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O terço do papa e o que realmente importa domingo, 24 de junho de 2018

“Os fatos são o que menos importa nas grandes reportagens”.Arte,Fotografia,Blog do Mesquita,Gilbert Garcin,La condition humaine, 2010

Com esta frase, escrita na medida para causar surpresa e instigar a leitura, Eugênio Bucci abria o texto da orelha do livro A arte da reportagem, uma coletânea organizada por Igor Fuser e publicada pela primeira vez em 1996.

Na sequência, Bucci esclareceria: não estava rejeitando a objetividade e o respeito à verdade factual, mas assinalando que isto não era suficiente para se fazer jornalismo. “A questão, portanto” — prosseguia ele —, “não são os fatos, mas os sentidos que eles possam ter”. E, por isso, “o repórter deve entender o que ele tem a narrar”.

Ressuscitei este breve texto de Bucci porque ele se aplica, a rigor, a toda prática jornalística – não apenas às grandes reportagens —, porque mostra que todo relato, por mais “objetivo” que seja, implica e exige uma interpretação, e porque vem bem a propósito da recente polêmica em torno da atuação das agências de checagem, no episódio do terço abençoado pelo papa que o ex-presidente Lula recebeu na prisão, sem que seu portador, entretanto, tivesse sido autorizado a entregá-lo pessoalmente.

Desde que as primeiras dessas agências surgiram no Brasil, em 2015, na esteira de iniciativas semelhantes nos Estados Unidos e na América Latina, repetem-se comentários entre o espanto e a ironia: afinal, checar os fatos não é a tarefa elementar do jornalismo? Fornecer informação confiável não é o que o justifica como atividade socialmente necessária? Certamente sim, de modo que a existência dessas agências, por si, já indicaria quanto o jornalismo vem deixando de cumprir seu compromisso básico. Poderíamos, entretanto, pensar no papel dessas agências de maneira mais ampla, voltada não para verificar o que a mídia tradicional produz, mas para filtrar o que seria ou não confiável em meio à overdose de informação que passou a circular desde que a internet ofereceu essa possibilidade de comunicar com tamanha intensidade, velocidade e imediatismo.

Foi esse o propósito, aliás, que levou o Facebook a contratar os serviços das agências Lupa e Aos Fatos para fiscalizar o que se divulga nas redes nesse período em que a campanha eleitoral começa a esquentar, num quadro de inédita tensão e imprevisibilidade na política brasileira desde, pelo menos, o fim da ditadura militar. Seria uma forma de demonstrar que a empresa, abalada pelo escândalo da sua relação com a Cambridge Analytica nas campanhas do Brexit e de Trump, no ano passado, está empenhada em evitar a disseminação de notícias falsas como as que costumam proliferar de maneira muito mais intensa em momentos como esse. O trabalho dessas agências seria, portanto, um “selo” de qualidade para quem participa dessa mídia social. Um “selo” que as empresas jornalísticas tradicionais já carregariam automaticamente, como se, de fato, cumprissem seus princípios editoriais.

É notório, aliás, o esforço que essas empresas vêm fazendo para demarcar-se como referência de credibilidade em relação ao que circula na internet. O mais recente projeto editorial da Folha de S.Paulo, lançado em março do ano passado, é bem claro a esse respeito já no título: “Jornalismo profissional é antídoto para notícia falsa e intolerância”. Adiante, define o ambiente das redes como “um condomínio fechado das convicções autorreferentes”, produzido pelos algoritmos que “garantem índices elevados de audiência para as multinacionais do oligopólio” e “alimentam o sectarismo e a propagação de inverdades”. A contrapartida ao condomínio seria a praça pública representada pelo próprio jornal, “em que se contrapõem os pontos de vista mais variados e onde o diálogo em torno das diferenças é permanente”.

Como se vê, uma das características de quem redige esses projetos editoriais é o senso de humor.

(No caso específico da Folha, recordemos apenas dois episódios marcantes, entre muitos outros: o da ficha falsa de Dilma Rousseff, reproduzida supostamente dos arquivos do Dops, destaque de primeira página em abril de 2009, cuja autenticidade, semanas depois, o jornal afirmou que não poderia ser assegurada nem, tampouco, descartada, e a fraude aos resultados de uma pesquisa de seu próprio instituto, o Datafolha, para sustentar que Temer “é melhor para o país” – manchete de julho de 2016 –, quando a maioria dos entrevistados pedia a antecipação das eleições).

