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Temos controle sobre nossa história?

Em “Guerra e Paz“, Tolstói argumenta que os protagonistas dos grandes acontecimentos não sabem exatamente qual será o resultado futuro de suas ações, de modo que são atores involuntários daquilo que conheceremos como história. Falando das preocupações comezinhas de Napoleão e do czar Alexandre, além das reações pessoais dos generais na guerra entre França e Rússia no começo do século 19, Tolstói escreve: “Os seus receios, as suas vaidades, as suas alegrias, os seus descontentamentos, as suas críticas vinham de suporem saber o que faziam e de julgarem agir por si próprios, quando afinal não passavam de instrumentos inconscientes da História, realizando um trabalho oculto para eles, mas inteligível para nós”.

Mas será assim mesmo? Será que o todo do momento histórico é tão maior que suas partes? Será que realmente não temos controle sobre o destino de nossos atos ou palavras no futuro? As perguntas vêm a propósito do livro “Anne Frank: The Book, the Life, the Afterlife“, da escritora americana Francine Prose, sobre o famoso diário da menina judia escondida num compartimento de uma casa na Holanda para escapar da perseguição nazista.

Prose afirma, em entrevista à Folha, que a adolescente Anne Frank teve a oportunidade de melhorar seu estilo literário ao longo dos mais de dois anos em que passou refugiada, e que ela usou essas habilidades para reescrever boa parte do diário que ela começara a compor quando era apenas uma criança. Anne Frank reescreveu o diário com vista à história. Para Prose, a ideia era que todo o drama daquele momento fosse preservado, a partir não apenas do que estava ali relatado, mas por ter consistência literária.

Se funcionou, cabe aos críticos responderem. O que nos interessa aqui é que Anne Frank sabia qual era seu papel na história e sabia que aquilo que estava contando nas páginas de seu diário serviria para iluminar os acontecimentos daquele intervalo bárbaro da vida supostamente civilizada do Ocidente. O mesmo ocorreu com Emanuel Ringelblum, historiador polonês que, no Gueto de Varsóvia, se dedicou a reunir tudo o que pudesse documentar aquele momento, para que, no futuro, ninguém fosse capaz de negá-lo. Guardou o material em latões de leite, escondidos nos porões do gueto, com mensagens dirigidas aos “historiadores do futuro”.

De certa maneira, Anne Frank e Ringelblum negaram a tese de Tolstói (e, antes dele, de Kant) de que há um fio condutor da história, invisível aos homens e às sociedades em meio ao choque de paixões que produz os acontecimentos e o “progresso”. A sofisticada consciência da miséria de sua condição os tornou porta-vozes daqueles de quem a humanidade estava sendo roubada. Seu esforço deu a essas vítimas o túmulo que lhes fora negado. Anne Frank e Ringelblum recusaram-se a aceitar que o silêncio, o esquecimento e a inexistência fossem seu destino inapelável. Sua coragem mostrou que é possível ajudar a escrever a história de modo consciente, mesmo no mais hostil dos ambientes, mesmo diante da improbabilidade da própria vida.

Marcos Guterman

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