristas, assessores, falsos empreendedores com escritório de fachada, amantes em busca de carteiras gordas e uma gravidez premiada, traficantes pequenos e grandes, a cocaína e a prostituição à solta, a pornografia invadindo os olhos dos nossos filhos pela internet e a corrupção vitoriosa, tão inexcedível em seu poder de persuasão, que os corruptos levam os filhos de carro blindado para a escola e seus netos serão inevitavelmente chacinados por alguém, desesperado, que o gordo, careca, de terno cinza e gravata vermelha, com certeza no passado prejudicou…

O que aconteceu neste país que nossos vizinhos querem tomar nossas riquezas e os índios e ONGs estrangeiras nossos territórios e minerais? Onde generais, sempre ciosos do respeito à hierarquia, acalmam as suas mulheres nos travesseiros noturnos, dizendo que com certeza virá o próximo aumento para a tropa? E olha que mulher de militar é fogo, hein, tem coragem…
O Brasil, como dizia o velho general Golbery é um barril de pólvora. E dizia mais: entre sístoles e diástoles vamos desdobrando nosso vil destino, enquanto as maiorias não cobram o seu quinhão. Esperemos, pois, que a Rocinha desça um dia e tome São Conrado, onde reside o Sr. César Maia e outros que tais. Vai ser uma novela da Rede Globo. Ainda bem que o Projac fica mais longe…

Cá estou eu, diante do computador que ainda me resta, pensando em meu país, sem dormir, como o velho seringueiro de Mário de Andrade. De que adianta pensar que minha filha está longe e se atravessar minha cidade de madrugada possa levar uma bala perdida? E o festival em torno da morte da menina Isabella? A mãe verdadeira já está sendo envolvida por duplas caipiras e talvez se torne artista do próximo Big Brother…

Tudo nessa terra é banalização. Vivemos a morte bem morrida da ética. Eu também tenho os meus pecados, como cruel mortal, mas diante do que vejo, das carnificinas, das bocas de fumo, dos caveirões e fuzis AR-15, sou reles e ingênuo inocente.

Escritor e poeta com tantos livros a publicar, outros no estrangeiro porque minha gente não me deseja ler, porque não apanhei da ditadura (tinha quinze anos quando ela explodiu) e não posso nem requerer indenização…
O que aconteceu, meu Deus, a meu país, em que as mulheres precisam tirar a roupa para subir na vida e encontrar um figurão para escorar o divórcio. Em que as prostitutas são seres dos mais nobres porque fazem distribuição de renda: tiram dos homens mais velhos o dinheiro que revertem para os filhos mais novos, que não pediram para nascer…

E nossos aposentados, roubados a cada dia em seus proventos de vento, não podem recorrer a ninguém, já sem forças. Os que lhes esmagam serão velhos um dia também, mas vivem da esperança de repatriar o dinheiro de paraísos fiscais, onde os brasileiros detêm 150 bilhões de dólares e não receiam qualquer guerra e, no íntimo, fazem previsão meteorológica de que jamais haverá um tsunami no Caribe…

Nossos juros, os mais altos do planeta, para conter o egoísmo da inflação produzido por nossas elites. Nenhuma idéia nova. Só a mesma ortodoxia econômica da Escola de Chicago. Como se o sol nascesse a cada dia por causa do Itaú, do Bradesco e do Banco de Boston. Essas instituições não valem a beleza de um carvalho, nem o pescoço de uma vaca pendido no pasto…

O Brasil da dengue, dos seios siliconados, da febre amarela, do carnaval do abadá e do rouba-cá, das geladeiras novas do bolsa-família para poupar energia, enquanto entregamos Itaipu para o falsificado irmão Paraguai, da solidariedade latino-americana que é sempre contra nós, dos norte-americanos que ainda pensam que comemos bananas e temos cobras pelas ruas passando entre tiros de fuzil, pobre Brasil, em que os poetas não estão nas praças públicas, mas trombadinhas e mulheres grávidas morrem nas portas dos hospitais públicos, aqueles da saúde quase perfeita.

