Será que a o chamado livro eletrônico — em ‘informatiquês’ tablet, e-book, Kindle, iPad — produzirá, no registro e na difusão do conhecimento, o mesmo impacto que o tipo móvel de Gutenberg, lá no século XV, provocou? Nós hoje temos a oportunidade de observarmos a história dessa estória, tanto quantos as pessoas e os historiadores à época de Gutenberg, o fizeram. A tecnologia da digitalização de livros, como era de se esperar, já fez surgir legiões de prós e contras.
Essa nova tecnologia, inclusive pelo alto poder de sedução, abre um inegável potencial para a popularização da leitura entre a chamada geração digital, hoje afastada do hábito da leitura, inclusive pelo alto custo dos livros. Somos agora testemunhas, na história contemporânea, do surgimento de um contraponto a um dos cânones da teoria econômica, que desde Adam Smith entoa o mantra no qual a questão da escassez impõe um limite à capacidade produtiva, determinado o custo dos produtos.
Como fazer agora diante do fato de que na sociedade digital, na qual sai o átomo e entra o bit, existe uma infinita oferta de conhecimento, que quando não inteiramente gratuita é de baixíssimo preço em virtude da escala?
Tanto é assim que para Antonio Luiz Basile, professor de Ciência da Computação da Universidade Mackenzie, [...]“com a exclusão dos gastos com papel e encargos gráficos, a tendência é que o custo da publicação seja mais baixo”.
A par da mera discussão acadêmica, tecnológica, sociológica e/ou pedagógica, convém não perder de vista Schopenhauer:
“Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados. Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo […], sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma.”
(Arthur Schopenhauer,A arte de escrever, Editora L&PM)
Ou seja: independente do meio, o conteúdo continuará fazendo a diferença e definindo a audiência. Às escolas cabe o papel fundamental de utilizar essa tecnologia, para ensinar os alunos a transformar informação em conhecimento
O Editor
A digitalização dos livros
John Thompson (foto), professor de sociologia em Cambridge e autor do livro Books in the digital age, participa amanhã do Fórum Internacional do Livro Digital, em São Paulo. Abaixo, trechos da entrevista, feita por correio eletrônico, sobre o futuro do livro.
Qual é o impacto da digitalização na indústria do livro?
A revolução digital nas editoras é muito mais complicada do que pensa a maioria das pessoas que não pertence a esse mercado. Não se trata somente dos livros eletrônicos, ou da questão de se os livros físicos vão desaparecer. Esse é somente um aspecto de uma transformação mais profunda, que mudou, e está mudando, a natureza do setor de publicação de livros – o que eu chamo de “revolução encoberta”.
Os livros físicos vão desaparecer?Já que você perguntou, darei a melhor resposta que qualquer um pode dar: ninguém sabe. Muitas pessoas especulam sobre isso, mas a verdade é que ninguém sabe.
A revolução digital é uma revolução não somente das editoras, mas dos setores criativos de um modo mais geral, e faz parte da própria natureza das revoluções que ninguém saiba qual será o resultado final.
Dessa forma, qualquer um que afirme com grande confiança que os livros físicos vão desaparecer, ou mesmo que os e-books representarão 10% ou 20% ou até 50% do mercado em cinco ou dez anos, está simplesmente chutando – eles simplesmente não sabem.
O que é possível saber então?
Os únicos fatos que temos é que, num mundo de publicações de interesse geral, as vendas de livros eletrônicos nos Estados Unidos – que é provavelmente o mais desenvolvido para e-books – foram mínimas até 2006, e depois, com o lançamento do leitor da Sony, seguido do Kindle e do iPad, as vendas de livros eletrônicos subiu significativamente no período de 2007 até o começo deste ano. Mesmo assim, as vendas de e-books representam uma fração pequena das vendas totais nos EUA – provavelmente menos de 2%, dependendo de como se façam os cálculos.
Muito provavelmente as vendas de e-books continuarão a subir nos próximos anos, conforme mais e melhores leitores cheguem ao mercado e os preços caiam. Mas ainda é muito cedo para dizer como o padrão de vendas mudará em dois ou três anos, sem falar em cinco anos. O crescimento pode acelerar conforme mais pessoas se tornam acostumadas a ler livros em equipamentos portáteis de vários tipos, ou pode desacelerar – como aconteceu, por exemplo, com os audiolivros. Neste momento, simplesmente não sabemos.
Qual é a sua opinião?
Minha opinião pessoal é que os livros estarão cada vez mais disponíveis, e serão cada vez mais lidos, em formatos eletrônicos, em leitores de e-books e em vários tipos de equipamentos multifuncionais, como o iPad, mas que isso não irá tomar o lugar dos livros físicos. O mercado dos livros vai se tornar mais fragmentado e diferenciado, com pessoas com perfis diferentes escolhendo a forma de ler os diferentes tipos de conteúdo. As editoras precisam estar prontas para isso e para ser flexíveis e adaptar a maneira como seu conteúdo está disponível aos leitores.
Quais poderiam ser os efeitos negativos da digitalização?
As editoras não são os únicos atores nesse campo, e existem outros, como varejistas poderosos e empresas de tecnologia, que podem transformar um modelo de negócios potencialmente atrativo num cenário de pesadelo, em que o conteúdo intelectual é radicalmente desvalorizado – em que ele se torna um tipo de “bucha de canhão” para incentivar a venda de equipamentos. O ambiente online também traz riscos novos importantes no que diz respeito à pirataria e à possibilidade de desrespeito ao direito autoral, como demonstra a batalha legal ainda não resolvida do Google Livros.
A Amazon está vendendo mais livros eletrônicos que de capa dura. O que isso representa?
Não quer dizer muita coisa: a Amazon é somente um varejista (apesar de ser muito importante) e não sabemos sobre o valor dos exemplares que estão sendo vendidos. Poderia ser, por exemplo, que uma grande proporção desses e-books esteja sendo vendida por valores bastante baixos. Na verdade, a venda de livros de capa dura para adultos vai muito bem: números recentes da Association of American Publishers mostram que as vendas nos primeiros cinco meses subiram 21% sobre o mesmo período do ano passado.
Então, é preciso dar um desconto nos comunicados de imprensa da Amazon: eles investiram muito no Kindle e estão numa guerra por participação no mercado emergente de livros eletrônicos. Não devemos nos surpreender se eles revelarem porções muito bem escolhidas de informação para a imprensa, para dar mais munição ao Kindle.
Por que o seu livro não está disponível em versão eletrônica?
Estamos no começo e a editora ainda negocia com a Amazon e outros distribuidores e varejistas de livros eletrônicos.
blog do Renato Cruz/O Estado de S. Paulo


O Libretto lançado nesta segunda-feira, que também enfrenta forte concorrência da Sony, não deve abalar o mercado de leitores eletrônicos no curto prazo, considerando que a Toshiba ainda precisará firmar acordos com provedores de conteúdo.












