As baionetas democráticas
por Hélio Chaves ¹
Servi à “pátria” em 1979, durante o crepúsculo do regime militar. Período em que manifestações despertavam alvoroços no governo de plantão. Naquele ano, centenas de jovens, como eu, pernoitavam nos quartéis com fuzis servindo como travesseiros. Sacos de areia perfurados por baionetas simbolizavam “os inimigos” que deveríamos combater nos verdes campos da Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Na década de 80, fui trabalhar na redação de um jornal onde respirei notícias e fatos políticos. Um deles, a emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, foi sepultada pela falta de 22 votos no Congresso Nacional. O Colégio Eleitoral passou a ser a alternativa para cerrar de vez as portas do autoritarismo. Mário Andreazza e Paulo Maluf digladiavam na convenção do PDS, no Centro de Convenções da capital. Maluf venceu. Na outra arena, Tancredo Neves fazia acordos até com “Judas” para ser o candidato contra o continuísmo do regime militar.
A batalha final sagrou Tancredo. A euforia tornou-se frustração com o anúncio de sua enfermidade. Foram dias e noites de expectativas até sua morte, em 21 de Abril de 1985 – data propícia para o anúncio. A comoção nacional que tomou conta das ruas prenunciava o que estava por vir. José Sarney assume e convoca seus fiscais. Os bois somem dos pastos. Vivemos a hiperinflação e o “badernaço” – ser intelectual foi insuficiente para resolver as mazelas do Brasil.
Após o fracasso do primeiro governo civil – pós ditadura – surge o jovem caçador de marajás Fernando Collor de Mello, que confisca economias populares e deu no que deu. A bola da vez é o vice Itamar Franco, que governa o que resta sobre o fio da navalha. O Plano Real surge como fada madrinha e coroa Fernando Henrique Cardoso como presidente. FHC governa os quatro anos – generosamente ampliados para oito num movimento oportunista que permitiu o continuísmo, hoje, tão combatido e criticado.
Para a sucessão de FHC, surge uma nova modalidade eleitoral, a do “tenho medo artístico” não surte os efeitos esperados. Lula, o operário, sindicalista e “analfabeto” é eleito. Como um mandacaru que resiste a seca, ele também resiste aos terremotos que abalaram os quatro primeiros anos de governo. Reeleito, seguindo as regras estabelecidas, navega, hoje, nas ondas dos recordes de popularidade e índice de aprovação ao seu governo.Mas isto não tem sido suficiente para apagar a mácula da falta de formação acadêmica. Num Congresso Nacional em ruínas, passeiam intelectuais e possuidores de diplomas, que pelo visto não servem sequer, como enfeites de parede. Ao chamar o presidente de “analfabeto”, mesmo com voz melodiosa, Caetano Veloso, o faz de forma pejorativa e preconceituosa. Críticas feitas sob o véu da fama – mas artista pode tudo, né?
Outro fato recente foi o artigo do ex-presidente “doutor”, que num passado próximo pediu “esqueçam tudo que eu escrevi”, mas que volta ao cenário com sua pena em forma de baioneta “democrática intelectual” afiada, na tentativa de sangrar… Defensores da liberdade de expressão e de manifestação, afirmam que tais manifestações devem ser respeitadas. Sendo assim, não se espantem se o “analfabeto”, contra-atacar com o ditado árabe – Os cães ladram e a caravana passa. O que, certamente, seria considerado como mais um impropério presidencial.
¹ Hélio Chaves é analista de suporte da Infoglobo.


Origem e destinos
Do que fala Caetano Veloso – que, aliás, será apontado como preconceituoso por isso – quando diz que Marina Silva não é “analfabeta” como o Lula? Fala sobre o esforço da senadora em se aprimorar e aproveitar as oportunidades dadas pela vida. Fala da recusa da senadora em fazer da adversidade de origem um proveitoso destino.
Fala de uma mulher nascida nos seringais da Amazônia, alfabetizada aos 14 anos de idade e que tem hoje na expressão do idioma de seu país um de seus melhores atributos. Marina não precisa da grosseria para se identificar com seu povo. Ao contrário: oferece-se a ele como prova de que o aperfeiçoamento – de palavras, pensamentos e comportamentos – vale a pena.
Marina não nivela o Brasil por baixo, mostra o valor do esforço e não celebra a indulgência.