Questões de método e ideologia

No que diz respeito ao trabalho das agências de checagem, o que está em causa são justamente os pressupostos e métodos.

Já em 8 de abril, o cientista político Luis Felipe Miguel, da UnB, demonstrava as distorções resultantes do tipo de “checagem” feito pela Lupa, que, em texto publicado na Folha de S.Paulonaquela data, apontava “três dados falsos e três verdadeiros ditos por Lula” em seu comício no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, horas antes de ir para a cadeia. Por exemplo, entre as “verdades”, a agência “transforma a afirmação de Lula – ‘fui o presidente que mais fez universidades’ – e conclui que ele ganha no olho mecânico, pois ‘durante a gestão de Lula, foram criadas 28 universidades’ e ‘no governo Fernando Henrique Cardoso foram 27’”, esquecendo que o petista criou 23 universidades públicas, enquanto, com FHC, “foram quase todas privadas (só seis federais, cinco delas como conversão de instituições já existentes). Sem falar na expansão de vagas, contratação de docentes, multiplicação de campi. Ou nos institutos federais. Ou na democratização do acesso”. Em suma, diz o professor, “o que o fact checking faz é manipular a realidade para diminuir o contraste, brutal, entre o governo Lula e o governo FHC no que se refere ao ensino superior”.

É apenas um exemplo do tipo de contextualização que a agência faz, a partir da apuração da veracidade ou falsidade de “frases” a serem investigadas, e que dão início à investigação, como consta na explicação de sua metodologia.

Pior ainda, comenta Luis Felipe, “é o que fica de fora. A Agência Lupa não tem nada a dizer sobre os elementos centrais do discurso de Lula – o golpe de 2016, a perseguição judicial contra ele, a falsidade das acusações, a parcialidade do Judiciário. É como se tudo isso não fosse uma questão de verdade, mas apenas bate-boca da disputa política. Com isso, o fact checking cumpre seu papel ideológico de legitimação da narrativa dominante”.

Daí a sua conclusão, que corrobora o que diz “há tempos” o professor da UFF Afonso de Albuquerque: a de que “o fact checking” – feito dessa forma, acrescento eu, e a ressalva me parece fundamental – “é a maior fake news”. Porque engana no essencial, com seu “poderoso reforço à ideia de que a ‘realidade’ é uma coleção de fatos ‘objetivos’, independentes da narrativa que os organiza, e portanto que o jornalismo ‘imparcial’ apresenta a seus leitores nada menos que a verdade”.

Na mesma linha de raciocínio, o jornalista Hugo Souza contestou, em 23 de maio, a agência Aos Fatos, que resolveu checar as “propostas” de Michel Temer no segundo aniversário do seu governo – ou seria o golpe? não, a própria agência há havia cravado o selo de “exagerado” nessa definição do impeachment. “Como se as propostas do documento ‘Ponte Para o Futuro’ fossem, assim, luminosas promessas de campanha, e não o exato oposto disso”, argumenta Hugo: “essas ‘reformas e ajustes’ ora são feitos por um governo sem respaldo democrático para fazê-los, precisamente porque foram quatro vezes consecutivas reprovadas nas urnas”.

O caso do terço e a “disputa de narrativas”

No dia 11 de junho, começou a circular nas redes do PT ou identificadas genericamente à esquerda, e também em vários sites jornalísticos, a notícia de que o papa havia enviado um terço a Lula, e que seu emissário, o advogado Juan Grabois, tinha sido impedido de entregá-lo pessoalmente. Tanto a Lupa quanto a Aos Fatos foram “checar” a informação e rapidamente lhe pregaram o selo de “FALSO”, baseando-se numa primeira nota do site VaticanNews, que depois, entretanto, seria retificada. As duas agências atualizaram a informação, mas Aos Fatos e, num primeiro momento, também a Lupa mantiveram o selo. No dia 13, depois que Grabois publicou uma carta no Facebook (ver o original aqui e aqui) dando a sua versão do ocorrido, a Lupa mudaria o selo para “DE OLHO” e acrescentaria um texto explicativo com uma placa de “ATENÇÃO”.
Por Sylvia Debossan Moretzsohn
Texto publicado originalmente pelo objETHOS.

José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, Usa. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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