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Política, algorítimos e imprensa

Os desafios da reportagem em tempos de algoritmos e antagonismo políticoTecnologia,Internet,Redes sociais

No dia 9 de outubro, o campus Álvaro Alvim da ESPM, em São Paulo, recebeu o 1º Seminário Internacional de Jornalismo ESPM/Columbia Journalism School. Em pauta, a crise dos modelos de negócios tradicionais, com a fuga de audiência e de anunciantes, o jornalismo investigativo, as novas ferramentas que servem para a busca da verdade, a pesquisa e o ensino do jornalismo. Enfim, os desafios da profissão em tempos de fake news, pós-verdade e polarização política globalizada. E o principal convidado do evento foi  Steve Coll, diretor da Columbia Journalism School, da Columbia University.

Em uma conversa franca, Steve Coll falou diretamente de Columbia com a Revista de Jornalismo ESPM. Uma breve (mas significativa) amostra do que ele trouxe para o fórum de discussões: como o jornalismo tem se transformado em termos de métodos e narrativas (com os recursos das grandes reportagens investigativas, como Panama Papers), os desafios para novos jornalistas – passando da cobertura do governo Trump à Lava Jato. Em meio a tanta turbulência, há boas notícias: colaborador da revista New Yorker e vencedor de dois prêmios Pulitzer, Steve continua esperançoso com o futuro do jornalismo.

Como jornalista e diretor da Columbia Journalism School, diga: o que mudou na forma de fazer jornalismo?

Foram duas mudanças significativas: na maneira como a notícia é distribuída e na estrutura da informação. Ambas impuseram um grande desafio ao jornalismo. A primeira tem a ver com o poder que as redes sociais assumiram na distribuição da mídia em vários países. Isso fez com que jornais, revistas, rádios e emissoras de TV perdessem muito do controle na distribuição do seu conteúdo. Os jornais costumavam controlar seu relacionamento com os leitores a ponto de eles saírem para comprar os jornais em bancas! Agora, eles dependem de plataformas como Facebook, Snap ou YouTube para falar com o seu público. Além do impacto econômico, isso mudou a maneira como as companhias desenham o conteúdo de notícias.

E qual foi o impacto da mudança na estrutura da informação?

É mais positivo e, possivelmente, de efeito mais duradouro, pois tem a ver com a estrutura que a informação passou a ter com o advento do Big Data e o uso de
softwares baseados em algoritmos capazes de processar imensos volumes de dados. Isso impactou diretamente o jornalismo investigativo, em projetos como Panama Papers – mudando a forma como o jornalismo é feito, com aumento da colaboração entre as organizações de mídia. Houve investigações que foram feitas por até 60 veículos em conjunto, todos guardando os mesmos segredos e publicando ao mesmo tempo. Isso era algo impensável dez anos atrás. Outro aspecto são os jornalistas colaborando com cientistas da computação e de dados para o bem público. Há diversos casos de reportagens premiadas feitas a partir da análise de uma grande quantidade de dados. Uma das novidades mais fascinantes na profissão nos dias de hoje.

Então o senhor acredita que programação, tecnologia de dados e outras áreas relacionadas deveriam fazer parte do ensino atual nas escolas de jornalismo?

Sim. Porque, na era do Big Data, é difícil para o jornalista levar adiante sua função democrática e constitucional de informar se ele não souber examinar da maneira correta os dados e algoritmos que estão sendo utilizados e seus impactos na sociedade. É preciso literalmente olhar por baixo dos códigos e ver como eles são feitos. Os tribunais americanos estão usando softwares de algoritmo para determinar sentenças baseadas em indicações de como alguns criminosos irão reagir, se podem ou não retornar ao crime. Isso mostra que os processos de engenharia utilizados nos códigos das chamadas “fake news” [notícias falsas] podem influenciar a opinião pública. Há várias questões muito importantes de interesse público que estão sendo desenvolvidas com o suporte de engenheiros e especialistas em dados. Isso muda significativamente as habilidades necessárias para o exercício do jornalismo hoje.

Embora seja um entusiasta do mundo digital, o senhor continua colaborando com uma revista impressa, a New Yorker. Até que ponto a mídia digital impactou as narrativas e a maneira como as notícias são editadas em outros meios?

A minha velha e tradicional revista impressa é muito ativa na plataforma digital e isso certamente mudou a experiência de quem escreve para a revista nos últimos 15 anos. A New Yorker tem feito um grande trabalho de reflexão para balancear o jornalismo literário tradicional e o trabalho investigativo com a velocidade que a internet demanda. Se você olhar de uma maneira mais ampla para a indústria de jornais e revistas, o desafio óbvio é manter a qualidade dentro de uma demanda por mais volume e velocidade de notícias. Cada um desenvolveu uma estratégia para fazer frente a esses novos canais investindo mais do que de fato gostariam em mecanismos de controle de qualidade. Exemplos de erros catastróficos no jornalismo nos mostram que, muitas vezes, eles ocorrem não por questão de recursos, mas de atenção e de priorizar a qualidade.

