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Redes sociais e imprensa

Noticiário das redes sociais aumenta cobrança sobre a imprensa.

Situações de desastre e calamidade mundial desafiam o trabalho do jornalismo. Casos que geram mortes coletivas interrompidas por uma causa externa à ordem natural ou acidental exigem a composição de um cenário que se aproxime ao máximo da realidade visível e/ou possível de se ver.

No atentado à casa de show Bataclan, em Paris, na França, a morte foi uma circunstância proposital que segue o valor-notícia do inesperado ao surpreender pelo impacto e repercussão seguida de morte.

O jornalismo, amplamente criticado pelos seus pares pela superficialidade, posicionamento, direcionamento, omissões e influências, nesta hora mostrou que, mesmo que tenha deformações sutis ou declaradas, é o canal que corporifica o acontecimento aos olhos do público.

A construção da notícia com as tecnologias da informação, que alicerçam a sociedade do conhecimento, permite um acompanhamento in loco nem sempre registrado pelo jornalista, mas por quem estava presente no local no momento do fato.

As tecnologias da informação podem ser consideradas tecnologias de conteúdo à medida que oferecem novas possibilidades de acesso ao atentado, alterando (e até caducando) o formato tradicional do conteúdo, conforme as características do seu meio, capturando imagens e depoimentos diretamente do local.

Esse caminho torna o valor-notícia atualidade “uma roda-viva de F5 1” sempre em busca da possibilidade de renovar o ângulo com fotos e vídeos de celulares, principal recurso mobile utilizado.

O jornalismo, ao disponibilizar essas imagens (sejam oriundas da câmera de um profissional ou do aparelho móvel de um transeunte) com o acréscimo de informações, colabora para a globalização da notícia e do fato em si, reduzindo a distância geográfica do público e despertando comoção e solidariedade, sentimentos amplamente explorados para divulgar um acontecimento como o atentado terrorista em Paris.

Conforme afirma Mattelart, no livro A História da Sociedade da Informação, a política de Estado é um conjunto de ações que não se restringe ao período de vigência de um governo.

“O motivo básico para o uso dessa política por tempo tão prolongado é claro: estabelecendo a censura, governos de diferentes matizes enfrentam menos críticas e dificuldades em sua relação com a sociedade.”

A comunicação e a cidadania

Este sistema dessa política de Estado que empoderava os governos para exercer o controle e a censura sobre a produção do conteúdo de comunicação tem a base estrutural modificada pela introdução das redes sociais. Essas inovações ocasionaram um novo entendimento e a necessidade de uma nova leitura e acondicionamento sobre esses formatos na contemporaneidade.

Com essa perspectiva, vivemos um novo modelo de sociedade da informação com a instauração das redes sociais, uma personificação do novo consumidor-produtor sagaz com habilidade e instrumentos para fazer uso e apropriação de uma situação, criar o seu registro e postar nas suas redes sociais.

Por esse viés, pode-se considerar, como exemplo no Facebook, cada página como uma mídia privada onde o dono é o administrador e gerencia o próprio conteúdo, que pode ser informativo e relevante, trazendo para a luz das discussões teóricas este novo perfil de público que gera uma mensagem ao oferecer a visualização ou contato com um fato pelas imagens colhidos pelo celular em punho, na sua forma bruta, sem passar pela técnica jornalista, pois considero que para fazer jornalismo no sentido do ethos do jornalismo, é um exercício inerente aos jornalistas de formação, que transforma essa mensagem bruta em notícia.

O francês Dominique Wolton (1998), ao afirmar que “la política es inseparable de la comunicación, y por lo demás, la historia de la democracia es la historia de las relaciones entre ambas”, sacramenta o elo entre comunicação e política e, consequentemente, o desenvolvimento do conceito de cidadania e democracia.

A imprensa surge com os princípios do Iluminismo na França, onde a imprensa burguesa participa da derrocada dos poderes absolutistas, constituindo-se um dos meios de expressão massivo, associado à liberdade de opinião e ao direito dos cidadãos a exercerem.

O evento destrutivo em Paris emerge desse conceito na medida em que o conflito tem como base questões religiosas, políticas, sociológicas e sociais e mostra o quanto a liberdade física é cerceada e a liberdade religiosa não é permitida.

A imprensa coloca em voga a fragilidade das garantias de cidadão, ao invés de se focar num resgate histórico e contextual e partir para um entendimento capaz de instrumentalizar os cidadãos para compreender a dimensão desse fato, que não se reduz à “vilanização” de um grupo, para que as pessoas possam agir e cobrar dos governantes através das redes sociais, por exemplo, posições mais eficientes.

Uma abordagem jornalística mais contundente

Viralizar emoção, comoção e pena nas redes sociais, focar na morte de inocentes e no valor-notícia conflito não vai diferenciar a cobertura e nem esse atentado terrorista.

Os registros e depoimentos registrados são a alma para o jornalismo dar um corpo que sustente esse fato focando não apenas no número de mortos, feridos e famílias órfãs, mas na origem desse contexto e no fornecimento de subsídio que capacite o público a entender a situação e exigir de forma mais atuante e assertiva, independente do veículo de comunicação escolhido.

Se comunicação e cidadania estão imbricados como sugere o Wolton, cabe aos profissionais de jornalismo ultrapassar os interesses e o poder de empresas de comunicação. Infelizmente, o que fica claro diante de mais essa tragédia épica, como assinalou Karl Marx, ao fim da Revolução Francesa que demarcou o fim da sociedade feudal, a cidadania nascente naquela época (1789) traduzia a “emancipação da sociedade civil em relação à política”, mas não libertava o homem da religião; dava-lhe a liberdade de religião, não o libertava da propriedade; mas dava-lhe a liberdade de propriedade; nem o libertava do egoísmo da indústria; mas concedia-lhe a liberdade industrial, segundo o livro Marx organizado por Octávio Ianni.

O episódio Bataclan entra para a centelha de desastres propositais lamentáveis e enfatiza que a comunicação, a imprensa e o jornalismo, continuam arraigados ao seu processo histórico de nascimento, associados à política e à cidadania.

Nessa ótica, a política ligada à cidadania segue interferindo na forma de divulgação ficando restrita a aspectos numéricos e superficiais e não aprofundando para um debate temático consistente e esclarecedor.

Por outro lado, percebe-se a ação de cidadania sendo exercida por pessoas que, sem especialização específica, estão utilizando as suas redes sociais para divulgar notícias de outros portais, não dos tradicionais conglomerados de comunicação, e trazem outras vozes para a discussão oferecendo de fato um trabalho de promoção de troca de ideias, fluxo de informações e debates que permitam a construção de um relato mais verossímil.

Retomando uma das vertentes dessa reflexão, nesse sentido, a tecnologia da informação ganha quando usada dessa forma pelo cidadão, mas perde por tornar mais contundente a abordagem jornalística, que não enriquece as imagens e os depoimentos com informações mais consistentes passando o seu lugar de fala para o cidadão.

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Taís Teixeira é jornalista, professora e mestre em Comunicação e Informação

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