Afinal temos um PAC de placas, discursos e pedras fundamentais, pastores bandidos que devem ao fisco e não podem ser investigados porque têm bancadas parlamentares, um congresso fascista, movido a facções profissionais como queria Mussolini, e uma falsa esquerda, sempre ética antes de chegar ao poder e coberta de dossiês e socialismo de mercado quando encontra com ele. Pobre país em que temos quase 50 ministros, como na extinta União Soviética e 22 mil cargos de confiança, como em qualquer ditadura africana.

Onde isso tudo vai acabar? Em nada. Na minha cama, Para onde irei como sempre, assustado, à espera do efeito do calmante…

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Lucas Mendes, no site da BBC, “debulha” – com o bom humor costumeiro e o conhecimento de quem reside a mais de 30 anos na terra do Tio Sam -, as peripécias e idiossincrasias que caracterizam as eleições acima do Rio Grande.

Vitória sem raça
Lucas Mendes – BBC

Raça. Não toque neste assunto!

Desde novembro de 2006, quando Barack Obama reuniu um pequeno grupo de assessores e amigos para discutir a possibilidade de sua candidatura, a questão racial foi levantada e eliminada da pauta.

Quem conta com minúcias preciosas é a jornalista Ginger Thompson. Durante a reunião, um advogado perguntou: como lidar com a questão racial?

Obama explicou que tinha conquistado o Senado em Illinois com votos de brancos e negros sem nunca levantar a questão racial. Em menos de 5 minutos o assunto estava encerrado.

E abafado ficou até 14 de janeiro, quando Hillary e Obama trocaram acusações no debate em Las Vegas. Cada um acusava o outro de injetar raça na campanha.

Houve só dois outros episódios raciais que mereceram maior destaque. Num deles, Hillary Clinton teria sugerido que o presidente Johnson foi tão importante quanto Martin Luther King na aprovação do Ato dos Diretos Civis de 1964. Diante da gritaria, Hillary disse que as palavras dela foram distorcidas.

Noutro, muito mais conseqüente, o marido Bill Clinton comparou a campanha de Obama com a de Jesse Jackson e disse que a mulher ia perder na Carolina do Sul por causa do voto negro e das instigações da mídia.

Foi um dos motivos que provocou o rompimento com o senador Ted Kennedy, afastou eleitores da mulher e sujou a aura de ex-presidente que Clinton usava com tanta competência, esperteza e até dignidade.

Além de Iowa, Barack Obama ganhou em outros Estados sem negros como Utah, Idaho, Nebraska e, mais importante, na Virgínia ele conseguiu romper a barreira demográfica e ganhou entre os velhos, os brancos, a população de baixa renda, as mulheres e ate latinos, um eleitorado que sempre favoreceu Hillary.

O plano de manter raça fora da parada contraria vários líderes negros, mas até agora funcionou.

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Por Adriana Vandoni
É economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. Articulista de A Gazeta.
Blog: http://argumentoeprosa.blogspot.com
E-mail:
avandoni@uol.com.br


Era dia de nos reunirmos, cheguei atrasadíssima, como de costume. E como de costume eles já estavam todos lá numa empolgada discussão sobre o que é ser grande. É um grupo de amigos, amigos queridos de longa data, nem me lembro quando foi que começamos a nos reunir, só sei que é muito gostoso.


Um grupo que se pode chamar de eclético: tem um poeta, uma engenheira, um psicólogo, tem uma especialista em lingüística (acho essa palavra um horror), tem até um político…imaginem vocês…tem político discutindo a essência da vida através dos poemas. Pode?


Nesse grupo pode! E tem mais, tem um petista que até participou da administração de Lula. Portanto, totalmente eclético.


Tem até eu, que participo das discussões mesmo não sendo assim uma expert em poemas, nem assídua leitora de poesias, mas me divirto com o bate-papo, aprendo bastante, porém, quando a coisa começa a entrar no campo muito sério e chato, invariavelmente, entro pra tumultuar o processo.