O que mudou nos cursos da Columbia Journalism School, considerando essas novas necessidades de conhecimento que o jornalista demanda hoje?

Adaptamos e mudamos o nosso currículo: passamos a ensinar mais sobre mídias sociais e distribuição, além de oferecer a oportunidade de o jornalista aprender novas habilidades em ciência de dados e computação aplicadas às redações. Lançamos um curso Master, no qual os alunos passarão o verão todo estudando computação e ciência de dados antes de entrar no programa de jornalismo. Também temos programas de pesquisa e inovação que procuram engajar os estudantes em tecnologias que oferecem novas formas de contar uma história. Outra grande mudança foi que dobramos a nossa carga horária de ensino de jornalismo investigativo, pois acreditamos que, no mundo de hoje, o jornalista precisa saber se destacar e gerar valor indo mais fundo na notícia. Para instigar os alunos nesse sentido, todos os nossos cursos passaram a oferecer conteúdo de reportagem básica, mas também todas as técnicas de reportagem investigativa e de jornalismo de dados.

Os jornalistas mais antigos terão que voltar à escola?

No meu entendimento, teremos cada vez mais equipes colaborativas com perfis que se complementam. Existe muito espaço para os jornalistas investigativos à moda antiga exercerem o seu trabalho de apurar, identificar fontes e lidar com situações de risco. A demanda pelas qualidades dos jornalistas experientes não desapareceu. Mas haverá mais colaboração com jornalistas com capacidade de trabalhar com dados e novas tecnologias.

Significa, então, que os serviços de fact checking, ou checagem de fatos, são uma novidade importante para enfrentar o avanço das fake news?

Fact checking será um tema de debate público a respeito do jornalismo que vai perdurar por algum tempo ainda. As técnicas de fabricação de notícias falsas e de pós-verdade por interesses comerciais ou políticos, como vimos nas eleições de 2016 [nos Estados Unidos] ou no Brexit, só devem piorar, de acordo com a maioria dos profissionais do vale do Silício. Estados e outros atores continuarão a investir em técnicas, como inteligência artificial, para parecer humanos mesmo em mensagens totalmente automatizadas. Um desafio para todo mundo, mas, principalmente, para os jovens repórteres, que terão de checar as próprias informações e editar a si mesmos, sem mentoria ou suporte de jornalistas mais experientes.

Por que isso?

Quando comecei, tive a sorte de trabalhar em uma redação estável, que dava oportunidade aos jornalistas mais jovens para se desenvolver e aprender o ofício, sabendo que muitos desses profissionais ficariam ali por mais 20 ou 30 anos. Então, a empresa tirava proveito da experiência que esse profissional adquiria ao longo do tempo. Hoje, você pode ter experiências excitantes, mas não encontrará esse tipo de estabilidade. Jovens profissionais terão que aprender a se virar sozinhos sem uma rede de proteção.

Bloggers, vloggers e youtubers alcançam audiências enormes, com as quais os jornalistas convencionais jamais sonharam. A nova geração de jornalistas deve se manter dentro dos seus limites ou fazer parte desse fenômeno?

Acho que as duas situações são verdadeiras. A revolução digital derrubou as barreiras de entrada para escritores e editores, fazendo algo incrível pela diversidade e criatividade. Você não precisa mais ser um jornalista ou ter uma licença de rádio ou TV para ser ouvido. Mas, para os jornalistas profissionais, as empresas de mídia foram lentas em notar e adotar essas mudanças. Em paralelo, criou-se uma grande confusão para identificar quem é ou não é jornalista de fato. Muitos países democráticos – e certamente os Estados Unidos – questionam essa legitimidade, porque isso envolve uma série de direitos e privilégios constitucionais que os tribunais de justiça garantiram aos jornalistas, como a preservação de sigilo da fonte ou o direito de divulgar documentos públicos contra a vontade do governo.

Esse reconhecimento do papel do jornalista não se perdeu?

Ele ocorre dentro do pressuposto de que o jornalista profissional irá reportar a notícia de maneira acurada, justa e imparcial contra um determinado ato de corrupção, benefício de um político ou desvio de dinheiro destinado à população. Então, quando você pergunta quem é ou não jornalista, você está questionando que tipo de trabalho essa pessoa está fazendo, qual o caráter e a qualidade daquele trabalho e se a coleta de fatos tem visão dirigida ao interesse público. Por isso eu vejo que o jornalismo profissional ainda cumpre um papel poderoso. Jornais como The Washington Post e The New York Times passam por um verdadeiro renascimento, pela defesa dos valores éticos nessa nova administração [do presidente Donald Trump].

Como mostrar indignação mas preservar o limite jornalístico entre emoção e isenção em episódios como Charlottesville – quando Trump evitou confrontar as ações dos supremacistas brancos?

Bom, você começou a dar a resposta no final da sua pergunta. Mesmo em meio a tanta polarização, o bom jornalista deve seguir com a metodologia correta, relatar os diferentes lados da história, indo além do que está na superfície. Mostrar os personagens, as questões sectárias, os interesses de quem está sendo beneficiado economicamente com aquele conflito. Nesse sentido, a polarização é sempre um tema jornalístico.

No dia 29 de abril do ano passado, o senhor fez um discurso na Columbia University sobre os novos desafios do jornalismo após a eleição de Trump. O que aconteceu desde então?

A situação piorou, porque esse presidente continua tratando os jornalistas como desonestos, inimigos do povo e antipatriotas. O nível de excitação de extremistas contra o jornalismo abre caminho para uma escalada de violência. Eu não me surpreenderia se víssemos algum incidente, um assassinato ou outro tipo de violência contra jornalistas. Inimaginável que o próprio presidente trate um grupo de pessoas e seu papel na sociedade de modo tão irresponsável sem consequências. Eu disse em abril que essa administração estava seguindo o caminho que infelizmente o governo Obama havia iniciado – até reverter posteriormente – de criminalizar o jornalismo em nome da segurança nacional. Isso ocorre quando o jornalista revela fatos de interesse da sociedade e é acusado de crime por expor informações contra o interesse do governo. Depois de abril, o procurador-geral anunciou que o Departamento de Justiça mantém um recorde de investigações criminais sobre jornalistas. Quando foi perguntado sobre a visão da administração anterior de que um jornalista não poderia ser condenado se estivesse cumprindo estritamente a sua função profissional, este procurador-geral não se pronunciou. Será um desafio resistir e enfrentar essa situação, porque mais revelações virão a público.

A liberdade de imprensa está sob ataque no mundo?

Com certeza está sob ataque nos Estados Unidos. À eleição de Trump se seguiu a ascensão de políticos autoritários em diversas sociedades, aumentando o risco à liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, isso fez crescer o tom de ameaça ao jornalismo, mas, por outro lado, fortaleceu a relação da imprensa com a sociedade civil e os leitores dos veículos mais sérios. Estamos em um momento de conflito: é a primeira vez que um governo se opõe diretamente ao trabalho do jornalismo.

Aqui no Brasil a imprensa vive algo parecido, com ataques semelhantes sobre sua cobertura da Lava Jato.

Não acompanho a mídia brasileira com frequência. Mas tenho lido a respeito do escândalo na imprensa americana e internacional. Não me sinto capaz de fazer nenhum julgamento dos meios do seu país, mas sei que há uma série memorável de revelações a respeito da Petrobras e outros casos baseados em fatos, gravações e registros de movimentação financeira. Creio que isso tudo fala por si. Eu gostaria de ouvir de um jornalista brasileiro a avaliação sobre o papel da imprensa nessa cobertura. O que vocês acham?

O trabalho da imprensa tem sido bom, mas, por outro lado, para quem está olhando de fora, deve ser difícil de entender o que realmente está acontecendo no Brasil.  É inacreditável ler que, por exemplo, foram encontrados R$ 51 milhões em um monte de malas num apartamento. É surreal [risos].  

Nos Estados Unidos ocasionalmente surgem escândalos de dinheiro desse tipo, mas as somas são muito menores [risos].

O jornalismo vencerá seus enormes desafios?

Sim. O jornalismo vai sobreviver. Nas sociedades democráticas, estamos no embate para manter garantias constitucionais e não sabemos ao certo se – e como – elas irão prevalecer ao assédio dos populistas. Aqui, nos Estados Unidos, deveremos superar essa questão e a Constituição sairá fortalecida dessa crise. Porque sabemos como os princípios de um bom governo demandam transparência e prestação de contas para a sociedade. Mas o que víamos como leis agora é tratado apenas como normas e o governo não mostrará mais esses registros? Acredito que a administração Trump terá que prestar contas – e haverá um fortalecimento do ponto de vista legal. E isso é do interesse de nossos dois maiores partidos e ambos trabalharão nessa direção.
Por Jorge Tarquini e Ricardo Gandour

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