Naquele dia quando cheguei, a conversa sobre ser grande já estava encaminhada e pra me sacanearem, de supetão perguntaram:
- Você que está chegando agora, responda: o que faz de uma pessoa um ser grande?


Todos pararam e ficaram esperando minha resposta, provavelmente esperando algo consistente e eu bem que sabia o nível da conversa, claro, mas como de costume entro pra tumultuar, respondi:
- Comer muito. Quem come muito, engorda e se torna um ser grande.


Bem, perdi o começo da discussão, mas provoquei o primeiro intervalo.


Claro que estavam falando da grandeza do ser e a bola da vez era Fernando Pessoa. Adoro Fernando Pessoa não só pela sua obra, mas pela sua vida ou suas vidas. Antes de ser um poeta ou ao mesmo tempo, Pessoa foi um inventor, um criador de pessoas.


Sua criatividade era tão grande que não cabia nele só e para extravasar tinha a necessidade de criar outros seres. Seres imaginários, imaginados por ele para serem poetas. Poetas dele mesmo.


Criou quatro ou mais personagens, cada qual com sua biografia e seu posicionamento diante da vida. Eram seres que de tão distintos, eram reais.


Porque Fernando Pessoa fazia isso? Eis o melhor da discussão daquele dia, e cada um com uma opinião mais doida que outra.


A engenheira Amalhinha, acha que dessa forma ele conseguia ter mais controle sobre sua obra, assim como se estivesse dividindo em arquivos ou pastas. Explicação prática demais de um poeta.


O Manuel, o petista, coitado, começou a dar o seu diagnóstico, mas quando percebeu nossa cara pra ele, saiu com uma que eu adorei: “Oras, quanto mais personagem, mais cueca para esconder dólares”. Tá certo! Começou então aquela gargalhada e palhaçada como se ainda tivéssemos nossos 15 anos.


Para resgatar a seriedade, o poeta mais poeta do grupo, logo, o que teria maior propriedade entre nós, senão o único, disse acreditar que Pessoa era esquizofrênico. Será?, Quanta maldade!, mas antes que eu terminasse de pensar, o psicólogo protestou.


Rejeitou veementemente a idéia de esquizofrenia e com extrema autoridade como se tivesse sido analista do próprio Fernando Pessoa, disse: ele sofria distúrbio sexual não assumido.


Ai meu Jesus Cristinho!, e vem você com suas observações freudianas! Mas será possível, Otavinho, que pra você tudo está relacionado a frustrações sexuais?, comentei. Nisso a Hélia, nossa especialista em lingüística que adora discordar de mim, subiu o tom de voz e me recriminou dizendo que eu estava sendo preconceituosa e que ela, mesmo não sendo psicóloga acha que o problema de Pessoa era sim repressão sexual.


- Mas Helinha você achar isso, tudo bem, você deve falar com propriedade, é especialista em lingüística…uma profissão com um nome assim…eu diria…tão fálico.


E assim se deu o segundo intervalo. Todos morrendo de rir e a Helinha me prometendo uma revanche. Voltamos e só faltava o comentário meu e do Henrique Roberto ou HR, o político da turma.


Eu voltei ao início, lá no significado de ser grande e travei um debate com o Fred, o poeta. Ele comentou que apesar de insistir na esquizofrenia, para ele Fernando Pessoa é a tradução do que é ser grande, completo, inteiro, e declamou uma das odes de Pessoa escrita através de Ricardo Reis, um dos seus personagens:


“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”.


Então é isso, disse eu, para ser um ser grande sem precisar ser gordo, é preciso ser inteiro, convicto e crente. É preciso se entregar de alma ao que se dedica e ceder o melhor ao que se propõe.


Para arrematar e encerrar a discussão, pois já estávamos cansados de pensar e gargalhar, HR, o nosso político sentenciou: Concordo com todos e discordo de cada um de vocês.

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